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Transcrição
00:00Serpentes nos rios que trançam o coração do Brasil
00:04Levando a água da vida, do fundo da terra, a aprovação do Brasil
00:10Gente que entende e que fala a língua das bandas dos bichos
00:17Gente que sabe o caminho das águas das terras do céu
00:23Velho mistério guardado no seio das mudas sem fim
00:29Tesouro perdido de nós, distante do bem e do mal
00:35Vindo do bem e do mal
01:12Fica calmo João, não tem perigo nenhum
01:17Por amor de Deus, não me faz passar vexado
01:21O que é aquilo lá fora?
01:26Nuvens, as mesmas nuvens que você vê lá de baixo
01:29Até que a gente está em cima delas
01:31Nossa, mas a gente está tão harto assim
01:35Ah, tá
01:36Mas não tem perigo não, fica calmo, tá?
01:41Eu quero voltar para casa
01:43Agora é possível
01:47E como é que nós vamos descer?
01:50Não se incomoda com isso não, que na hora de descer a gente desce
01:54Eu ia fazer primeiro uma escala em São Paulo
01:56Quando a gente chegar lá vai estar tudo escuro
01:59Aí você vai ver a cidade toda eliminada
02:01É uma beleza
02:02Você vai ver uma coisa que você nunca viu na tua vida
02:05E quando a gente chegar lá vai haver uma coisa
02:06Um espetáculo, Ju
02:08Ai Juventino, eu estou com medo
02:10Fora com isso, Ju
02:13Você é tão corajosa
02:15É, mas aqui eu estou com medo
02:19Você é tão corajosa
02:19Você é tão corajosa
02:21Você é tão corajosa
02:30Você é tão corajosa
02:47O que será que ele levou ela?
02:51Eu te acho.
02:54Perdi muito tempo.
02:57O que eu estava esperando? O que?
03:01Eu estive lá nas minhas mãos tantas vezes.
03:06Não fiz nada.
03:08Não consegui fazer nada.
03:15Podia ter matado ela logo na beira do rio e jogado o corpo para a espiranha.
03:23Então, aqui mesmo, enquanto ela estava dormindo,
03:30depois eu ia embora, me deixava rastro.
03:35Tanto tempo sem falar.
03:38Que maluquice.
04:00Mãe, não foi ela que matou o pai, mãe.
04:06Foi ela.
04:10Por que eu tenho que cumprir essa vingança?
04:16Agora que eu não estou mesmo entendendo mais nada.
04:19Mas que ideia dele?
04:20Que absurdo.
04:21Levar a menina daqui e logo para onde?
04:24Para o meio daquela grã afinada no Rio de Janeiro?
04:26E depois, o que ele está querendo?
04:28O que ele está pretendendo com ela?
04:30Não falei para o senhor que ele gostava dela?
04:31Ah, mas isso é um absurdo.
04:33E depois, gostava de que jeito?
04:35Eu acho que você estava enganado com ele, né?
04:37E esse foi o jeito dele provar isso.
04:39Então, ele é mais louco do que eu pensava.
04:41Mas irresponsável também.
04:43E eu estou preocupado é com a muda, que ficou sozinha naquele mato.
04:47E ela não é que nem a Juma.
04:48Deve estar morrendo de medo.
04:50Não, e eu estou preocupado é com a Juma mesmo.
04:52Uma menina que nasceu de criada aqui, que nem bicho.
04:55Imagina o que ela vai fazer lá.
04:57O que vai acontecer com ela?
04:58Ah, mas não se preocupe não.
04:59Aquela sabe se defender.
05:00Ah, sabe se defender.
05:01Sabe se defender aqui, né, piloto?
05:03Mas lá?
05:04Ah, é a mesma coisa que você soltar um jacaré no asfalto.
05:08Ah.
05:15Oi, Kizinho.
05:17Você deixou levar porque eu gosto dele.
05:23Deixou aqui sozinho.
05:27Agora, meu Deus, o que eu faço?
05:39Eu nunca devia te ter vindo com o Bruno.
05:43Devia te ter ficado lá na minha casa.
05:48Eu devia saber.
05:50Não ia conseguir cumprir essa promessa nunca.
05:54Nunca.
06:03Amém, meu Deus.
06:06Eu acho que deve ter sabido.
06:11Juma.
06:31Tá vendo, Juma?
06:34Chegamos sonhos e salvos.
06:38Quantas casas.
06:42E essas luzes?
06:47Aqui é tudo iluminado.
06:49Não é que nem no Pantanal, não.
06:51Você tá no Rio de Janeiro, Juma, sacou?
06:57É bonito.
07:07Poderia saber de onde é que o amigo trouxe a moça, né?
07:11O paraíso.
07:24O Benjão.
07:27O Benjão.
07:28Vamos entrar pelo chão, vem.
07:31Onde é que nós estamos?
07:35Na minha casa.
07:38Eu moro aqui.
08:02Eu moro aqui.
08:35O que é isso?
08:38Uma piscina.
08:44É água?
08:46Claro que é água.
08:47Mas não é que nem água de rio, água de lagoa.
08:50É água tratada.
08:54Agora vem.
08:57Sem fazer barulho.
09:24Esse é o meu quarto, Jumbo.
09:26Meu refúgio.
09:28Nosso refúgio.
09:39Não tem medo não, Jumbo.
09:41É de brincadeira.
09:44Pega.
09:47Não se assusta não.
09:52É plástico.
09:55Não tem o que se assustar.
10:04Isso aqui não é para comer, não.
10:06É de brincadeira também.
10:07Tem uma luz lá.
10:11Viu?
10:16Juma.
10:20Não fica assustada não, tá?
10:28Você deve estar querendo tomar um banho.
10:30Depois dessa viagem?
10:33Aonde?
10:35No banheiro, claro.
10:37Vem cá que eu te mostro.
10:53Para com isso, Jumbo.
10:56Cadê a querosina, Jumbo?
11:00Jumbo.
11:01Aqui não usa a querosina.
11:03Isso é luz elétrica.
11:05É que nem aquela do gerador na casa do meu pai.
11:08Eu nunca fui na casa do teu pai.
11:13Agora chega.
11:17Vem.
11:25Filho, por Deus, que eu não acredito que você está aqui comigo.
11:29Para.
11:30Foi você que me trouxe.
11:32Tá bom.
11:35Definitivamente eu sou um maluco.
11:37Mas tudo bem.
11:44Vamos levar isso numa boa, tá?
11:47Tá.
11:48Vai.
11:49Olha tudo.
11:52Pode perguntar tudo o que você quiser.
12:00Você deve estar tão espantada quanto eu, quando eu cheguei lá no Pantanal.
12:04Quando eu dormi na tua casa.
12:06Lembra?
12:08Guardando as devidas proporções, é claro.
12:12Eu quero ir embora, Juventino.
12:14Ah, Jumbo.
12:16Para com isso.
12:19Você não tem que se assustar com nada.
12:21Olha.
12:22Aqui.
12:24Você está muito mais segura que no Pantanal.
12:26Aqui não tem onça.
12:28Aqui não tem cobra.
12:29Aqui não tem jacaré.
12:31Naquela piscina que você viu lá fora não tem piranha, entende?
12:39Então relaxa.
12:41Lá dentro da casa.
12:43Aquela casa que você viu.
12:45Tem minha mãe, minha avó, minha tia.
12:48Está todo mundo me esperando.
12:49Por isso que a gente entrou pelos fundos.
12:51Eu não quero que você fique tão assustada.
12:54Eu não quero que você se apresente diante delas feito um bicho.
13:00E quando me disse aquele senhor ali, ele está voltando para cá.
13:06Conseguiu pegar o tal voo das cinco e meia.
13:08Então, mamãe, já devia ter chegado.
13:11Vai ver, já chegou.
13:13Encontrou a Avenida Brasil congestionada como sempre.
13:16Bom, ele conhece o caminho de casa.
13:17É bobagem ficarmos preocupados.
13:19Não estou preocupada.
13:21Só estou ansiosa.
13:23Eu também.
13:25Estou louca para ouvir as coisas que ele vai me contar.
13:28O encontro dele com o pai.
13:31É, pois eu espero que ele nos traga boas notícias do pai.
13:34Que é uma pessoa muito bonita.
13:37Eu não estou preocupada com o pai dele.
13:40Estou preocupada com o meu filho.
13:43Eu acho que não é hora de discutirmos isso.
13:53Eu falei para você não abrir a água quente, porra.
14:02Tudo bem, vai.
14:04O que você achou?
14:05Você acabou tomando uma sal.
14:07Lá no Pantanal, com o calor que faz,
14:10a gente toma sal toda hora, né?
14:12Então, vamos aproveitar e tomar um banho gostosinho.
14:17Eu tenho um cavalo preto,
14:21o nome de feitania,
14:25nasceu de doze braças,
14:28no coro de uma novinha.
14:32Como é que arrasta?
14:34Tiveram que cantava.
14:35Como é que curtiu essa linha?
14:36Eu tenho um cavalo preto,
14:41o nome de feitania,
14:44quem quiser seguir seu nosso chão,
15:03Tenho um cachorro bragalo,
15:06que é pra minha companhia.
15:09Sou um cavalo preto,
15:11folgar e cruar,
15:13eu não tenho família.
15:18Continua, Tiberio?
15:21Estou pensando na muda.
15:23Está lá sozinho?
15:25Para com isso, pião.
15:26Você veio de tão longe
15:28para ficar aí apaixonado por uma muda.
15:31É.
15:33Para.
15:34Você não entende as cores do coração,
15:36Levi.
15:37Vai, Dormir, vai.
15:41O que eu acho?
15:43Acho que eu falei a coisa errada.
15:54Deixa eu ver.
15:57Está ótimo.
15:58Está ótimo, Júlio.
16:00Isso aqui é roupa de homem, Juventinho.
16:02Você não tem nada de homem.
16:08Cuidado, Júlio.
16:12Cuidado.
16:27Você não tem nada, Júlio.
16:30Não tem nada.
16:34Não tem nada, Júlio.
17:02Ai, meu Deus do céu.
17:04Não está demorando.
17:05Mamãe, não é melhor ligar para o aeroporto
17:07para saber o que está acontecendo?
17:08Vamos esperar um pouco mais.
17:10Daqui, o que foi?
17:13O que aconteceu?
17:14Que cara é essa?
17:15Quer falar?
17:17Eu acho que o senhor Júlio já chegou, Madalena.
17:20Como assim?
17:21Eu passei pelo quarto D, Madalena,
17:23e vi a luz acesa.
17:24E resolvi ir lá para pagar,
17:26achando que alguém poderia ter esquecido.
17:27Mas quando eu cheguei lá,
17:29desde que eu era com os dois.
17:31Dois?
17:32Sim, madame.
17:33Dois rapazes.
17:34Um por certo deve ser o senhor Júlio.
17:37Dois rapazes?
17:38Dois rapazes, madame.
17:39E se beijando na boca.
17:46Você vai conhecer as três.
17:49Minha avó Mariana,
17:50que é uma pessoa dura,
17:51mas também muito doce.
17:53A minha tia Irma,
17:55que é um barato,
17:56que é uma pessoa que a gente pode se abrir, sacou?
17:58E a minha mãe.
17:59Minha mãe,
17:59são as três pessoas que vivem aqui nessa casa.
18:03Espero sinceramente
18:03que elas gostem bastante de você.
18:05O que é que está acontecendo?
18:07Júlio!
18:08Tenha calma.
18:09Por favor, tenha calma.
18:10Estou de volta, gente.
18:14Ah, não.
18:15Ah, não.
18:16Pelo amor de Deus,
18:17não me façam essas caras, hein?
18:19Quem?
18:21Quem é esse moço, Júlio?
18:24Quem é Júlio?
18:29É uma onça pintada
18:30que eu trouxe do pantalão.
18:31É uma moça, mamãe.
18:33É esse aí, tia.
18:35O nome dela é Júlio.
18:37É uma mulher.
18:40E o que é que você estava esperando, mãe?
18:44O Zaqueu falou
18:45que tinha visto dois homens
18:46se beijando na boca no seu quarto.
18:49Depois que a novinha disse.
18:51O que foi que a novinha disse?
18:52Nada, Júlio.
18:53Nada, isso é bobagem.
18:55Ai, que saudade.
18:58Júlio, é um prazer, irmã.
19:02É que você está assustado?
19:04O que que houve?
19:05Hein, Júlio?
19:08E qualpas são essas?
19:09São minhas, vovó.
19:11Ela não trouxe as dela.
19:12Por quê?
19:16Porque eu a raptei do pantalão.
19:27O menino assumiu de vez.
19:30Ah, não seja maldoça, Aquil.
19:32Não vi.
19:33Os dois se beijando na boca no quarto.
19:38Uma coisa cinematográfica, Teca.
19:41Tem certeza?
19:42E quem era o outro?
19:43Um pião, Teca.
19:45Devia ser um pião daqueles enormes
19:48que ele arrastou com ele do Pantanal.
19:51Tem gente que tem essa sorte, filho.
19:54Eles estavam se beijando na boca.
19:56Na boca, Teca.
19:58Na boquinha.
20:00Se a família não sabia, agora assumiu de vez.
20:05Ela é uma fazendeirinha.
20:07Vizinha do papai.
20:09A única coisa que ela fez na vida
20:10foi lidar com o gado dela,
20:11com aquelas coisas dela.
20:14Pode não parecer.
20:16Mas ela é capaz de entrar dentro de um rio
20:18e pegar um jacaré à unha.
20:19Ou então de puxar uma sucuri pelo rabo.
20:21É verdade.
20:22Chove.
20:23Eu não estou compreendendo
20:24essas histórias que você está contando.
20:27Você estava dizendo que ela é uma fazendeira?
20:30Exatamente, vovó.
20:32Os pais dela morreram há pouco tempo.
20:35E aí ela veio tocando a fazenda sozinha.
20:38Uma menina de muita coragem, viu?
20:40Como é que vocês se conheceram?
20:45Foi ela que salvou minha vida
20:46quando a boca de sapo me picou.
20:49Foi para a casa dela que o velho do rio me levou.
20:52Ela passou quase um mês, ó.
20:54Passou quase um mês ali,
20:55na cabeceira da minha cama,
20:56abrindo a minha boca à força
20:57para eu tomar o chá das ervas
20:59que o velho trazia da mata.
21:11Obrigada, João.
21:13Muito obrigada.
21:14O pai dele chegou a vir aqui
21:16para avisar que...
21:17mamãe, ele podia ter morrido.
21:19Mamãe, ela parece um pouco assustada.
21:22Juvia.
21:23Oi, tia.
21:24A Jum parece que está um pouco assustada
21:26e deve estar com fome também.
21:29Eu sugiro que vocês comem alguma coisa
21:31e depois duvam para descansar.
21:33Por que você disse que raptou a moça?
21:36Ah, mamãe, a força de expressão.
21:39Mas até agora ela não disse uma só palavra?
21:41É verdade.
21:44Jum,
21:45vale alguma coisa, vale?
21:57Fala, Jum.
22:00Posso falar alguma coisa?
22:01Essa aqui é a minha família.
22:16Eu quero ir embora.
22:29Está tudo bem, Jú.
22:30Está tudo bem.
22:30Eu não quero que...
22:32que você se preocupe com nada, tá bom?
22:35Estou morrendo de saudade de você, Jú.
22:38Nós todas estávamos.
22:40Está chove.
22:41Deixa eu apresentar.
22:42Zaqueu e Teca.
22:43São os nossos novos criados.
22:45Tudo bom, hein?
22:45Tudo bem?
22:46As suas ordens, senhor.
22:48Zaqueu?
22:49Seu criado, senhor.
22:50Teca.
22:53Para começo de conversa, Teca,
22:55eu vou fazer um pratinho.
22:56Você vai levar lá no quarto para ajudar para mim,
22:58porque ela não quis descer aqui.
23:01Eu acho legal a gente...
23:02Não, pode deixar.
23:02Eu faço isso para você.
23:04E aí você começa a comer
23:05que você deve estar morto.
23:06Não é mais um bom.
23:06Todo de fome.
23:08Depois você conta para nós essa história, Jú.
23:11Tia,
23:13você deixa o pratinho lá e vem embora.
23:16Não puxa assunto, não.
23:17Não puxa conversa, tá?
23:19Ué, por quê?
23:21Por nada, tia.
23:22Deixa o pratinho e vem embora.
23:24Tá bom.
23:25Por quê, Jove?
23:26Ela é algum bicho?
23:27Quase.
23:29Perdão, senhor Jove.
23:30Mas a pessoa que está no seu quarto
23:32é uma moça?
23:34Tia, estava querendo o quê, Zaqueu?
23:36Nada, nada, senhor Jove.
23:37Nada.
23:38Ele viu coisa demais, não é, Zaqueu?
23:40Ô, dona Irma, eu não vi coisa nenhuma.
23:43Foi tudo com impressão minha.
23:45É, Jú.
23:45Eu pensou que você tivesse chegado
23:47com um rapazinho.
23:50Um rapazinho?
23:52Meu perdão, senhor Jove.
23:54Vê que eu sou meio míope,
23:55eu ouvi, me abestalhei e cheguei aqui.
23:58Desculpe-se.
23:59Filho meu, vó.
24:00Eu não tenho prática nisso,
24:02que coisa horrível.
24:04Já volto.
24:06Leva lá,
24:07deixa o pratinho e vem embora.
24:09Tá bom, já ouvi,
24:10não precisa repetir.
24:33Tá bom, já ouvi,
24:46Tchau, tchau, tchau, tchau, tchau.
25:38Você pode deixar a luz acesa, por favor?
25:44Você não quis fazer lanche?
25:46Eu resolvi fazer um pratinho pra você.
25:48Deve estar com fome, Juma.
25:52Juma.
25:53É esse o seu nome, não é?
25:59Vem cá, Juma.
26:01Sente-se aqui e come tudo.
26:02Vem.
26:08Não tá com fome, não?
26:20Quando você terminar,
26:21você pode deixar a bandeja em qualquer lugar.
26:23As empregadas pegam.
26:24Tá bom?
26:25E aí, Juma?
26:31Tá.
26:33Fique à vontade.
26:36E aí, Juma?
26:51Não tá com fome.
26:53Não tá com fome.
26:54Não tá com fome.
26:56Não tá com fome.
27:01Não tá com fome.
27:02Não tá com fome.
27:04Não tá com fome.
27:09E aí, Juma?
27:18Amém.
27:49Amém.
28:06Pronto.
28:08Tudo bem, não se preocupe.
28:10Se ela estiver com fome vai comer.
28:14Ela perguntou alguma coisa quando você levou a comida?
28:16Não disse uma palavra.
28:19Em compensação arregalou os olhos quando viu o bandejo.
28:23Jovem.
28:24Mãezinha, calma, calminha.
28:26Ô, Chovem, você sabia o que ela estava fazendo quando eu cheguei no seu quarto?
28:29Ela estava brincando com a luz.
28:31Na verdade.
28:32Ela acendia e apagava.
28:35Tadinha, gente.
28:37Ela nunca viu luz elétrica na vida dela.
28:39Você quer parar com essa brincadeira, Jovem?
28:41Eu estou falando a pura verdade.
28:43Ela nunca tinha visto luz elétrica.
28:46Como ela também nunca tinha tomado banho quente.
28:48Eu tenho certeza que aquilo que ela está comendo lá, ela também nunca comeu.
28:52Onde é que você achou essa moça, Jovem?
28:54No pantalão, mãe.
28:56No pantalão, no meio dos jacarés, das sucuris, das araras, das piranhas.
29:05Comendo o caititu, o cateto, ou se as senhoras ainda preferirem, carne de porco selvagem mesmo.
29:13Ela adora também uma boa costelinha de pacu.
29:16Pacu?
29:17Pacu.
29:18Pacu é um peixe de água doce.
29:21Tem um sabor delicioso.
29:23Aqui no Rio que a gente quase não encontra.
29:26Lá ela mesmo caçava.
29:28Como ela também matava os jacarés.
29:30Para trocar o couro dos jacarés por mercadorias na xalana.
29:34Trocava por sal, trocava por açúcar, azeite, querosene para os lampiões.
29:41Trocava também por balas.
29:42Ela tem uma espingarda.
29:44Ela atira super bem.
29:46Jove, você...
29:48Você disse que ela perdeu os pais há pouco tempo e que tocava a fazenda sozinha?
29:54É verdade.
29:56Os pais dela foram assassinados lá.
29:59Aí ela ficou sozinha.
30:02Bom, mas lá dizem que ela...
30:06Que ela vira uma onça pintada em noites de lua cheia.
30:09Que?
30:09A mamãe dela, Maria Marroa.
30:13Jove.
30:14Para de brincadeira e fala sério.
30:16Quem vira bicho em noites de lua cheia é um bisome, senhor Jove.
30:19É verdade, Zaqueu.
30:20É verdade.
30:21Sabe que eu tive um amigo?
30:22Que ele virava um nubisome em noites de lua cheia.
30:25Era um sarro.
30:26Um sarro?
30:27É.
30:28Que ele virava um nubisome em noites de lua cheia.
30:33Que era uma bicha louca.
30:35Vocês dão licença para mim?
30:37Que eu vou ver o que está acontecendo com a minha marroazinha.
30:39Tá bom?
30:45Mamãe.
30:48O que está acontecendo com ele?
30:52Não sei.
30:53A senhora sabe que eu achei um sarro, madame.
30:56Essa história do nubisome bicha, eu nunca tinha pensado.
31:01Perdão, senhora.
31:04Calma.
31:05Calma.
31:06Não vamos fazer drama por pouco.
31:08Ele apenas acabou de chegar.
31:10e comem comida dessas.
31:24Hum.
31:25Muito bem.
31:26Que bonito.
31:27Que bonito.
31:29Comeu tudinho.
31:30Pelo jeito você estava com fome.
31:32Bom, é um bom sinal.
31:33Não está estranhando a comida.
31:36Agora eu acho que nós podemos ir embora, né, Juventino?
31:38Ah, Juma.
31:40Juma.
31:40Juma, para com isso.
31:42Juma, você não tem com o que se preocupar.
31:44Você não tem que ficar assustada.
31:47Você está na minha casa.
31:49Sabe quantos quilômetros que a gente percorreu para chegar até aqui?
31:52Não.
31:53Você não tem ideia da distância que a gente está da tua casa.
31:58Senta aqui.
32:02Aqui ninguém vai te fazer mal.
32:05Você está comigo.
32:07Entendeu?
32:09Então tá.
32:11Amanhã,
32:12logo cedinho, assim que amanhecer,
32:14vamos sair os dois por aí.
32:16Você vai ver coisas que você nunca viu na tua vida.
32:20O quê?
32:22O mar.
32:24As praias.
32:26Copacabana, Ipanema, Leblon.
32:28Arpoador, que é uma gracinha, você vai adorar.
32:30Você vai ver...
32:31Você vai ver uns malucos pulando lá de cima da Pedra Bonita de Asa Delta.
32:37Sabe que eu já fiz isso?
32:39Quase que eu fui campeão de Asa Delta.
32:41Eles ficam sobrevoando a cidade como se fossem dois tuiuius no Pantanal.
32:47Tá aí.
32:48Tá aí.
32:49Sou capaz de pular de novo.
32:51Com você.
32:53Por que não?
32:55Por quê?
32:58Pra gente ver o rio lá de cima.
33:00Nós dois.
33:02Como se fôssemos dois pássaros.
33:07Eu quero ir embora.
33:09Juma.
33:11Juma, para com isso, Juma.
33:14Desde que você chegou aqui, você só sabe falar isso que eu quero ir embora.
33:17Quero ir embora, quero ir embora.
33:18Quero ir embora.
33:18Para com isso.
33:21A muda tá sozinha, Juventino.
33:26A muda.
33:29Tá legal, muda.
33:31Porra, eu tinha esquecido da muda.
33:33De cabeçais.
33:35E o outro.
33:36Quero ir embora.
33:46E o outro.
33:55Quero ir embora.
33:58Quero ir embora.
34:01Quero ir embora.
34:05Vá embora, Maria Mauá.
34:08Sua filha não está aqui.
34:11Vá embora, pelo amor de Deus.
34:15Eu já posso saber que a filha não está aqui.
34:32Vá embora, Maria Mauá.
34:35Eu atiro você.
34:38Vá embora que eu estou armada, está me ouvindo?
34:41Eu estou armada.
35:02Ela foi embora.
35:22Minha nossa, senhora.
35:26Dó.
35:29Não precisa se preocupar com nada, tá?
35:33Não fique assustada que não vai te acontecer nada.
35:36Você está aqui comigo.
35:39Tá?
35:44Quando eu cheguei lá no Pantanal, eu fiquei tão espantado quanto você, sabia?
35:50Só que eu sou diferente.
35:53É diferente de repente você ver um...
35:55Um tuiuiu de perto.
35:59Uma onça.
36:01Um jacarezinho porqueira daqueles.
36:04É porque...
36:07Na verdade, nada é novidade demais para quem vive nessa civilização.
36:11Você já leu alguma coisa a respeito?
36:13Já viu no cinema, na televisão?
36:17Só uma questão de você...
36:19Ver de perto.
36:21Sentir o cheiro, poder tocar.
36:23A pegadinha numa cobra, por exemplo.
36:28Uma vez eu vi um documentário na televisão...
36:31Que mostrava como é que os caras lá no Instituto Butantã em São Paulo lidam com as...
36:35Com as araracas.
36:37Com as aracassus, corais, outros cruzeiros...
36:41E uma infinidade de raças de cobra que eu nem guardo, não.
36:45Então aí no...
36:46No tal documentário...
36:49Eles pediam para que as pessoas não matassem as cobras.
36:52Mas para que as pessoas as aprisionassem...
36:56E as acondicionassem em caixas especiais.
36:59E enviassem para eles.
37:01Que aí a partir dessas cobras...
37:03Eles iam tirar...
37:04O veneno para poder...
37:06Produzir...
37:07Um soro para salvar as pessoas que fossem mordidas...
37:11Das mesmas cobras.
37:12Está entendendo o que eu estou falando?
37:14É.
37:18De repente eu sou mordido por uma boca de sapo.
37:23Imagina, uma boca de sapo.
37:26Nem que imaginei que existisse uma cobra com esse mordido.
37:32E ela quase me mata.
37:35Não fosse o velho do Rio.
37:37O velho do Nial.
37:40E você, né, Juma?
37:44O mais importante é que eu estou vivo.
37:46É que está...
37:48Tudo bem.
37:51E...
37:53O meu...
37:55Tá com Deus.
38:03Deve de estar sonhando.
38:08Você aqui na minha cama.
38:11Nessa cidade maluca.
38:19Bendita hora que o Tadeu teve coragem de pousar no teu pasto.
38:29Eu acho que não é motivo para a gente fazer nenhum drama.
38:33Mas os dois estão lá, dormindo juntos.
38:37Menos mal, né, Madalene?
38:39Para quem estava esperando um filho cheio de problemas.
38:51Eu só queria saber por que ele trouxe ela para cá.
38:54Por quê?
38:55Vocês já pararam para pensar nisso?
38:57Quem tem que parar para pensar é ele.
39:00Amanhã eu vou falar com essa mulher.
39:01Vou saber qual é a dela.
39:03Isso mesmo.
39:05Para mim isso está me cheirando uma grande farsa.
39:08Ela só me pareceu muito assustada.
39:11É tipo, mamãe.
39:14Tipo.
39:15Você não viu o Jove contando aquela história que ela vira jacaré?
39:18Sei lá, via onça e noite de lua cheia?
39:20Por favor, pare de se martirizar à toa.
39:22A gente mal teve tempo de conhecer essa menina.
39:27Menina.
39:28Um mulherão que sabe muito bem o que quer está se aproveitando da inocência do jovem.
39:33Ai, pelo amor de Deus, vai.
39:35Seu filho não é tão inocente assim.
39:36Não vamos tirar conclusões antes do tempo.
39:39E o fato de ele estar dormindo lá com ela também não quer dizer nada.
39:43Nela das oito, todo mundo dorme com todo mundo.
39:45Até mãe com filho, empregado com patroa, homem com homem, mulher com mulher.
39:50Então por que ficar tão assustada?
39:53Mamãe.
39:54Eu só me assustei quando o Zaqueu disse que ele estava beijando um rapazinho na boca.
39:59Não era um rapazinho.
40:00Deus seja louvado.
40:05Suviu essa?
40:08Ela anda vendo demais a novela das oito.
40:10E aí
40:13Amém.
40:43Amém.
41:02Por amor de Deus, vá embora daqui.
41:08Sua filha não está aqui, ouça-pintada.
41:11Ela está longe.
41:16Pelo amor de Deus, me deixe em paz
41:35Acertei ela
41:48Acertei a alma da mãe da Juma
41:53Maria Marroa
41:56Maria Marroa
41:59Tá me ouvindo?
42:06Tá me ouvindo, mãe da Juma?
42:09Tá?
42:14Vai se ter matado ela
42:17Será que eu matei?
42:21Se ela entrasse, ela me comia
42:26Ai, Juma
42:28Ela não podia ter me deixado aqui sozinha
42:33Muda
42:35Cadê a Juma?
42:36Não te acho
42:41Parece alguém morrendo
42:45Cadê a Juma?
42:48É a mãe atrás da filha
42:54Não entra
42:57Não entra que eu atio de novo
43:14Maria Marroa
43:16Maria Marroa
43:19Maria Marroa
43:20Maria Marroa
43:28Você tá morta?
43:38Você tá morta?
43:41Você tá morta?
44:16Amanhã
44:17Amanhã
44:19Amanhã
44:20Nesse é o dia, eu vou ter que abrir aquela porta.
44:28Vai ter uma onça pintada morta na soleira.
44:37A mãe da Zuma.
44:50A mãe da Zuma.
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