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  • há 2 dias
Transcrição
00:26Numa casa portuguesa
00:39Numa casa portuguesa
01:00Andar a partir uma média de dois serviços de jantar por ano
01:02Deixe lá, não pense nisso
01:05Pronto, já passou
01:07Ai filha, olha
01:08O teu marido é um estraga-albardas
01:10Lá, isso é
01:11O Marcial?
01:12Sim
01:13E que culpa tem o Marcial?
01:14Oh mãe, coitadinho do Marcial
01:16Oh filha, cala-te lá filha, tem paciência
01:18Tu sabes muito bem que o teu marido parte pratos e copos todos os dias
01:21Oh mãe, não exagere
01:22Por acaso foi o Marcial que partiu este?
01:24Não sei filha, não sei
01:25E olha, alguém foi
01:27Foi a mãe
01:27E eu
01:28Ah, ai que mentirosa
01:30Também é raro partir louça
01:32Oh filha, desculpe
01:34Mas numa casa mesmo com estraga-albardas como o teu marido
01:37Tens de concordar que é muita louça partida
01:40Ah mãe, mãe, não pense mais nisso
01:41Venha cá, sente-se aqui
01:42Ai filha
01:43Mãe está muito nervosa
01:44Não se preocupe com isso
01:45Não se preocupe com isso
01:46Vá, amanhã vai-se ao supermercado e compra-se mais louça, está bem?
01:49À compra, pois é
01:50Para depois da manhã estar partida também
01:53Ai filha
01:55Isto aqui há gato filha
01:57Olha lá se há
01:58Gato mãe
01:59Nós nem sequer temos gato
02:00Ai temos, temos filha
02:02Temos e grande
02:03Filha e grande
02:04Oh mãe, gato
02:07Olha
02:08Olha o aspirador
02:09O aspirador?
02:10Está aí
02:10O que é que tem?
02:11É um aspirador novo e já não funciona
02:13Não funciona?
02:14Ainda esta manhã funcionou?
02:16Olha porque quis
02:17Também é que ele só funciona quando quer
02:19Oh mãe
02:20Ah filha, não
02:21Isto aqui há gato, digo-te eu
02:23Oh mãe, o aspirador
02:25Foi baratinho
02:26Ah foi baratinho
02:27Foi
02:27Para ti é tudo baratinho, não é?
02:29Um aspirador de sete contos e meio
02:31Ah está bem, mas já tem seis anos
02:32Ah tem seis anos
02:34Tem seis anos
02:36Olha, eu lembro, é luz
02:37Sim, o que é que tem a luz?
02:39Olha, é que todos os dias se fundem lâmpadas cá em casa
02:41Filha, não pode ser, não é normal
02:44Ah, e a água?
02:46Dia sim, dia não, falta
02:48Também é normal, não?
02:50É mãe, tudo isso é normal
02:51Ah filha, não é
02:52Desculpa, mas não é normal
02:54Tem paciência
02:54Haver água no bairro inteiro e só faltar cá em casa
02:57Filha, não é normal
02:58Oh mãe, pronto
02:59Não se preocupe tanto
03:00Tudo isso são coisas normais
03:01Não, não, filha, não
03:03Isto aqui há gato
03:04Digo-te eu que aqui há gato
03:06Ah mãe, lá está a mãe outra vez com o gato
03:08Ah filha
03:09Ninguém me tira da cabeça
03:11Que isto é azar a mais para uma casa só, filha
03:15Olha lá
03:15E a aliança
03:17A aliança?
03:18Sim, a tua
03:19A tua
03:20Também mãe
03:21A minha aliança perdia
03:22Ah, perdeste-a
03:23Quer dizer
03:23Ela esteve 20 anos aqui no dedo
03:25E de repente
03:26Zaz
03:27De repente Zaz o quê?
03:29De repente olhaste para lá e já lá não estava, filha
03:31Também é normal, não é?
03:33Ah
03:35Ai, filha
03:36O que é mãe?
03:37E os barulhos de noite?
03:39São os móveis a ranger
03:40Ah, são os móveis
03:41Ah, os móveis não rangem
03:43Então
03:44E os barulhos da banca, filha
03:46Olha, de noite tremo toda
03:48Aqui o coração a furar
03:50Ah mãe, quer que até me mete medo
03:51Ah filha, desculpa filha
03:53Mas isto aqui
03:54Aqui há gato
03:56Digo-te eu
03:56Há gato
03:57Eu tenho a certeza
04:00E o teu marido?
04:01Ah
04:02Há 15 anos que não é promovido
04:04Ah, mas aquilo também
04:06Filha, aquilo também já não é azar
04:07Aquilo é mesmo estupidez
04:09Ah, tinha a mãe que vir outra vez com o Marcial
04:11Ah
04:12E as notas da Lila?
04:14São boas as notas da Lila, não são?
04:16Ah
04:17E o Zezé?
04:18Três anos seguidos com sarampo
04:20Ah filha, desculpa
04:21Mas isto não é normal
04:22Mãe
04:22A televisão tornou a pifar
04:24Olha
04:24Estás a ver?
04:25Eu não te digo
04:26Estás a ver?
04:27Pois pifou à hora da novela, não é?
04:29Quer dizer, à hora do futebol
04:31Funciona muito bem, lindamente
04:32À hora da telenovela
04:33Pifa
04:35E agora mãe?
04:36Agora deixaste estar ligada, meu querido
04:38Que quando acabar a novela
04:40Vais ver que ela começa a funcionar outra vez
04:42Olha lá
04:43Já lhe deste um soco
04:44Pode ser que resulte
04:45Já um ponto de pé lhe dei
04:46Um ponto
04:47Olha lá
04:48A tutuada só dá pontapés da televisão
04:50Zezé
04:50Tu queres arruinar-nos?
04:52Ah avó, ela achou que não ia
04:53Ah não ia?
04:54Mas vais tudo aqui para fora
04:55Pira-te
04:56Oh senhores, oh minha nossa senhora
05:02Estás a ver?
05:03Estás a ver filha?
05:05Estou a ver o que mãe?
05:06O teu filho
05:08Tu também achas que o Zezé é normal?
05:11O Zezé?
05:12Oh coitado do Zezé
05:13Oh filha
05:15Sai ao pai
05:17Digo-te eu
05:18Sai ao pai
05:21Não é normal
05:22Que Deus nosso senhor me perdoe
05:24E a quem é que ele havia de sair?
05:25Oh filha, desculpa
05:26Mas não é normal
05:27Isso sair ao pai
05:28Sim, sair ao paspalho
05:29É azar a mais
05:32Oh mãe, coitadinho de uma senhora
05:35Oh Rosário, por tua saúde
05:37Tu cala-te com essa lenga
05:38Lenga do coitadinho
05:40Que eu não te posso ouvir
05:41Caramba, parece um disco riscado
05:44Coitadinhas somos nós
05:45Nós é que somos coitadinhas
05:48Oh não, mas oh filha, não
05:50Eu tenho razão
05:51Esta casa está azarada, filha
05:53Esta casa está azarada
05:55Olha que eu já a defumei quatro vezes
05:58E ela continua azarada
06:00Lá está a mãe outra vez com a casa azarada
06:02Mas tudo isto começou
06:06Quando eu perdi a pata do teu pai
06:08A pata do pai?
06:09A pata do pai
06:10Não, quer dizer, a pata do macaco
06:13Que o teu pai me deu
06:14Que Deus o tenha
06:17Olha lá
06:18Minha mãe
06:20Tu lembras-te quando é que eu a perdi?
06:23A pata do macaco?
06:24Bom, isso foi há vinte anos
06:27Foi, não foi?
06:28Mas foi, filha
06:29Foi exatamente há vinte anos
06:33E foi aí que começou todo o azar
06:37Dois dias depois
06:39Conheceste o teu marido
06:54O Ila
06:56A avó diz que a casa está assombrada
06:57Tu achas que...
06:59A avó não sabe o que diz
07:00Dorme e deixa-me estudar
07:01Tenho uma certeza, Ila
07:03Estamos assombrados
07:04Não me vês se tiveste com a outra biologia
07:06Correu mal, ponto
07:07E o meu zero a francês
07:09Boa desculpa à casa assombrada
07:10Não pegaste foi num livro
07:12O que tu queres?
07:13Só perguntas de gramática
07:14Foi azar a mais
07:15Olha, paras mas é com a conversa
07:17E deixas-me estudar
07:18Senão quem tem azar amanhã sou eu
07:27O que é que estás a fazer agora, Palermo?
07:29O que é que estás a fazer agora, Palermo?
07:30O que é que estás a fazer agora?
07:30O que é que estás a fazer agora?
07:31Ai, estou lixada contigo
07:32Com um ponto amanhã
07:33E para o chateares-me com a conversa
07:34Da casa assombrada
07:36Ai, meu Deus
07:47O que é que nos aproposas?
07:48É, deita-te
07:50Ou a ver se o quarto tem fantasmas
07:52Fantasmas?
07:52Mas tu estás maluca ou o quê?
07:53Fantasmas nas gavetas?
07:55Tu vais, mas é a dormir
07:56E deixas-me estudar sossegada
07:59Chato
08:01Chato
08:02Chato
08:06Lila
08:07O que é agora?
08:09Sabes que a avó diz que perdeu a pata de um macaco
08:12Perdeu a pata?
08:14A avó?
08:15Ora, bolas, José
08:16Poupa-me
08:16Cala-te e deixa-me estudar
08:22Onde é que vais, José?
08:23Tenho medo
08:24Vou dormir para a cama da mãe
08:27Ora, bolas
08:30Vamos lá, linda
08:31Vamos lá
08:32Vais dormir, mas é para a tua cama
08:34Que já não és nenhuma criança
08:36Como a criança?
08:38Azar
08:38Azar é eu é que tenho azar
08:40Ainda não consegui inserir da mesma página
08:41É a pata de um macaco
08:43É a pata de um macaco
08:45A pata de um macaco?
08:46É, a avó que lhe anda a meter umas coisas na cabeça
08:48Diz que a casa está azarada
08:51Azarada?
08:52A casa?
08:53Sim, diz
08:54Estamos todos azarados desde que perdeu a pata de um macaco
08:57O que é que foi?
08:58Também estás com medo?
08:59Não, já que...
09:00De facto...
09:02De facto o quê, pai?
09:04De facto eu também tenho andado com o azar dos diabos
09:07É a pata de um macaco
09:09Eu não disse, eu não disse
09:10É a pata de um macaco de certeza
09:11Oh, Zezé, tu cala
09:12Já me estás a chatear a sério
09:15De facto
09:16De facto
09:29Então, ficou sossegadinho?
09:31Ficou
09:32Olha lá
09:33Tu achas que a casa está mesmo azarada?
09:35Azarada?
09:36Oh, também tu!
09:37É que de facto eu também tenho andado com o azar dos diabos
09:40Azar, tu?
09:41Oh, só me faltava mais esta
09:43Ouve lá
09:43Tu lembras-te do meu dente?
09:44O teu dente?
09:45Pois, o dentista tirou o dente errado, lembras-te?
09:47Sim, mas isso foi mês passado
09:49Pois foi, mas ontem...
09:50Ontem o quê?
09:51Olha, eu tinha sete contos e ia pagar o telefone
09:53Sim, e o que é que tem os sete contos?
09:55À saída do escritório encontrei o Idalino ali na Avenida da Boa Vista
09:58O Idalino?
09:59Ah, e isso é que foi mesmo azar?
10:01Olha, eram sete horas da tarde
10:02Ah, sete horas da tarde?
10:04Então não pagaste o telefone?
10:06Não, não tive tempo
10:07E ia pagar hoje?
10:08E pagaste?
10:09Espera aí, eu explico-te
10:10Eram sete horas da tarde
10:12E tinha sete contos para pagar o telefone
10:14Estás a perceber?
10:15Não
10:15Bom, eu explico-te
10:17O Idalino ia à corrida de cavalos ali na Maia
10:19Corrida de cavalos?
10:21Pois, é assim, uma coisa nova, assim, meio clandestina
10:23Sim, e depois?
10:25Pois, eu fui com ele
10:26Eu nunca tinha ido a uma corrida de cavalos
10:28Ai, meu Deus
10:29Bom, na corrida número sete
10:32Estive de repente um palpite
10:33Conta depressa
10:35Apostei os sete contos no cavalo número sete
10:40Apostaste os sete contos do telefone
10:43Num cavalo
10:44Ai, meu Deus
10:46No cavalo número sete, Rosário
10:48Não estás a perceber?
10:49Eu encontrei o Idalino às sete horas da tarde
10:50Tinha sete contos
10:51Apostei na sétima corrida no cavalo número sete
10:54Estás a perceber?
10:55E o cavalo?
10:56Ganhou?
10:57Ficou em sétimo
10:58Ficou em sétimo?
11:00Ai, meu Deus
11:01Perdi os sete contos
11:05Ai, meu Deus
11:07És a pata do macaco
11:09És a pata do macaco
11:16Isso
11:17Dois palmos abaixo do joelho, dona Rosário
11:20Olha que é um vestido de festa
11:21Eu sei, dona Conceição
11:22Ai, é para a festa da firma do meu marido
11:26Este ano foi um grande ano
11:28Ai, eu sei, eu sei
11:30Ai, o que ele sofreu, coitado
11:33Este ano, no princípio, tudo nos corria mal
11:36Ora, dona Conceição, ao seu marido corre-lhe sempre tudo bem
11:39Ai, isso é verdade
11:40Pois corre, dona Rosário, graças a Deus
11:42Mas, olha, este ano foi diferente
11:46Morreu o sócio dele, sabe como é
11:48Oh, dona Rosário, eu acho que se a gente subisse um bocadinho, não é?
11:53Não ficava pior, o que é que acha?
11:55Sim, podemos subir um bocadinho
11:57É, não é?
11:58Porque esta história dos vestidos compridos
11:59Estão muito bonitos, muito bonitos, mas escondem-nos as pernas
12:02Lá, isso é verdade, dona Conceição
12:04Pois, eu até tenho as pernas bonitas, ora, diga lá
12:06É verdade, sim, senhora
12:08Vamos subir um bocadinho, não é?
12:10Vamos lá
12:10Sim, vamos lá
12:11Então
12:13Isso, isso, isso
12:14Creio que
12:15É, assim parece melhor
12:17Mais ou menos por aqui, não?
12:18Isso, assim
12:18Já deixou um bocadinho a perna à descoberto
12:21É, fica muito melhor
12:22Fica muito, fica
12:24Ai, onde é que eu ia?
12:26Ia a uma festa?
12:27Não
12:28Ah, sim, um sócio do meu marido, pois
12:31Sabe, dona Rosário, é que nós ficamos a dever-lhe uns dinheiros, não é?
12:35E ele não nos largava à casa
12:37Quem?
12:38Aquele que morreu?
12:39Sim
12:42Ah, o morto
12:44Credo
12:44É o que lhe digo, dona Rosário
12:46Meteu-se-nos lá em casa e começou a azarar-nos
12:49Olha, afirma, ia indo por água abaixo
12:51Ai, o morto
12:53Sim, o morto, o morto, dona Rosário
12:55Pois, o morto
12:56O malandro
12:58Porque está a ver, se ele já estava morto, não é?
13:01Para que é que ele precisava do dinheiro que o meu marido lhe devia?
13:04O morto queria o dinheiro?
13:05Ah, pois queria, pois queria
13:07E meteu-se-nos lá em casa e começou a azarar-nos
13:10Nem queira saber
13:12Meteu-se lá em casa?
13:13Pois é
13:14Ora, viva, bom dia, dona Conceição
13:16Viva, dona Zulmira, viva
13:18Quem é vivo sempre aparece, não é?
13:20Claro, graças a Deus
13:21O morto
13:51O morto?
13:53Chamaram uma vidente, dona Zulmira, para o pôr dali para fora
13:56Chamaram uma vidente?
13:58É verdade
13:59Chamámos uma vidente e ela, pronto, falou com ele
14:04Conversou e tal e coisa e lá o convence a ir embora, não é?
14:07Falou com ele?
14:08Não pode ser
14:09Ai, pode, pode, dona Rosário, pode, pode
14:11Bem, a gente pagou-lhe, não é?
14:14Ele lá se foi embora
14:15Espera lá, dona Conceição, desculpa, às vezes eu percebo
14:18Pagaram
14:19Pagaram
14:19Pagaram
14:20O morto
14:22500 contos, vamos ver
14:23500 contos, é verdade
14:26Bem, também é verdade que a gente devia um bocadinho mais, não é?
14:30Mas pronto
14:30A vidente lá o convenceu a ir embora com os 500 contos
14:34Deram 500 contos ao morto?
14:36Não, dona Rosário
14:37Há a vidente
14:38Claro, e depois a vidente que lhe deu a ele
14:41E eu sei lá, olha, ela é que tratou de tudo e ele lá se foi embora
14:45Bom, e eu também me vou embora
14:47Esta manhã está pronto, não está, dona Rosário?
14:50Pronto o quê?
14:51O vestido, dona Rosário, o vestido, olha, olha que a festa é no fim de semana, veja lá
14:55Claro que está, dona Conceição, claro que está
14:57Bom, então bom dia, dona Zulmira, bom dia
14:59Bom dia
14:59Bom dia
15:09A mãe ouviu?
15:10Não pode ser
15:12Se calhar
15:14Se calhar o quê?
15:16Se calhar também temos um morto cá em casa
15:19Credo, mãe
15:20É isso, é isso
15:22É isso exatamente, é a única explicação
15:24Também temos um morto cá em casa
15:28Credo, mãe
15:29Mas como é que eu, como é que eu não pensei nisto antes?
15:33Nisso o quê, mãe?
15:34É ele, o malandro
15:36O morto?
15:37Ah, filha, o teu marido
15:39Malandro
15:40Foi ele, foi ele
15:41O Marcial é o morto?
15:43Oh, mulher, cala-te lá com o morto que já me estás a enervar
15:46Pois é isso, até que tu explicadinho, filha
15:49O teu marido ficou a dever dinheiro a algum morto
15:52E ele, claro, meteu-se cá em casa
15:54O Marcial deve dinheiro ao morto
15:56E é ele?
15:56Meu Deus
15:57É esse patifo do morto que nos anda a azarar a casa
16:00O teu marido, mas que tinha que ser, filha
16:03Tinha que ser
16:04Grande malandro, não é?
16:06Ai, mas como é que eu não me lembrei disto antes?
16:09Ah, mas ele vai ver como elas lhes mordem
16:11Vai, vai
16:12Eu digo-lhe, eu digo-lhe
16:15Malandro
16:19Oh, mãe, mãe, tenha calma
16:23O Marcial não tem culpa
16:24Não, filha, não
16:26Foi ele
16:27Da nossa gestança, filha
16:29Oh, mãe
16:29Mas eu digo-lhe, eu digo-lhe
16:31Oh, mãe, venha-se embora
16:33Coitadinho do Marcial
16:34Coitadinho
16:35Azarou-nos a casa e tu dizes coitadinho
16:37Oh, mãe, não foi ele
16:38Ele também anda azarado, coitadinho
16:39Oh, pois anda, filha, anda
16:41Mas olha, ainda vai ser pior
16:43Quando eu falar com ele é que ele vai ver o que é azar
16:45Oh, mãe, não diga isso
16:46Vale a-me Deus
16:47O Marcial não conhece nenhum morto
16:48Não, não, não
16:49Ainda pior, filha
16:51De ver dinheiro a um desconhecido
16:53Oh, não diga isso
16:54Se calhar foi ele que o matou
16:56Ai, credo, mãe
16:57Pois, para não ter que pagar
16:59Ah, mas a mim paga
17:00Mas, oh, lá se paga
17:02Oh, mãe, não diga isso, vá
17:03Venha-se embora daí, vá
17:04Venha daí
17:04Está quieta, larga-me, larga-me
17:06Deixa-me estar quieta
17:07Oh, senhores
17:09Alguém tem que meter aquele malandro na ordem
17:10Oh, filha, tem calma
17:11Porque eu só vou ter uma conversinha com ele, filha
17:14Está calma, vais ver
17:16Oh, mãe, coitadinha do Marcial
17:21Vá, a televisão está outra vez a variada
17:23Oh, filho, pois, claro, já sabe
17:25E foi à hora da telenovela da tarde
17:27Estás a ver, filha, estás a ver?
17:30Foi o pai, não foi a vó?
17:31Pois, foi, foi, sempre
17:33Cala-te, Zezé, que se não apagas um par de estalos
17:34Vem já imediatamente para o teu quarto
17:36Vá, vá, lá, desanda daqui, Zezé
17:37Isto não é assuntos para crianças
17:39Pois, claro
17:39Eu bem ouvi
17:40Foi bem que azarou a televisão
17:44Ai, ai
17:45Bem feita
17:48O pai, magoou-me o joelho, bruto
17:50Ai, eu digo-te outra vez
17:55Ai, do rapaz
17:58Está?
18:00Ah, és tu
18:02Ah, não tem importância
18:03Está bem, está bem
18:05Até logo, querido
18:06Ai, graças a Deus
18:08Graças a Deus o quê?
18:10Quem era?
18:10O Marcial não vem almoçar, graças a Deus
18:12Ah, então não vai almoçar, hein?
18:15Ah, o grande malandro
18:16Ah, tem muito trabalho no escritório
18:19Ah, mas foi ele
18:20Foi ele
18:22Ele quem?
18:24O morto
18:25Foi o morto que o avisou
18:27Avisou de que eu estava à espera dele
18:29Ah, mas ele vai ver
18:31Eu não te dizia
18:32Eu sabia, eu sabia
18:34Mas eu digo
18:35O Marcial só tem muito trabalho no escritório
18:38Mais nada
18:39Mais nada
18:40Já está que eu vou pôr tudo isto em pratos limpos
18:43Olha lá
18:44Telefona a ela, mesgoia
18:46A dona Conceição?
18:47Sim, a dona Conceição
18:47Pede-lhe o telefone da vidente
18:49Eu vou tirar tudo isto a limpo, filha
18:51Vou tirar a limpo
18:52Da vidente?
18:54Sim, filha
18:54Exatamente, da vidente
18:55Não vejo que nós chamamos a vidente cá à casa?
18:57E o morto vai nos dizer tudinho ali, tudinho
19:02Ai, que bom que eu...
19:03Eu sempre quero ver a cara do paspalho
19:06Ali a negar diante do morto
19:26Cá, cá honna
19:29Cá honna
19:30Cá honna
19:34Cá honna
19:42Está quase na hora
19:44Apaguem as luzes
19:45E chamem a família toda
19:47Sim, sim, sim
19:52Vá, vá, vá
19:53Todos para a mesa, vá
19:54Todos para a mesa
19:55Vamos lá
19:58Ô, sensei, para a mesa, fazes favor
20:01E você, o que é que está à espera?
20:03Ah, que coisa
20:10Sente-te
20:27Vá, senta-te, querido, senta-te
20:28A mãe também acha que...
20:29Vá, vá, na filhal que o dós também dizes que andas usarado
20:32Sim, sim. Pronto.
20:40Pronto.
20:41Tenho medo.
20:43Oh, meu querido, não tenhas medo, meu querido.
20:46Os vivos é que metem medo.
20:49Os mortos, coitadinhos, não fazem mal a ninguém.
20:52Tenho medo.
20:53Outra vez.
20:55Não tenhas medo, meu querido.
20:56É preciso calma.
20:58Calma e confie em mim.
21:00Já está a família toda?
21:02Está...
21:03Onde é que se meteu a Lila?
21:05A Lila foi estudar para a casa da Sandra.
21:06Estudar hoje?
21:07Mas tu não lhe disseste?
21:08Mas ela não acredita nestas coisas.
21:10Ela não acredita.
21:11Ela atreve-se a não acreditar.
21:12Tenha calma, minha querida, tenha calma.
21:15Até melhor.
21:16Se ela não acredita, até podia estradar tudo.
21:19Eu também não acredito.
21:20Não acreditas, senhor Zenzé? Vai-te sentar.
21:24Eu também não.
21:25Você também não o quê?
21:28Nada.
21:29Há nada?
21:29Então, calce e sente-se.
21:31Vá.
21:32Vá.
21:32Agora que é.
21:33Vá.
21:35Dêem as mãos.
21:36Vá.
21:40Vá.
21:41Vá.
21:41Confiem em mim.
21:46Vá.
21:48Vá.
21:49Vá.
21:49Vá.
21:50Concentrem-se.
21:51Já, já, já.
21:51Concentrem-se.
21:52Ai.
21:53Ai, ai, ai que eu estou a sentir-la.
21:56Ai que eu estou a sentir a presença.
22:00A presença?
22:01Sim, sim.
22:02A presença.
22:06Silencio!
22:07Silencio!
22:09Caluda, caluda, porque ela está a sintonizar.
22:14Ai, que eu estou a senti-la.
22:16Ai, que ela está a penetrar-me.
22:19Ai, ela está a entrar-me.
22:38Ai, que ela está a entrar-me.
23:09Ai, minha senhora.
23:13Dona Dulce, Dona Dulce.
23:15Ai, filha, que desgraça.
23:16Dona Dulce.
23:17Maciel, Maciel.
23:19Então, então, Dona Dulce.
23:21O morto matou-a.
23:22O homem, calça, o paspalho, calça.
23:24Dona Dulce, então, então, Dona Dulce.
23:27Oh, minha querida.
23:28Sim.
23:29Ai, eu tenho que enfia.
23:30Deixa, deixa-me descansar primeiro um bocadinho.
23:33Um bocadinho, um bocadinho.
23:34Não, filha, anda, Rosalho.
23:36Vai depressa à cozinha buscar um chá.
23:37Vai depressa.
23:38É isso mesmo, um cházinho.
23:40E vós, não, o que é que está a fazer aí, que descende-se.
23:43Vá, calma.
23:44Vá, minha querida.
23:46Vá, calma.
23:47Vá, calma.
23:48Ai, o cházinho, o cházinho.
23:50Já aí vem.
23:50Ai, está a despacho, de facto.
23:52Ai, que bom.
23:52Beba, beba.
23:54Vamos beber.
23:55Vá, beba.
23:56Ai, que foi, quer fogo.
23:57Já está-me do quente.
23:58Então, assopra, assopra.
24:00Assopra.
24:00Faz-lhe bem.
24:01Foi feito agora.
24:01Assopra.
24:03Pronto.
24:04Agora sim.
24:05Já está melhorzinha, já.
24:07Sim, minha querida.
24:08Está vante.
24:09Mas tenho uma triste notícia a dar-lhe.
24:11O que é que é?
24:12Confirma-se o pior.
24:13O pior.
24:15Ai, meu Deus.
24:16Ai.
24:17O pior.
24:19Mas...
24:19O pior, minha querida.
24:22A casa está azarada.
24:25Ai, meu Deus.
24:26A casa está azarada.
24:28Então, mas vem.
24:29E quem é que...
24:30Quem foi a você?
24:32Quem é você, seu pasparo?
24:34Fui você.
24:35Ai, diga-me, por favor.
24:36E quem?
24:37Quem é que azarou?
24:38Quem?
24:39Tal como eu previ, a minha querida, é uma presença.
24:43Uma presença.
24:45O morto?
24:46Ai, não.
24:47O vive é que não é, com certeza, não é?
24:49Ai, meu Deus.
24:51O morto?
24:51Mas o que é que está o morto a fazer na minha casa?
24:54Oh, minha querida.
24:55Isto é alguém que não está descansado.
25:01Se calhar é o paizinho.
25:03Ai, minha querida, cala essa boca, para a tua saúde.
25:05Ai, querida, não seja.
25:06Agora o teu paizinho.
25:14Ah, não.
25:15Ah, não.
25:16Não pode ser.
25:17O teu pai não nos azarava, não.
25:19Isso é outro.
25:21É outro, tenho a certeza.
25:22Outro?
25:23O outro, sim.
25:23E o medo?
25:25O outro, sim.
25:26É outro, foi você.
25:27É você, com certeza.
25:29Fui eu.
25:29Fui o quê?
25:30Eu, isso não sei.
25:31Eu, isso não sei.
25:31Mas que foi você, com certeza.
25:33Não se intervem.
25:34Vocês têm que ser uma família bonita.
25:36Calma.
25:37Calma.
25:38Olha, no fundo, não foi ninguém.
25:39É saco.
25:40Não foi ninguém.
25:42Então está um ouro tomotido na minha casa e a senhora diz que não foi ninguém.
25:45Pois, quer dizer, no fundo, no fundo, realmente foi, foi, foi ele.
25:53Foi ele.
25:54Ele.
25:54Eu sabia.
25:55Foi ele.
25:56Eu sabia.
25:56Eu sabia.
25:57Não é nada disso.
25:58Não foi nada disso.
25:59Coitadita.
26:00Ele é para espalho, mas não é tanto, não é?
26:02Também já sabe.
26:03Oh, querida, o que eu estou a dizer é que foi ele, o morto.
26:07A presença.
26:09O morto.
26:11Exatamente, minha querida.
26:13Bom, mas eu vou explicar.
26:15O que se passa é o seguinte, as presenças, ou seja, aos mortos, quando não estão bem
26:23instalados, quando estão de uma maneira desagradável do outro mundo, o que é que elas
26:28fazem?
26:29Vêm para o lado de cá, elas passam-se da cabeça, vêm para o lado de cá, instalam-se
26:36nas casas, exatos.
26:39Exato.
26:39Azaram-nas.
26:40Ai, meu Deus.
26:42Mas azaram a casa para quê?
26:44Ai, filha, isso não sei, minha querida, isso não sei.
26:46Mas que azaram, azaram-nos.
26:49Isso já nós sabemos.
26:51Como não sossegam...
26:53Vá, vá, adiante, adiante, avança.
26:55Por isso é que eu...
26:57Estás a ver, Rosário?
26:58Estás a ver?
26:59Calça-se, seu paspalho, porra!
27:01Deixa a dona Dulce falar.
27:03Caramba, tu te falo, dona Dulce.
27:05Pois, como eu estava a dizer, elas azaram as casas e então, e então, e então é preciso
27:16tirá-las de lá para fora.
27:19Tirá-las de lá para fora?
27:20Mas para a presença na rua?
27:23Exatamente.
27:24Ai, meu Deus.
27:26E como é que se tira a presença cá de casa?
27:28Ora, minha querida, é precisamente nessa altura que eu entro.
27:33Ah, pronto, agora já percebi.
27:35Quero dizer, a presença sai e a senhora entra.
27:39Não, filha, que disparate.
27:41Oh, dona Azulmira.
27:42Não é nada disso.
27:42Ah, não é?
27:43Eu é que faço a presença sair.
27:46Ah, e como?
27:48E com o sério?
27:49Oh, minha querida, pois essa é a minha especialidade.
27:52Nem queira saber a quantidade de presenças que eu já fiz sair de casa.
27:58Olhe, por exemplo, este mês já foram oito.
28:02Já foram oito.
28:03Oh, meu Deus.
28:04Anda tudo desassossegado no outro mundo.
28:07Por favor, eu suplico-lhe, dona Azulmira, ter uma presença cá de casa já.
28:11Eu não a quero na minha casa.
28:12Não, minha querida, tenha calma, tenha calma.
28:15É que as coisas não são assim tão fáceis.
28:18Ai, não é fácil.
28:19Não, minha querida, não.
28:20As coisas não são assim.
28:22É que a vossa presença...
28:25Sim.
28:25Eu agora vi era um chá, sim.
28:28Pode ser.
28:29Pode ser.
28:29É gratificio.
28:31Liga-me.
28:31Pois, como eu dizia, a vossa presença...
28:37A vossa presença não quer sair.
28:39Cá, cá, filha, anda lá depressa com o rei do chá, filha.
28:42Que é quase uma da manhã.
28:44Ah, senhores...
28:45Ai, com licença.
28:48Desagradável.
28:49Ai, é muito bom.
28:50Desagradável.
28:50Muito obrigada, filha.
28:51Mas diga.
28:51Então fale depressa.
28:52Fale.
28:53Fale, dona Dulce, por favor.
28:54Ah, mais chazinho.
28:56É que esteu-me mal, hein?
28:58A vinte e um bem.
28:59Diga, dona Dulce.
29:00Ai, Zezé, larga-me, larga-me, filho, comigo, né?
29:03Anda para aqui, Zezé.
29:04Senta-te aqui.
29:05Ai, é uma família muito nervosa.
29:07Ah, senhores...
29:08Ah, senhores...
29:09Vá lá fechar, filha.
29:11Anda lá depressa.
29:12Ai, meu Deus.
29:13Viva lá o seu chazinho.
29:15Com licença.
29:18Que agradável.
29:19Eu agora comi era uns biscoitezinhos.
29:23Os biscoitinhos é que vão ficar para depois, tá?
29:26Agora faça favor, desemboche.
29:29Então cá vai o desembochado.
29:31Faça favor.
29:32Pois, como eu estava a dizer, a vossa presença não quer sair cá de casa.
29:39Não quer sair cá de casa?
29:41Mas como é que a senhora sabe?
29:43Ai, foi ela que me disse.
29:44Ela?
29:46Mas quem?
29:46Ah, o abrigador para a Espanha de Calça.
29:48Foi um morto.
29:49Ah, Zé, Zé, Zé, vai já para o teu quarto, que isto não são conversas para criar.
29:53Não, não, eu daqui não saio, que tenho medo.
29:55Pois, hoje foi precisamente o que ela me disse, a presença.
29:59Sim.
29:59Que já está cá em casa há 20 anos e que não sai daqui de maneira nenhuma.
30:05Ai, nossa senhora.
30:07Há 20 anos houve-me isto, Rosário.
30:09Foi exatamente isso, quando eu perdi a pata de um macaco.
30:14Não, não, não, não, minha querida.
30:16A culpa não é de um macacão.
30:18Mão de ter a certeza.
30:20O que acontece é que a presença parece que sabe os seus direitos
30:25e só sai daqui com uma imunização.
30:30Uma imunização?
30:31Uma imunização.
30:33Uma imunização?
30:35Uma imunização, filha.
30:36Então, uma imunização, mas a presença mete-se cá em casa
30:40e só sai com uma imunização.
30:43Oh, uma imunização.
30:45O que é uma imunização?
30:47O que é uma imunização?
30:50Eu dou-me a sensação que a presença sabe muito bem os seus direitos.
30:56Deve ter sido advogada em vida.
30:59Ai, meu Deus.
31:00Ai, meu Deus.
31:01Um advogado morto metido cá em casa ia querer uma imunização.
31:06Nós estamos desgraçados.
31:09Mas nós não temos dinheiro.
31:11Filha.
31:12Pois é.
31:13Vamos ficar azaradas para o resto da vida.
31:16Ai, tenham calma, tenham calma, tenham paciência.
31:20Mas então há algum dinheirinho a ter, não é?
31:24Sosseguem, sosseguem que eu vou regatear.
31:27Com a presença.
31:28Ai, isso eu regatei.
31:29Vou regatear até onde puder.
31:31Vocês têm é de confiar em mim.
31:34É de acreditar em mim.
31:36Acreditamos.
31:36Acreditamos.
31:37Viquem descansadas que eu vou tratar do assunto.
31:40Sim, sim.
31:40Eu vou falar com ela e logo veremos.
31:44Eu agora bebi era uma chavazinha de chá, pode ser.
31:49E uns biscoitocinhos, gaseiros, está bem?
31:54Não percam os entrados à mesma hora para ver como é que a dona Dulce vai resolver o assunto
31:59e fazer a presença sair lá de casa.
32:02Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa.
32:11E se há porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente.
32:19Fica bem essa franqueza, fica bem que o povo nunca desmente.
32:27A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente.
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