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  • há 2 dias

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Transcrição
00:00Serpentes nos rios que trançam o coração do Brasil
00:04Levando a água da vida, do fundo da terra, ao coração do Brasil
00:10Gente que entende, que fala a língua das bandas dos bichos
00:17Gente que sabe o caminho das águas das terras do céu
00:23Velho mistério guardado no seio das mudas sem fim
00:29Tesouro perfeito de nós, distante do bem e do mal
00:35Vida do bem e do mal
01:02Como você virou a onça, tua mãe
01:06Filho
01:07Não estou com raiva
01:09Não fica com raiva de mim
01:21Te quero tão bem
01:24Que sou tão grato por tudo que você fez por mim
01:35Cadê o Tibério?
01:38Ele foi atrás de seu Zé Leôncio
01:41Vai dizer que você está vivo
01:42E acho que eu não queria que isso acontecesse
01:45Não achou justo deixar seu pai continuar sofrendo?
01:48Eu não vou poder mais ficar aqui
01:51Acho mesmo bom ir sem ir embora
01:55Quando os corações dos puros amam
02:02Calência dá um espaço
02:05E a eternidade é que se eu
02:09Filho
02:10Filho de que jeito?
02:12Ah, eu sei lá, Padinho
02:13O Tibério só disse que seu filho está vivo
02:15Só isso
02:16Meu Deus do céu
02:18E ele falou certo
02:19Ah, mas onde que ele está, menino?
02:21Fala, pelo amor de Deus
02:22Claro, eu não sei, mãe
02:23O Tibério não falou?
02:24Ele só disse que o Juventim está vivo
02:26Queria que eu vim avisar o Padinho
02:27Ele está vivo, viló
02:28Isso é só o que interessa
02:30Ele foi mordido por uma boca de sapo
02:32Mas o véio salvou ele
02:35Véio?
02:36Que véio é esse?
02:37O Duniar
02:39Um que vira sucuri
02:41Diz que é o pai dela
02:42Ah, que história é essa, deu?
02:44Que véio é esse?
02:45Eu também não entendi a história de...
02:47Não, Padinho
02:48Mas diz que é um véio que anda por aí
02:51Ele salvou o filho do senhor
02:53Mas onde é que está, meu filho?
02:55Com ele
02:55Com o véio do Duniar ou do Rio, sei lá
02:58Do Duniar ou do Rio
03:00Que história esquecida
03:01Mas eu tenho que avisar a mãe dele
03:10Alô, Campo Grande
03:12Pantanal chamando
03:13Alô, Campo Grande
03:14Pantanal chamando
03:16Campo Grande está na escuta
03:17Câmbio
03:33Alô
03:35Falando
03:37Como?
03:40Conexão de que jeito?
03:41De onde estão chamando?
03:42Do Pantanal
03:43Meu Deus, é notícia
03:45Pantanal
03:45Pelo amor de Deus
03:46Deixa eu falar
03:47Pantanal
03:48A senhora está falando com o Pantanal
03:49Pelo rádio, minha senhora
03:51A propagação não está nas melhores
03:53Mas o assunto é urgente
03:55Vamos tentar
03:56Por favor
03:57A senhora só fale
03:58Quando ouvir a palavra
04:00Câmbio
04:00Ô José Leôncio
04:02Ai, meu Deus do céu
04:05Pode falar, senhor José Leôncio
04:07Dona Mariana
04:09Eu sei que é a senhora que está na escuta
04:12Então você curta e grosso
04:14A propagação está caindo
04:17E eu tenho que ser breve
04:18O joventino está vivo
04:21O joventino está vivo
04:22O joventino está vivo
04:25Ai, que bom, Irma
04:26Ele falou
04:27O joventino está vivo
04:28Calma, calma
04:30Calma
04:30Calma
04:31Calma
04:31Ele falou
04:32Calma
04:32Agora o que eu faço?
04:34Mamãe, fale
04:34O meu filho está vivo
04:37Bom, só saber que ele está vivo
04:38Já me aquieta o coração
04:40Mas eu quero saber onde é que ele está
04:41Por que ele não voltou para casa?
04:43O Tibério conversou com ele, Padinho
04:45Deve saber onde ele está
04:47Caralho
04:47E onde é que está o Tibério?
04:49Eu sei lá, mãe
04:51O Tibério só voltou para dizer
04:52Que o filho do Padinho está vivo
04:53E se foi
04:54Mas se foi para onde, Tadeu?
04:57Não sei dizer não, Padinho
05:00Mas ele não quer voltar
05:01A trabalhar para o senhor, não
05:11Obrigado, Tibério
05:14Avisei, joventino
05:16Avisei
05:17Mas era justo ele continuar naquela agonia
05:21Tá bom, Tibério
05:23Devia ter desconfiado mesmo que você ia fazer isso
05:25É que nem um cãozinho fila dele, né?
05:27Cumpri com a minha obrigação
05:28Tá bom
05:30Mas eu não vou voltar lá nunca mais
05:33Você está aí ficando maluco
05:34Não estou, não
05:37Eu nunca estive tão consciente das coisas na minha vida
05:44Descobri uma nova vida aqui, Tibério
05:49E a tua família no Rio de Janeiro?
05:51Tua mãe?
05:53Vão ter que se conformar
05:56Não quero mais ficar vivendo pendurado na barra da saia dela
06:00Nem na dela, nem na de ninguém
06:02E sabe do que eu estou falando, né?
06:06Foi só o que deu pra mim
06:07Que o jovem está vivo
06:09Ele era o próprio pai que você estava falando?
06:11Era assim, eu tenho certeza
06:13Ai, meu Deus, ele vai voltar pra casa
06:15Nem estou acreditando
06:16José Leócio deve telefonar outras vezes
06:19Pra dar mais explicações sobre o que aconteceu
06:24De qualquer forma, eu...
06:27Eu estou com minha alma tão leve
06:30É engraçado, não é, Emma?
06:31Você parece que você sempre tinha certeza disso
06:34De que ele estava vivo
06:35Eu tinha, eu tinha
06:38Mas é que lá no fundo, gente, fica sempre uma dor
06:43Ai, irmã
06:44É, eu confesso que eu também me sinto mais aliviado
06:47Obrigada pela força que você me deu
06:50Boba
06:51Não dá pra agradecer, Madeleine
06:52Estou tão envolvido na vida dessa família
06:54Que eu não podia ficar indiferente numa hora dessas
06:55Por isso mesmo você está convidado pra jantar conosco?
06:58Eu faço questão
06:59Eu também
07:01Bom, acho que eu não posso recusar, não é?
07:03Não, não pode não
07:05Parece que estamos todos voltando de um pesadelo, gente
07:16Vamos lá, Tiberio
07:18Mostra pra elas como é que se canta
07:21Vamos começar por onde?
07:24Aquela que meu pai fala que meu avô gostava
07:26Cavalo preto
07:26Não, essa não, a outra
07:28A da casinha no pé da serra
07:31Essa é bonita
07:38Senta
07:45Fiz uma casinha branca lá no pé da serra
07:50Pra nós dois morar
07:52Fica perto da barranca
07:56No rio do Paraná
08:00O lugar é uma beleza
08:03Eu tenho certeza você vai gostar
08:09Fiz uma capela
08:11Bem do lado da janela
08:13Pra nós dois rezar
08:15Quando for dia de festa
08:19Você veste o seu vestido de algodão
08:24Quebro meu chapéu na testa
08:27Para arrematar as coisas do leilão
08:32Satisfeito
08:33Vou levar você de braço dado
08:36Atrás da procissão
08:38Vou com meu terno riscado
08:41Uma flor do lado e meu chapéu na mão
08:47Satisfeito
08:48Vou levar você de braço dado
08:50Atrás da procissão
08:53Vou com meu terno riscado
08:56Uma flor do lado e meu chapéu na mão
09:03Fiz uma casinha branca
09:06Lá no pé da serra
09:08Pra nós dois morar
09:11Fica perto da barranca
09:14Do rio do Paraná
09:17No lugar é uma beleza
09:21Eu tenho certeza você vai gostar
09:25Fiz uma capela
09:28Bem do lado da janela
09:30Pra nós dois rezar
09:33Quando for dia de festa
09:36Você veste o seu vestido de algodão
09:41Quebro meu chapéu na testa
09:44Para arrematar as contas do leilão
09:48Satisfeito
09:50Vou levar você de braço dado
09:53Atrás da procissão
09:55Vou com meu terno riscado
09:59Uma flor do lado e meu chapéu na mão
10:04Satisfeito
10:05Vou levar você de braço dado
10:08Atrás da procissão
10:10Vou com meu terno riscado
10:13Uma flor do lado e meu chapéu na mão
10:17Vou, vou, vou, vou, vou
10:19Vou, vou, vou
10:47Depois que vocês acabarem a cantoria, vocês podem se deitar.
10:52E amanhã você vai embora, Juventino.
11:12O que acha?
11:14O que aconteceu?
11:15Eu que sei.
11:24Se deitar comigo, Muta.
11:27Vamos deixar os dois lá fora.
11:29Anda.
11:31Vai.
11:39Não sei o que deu nelas.
11:41Parece bicho essas duas.
11:44Vão dormir?
11:45Não, não.
11:47O que é daquela outra que meu avô gostava?
11:50Cavalo preto?
11:52Aham.
11:53Tá bom.
11:59Eu tenho um cavalo preto, por nome de Ventanilha, um laço de doze braços, do couro de uma novilha.
12:12Tem um cachorro braço.
12:15Tem um cachorro braço, que é pra minha companhia.
12:19Sou um caboclo folgado, ai, eu não tenho família.
12:29No longo do meu cavalo, no longo do meu cavalo, eu viajo o dia inteiro, vou de um estado pro
12:38outro.
12:39Eu não tenho parabéns.
12:42Eu não tenho parabéns, quem quiser ser meu patrão, me ofereça mais dinheiro.
12:49Eu sou muito conhecido por esse Brasil inteiro.
13:02Tenho uma capa gaúcha, que eu comprei num boi-parreiro.
13:08Tenho dois peregros grandes, que é pura nem de carneiro.
13:14Um me serve de colchão, e outro de travesseiro.
13:21Com a minha capa gaúcha, eu me cubro o corpo inteiro.
13:34Eu tenho um cavalo preto, por nome de Ventanilha, um laço de doze braços,
13:44Do foro de uma novilha, tenho um cachorro bragado, que é pra minha companhia.
13:54Sou um caboclo folgado, ai, eu não tenho família.
14:05E...
14:05A Deus, que eu já vou partindo só a dor de uma cidade,
14:12A Deus, que eu já vou partindo...
14:19A Deus, que eu já vou partindo...
14:36O joventinho está vivo.
14:39Meu Deus, José Leôncio.
14:42Você não sabe o peso que o senhor está tirando do meu coração.
14:47Ora, o que é isso, menina?
14:50Eles estavam se gostando.
14:52É mesmo?
14:53É, quer dizer, não era bem um namoro, mas...
14:58Os dois andaram sozinhos por esses rios.
15:01E um pai sempre fica com um pé atrás numa situação dessas.
15:05É isso, Tenório.
15:07A Azófila tem juízo bastante para se defender.
15:11O jovem é maravilhoso, José Leôncio.
15:14Está certo, está certo.
15:16Eu forgo muito saber que você ficou contente com a notícia.
15:20Não estava conseguindo nem dormir direito, o senhor quer saber.
15:24E onde ele está agora?
15:26Eu não sei.
15:28A notícia que o Tibete trouxe para os meus peões é um pouco estranha.
15:33Diz que ele foi mordido de cobra no Nihal e que ficou entre a vida e a morte.
15:38Meu Deus.
15:38Mas que depois apareceu o velho do Nihal e o Sarvô.
15:44Quem?
15:45Um velho.
15:46Eu já tinha ouvido falar dele, mas eu nunca tinha levado muito em conta.
15:51É o pai da sucuriza aqui do Pantanal.
15:54Como é que você sabe?
15:56Também já ouvi falar.
15:58Mas isso é a história que esse povo inventa mesmo.
16:00Pois é.
16:03Mas o fato é que ele está em algum canto aí com esse velho.
16:07E isso me preocupa.
16:09Mas é tão bom saber que ele está vivo.
16:12É.
16:15Mas eu vou encontrar os dois.
16:18Esse velho e o meu filho.
16:31Você me ia dar um sorriso pra mim?
16:32Dá.
16:32Que isso?
16:34Vai me dizer que você nunca viu uma máquina fotográfica na tua vida?
16:37Nunca.
16:39Mas nem na mão dos turistas que descem aqui de xalando?
16:42Nunca reparei.
16:44Ah, aprende agora então, vai.
16:46Dá um sorrisinho pra mim, tá?
16:48Não, por favor, por favor.
16:50Juma, Juma, volta aqui.
16:55Pelo amor de Deus que isso existe.
16:58Parece o bicho do bar.
17:01Se eu contar isso, ninguém acredita.
17:06Mudinha.
17:06Mudinha.
17:07Dá um sorrisinho, Mudinha.
17:40Estranha essa história, né, Fila?
17:43Não.
17:44Pra mim, não.
17:45Já ouviu falar nesse velho antes.
17:48Quem será ele?
17:50Não sei, filha.
17:52Não sei.
17:53Mas se salvou o Juventino de uma picada de cobra.
17:55Ah, porque deve ser uma boa arma.
17:57Vai se vir a sucuri.
17:59Ah, nessa história eu já não acredito, não.
18:01Nem eu, Fila.
18:05Se o jovem tá curado,
18:08por que ele não voltou pra casa ainda?
18:11Ah, isso eu não sei.
18:14Talvez volte logo.
18:16É.
18:18O pai tá agoniado.
18:21Só o pai, é?
18:25Eu também, Fila.
18:27Eu também.
18:30Tô apaixonada por ele.
18:43E então, como é que é?
18:47Ela não quer me deixar ficar na casa dela?
18:50Não volta pra casa do teu pai, ora?
18:53Não quero.
18:54Pelo menos agora, não.
18:57Isso é bobagem, o Henquino.
19:00Não é, não.
19:04Tô determinado a ficar aqui mesmo.
19:06Mas ela não quer?
19:20Tibera, eu já deixei ficar.
19:24Vai me ajudar na lida com o gado.
19:29Ele parece boa pessoa.
19:34O outro, não.
19:39Não gosto do jeito que ele me olha.
19:48Tudo que ela tem por aqui, foi teu pai que deu.
19:51Não tem a casa onde ela vive, é do teu pai.
19:54Ele é dona dessas terras todas.
19:57Mas ele foi deixando a mãe e o pai dela ficando por aqui, quando eles chegaram.
20:02Isso que ele me contou foi o Tadeu.
20:04É, tô sabendo.
20:07Também ele não quer que ninguém mexa com ela, né?
20:10Daí você vê o coração que ele tem.
20:12Que é isso, Tibera?
20:13Tanto de terra que ele tem, isso não faz a mínima falta.
20:16Mas mesmo assim, é bondade dele.
20:18Deixar ele vivendo por aqui, como se fosse dona desse pedaço.
20:22Ela é a dona.
20:24Se ela é a dona, você vai ter que ir embora.
20:26E agora eu lhe pergunto, pra onde você vai?
20:32Pra onde o velho mandar?
20:45Nossa viagem não é ligeira
20:49Ninguém tem pressa de chegar
20:51A nossa estrada é boiadeira
20:55Não interessa onde vai dar
20:58Onde a cor me tive esperança
21:01Chega já
21:02Começa a festança
21:04Através do rio negro
21:06E a Golândia
21:08E vai a quase
21:09Vai descendo
21:11O velho filho é muito apegado
21:12A mãe, a tia, a avó
21:15Se ele estiver vivo, como eu acredito que ele esteja
21:18Ele vai acabar aparecendo e
21:21Voltando pro Rio de Janeiro
21:23E essa é a história do velho?
21:25É, isso é a conversa fiada desse povo
21:28Isso deve ser algum índio
21:30Quanto e meia a gente encontra uns deles por aí
21:33Longe da reserva
21:36Ele deve ter sido encontrado por um índio que cuidou dele
21:41E se foi assim
21:43Eu quero recompensar esse índio
21:46De alguma maneira
21:48É
21:49O amigo tá certo
21:51Porque você vê
21:53Depois de tudo que aconteceu
21:55De ele ter sido mortinho de cobra
21:57Ele não largou aquela tarde câmera dele
22:03Se bem eu conheço meu filho
22:06Nessa altura ele deve estar lá
22:08Tirando o retrato daquela indiaiada toda
22:12A hora que ele se satisfazer
22:15Ou
22:15Ele se aborrecer
22:17Aí ele aparece
22:19E aí vamos ver o que a gente faz
22:22Minha filha estava sendo sincera
22:24Quando disse que gostava do seu filho
22:29Mas isso é um assunto
22:31Para os dois resolver
22:33Se bem que se for do gosto do meu filho
22:36É do meu também
22:39Pois eu lhe digo
22:40Que eles têm a minha aprovação também
22:43Faço gosto de ouvir isso
22:45É quantas cabeças e gado
22:46O amigo tem nesse pasto
22:50Sem norma amigo
22:52Se me perguntasse por uma outra fazenda
22:54Qualquer onde eu tenho
22:55O estado do computador
22:57Eu lhe responderia no ato
22:59Ah, eu tenho tudo muito bem controlado
23:01Mas
23:02Aqui
23:04E quanto é que está custando
23:06A arroba do boi?
23:09Sem nome
23:10Se tudo é controlado
23:12Pelo escritório em São Paulo
23:14Boi é um negócio
23:15Que deu sempre muito dinheiro
23:16É
23:17Muito trabalho também
23:20Por isso é que eu não me arrisco
23:24Posso lhe fazer uma pergunta
23:27Como não?
23:29Estamos conversando com toda a liberdade
23:32Sinceramente
23:33O amigo vive de que?
23:35É
23:35Bem umas terrenhas
23:37Um dinheiro guardado
23:39Hum
23:41Não cria nada
23:43Não planta nada
23:45Eu não estou lhe entendendo
23:48Também não pode lhe explicar
24:07De que jeito
24:09A pessoa não pensa em comprar ele
24:11Não sei
24:12Eu sei
24:14Talvez uma curva do rio
24:16Mas se ele está vivo
24:17Por que ele não voltou para a casa do pai?
24:20É isso que eu estou me perguntando
24:21Alcides
24:22Por que?
24:26A senhora gosta dele?
24:30Gosto
24:32E é melhor você não botar minhoca na tua cabeça
24:34Não estou botando minhoca nenhuma
24:37Eu sei o meu lugar
24:40É bom que saiba mesmo
24:59Estrela natureza
25:02Precisamos de mais
25:05De ter sempre por perto
25:07Na calma e santa paz
25:10Nos morros e nos campos
25:13No sol e no sereno
25:16Zelando por florestas
25:19Cuidando os animais
25:21Mulher e mãe de todos
25:24O que será de nós
25:27Se a força do inimigo
25:30Calar a tua voz
25:33Que sai dos passarinhos
25:36Dos mares e dos rios
25:39Dos vales preguiçosos
25:42Dos velhos
25:45Pantanais
26:10Aí teu padrinho saiu
26:11Com o pai da Guta
26:15E a Guta saiu com o pai de Alcides
26:17Foram de barco os dois
26:18Procurar o Juventino
26:20Isso é besteira mãe
26:21Não vão achar ele nunca
26:27Isso eu já não sei
26:29Eu só sei que agora há pouco
26:30Ela me confessou
26:31Que está apaixonado pelo Juventino
26:35Apaixonado?
26:35De que jeito?
26:37Também não sei filho
26:38Deve ter acontecido qualquer coisa
26:40Quando os dois foram passar de barco sozinhos
26:42Lá pro lado do Ninhard
26:43Para que acho bom
26:44Você não pensar mais nessa moça
26:45E quem é que está pensando mãe?
26:48Para
26:49Quem não te conhece
26:51Que te compra
26:52Que te compra
26:54Que te compra
27:16Que te compra
27:31Eles devem estar juntos por aí.
27:37Mas a gente não tem mais sossego, não é mesmo?
27:43Você se lembra, amor?
27:46Dele se agarrando e se beijando.
27:51Ele e aquela moça.
27:58Eu vou falar para o velho levar ele embora daqui.
28:14Você viu como o Tibério te achou bonita, muda?
28:21Agora você me ouviu.
28:36Hoje eu não dormo mais em casa.
28:38Eu acho.
28:55As duas não estão em casa.
28:58Estou por aí, Tibério.
29:05E o velho?
29:11O velho virou uma sucuri.
29:14Está caçando por aí.
29:17Já vem você de novo com as suas besteiras, juventil.
29:23Ele é estranho, viu, Tibério?
29:27Ele é muito estranho.
29:50Vai ter alguma coisa nele que me encanta.
29:54Não sei por quê, mas eu tenho a maior confiança nele, sabia?
29:57Claro.
29:58Ele te salvou da morte certa.
30:02Só por isso, não é só por isso, não.
30:04Então, por que que é?
30:07Sei.
30:10Nem eu mesmo consigo entender por que que ele...
30:13Por que que ele zeste tanto fascínio sobre mim?
30:30Eu vou te contar uma coisa, Tibério.
30:33Eu conto.
30:40Quando a cobra me mordeu lá no Nial...
30:45Eu senti uma grande paz interior.
30:48Engraçado isso, né?
30:51O sujeito está morrendo.
30:53Sentir que está morrendo e achar isso bom.
30:56Foi.
30:57Foi exatamente isso que eu senti.
31:00Uma grande paz interior.
31:03Isso deve ser o efeito do veneno da cobra boca de sapo.
31:07Sei, pode ser.
31:08Nunca tinha sido mordido de cobra antes.
31:13E, de repente, estava tudo rodando.
31:18Cobrando.
31:21E lá em cima, aquele mundo de aves.
31:25Tinha um milhão de tuiuius, colhereiros, garças.
31:30Foi tudo girando.
31:33Estava tudo girando e fui caindo.
31:36Cobrando.
31:38Com certeza, lá embaixo, tinha uma sucurinha.
31:41De boca aberta.
31:44Esperando para mim o ver.
31:45Com certeza.
31:46Eu já tinha visto isso antes, né?
31:49E daí?
31:51E daí que...
31:53Por uma fração de segundo, eu tinha exatamente a certeza absoluta de que eu era o filhote de uma daquelas
31:58aves.
32:00Aí a...
32:03A sucurinha vinha vindo.
32:06Castejando.
32:07Pontinha já, de boquinha aberta.
32:09Para migulir.
32:14Aí eu fechei os olhos e pensei comigo mesmo.
32:18Que seja.
32:20Você tá mais é besta, só.
32:28Mas foi isso que aconteceu.
32:33Fechei o olho.
32:36Fiquei esperando o bote.
32:39Eu senti assim dentro de mim um misto de prazer e pavor.
32:47O bote.
32:52O ato dela me engolir.
32:55Era como se, de repente, eu fizesse parte de toda aquela natureza que tava à minha volta.
33:03Mas aí o bote não veio.
33:08Aí eu fui abrindo o olho devagarinho.
33:12Fui abrindo o olho devagarinho.
33:16Surgiu aquela...
33:18Aquela figura debruçada sobre mim.
33:22O velho?
33:23É.
33:25O velho.
33:29Aqueles aves.
33:32Aquela barbona dele.
33:37Figura estranha.
33:41Que figura misteriosa.
33:44Ele é mágico, sabia?
33:45É uma figura mágica.
33:50Não se deixa ver direito.
33:55De repente, parece com alguém que eu conheço.
34:03Aí as mãos dele procurando a minha faca.
34:06Aí aquela dor na perna.
34:08Ele fez um corte.
34:10Na perna.
34:14Aí ele...
34:16Aí ele tava sobrando a minha ferida.
34:20Aí...
34:22Aí...
34:25Aí eu não lembro de mais nada.
34:29Tô me dando aquele topo...
34:32Fui crescendo.
34:41Senti assim como se o meu corpo estivesse balançando o ar.
34:46Aí eu pensei comigo mesmo.
34:48É ela.
34:50Ela tá me engolindo.
34:54A grande sucurinha.
34:56Mulher e mãe de todos.
34:58O que será de nós?
35:00Se a força do inimigo
35:03calar a tua voz
35:05Que sai dos passarinhos
35:09Dos mares e dos rios
35:12Dos vales preguiçosos
35:15Dos velhos espantanais
35:43Nossa filha mais o Alcide
35:45Estão procurando o Juventino.
35:47Por vontade dela.
35:49Eu vou esperar ele aparecer.
35:51Não vai procurar o rapaz, não?
35:53Já procurei demais.
35:55Agora eu sei
35:56Quando ele quiser
35:57Ele aparece.
35:58Oh, Tico
35:59Como é que pode
36:00Ficar numa despreocupação dessa?
36:02Porque agora eu sei
36:03Que ele tá vivo.
36:04E isso já é muito
36:05Depois do susto
36:07Que o amigo levou.
36:08Oh, cafifada
36:09Com essa história desse velho.
36:11É
36:11Isso é conversa dessa gente.
36:14Mas se for mentira
36:15Que o rapaz esteja vivo
36:16Porque essa gente
36:17Bate nessa boca, broca.
36:21Desculpe
36:21Não vou te falar.
36:24Não se eu vejo, não.
36:26Eu que sou mulher dele
36:27Eu não fico vejada.
36:31Sente.
36:35Fala uma coisa, Tenório
36:37Pois não.
36:40Estou começando
36:41A me interessar
36:42Por essa história
36:43De criar jacaré
36:46Não me diga
36:48Porque senão
36:49Eles acabam no Pantanal
36:52Esse é o meu interesse
36:54Que a gente se unir
36:55Pra fazer um grande
36:56Criame de jacaré
36:58A gente
36:59Pode devolver
37:00Uma parte pros rios
37:02Outra parte
37:03A gente exporta
37:05E com isso
37:06A gente acaba
37:07Com esses
37:07Marditos
37:08Correiros
37:09Que ninguém pode
37:10Com eles
37:11Nem a polícia
37:14Pois é
37:15Algo que eu lhe digo
37:17Se o amigo
37:18Entrar comigo
37:19Nessa empreitada
37:20Já entrei
37:21Mas antes
37:23Eu vou
37:24Pedir um estudo
37:25De viabilidade
37:26Pro meu escritório
37:27Em São Paulo
37:29Estudo de que?
37:31Agora você tá bom
37:33Tá curado
37:35Deixa eu ficar
37:36Mais uns dias
37:36Juna
37:38Você não precisa
37:38Ter medo de mim
37:40Vai vir gente
37:41Atraga você
37:41Não vai
37:42Ninguém tá sabendo
37:43Que eu tô aqui
37:43Eu não quero
37:47E você vai embora
37:57Parece bicho
37:58As duas
38:00Pelo jeito
38:00Não vai adiantar existir
38:04Eu ainda acho
38:05Juventino
38:05Que você devia
38:06Voltar pra casa
38:07Só apresentar
38:08Pro seu pai
38:09E de lá
38:10É direto
38:10Pro Rio de Janeiro
38:11Que é o melhor
38:11Que eu tenho que fazer
38:12Mas você vem comigo
38:13Eu já me acertei
38:15Com ela
38:15Vou ficar por aqui
38:18Cada muda
38:19Né?
38:21E você
38:21Tá querendo ficar
38:22Por causa de quem?
38:29Jumã
38:31Jumã
38:34Jumã
38:34Eu tô indo
38:45Queria te agradecer
38:48Por todos os cuidados
38:49Que você teve comigo
38:52Não vai
38:53Eu não vou esquecer nunca
39:00Também
39:04E o velho
39:05Passando por aí
39:06Você disse que eu fui
39:06Embora, tá?
39:09Tá bom
39:10Fale
39:12Eu também sou muito grato
39:13Por ele
39:15Pelos cuidados
39:15Que ele teve comigo
39:17Tá certo
39:21Você é incrível
39:29E aí
39:30E aí
39:32E aí
40:06Quando uma estrela cai
40:09No escurão da noite
40:13E um violero toca as suas mágoas
40:35E um violero toca as suas mágoas
40:52E um violero toca as suas mágoas
41:22E um violero toca as suas mágoas
41:29Tudo bem?
41:31Eu que te pergunto, cara
41:32Você tá bem?
41:35Que susto que você deu na gente
41:36Pronto, Jorge, já te acharam
41:40Pula pro barco deles que levam pra casa
41:41Isso, vem pra cá, Jorge
41:43Levo você pra casa
42:11Eu só aceitei o convite
42:13Pra almoçar aqui pra não lhe fazer desfeita
42:15Porque na verdade é filóta lá com o almoço pronto
42:18Me esperando
42:18Ah, esquece a filóza, Leôncio
42:22Afinal, ela é só a sua empregada
42:25Não é bem assim não, Tenor
42:28Bom, essa é uma história muito comprida
42:30Mas ela vai lhe desculpar
42:32Tô gostando
42:33Boa sua comida
42:34É
42:35Quando ela quer, ela cozinha bem
42:38A gente faz melhor tudo aquilo que a gente faz com gosto, né, Dona Maria?
42:42Verdade
42:44Mas senta, por favor, Dona Maria
42:46Não, obrigada, César Leôncio
42:48Eu tô servindo
42:49Se ele convidou, senta, Maria Bruaca
42:52Desculpe
42:53É modo de falar
42:55Por favor, senta
42:57Tu não quer atrapalhar a pose, tá tão boa
42:59É só sentar e ficar quieto que não vai atrapalhar
43:05Licença
43:06Não
43:07Eu aceitei o convite porque a senhora me convidou
43:11Do que a gente tava falando mesmo?
43:13Dá a possibilidade de fazer uma criação de jacaré aqui no Pataná
43:16Que nem a gente cria boi no pasto
43:19E acho essa ideia boa, meu irmão
43:20Na verdade, já ouvi falar que algumas pessoas já tão fazendo isso
43:26Que é uma boa coisa
43:27Porque se fala em acabar com os coreiros
43:31Isso é proibido, não é proibido só da boca pra fora
43:34Agora, fazendo isso
43:37Pode-se acabar com eles e pode ser um bom negócio pra todo mundo
43:40Ah
43:42Eu também acho
43:43Depois a gente já tem tudo aqui, né
43:46Tem uns rios, umas lagoas
43:49Água é que não falta
43:50É só a gente organizar tudo direitinho, né
43:52O que a Dona Maria acha disso?
43:54Eu?
43:56Eu morro de medo de jacaré
43:58Eu acredito
44:12Agora eu acredito
44:14Você não sabe quantas orações eu lisei
44:17Quantas velhas eu acendi
44:19Ué, seu pai vai morrer de alegria
44:23Eu escapei de boa
44:25Com a graça de Deus
44:27Com a graça de Deus
44:28Eu tava morto de verdade
44:31O que aconteceu foi um milagre
44:32Ai, eu posso imaginar, meu filho
44:37Meu pai?
44:38Ah, seu pai
44:39Seu pai saiu aí com o pai da Dona Guta
44:42Viu? Mas você já deve estar de volta
44:44Um milagre?
44:46Um milagre?
44:46Um milagre?
44:46Flá, um milagre está morrendo de fome
44:49Oh, minha nossa senhora
44:51Eu aqui de conversar
44:52Senta aí, meu filho
44:54Senta, vou lhe preparar um lanchinho pra você comer
44:56Oh, meu Deus do céu
44:59E onde é que você tava, Juventino?
45:01Eu encontrei ele no rio
45:02Não sei, cadê eu?
45:05Sinceramente, eu não sei
45:06Mas onde é que você encontrou o Tibério?
45:09Não fui eu que encontrei o Tibério
45:10Foi o Tibério que me encontrou
45:11Oi, gente, vai
45:12Vai, senta aí
45:14Senta aí pra comer
45:17Senta aí, Arce
45:17Senta aí também
45:18Não
45:20Vou esperar minha patroa lá fora
45:25Não liguem pra ele
45:29Ah, entendeu?
45:29Eu queria depois tentar falar com a minha mãe pelo rádio
45:32Pra ela saber que eu tô vivo de verdade
45:34Pode tentar
45:56E aí
45:57Legenda por Sônia Ruberti
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