00:00Bom, a minha trajetória acadêmica começa em 2003, quando eu entro no vestibular para ser cientista social.
00:08Eu estudei ciências sociais, licenciatura e bacharelado até 2008.
00:13Aí eu fui para o mercado de trabalho, trabalhar com assessoria política.
00:17Um tempo depois eu senti a necessidade de complementar a minha formação
00:22e na época já tinha sido implantado o curso de mestrado na área da ciência política
00:27porque o cientista social pode ter três caminhos, ser sociólogo, antropólogo ou cientista político.
00:35Então, como eu sentia mais familiaridade por trabalhar com assessoria política,
00:40eu fui para o caminho da ciência política.
00:43Fiz o mestrado, entrei na turma de 2013 e concluí em 2015.
00:49De lá eu voltei para o mercado de trabalho porque ainda não tinha o doutorado.
00:53O doutorado foi implantado, está no terceiro ano que foi implantado o doutorado de ciência política, não tinha.
00:59Aí eu me tornei professora lá em Santarém, eu sou professora lá em Santarém.
01:03E agora eu retornei para concluir minha formação de doutorado,
01:08para fechar o ciclo formativo todo pela UFPA, que para mim é uma honra porque é um território ancestral nosso.
01:15E eu estudo a violência política de gênero, que é um fenômeno que atinge as mulheres,
01:21em especial direcionado às mulheres indígenas, que participam do processo político eleitoral
01:27ou somente do ativismo político.
01:29Eu acho que a UFPA lá tem sido grandiosa nos últimos dez anos desse processo,
01:34porque antes a gente nem ouvia falar disso aqui.
01:37É bem importante que se diga que a presença dos indígenas na universidade
01:40é atravessada por uma série de dificuldades, por exemplo, o idioma.
01:45Tem muitas nações indígenas, muitos povos que não dominam o português exatamente.
01:50E esse processo de inclusão, ele precisa ser bem acompanhado.
01:54E pelo que eu tenho de informação, a UFPA faz esse acompanhamento,
01:58inclusive oferecendo curso de português como formação complementar para os indígenas,
02:03além de alguns espaços que já são colocados à disposição para a própria organização.
02:08E alguns respeitos que tem a determinados eventos culturais que são nossos,
02:15eventos de ativismo que a gente tem que participar, a UFPA geralmente libera.
02:19Agora mesmo nós fomos para o acampamento Terra Livre, a UFPA ajudou.
02:23Principalmente o sindicato, o Andes ajudou a gente muito.
02:27Então eu vejo que, de uma forma geral, a vida acadêmica tem se aberto aos povos indígenas.
02:31Só que também a gente ainda enfrenta muitas dificuldades de acesso e permanência.
02:37Principalmente da permanência, porque muitas pessoas têm que se deslocar de localidades distantes, distintas.
02:45Não tem uma base de apoio aqui, tem dificuldade de moradia,
02:49até mesmo dificuldade de adaptar com a alimentação, que não é a mesma que a alimentação tradicional.
02:54Então, dependendo do povo, os indígenas aldeados têm um pouco mais de dificuldade que os indígenas de contexto urbano.
03:00Eu cresci em contexto urbano, eu nasci no território, mas cresci aqui nos Jurunas.
03:04Então eu tenho um pouco mais de familiaridade, mas tem muitos parentes que eles encontram muita dificuldade nessa adaptação.
03:11Eu acho que é muito importante o trabalho que a UFPA tem feito.
03:13Bom, eu acho que a gente, quando busca academia, a gente busca para falar por nós.
03:20Nós estamos cansados de sermos objetos de estudo.
03:23A gente quer ser protagonista dos nossos estudos, contar nós mesmos a nossa história.
03:28Então, quando a gente faz esse esforço de vir para a academia, de buscar esse conhecimento,
03:34é um esforço muito, muito, muito que tem que ser valorizado.
03:38Eu acho que, às vezes, a UFPA, não só a UFPA, as universidades federais de uma maneira geral,
03:44e a própria organização epistemológica do conhecimento, ela afasta um pouco as populações tradicionais.
03:51Mas eu acho que a estratégia de dar essa abertura, dar algum suporte e possibilitar essa presença
03:58vai, com certeza, daqui para frente, ser cada vez mais importante para consolidar uma epistemologia indígena na Amazônia.
04:05Porque a gente está cansado de ser objeto de estudo.
04:07A gente quer a gente mesmo contar a nossa história.
04:09Eu acho que é muito importante para a gente ocupar alguns espaços que, historicamente, nos são negados.
04:15A academia é um local de produção de conhecimento, mas é um local de respeito também.
04:19Esse respeito, muitas das vezes, não é facultado às populações tradicionais, não somente os indígenas, né?
04:27Quilombolas, ribeirinhos, os que ainda se consideram caboclos, enfim.
04:31As populações tradicionais, de uma maneira geral, elas têm um pouco de dificuldade de acessar políticas públicas,
04:37e cada vez que a gente produz conhecimento, por exemplo, sobre a existência dos povos, sobre a forma como eles
04:43se organizam,
04:44a gente consegue aumentar não só o conhecimento da sociedade em geral sobre a nossa história, sobre a nossa cultura,
04:52como garantir alguns espaços que são fundamentais para que a gente seja ouvido, para que a gente seja respeitado,
04:58e para que os nossos povos, a nossa cultura, sejam permanentemente renovados e a gente possa continuar existindo.
05:05A principal luta é essa, para a gente conseguir existir e existir com qualidade de vida,
05:10existir com a forma de conhecimento tradicional respeitada.
05:15É um diálogo constante, não é fácil, mas é necessário.
05:19Bom, esse território, todo da região, que vai do Marajó ao Maranhão, é o território ancestral Mairi.
05:26Como é que a gente descobriu isso?
05:28Através dos estudos que são feitos não só por indígenas, mas também pelos antropólogos.
05:33Se você for lá no Forte do Castelo, tem toda uma ala lá que fala sobre a presença tupinambá.
05:38Acontece que quando eles invadiram lá aquela parte, que é chamado Complexo Feliz Lusitânia,
05:43os tupinambás vão se refugiando, vão buscando fronteiras, né?
05:48E aqui, esse território, principalmente do Tupunduba, até lá onde é o Parque do Tinga,
05:54era uma aldeia tupinambá.
05:56Tem a ruína do Muruputu, que é um marco,
05:59onde os tupinambás foram não somente escravizados,
06:04é muito importante que se diga isso, havia escravidão indígena na Amazônia,
06:09havia escravidão indígena, porque lá era o engenho, né?
06:12Aí, a partir do engenho do Muruputu, da escravidão,
06:15esses povos foram fugindo para outras regiões,
06:18mas a UFPA é assentada em cima de território indígena.
06:21Como é para ti estar hoje nesse território?
06:24É um chamado ancestral, né?
06:26Retornar aqui, eu estou aqui desde 2003, né?
06:29De alguma forma, eu sempre estou envolvida com a universidade,
06:32ou como estudante, ou como professora colaboradora, que eu já fui também,
06:36agora voltando novamente como estudante,
06:38mas sempre, de alguma forma, dialogando,
06:41porque é um chamado ancestral que a gente tem mesmo,
06:44de reconhecer que isso aqui é parte da nossa história,
06:47do povo tupinambá, pelo menos, né?
06:49E por identificação dos outros povos que aqui, hoje,
06:54tem a possibilidade de estar aqui na UFPA,
06:57para construir conhecimento, mas também para se reconectar com as nossas raízes ancestrais.
07:03Eu decidi vir para a UFPA para me registrar sobre o meu povo.
07:12Em vez de um branco dentro da aldeia fazer essas pesquisas,
07:17eu resolvi fazer o mestrado para me deixar registrado num livro
07:25para que os alunos, não só os alunos indígenas,
07:30mas como os alunos não indígenas,
07:31conheçam a nossa realidade e a nossa história dentro da nossa comunidade,
07:36dentro da nossa aldeia.
07:38Isso me trouxe muito, por quê?
07:40Eu ficava imaginando, por que eu não explorar os nossos ancianos?
07:45Eu mesmo como indígena.
07:48Porque muitas das vezes,
07:52o nome indígena fazia essas pesquisas,
07:55muitas das vezes eles não retornavam para a gente com o material.
07:58A gente falava, a gente contava,
08:00mas não devolvia.
08:03E eu fiz o mestrado através disso.
08:07Eu vou ser a minha pesquisa em cima do meu povo
08:11sobre a nossa narrativa tradicional de dentro da nossa cultura.
08:16Eu sou tembé,
08:18nasci na aldeia Tecorral,
08:21que fica no município de Parago, Minas.
08:24Agora eu estou atuando na aldeia Sete,
08:27estou morando lá na aldeia Sete.
08:31Fez 15 anos que eu estou lá,
08:34sou professora de língua indígena.
08:36Eu domino, sou falante da língua.
08:40O que eu quero para o meu povo
08:43é que eles não deixem e não se intimidem com as pessoas
08:47quando falarem que ele não é indígena.
08:50Eu quero que eles mostrem,
08:52eu quero que eles aprendam.
08:53Porque a gente,
08:55mostrando isso para eles,
08:57eles também vão ver que a gente são capaz
08:58de ser igualmente eles.
09:00porque o meu povo do Alto Rio Guamá,
09:04eles foram obrigados a deixar de falar a sua própria língua.
09:09Inclusive, isso eu vim para lá por causa disso.
09:12Eu vim,
09:15não dizer que eles apagaram,
09:17mas eles tentaram silenciar os nossos parentes.
09:22agora a gente está mostrando para eles
09:26que eles não conseguiram fazer isso,
09:27porque nós já nascemos com a nossa sabedoria
09:30desde criança.
09:31Eles podem querer silenciar,
09:33mas apagar eles nunca vão conseguir.
09:35Isso para o meu povo é muito importante,
09:37porque não só você falar que você é uma indígena,
09:41mas você mostrar os seus grafismos,
09:44mostrar a sua língua,
09:46para eles verem como você também não é um qualquer.
09:50Mas sim, igualmente,
09:53somos iguais.
09:54Só é diferente porque eu falo duas línguas,
09:57o gês e a língua.
10:00A gente sente muita dificuldade.
10:03Por quê?
10:04Qual é o primeiro impacto que a gente sente
10:06dentro da faculdade?
10:08É o preconceito.
10:10Qual é o preconceito?
10:12É quando você vai para uma entrevista
10:14e você não consegue se expressar
10:18porque você é uma falante.
10:20Muitas das vezes você fica na prova
10:23de entrevista
10:25porque você não consegue falar
10:28o que o professor está perguntando.
10:31E o outro ponto?
10:33Quando o professor faz a entrevista com o aluno
10:36que o aluno fala que está participando de movimento
10:41fora, de dentro da aldeia,
10:44acontece esse debate também,
10:45porque o aluno está saindo para discutir.
10:48Como ele sai para discutir fora,
10:51está participando do movimento.
10:54E acontece muito isso do aluno ficar,
10:56porque ele consegue fazer uma faculdade fora.
11:05Inclusive, aconteceu isso dentro da minha aldeia,
11:08da minha escola,
11:09com três alunos que estão fazendo medicina.
11:13Eles fizeram a prova,
11:15são alunos maravilhosos,
11:17tiraram nota boa nas redações.
11:19Então, quando foi para vir fazer a entrevista,
11:23ficaram,
11:23porque estavam participando de movimento,
11:26porque estavam participando de movimento
11:29junto com a comunidade.
11:30Isso, para nós,
11:32não é porque a gente quer que os nossos alunos saiam
11:36para se formarem,
11:37para serem doutores,
11:38para serem professores,
11:39porque agora nós vemos
11:41que nós temos que ocupar o nosso lugar
11:44dentro da nossa aldeia.
11:46Temos que ocupar a universidade.
11:49Temos alunos aqui
11:51que sentem muito preconceito,
11:52que saem,
11:54vão embora,
11:54porque não conseguem
11:56ficar ouvindo os preconceitos
11:58de próprios professores
11:59dentro da universidade.
12:02A gente que estuda aqui dentro da UFPA,
12:05a gente tenta conhecer mais,
12:10levar mais para o nosso povo
12:11o que está acontecendo aqui dentro.
12:14Por que essas mobilizações
12:19que acontecem em Brasília
12:21sobre o ATL?
12:23O ATL é uma coisa muito importante,
12:25porque ali vai acontecer vários debates,
12:29não só sobre educação,
12:31mas sobre educação,
12:34sobre saúde,
12:35sobre terra indígena,
12:36que hoje a gente vê
12:37que tem muitos indígenas
12:39que não têm terra demarcada.
12:41tem indígena morrendo
12:43pela própria terra.
12:45O branco vem e mata um índio
12:47para tomar a terra.
12:49Isso a gente vai para o campamento
12:51da terra livre
12:52para a gente conseguir
12:54que todos os nossos parentes indígenas
12:57consigam demarcar a sua terra.
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13:06Amém.
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