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  • há 6 dias
Transcrição
00:26Numa casa portuguesa
00:53Numa casa portuguesa
00:57É do tempo em que eu aturo o teu marido
01:01Oh mãe, temos que ter todos paciência uns com os outros
01:04A mãe também tem os seus defeitos
01:06Tenho, mas tenho-os na minha casa
01:08Não vou tê-los na casa dos outros
01:10Oh mãe, não diga isso, coitadinho
01:13O Marcial também está na casa dele
01:14Isso é o que ele julga
01:17Não, a casa não é dele, é nossa
01:19Ele caiu, foi aqui para quedas
01:21Oh mãe, somos todos uma família
01:24Estamos todos não, todos menos ele
01:28Ele não é da nossa família
01:29Ai tu não confundas filha, não me confundas
01:31É da família sim mãe
01:33Somos da mesma família
01:35E temos que nos aturar uns aos outros
01:37Família dele que o ature, eu não
01:39Eu não sou da família dele
01:41Oh mãe, ele também lhe atura muita coisa
01:43A mãe às vezes
01:44Como é que eu ia dizer, a mãe às vezes é para ele
01:47Uma sogra
01:48Ah é, e ele é para mim um género, filha
01:53Tu não viste?
01:54Não viste o que ele hoje fez ao almoço?
01:56Oh mãe, então ele só não gostou do empadão, mais nada
02:00Podia não ter gostado, mas comia
02:02Eu também engulo todos os dias muitas coisas de que não gosto
02:07Mas o Zezé também não queria comer
02:09Pois é, mas o Zezé é da família e acabou por comer
02:13Pois, e o Marcial também acabou por comer um bocadinho
02:16Comeu, comeu pão com manteiga
02:18Mamou três ou quatro peixes
02:19Por isso é que agora não temos pão para o jantar
02:21Oh mãe, então ele estava com fome
02:23Vê, se estava com fome, comia o empadão
02:25Eu também o comi e tu também o comeste
02:27Ora, aqui esta
02:29Se não fosse cá por coisas
02:31Eu dava-lhe, mas era o resto do empadão ao jantar
02:34Oh mãe, não diga isso
02:35Coitadinho do Marcial
02:37Coitadinho do Marcial, coitadinho do Marcial
02:39Coitadinho do Marcial
02:39Ai filha, para a tua saúde
02:40Vê se apagas o raio da cassete
02:42Também, caramba, já não te posso ouvir
02:45Ai filha, mas eu estou farta desta vida
02:48Eu estou farta, Rosário
02:50É todos os meses, todas as semanas, todos os dias
02:53Anos e anos
02:54Sempre as mesmas discussões
02:56Sempre os mesmos gritos
02:57Sempre as mesmas máscaras
02:58Caramba, também é demais, filha
03:01Também é demais
03:03Mas claro que tu também não ajudas nada, filha
03:06Tu também não ajudas nada
03:08Porque claro, se tu te pusesses ao meu lado, filha
03:11Entre as duas
03:12Nós metíamos-lhe ali na ordem em três tempos, filha
03:16Mas o Marcial não vai à força
03:18Não
03:19A mãe julga que ele também gosta deste ambiente
03:21Com a mãe sempre a tratá-lo com duas pedras na mão
03:24Duas pedras na mão
03:25Olha, filha
03:27Então mande-lhe um recado
03:29Ele que dê graças a Deus, filha
03:31Ele tem muita sorte
03:32De eu ainda não lhe ter atirado com as pedras à cabeça
03:45Oh, filha
03:46Oh, filha
03:47Eu até me atrevo a pedir-te um favor, filha
03:50Fala com ele
03:51Vocês vão para o quadro, estão os dois sozinhos
03:55Conversa com ele, filha
03:56Tenta convencê-lo
03:57É porque ele tem que ceder um bocadinho, filha
04:01Porque claro, ele só faz coisas
04:03Ele só fica contente de fazer coisas que ele sabe que me chateiam
04:07Que me enervam, que me irritam, que me contrariam
04:10E depois, claro, já sabe, eu não sou de pau, nem sou de pedra
04:14Rebento
04:14É assim mesmo
04:15Não é, não, não, não é possível, filha
04:18Não, filha, não
04:20Ai, rio na minha cabeça, cada vez estou pior
04:23Ai, filha, isto assim não pode continuar
04:24Não pode
04:25Isto assim não pode continuar, filha
04:27Eu realmente, eu já, eu já me sinto muito cansada
04:30Eu já, eu já não tenho pra chorra
04:32Para aturar isto, todos os dias, sempre a mesma chatice
04:35Para me chatear, não quero
04:36Não quero, não quero, filha, pronto
04:39Oh, mãe
04:39Se a mãe tivesse só, só um bocadinho de paciência com ele
04:43Oh, filha, mas é que eu, eu já não tenho paciência
04:46Para ter paciência, filha
04:48Não, não, não, filha
04:50Olha, ou ele, ou nós
04:51Isto assim não pode continuar
04:52Não pode, não pode, porque eu não quero
04:54Pronto
04:54Fale baixo, mãe, que as crianças podem ouvi-la
04:56Eu quero lá saber
04:58É isso, é isso que também me dói, sabes?
05:01Já reparaste que isto também aqui em casa, este ambiente, não é vida para os miúdos?
05:06Ai, valha-me Deus
05:08E a mãe julga que isto é vida para mim sempre no meio de vocês os dois
05:12Se tu não o apoiares tanto
05:14Se tu não lhe desses tanto calor, não é?
05:19Eu acredito que ele acabava por vir às boas
05:22Olha, filha
05:23A tua mãe vai ter que te dizer uma coisa
05:26E tu vais-te zangar, mas desculpa, mas tem que ser
05:29Tu tens culpas no cartório, filha
05:31Tens
05:34Oh, mãe
05:34Eu sou como sou e o Marcial é como é
05:37Ai, eu não tenho o direito de ser como sou
05:39Oh, mãe, também tem direito, com certeza
05:41Então pronto
05:42Então, o que é?
05:43Ora, bolas também
05:44Oh, mãe, mas alguém tem que ceder, alguém tem que ceder
05:48Se a mãe, se a mãe só ceder-se um bocadinho
05:54O que é que se janta?
05:55Arrosto de feijão
05:57Feijão?
05:58Que nojo
06:00Hoje querem matar à fome
06:02Ainda há salsichas?
06:03Zé, Zé, Zé, Zé, larga isso
06:05Que isto aqui em casa não é nenhum restaurante
06:08O Nino vai comer o que todos comerem e não fila
06:11O pai também não gosta de arroz de feijão
06:13Querem nos matar à fome
06:16Vá-se a ver, Zé, vá-se a ver
06:19Vá-se a ver o exemplo do teu marido
06:22Mas deixa estar
06:24Deixa estar que eu dou-lhes as esquisitices
06:27Hoje vão comer arroz de feijão
06:29Nem que eu tenha que lhe o enfiar pelas goelas abaixo
06:32Está a ver, mãe, está a ver
06:35Mas o que é que foi agora?
06:37Está a ver
06:44Come imediatamente, Zé, Zé
06:46Ou enfia o teu comer pela boca abaixo
06:50
06:53Isso
06:57Come o feijão, querido, que está bom
06:59Já não comeste nada ao almoço
07:05Olha, mas você come ou não come?
07:08Já viu o exemplo que dá ao seu filho?
07:10Come só um bocadinho, querido
07:12Come, pai, olha, está ótimo
07:14Eu já disse que não gosto de feijão
07:16Ó, Rosário, passa-me mais pão com manteiga
07:20Isto aqui não é nenhum restaurante
07:22Aqui na minha casa come-se o que vem para a mesa
07:24E tu não cuspas o feijão ou levas um par de estalos
07:30Sabe a sabão?
07:31Ai, és muito fino, querias que soubesse a sabonete, não?
07:35Pronto
07:35Eu não como e não como mesmo
07:38Eu não sou nenhuma criança
07:40Nem eu
07:41Não gosto dessa porcaria
07:42E não como, já disse
07:44Porcaria?
07:46Você disse porcaria?
07:48Chamou porcaria ao meu feijão?
07:50Olha que eu não lhe admito, ouviu?
07:51Olha que eu não...
07:52O que vem aqui para a mesa na minha casa
07:54Come-se e não se refila
07:57Já o almoço não quis comer o empadão
07:59Era o que faltava
08:01Olha, mas quem é que vocês julgam que é?
08:03O príncipe de galos, não?
08:05Calma, mãe, calma
08:06Comercial teve um dia difícil no escritório
08:08Então estão lá a fazer o balanço?
08:09Vá, tenha calma, avó
08:10Eu gosto do seu feijão
08:12Qual o balanço?
08:12Qual carapuça?
08:13Eu quero lá saber do balanço dele
08:15Eu aposto que ele vai para a rua para comer porcarias
08:18Ai, é?
08:19Ai, sabe-te mais?
08:19Estou farto de si e do seu feijão
08:21Olha, e não me diga mais nada antes que eu perca a cabeça
08:23Estou farto de atuar
08:24Ah, senta-te, senta-te que eu faço-te uma omelete
08:28Mas onde é que tu vais?
08:29Vou jantar fora
08:30Fora, mas fora onde?
08:31Anda, anda, que eu faço-te uma omelete
08:33Não é que tu vai?
08:34Não vai, senta-te imediatamente
08:36Deixa-o ir, filha, deixa-o ir
08:38Antes que eu perca a cabeça
08:39E lhe atire com a travessa do feijão
08:42Que chatice, caramba
08:43Nunca tem uma refeição em cego nesta casa
08:45A culpa é dele, Lila
08:46A culpa é dele
08:47Não viste?
08:48Não viste o que ele chamou, ô meu feijão?
08:51Ah, mas deixa-o ir
08:52Vá, vá jantar de fora
08:54
08:54Mas avisa-o
08:55Amanhã vai ter outra vez feijão ao almoço
08:59Ah, sim?
09:01Marcial, marcial
09:02Feijão, feijão
09:08Ai, coitadinho
09:09Então ele nem sequer tem dinheiro com ele
09:11Que eu ainda há bocado lhe fui à carteira
09:12Ele só lá tinha 500 escudos
09:13Ah, deixa-o ir
09:14Vá, vai gastá-los em bolinhos de bacalhau
09:17Como das outras vezes, como é costume
09:19Anda a jantar, filha, anda
09:20Anda, acaba de jantar, anda
09:21Vá, e tu come, vá, come
09:22Vá, vamos lá
09:26Não tenho fome
09:28Oh, mãe, menzinha
09:31Faz-me um cachorro
09:33Se tu não tens fome
09:36Comes o feijão
09:37Cá em casa não se servem cachorros
09:45Tens que ter paciência, querido
09:47A mãe no fundo é tua amiga
09:48Ah, no fundo?
09:49Não, olha só se for lá muito no fundo
09:50Ela odeia-me
09:52Quer matar-me
09:53Ah, isto
09:55Maldita jaqueca, pá
09:56Esta franzinha fez-me cá um mal
09:58Ah, filho, nós todos temos que ter paciência uns com os outros
10:01Sabes que ela anda muito nervosa
10:03Ah, anda muito nervosa
10:04E eu não tenho o direito de estar nervosa, não é?
10:06Ela faz do propósito para me chatear
10:08Olha, se eu não gostasse de camarões
10:09Todos os dias me dava camarão
10:11Não digas isso da mãe, querido
10:12Então ela é como é, olha
10:14Temos que ter paciência
10:15Paciência, não é?
10:16Temos que ter paciência
10:17Mais paciência do que aquela que eu tive
10:19E tenho tido toda a vida
10:21Há 20 anos como feijão
10:23Ah, meu Deus
10:24Isto não pode continuar, pá
10:25Ou ela ou nós
10:26Ah, filho, mas alguém tem que ceder
10:28Se tu cedesses só um bocadinho
10:32Eu já cedi o que tinha a ceder
10:34Olha, vou-me divorciar dela
10:36Divorciar dela?
10:37Ai, credo, querido
10:38Tem que haver uma maneira de eu me livrar dela
10:39Vou pedir o divórcio dela, pronto
10:42Se tu não és casado com ela
10:43Como é que tu te vais divorciar?
10:44Isso aí eu
10:45Mas ou ela ou nós
10:46Isto não pode continuar assim
10:48Estou saindo o dia todo a comer franzasinhas
10:50Ainda arranjas uma coisa no fígado por causa dela
10:52Ai, tem paciência, querido
10:54Pronto, tu andas nervoso
10:56E eu amanhã faço-te bolinhos de bacalhau
10:58Ah, bolinhos de bacalhau, não é?
10:59Ela não te deixa fazer bolinhos de bacalhau
11:02Ela odeia-me
11:03Eu vou-me divorciar dela
11:04Ai, não digas isso da mãe
11:06Coitadinha da mãe
11:06Coitadinha da mãe, coitadinha da mãe
11:08Oh, Rosário, tu também não ajudas nada
11:11Só para dar-lhe calor
11:12Ah, filho, mas ela não vai à força, querido
11:15Ela também não gosta deste ambiente
11:17Ah, ainda bem
11:17Então que se mude
11:18Olha, quem não está bem, muda-se
11:20Mude-se?
11:20E para onde nós íamos para ontem?
11:22Nós não
11:22Não, ela
11:22Ela que vai para onde quiser
11:24Ai, ai, não me abrigo de falar alta
11:26Ai, a minha rica enxaqueca
11:27Ai, malditas francesinhas
11:30Ai, eu vou-me divorciar dela
11:31Vou-me divorciar dela
11:32Pronto, então dorme
11:33Dorme, dorme e deita-te
11:34Sim, deita-te para baixo
11:35Vá, amanhã já estás bom
11:37Sim
11:41Foi da francesinha, sabes?
11:43Sim
11:55Foi o meu maior sucesso jurídico, senhor Andrade
11:58Um verdadeiro milagre
11:59O juiz, depois de tudo o que lhe contei
12:02Decretou logo divórcio
12:04Também tenho uma sogra igual
12:06É um momento histórico
12:07O primeiro divórcio entre um gênero e uma sogra
12:10E eu sabia
12:10Eu sabia que o seu doutor havia de conseguir
12:12São livre, livre
12:14E mais
12:15Conseguimos que o juiz lhe desse a casa a si
12:17Ficou o senhor com tudo
12:18Olha, acabou-se o empadão
12:20Acabou-se o feijão
12:21Ela que os coma
12:22São livre
12:23Ninguém o torna a obrigar a comer essas porcarias
12:25O seu destino está nas suas mãos
12:27O seu doutor é um gênio
12:29E mais, não há recurso
12:31Oh, vida!
12:32Bom, tenho que ir
12:33Nem calcula os erros que tenho à minha espera no escritório
12:37Ah, e quanto ao gajo da família, não se preocupe
12:39Eles voltam
12:40O senhor doutor acha?
12:41É normal, não se preocupe
12:43As mulheres vão atrás da mãe delas
12:46E os filhos atrás da mãe deles
12:48Nada mais natural
12:49Pois voltam
12:50Nada mais natural
12:53Bem, muito boa tarde, senhor Andrade
12:54Muito boa tarde
12:55Eu depois mando-lhe a continha
12:56Claro, a conta, claro
12:57A conta, a conta
12:58Ah, a conta!
12:58Oh, o senhor doutor
12:59Não é possível mandar-lhe a ela
13:01A ela?
13:02A ela quem?
13:03A minha sogra
13:04Ah, é?
13:05Oh, diabo, isso é que é um bocado mais difícil
13:07Mas pode-se tentar
13:08É que ela levou a caderneta e...
13:11Bom, vamos ver o que se pode fazer
13:13Muito boa tarde, senhor Andrade
13:14Muito boa tarde
13:14Veja se consegue, veja se consegue
13:16E eu pago o que for preciso
13:17Muito bem, muito boa tarde
13:18Muito boa tarde, senhor doutor
13:19Boa tarde
13:22E aí, pai, que desarrumação que para aqui vem
13:32Tu queres que eu te arrume a sala?
13:35Não te preocupes, Lila
13:36Está tudo no meio
13:37Posso ver o Herman, pai?
13:39Pode, Zezé
13:39A partir de agora podes ver tudo o que tu quiseres
13:42Ah, então já não quero
13:43Olha que a mãe está muito preocupada contigo, pai
13:45Ela mandou-te uns bolinhos de bacalhau
13:47Ah, bolinhos de bacalhau
13:48Ótimo!
13:49Ah, vamos comê-los
13:50E vou buscar uma cola
13:52Já não há cola, Zezé
13:53Só é água
13:54Queres que te façam arroz de tomate, pai?
13:56Não, não, também já não há arroz
13:57Bom, mas comemos os bolinhos de bacalhau
13:59Firmam-se
13:59Eu não quero, pai
14:01Lanchei há bocado
14:02Come tu
14:11Devias comprar mais arroz e mais batatas, pai
14:14E já não tens estrangente para a loiça
14:15Não é preciso
14:17Eu costumo comer aí no café umas francasinhas
14:19Ah, mas isso dá-te cabo do fígado, pai
14:21Dá-me a cabo da carteira
14:23Tu sabes que já custam 700 escudos cada francasinha
14:26Ah, é verdade
14:27A mãe mandou perguntar se precisas de dinheiro
14:29Dinheiro?
14:30Bem, eu precisava, precisava
14:31Mas...
14:32Bom, mas aí já a tua mãe que não se preocupe
14:33Eu lá me vou arranjando
14:35Se não fosse um maldito advogado
14:38O advogado?
14:39Pois
14:39Ele em vez de mandar a conta para a vossa avó
14:42Mandou-a para mim
14:42A conta do divórcio
14:43300 contos
14:44O quê?
14:46300 contos?
14:47Mais 200 para custas, olha lá o que é
14:49Mas então
14:49Então são 500 contos, pai
14:51Onde é que tu vais arranjar 500 contos?
14:53Sei lá
14:54Já deu 700 contos ali no café da esquina
14:56Por causa das francasinhas
14:58Bom, mas eu no fim de mês pago tudo
14:59Ah, e os 500 contos do advogado?
15:01Olha, a tua avó que os paga
15:02Foi por causa dela que eu me divorciei
15:04É, mas e se ela não os paga?
15:06O problema é dela
15:06Vamos lá saber
15:08Maldito advogado
15:09Por acaso preveniram-me
15:10Disseram-me que ele era um aldrabão
15:12Empenha tudo
15:13A televisão, a casa, o salário, tudo, tudo
15:16A televisão também, pai
15:18Olha que tu estás mesmo perdido
15:20Que penhor, mas é a caderneta da vossa avó
15:22Ela é que teve culpa
15:23Foi por causa dela que eu me divorciei
15:26Se calhar tinha sido melhor comer do feijão, pai
15:28Isso nunca, Zezé
15:30Um homem é um homem
15:31E a honra acima de tudo
15:33Pois sim, mas se honra ao menos de comer-se
15:35Ah, pois é
15:36Mas eu posso estar a morrer de fome
15:38Mas feijão nunca mais
15:40Ah, Zezé
15:43Deixaste ali um bocado o bolinho do bacalhau
15:45Tenho muito óleo
15:47Ai, ai
15:49Então como eu
15:50Tchau
15:51Tchau
15:54Tchau
15:55Tchau
15:58Tchau
15:59Tchau
16:01Tchau
16:40Tchau
16:41Tchau
16:41Tchau
16:41Tchau
16:58Tchau
16:59Tchau
17:00Tchau
17:27Tchau
17:28Tchau
17:31Tchau
17:39Tchau
17:42Tchau
17:54Tchau
17:59Tchau
18:00Tchau
18:01Tchau
18:02Tchau
18:11Tchau
18:12Bom, eu vou fazer, por exemplo, um empadão.
18:15Não, mas empadão não. Eu não gosto de empadão.
18:19Deste vais ver o que gostas, pai.
18:21É um empadão de rissóis, queimados e de restos.
18:23Vais ver o que gostas.
18:42Só porcarias.
18:44Onde ela cá estava é que havia programas bons.
18:53Maldito dia.
18:55Não acontece nada.
19:14Já li este jornal para aí dez vezes.
19:16Da semana passada.
19:19Oh, Zezé!
19:20Zezé!
19:21Vai buscar o jornal!
19:22Zezé!
19:26Eu estamos cá, maluco.
19:29Mas já não está cá.
19:34Maldito dia.
19:40Não acontece nada.
19:47Eu comia era qualquer coisa.
19:55Não há nada para comer.
19:57Nem para beber.
19:59Maldita sogra!
20:06Eu não aguento mais isto.
20:09Eu não aguento mais isto.
20:13Se ao menos a Lila estivesse cá,
20:16ou o Zezé.
20:20Ao menos podíamos conversar.
20:25Onde é que estará a Lila e o Zezé?
20:28Deve estar com a mãe.
20:30Ou com a avó.
20:31Ou com ambas.
20:32A culpa é tua.
20:33Não te divorciaças dela.
20:35A culpa não foi minha.
20:36Foi dela.
20:37Não vês que ela me estava sempre a tratar abaixo de cão?
20:39Pois.
20:40Mas tu é que não comeste o empadão.
20:42Nem o feijão.
20:43Aquelas porcarias.
20:44E tu o comias?
20:45Sempre era melhor do que estar a comer agora
20:47o pão da semana passada.
20:49E a honra, pá.
20:49E a honra.
20:50Ao menos pelo velho que sou muito homem.
20:53E os miúdos, pá?
20:54E o Rosário?
20:56Já viste que ficaste sozinho?
20:58E se eles não voltam?
20:59Voltam, pois.
21:00O advogado disse.
21:02O advogado é o Aldo Rabão.
21:05Ah, é verdade.
21:07Maldito advogado.
21:08E se ele me penhora a casa e a televisão?
21:11Maldito advogado.
21:13O único que ganhou foi o gajo.
21:15500 contos por um divórcio.
21:17Que grande gatuno.
21:19E ela também ganhou o aposto.
21:23Ela quem?
21:24A minha sogra.
21:25Aposto que está a rir de mim.
21:27Era disto que ela estava à espera.
21:29Foste um otário, pá.
21:30Fizesse-lhe um jeito foi a ela.
21:32Livrou-se de ti e ainda te levou os miúdos.
21:35Levou os miúdos?
21:36É o levas.
21:37Nem que tenha que lhe pôr um processo.
21:38E o advogado leva-te mais 500 contos, não é?
21:41Estamos lixados.
21:42Nós.
21:42Nós.
21:43Quem?
21:45Nós todos, pá.
21:46Nós.
21:48Nós...
21:48Somos um.
21:50Por isso mesmo?
21:52Não vês que estamos a ficar malucos?
21:53Já falámos uns como os outros.
21:55Miúdos fazem falta numa casa, porra.
21:57Uma casa sem barulho.
21:58Não é casa nem é nada.
21:59E as mulheres, pá.
22:00E as mulheres?
22:02Nem me apetece ver televisão.
22:04Não dá gozo nenhum.
22:05Antigamente ainda havia emoção.
22:07A fera podia aparecer a qualquer momento e começava a disparatar.
22:10Até já tenho saudades dos berros da fera.
22:13Somos mas é masoquistas.
22:15Não vêem que ela estava sempre a insultar-nos?
22:18Ah, mas agora é pior.
22:19Já estou a ficar surdo com tanto silêncio.
22:21E se aproveitássemos e fôssemos às gachas?
22:24Quem é isto?
22:25É um parvo qualquer.
22:27Não lhe liguem.
22:28Não sabe o que diz.
22:33Estou sim, faz favor.
22:35Sim, sim.
22:36Com quem?
22:37Marcial Andrade?
22:38Ah, eu chamo-o.
22:43Qual deles?
23:08Maldito divórcio.
23:09Não agora que mais isto...
23:17Maldito divórcio.
23:25Bom, seja o que Deus quiser.
23:46Isto não será muito desonroso.
23:49São tréguas, pá.
23:51Não é desonra nenhuma.
23:52Não será melhor esperar que elas me peçam a mim.
23:54E se elas não pedem?
23:58Eu pedir perdão não peço.
23:59Está decidido.
24:02E se elas te obrigam a pedir perdão a elas?
24:05Pois é.
24:07Estou metido numa grande encrenca.
24:12Sou tão infeliz.
24:15Queria a minha mãe.
24:17Agora até uma sogra te servia.
24:20Vá lá.
24:21Telefonas e pedes perguntarem para cá.
24:23Tens razão.
24:24Isto tem de ser resolvido e já.
24:37Está?
24:38Lila?
24:39Ah, este o Rosário.
24:41Sou eu.
24:42E o quem?
24:44Sou eu.
24:46Quem sou eu?
24:48Diz que não sabe o que eu sou.
24:51Sou eu.
24:52O teu marido.
24:54Diz que não sabe o que eu sou.
24:55Estou lixado.
24:57Sim.
24:58Ah, pira-te, pira-te, pira-te.
25:00Ó, Rosário.
25:01Sou eu.
25:01O teu marido.
25:03Não tens marido.
25:05Divorciada.
25:06Ó, Rosário.
25:07Não, não, eu divorciei-me.
25:08Foi da tua mãe.
25:09Não foi de ti.
25:10Ó, Rosário.
25:11Ó, Rosário, não te ligues.
25:12Ó, Rosário, Rosário, ouve.
25:13Ó, Rosário, não te ligas.
25:15Não te ligues, Rosário.
25:16Rosário, não te ligas.
25:19Rosário, não te ligas.
25:20Não te ligas, Rosário.
25:22Não desligues! Rosário! Não desligues!
25:27Não desligues, Rosário! Eu peço perdão mas não desligues!
25:31Não desligues! Eu quero a minha mãe...
25:34Eu quero uma mãe qualquer! Eu quero a minha sogra!
25:39Não desligues, Rosário! Não desligues!
25:42O que é que foi, querido? O que é que foi?
25:44Não desligues, Rosário! Não desligues!
25:46Acorda, querido, acorda! Estou aqui!
25:48Rosário, Rosário!
25:50Acorda, querido! Acorda que foi um pesadelo!
25:52O quê? Onde é que eu estou?
25:55Estás aqui, querido?
25:56Então, foi a Francesinha que te fez mal!
25:59O quê? Um pesadelo?
26:01Um pesadelo, sim! Foi um pesadelo!
26:03Tens a certeza?
26:04Tenho, tenho!
26:05Tanto que a Francesinha te fez mal! Pronto, calma-te!
26:08Eu sou eu!
26:10Eu!
26:11Calma!
26:11Eu!
26:17Eu sou eu! Sou eu!
26:19E este é o meu quarto!
26:21E tu és tu!
26:24Tenho calma, querido! Tenho calma!
26:26Anda-te deitado!
26:27Não, não, não!
26:29Pode acontecer a mesma coisa! Pode voltar tudo ao princípio!
26:31Não tem importância! Tu viras-te para o outro lado!
26:34Olha que já são cinco da manhã!
26:37Mas que pesqueiro é este?
26:39Vocês já viram que horas são?
26:46É mesmo a dona Zulmira!
26:49A minha querida dona Zulmira!
26:51A minha querida sogra!
26:55A minha sogrinha!
26:57A minha querida sogra! Veja cá um abraço!
26:59Você está maluco?
27:01Par com isso!
27:02Estás aqui!
27:03Par com isso!
27:05Par com isso!
27:05Olha o rastro na cabeça!
27:08Calma-me!
27:08Calma-me!
27:09Foi um pesadelo!
27:10Larga-me!
27:11Bêbado!
27:11Você não tem fargonha!
27:13Bêbado!
27:15Bêbado!
27:15A esta hora da manhã!
27:16Minha querida sogra!
27:17Você não tem fargonha!
27:19Você não tem fargonha!
27:20Eu dou-lhe a babadeira!
27:21Eu dou-lhe a babadeira!
27:22Calma, mãe!
27:23Que foi um pesadelo!
27:23Teve um pesadelo!
27:25Coitadinho!
27:25Pesadelo!
27:26Pesadelo!
27:27Coitadinho do pesadelo!
27:30Minha querida sogra!
27:32Tenha calma!
27:33Foi a francesinha!
27:36Apatife!
27:37Você anda metido com uma francesa!
27:39Não foi nada!
27:40Apatife, que eu dou-lhe o cabo de si!
27:42Você não tem respeito para a minha filha, mas eu dou-lhe o cabo de si!
27:44Eu bato!
27:45Não dá nada, querida sogra!
27:47Pronto!
27:47Tenha calma!
27:48Vem embora!
27:49Vem embora!
27:50Vem embora!
27:51Já passou!
27:51Não foi nada!
27:52Foi um pesadelo!
27:53Eu vou!
27:54Mas se precisar de alguma coisa, chama-me!
27:57Você não tem vergonha!
27:59Na sua idade!
28:00Na sua idade!
28:01A sonhar com francesas!
28:04Seu!
28:04Seu tarado!
28:06Você é um tarado!
28:07Tarado!
28:08Adeus!
28:08Até amanhã!
28:09Bons sonhos!
28:10Bons sonhos!
28:13Pronto!
28:13Vamos-nos para a cama, filho!
28:14Vamos-nos para a cama!
28:15E não ligue-os ao que a minha mãe diz!
28:16Que ela não disse aquilo por mal!
28:17Eu sei, Rosário!
28:18Foi por bem!
28:18Foi por bem!
28:19Que saudades eu tinha da minha rica casinha!
28:26Cristo!
28:31Numa casa portuguesa fica bem!
28:35Pão e viço sobre a mesa!
28:39E se há porta humildemente bate alguém!
28:44Senta-se à mesa com a gente!
28:47Fica bem essa franqueza!
28:50Fica bem!
28:51Que o povo nunca desmente!
28:56A alegria da pobreza!
28:58Está nesta grande riqueza!
29:00De dar e ficar contente!
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