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  • há 12 horas
Especialista alerta que a apatia profunda, caracterizada por um cenário onde tudo parece não importar, exige atenção e busca por ajuda profissional.
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Transcrição
00:00Agora gente, vamos falar de saúde? Você já teve a sensação de que nada mais faz
00:05diferença? Quando até atividades que antes davam prazer passam a parecer sem
00:11sentido, pode ser um sinal de apatia. Esse estado vai além do simples desânimo e
00:19pode estar relacionado ao esgotamento físico, emocional, além de ser um dos
00:25sintomas associados à depressão. Mas como identificar esse quadro e entender o que
00:32está por trás dele? Vamos conversar sobre o assunto com o psiquiatra, o doutor
00:37João Paulo Cirqueira. Doutor, muito boa tarde, obrigado pela sua presença.
00:42Obrigado, Jorge. Doutor, vamos começar diferenciando aí, a gente falou de apatia
00:47e desânimo. O que significa essas duas palavras e o que elas refletem no nosso
00:54corpo? Jorge, quando a gente fala de desânimo, a gente está falando
00:57principalmente de energia, de esperança, dessa questão que está muito ligada às
01:02emoções, os afetos. Quando a gente está falando de apatia, a gente está falando
01:07principalmente de impulso, de desejo, de evolução. Então o que a gente vê muito
01:13frequentemente na depressão é a pessoa está tão triste, tão esgotada, tão
01:18desanimada que até aquele impulso que existia meio que se esvai. E aí a gente
01:25diz que nos quadros mais graves, depressivos, que a gente tem um quadro de
01:29apatia. Mas na depressão, a alteração primária mesmo, a alteração do humor, não
01:36a alteração da vontade, do desejo. Tanto que você melhora os sintomas depressivos e a
01:41pessoa melhora aquela apatia.
01:43A gente pode falar, por exemplo, assim, de um tempo para uma tristeza que não chega
01:49a ser uma depressão e de um tempo para um desânimo que não vai chegar numa apatia.
01:55E qual é o tempo que eu fico nessa apatia? O que eu quero dizer é o seguinte, o tempo
02:00de melhora, eu estou triste, qual que é o tempo de melhora de uma tristeza para ser
02:04considerada uma tristeza normal?
02:06Perfeito. O desânimo é uma experiência humana. Então não necessariamente é um
02:11diagnóstico. Então é natural que após um grande projeto interrompido, termo de
02:17relacionamento, um divórcio, perda de emprego, que a gente tenha um certo desânimo,
02:22até se recompor para retomar. Então para avaliar isso, mais importante do que a gente
02:29pensar no sintoma é como isso afeta. Como isso afeta o colorido existencial, como isso
02:34afeta a vida. Se eu tenho um sintoma que me prejudica ter propulsão, prejudica nos
02:39relacionamentos, prejudica meu sono, prejudica minha relação com o outro, diminui minha
02:44potência. Aí eu estou falando de uma doença. Então, para a gente pensar, seria mais
02:50importante investigar o quanto isso afeta a vida nos diferentes âmbitos do que o tempo.
02:56Mas se for para pensar num tempo, geralmente a pergunta que a gente faz de rastreio para
03:01depressão é, você está mais de duas semanas com a tristeza persistente? Você está mais
03:07de duas semanas com uma desesperança? Essa geralmente é a pergunta e o tempo que a gente
03:13coloca para pensar nesses outros comemorativos. Mas lembrando que o diagnóstico é muito mais
03:20que um conjunto de sintomas. Ele envolve esse sofrimento e a perda do sujeito de potencialidade
03:26ali, né? De resolução dos problemas. Sim, geralmente esse sentimento mais profundo, ele
03:33ocorre por diversos motivos. Quais são os principais, doutor, hoje na atualidade, né?
03:39Que o senhor atende, que leva a pessoa a essa apatia ou a essa depressão? Então, quando
03:44a pessoa chega e fala, olha, eu estou desanimado, habitualmente a pessoa conta que está triste,
03:50né? E que perdeu. Aí a gente vai investigando. Como que está seu sono? Você está dormindo a
03:56noite toda, você ronca, você desperta muitas vezes, porque isso pode ser um fator a causar
04:03um desânimo. A gente pergunta, como que está sua alimentação? Você come carne, você tem
04:09um bom suporte aí de vitamina de ferro, né? Porque tudo isso, Jorge, também entra no
04:15processo de investigação, de entendimento de quais são os fatores que estão relacionados
04:20a esse desânimo, né? Porque pode ser um fator biológico, pode ser um fator social
04:24também, né? A gente não pode se esquecer do quanto que o estresse no trabalho, desemprego,
04:31são fatores psicossociais que causam desânimo mesmo, né? E aí o desafio do psiquiatra é
04:40reconstituir essa história para chegar não só a um diagnóstico, isso aqui é uma depressão,
04:45mas também num projeto de cuidado, que é como essa pessoa com pouca vontade, apatia,
04:52né? Como que a gente vai construir esse desejo? Ah, não, eu quero dormir melhor. Ah, não,
04:58eu quero me alimentar melhor. Porque é isso que vai produzir saúde, isso eu quero ter mais
05:03relações. É sempre um desafio, mas que começa de um pequeno ponto e que a gente vai progredindo,
05:10né? Ou seja, a resolução também passa pelo medicamento. Sem dúvida. A medicação,
05:15depressão é fundamental nos quadros depressivos moderados a graves, né? A gente não pode
05:20esquecer, eu tô falando do processo de investigação, o que é a depressão? A depressão é uma tristeza
05:24persistente, é uma perda de sentido que altera o sono, altera a alimentação, a pessoa pode
05:31ganhar, pode perder peso, a gente tem as ideias de morte, a culpa, né? Então, a depressão
05:37sempre é um quadro que merece atenção e que pode ser cuidado em diferentes âmbitos,
05:42né? Desde uma internação até um cuidado ambulatorial. Isso precisa ser muito individualizado,
05:47Jorge. É pro adulto, é mais fácil você acordar e falar, nossa, hoje eu tô mais triste,
05:52hoje eu tô sentindo uma tristeza. Mas pra criança ou pro adolescente, isso é mais difícil
05:58de ser externado. Como os pais podem identificar isso, doutor, numa fase mais nova, assim, da pessoa?
06:04É aquilo que a gente conversou, Jorge, assim, não é o sintoma em si, é qual o prejuízo
06:11ou como isso se materializa no dia a dia. Como que tá o desempenho escolar, como que tá
06:15a relação com os coleguinhas. Agora, na hora de investigar sintoma na infância, é comum
06:21que ao invés da criança materializar ou falar, olha, eu tô triste, ela ficar irritada,
06:26nervosa, impaciente, mais inquieta ou isolada, né? Então, é um olhar que envolve a escola,
06:34que vai dar ali alguma percepção dessa criança, mas também a família e a comunidade que vai
06:40ajudar nessa construção do entendimento da vida da criança, né?
06:44No outro ponto, por exemplo, os idosos também, né?
06:46Os idosos.
06:47Que já passaram uma situação de vida por vários percalços, muitos aposentados,
06:53olham a vida de uma forma também diferenciada, né? Como que é esse sintoma nos idosos?
06:59No idoso, Jorge, a gente sempre diz que a gente tem que ter um olhar redobrado em relação
07:05à investigação, né? Então, o idoso que ficou desanimado, primeiro ele tem que fazer
07:09uma investigação se tem alguma alteração pulmonar, se tem uma tosse, se tem infecção
07:13urinária. Descartar as causas tratáveis, né? Biológicas desse desânimo pra depois chegar
07:21e pensar num quadro ligado às emoções, a um transtorno mental.
07:26Então, no idoso, idoso que fez alteração aguda, né? Do desejo, tá mais quietão, que
07:31tá... É igual a pronto-socorro, na maior parte das vezes, pra ver se tem alguma alteração
07:35ali que justifique, né? A gente não tem que perder tempo em relação ao idoso, né?
07:40Nem excessivamente buscar causas emocionais, porque às vezes pode mascarar, né?
07:47Pode retardar um diagnóstico clínico.
07:49É, doutor João Paulo, pra gente encaminhando pro fim, qual o recado que o senhor manda
07:53agora pra quem tá em casa e tá falando assim, nossa, eu tô sentindo uma tristeza, né?
07:58Tô sentindo uma tristeza, às vezes eu choro, né? E o que que essa pessoa pode tá passando,
08:03como ela busca ajuda?
08:04Então, o primeiro ponto, Jorge, é a gente buscar apoio, né? Ter o espaço pra ter alguém
08:10com quem conversar já é ótimo, né? Receber essa devolutiva dos colegas, dizer, olha,
08:14eu tô percebendo que você não tá. Então, receber isso não como um julgamento, mas
08:20às vezes como uma forma de cuidado e se oportunizar a buscar ajuda, né? A gente tem tratamentos,
08:27as medicações são muito eficazes, o olhar e cuidar de si é sempre um sinal de força,
08:33não de fraqueza. Então, identificar e buscar ajuda é sempre fortaleza e não fraqueza.
08:38Perfeito. Conversei aqui com o doutor João Paulo Cirqueira, psiquiatra. Doutor, muito obrigado.
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