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  • há 2 dias
Transcrição
00:00Numa casa portuguesa fica bem
00:03Pão e vinho sobre a mesa
00:07E se há porta humilmente bate alguém
00:11Senta-se à mesa com a gente
00:16Fica bem essa franqueza, fica bem
00:20Que o povo nunca a desmente
00:24A alegria da pobreza está nesta grande riqueza
00:29De dar e ficar contente
00:42Maldito tempo
00:44Maldito jogo
00:52Perderam um jogo que estivemos a dominar do princípio ao fim
00:54Pois, mas o fim é o pior
00:57O pior foi depois do fim
00:59Foi depois da hora
01:00Eles marcaram o golo depois da hora
01:02O futebol é muito injusto
01:03É, é, quando a gente perde é muito injusto
01:05Ainda levei com uma garrafa na cabeça
01:07Porquê que não te desviaste?
01:08Ah, eu achei que era para ti
01:09Olha, ela vinha direitinho a ti
01:11Se não te desviaças, levavas com ela
01:14É uma doença
01:15Ah, isto não é nada, esta manhã passa
01:17Não é isso, não é isso, é o futebol
01:19O futebol é que é uma doença
01:20Estamos doentes
01:21Até parece a minha sogra e a minha mulher a falar
01:23E olha, se calhar
01:25Elas até têm razão
01:26Temos de admitir
01:28De facto
01:30Dois mozanguei com o Rosário por causa da bola
01:32E eu?
01:34E eu deixei de vender um automóvel por causa da porcaria do povo?
01:37Eu vou-me arruinar, pá
01:38Não, pá, tu não falas assim, pá
01:41Estamos de primos, pá
01:42Olha lá
01:43E se realmente estamos doentes, pá
01:44Se a minha sogra tem razão
01:46Se eu estou a dar cabo da minha vida
01:48Da vida da minha família, pá
01:50Tu achas mesmo que estás?
01:51Eu não sei, eu não sei, Marcial
01:52Eu não sei
01:52Eu só sei que estou a dar cabo dos negócios
01:54E afinal o Porto perde
01:57Já nem falo com os meus filhos, pá
01:58E eu, pá, no outro dia perdi uma mulher de sonho
02:01Por causa de uma porcaria de um Porto
02:03De um Porto-sarilhense
02:04Para a taça
02:05E eu não fui à festa da escola do meu filho
02:07Por causa do Porto-passo de Ferreira
02:09Vá lá, vá lá
02:10Dessa vez ganhamos
02:12Mas é, está há muito mau tempo
02:14Boa tarde, Dalíno
02:15Olá, Rosário
02:16Boa tarde, boa tarde é alcunha
02:17No tempo deste
02:18É verdade, está de facto muito mau tempo
02:29Olha lá
02:31Tu achas mesmo que estamos doentes?
02:32Estamos, estou é que estás
02:33Estás farto de espirrar?
02:34Eu não, eu só estou um bocado molhado
02:36Não é isso, doentes da bola
02:38Tu achas que há cura para isto?
02:40A ver há, Marcial
02:40A ver há
02:41É não irmos ao jogo às santas
02:44Não ver os jogos na televisão
02:45Não ouvir o relato
02:46Não discutir futebol
02:48Não ler os jornais desportivos
02:50Não ver o domingo desportivo
02:51Não ver o remate
02:52Não concorrer ao gol da jornada
02:53Nem fazer apostas
02:54Nem jogar no tonto à bola
02:55Tudo isso, pá
02:56Não há remédio
02:57Olá, mas tu estás maluco?
02:58E o que é que nós fazíamos?
02:59Sei lá, pá
03:00Fazíamos outra coisa qualquer, homem
03:01Divertíamos-nos
03:03Divertíamos-nos
03:03Sem bola
03:04Como?
03:04Sim, sim, sim
03:05Há tantas coisas para fazer
03:06Sei lá
03:07Olha, por acaso não estou a lembrar de nenhuma
03:09Ah, pois
03:09Não te deixaste a lembrar
03:10Pois esse é que é o problema
03:11Não, olha, à pesca
03:12Íamos à pesca
03:12Ah, íamos à pesquinha, não é?
03:14E ouvimos o relato, não é?
03:16Isso não é a mesma coisa aqui da Santos?
03:17Pois é isso, pá
03:18É isso, não queríamos saber
03:19Acabávamos, cortávamos com o raio de futebol
03:21Não queríamos mais saber
03:21Pronto
03:22Ah, e o porto?
03:23Também cortávamos com o porto?
03:24Não, bem cortávamos com o porto
03:25Cortávamos com tudo
03:25Desligávamos a ficha e pronto
03:27Tu és maluco, pá
03:28Eu morria da cura, pá
03:30Ah, tu és doido, pá
03:32Era como se eu não estivesse vivo
03:34Marcial, Marcial
03:35Nós não estamos vivos
03:37Nós perdemos tanto tempo com o futebol
03:38Que a vida passa-nos ao lado
03:41Eu li isto em qualquer lado
03:42Ah, tu sabes que
03:44Definitivamente estás doido, pá
03:45O porto é a minha vida, pá
03:47E não ontem sonhei com o pinto da costa
03:48Estás a ver?
03:49Estás a ver?
03:49Estás a ver?
03:50É isso
03:50Estamos lixados, pá
03:52Eu ando há oito dias a sonhar
03:53Com a perna lesionada do Domingos
03:55Quando podia sonhar com a perna boa
03:57Da guida das mobílias
03:58Ah, pois é
03:58Mas olha que também já me aconteceu a mim
04:00Olha, sonhei que o Domingos
04:01Não podia jogar no final da taça
04:02Ai, não digas isso
04:03Que até me arrepias
04:04Ou seja, até pode dar azar
04:06Realmente era bem melhor
04:07Sonhar com a Cláudia Schiffer
04:08Ou com essa tal guida das mobílias
04:10Que eu nem conheço nem nada
04:11Maldito futebol
04:12Ai, o que é que eu disse?
04:14Estou mesmo doente, pá
04:15Retiro o que eu disse
04:18Tchim
04:20Para que é que não saia de casa?
04:21Para ver aquilo
04:23O Benfica a ganhar nas Antas ao Porto
04:27E eu?
04:28Eu podia estar agora no cantinho
04:30Com a guida das mobílias
04:31Maldito futebol, pá
04:32Olha, eu disse outra vez
04:33Está bem, olha, agora está dito, está dito
04:35Tu já viste as oportunidades de golo
04:37Que eu tenho perdido na vida
04:38Por causa da bola, pá
04:42Boa noite
04:43Oliva
04:44Onde é que tu andaste até agora?
04:46Ei, fala baixo, pai
04:47Lá estás tu a plicar comigo outra vez
04:48Tu também não vens na rua?
04:50Da rua não, eu venho das Antas
04:51Então é a mesma coisa
04:52Eu fui estudar para a casa da Marta
04:54Pá, pai, vai chatear outras
04:55Está lá a miúda, pá
04:56A deçado nervoso é ela que paga, pá
04:58A culpa não é dela, é do árbitro
04:59Pois, pois
04:59Sabes uma coisa, pai
05:00Sou sempre eu que as pago
05:02É, mas já vi, já vi
05:03Que hoje o Porto perdeu
05:04Nós, nós é que perdemos, Lila
05:05Fomos nós que perdemos
05:06Ah, fomos gamados
05:07Ah, eu quero lá saber disso
05:08Desde que não me chatees
05:10Nada a ver?
05:11Já ninguém me respeita
05:16Ó, Marcial
05:17Tu não tens aí uma aspirina, pronto?
05:18Ah, pá
05:19A nossa doença
05:20Não passa com aspirinas
05:25Passa com árbitros da maneira
05:28Estamos doentes
05:32Ai, dona Rosário
05:33Vestidos de inverno
05:34Não gosto de nada
05:35Fica tudo escondido
05:36Que horror
05:38Ai, as saudades que eu tenho do verão
05:40Ai, se quiser
05:41Eu faço-lhe uma racha aqui
05:43Não adianta nada
05:44Boa tarde, dona Conceição
05:46Tá boazinha?
05:47Boa tarde, dona Soluniga
05:59Pois é
05:59Se não tivesse ido à bola
06:00Debaixo do temporal
06:01Já não estava doente
06:03A doença dele é a bola
06:04Ai, a bola, é?
06:06O senhor Andrade é doente da bola?
06:08Oh, oh, dona Conceição
06:10Olha, em último grau
06:12Ai, coitadinho do senhor Andrade
06:16Também com esse nome, não é?
06:17Isso é cerqueira
06:19Ele também ia à bola
06:20Está completamente curado
06:23Completamente curado
06:24Não me diga
06:25É verdade
06:25Mas o Mir é um autêntico milagre
06:27É?
06:28Eu já estava pelos cabelos
06:30Sabem como era
06:31Era só bola, só bola, só bola, só bola
06:33Os negócios irem por água abaixo
06:35Nem queira saber
06:36Olha, dona Rosário
06:37Um doente da bola dá a cabo de tudo
06:39Ah, pois é
06:40Então é o que eu digo
06:41Mas sabe
06:41E ainda me pode pegar a doença ao viúdo
06:43Porquê que não o levam aos doentes da bola anónimos?
06:46Aos alcoólicos anónimos?
06:48Quais alcoólicos?
06:49Olha, olha que a bola é pior que o álcool
06:50Ah, é o que eu digo
06:51E sai mais caro
06:52Oh, coitadinho do Marcelo
06:54Então é única distração que ele tem
06:55Ai, lá, única aí, filha
06:57Que o diabo do homem não pensei mais nada
06:59Olha, convenço-o, dona Rosário
07:00Convenço-o
07:01Se quer salvar a sua família, convenço-o
07:03Convenço-o?
07:04É ir a uma sessão dos doentes da bola anónimos
07:07Foram eles que salvaram o meu marido
07:08Ah, pois, pois, olha
07:10Pensando bem
07:11Se for preciso, até o convenço eu
07:13Sim, porque a verdade é que
07:14Que ele se salvou ou não
07:15Não interessa nada
07:16Mas ao menos, olha, salvamos-nos nós
07:19Aquilo é formidável, dona Zulmira
07:21Ah, até tem psicólogo e tudo, não é?
07:24Eles fazem umas reuniões e falam, falam
07:27Ai, falam e não lhes fazem doer
07:28Ah, isso não sei
07:30Mas lá que falam, falam, não é?
07:32Oh, mas olha lá, conversa
07:34Conversa tem ele que chegue
07:35O que ele precisa é de choques elétricos
07:39Bem, talvez também de, não é?
07:41Olha, o que eu sei é que eles falam
07:44Ah, bom, é?
07:45Então pronto, está decidido
07:46Vamos mandar-o lá para esses tais anónimos, filha
07:50Olha, pode ser que pegue
07:51Mas a maizinha acha que eu vou lá
07:53Acho, pois, filha, acho
07:55Então se resultou com o marido da dona Conceição
07:57Pode ser que resulte também com ele
07:59Olha, filha
08:00E com um bocadinho de sorte
08:03Até pode ser que lhe apliquem choques elétricos
08:13Eu não sei como é que ele vai encarar isto, mãe
08:16Eu tenho medo
08:17Quem tem medo compra um cão
08:19Filha, dizemos-lhe que tem que ir
08:21E pronto
08:21Mas ele não vai a mal, mãe
08:23Toda a gente vai a mal
08:25Claro que depende do mal, não é?
08:27Mãe, não sei, não sei
08:29E como é que lhe devemos dizer?
08:30E se ele não quer ir?
08:32Não quer
08:33Era o que faltava
08:35Ah, mas ele
08:35Quem julguei ele que é?
08:37Ah, não
08:38Mãe, pronto, mãe, pronto
08:40Era só eu a pensar
08:40Então não pensas
08:42Não pensas
08:43Pronto, olha, eu vou-te dizer
08:44É assim, está decidido
08:46Quem fala com ele sou eu
08:48Tu
08:49Caladinha
08:50Caladinha
08:51Vamos lá a ver se ele quer ir ou não
08:53Ah, vai
08:57Boa tarde
08:58Boa tarde
08:59Boa tarde
08:59Boa tarde, dona Zumbira
09:00Olá, Ivaline
09:02Olá, Ivaline
09:03Ainda bem que estão aqui as duas
09:04Nós temos uma coisa importante para lhes dizer
09:06Ah, tu é que tens
09:06Ora, ainda bem
09:08Imagina a coincidência
09:09É porque eu também tenho uma coisa para dizer
09:11Tenha calma, mãezinha
09:12Tenho, tenho, tenho
09:13Eu e o Marcial vamos entrar para um sítio
09:15Para um sítio?
09:16Uma coisa chamada alcoólicos anónimos
09:18Ah, não
09:18Doentes da bola anónimos
09:20Vamos tratar-lhes da saúde
09:22Bem, isto é
09:23Eles é que nos vão tratar da saúde a nós
09:24Estás a ver, filha, estás a ver?
09:27Mas eles estão doentes
09:28Da bola
09:29Estamos doentes da bola
09:30Mas ouvi dizer que estes tipos fazem autentos milagres
09:33E os meus negócios estão mesmo a precisar do milagre
09:35A ideia foi dele
09:36Pois, depois, claro que tinha que ser dele
09:39Sua não
09:40Porque você é lá capaz de ter uma ideia
09:42Ai, parabéns, parabéns
09:44Que grande ideia
09:45Amanhã já vamos começar
09:47Rosário, o Marcial vai vir outro
09:49Um marido novinho em folha
09:51Ah, mas a ideia foi dele
09:52Já disseste, pá
09:53Pronto, tem calma
09:54Mas tu concordaste
09:55E isto ainda vai na primeira volta
09:56E se tudo correr bem
09:58Rosário, eu talvez consiga vender uns seguros
10:00A aqueles alcoólicos anónimos
10:01Ou doentes da bola anónimos
10:02Ou lá o que é
10:02E juntava-se o útil ao agradável
10:04Ai, Deus, queira, corra tudo bem
10:06Ah, vai correr bem, Rosário
10:06Se eu não servir para mais nada
10:07Ao menos sempre se convive
10:08Bom, nós já dissemos o que tínhamos a dizer
10:11E agora a Dona Zulmira
10:12Tinha uma coisa para nos dizer
10:13O que é
10:13É, eu
10:14Não, não, não, nada, nada
10:16Olha, por acaso até já me esqueci
10:18Ah, esqueceu-se
10:20Foi
10:20Pronto, vai para os esquecidos anónimos
10:23Também deve haver disso, não é?
10:51Boa tarde, boa tarde
10:53Boa tarde, boa tarde, boa tarde, boa tarde
10:56Ai, que dia
11:00Bom, vamos a isto
11:04Ah, já vi que há fotos
11:07Ah, nascemos aqui duas caras novas
11:13O senhor Andrade
11:16E o senhor...
11:18Idalino Batista
11:19Representações
11:20Muito prazer
11:21Muito prazer
11:25Vou apresentar-vos
11:27Os vossos colegas
11:29De equipar
11:31Este
11:32Ah, não é este
11:33Ah, este
11:36Este
11:37É o senhor Andrade
11:38Já foi um grande
11:39Portista
11:40Até recebeu a medalha
11:42Dos 50 anos
11:43Ah, é a medalha
11:44Está aqui, sr.
11:45Está aqui
11:45Ah, o senhor Andrade
11:47Andrade
11:48Andrade
11:48Andrade
11:48Andrade
11:48Andrade
11:48Andrade
11:49Andrade
11:49Andrade
11:49Andrade
11:50Andrade
11:51Andrade
11:51Andrade
11:52Passou do adepto do Porto
11:53Para adepto do Passo de Ferreira
11:55Do Passo de Ferreira
11:56Passou para o...
11:58Onde é que anda a vossa?
11:59Eu sou sócio honoráfico do Gervich
12:02Ah, estão a ver, estão a ver
12:04Já vai na terceira divisão
12:06Qualquer dia estar os amadores
12:09Depois passa para o IAR
12:11Depois passa para a Cusueca
12:13Daqui um mês ou dois
12:15Está completamente curado
12:18E o...
12:19Onde é que está o senhor Martins?
12:21Está cá, sr.
12:21Doutor, está cá, cá
12:22Ah, mudou de lugar
12:27O senhor Martins anda a lutar
12:29Contra a dependência da arbitragem
12:32Um caso muito difícil
12:34Dificil, sr.
12:35Dificil, sr.
12:37Bom, estamos a isto
12:39É, sr. Torres, falta apresentar o sr. Correia
12:44Muito prazer, muito prazer
12:52Já dei, sr. Correia
12:55Bebe quando o Porto pede
12:58E quando o Porto ganha, sr.
13:03O sr. faz milagres, sr. O sr. faz milagres, milagres
13:09Muito prazer
13:11Ah, prazer
13:12Prazer
13:15Já dei, sr.
13:16Ah, sim
13:16Ah, e o sr. o que é que se queixa?
13:20Ah, dos árbitros
13:21Está calado, pai
13:23Ah, sr. tenha paciência
13:24Ele está muito atacado
13:26Ah, um caso típico de Portite Crónica
13:31Ah, já tem curado muitas Portites
13:33E também vem friquites
13:35E suportinguites
13:38Até uma Portimunensite
13:40Já cá me apareceu
13:42As terceiras divisões dites
13:44São muito difíceis de tratar
13:47Estamos a boas, moça
13:48Temos, estamos a boas
13:54E o sr.
13:55É o empresário dele
13:58Não, não, sr. eu só
14:00Eu ando com umas febres
14:03Ah, febre, percebo
14:06Pegou-se-lhe
14:07Pegou-se-lhe
14:08É, é
14:09Bom
14:10Mas vamos lá
14:11Já estamos atrasados
14:16Comece, sr. Andrade
14:18Começar o quê?
14:22Comece, sr. Andrade
14:25Comece
14:25Ah, fale
14:29Exprima-se
14:30Não seja tímido
14:32Exprimir-me como?
14:34Fala, homem
14:35Fala-te
14:36Fala do seu sofrimento
14:38Aquelas coisas resolvem-se
14:41Falando
14:41Ah, mas falando de quê?
14:43Ah, da sua experiência dolorosa
14:47Como é que começou o seu sofrimento?
14:51Doente da bola?
14:52Ah, desculpe-se, doutor
14:53Mas eu dessas coisas não falo
14:54Eu tenho vergonha
14:57Oh, oh, oh, oh, Marcial
14:58Fala, homem
14:59Não tenhas vergonha
14:59Oh, médico
15:00Deixo-lhe tudo
15:01Ah, mas eu não posso falar
15:02Dessas coisas
15:03São coisas íntimas
15:03No meio desta gente toda
15:05Não posso
15:05Calme-se
15:06Calme-se, calme-se
15:07Sr. Andrade
15:19Calme-se
15:19Talvez o senhor
15:20Eu?
15:20Sim
15:21Sim, senhora, pois
15:21Pois é, oi, então vamos lá a isso, então
15:23Ora, bom, comecemos, então
15:26A minha história dava para fazer uma telenovela
15:28Olha, se não se importa, passa para o último episódio
15:31Que já estamos sem expressa
15:32Pois, pois, eu posso dizer que eu
15:34Eu nunca fui uma pessoa que ligasse muito ao futebol
15:36Até um dia, há 20 anos
15:39Ainda me lembro
15:40Era um dia de verão
15:41E chovia torrencialmente
15:43Salte, salte
15:44Salte, salte
15:44Salte há alguns anos, se faz favor
15:45Que estamos com pressa
15:46Bom, então eu vou saltar
15:47Eu vou saltar 15 anos
15:49Eu
15:50Era um jovem estudante alicial
15:52Por acaso não pode andar mais depressa, Sr. Batista?
15:56Vou saltar mais quatro ou cinco
15:58Talvez naquela época em que o Barrigana
16:01Por favor
16:03Por favor, Sr. Batista
16:06Ah, por favor
16:08Vá direito à baliza
16:10Vá direito à baliza
16:12Comece no último domingo
16:14Ah, não, não, não, Sr. Doutor
16:14Não, não, não
16:15No último domingo não
16:16Nós perdemos em casa
16:17Pois, pois
16:17Não podemos arranjar um dia melhor
16:19Um dia assim
16:20Talvez no final da supertase
16:21Exato
16:23No último domingo
16:24No último domingo
16:25Acalme-se
16:26O Gervito estava a jogar
16:27E o árbitro
16:28Acalme-se, acalme-se, Sr. Adalberto
16:30Que seja o ótimo que contou essa história
16:31Não, não, não
16:32Tens falados mais novos
16:33Não
16:36Comece, Sr. Andrade
16:37Conta-nos, conta-nos
16:38Então e eu?
16:40O senhor
16:40O senhor acabou o seu tempo de antena
16:44Vai, cabaloso
16:45Vai, Sr. Andrade
16:47Fala-os da sua experiência
16:48Fala depressa
16:50Fala depressa
16:50Sennão ele acaba o jogo
16:51E a gente já está a pagar
16:52A primeira sessão
16:53Bom, é
16:54Meu pai
16:56Escreveu-me
16:57Como sócio do Glorioso
16:59E daí ele não tinha nascido
17:01Quem?
17:01O Glorioso?
17:02Não, não
17:02Meu pai
17:03Ah, perfeito
17:04Depois, eu fiz-me sócio de bancada.
17:07Depois de nascerem?
17:12Aos 15 anos, tive o meu primeiro autógrafo do Jaburu.
17:16Aos 16 anos do Hernani. Aos 17 anos, eu já tinha o...
17:21Acalme-se. Acalme-se, Sr. Andrade. E mais sintomas?
17:26Olha lá, então tu tiveste um autógrafo do Hernani?
17:29É, mas nunca me tinhas dito.
17:31O senhor tem insónias, tem pesadelos, tem doze nas costas.
17:39Quando o folha falha...
17:40O que? O folha? O folha nunca falhou.
17:43Percebo, percebo. Já vi que a sua portita é degenerativa.
17:49É um trauma de infância.
17:53Agravado por uma demência de senil.
17:56Vais fazer o mesmo tratamento retardado do Sr. Adalberto?
18:00Amanhã mesmo vai escrever-se sócio do Salgueiro!
18:04Salgueiro!
18:06Eu serei sócio do Porto até morrer!
18:08Mata-se!
18:10Calma, então o quê?
18:12Marcial, não vai acontecer nada.
18:14Isto é só um tratamento. Não tenhas medo. Isto não dói nada.
18:16É como quem apanha uma engenhação.
18:17Um traidor benfiquista!
18:19Calma, calma, calma.
18:20Ok. Percebo, percebo.
18:23Para si...
18:24O tratamento de choque!
18:27Chacarão! Chacarão! Chacarão! Chacarão! Chacarão!
18:31Turma! Turma! Turma!
18:32Turma! Turma! Chacarão!
18:33Turma, descarada consigo!
18:37Calce! Turma! Calce!
18:41Não, não...
18:42Meta o cartão no...
18:43Ah, não!
18:44Não!
18:45Meta o...
18:45Meta o apito no cartão!
18:47Meta o apito no...
18:48Não, não...
18:52Bom, o Soutor!
18:54Esse tratamento de choque dói muito?
18:56Dói um bocadinho...
18:58Eu vou-me embora!
19:00Espera, Marcelo! Espera aí!
19:01Espera aí, porque não!
19:02Não cola, não cola, não cola!
19:03Não cola!
19:04É um tratamento. E pensa na tua família.
19:06Na sua família? Qual é a receita?
19:08Espera aí.
19:08Calma, mas parece que eu não o seguro.
19:13Espera aí. Olha a receitinha.
19:14Ao menos leva a receita.
19:16Qual é a receita qualquer?
19:17Esta é para si.
19:24Eu não aguento.
19:25Aguentas, aguentas. Aguentas, Marcial, que eu estou aqui para testar.
19:28Estou aqui.
19:30E para si, o mesmo tratamento.
19:35Não! Não! Marcial, eu não aguento.
19:39Eu também não aguento.
19:43Ai, mãe, Deus queira que aquilo não lhe faça mal.
19:46Ele é que pode fazer mal àquilo, filha.
19:48Ah, mãe, pois é. Mas se ele não gostar, ele nunca mais lá quer ir.
19:51Quer, quer, quer. Nem que eu tenha que o levar para o Mouraia.
19:56Mãe, vem aí o pai. Viu da janela.
19:59E como é que ele vem, Zé Zé?
20:00Como é que ele vem? Venho a pé.
20:02Mas venho amparado pelo idolino.
20:03Ai, meu Deus.
20:10Mas o que é que foi, querido? Tu estás bem?
20:19Lá, mas Almira, não obriga a dizer nada agora, que eles têm estado de choque.
20:22Ah, valha-me Deus, mas o que é que lhe fizeram?
20:24Olha, deram-lhe eletrochoques, feio.
20:26Não, não. Pior, pior. O psicólogo rasgou-lhe o cartão de sócio do Porto.
20:30Oh, coitadinho. Ai, tens que ter paciência, querido. É de tratamento.
20:35Olha, sempre é melhor que levares injeições.
20:36Ai, que amor.
20:37É melhor deitá-lo. É melhor deitá-lo um bocado até ele se habituar à ideia.
20:41Ah, grande psicóloga.
20:43Então me vou sair dali no centro de semana.
20:45Ai, eu aguento melhor. Eu já estou habituado. Pior vão ser os trabalhos de casa.
20:49Ai, que amor.
20:50Mas vamos, deixa que pareça isso.
20:51E se passa, vai teitar, vai teitar.
20:53Anda, que eu vou sonar um calmante.
20:56Anda.
20:57Meu Deus, como ele vem?
21:00Olha que aquilo é duro, Dona Zulmira. É duro.
21:02Ficamos sem os cartões e agora não podemos ir logo às centros.
21:05E o jogo da Liga dos Campeões.
21:08Nem o podemos ver na televisão. É o que ele chama um tratamento de choque.
21:12Tratamento de choque, isso.
21:13Ora, ora, Idalino.
21:15Esse já eu lhe tinha receitado há muito.
21:18Nem sequer podemos ouvir o relato, nem ver o resumo no remate.
21:21Oh, Dona Zulmira, olha que dói muito.
21:23Dói muito.
21:24Mas, ouça, o que me interessa é isto.
21:26E o que mais?
21:27Ele sabe o que eu queria era interná-lo, não é?
21:29Pois, mas sabe o que é que ele queria?
21:30Ele queria que nós queimássemos as bandeiras e os cascóis do Porto.
21:34Ah, mas eu negociei isso, eu negociei.
21:36Eu fiz de um desconto num seguro para saúde.
21:39E ele deixa-nos ficar com as bandeiras assim mais uns 15 dias.
21:47Paga, pai.
21:48O que é isto nesta ação de campanha?
21:50Olha, eu queria que a ir era no Estádio das Antas.
21:52Cala, seu paspalho.
21:53Vá, pague lá o que deve ao miúdo.
21:56Vá lá, Zezé.
21:59Que horas são?
22:01Dez horas.
22:02Já vai a meia da primeira parte.
22:04Ah, olá, não sou meia.
22:05Desculpe, saímos.
22:12Quanto é que estará?
22:13Porque eu ouvi.
22:14Tenho ouvidos de tísica.
22:16Ah, preste-me a ser atenção ao jogo.
22:18Não lhe falo no jogo, mas em aquele lembra-se.
22:21Faus ou mil paus, pai.
22:22Oh, Zezé, olha, olha, fica com tudo.
22:24Pronto, pega lá.
22:25Já estou farta desta porcaria.
22:26Oh, pai, vá lá.
22:27Tenha paciência.
22:28Continua a jogar.
22:28Ajuda-te a distrair.
22:30A equipa vai esfarrapar-se nas Antas e nós aqui a jogar isto.
22:33Eu não sei se estamos a perceber bem.
22:34Eu vou fazer à cozinha.
22:38Oh, pai, espera, joga.
22:40Pode ser que compres a companhia das águas.
22:42É a terceira vez que vais beber a água, pai.
22:45Ah, estou cheio de cedo.
22:46Ah, coitadinho.
22:48É dos nervos.
22:49Oh, Ida Lino, joga ou não joga?
22:51Oh, Lila, joga tudo, filha, joga tudo.
22:54Ei, vocês não ouviram?
22:58Ouvimos o quê?
22:59Luzinas de carros.
23:01Se calhar foi a gola do Porto.
23:03Oh, pai, andas cá.
23:05Ei, tu o vês.
23:10Venha jogar, seu paspalho.
23:12Que o miúdo quer jogar.
23:14Já vou, já vou.
23:22Não me desce, senhora.
23:24Está bem, está bem.
23:25Então, pai, o jogo acabou?
23:27Não, ainda está na primeira parte.
23:29Se acabou, ganhei.
23:31É, Marcelo, não houve os carros a buzinar?
23:33Tá, eu não ouvi nada.
23:34Estava com a cabeça no frigorífico.
23:35O quê?
23:36Estavas com a cabeça no frigorífico?
23:39Era para beber água fresca.
23:41E se ligássemos a televisão?
23:42Não, não.
23:44Hoje ninguém liga a televisão cá em casa.
23:46Pois, mas era para ver o que acontece.
23:48É?
23:49Se você não está aí quieto, você é que vai ver o que é que lhe acontece.
23:52O que acontece é só livros, querido.
23:54É, é sério, ouça, ouça.
23:55Não houve aí os carros a buzinar, não é?
23:57Ah, Lix, querida.
23:58O que ele quer é ver se vê o rei do futebol.
24:01Julga que eu que não topo os truques baixos, não é?
24:05Palerma.
24:05Não, não.
24:06Isto é tudo mentira.
24:07Isto era só para não ver o livro da jornada...
24:09O livro da semana.
24:11Ah, tem paciência, querido.
24:12Então, o jogo está quase a acabar.
24:14Ainda faltam-me cinco minutos para acabar a primeira parte.
24:16Oh, pai, anda lá.
24:17Estou a jogar.
24:18Oh, Lila, joga-te por mim e eu volto.
24:21Onde é que vai?
24:22Fico já aí na mesa quieto.
24:24Deixe-o ir, mãe.
24:25Então ele está cheio de cena outra vez.
24:27Ai, mulher, o rei do homem hoje que não para quieto.
24:30Tenha paciência, mãe.
24:31Então ele está muito nervoso.
24:32Pronto, jogo eu.
24:35Gol!
24:38Oh, meu céu, o que foi?
24:39Oh, pai, foi o Domingos.
24:411 a 0.
24:42Oh, meu Deus.
24:43Olha, meu Deus.
24:45Grande a porta, grande a porta.
24:46Seu malandro, seu pásspaio.
24:50É cá, isso.
24:52Ai, mãe, para com isso que eu quero estudar.
24:55Ai, querendo filha, para com isso.
24:57Que nervos, tu hoje não paras de limpar.
25:00Que nervos.
25:00Ai, não consigo estar parada.
25:01Pronto, estou muito nervosa.
25:02Ai, só penso no Marcial.
25:04Coitadinho, Deus queira que ele fique bom.
25:05Bom?
25:06Tu não viste o que ele fez outro dia ouvir o relato no frigorífico?
25:10Ah, mãe, então isso foi há uma semana.
25:12Foi no princípio do tratamento.
25:13E a mãe também não tinha nada que lhe partir o rádio.
25:16Tu és muita palerma, palavador.
25:19Ainda te fias nisso.
25:21Ah, filha, aquele nunca se há decorar.
25:23Ah, não seja pessimista, avó.
25:25Ele tem ido sempre aos tratamentos.
25:26Ainda hoje foi a ero, o dia de jogo grande.
25:28Cala-te, Lila, que isto não é nada contigo.
25:30Eu é que sei.
25:32Olha, para vosso governo,
25:34ele não me deu por nada, não percebeu.
25:35Mas ontem apanhei-o a ler um jornal da bola.
25:39Ai, era antigo, mãe.
25:40Foi a mãe que o trouxe a embrulhar o peixe.
25:42Ah, filha, isso não interessa nada, não interessa.
25:44O que interessa é que ele ainda tem o vício no corpo.
25:47Ah, não tem nada.
25:49Ora, veja hoje.
25:50Hoje, por exemplo, o Porto joga a final da supertaça, lá o que é.
25:54E ele foi ao tratamento.
25:55Ah, coitadinho.
25:56Então ele que queria tanto ganhar a supertaça.
25:58Ai, filhas-me de ingênua.
26:00Tu sabes lá bem para onde é que ele foi.
26:02Ah, filhar, que ele não é de fiar.
26:04Ah, mãe, foi à sessão.
26:06Era uma sessão de tratamento muito importante.
26:09Ah, era também o jogo.
26:10Também o jogo era importante.
26:13Olha lá.
26:15E se ele foi ao jogo?
26:17Pare com isso, avó.
26:18Ele foi ao tratamento.
26:22Ah, de prazer.
26:23Entruí-me de selo.
26:28Eles ainda não chegaram?
26:30Ah, parece impossível.
26:31Ah, eles chegam sempre atrasados, Soutor.
26:34Isto é sempre a mesma merda.
26:35Calma, pessoal.
26:36Calma, calma, que ainda há tempo.
26:38Ah, Soutor, eu posso falar?
26:39Eu sou o primeiro.
26:41Depressa, Soutor Alberto.
26:42Depressa, olha as horas.
26:44Ah, Soutor, eles nunca chegam agora.
26:47E se nós for...
26:47Estamos aqui, parceiro de Alberto.
26:50Ah, mas eles abusam.
26:53Já começou.
26:55Não sou nada.
26:56Eles estão sempre atrasados, Soutor.
26:58Vamos embora, vamos embora.
27:00Vamos lá, vamos lá, vamos lá.
27:02Vamos lá.
27:03Calma, calma, calma.
27:05Sempre para cachar os bilhetes.
27:07Banca da central.
27:10Vamos, vamos, até vão comer a relva.
27:14O meu cascó.
27:16Sempre vamos.
27:16Vamos.
27:18O meu cascó.
27:19O meu cascó.
27:22Onde está o meu cascó?
27:24Olha as horas.
27:26O meu cascó.
27:41Eu já não preciso.
27:43Estou curado.
27:44Porto! Porto! Jorge!
27:48Porto! Porto!
27:53Porto! Porto!
27:57Porto! Porto!
28:04Numa casa portuguesa fica bem
28:09Pão e vinho sobra a mesa
28:13E se à porta humildemente bate alguém
28:17Senta-se à mesa com a gente
28:22Fica bem essa franqueza, fica bem
28:26Que o povo nunca desmente
28:30A alegria da pobreza está nesta grande riqueza
28:35De dar e ficar contente
28:45Legenda por Sônia Ruberti
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