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Transcrição
00:00Serpentes nos rios que trançam o coração do Brasil
00:04Levando a água da vida, do fundo da terra, ao coração do Brasil
00:11Gente que entende e fala a língua das bandas dos bichos
00:16Gente que sabe o caminho das águas das terras do céu
00:23Velho mistério guardado no seio das ruas sem fim
00:28Tesouro perfeito de nós, distante do bem e do mal
00:35Verde o pão
01:11Dona Irma, eu estou à disposição para quando a senhora quiser ir
01:15A senhora mais o Juventino
01:18Obrigada, Tadeu
01:19Se a senhora quiser ainda hoje, dá para posar lá em Campo Grande para pegar o avião amanhã cedo
01:24Por causa que o dia de hoje não dá mais tempo de alcançar
01:28A gente está discutindo isso, depois a gente conversa, Tadeu
01:32Licença
01:40Você pode dormir aqui e amanhã cedo a gente vai
01:44Não, tenho que ir para a casa da Ju
01:50Você gosta muito dela, não é?
01:53Gosto demais, Tia
01:56Se não fosse por ela, eu não estaria mais aqui, não
01:59E ela não quer ir embora com você?
02:02Não
02:04Ela é muito apegada àquela tapera
02:07Naquele chão onde estão enterrados os pais dela
02:11Mas leva uma vida tão miserável ali, Juve
02:15Eu não entendo como você suporta
02:17Eu também não entendo, Tia
02:23Mas quando eu olho para ela
02:26Não sei explicar, não
02:29Amor
02:31O que mais podia ser?
02:33O que mais podia ser?
02:34O que mais?
02:35Um amor que eu nunca pensei que pudesse existir
02:40No entanto, ela é tão chucrinha
02:42Ela está aprendendo a ler, você me disse
02:45
02:48É muito mais depressa do que eu pensava
02:50Ela é inteligente, viu, Tia?
02:52E tem uma outra coisa maior, uma coisa grande
02:56Não sei explicar não, viu?
03:00Seu pai não se conforma
03:01E você está vivendo lá com ela
03:04Ele acha que poderiam estar aqui
03:06Vamos deixar meu pai por fora das conversas?
03:18Eu vou embora
03:19Amanhã cedo eu estou aqui, tá?
03:23
03:29Tia, eu não acredito ainda
03:34Mas aconteceu
03:38E a gente vai ter que
03:41Enfrentar essa realidade, Juve
03:47Tchau, Tia
03:50Tchau, meu amor
03:52Fica com Deus, né?
03:54De manhã
03:57Tchau, Tia
04:25Tchau, Tchau
04:27Tchau, Tchau
04:35Tchau, Tchau
04:40E aí
05:21E aí
05:22Tu se preocupa, eu estou bem
05:29Tá não, querida
05:31Tá bem, não
05:35Você está sofrendo muito, estou vendo
05:40Eu estou
05:43Tentando encontrar forças
05:45Para enfrentar tudo isso
05:50Oi, se você quiser
05:52Eu vou com você
05:54Porque o Janinho vai dar notícia para a dona Mariana
05:56Se for sua vontade
05:58Não, eu lhe agradeço muito
06:00Mas
06:01Tu ia ser bom
06:05Jove, vai comigo
06:11Vai ser tão difícil contar para a minha mãe a luz
06:19Vai ser tão difícil
06:24E aí
06:25A chora é bom chorar uma hora dessa de vida.
06:31Eu sempre gostei tanto de ser.
06:35A pena de eu ser assim nesse estado.
06:55Eu sempre gostei.
07:26O que aconteceu, Juventino?
07:30Eu vou ter que ir para minha casa.
07:33Lá no Rio de Janeiro.
07:37Aconteceu uma coisa horrível.
07:43Uma coisa horrível.
07:48Fala.
07:55Fala, Juventino.
07:56O que aconteceu para eu sentar assim?
08:01A minha mãe.
08:03O que é que tem em ela?
08:07Ela estava vindo para cá.
08:10Minha mãe estava vindo para cá.
08:15Minha senhora estava vindo atrás de mim.
08:20Ela me chegou.
08:30O avião que ela estava
08:33foi encontrado no fundo de um rio longe daqui.
08:43Ele perdeu a direção no meio de uma tempestade.
08:47E acabou caindo.
08:54Eu me enojou.
08:59Eu me enojou.
09:00Eu me enojou.
09:03Eu me enojou.
09:13Eu me enojou.
09:18Eu me enojou.
09:39O que é que você está fazendo?
09:41Eu reformo a blusa ali.
09:45E a Ruta?
09:46Vai dormir.
09:49E você, você não vem?
09:52Agora eu não vou.
09:55Eu, eu estava esperando.
09:59É?
10:01É.
10:03Sorte esses cabelos e vem deitar comigo.
10:07Estou com vontade de sortar cabelo, não.
10:11Não faz mais.
10:13Vem de cabelo preso mesmo.
10:16Também não estou com vontade, nem de cabelo preso, nem de cabelo sujo.
10:23Deixa de conversa, Bruaca.
10:26Eu estou te querendo.
10:28Mas eu não estou te querendo.
10:32Você está brincando.
10:34Eu sou seu marido.
10:36Mas eu não sou sua mulher.
10:39Eu sou sua Bruaca.
10:41E Bruaca não tem obrigação nenhuma, Tenor.
10:44Você para com isso, Bruaca.
10:46Eu não quero perder a paciência com você.
10:48Se perder, vai ser sua pior viagem.
10:50Olha que eu te pego a força, hein?
10:51Você tente.
10:54Não, não.
10:56Eu não quero escândalo.
10:57Eu não quero acordar a gota.
11:01Então você vai deitar.
11:03E me deixa em paz.
11:05Tá certo.
11:07Mas eu vou ficar te esperando acordado.
11:11Tá, Tenor.
11:12Vai.
11:12Vai.
11:13Boa noite.
11:14E durma aqui.
11:16Boa noite.
11:20Cara, cobra criada.
11:22Pode esperar deitar.
11:24Porque um pé vai aconçã.
11:29Vai parar de arranjar um lugar pra vir nessa praga.
12:04Boa noite.
12:39Bom, agora é esperar.
12:43Juma?
12:44Hum?
12:45Fica com a gente até o Juventino voltar.
12:48Não.
12:50Eu vou pra minha casa.
12:53Você podia ir embora comigo, né, Muda?
12:58É, vai com ela, Muda.
13:00Se é o Juventino voltar.
13:03Se é que ele volta.
13:07Ele volta.
13:09Deus te ouça.
13:26Vem, Juma.
13:28Vem.
13:31Senta aqui com nós.
13:33Toma um café com a gente.
13:35Não.
13:36Ô, Muda, vai pegar suas coisas.
13:39Ô, Juma.
13:41Faz favor, vai.
13:43Senta aí.
13:45Toma um café.
13:46Pega um pedaço de bolo.
13:47Deixa de ser bicho do mato, menino.
13:49Senta aí.
13:49Aceita, Juma.
13:50Eu voto já.
13:55Você fica à vontade, viu, Juma?
14:06Isso.
14:08Como que é gostoso, não é?
14:11Hum.
14:15Vou sentar aqui com você, viu?
14:25Que desgraceira que aconteceu, né?
14:27Você viu?
14:31Mas a vida é assim mesmo, né?
14:34Pra morrer basta estar vivo, não é mesmo?
14:40Agora eu tô botando reparo no você, Juma.
14:45Você é moça muito bonita.
14:50Ah.
14:51Agora eu já sei por que o Juventino tá tão enfeitiçado pelo você.
14:57Será que ele vota?
14:59Ah.
15:01O pai dele acha que não, né?
15:03Mas eu não digo nada, viu?
15:06Não sei do jeito que vocês dois estão vivendo juntos lá na tapera.
15:11Ele me jurou que votava.
15:14Ah, isso é bom.
15:15Então vamos acreditar, não é mesmo?
15:18Agora come teu bolinho, come.
15:20Quer café?
15:26Desde pequeno eu estou por aqui
15:31Na mesma vida que sempre aprendi
15:36Bicho de rio e de mato
15:40Peste criado em lagoa
15:46Voa tristeza, voa vento, voa tempo
15:56Voa
15:57O cavaleiro na estrada sem fim
16:02O contador de uma história de mim
16:07O contador de uma história de mim
16:08Vivo do que faz meu braço
16:11Meu braço faz o que a terra manda
16:18Voa tristeza, voa vento, voa tempo
16:28Mas qual de nós não carrega no peito
16:33Um segredo de amor escondido
16:38Siga quem nunca levanta de noite
16:44Querendo de volta o perdido
16:48Oh, oh, oh, oh
16:54Quem sabe de a perder
16:57Oh, oh, oh
17:02Oh, oh, oh
17:05Quem sabe de a perder
17:26Oh, oh
17:49Você se acostumou com eles, Mônica?
17:53Acostumei.
17:56É tão estranho ver você falando.
18:00Pois é.
18:03Mas agora a gente pode conversar melhor, não é mesmo?
18:07Podemos.
18:09Bora.
18:25Buda já foi lá pra casa da Juma.
18:28É, eu tô sabendo.
18:31Vou olhar o Levi agora, que ele já já vai lá.
18:33Vai no rato dela.
18:37É dele que ela gosta, Trindade.
18:39Vamos esquecer esse assunto.
18:40Você vai desistir dela agora, sim?
18:45Deixa o cuidado do meu trabalho, deixa.
18:47Tá bom.
18:49Mas tô lhe estranhando, viu, Grandão?
19:02Só café?
19:06O que é que você queria mais?
19:09O de todo dia.
19:10Um pão, manteiga, um queijinho.
19:14Ah, eu não fiz pão não, Tenório.
19:17Não bate manteiga.
19:18E o queijo que tinha acabou ontem.
19:21E por que que não fez mais?
19:23Por que que você não chama a Zuleika pra fazer?
19:26Ou então um dos filhos dela?
19:33Como disse, pai.
19:36Ela já tá sabendo de tudo.
19:43Agora o senhor vai ter que ter muito jeito pra conversar com ela.
19:48Era isso que eu não queria.
19:51E ela soubesse.
19:55Pai, chegou a hora, meu pai.
19:58Chegou a hora do senhor jogar limpo com ela.
20:00Como o senhor nunca jogou antes na sua filha.
20:08Meu coração já sabe que o seu não quer mais me amar.
20:19Não bate mais junto.
20:22Está na distância, não sabe voltar.
20:28Ficou nas planícies, nas alvoradas, no entardecer.
20:38Nas águas profundas, pertinho, nas matas do Pantanal.
20:49Meu coração é um animal que se libertou.
20:59Agora é escravo da liberdade que o canto criou.
21:25É seu primeiro trabalho em comitivo?
21:28É.
21:29Mas você parece que conhece o ofício.
21:34Eu sou filho e neto de peão.
21:36Ah, tá explicado.
21:39Só falta você me dizer que toco berrante.
21:43Daqui?
21:47Essa eu quero ver.
21:48Eu sou filho e neto de peão.
22:20Que conversa é essa, Zé Luca?
22:23Você sempre foi peão na vida, rapaz?
22:27Eu falei, tu viu?
22:28Pratiquei um pouco quando eu era menino.
22:31Com a peonada que andava lá por casa.
22:34Não tinha uma comitiva que não fizesse parada lá.
22:37Enquanto ele se divertia, eu pegava o berrante, ia pro quintal e assoprava.
22:41Aí eu fui pegando o jeito.
22:43E virou o berranteirinho.
22:45É.
22:45O povo se divertia comigo.
22:48Lida com laço?
22:49Aprendi em menino também.
22:51Eu tive um monte de professor.
22:53Ainda que mal lhe pergunte, Zé Lucas.
22:57Fala.
22:57Onde é que você vivia, menino?
23:00E que diacho de casa é essa que vivia cheia de peão?
23:05Era casa de mulher.
23:08Você é cheio das conversas, hein?
23:11Tô lhe falando.
23:13Eu nasci e fui criado lá.
23:14Não me envergonho disso, não.
23:20Céssia.
23:22Tem o cheiro das folhas no chão.
23:27Tem o gosto das terras.
23:39Arsides, me leva de novo pra aquela praia.
23:44O patrão pode achar ruim.
23:45Achar nada.
23:46Tô te mandando.
23:47Me obedece.
23:49Que senhora.
23:51Quero tomar banho de novo naquelas horas.
23:56Vai voltar molhada de novo?
23:57Não.
24:00Dessa vez eu vou tomar banho é pela...
24:08O que você tá fazendo?
24:10Eu não vou lá mais com a senhora de jeito, Mandeira.
24:12Eu não tô te ordenando.
24:14Essa hora eu não cujo que eu não sou besta.
24:16Se você quiser tomar banho é pela...
24:18Vai colar com o patrão.
24:19Comigo não.
24:26Não se esconde das lutas que vêm.
24:31Não tem pouso nem mora ninguém.
24:37Mas espera no fim de algum dia.
24:41Quem sabe parar.
24:46Meu coração é um animal que se libertou.
24:56Agora é escravo da liberdade que o campo criou.
25:11Você parece muito entusiasmado, né, peão?
25:14É.
25:15Mas vamos ver daqui a alguns dias.
25:17Por quê?
25:18São quase 45 dias de jornada até a gente entregar esse gado em Akidawana.
25:25Eu tô pro que der e vier.
25:27É, mas isso não é que nem guiar caminhão, não.
25:29Não tô me importando.
25:31Mais pra frente a gente vai ter que cortar algumas baías e Rio Negro.
25:35Vamos economizar uns bons dias de viagem.
25:38Vamos ter que cortar por dentro de algumas fazendas também.
25:42É bom pra eu aprender o caminho.
25:44É muito bom.
25:46Uma das últimas fazendas que a gente vai pedir licença pra pousar é a do Zé Leôncio.
25:51Já fica na barranca do Rio.
25:53Ele tem muito gado.
25:55E a gente vai ter que ter muito cuidado pra não misturar boiada, né?
25:59Seu Zé Leôncio.
26:01Isso mesmo.
26:02Zé Leôncio.
26:03Ele é um bom sujeito.
26:39Boa você tá aqui de novo comigo, Muda.
26:42Eu não tenho vontade de falar nada.
26:44Só de sentir.
26:46Que deraça.
26:48Mas agora que eu sempre falo, a gente pode conversar, não é mesmo?
26:53Eu sempre pude conversar, Júma.
26:56Eu tava me fingindo, Júma.
27:00O que que você tá me falando, Muda?
27:02É verdade.
27:05Tamo as duas aqui sozinha, eu posso lhe falar.
27:08Eu não era mudanada.
27:10Tava só me fingindo.
27:12Mas...
27:12Mas por que, Muda?
27:15Porque era preciso.
27:18Por que que era preciso?
27:21É uma história cumprida de uma...
27:24Ah, não, Muda.
27:25Agora você vai me contar.
27:27Agora eu quero saber.
27:30Você vai me odiar.
27:32Por que que eu vou odiar você?
27:35Capaz assim, Muda.
27:37Você é uma raça de verdade.
27:38Eu não viro nada.
27:41Você sabe que isso é a história desse povo, Muda.
27:45Fala.
27:48Ai, não.
27:49Não deixe...
27:50Deixe as coisas como tão, tá bom?
27:52É besteira minha.
27:52Eu não devia te ter tocado nesse assunto.
27:55Agora eu quero ouvir tudo.
27:58Eu não posso lhe falar.
27:59Eu lhe juro que eu não posso lhe falar.
28:03Espera aí, Muda.
28:05Não vai embora, não.
28:06Espera aí.
28:09Eu vou voltar pra casa dos seus anãos.
28:11Não vai, não.
28:13Você vai ficar aqui e vai me contar direitinho essa história.
28:17Agora eu quero saber.
28:19Não.
28:20Não.
28:42Eu não quero lhe fazer nada.
28:51Mas você vai me dizer direitinho essa história.
28:55Por que que você tava se fingindo de Muda?
29:00Por quê?
29:09Agora vamos pra casa.
29:11Eu não tenho nada pra lhe contar, Ju.
29:15Tem, sim.
29:19Tem, sim.
29:19E eu quero saber.
29:25A mãe desconfiava de você, Muda.
29:28Desde o primeiro dia que você chegou.
29:33Vai ver que ela tava certa, neném?
29:40E não adianta correr que eu te pego.
30:00Então, eu...
30:01Eu não tive culpa.
30:04Ó, dona Maria, que pediu, que disse que...
30:08Que queria dar um passeio no Rio.
30:09Eu não lhe perguntei nada.
30:11Sobe daqui.
30:12Sim, senhor.
30:15Ah, ele não teve culpa, Tenor.
30:19Ele cumpre as minhas ordens como cumpre as suas.
30:24Vai não ficar bem pra uma mulher como você?
30:26Fica andando por esses rios com pião.
30:28Papai, deixa ele falar, filho.
30:31Deixa eu falar.
30:32Bom, dá licença, mas eu não tenho nada a ver com isso.
30:41Acho bom a gente ficar sozinho, né?
30:46É.
30:48É melhor.
30:54Tô, eu não vim.
30:58Eu...
31:03O que você falou há pouco na cozinha...
31:07É mentira?
31:10Não, não era.
31:16Eu tenho mesmo outra mulher.
31:18Outra família.
31:21O que eu acho?
31:22É difícil lhe confessar isso, mas...
31:24E o nome dela é Zuleika?
31:27É.
31:29O nome dela é Zuleika.
31:34Zuleika Bruaca que nem eu sou Maria Bruaca ou simplesmente Zuleika?
31:38Assim não vai dar pra gente conversar.
31:40Eu tô querendo saber se ela é Bruaca que nem eu.
31:42Para com isso, Maria.
31:44Eu tô perguntando se ela é Bruaca que nem eu.
31:48Se ela lava as tuas cuecas cagadas que nem eu lavo.
31:52Amor de Deus, Maria.
31:54Assim não vai dar pra gente seguir essa conversa.
31:55Eu tô falando sério.
31:57Pelo amor de Deus, esse é um assunto difícil de eu conversar com você.
32:03Não existe nada difícil quando a gente é sincero, Tenório.
32:08É.
32:09Eu sei.
32:12Se eu tivesse sido sincero com você...
32:17Agora...
32:18Seria mais fácil da gente acertar tudo isso, não é mesmo?
32:22É.
32:24Agora eu acho que é muito difícil.
32:30Você sabe o que eu acho pior de tudo isso?
32:34Você quer saber?
32:38Quer.
32:41É quando você chega de São Paulo com as tuas malas sujas.
32:47Cheia de roupa suja.
32:50E eu fico aqui lavando com as mãos.
32:56Lá.
32:59Fico te pondo comida na mesa.
33:03Na beia daquele fogão.
33:06Te servindo.
33:09E fico soltando meus cabelos de querido.
33:16E você...
33:18Você fica virando as costas, dizendo que tá cansado da viagem.
33:25E fica me tratando, não fala nada.
33:28E fica me tratando que nem uma vagabunda.
33:32Pelo amor de Deus.
33:36E você me presta.
33:39Você me presta.
33:42E você tá usando o palavrão.
33:47Tá falando que nem uma...
33:48Eu tô falando aquilo que tava preso aqui dentro.
33:53Preso aqui dentro.
34:03Eu só queria lhe dar uma explicação.
34:07Despretação.
34:10Despretação.
34:12Ah, você quer saber de uma coisa?
34:17Se daqui pra frente...
34:21Você quiser roupa lavada e passada na sua gaveta...
34:27Se você quiser comida servida quente na mesa...
34:34Você contrate uma criada.
34:41Eu tenho outra coisa.
34:44Quando você for pra São Paulo...
34:48Pode ficar pura.
34:50Fica pura.
34:52Porque aqui...
34:53Aqui você não faz farta nenhuma.
35:21Agora você vai me falar.
35:25Quem é o Zé?
35:29De onde que você veio?
35:34Por que que você veio parar aqui...
35:36Na véspera da minha mãe morrer matada?
35:42Fala, muda.
35:45Eu vou na sala.
35:48Do sujeito que matou a tua mãe.
35:52E por que que você veio junto com ele, muda?
35:58Porque ele vai julgar a morte de mim.
36:02Não, Juma.
36:04Calma, deixa eu explicar.
36:05Pelo amor de Deus, deixa eu explicar.
36:07Você matou a minha mãe, mardita.
36:12Mardita!
36:13Não queria mais isso, Juma.
36:15Depois que eu conheci você e a Maria Marroal, eu não queria mais isso.
36:18Não deu tempo de evitar.
36:20Não deu tempo.
36:22Eu mandei ele embora pra que ele não te matasse também.
36:27Pachá.
36:29Então, eu disse pra ele que eu ia fazer isso com as minhas próprias mãos.
36:32Que eu mesmo ia tirar a tua vida.
36:33Mas eu não tive coragem.
36:35Eu podia ter feito, não podia.
36:37A gente ia ter dor, me ajude.
36:39Eu acredito que eu ia beijar.
36:42E nem se fosse uma irmã.
36:44Acredita em mim, pelo amor de Deus.
36:47Eu vou vingar a morte da minha mãe.
36:52Tá bom.
36:54Você pode me matar.
36:57O teu pai também matou meu pai injustamente.
37:00Você pode fazer a mesma coisa comigo.
37:03Por que injustamente?
37:07Porque as terras que ele tava defendendo era a dele.
37:11E ele tava na razão dele.
37:15O teu pai matou o homem errado.
37:18Pensando que eu tô lhe falando.
37:20Pelo amor de Deus.
37:26Meu coração.
37:28Meu coração.
37:29Meu coração.
37:31Já sabe que o seu.
37:33Não quer mais me amar.
37:37Não bate mais junto.
37:41Está na distância.
37:43Não sabe voltar.
37:48Ficou nas planícies.
37:51Ficou nas planícies.
37:52Nas alvoradas.
37:54No entardecer.
37:58Nas águas profundas.
38:02Perdido nas matas do Pantanal.
38:09Meu coração é um animal que se libertou.
38:16Parece que essa coisa tá no sangue, né, Zé Luca?
38:19É.
38:21Você sabe, Túlio.
38:23Eu nunca me senti tão feliz na minha vida.
38:26É diferente ficar na boleia de um caminhão dia depois de dia sem parar.
38:31Em cima de um cavalo, a gente tem mais tempo pra ver o que é bonito, né?
38:36É o que eu digo também.
38:38Não troca esta vida por nada nesse mundo.
38:41Tô nela desde menino.
38:43E não me canso.
38:45Mas você me disse que era filho e neto de peão.
38:48É.
38:49Como era o nome do teu pai?
38:51Nem sei.
38:53Eu nem conheci ele.
38:54Cara.
38:56É verdade.
38:57Eu só sei que o meu avô se chamava Joventino.
39:00E sei disso porque ele era muito afamado no lugar onde eu nasci.
39:05Então, seu pai era filho de Joventino?
39:08Era.
39:09E quantos filhos Joventino tinha?
39:11Como é que eu vou saber, Túlio?
39:13Mas Joventino tem muito nesse mundo, né?
39:16É.
39:19Mas diz que peão que nem o meu avô só tinha um.
39:28Não sei onde você vai arranjar tanto piolho, Zé Lucas.
39:32Tá com a cabeça cheia de lêndia.
39:35Também não sei, vó.
39:36Mas foi lá na escola.
39:38Quarta de cuidado da professora.
39:41E devia vigiar mais as criançada todas.
39:45Ela vigia.
39:47E falou pra mim não voltar lá enquanto eu não ficar com a cabeça limpa.
39:51O senhor vai voltar com a cabeça limpa, sim.
39:54Nem que seja preciso eu tomar um banho de criolina.
39:57Se um dia seu avô voltar aqui, eu quero que ele encontre o neto dele bem limpo, bem sadinho e
40:04bem bonito.
40:05E meu pai, vó?
40:07Seu pai era filho dele, do Joventino.
40:10Era um molecote quando passou por aqui.
40:13E como é que era o nome dele?
40:15Não sei.
40:16Não me lembro.
40:17Nem a sua mãe se lembrava.
40:18Mas a espionada da comitiva dizia que ele era minerinho.
40:24E ele ficava bravo como só ele.
40:27Agora, o que eu sei é que ele era filho do Joventino.
40:31É porque eles nunca mais voltaram por aqui, vó.
40:35Eu não sei.
40:37Talvez porque nem imaginem que você exista, né, Zé Luca?
40:41Por quê?
40:42Bem, a espionada passava por aqui pra se divertir.
40:48Eles nem sabem que coisa bonita eles deixaram pra trás.
40:53Hum.
40:57Meu pai era menininho.
41:00É.
41:00É, mas dizia que tinha um nome.
41:04E meu avô é o Joventino.
41:07Ele era tão criança.
41:09Mas quis provar pro pai dele, com a apionada da comitiva, que já era homem.
41:14Por isso fez você na barriga da sua mãe.
41:18Vó.
41:21Será que ainda posso encontrar o meu pai algum dia?
41:27Se fosse o destino.
41:38E o cheiro das folhas no chão, no chão, na chapada do Pantanal.
41:50E o cheiro das folhas no chão, no chão, na chapada do Pantanal.
42:15Qual era o nome dele, amigo?
42:19Do homem que vendeu as terras do seu pai.
42:22Tenório.
42:24Era Tenório.
42:27Você tem certeza?
42:30Bem.
42:30A mãe odiava esse nome?
42:37Então ele tava certo.
42:41E ele quem?
42:45O Arsides.
42:46O Arsides.
42:47O Arsides.
42:50O Arsides.
42:54O Arsides.
43:03Música
43:14Música
43:49Vai dar uma volta por aí, Alcides.
43:52O quê? De deixar a senhora sozinha?
43:55Eu quero ficar sozinha.
43:58De jeito, maneira.
44:00Pode lhe acontecer alguma coisa.
44:02Não vai acontecer nada, Alcides.
44:04É muito arriscado.
44:06Eu não vou sair daqui, não, senhora.
44:07Será possível?
44:09Eu quero tomar banho nu, Alcides.
44:12Pois, toma.
44:13Eu fecho os olhos.
44:18Então, vira de costas e fica olhando para o mato.
44:24Sim, senhora.
44:27Música
44:28Música
44:54Mãe, fale alguma coisa, por favor.
44:59A senhora está sentindo alguma coisa ou não?
45:06Vou lhe preparar um calma antes.
45:10Não precisa.
45:13Já estou calmo.
45:18Só estou tentando ordenar os pensamentos.
45:24Raciocinar.
45:25Entender.
45:27E dá para entender, vó?
45:30Dá.
45:33Dá, Ju.
45:36Dá para entender, sim.
45:39E aceitar com resignação.
45:47Nada acontece sobre a face da terra que não já nos esteja escrito.
45:53Agora aconteceu com a gente.
46:01A tua mãe deve estar descansando agora.
46:07Certamente está junto do teu avô.
46:13Eu estou certa de que ele acudiu naquele momento.
46:17que a levou pela mão para o outro plano.
46:22Claro, vó.
46:23Ela pode estar certa, Juve.
46:25Eu estou assim.
46:28E é isso que...
46:31É isso que...
46:33Alivia o meu sofrimento.
46:39Eu só sinto que nós não tenhamos o corpo dela para...
46:43Cumprir com todas aquelas obrigações...
46:47As cerimônias.
46:51Mas nem isso me importa.
46:55Na verdade, nem isso me importa.
47:03Vamos fazer de conta que ela fez uma longa viagem...
47:09A nossa Madeleine.
47:13E que algum dia nós vamos nos juntar a ela de novo.
47:21Eu acho que ela agora sossegou.
47:26Deve estar em paz com ela mesma.
47:32Mãe.
47:33Eu não quero o choro.
47:37A vida continua.
47:46Eu pensei que ele ia fazer um escândalo.
47:49Meu Deus.
47:50Você viu de...
47:53De onde ela tirou tanta força, Juve?
48:25Eu...
48:33Eu não quero castra.
48:35Eu não quero.
48:38De onde ela vai fazer uma pelea...
48:43Com licença, Blue?
48:47Amém.
49:25Como é que você se chama, menina?
49:28Zefa.
49:29Zefa.
49:31Zefa, você sabe cozinhar?
49:33Malemá, não sei se pro gosto, senhora.
49:37Ah, mas você aprende.
49:39Eu posso me ensinar muita das coisas.
49:43Sim, senhora.
49:44Eu só faço questão de tudo arrumadinho, tudo muito limpinho, tudo organizadinho, viu, Zefa?
49:52Sim, senhora.
49:53E eu quero que você seja muito prestigiosa.
49:57Sim, senhora.
49:58Aqui, quem dá as ordens sou só eu.
50:01Sim, senhora.
50:04Pode começar a fazer o almoço.
50:07Você só sabe onde estão as coisas, né?
50:10Sim, senhora.
50:12E faz também o que você quiser, porque assim a gente vê como é que, como é que você se
50:18sai.
50:20Sim, senhora.
50:23Outra coisa.
50:25Converse com o patrão é só sim e não.
50:29Sim, senhora.
50:32Tem.
50:33Bem, né?
50:34Pegá a vontade, né?
50:36A cosê é a sua.
50:45Abertura
51:10Não precisa ter medo não
51:13Eu sei
51:17Que é que ia adiantar a gente se matar, não é mesmo?
51:21É
51:24Agora estou nós duas...
51:26Sozinha
51:29Não adiantava nada lhe fazer mal
51:32Você não teve culpa
51:35Nem você teve culpa
51:40Eu só não entendi direito aquela história que você me contou, amor
51:46Das terras, das escrituras, eu nunca ouvi falar nisso
51:53Eu só sei de uma coisa, amor
51:56Que a mãe falava que o pai tinha sido enganado
52:01E que matou um homem lá no Paraná por causa disso
52:06E também foi por causa disso que eles vieram se esconder aqui
52:11Pois é
52:15Só que deixaram o rastro, né?
52:19É
52:21Agora estão as duas sozinhas
52:28Só que agora
52:31As duas sabem quem é o maldito
52:36Será o mesmo tenório de Sarandí, Jumbo?
52:41O Arsiz diz que é
52:45E se for
52:51Eu vou matar
52:57Eu lamento muito o acontecido e lhe juro que eu não estava sabendo de nada
53:01É, faz dias que o amigo não aparece por aqui
53:04É
53:06Eu estava envolvido com uns probleminha lá em casa
53:11Meu filho foi pro Rio com a tia dele pra dar notícia pra avó
53:15Um choque, né? Perder uma mãe assim
53:18É, eu posso imaginar
53:21E a minha preocupação agora é saber se ele volta
53:25Por que que não haveria de voltar?
53:28Ah, eu não sei, Tenor, mas eu, sabe, tenho sempre um pé meio atrás com esse meu filho
53:33Bobagem, Zé Leôncio
53:35Pelo que eu estou sabendo, ele está enrabichado aí com uma tarde juma
53:40Pois é, pois é
53:42E muito ignorante aí, pensando naquelas barbaridades dele, né?
53:48Eu nunca falei nada disso longe de mim
53:51E o menino agora conseguiu domar a potra mais cervaz dessas paragens
53:56Ele está montando que nem gente grande
53:59Não me admiraria, né? Se de repente ele aparecesse assim com um marro ar no laço
54:05E o amigo vai deixar ele continuar amigado com essa tarde juma?
54:11Uma bicho do mato daquela
54:13Ué, e por que não?
54:16O que é de gosto, é gala-vida?
54:19Ela já tomou parte das suas terras
54:23Agora lhe toma o filho
54:35A água estava fria
54:37É, o inverno vai chegando e as águas vão ficando fria
54:46Eu sei o que eu ainda estou fazendo aqui
54:49Vamos voltar para casa?
54:53Não
54:55Me leva para a fazenda do seu Zé Leócio
54:59Tadeu, Tadeu
55:02Para ver quem eu quiser
55:04Você não tem nada, Bebús
55:22Oi, Flá
55:23Cadê o Tadeu?
55:27Tá comendo com os peão
55:29Ué, tá comendo com eles, por quê?
55:32Porque ele gosta
55:34E porque é peão que nem os outros
55:35Hum, mas ele é filho do patrão
55:38Mas não deixa de ser peão
56:08E acho bom
56:38Eu sei muito bem quem é você, viu?
56:40Você não é do tipo de mulher
56:42Você não é do tipo de mulher que se apaixone por ninguém nessa vida, viu?
56:46Ou menos por um peão feito meu filho Tadeu
56:53Vai, vai, vai com Deus, vai
56:56E vê se não volta nunca mais aqui, que é um favor
57:12E esse outro filho dele, um tal bastardo?
57:17Ele não esconde de mais ninguém
57:18Assim, assumiu Tadeu como filho
57:22E como é esse Tadeu?
57:26É um peão
57:27Como o Zé Leócio era quando um moço
57:31Goza de certas regalias em relação aos outros peões lá da fazenda
57:35É piloto de avião
57:37Então é estudado
57:39Não
57:40Eu acho que fez no máximo o primário
57:46E ele tem o nome do pai?
57:49Quer dizer, o Zé Leócio o reconheceu oficialmente?
57:55Isso eu não sei lhe dizer
57:58O senhor fez, hein?
58:01Ele é herdeiro também, tanto quanto jovem
58:05Eu nem pensei nisso, mãe
58:07Mas é preciso pensar
58:13Bom
58:14O Zé Leócio se queixou
58:18Diz que quando foi falar com o Jove
58:21Que ele precisava começar a aprender a lidar com as fazendas e os outros bens que ele tem
58:26O que é que tem?
58:30O Jove simplesmente jogou na cara dele que não queria saber de nada
58:33Nada daquilo
58:34Ele é um louco
58:35Não sei
58:39Olha, eu acho que o Jove quis demonstrar que foi até lá por causa do pai dele
58:44E não da fortuna dele
58:46Tomara que o Zé Leócio não tenha levado isso a sério
58:48Vai ver que de repente ele resolve deixar tudo pro tal peãozinho
58:52O Jove está completamente errado nisso
58:58Agora que a mãe dele morreu
59:00Ele devia mais aí pra lá
59:03Pra junto do pai
59:04Se interessar pelos negócios dele
59:07Se entrosar com ele
59:09Então você me ajude a convencê-lo disso
59:11E aí
59:24A CIDADE NO BRASIL
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