Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 3 horas

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:08Olá, bem-vindos e bem-vindas! Estamos dando início a mais um Ponto de Vista e com a proximidade do
00:14mês de junho, a gente já começa a falar das festas e dos ritmos juninos.
00:19É com muita alegria que recebemos hoje o cantor e compositor Rogério Rangel, ele que completa 40 anos de carreira.
00:29Rogério, seja muito bem-vindo e obrigado por aceitar o nosso convite.
00:34Imagina, eu estou muito honrado e agradecido por estar aqui.
00:38Na semana passada você esteve em Caruaru, no São João da Roça, que é uma iniciativa lá do São João
00:46de Caruaru,
00:47que leva as festas de São João para pontos da zona rural da cidade.
00:52Como é para você ter participado disso e o que você acha dessa iniciativa de levar a festa de volta
00:59para as origens dela, que é o interior?
01:02Isso é muito satisfatório, sobretudo porque quem vai para essas festas vai porque gosta do forró.
01:10Do forró que eu digo, independente dessa história de forró raiz ou estilizado, mas o que se ouve nessas festas
01:18descentralizadas de Caruaru é forró mesmo, né?
01:22Forró pé de serra, como chamam, né?
01:23É o pé de serra.
01:24Tem os pés de serra um pouco mais, digamos assim, contaminados, não seria a palavra exata.
01:31Mais modernizado, digamos.
01:32Exato, mais atualizado, né?
01:35Eu não sei nem que tipo de adjetivo a gente usaria para isso, mas é o forró com zabumba, com
01:40triângulo e sanfona.
01:42O básico é esse.
01:44Muito embora que na minha banda a gente tenha esse tripé, mas também eu uso com teclados, com guitarras, bateria,
01:52percussões.
01:53É uma festa de forró, mas para fazer zoado também.
01:56Como foi a sua apresentação lá?
01:58Foi maravilhoso.
01:59O que você acha? Tinha muita gente, como é que está sendo esse São João da Roça, né?
02:06Como eles chamam?
02:06São João da Roça, é o nome desse projeto.
02:08Pois é, como é que está sendo esse projeto lá em Caruaru?
02:10Muito bom.
02:10Está tendo muita dezena?
02:11É, já é o terceiro que eu faço, né?
02:14Da primeira vez eu fiz Itaúnas, depois Terra Vermelha e esse agora foi Vila Peladas.
02:21Muita gente, eu confesso que não esperava, né?
02:23A primeira vez que eu fui estava muito temeroso.
02:25Rapaz, será que eu vou cantar para ninguém?
02:27Uma vez que o que se mostra de Caruaru é sempre o polo principal, né?
02:32O polo Luiz Gonzaga, onde 100 mil pessoas, sei lá quanta gente, botam ali.
02:38E a gente esperava, eu esperava, né?
02:40Que esses descentralizados, que normalmente, não sei se são bairros ou são distritos,
02:46mas como é um lugar um pouco mais afastado do centro, eu pensava desde a primeira vez que não ia
02:52ninguém.
02:53E em vez disso estava lotado.
02:55Uma surpresa, assim, lotado, lotado, lotado.
02:58Essa vez mais recente, né, que foi em Vila Peladas, rapaz, muita gente,
03:04a gente não enxergar o final, né, da multidão.
03:07E uma alegria muito grande, todo mundo cantando com a gente, eu saí de lá com a alma lavada.
03:13Muito bom.
03:14Rogério, eu disse no início logo do programa que você está completando 40 anos de carreira, né?
03:18Eu queria que você olhasse um pouquinho para trás, olhando para trás e vendo a carreira que você percorreu, né?
03:24Qual a avaliação que você faz dessa carreira hoje?
03:27Olha, Fernando, eu comecei, aliás, como a maioria dos músicos populares, né, como eu sou,
03:33tocando em bares, né, em bailes, né?
03:37No tempo que eu comecei, tinha muito baile, né, baile mesmo, de tocar música em inglês nas festas, nos clubes.
03:44Eu não gostava muito desse fato de ter que cantar música em inglês,
03:47muito menos ter que imitar os cantores, né, que gravavam discos e tal.
03:54O parâmetro de qualidade do cantor é quanto mais você imitava, né,
03:59quanto melhor você imitasse a gravação, melhor você era avaliado.
04:05E eu sempre tive uma inclinação muito grande para a música regional, né?
04:08Eu gostava de cantar cirandas, maracatus, confesso que nem sempre agradava,
04:13porque você cantar maracatu para o povo dançar no salão,
04:16eu não lograva muito êxito nesse sentido.
04:19Mas eu insistia, primeiro, porque eu gostava, né,
04:22não era, digamos assim, nenhuma obrigação cívica de cantar maracatu.
04:26Eu gostava muito, né, de cantar vários maracatus, cirandas, né?
04:30Eu frequentava ciranda de Dona Duda, aqui em Pó Amarelo,
04:34lia de Itamaracá várias vezes, ia para lá, só para curtir a ciranda mesmo,
04:37porque eu achava que aquilo era a minha música,
04:39eu me identificava com aquilo ali, né?
04:42Não era por nenhuma vaidade de preservar a cultura,
04:46nem exibir a nossa cultura,
04:49porque eu confesso que eu não tinha muito essa preocupação.
04:52Eu ia porque curtia mesmo.
04:54E, assim, ao longo desse tempo todo,
04:56a minha carreira sempre teve uma inclinação para a nossa música,
05:00a música do Nordeste, né?
05:01E me sinto muito bem com isso,
05:04me sinto orgulhoso e gosto muito, né?
05:07Muito satisfeito com essa minha carreira.
05:09E, repito, não era...
05:11Eu não me sentia obrigado a exaltar a cultura,
05:14não era nada disso, era por puro prazer, né?
05:17Você é do Recife e foi criado,
05:19você me dizia, há muito tempo em Olinda, né?
05:21Você mora em Olinda, eu acho.
05:24Eu nasci no Recife, na Conde da Boa Vista.
05:26Eu sou recifense da gema, né?
05:28Isso, bairro da Boa Vista.
05:29Então, a gente, eu pequenininho ainda vim pra Olinda, né?
05:35Meu pai comprou uma casa em Casa Caiada, eu vim.
05:38Depois a gente foi morar na Rua do Sol, ainda em Olinda,
05:41depois fui morar na Torre, né?
05:42Voltando pro Recife.
05:43Pro Recife.
05:44Passamos pouco tempo na Torre, depois voltamos pra Olinda.
05:47Essa vida toda entre o Recife e Olinda,
05:50com as duas cidades, a gente sabe que respiram muito cultura, né?
05:53Cultura popular, cultura, as músicas, a tradição toda.
05:59Isso ajudou na formação do Rogério Rangel como artista?
06:02Olha, com certeza.
06:03Sem nenhuma dúvida, assim.
06:05Tudo que eu faço hoje, eu devo ao Recife e à Olinda, né?
06:10Até essa regionalidade, como eu já falei,
06:13claro que foi absorvido entre essas duas cidades, né?
06:17Que eu acho que a Olinda e Recife...
06:20São quase a mesma coisa.
06:21São quase a mesma coisa.
06:23Culturalmente, falam até a mesma coisa.
06:25Agora, o forró, como a gente estava falando,
06:28o forró pé de serra, é uma coisa que veio mais do interior.
06:31E você é da capital, e mesmo assim você se dedicou a isso também, né?
06:36Não só a isso, mas também a isso.
06:38E essa influência também da cultura que vem do interior
06:44foi importante pra você.
06:46Muito importante.
06:46Eu, quando cantava em Bazinho, eu já cantava muito forró, né?
06:51E o forró do sertão, os forrós daqui.
06:55Depois veio a influência do Quinteto Violado, né?
06:58Que eles modernizaram o forró agreste, o forró sertão, né?
07:03Com toda uma roupagem meio jazz, meio free.
07:07O Toninho Alves dizia que o som do Quinteto Violado era o free forró, né?
07:14O forró free, alguma coisa assim.
07:16Uma referência ao free jazz, né?
07:17Que era uma música modernizada, né?
07:20Mas era forró, né?
07:22Do jeito que eles tocavam os nossos forrós.
07:24E na minha adolescência eu fui muito influenciado por isso aí.
07:28E depois, já mais...
07:32Eu estava meio que saindo do Bazinho.
07:35A gente fez uma amizade muito grande com o Petrúcio Amorim.
07:39Que a gente se encontrou uma vez no estúdio.
07:41Eu estava fazendo jingle, né?
07:42Eu sempre curti muito esse negócio de fazer jingle.
07:45E eu estava fazendo vários jingles políticos no estúdio.
07:48E ele estava do lado de fora, né?
07:50Do aquário, né?
07:51A gente fica aquela vidraça e a gente grava.
07:53E quando eu saí, ele disse...
07:55Rapaz, você faz isso muito legal, não sei o quê.
07:58E eu tenho...
07:59Eu quero conversar com você.
08:01Eu disse, por favor, vamos conversar.
08:03Ele disse, olha, eu tenho várias encomendas de jingle político,
08:07de muitos candidatos do interior, de variadores, de prefeito.
08:11E queria ver se a gente faz uma parceria.
08:14Ele propôs lá uma parceria.
08:16Eu topei de cara.
08:18Porque eram muitos, né?
08:19Era uma oportunidade que eu não podia perder.
08:21E a gente...
08:23Além do jingle, a gente começou a compor, né?
08:26Música mesmo, forró, chotes.
08:28E até hoje eu sou muito amigo dele.
08:30Ele é mesmo que ser meu irmão.
08:32E...
08:32Eu devo muito essa inclinação e...
08:36E virei, inclusive, um forrozeiro, né?
08:39Hoje o pessoal me reconhece como forrozeiro, principalmente nessa época agora.
08:44E eu devo muito isso, essa nova imagem minha, a Petrúcio.
08:49Muito embora eu já cantava forró, mas não dedicado, assim, profissionalmente como sou hoje, né?
08:54Eu já ia pedir pra você tocar uma música que você gravou com o Petrúcio.
08:58Com o Petrúcio.
08:59Mas antes, já que você falou dos jingles, eu queria lembrar um pouquinho que os jingles da tribuna foram todos
09:05gravados por você também, né?
09:06Foi.
09:07Isso foi no primeiro ano na fundação da tribuna aqui.
09:12Eu recebi um telefonema daquela produtora daqui.
09:15Eu me esqueço o nome dela.
09:16E eu era muito amigo de Antônio Moreira, que foi de produção também aqui, né?
09:21Ele, Moreira, estudou comigo no Colégio Estadual de Olinda.
09:25Ainda lembra desse jeito?
09:26Entre você e o carnaval, é TV Tribuna, é o canal.
09:32Isso aí foi bom, né?
09:33E é usado até hoje, né?
09:34Até hoje, né?
09:34Toca-se nas reportagens, na rua.
09:38E todo mundo gostou muito da música, né?
09:40E aí foi adotada, né?
09:42E tá aí até hoje.
09:43E depois eu me entusiasmei, ela me chamou de novo agora pro São João, né?
09:49Do São João.
09:50Neste São João, acenda a tribuna no seu coração.
09:54Acabei virando o garoto tribuna.
09:57Fiz assim?
09:59No fim do ano também.
10:00Agora sim, eu vou pedir pra você cantar uma música dessa parceria sua com o Petro Samorim.
10:06Olha, tem essa aqui que eu gosto muito, que foi gravada por Flávio José.
10:11É, a gente compôs juntos, né?
10:14Eu e o Petrúcio.
10:16Isso era de tarde, né?
10:18A gente começou uma hora da tarde, depois do almoço.
10:20A gente se encontra, me encontrei com ele lá na casa dele, morava perto de mim.
10:23E quando a gente terminou essa música, lá pras quatro, cinco horas da tarde,
10:27eu digo, Petrúcio, você tá aparecendo com as músicas que Flávio e José gravam.
10:31Na época, Flávio tava estouradíssimo, né?
10:33Bom, ele é até hoje, mas na época ele vendia muito, fazia muito show, né?
10:38E quando a gente terminou a música, o Petrúcio pega o telefone e liga pra ele.
10:43Flávio, ouça essa música.
10:45Aí, tá bom, eu cantei pelo telefone, mas de lá ele ligou de volta e disse,
10:51olha, eu amei essa música e vou colocar ela no meu próximo disco.
10:56E vai ser a música de trabalho.
10:58Assim, nunca acontece, né?
11:00Assim, a queima-roupa, como foi.
11:03E ele gravou e a música tocou muito por aí, até hoje toca.
11:07É sempre assim, me deixa louco e de repente vai embora.
11:12Faz o que quer com a minha vida e joga fora.
11:15Como se o tempo fosse um lenço de papel.
11:19Me faz sofrer.
11:22Sofre também porque o amor é uma loucura.
11:25Por mais que tente, essa saudade não tem cura.
11:29E o grande amor nem todo dia cai do céu.
11:33É sempre assim.
11:35Você não deixa o nosso amor viver em paz.
11:39Se eu tanto fiz, você diz que tanto faz.
11:42O mundo ensina e você não quer aprender.
11:46É sempre assim.
11:49Você não deixa o nosso amor viver em paz.
11:52Se eu tanto fiz, você diz que tanto faz.
11:56O mundo ensina e você não quer aprender.
12:01Pode falar, me machucar, me derrubar dessa ladeira.
12:07Meu coração não tem medida nem porteira.
12:10Mas sempre soube guardar dentro de mim.
12:15Pode gritar pra todo mundo que você já me esqueceu.
12:21Pode pisar meu coração que é só seu.
12:24Que eu vou morrer dizendo amor.
12:27É sempre assim.
12:30Muito bem.
12:31Você tem uma carreira sólida já, né?
12:34No forró pé de serra.
12:35E conseguiu isso mesmo sendo aqui da capital, né?
12:38Eu queria saber, com a presença do frevo na vida da gente também, né?
12:46A gente sendo aqui da capital, de Olinda, como é o seu caso.
12:50Como foi essa...
12:52Você também canta músicas de frevo, né?
12:55Você faz muito show.
12:56Como é equilibrar essas duas coisas?
13:01Olha, parece difícil, mas não é.
13:03Porque qualquer pessoa que é do Recife ou de Olinda,
13:08a gente não é imune ao frevo, né?
13:11A presença do frevo.
13:12Muito embora que todos os artistas que eu conheço que trabalham com frevo
13:16reclamam da falta de divulgação que o frevo tem sofrido, né?
13:22Praticamente só se toca frevo na mídia em geral durante o carnaval, né?
13:27E, como diz Hugo Matisse, música...
13:30O frevo é música popular brasileira, né?
13:33Devia tocar o ano todo.
13:34Eu reconheço que o frevo é uma música difícil de dançar.
13:38O cara tem que ser um atleta.
13:39Verdade.
13:41E talvez isso dificulte a presença do frevo em todas as festas,
13:46em todas as exibições de rádio e TV.
13:50Mas, assim, o frevo é a cara do Recife.
13:54Eu diria que é a cara, mas a presença do frevo não é.
13:59As contratações de grupos que tocam frevo são muito escassas, né?
14:06A gente tem reclamado muito disso, sabe?
14:09O carnaval, o domínio do repertório do carnaval, você sabe que não é o frevo, né?
14:15A gente já recebeu um avalanche da música baiana, que é maravilhosa.
14:20Não tem nenhuma crítica.
14:21Mas, no tempo que a Cher Music dominava, o frevo sofreu bastante.
14:27É tanto que, não sei se foi um vereador quem foi, que criou uma lei para que se tocasse,
14:32todas as rádios tocassem um frevo ao meio-dia.
14:36E música, Fernando, o arte não se trabalha com...
14:39Com decreto.
14:40Com decreto.
14:41É uma coisa que tem que vir do coração do povo, dos artistas.
14:44É essa sintonia que funciona, né?
14:46Com a música, com...
14:47E, claro que não deu certo, né?
14:50Muito bem, Rogério.
14:51Vamos fazer um rápido intervalo.
14:52Você que está acompanhando a gente, não saia daí.
14:55A gente volta já, já.
15:09Estamos de volta.
15:10Hoje eu recebo aqui Rogério Rangel, forrozeiro da Gema aqui do Recife.
15:16Rogério, como a gente está pertinho aí já do São João, né?
15:19Mês de junho chegando.
15:21Eu queria saber qual música, além dessa que você já cantou, essa que você compôs com o Petrúcio,
15:27É Sempre Assim, que outra música sempre pedem nos seus shows?
15:32É, tem uma que nós fizemos juntos, né?
15:34Eu, Petrúcio e Marrom Brasileiro, que é um carnaval, muito ligado ao carnaval, né?
15:40Mas ele tem muita coisa que não é só carnaval, canções maravilhosas.
15:45E ele compôs essa comigo e com o Petrúcio, chama Deus do Barro,
15:48que é uma homenagem ao mestre Vitalino de Caruaru.
15:53A ideia da gente, quando se juntou, era fazer uma música em homenagem à cidade de Caruaru.
15:59E no momento que a gente estava começando a compor,
16:02alguém disse que Caruaru estaria no livro dos recordes
16:06como a cidade mais homenageada em canção, em canções, né?
16:11E ele falou, então a gente vai chover no molhado, vai ser apenas mais uma.
16:15Então a gente resolveu fazer o ícone de Caruaru, né?
16:18Que é essa aqui, ó.
16:27Quando Deus fez do homem sua semelhança
16:31Foi a maçã do barro com a mão
16:37Deu o sopro de vida, de esperança
16:42Espaiou pelo mundo a criação
16:46Pra fazer com amor é preciso fé
16:51Da mistura da lama saber tirar
16:57A imagem de toda Maria e todo Zé
17:02Tudo aquilo que a terra pudesse dar
17:07O boneco do mestre vitalino
17:12É grandeza por ter simplicidade
17:16Com o barro ele fez o seu destino
17:22Pelo barro ganhou eternidade
17:27Pra fazer com amor é preciso fé
17:32Da mistura da lama saber tirar
17:37A imagem de toda Maria e todo Zé
17:42Tudo aquilo que a terra pudesse dar
17:47Amassa com a mão, amassa
17:51Um boneco, uma banda de pife
17:53Um dentista, um cavalo, um boi de carro
17:58Amassa com a mão, amassa
18:01Se Deus é o vitalino
18:04Vitalino é o Deus do barro
18:08Muito bom, muito bom
18:10Eu queria saber, você falou que começou nos bares
18:14Cantando nos barzinhos
18:16Eu queria saber quais os artistas que inspiravam
18:20Rogério Rangel no início da carreira
18:22Em quem você se espelhou, por exemplo?
18:25Olha, eu comecei assim
18:26O primeiro bar que eu cantei era o bar chamado Samburá
18:29Que aqui na orla de Olinda
18:32Era um prédio, né?
18:36Que no formato de um Samburá
18:38Que é aquela cestinha que os pescadores usam, né?
18:41Era redondo, assim
18:42A gente ficava sentado numa mesa
18:44Sem microfone, sem nada
18:46E o repertório era basicamente
18:48Demônios da Garoa
18:50MPB4 e Forró de Luiz Gonzaga, né?
18:53E agradava muito, né?
18:54A gente abria a voz, estudava muito
18:56Passava a semana todo dia ensaiando
18:58E agradava muito
18:59Esse tipo de repertório
19:02Como não era um bar de dança
19:04Mal tinha espaço para se dançar
19:06Muitas famílias iam jantar
19:08Iam almoçar
19:09O ambiente era bem tranquilo
19:11E a gente fazia uma música
19:12Não tinha microfone, né?
19:14Era uma música mais baixinha
19:15A gente começou assim, né?
19:19Depois saiu, passou para outros bairros
19:21Aí eu percebi que o cara que tocava violão
19:24Ganhava mais dinheiro do que eu
19:26Eu resolvi me dedicar a tocar violão
19:29Até porque com violão você tinha a oportunidade de cantar sozinho
19:34Não precisava de uma banda, de um quarteto
19:36E passei a fazer, em algumas circunstâncias
19:40Tocar, fazer só violão em voz
19:43E quem você gostava mais de cantar?
19:45Ah, eu cantava, além desses samba, né?
19:48De Demônio da Garoa, MPB4
19:49Foi quando apareceu o Djavan
19:52Djavan tem uma música muito sofisticada, né?
19:55Eu digo que era um cantor de jazz, né?
19:57O jazz brasileiro
19:58As harmonias, né?
20:00Então a gente tinha que passar uma semana
20:02Estudando quase uma música só
20:04E como no violão era mais fácil
20:07Porque a gente não precisava ensaiar
20:09Porque eu aprendia, né?
20:11No violão
20:12Mas as minhas influências
20:15Eu acho que do tempo que eu comecei em Basile
20:17Era Djavan
20:18Era Roberto Carlos, né?
20:21E depois veio Lulu Santos
20:23Mas além disso
20:24E eu acho que por trás de tudo isso
20:27Tinha a música regional, né?
20:29Que aí eu cantava Luiz Gonzaga
20:30Claro, a minha maneira, né?
20:32Eu não fazia como ele fazia
20:34Um forró pé de serra, né?
20:36Um trio pé de serra
20:37Então eu gostava de fazer os meus arranjos
20:41Com as músicas de Gonzaga
20:42De Jackson do Pandeiro
20:43Que era o meu lado regional
20:45Que era maior do que o mais universal, assim
20:49E aí foi surgindo o Rogério Rangel
20:51Compositor também
20:52Isso
20:53Cantor e compositor
20:54Em qual dessas funções
20:56Você se sente mais à vontade?
20:58Olha, à vontade eu diria que é como compositor
21:01Porque é um exercício que você faz sozinho
21:06Claro, quando não tem uma parceria
21:08É uma coisa sozinha
21:09É uma conversa comigo mesmo, eu diria, né?
21:13Eu vi uma vez João Bosco falando
21:15Que ele compunha como se fosse uma oração
21:19E cada um tem uma maneira, né?
21:21Aquele cantor francês que já nos deixou
21:24Charles Aznavour
21:25Ele, para fazer um disco
21:27Ele se recolhia
21:28Não sei se uma fazenda, alguma coisa assim
21:30E só saía de lá quando ele tinha o repertório de um disco pronto
21:34Dez, doze músicas
21:35Então ele criava a barba
21:37Alguém levava a comida para ele
21:39Era uma coisa
21:39Um recolhimento, né?
21:41Já de Javan
21:42Já vi entrevista dele
21:44Na casa dele tem um quarto
21:46Algum lugar assim
21:49Totalmente separado, né?
21:51E ele sai lá
21:51Ele disse que inclusive
21:52Eu choro muito às vezes
21:54Para fazer uma música sofrida
21:55Mais de coração
21:57Mais verdadeira
21:58E cada um tem a sua maneira
22:00A minha eu comparo muito com a oração
22:03Eu procuro arrancar a verdade
22:05E o que é que vem primeiro normalmente
22:07Nas suas músicas?
22:08A letra ou a melodia?
22:10Ah, tanto faz
22:11Tanto faz
22:13Normalmente
22:13É a partir de uma frase
22:15Ou de uma ideia, né?
22:17Que às vezes você está dirigindo
22:18E poxa, vem uma frase
22:20E às vezes uma rima
22:21E você passa a desenvolver
22:23Por exemplo, eu fiz uma música
22:24Quando a minha primeira filha nasceu
22:27Que no caminho
22:29Eu deixei minha esposa no hospital
22:32Com a mãe dela
22:33No caminho do hospital para a minha casa
22:35Eu compus uma música para a minha filha, né?
22:38Mas a música veio praticamente pronta
22:40Assim, caiu como
22:42Uma aspiração mesmo
22:43E quando eu cheguei em casa
22:44Eu fiz pegar o violão e...
22:46Então aí primeiro veio a letra
22:48É
22:49Mas tem...
22:50Não tem muita regra, né?
22:52Eu não sei se todos os compositores
22:54Há quem diga que os compositores eruditos
22:57Eles tinham uma regra, né?
22:59Primeiro melodia
23:00Mas erudito não tinha letra
23:03Agora você falou de parceria e citou aí o Petrúcio
23:07Já cantou até com a música que compôs com ele
23:10Eu queria que você falasse de outras parcerias que você fez ao longo da carreira
23:14Que marcaram você
23:15Isso
23:17Com o Petrúcio é uma parceria mais perene, né?
23:20Tenho várias músicas com ele
23:21Mas fiz uma com o Marcel Melo
23:25Chamada A Lavadeira
23:26Que foi gravada por Dominguinhos, né?
23:29E fiz também com o Santana
23:34A gente tem uma música juntos
23:37A parceria foi Santana, Beto Ortiz e eu
23:41Aproveitei que estavam os três juntos
23:44Aproveitei a sanfona genial de Beto Ortiz
23:47E a gente fez uma música juntos
23:49Não tenho muitos parceiros, né?
23:51São poucos
23:52Mas no caso de Petrúcio
23:54A gente era quase vizinho, né?
23:56Então, era uma amizade que a gente acordava e meia
24:00E aí, tu vai fazer o que hoje?
24:01Era uma coisa assim
24:02A gente estava sempre juntos, Rogério
24:04Eu queria saber um pouquinho dos intérpretes
24:06Elba Ramalho já cantou música sua
24:09Dominguinhos
24:09Flávio José
24:10Flávio José
24:11Santana, Petrúcio, Marcial
24:12Eu mesmo gravei muita coisa
24:15Como é ter Dominguinhos como intérprete de uma música sua?
24:18Olha, Dominguinhos foi uma das maiores emoções
24:21Qual foi a música?
24:22Foi uma música que se chama Meu Jeito
24:24Ele gravou outras
24:25Mas esse é o meu jeito
24:27Que eu fiz com Petrúcio
24:28E tem uma história interessante
24:30Que eu comecei a compor essa música
24:33E eu estava em casa
24:35Sozinho de tarde
24:37E Petrúcio chegou lá
24:39E disse
24:39Rogério, o que é que tem aí?
24:40Vamos fazer uma música aí
24:41O que é que tu tens
24:43Já encaminhado?
24:44E disse
24:44Rapaz, eu tenho uma
24:46Não tinha título ainda
24:47Aliás, título é uma coisa à parte
24:49Normalmente a gente termina a música
24:51E não tem título
24:51É outra batalha
24:53Para achar um título interessante
24:54Então eu mostrei a ele
24:56Mas assim
24:58Até a metade
24:59Um pouco mais da metade
25:00Eu tinha feito
25:00E ele disse
25:01E o resto?
25:02Rapaz, eu não fiz
25:04Deu um branco
25:05Tem muito isso
25:07Quando a gente está compondo
25:08Fernando
25:08Que é o seguinte
25:09A gente está compondo uma música
25:11O ideal é que você termine a música
25:13Mesmo que depois
25:14No outro dia
25:15Você conserte
25:16E troque algumas palavras
25:17Talvez no outro dia
25:19Você
25:19É outro dia
25:20Nem sempre concorda
25:22Com o que fez
25:23Mas
25:23Quando dá uma parada
25:25Para você tentar
25:27Continuar no outro dia
25:28É muito difícil
25:29Porque a emoção
25:30Não é a mesma
25:31Entendeu?
25:32É como se você
25:32Colasse uma coisa
25:34Que quebrou
25:35Mas aí Petrúcio
25:37Ouvir e disse
25:37Rapaz, eu tenho
25:40A emenda dessa música
25:42Ele disse que vinha
25:43Pensando no carro
25:44Na imagem
25:45Naquela ideia
25:45E a gente encaixou
25:47E a música foi
25:48Posso cantar?
25:50Trechinho
25:51Quando eu falo
25:52Para você
25:53Que não vou sair de casa
25:55Nem quero ver ninguém
25:57Não precisa entristecer
26:01Que isso não quer dizer
26:03Que eu não lhe queira bem
26:06Quando eu fico
26:07Meio assim
26:08Com o olhar no infinito
26:10Isso é uma toada
26:12Que fala
26:13De um cara
26:14Que está sozinho
26:15Pensando
26:16E normalmente
26:17A companheira reclama
26:19Você está com alguma coisa?
26:20Sou eu?
26:21O seu problema?
26:22Não
26:22É um momento
26:23De reflexão
26:25Que eu acho
26:26Que todo artista
26:27Não é só
26:27Compostor de música
26:28Mas pintores
26:29Escultores
26:30Tem momentos
26:31Que a gente precisa
26:32De um recolhimento
26:33Com a sua própria
26:34Consciência
26:35Com o seu
26:37Mecanismo de criação
26:39É preciso
26:40Que se tenha essa coisa
26:41Não é?
26:42E também
26:43Quando a gente
26:44Terminou
26:46Eu falei
26:46Rapaz, se Dominguinhos
26:48Gravasse isso
26:48Era bom, né?
26:49Eu dizia que Dominguinhos
26:50Era um boi manso
26:51Era aquele sertanejo
26:53Muito tranquilo
26:54Muito sereno
26:55E Dominguinhos
26:56O viu
26:56E adorou
26:57E gravou
26:59E gravou
27:00Ele gravou junto comigo
27:01Num disco que eu canto
27:02E uma parte
27:03Ele canta a outra
27:03E eu fiquei muito
27:05Muito, muito feliz
27:06Porque eu sempre achei
27:08Dominguinhos
27:08Um gênio da raça, né?
27:10E Dominguinhos
27:11Era aquele músico
27:12Intuitivo
27:13Ele não lia a partitura
27:15Sequer lia
27:16Um cifrado, né?
27:17Que é um
27:17Um cifrado mesmo
27:19De melodias
27:21E de acordes
27:22Ele não sabia
27:23Eu uma vez
27:24Fui cantar com ele
27:25Me acompanhando
27:26Num bar aqui
27:26Na cidade universitária
27:28Aí ele perguntou
27:29Qual é o tom da tua música?
27:30Eu disse
27:30Rapaz, é dó
27:32Dó com sétima maior
27:33Aí ele olhou pra mim
27:34Assim
27:35Um ar de isso
27:36Eu não sei o que é isso
27:37Mas comece a cantar aí
27:38E ele começava
27:40A acompanhar
27:41A gente com uma majestade
27:43Absurda, né?
27:45Absurda
27:45Eu acho Dominguinhos
27:47Um dos músicos brasileiros
27:48Mais inspirado
27:50Sobretudo por isso, né?
27:52Pelo fato dele não ter
27:53Uma erudição acadêmica, né?
27:55Ele tocava
27:56Porque a música
27:57Estava no corpo dele, né?
27:58Uma coisa impressionante
27:59E eu fiquei muito
28:00Lisonjeado
28:01E muito
28:01Muito agradecido
28:03A ela
28:03Quando terminou
28:04De gravar
28:04Eu fui deixar ele
28:06Lá onde ele
28:06Estava hospedado
28:07Aqui no Recife
28:08Esse dominguinho
28:09Eu não sei
28:10Como lhe agradecer
28:11Ele disse
28:12Sua mãe não lhe disse
28:13Não?
28:13Diga assim
28:13Muito obrigado
28:16Rogério Rangel
28:17Muito obrigado
28:18Pela entrevista
28:19Foi muito bom
28:20Conversar com você
28:21Hoje aqui
28:21E eu desejo
28:22Um São João aí
28:23Magnífico pra você
28:25Com muitas apresentações
28:26Obrigado, Fernando
28:27Eu sempre acompanho
28:29O seu programa
28:30E acho muito legal
28:32Muito elegante
28:33O programa
28:33Mas o papo
28:34Sempre flui
28:35De uma maneira muito
28:36Informal
28:37E legal
28:37E aprendo muito
28:39A gente que aprende também
28:41Muito obrigado
28:42E a você
28:42Que acompanhou até aqui
28:43Obrigado também
28:44Pela companhia
28:45E audiência
28:46A gente volta
28:47Na semana que vem

Recomendado