- há 20 horas
Em 1970, auge da repressão pela ditadura militar, cinco guerrilheiros presos vieram a público renegar a luta armada e elogiar o regime. Com a repercussão das declarações, o governo resolveu transformar as retratações em prática de Estado. Passou a torturar opositores para que fizessem o mea-culpa. Até 1975, cerca de quarenta presos participaram dos “arrependimentos”, como ficaram conhecidos.
Os Arrependidos reconta a história pouco lembrada de ex-militantes que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda de seus inimigos.
Os Arrependidos reconta a história pouco lembrada de ex-militantes que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda de seus inimigos.
Categoria
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AprendizadoTranscrição
00:00:03Música
00:00:34A CIDADE NO BRASIL
00:00:341, 4, 3, 2, 1, 0
00:01:32A CIDADE NO BRASIL
00:02:02A CIDADE NO BRASIL
00:02:12E agora, amigos telespectadores, vamos apresentar-lhes os jovens
00:02:15que aqui serão entrevistados pelos profissionais das diversas emissoras de televisão de São Paulo.
00:02:22Inicialmente, Marcos Vinícius Fernandes dos Santos, que tem 22 anos de idade.
00:02:30Depois, Massafume Yoshinaga, que era, que tinha o nome, o vulgo de André, 21 anos de idade.
00:02:42E, finalmente, Rômulo Augusto Romeiro Fontes, de 23 anos de idade.
00:02:52Nos últimos dois meses, seis jovens abandonaram o terrorismo de São Paulo
00:02:58e, através da influência, se declararam, se confessaram, arrependidos e se declararam, arrependizaram o movimento.
00:03:08Em primeiro lugar, esse arrependimento, sim, não é um arrependimento no sentido piegas da coisa.
00:03:16Nós não botamos a mão na cabeça e começamos a chorar porque fizemos uma série de malfeitos.
00:03:22Isso é fruto de uma reflexão que nos conduziu a uma posição política,
00:03:28que hoje nós afirmamos e colocamos à prova o que quer que seja.
00:03:33O meu abandono do terrorismo se deu exatamente por ter refletido sobre todos esses processos de pensamento
00:03:44mantidos a partir de 1966, quando abracei ideias de esquerda.
00:03:48E essa reflexão é que me levou a abandonar o terrorismo.
00:03:54Rômulo, diga uma coisa.
00:03:56Você mesmo declarou, vocês declararam, que o terror no Brasil vem aquecendo de dia para dia.
00:04:03A que se pode atribuir?
00:04:05A ação dos nossos organismos de segurança ou ao desencanto dos jovens de se ingressar no terror?
00:04:11Eu acredito que todas essas causas juntas,
00:04:15Todas elas juntas, principalmente, nos últimos tempos,
00:04:21desde esse período para cá,
00:04:24as sacadas políticas que têm se dado
00:04:26para desmascaramentos do terrorismo
00:04:31em vários campos,
00:04:33inclusive, com a circunstância budérsia,
00:04:37com essa pequena parcela de contribuição,
00:04:39para esclarecer o que é isso.
00:04:42Uma vez em Brasília, fomos fazer alguma coisa em Brasília,
00:04:45e a gente olhava pelo viaduto da rodoviária,
00:04:48onde se veiam os ministérios,
00:04:51a esplanada, o Palácio do Planalto, os Três Poderes,
00:04:55e ele me dizia, nunca esqueça essa cena,
00:04:58se eu fizer um filme um dia, eu vou usar essa cena.
00:05:00E ele dizia, olha, está vendo isso aí?
00:05:02Eu não dou dois anos para a gente ocupar isso,
00:05:07tomar esse país com a revolução,
00:05:09porque eles são mercenários,
00:05:12os militares trabalham nisso durante o dia.
00:05:15E nós somos guerrilheiros,
00:05:17somos revolucionários em tempo integral,
00:05:19então nós temos mais força do que eles e tal.
00:05:22E vamos conseguir, eu não dou dois anos
00:05:24para a gente tomar o poder.
00:05:25Eu fui convidado para um churrasco,
00:05:29onde disse que ia falar o Cavaleiro da Esperança,
00:05:33que era o Prestes, né?
00:05:36E ele foi lá e me diverti no churrasco,
00:05:40nem entendi nada do que o Prestes falou,
00:05:43falou reforma agrária, não sei o quê.
00:05:46E dali eu fui convidado aí para umas reuniões e tal,
00:05:51que aconteceriam lá em Osasco,
00:05:54onde era a sede do partido.
00:05:56Ao mesmo tempo, eu trabalhava na Ford Motors
00:06:01e era metalúrgico,
00:06:02então eu frequentava o sindicato dos metalúrgicos.
00:06:06Aos 14 anos você já era metalúrgico?
00:06:08Já.
00:06:08Você não podia fazer teatro, que estava proibido,
00:06:10a música foi proibida, a universidade era uma merda.
00:06:13Aí o que restava era radicalizar pela luta armada mesmo.
00:06:17Quando você opta pela luta armada,
00:06:19você sabia de todos os riscos que vocês corriam, não?
00:06:24Sim, claro.
00:06:29Mas, sei lá, eu acho que com 18 anos,
00:06:33a gente sempre acha que isso não vai acontecer com a gente, né?
00:06:38É um negócio, de certa forma, não é que ignorasse,
00:06:43mas tem um otimismo total.
00:06:44Sabe, eram as pessoas que tinham decidido fazer algo.
00:06:52De repente, não dá mais pra fazer algo com o movimento estudante,
00:06:56então vamos fazer algo no que sobrou,
00:06:59que é a luta armada, é o único jeito.
00:07:03Brasil, 1968.
00:07:06Depois de quatro anos de dictadura militares,
00:07:08de repressão nos sindicatos e universidades,
00:07:11o povo se reorganiza para fazer face ao poder dos generos.
00:07:15Durante esse tempo,
00:07:17os estudantes descendo sobre o pavê
00:07:19e ataquem a ditadura,
00:07:21trabalhando as tacticas de combate de rua
00:07:22e demoralizando cada dia mais um o inimigo.
00:07:26Para contrecarrar essas acções révolutionárias,
00:07:29o poder se dote de lois de uma extrema violência
00:07:31e mete um movimento à uma terreira policiaira
00:07:34que não há de précédente que do nazismo.
00:07:36Mas essa cruaude do poder
00:07:37renforce também o número de seus inimigos.
00:07:41L'expérience a lhe mostrado
00:07:42que de pequenos grupos de homens armados
00:07:45organizados para as atas das bancas e das casernas
00:07:47pouca, malgras as limites,
00:07:50ser usados para afronter a puissão de feio superior do inimigo.
00:07:54A repression s'abat
00:07:55com uma violência inútil
00:07:57sobre todos os fronts de oposição à a dictadura militares.
00:08:00As torturas sistêmicas
00:08:02fazem as aparências como métodas
00:08:03para tentar manter a pressão do movimento revolucionário.
00:08:08Que tipo de treinamento você e seus companheiros
00:08:11recebiam de Lamarca, no Vale do Rio de Janeiro?
00:08:13Você que fugiu de lá momentos antes de acontecer a coisa
00:08:17do exército prendeu a pressão de gente.
00:08:18No período que eu permaneci lá no Piranga,
00:08:22a gente realizava marchas através das montanhas,
00:08:29em que eu aprendi a realizar levantamentos topográficos
00:08:34e também manejava com armas.
00:08:38Então, dava tiro, às vezes,
00:08:40inclusive, saía para caçar,
00:08:42para se habituar a andar em silêncio, tudo isso.
00:08:46Eu estava participando já de um treinamento de tiro.
00:08:50Meu sonho era ir para a guerrilha do Araguaia.
00:08:52Graças a Deus, não fui.
00:08:54E eu andava pela rua com aquele revólver
00:08:56caindo pela calça,
00:08:59puxando, bandeira, usa demais, né?
00:09:02Puxando o revólver que caía pela calça
00:09:04e não conseguia nem...
00:09:06Nunca tinha disparado.
00:09:07Eu estava com a minha calça ali,
00:09:11desbotada,
00:09:11no bolso de trás, o Livinho do Mal, em Esperanto.
00:09:15No outro bolso, um restinho de bagana de maconha.
00:09:19E empolgado com aquela possibilidade
00:09:22de fazer a revolução no país.
00:09:26A bandeira e o hino
00:09:28são símbolos nacionais.
00:09:31Há sempre uma atitude de respeito,
00:09:33simples e natural,
00:09:35nascida de nosso amor ao Brasil.
00:09:37Os símbolos nacionais pertencem a você.
00:09:42Leve a bandeira no dia da pátria.
00:09:46Cante com amor o hino nacional.
00:09:54Teve um momento que a gente notou em casa
00:09:57que, com toda aquela alegria do movimento secundarista e tal,
00:10:02todo esse movimento,
00:10:04de repente começou a ficar mais sério.
00:10:09As reuniões já não eram tão abertas,
00:10:11não eram na cozinha,
00:10:12todo mundo falando,
00:10:13já eram umas coisas mais secretas.
00:10:16Então, a gente percebia que tinha uma mudança.
00:10:18Tinha um quarto lá,
00:10:19eles estavam conversando, provavelmente, sobre isso.
00:10:22E, quando eu abri a porta,
00:10:24talvez ele não se lembre,
00:10:26ele estava com uma arma na mão.
00:10:29E eu fiquei chocada com aquilo.
00:10:31Por isso que eu falo,
00:10:32a gente não tinha armas em casa.
00:10:33Então, quando eu vi o Marcos com uma arma,
00:10:35aí ele calmamente fechou a porta e falou,
00:10:37olha, não conta pra ninguém.
00:10:40Isso é um segredo e tal,
00:10:42mas presta atenção no noticiário amanhã,
00:10:45porque a gente vai fazer uma ação.
00:10:48Fizemos uns levantamentos
00:10:51pra fazer assalto a banco em Valinhos,
00:10:54em algum lugar.
00:10:55Até que, no fim,
00:10:56acabei fazendo o assalto a banco Aliança.
00:10:59Vocês explicaram que era uma ação revolucionária ou não?
00:11:02Não, só um assalto.
00:11:04Não falava de revolução, nada.
00:11:07Aí, no banheiro,
00:11:08tinha uma japonesinha,
00:11:10começou a ficar assustada,
00:11:12porque a gente, eles falavam,
00:11:14quando for assaltar,
00:11:15eles instruíam a gente,
00:11:17fala em matar,
00:11:18porque eu vou matar,
00:11:19se reagir eu mato,
00:11:21não sei o quê,
00:11:21porque o pessoal fica assustado.
00:11:24E essa japonesinha achou que eu ia matar todo mundo ali,
00:11:27todo mundo de costas na parede,
00:11:30e ela virava pra mim,
00:11:31você vai me matar.
00:11:32Eu falava, vira pra lá.
00:11:35E ela, você vai me matar.
00:11:36Não vem aqui pra matar ninguém.
00:11:38A gente não queria,
00:11:39eu particularmente,
00:11:41não queria que nada acontecesse
00:11:43do ponto de vista de ter que atirar,
00:11:45ou coisa assim.
00:11:46Não havia,
00:11:47eu diria como eu te falo,
00:11:48foi a única ação que nós fizemos.
00:11:52Logo depois,
00:11:53um tempo depois,
00:11:53eu fui preso.
00:11:56Mas é como,
00:11:58a gente não tinha uma consciência muito grande
00:12:00das consequências,
00:12:02eu diria.
00:12:02Um gesto assim,
00:12:03meio desesperado.
00:12:06Algo tem que ser feito,
00:12:07vamos fazer isso,
00:12:08vamos,
00:12:09um pouco de machismo aí,
00:12:11sei lá,
00:12:13aventureiro.
00:12:14e aí começaram as notícias
00:12:16ali perto da hora do almoço,
00:12:19por isso que eu estou falando
00:12:19que foi de manhã.
00:12:21E aí deram a notícia
00:12:23que tinha acabado de ser saudado,
00:12:25o Banco Aliança,
00:12:26na Rua Vergueiro,
00:12:29e aí minha mãe já lavando a louça.
00:12:31E aí começaram a dar descrição.
00:12:34E aí finalizou,
00:12:35e um rapaz,
00:12:37pardo,
00:12:37com sotaque nordestino.
00:12:39Aí minha mãe falou,
00:12:40é o Marcos.
00:12:40Eu digo uma coisa,
00:12:43o produto dos assaltos
00:12:46consumidos pelo Grupo Lamarca
00:12:49ficava com quem?
00:12:50Com o próprio Capitão Lamarca,
00:12:51esse Capitão Lamarca?
00:12:53Ela ficava na administração
00:12:55da organização em mãos
00:12:56que eles julgavam competentes.
00:12:59E esse dinheiro
00:13:01era empregado em quê?
00:13:02Principalmente.
00:13:05Era empregado em aparelhos,
00:13:08em carros,
00:13:09em aluguel de regiões,
00:13:12de fazendas,
00:13:14de casa, etc.
00:13:15Meus pais sempre muito preocupados
00:13:16e eu fazendo,
00:13:19conversando com meu pai
00:13:21sobre as intenções
00:13:23do movimento,
00:13:24dizendo que a gente tinha que,
00:13:25para mudar,
00:13:26acho que eu tinha que ser revolucionário mesmo e tal.
00:13:28Meu pai com medo,
00:13:29minha mãe mais ainda,
00:13:31chorando quando eu saía de casa
00:13:32e voltava para lá.
00:13:34E nessas eu estava com um amigo,
00:13:37tínhamos bebido muito
00:13:38na noite anterior e tal.
00:13:40E estava indo para a rodoviária
00:13:44quando chegando,
00:13:45uma questão de fração de segundos,
00:13:49a gente foi atropelado
00:13:51por uns dez caras enormes,
00:13:54trocou lentos para caramba.
00:13:56Em um segundo,
00:13:57eu estava arrastado
00:13:58para dentro de uma caminhonete.
00:14:01desde a primeira noite,
00:14:03muito choque,
00:14:05pontapé,
00:14:06porrada.
00:14:07Eles colocaram
00:14:07num banquinho,
00:14:09era um banquinho assim,
00:14:10botava a cabeça para fora,
00:14:13ficava pingando
00:14:14álcool no nariz
00:14:17e dando choque.
00:14:20marrava um fio no dedo
00:14:22e depois ia passando assim.
00:14:25Tinha uma maquininha
00:14:26dessas de rodar,
00:14:28uma manivelinha assim,
00:14:31e enfiava na cara,
00:14:33na orelha,
00:14:34na boca,
00:14:37genital.
00:14:38Eu ficava ouvindo os gritos
00:14:39o dia inteiro
00:14:40e a noite inteira.
00:14:41Era muito ruim,
00:14:42muito angustiante,
00:14:45uma agonia terrível.
00:14:47Às vezes eu via passarem
00:14:50mulheres grávidas,
00:14:52freiras,
00:14:53pessoas molhadas
00:14:54porque eles jogavam água
00:14:56para o choque funcionar mais.
00:14:59Mas eu estava forte,
00:15:01apesar daquilo.
00:15:02É claro,
00:15:02levar porrada é uma merda,
00:15:03fica arrasado.
00:15:05Eu caía estatelado no chão
00:15:06depois de cada sessão de tortura.
00:15:09Tinha 19 anos.
00:15:10Tinha lá tipo
00:15:11num barracão,
00:15:14onde já tinha lá
00:15:15uma corda pendurada lá
00:15:17e senta e tira a roupa.
00:15:21Aí começou o lado
00:15:21psicológico da coisa.
00:15:23Senta e tira a roupa.
00:15:24E um guarda,
00:15:25um fuzil,
00:15:27tomando conta.
00:15:29Estirar a roupa
00:15:30foi o trauma
00:15:31que eu carreguei
00:15:32durante muito tempo.
00:15:34Por quê?
00:15:35Porque é realmente
00:15:36o momento
00:15:37onde você se despe,
00:15:39você fica totalmente,
00:15:42vamos dizer assim,
00:15:43fragilizado.
00:15:45E aí pensei,
00:15:46o que eu vou fazer?
00:15:47E aquilo,
00:15:48tirar a roupa
00:15:49realmente foi uma coisa
00:15:49para mim muito forte.
00:15:52Eu falei,
00:15:52perdido por perdido,
00:15:53perdido e meio,
00:15:54como a gente costumou falar.
00:15:55Eu parti para cima
00:15:56do policial,
00:15:58do guarda,
00:16:01do soldado do exército
00:16:02que estava fazendo a guarda.
00:16:04Tentei tomar a arma dele,
00:16:05porque eu pensava ali
00:16:06e já acabar com a coisa
00:16:08por ali.
00:16:09Eu ia ser morto.
00:16:12Mas eles dominaram.
00:16:13Aí chamou,
00:16:14o cara gritou,
00:16:15tal,
00:16:16já correu um monte
00:16:16lá de guarda,
00:16:18de pessoal,
00:16:19polícia,
00:16:20e já me prenderam
00:16:21e já começou a tortura.
00:16:22Isso foi até um fator
00:16:23bom para mim,
00:16:24porque a raiva deles
00:16:26era muito grande
00:16:26porque eu tentei fugir.
00:16:28Então,
00:16:29eu fui pendurado,
00:16:31levei choque
00:16:31por todo o corpo.
00:16:34Mas aquilo me fez
00:16:35uma coisa muito interessante.
00:16:36ninguém foi preso
00:16:37por minha causa.
00:16:39Muita gente
00:16:40entrou no pau
00:16:42e entregou.
00:16:43Não tem um
00:16:44o que disser
00:16:46que não entregou
00:16:47está mentindo.
00:16:49O senhor
00:16:49não entrou no pau.
00:16:53Também
00:16:54não chega a ser
00:16:56esse ponto.
00:16:57Não fui tratado
00:16:58a pão de ló.
00:16:59Diante de
00:17:01outros quadros,
00:17:05o que aconteceu
00:17:06comigo
00:17:08foi
00:17:12uns peteleco.
00:17:15Como você entrega o Rômulo,
00:17:17ele acaba sendo preso
00:17:18também nessa ocasião,
00:17:19não é isso?
00:17:19É.
00:17:20E aí ele vai para onde?
00:17:21Para pé?
00:17:22Foi para lá também,
00:17:23para pé.
00:17:24E vocês se encontram
00:17:25na cela?
00:17:26Não.
00:17:27E aí,
00:17:27como é isso?
00:17:28Ele sabia?
00:17:29Ah,
00:17:30normal,
00:17:30não tem problema nenhum.
00:17:32Já fazia parte
00:17:33do jogo.
00:17:35Torturaram o Rômulo?
00:17:37Torturaram.
00:17:39Porque ele disse
00:17:39que foi só uns petelecos.
00:17:41Uns petelecos.
00:17:43existia dentro
00:17:44de uma estratégia
00:17:46adotada
00:17:46pelas esquerdas,
00:17:48pelos grupos
00:17:48revolucionários,
00:17:49que você resistisse,
00:17:52isso você mesmo conta,
00:17:5324 horas
00:17:55sem entregar
00:17:57alguém,
00:17:58que era para dar
00:17:59tempo
00:17:59da pessoa,
00:18:00da organização,
00:18:01saber que
00:18:02caiu fulano,
00:18:03foi preso,
00:18:04então,
00:18:06e acho que
00:18:0748 horas
00:18:08para entregar
00:18:09um ponto,
00:18:09eu não lembro bem
00:18:10a proporção,
00:18:11mas está lá escrito,
00:18:13que era
00:18:15muito difícil
00:18:16você achar
00:18:17que essa juventude,
00:18:19com esse tipo
00:18:20de preparação,
00:18:21inclusive,
00:18:21resistisse à tortura.
00:18:23O nosso objetivo
00:18:24era
00:18:25que tudo
00:18:27que a pessoa
00:18:28sabia
00:18:28fosse
00:18:30desarmado
00:18:31em 24 horas.
00:18:33E eles também,
00:18:34né,
00:18:34eles estavam
00:18:36preparados
00:18:37para tentar
00:18:38arrancar
00:18:38tudo que é
00:18:39informação
00:18:40o mais
00:18:41rapidamente possível,
00:18:42então,
00:18:43era um massacre
00:18:44a chegada.
00:18:52Meus senhores,
00:18:54convidei-os
00:18:55a comparecer
00:18:56no meu gabinete
00:18:56a fim de lhes
00:18:57apresentar
00:18:58cinco presos
00:18:59que estão
00:19:00à disposição
00:19:00da justiça
00:19:01brasileira.
00:19:03Os senhores,
00:19:04já receberam
00:19:05a autobiografia
00:19:06desses rapazes,
00:19:08todos eles
00:19:09envolvidos
00:19:10em atos
00:19:10de terrorismo.
00:19:12Após
00:19:13muita
00:19:14meditação,
00:19:15resolveram
00:19:16eles redigir
00:19:17um documento
00:19:18dirigido
00:19:18ao jovem
00:19:19brasileiro
00:19:19e outro
00:19:21endereçado
00:19:22à opinião
00:19:22pública
00:19:23internacional.
00:19:24Ambos
00:19:25estão,
00:19:25nesse ato,
00:19:26sendo distribuídos
00:19:28aos senhores.
00:19:29Peço-lhes
00:19:30que os leiam
00:19:31com atenção,
00:19:33fazendo com que
00:19:34o grande público
00:19:35brasileiro,
00:19:36orientado
00:19:37pela imprensa
00:19:37consciente
00:19:38de nossa terra,
00:19:40tome conhecimento
00:19:41da farsa
00:19:42que é o terrorismo.
00:19:44Faça essa,
00:19:45hora denunciada
00:19:46por seus próprios
00:19:47participantes.
00:19:49Brasileiros,
00:19:50acima de tudo,
00:19:51esses jovens
00:19:52dão uma lição
00:19:53a maus patrícios
00:19:55nossos
00:19:55que procuram
00:19:56denegrir
00:19:57nossa imagem
00:19:58no exterior.
00:20:00Somos os chamados
00:20:01presos políticos
00:20:02brasileiros,
00:20:03um pequeno número
00:20:05de pessoas
00:20:06afora qualquer
00:20:07juízo de valor
00:20:08realmente marginalizados
00:20:09de nossos
00:20:10hábitos sociais,
00:20:12não encontrando
00:20:13no meio do povo
00:20:14o mais leve
00:20:15resquício de aceitação
00:20:17e ressonância
00:20:18política.
00:20:19Ser culpados
00:20:20ou não,
00:20:20ou não,
00:20:21compete aos tribunais
00:20:23decidir,
00:20:23pois todos nós
00:20:25somos
00:20:26acusados
00:20:27de praticar
00:20:27delitos
00:20:28contra a segurança
00:20:29nacional.
00:20:30Delitos
00:20:31estes
00:20:32que indiscutivelmente
00:20:33tenham recebido
00:20:34o repúdio
00:20:35da opinião
00:20:36pública brasileira.
00:20:37Deveis
00:20:39já haver
00:20:39tomado
00:20:40conhecimento
00:20:42da existência
00:20:44em nosso
00:20:44país
00:20:44de um movimento
00:20:45terrorista
00:20:46promovido
00:20:48por minorias
00:20:49isoladas
00:20:49cuja audácia
00:20:51e técnica
00:20:52da violência
00:20:53não encontrou
00:20:54limites.
00:20:56Tal movimento
00:20:58raquítico,
00:20:59mas de comportamento
00:21:00imprevisível
00:21:01não provoca
00:21:02consequências
00:21:03outras
00:21:04que o despertar
00:21:06ódio
00:21:07e insegurança.
00:21:09Aí eu fiquei
00:21:10puto com esse negócio
00:21:11de arrependido,
00:21:13arrependido,
00:21:13mas depois
00:21:15tanto faz.
00:21:17Se você tiver
00:21:18que usar uma palavra,
00:21:19que palavra você usa?
00:21:20eu falava
00:21:22reformulação
00:21:23de posição
00:21:24política.
00:21:26Eu sempre
00:21:27usava isso,
00:21:27mas era só
00:21:29também um
00:21:30eufemismo.
00:21:32Hoje você não se importa
00:21:33se falar que você
00:21:34foi um arrependido.
00:21:35Não.
00:21:38Arrepender
00:21:38é corrigir um erro.
00:21:39você acha
00:21:41que foi um erro?
00:21:42Foi,
00:21:42eu não,
00:21:43claro que foi.
00:21:44O que foi um erro?
00:21:46Tudo ali,
00:21:47aquela luta armada,
00:21:49assalto.
00:21:51Em que momento
00:21:52começa a surgir
00:21:53a ideia
00:21:54de vocês
00:21:56fazerem
00:21:56uma retratação
00:21:57pública?
00:22:00Agora,
00:22:01deixa eu ver,
00:22:01em que momento?
00:22:03Eu tô meio
00:22:04com a memória
00:22:05meio
00:22:06embaralhada.
00:22:14a esposa
00:22:15do Rômulo,
00:22:18ela que foi
00:22:19fazer o contato.
00:22:20Foi lá,
00:22:21falou com eles
00:22:22que a gente
00:22:23queria
00:22:24conversar e tal.
00:22:26E eles
00:22:26mandaram
00:22:27a gente
00:22:27pra lá,
00:22:28mandaram
00:22:28buscar lá
00:22:29do Tiradentes
00:22:30pra lá.
00:22:31De quem
00:22:31partiu a ideia
00:22:32de se escrever
00:22:33em cartas?
00:22:34Minha
00:22:35e do Marcos
00:22:37Vinícius
00:22:38ao mesmo tempo.
00:22:40Entendeu?
00:22:40Tá.
00:22:41E
00:22:41os contatos
00:22:43que nós
00:22:43fizemos
00:22:44dentro
00:22:47da comunidade
00:22:48de informação.
00:22:49O Marcos
00:22:50também foi pro
00:22:50governo?
00:22:50Foi,
00:22:51foi,
00:22:51foi.
00:22:52Aí,
00:22:53a gente
00:22:54se fechou
00:22:56lá no
00:22:57Quinto Andar.
00:22:59Quinto Andar
00:23:00era onde ficava
00:23:00a sede
00:23:02do Serviço
00:23:02Secreto,
00:23:03do SI.
00:23:05que era
00:23:06blindada.
00:23:08Entendeu?
00:23:11Nesse
00:23:11dia,
00:23:13sim,
00:23:14aí a gente
00:23:15começou a escrever.
00:23:17A rascunhar.
00:23:18O senhor
00:23:19e o Marcos
00:23:20Vinícius.
00:23:20Eu e o Marcos
00:23:21Vinícius.
00:23:21Tinha uma
00:23:22discordância lá
00:23:23desse grupo
00:23:24deles,
00:23:24uma discordância
00:23:25política mesmo,
00:23:26de ação
00:23:27também.
00:23:29Eu lembro
00:23:29que ele fala
00:23:29disso na hora,
00:23:30que daí ele
00:23:31começa a pensar
00:23:33que ele queria
00:23:34fazer declarações
00:23:35de algum canal
00:23:36com a imprensa
00:23:37em que se mostrasse
00:23:39que não era
00:23:40toda a esquerda
00:23:40que estava
00:23:42fechando
00:23:43com aquela
00:23:46mortandade toda.
00:23:48Eram jovens
00:23:48de 19,
00:23:4920 anos
00:23:50que estavam
00:23:50sendo mortos
00:23:51a cada dia.
00:23:52A gente
00:23:53apresentou,
00:23:56convocou uma reunião
00:23:57com todos eles,
00:23:58com todo o
00:23:58Brasil de Tiradentes,
00:24:01para expor
00:24:02as nossas
00:24:03opiniões.
00:24:04E comunicamos
00:24:05que íamos fazer
00:24:06o rompimento público
00:24:08à imprensa
00:24:09nacional
00:24:10e internacional.
00:24:30Muita gente
00:24:31está contribuindo
00:24:32para tornar
00:24:33ainda mais
00:24:34festivo
00:24:35o dia 7 de setembro,
00:24:36criando
00:24:37e distribuindo
00:24:38objetos
00:24:39verde e amarelos.
00:24:40vá buscar
00:24:41o seu
00:24:42ou faça
00:24:43um você mesmo
00:24:44usando
00:24:44sua imaginação.
00:24:47Dia 7
00:24:48é dia
00:24:49de brasileiro
00:24:49na rua.
00:24:51Comemore
00:24:51o dia
00:24:52da independência.
00:24:53Vocês se consideram
00:24:54inocentes
00:24:55úteis?
00:24:58Olha,
00:24:59essa
00:25:01qualificação,
00:25:01por exemplo,
00:25:02inocente
00:25:02e útil
00:25:03compreende
00:25:03as mais diversas
00:25:04interpretações.
00:25:06Eu acho que
00:25:07no mês
00:25:08estudante.
00:25:08eu acho que
00:25:09ingressei,
00:25:10por exemplo,
00:25:10consciente
00:25:11do que eu estava
00:25:11fazendo,
00:25:13do que eu
00:25:13entendia por ser
00:25:14consciente,
00:25:15etc.
00:25:15Participei,
00:25:16atuei e tudo mais.
00:25:18Agora,
00:25:18é evidente
00:25:19que eu
00:25:20me apercebo
00:25:21de que
00:25:23a minha
00:25:24atuação
00:25:24e a atuação
00:25:25de todo esse
00:25:26pessoal
00:25:28corresponde
00:25:29a outros
00:25:29interesses
00:25:30que não
00:25:30aqueles que são
00:25:31propalados.
00:25:32a partir
00:25:33dessa
00:25:35colocação
00:25:36pode-se dizer
00:25:37que
00:25:37seríamos
00:25:38toda
00:25:38esquerda
00:25:39em geral
00:25:39é inocente
00:25:40útil.
00:25:42Fora,
00:25:43existem
00:25:43pessoas
00:25:44conscientes
00:25:44dessa
00:25:45palhaçada
00:25:45toda
00:25:46e que
00:25:46por
00:25:47comodidade
00:25:48pessoal
00:25:48que angariaram
00:25:49postos
00:25:50permanecem lá.
00:25:51Mas eu acho
00:25:52bastante lá
00:25:53essa interpretação
00:25:54de inocente útil.
00:25:56Eu não acho
00:25:57que nenhum
00:25:58aqui foi
00:25:59programado
00:26:00como computador
00:26:01para servir
00:26:02a um
00:26:03mister fisco,
00:26:04alguma coisa assim.
00:26:05Mas há
00:26:06interesse
00:26:07interno
00:26:08estranho
00:26:08aos interesses
00:26:09patrióticos,
00:26:10excepcionais.
00:26:11É interessante.
00:26:15Presidência da República.
00:26:17Serviço Nacional
00:26:18de Informações.
00:26:20Agência Regional
00:26:21de São Paulo.
00:26:24Aos 21 de maio
00:26:25de 1970,
00:26:27o coronel
00:26:28Danilo Cunhimelo,
00:26:29secretário
00:26:30de Segurança Pública,
00:26:31reuniu a imprensa
00:26:33para apresentar
00:26:34cinco jovens
00:26:35envolvidos
00:26:36em atividades
00:26:36subversivas
00:26:37e que se encontram
00:26:39com prisão
00:26:39preventiva
00:26:40decretada.
00:26:42Este episódio
00:26:43recebeu
00:26:44por parte
00:26:45da imprensa
00:26:46local
00:26:46ampla cobertura,
00:26:48tendo todos
00:26:48os jornais
00:26:49publicados
00:26:50na íntegra,
00:26:51os documentos
00:26:52e notas
00:26:52biográficas
00:26:53dos cinco
00:26:54subversivos,
00:26:55ressaltando
00:26:56a tenra idade
00:26:57com que os mesmos
00:26:59foram doutrinados
00:27:00pelos agentes
00:27:01do comunismo
00:27:02internacional.
00:27:06Na quinta-feira,
00:27:07dia 3,
00:27:08as pessoas
00:27:09mais chegadas
00:27:09ao presidente
00:27:10da república
00:27:11notaram que
00:27:12o general
00:27:12Garrastazu Médici
00:27:13estava particularmente
00:27:15alegre.
00:27:16Logo,
00:27:16relacionaram
00:27:17seu excelente
00:27:18estado de espírito
00:27:19às declarações
00:27:20prestadas
00:27:21na véspera
00:27:22pelo ex-terrorista
00:27:24Massafumi
00:27:24Yoshinaga,
00:27:26lidas pelo presidente
00:27:27no mesmo dia
00:27:27à tarde.
00:27:28declarou
00:27:29sua satisfação
00:27:30pelo fato
00:27:31de Massafumi
00:27:32haver mencionado
00:27:33cinco das suas
00:27:34obras de governo
00:27:35como razões
00:27:36para deixar
00:27:36a subversão.
00:27:37O que mais
00:27:38incluiu
00:27:38nessa sua decisão
00:27:40de dar um
00:27:40adeus
00:27:41ao terrorismo?
00:27:43Foi colocado,
00:27:44me parece,
00:27:44na entrevista,
00:27:46a carta,
00:27:48as ordens,
00:27:48as viagens,
00:27:49o discurso
00:27:50do presidente
00:27:51Médici
00:27:52realizado.
00:27:53Todas as
00:27:54recentes medidas
00:27:55do governo brasileiro
00:27:56incluíram.
00:27:56Exatamente.
00:28:00Na visita
00:28:01que efetuou
00:28:02ao município
00:28:02de Altamira
00:28:03em plena
00:28:04selva amazônica,
00:28:05o presidente
00:28:06Médici,
00:28:06inaugurou
00:28:07oficialmente
00:28:08os trabalhos
00:28:09de construção
00:28:09da rodovia
00:28:10transamazônica,
00:28:11instrumento eficaz
00:28:13de ampliação
00:28:14das fronteiras
00:28:14econômicas
00:28:15do país
00:28:15e uma das obras
00:28:17essenciais
00:28:18do programa
00:28:18de integração
00:28:19nacional
00:28:20elaborado
00:28:21pelo atual
00:28:21governo.
00:28:22de novo.
00:28:28Tinha uma
00:28:29organização
00:28:29grande
00:28:29pelo Médici,
00:28:30não é?
00:28:31Ah, sim.
00:28:32Qual a sua opinião
00:28:33sobre ele hoje?
00:28:35Está reforçada.
00:28:38Está reforçada.
00:28:39Entendeu?
00:28:40Ou seja,
00:28:40eu reforço
00:28:42tudo
00:28:43que eu disse,
00:28:44não só
00:28:45no manifesto,
00:28:47entendeu?
00:28:48como posteriormente
00:28:49a respeito
00:28:51do presidente
00:28:52Médici,
00:28:53que eu rendo
00:28:56em estado
00:28:58permanente
00:28:59homenagem
00:29:00a ele.
00:29:02Entendeu?
00:29:02porque foi
00:29:04um governo
00:29:06de estadista.
00:29:08Entendeu?
00:29:09Não foi um governo
00:29:10de rolo,
00:29:13de trapaças.
00:29:14Entendeu?
00:29:15Foi um governo
00:29:16sério,
00:29:17sóbrio
00:29:17e sereno.
00:29:19Agora,
00:29:20teve que...
00:29:20Mas eu fazer o quê,
00:29:21meu?
00:29:22É que está.
00:29:23O direito
00:29:24de defesa
00:29:25é um direito
00:29:26sagrado.
00:29:28Entendeu?
00:29:29Ele liberou
00:29:31os seus camaradas
00:29:33a se defenderem.
00:29:39Faça você mesmo
00:29:41um catavento
00:29:42verde e amarelo.
00:29:44Festeje o dia
00:29:45da pátria.
00:29:46O Brasil
00:29:47é feito
00:29:47por nós.
00:29:53Fazia parte
00:29:54da negociação
00:29:56vocês serem
00:29:57libertados?
00:29:58Não.
00:29:58Pelo contrário.
00:30:00Entendeu?
00:30:01A gente deixa
00:30:01uma...
00:30:03como se fosse
00:30:05um rodapé.
00:30:07Entendeu?
00:30:09Fazendo...
00:30:09Acreditando
00:30:10a nossa justiça.
00:30:13Entendeu?
00:30:14E que não estávamos
00:30:15negociando nada.
00:30:28Você lembra de cada um
00:30:29que está aparecendo aí?
00:30:31Lembro.
00:30:31Do Osmar,
00:30:32do Gilson,
00:30:33Rômulo,
00:30:34Marco Vinicius.
00:30:36Você se reconhece
00:30:37nessas imagens aí
00:30:38mais de 40 anos
00:30:39depois?
00:30:40Sim,
00:30:40eu acho que sim.
00:30:43eu sempre tive boa índole.
00:30:46Talvez essa é uma das razões
00:30:48de eu ter ido contra,
00:30:49no final,
00:30:49ter rompido com esse lado
00:30:51mais violento da luta.
00:30:54realmente para aqueles estudantes
00:30:56que pretendem canalizar
00:31:00o seu suporte.
00:31:02O Marcos daqui
00:31:03concorda com o Marcos
00:31:04dali hoje?
00:31:05Com o jeito que ele falou,
00:31:06as coisas que ele falou?
00:31:09Concordo.
00:31:11Tenho que tirar.
00:31:16Falei, falei.
00:31:17não nego o que eu falei,
00:31:20nem me arrependo
00:31:22de me arrepender.
00:31:25Foi o que foi.
00:31:29Não se pode
00:31:30jamais dizer
00:31:33que os presos políticos
00:31:38há
00:31:43políticos
00:31:44à disposição
00:31:46da justiça brasileira
00:31:47estejam submetidos
00:31:50a uma situação
00:31:52carcerária
00:31:53desumana.
00:31:55Chega a ser
00:31:56irônica
00:31:57a afirmação
00:31:59de semelhante
00:32:00disparate.
00:32:02Pode
00:32:03a opinião
00:32:04pública
00:32:05internacional
00:32:06tranquilizar-se
00:32:08quanto ao
00:32:09tratamento
00:32:10carcerário
00:32:11dos presos
00:32:13políticos
00:32:14à disposição
00:32:16da justiça
00:32:16brasileira.
00:32:18Atestamos
00:32:19na qualidade
00:32:19de prisioneiros.
00:32:22Até o momento
00:32:23este tratamento
00:32:24tem sido
00:32:26o mais
00:32:27aquietante
00:32:29possível.
00:32:30Todos nós
00:32:31sabemos
00:32:32que a violência
00:32:33gratuita
00:32:33só pode se
00:32:34refletir
00:32:35sobre si
00:32:36mesmo.
00:32:37Nesse sentido,
00:32:38excessos
00:32:39realmente
00:32:40houveram
00:32:42como consequência
00:32:44inevitável
00:32:45da insânia
00:32:45dos predadores
00:32:46e, por outro lado,
00:32:49dos passionalismos
00:32:50despertados
00:32:51em quem
00:32:52se sentiu
00:32:53ameaçado
00:32:54pelos mesmos.
00:32:55A única área
00:32:56que teve a interferência
00:32:58um pedido,
00:33:00uma demanda
00:33:01especial
00:33:02ali do
00:33:02poder foi
00:33:03ah, então
00:33:05você vai ter
00:33:05que contar
00:33:06também
00:33:06como é que
00:33:07são as condições
00:33:08do presídio
00:33:08Tiradentes,
00:33:09porque já estava
00:33:09tendo uma campanha
00:33:10dizendo
00:33:11internacional
00:33:12que os presidiários
00:33:15eram torturados,
00:33:16tinham condições
00:33:17desumanas.
00:33:17Tem um outro ponto
00:33:19da carta
00:33:19que é
00:33:20vocês dizerem
00:33:21que não existia
00:33:22tortura no Brasil
00:33:23naquele momento,
00:33:24mas o senhor me disse
00:33:25que o senhor
00:33:26tinha presenciado
00:33:27dentro da prisão
00:33:30tortura.
00:33:31Por que
00:33:32que
00:33:34então
00:33:34vocês resolveram
00:33:36os deveres
00:33:36que não havia?
00:33:37Não,
00:33:38uma coisa
00:33:38é verdade.
00:33:40A gente
00:33:40olha bem
00:33:41as cartas
00:33:42e
00:33:43nas entrevistas
00:33:46quando
00:33:46da abertura
00:33:48das cartas
00:33:50para a imprensa
00:33:51entendeu?
00:33:52A gente falava
00:33:53e falou
00:33:54várias vezes
00:33:55dos excessos.
00:33:57Ninguém negou
00:33:58os excessos
00:33:59de lado a lado.
00:34:01Excessos
00:34:02quer dizer
00:34:02é um
00:34:03eufemismo
00:34:04que eu usei
00:34:05para dizer
00:34:05que é a tortura.
00:34:07O propósito
00:34:09do tratamento
00:34:10dado aos prisioneiros
00:34:11políticos
00:34:12no Brasil
00:34:13não sei o que.
00:34:14Excesso
00:34:15realmente houve
00:34:16e tal.
00:34:17você sabia
00:34:18que estava
00:34:18usando um
00:34:19eufemismo?
00:34:20Sabia.
00:34:21E mesmo
00:34:22assim
00:34:22você
00:34:23usou?
00:34:24Eu tinha
00:34:25que usar
00:34:26alguma palavra
00:34:27a palavra
00:34:28tortura
00:34:29estava proibida
00:34:30então
00:34:30usei excesso.
00:34:33Posso falar
00:34:34uma coisa
00:34:34quanto a isso?
00:34:35Isso é uma coisa
00:34:36que sempre
00:34:36me intrigou
00:34:37concordando
00:34:38discordando
00:34:39mas parece
00:34:41que as pessoas
00:34:41quando analisam
00:34:42essa época
00:34:44esquecem
00:34:44que eles
00:34:45estavam
00:34:45presos
00:34:47então
00:34:47quando eles
00:34:48fazem a palestra
00:34:49provavelmente
00:34:50você vai
00:34:51falar disso
00:34:52acho que a
00:34:53primeira
00:34:53e eu estava
00:34:54lá como
00:34:54público
00:34:55a primeira
00:34:55pergunta
00:34:56acho que
00:34:57um jornalista
00:34:58faz é
00:34:59tem tortura
00:35:00ou não
00:35:00tem tortura?
00:35:01Quer dizer
00:35:01eles tinham
00:35:02acabado de sair
00:35:03das algemas
00:35:05eles iam voltar
00:35:06para a prisão
00:35:07então
00:35:08você vai na televisão
00:35:09e fala
00:35:10sim
00:35:10existe tortura
00:35:11no Brasil
00:35:11e volta
00:35:12para a cadeia
00:35:12o que você acha
00:35:13vai acontecer
00:35:13com você?
00:35:15As autoridades
00:35:16participaram
00:35:17também
00:35:17de algum modo
00:35:18da relação
00:35:18não
00:35:19que eu conheça
00:35:19não
00:35:20existe
00:35:21eu já li
00:35:22teve livro
00:35:22que falou
00:35:23que cia
00:35:24que a cia
00:35:24não houve nada
00:35:25simplesmente
00:35:26houve uma manifestação
00:35:27própria
00:35:29autêntica
00:35:30acredite
00:35:30quem quiser
00:35:31que surgiu
00:35:32dessa
00:35:33situação
00:35:34que a gente
00:35:34vivia
00:35:35dentro das
00:35:36possibilidades
00:35:38seria bom
00:35:38denunciar
00:35:39tortura
00:35:39mas como
00:35:40a questão
00:35:41naquele momento
00:35:42não era
00:35:42denunciar
00:35:43tortura
00:35:43era abrir
00:35:44uma válvula
00:35:45isso que a gente
00:35:46tinha bastante
00:35:47consciência
00:35:47era abrir
00:35:48uma possibilidade
00:35:49de diálogo
00:35:51de
00:35:52porque a gente
00:35:53via que não
00:35:54tinha condições
00:35:54de ganhar
00:35:56aquela guerra
00:35:57não ia ser ganho
00:35:57daquele jeito
00:35:58entendeu?
00:35:59Vocês todos
00:36:00começaram a participar
00:36:01como secundaristas
00:36:02são portanto
00:36:03bem jovens
00:36:05o jovem
00:36:06depende de uma orientação
00:36:07mas normalmente
00:36:08nós temos visto
00:36:09aí que existe
00:36:10uma falta de orientação
00:36:11por parte dos pais
00:36:12eu gostaria que vocês
00:36:13dizessem algumas palavras
00:36:14aos pais também
00:36:15eu me sinto à vontade
00:36:17para aconselhar
00:36:19os pais
00:36:19mas eu creio
00:36:21que
00:36:21eu creio que
00:36:24um alerta
00:36:25um alerta
00:36:26aos pais
00:36:27principalmente
00:36:28a essa nova
00:36:30modalidade
00:36:31que surgiu por aí
00:36:32não é que
00:36:33é esse maluco
00:36:36vive se inspirando
00:36:38em filmes
00:36:39heróis cinematográficos
00:36:41baboseira toda
00:36:42com a maior
00:36:43leviandade
00:36:44quando o jovem
00:36:45pega numa arma
00:36:46fazer treinamento
00:36:47e tudo mais
00:36:47esse tipo de coisa
00:36:49eu acho que
00:36:50todos os pais
00:36:50tem uma preparação
00:36:52por mínima
00:36:52que seja
00:36:53para ver que está errado
00:36:54saber conduzir
00:36:55o pai
00:36:57o que é nacionalismo
00:36:59é
00:37:01nacionalismo
00:37:02é
00:37:02bem
00:37:03deixa eu ver
00:37:04se consigo desenhar
00:37:05nacionalismo
00:37:06para você
00:37:07olha
00:37:08o nacionalismo
00:37:09não é apenas
00:37:10cumprir os deveres
00:37:11cívicos
00:37:11para a pão
00:37:12a pátria
00:37:14o nacionalismo
00:37:15é um conjunto
00:37:16de ideias
00:37:17meu filho
00:37:17para a ação
00:37:18política
00:37:18econômica
00:37:19e social
00:37:20visando preservar
00:37:21o interesse
00:37:21da nação
00:37:22sim
00:37:23é o fortalecimento
00:37:25da nossa economia
00:37:26o uso
00:37:27das nossas riquezas
00:37:29em benefício
00:37:30de todos nós
00:37:31brasileiros
00:37:32entendeu agora
00:37:33o que é nacionalismo
00:37:34um nacionalismo
00:37:36altivo
00:37:37equilibrado
00:37:38e justo
00:37:39é instrumento
00:37:40de governo
00:37:40este é um país
00:37:42que vai pra frente
00:37:47quando se fala
00:37:48você pode discordar
00:37:49da carta
00:37:49você pode fazer
00:37:50o que for agora
00:37:52cada um tem o direito
00:37:53mas acusá-lo
00:37:55de traidor
00:37:55de que não foi
00:37:57torturado
00:37:58de que fez isso
00:37:59para ser libertado
00:38:01é uma leitura
00:38:02muito pobre
00:38:03de um momento
00:38:04que era uma postura
00:38:05política
00:38:06que eles estavam tomando
00:38:07para a esquerda
00:38:08bastou
00:38:08não concordar
00:38:09com alguma coisa
00:38:10é traidor
00:38:11trote
00:38:12que é traidor
00:38:14e assim vai
00:38:16qualquer um
00:38:16que
00:38:17de virja
00:38:18já é traidor
00:38:20eu estava
00:38:21contra eles
00:38:22então
00:38:23estava na cara
00:38:24que eu chamava de traidor
00:38:25mas você não se sentia
00:38:26um traidor
00:38:29não
00:38:29eu achei que eu fiz
00:38:30o que eu tinha
00:38:31que fazer
00:38:31o que eu devia fazer
00:38:32o Marcos Vinicius
00:38:35eu reclamo muito
00:38:36direitos de liberdade
00:38:37do homem
00:38:38de oposição
00:38:38dentro de qualquer regime
00:38:40seja aí de qual for
00:38:41e os direitos
00:38:42de se opor
00:38:43ao governo
00:38:44às instituições
00:38:45você me responde uma coisa
00:38:47dentro da esquerda
00:38:49dentro do movimento de esquerda
00:38:50também há os direitos
00:38:51de oposição
00:38:52para aqueles que querem
00:38:54combater determinado princípio
00:38:55ou para aqueles que querem sair
00:38:56mesmo do movimento
00:38:57eles serão recebidos depois?
00:38:59não há direito nenhum
00:39:00o que ocorre
00:39:03nos chamados países
00:39:04socialistas
00:39:05mostra claramente isso
00:39:08então
00:39:08não existe
00:39:10inclusive nós
00:39:10nessa nossa posição
00:39:12a posição que nós assumimos agora
00:39:14nós fizemos
00:39:15uma medida
00:39:16assim mais ou menos
00:39:16clara disso
00:39:17dentro do próprio presídio
00:39:20em decorrência
00:39:21daquela explicação
00:39:21que veio
00:39:22repudiados ali
00:39:23violentamente
00:39:24inclusive
00:39:27tivemos o cuidado lá
00:39:28de preservar a segurança
00:39:30dos próprios presidiários
00:39:32ali
00:39:32não aceitando
00:39:36tomar qualquer medida
00:39:37repressiva contra eles
00:39:39e a preocupação maior
00:39:40não é em refluxar
00:39:41essas posições
00:39:42através de argumentações
00:39:43lógicas claras
00:39:44mas quem é disso
00:39:45por exemplo
00:39:45eles acham principalmente
00:39:46agentes da cia
00:39:48agente não sei o que
00:39:51traidor
00:39:51a televisão
00:39:52transmiteu diretamente
00:39:54então a notícia
00:39:56chegou a eles
00:39:57chegou total
00:39:58então foi
00:39:59o pandemônio
00:40:01quando vocês entraram
00:40:02no presídio
00:40:02é
00:40:03você se lembra disso
00:40:05é quase que não dava
00:40:06para entrar
00:40:07meu
00:40:07uma gritaria
00:40:09o carcereiro
00:40:10não sabia o que fazer
00:40:12e a gente estava
00:40:13na porta da cela
00:40:14não tinha nem entrado
00:40:15ainda
00:40:15aí eu falei
00:40:17vamos lá para baixo
00:40:18vamos
00:40:18todo mundo para baixo
00:40:19né
00:40:19começaram a jogar
00:40:21coisa
00:40:21para baixo da onde?
00:40:23para baixo era
00:40:24porque ficava no primeiro andar
00:40:25a cela
00:40:26gritos
00:40:27vaias
00:40:28entendeu
00:40:29e eu também enfrentava
00:40:30passava na grade
00:40:33da cela
00:40:33entendeu
00:40:34e falava
00:40:35você é italinista
00:40:36meu
00:40:37você
00:40:38comia
00:40:39mandava
00:40:40pedia para o Prestes
00:40:42para colocar os caras
00:40:43no curso da Rússia
00:40:44para vocês comerem
00:40:45a mulher do cara
00:40:46passou um dois dias
00:40:48o diretor da cadeia
00:40:50chamou a gente
00:40:51a gente falou
00:40:52a situação aqui
00:40:53está
00:40:55insustentável
00:40:56está correndo o risco
00:40:57de haver uma rebelião
00:40:59eu falei
00:41:00eu não quero fazer rebelião
00:41:01ele falou
00:41:02não entendo
00:41:03o ponto de vista
00:41:04de vocês
00:41:04mas já foi providenciado
00:41:08uma cadeia
00:41:09num quartel
00:41:10da força pública
00:41:11um quartel
00:41:13de cavalaria
00:41:14ficava ali perto
00:41:14e vocês vão ter
00:41:16que ser transferidos
00:41:17para lá
00:41:17tá bom
00:41:19mas vocês pediram
00:41:20para ser transferidos
00:41:20não
00:41:21não
00:41:22eles retiraram
00:41:23por quê?
00:41:23é
00:41:23retiraram
00:41:24por quê?
00:41:25para
00:41:27preservar
00:41:28a nossa
00:41:28integridade física
00:41:30ô Romo
00:41:32me diga uma coisa
00:41:32você é um
00:41:33estudioso
00:41:34estudou muito
00:41:35leu muito
00:41:36pertenceu à esquerda
00:41:37e depois mudou
00:41:39de opinião
00:41:39agora você vai viver
00:41:40muitos anos ainda
00:41:41eu acredito
00:41:42vai estudar mais
00:41:43e você seria
00:41:44você acha que é
00:41:45preciso
00:41:46você voltar
00:41:46aqui?
00:41:47a alma integrada
00:41:48ao viver realmente
00:41:49tenho 23 anos
00:41:50vou começar a viver
00:41:51integrado de fato
00:41:53sociedade
00:41:54como cidadão comum
00:41:55sem outras preceções
00:41:58e recontinuar meus estudos
00:42:00e me dedicar
00:42:01na família
00:42:02ter um trabalho
00:42:03normalmente
00:42:05se há fato
00:42:07que eu não posso prever
00:42:09como também
00:42:10o que eu não posso prever
00:42:11o seu destino
00:42:11ou os senhores telespectadores
00:42:13também
00:42:14dia de amanhã
00:42:15e aí
00:42:46A CIDADE NO BRASIL
00:42:53A CIDADE NO BRASIL
00:43:33A CIDADE NO BRASIL
00:43:36A CIDADE NO BRASIL
00:43:45A CIDADE NO BRASIL
00:43:59A CIDADE NO BRASIL
00:44:29A CIDADE NO BRASIL
00:45:06A CIDADE NO BRASIL
00:45:12A CIDADE NO BRASIL
00:45:13A CIDADE NO BRASIL
00:45:29A CIDADE NO BRASIL
00:45:34A CIDADE NO BRASIL
00:45:35A CIDADE NO BRASIL
00:45:37A CIDADE NO BRASIL
00:45:53A CIDADE NO BRASIL
00:46:01A CIDADE NO BRASIL
00:46:04A CIDADE NO BRASIL
00:46:23A CIDADE NO BRASIL
00:46:26A CIDADE NO BRASIL
00:46:28A CIDADE NO BRASIL
00:46:35A CIDADE NO BRASIL
00:46:39E ROMPE COLA MARCA
00:46:41TAMBÉM
00:46:42E AÍ ELE FAZ UM CONTATO
00:46:44COM O IRMÃO
00:46:45EU NÃO SEI COMO É QUE
00:46:47COMO É QUE ELE CONSEGUE
00:46:47FAZER ESSE CONTATO
00:46:49EU NÃO ME LEMBRO EXATAMENTE
00:46:50COMO É QUE FOI
00:46:51MAS ELE CONTATA O IRMÃO
00:46:54O IRMÃO
00:46:55QUE ESTUDAVA NA MESMA CLASSE
00:46:56QUE A MINHA IRMÃO
00:46:58LÁ NO BRASIL
00:46:59E FALA, OLHA, O MEU IRMÃO
00:47:01ENTROU EM CONTATO
00:47:02O MAÇAFUNIA ENTROU EM CONTATO
00:47:03E ELE QUER
00:47:04FALAR COM
00:47:05COM O MARCUS
00:47:07ELE QUER SABER DESSAS CARTAS
00:47:09QUER SABER DO QUE SE TRATA
00:47:10E ELE QUER ORIENTAÇÕES
00:47:12SOBRE QUE ELE QUER FAZER
00:47:14CÊ QUER FAZER
00:47:15CÊ QUER FAZER
00:47:15UM POUCO SOBRE ISSO OU NÃO?
00:47:16SOBRE ESSE CONTATO DO MASSA?
00:47:18O QUE QUE VOCÊ SUGERIU PRA ELE?
00:47:22É, EU LEMBRO VAGAMENTE
00:47:23EU LEMBRO QUE EU VALLEI
00:47:24CÊ TEM TRÊS OPÇÕES
00:47:25CÊ PODE IR PARO EXTERIOR
00:47:28CÊ PODE SE ESCONDER
00:47:30AQUI NO BRASIL
00:47:31O PODE IR SE ENTREGAR
00:47:34A IRMÃ DELE LEVA UMA MENSAGEM
00:47:36DO MASSAFUME
00:47:38QUE TAVA NA MISÉRIA
00:47:41DORMINDO EM BARRACA DE FEILANTE
00:47:43FOI ABANDONADO
00:47:44E A PRÓPRIA FAMÍLIA
00:47:46TINHA MEDO DE FICAR COM ELE
00:47:47AÍ ELE PEDE SOCORRO
00:47:49PRA IRMÃ DO MARCOS
00:47:51AÍ ELA FALA COM O MARCOS
00:47:53E O MARCOS
00:47:54ALÍ DENTRO DA PRISÃO
00:47:55CONVENCE ELE
00:47:57A SE ENTREGAR
00:47:59ELE NEGOCIA OS TERMOS
00:48:02COM O PESSOAL DO DOPS
00:48:04ELE OS TERMOS QUE ELE NÃO
00:48:07ENTREGARIA A NINGUÉM
00:48:09E NÃO SERIA TORTURADO
00:48:11E LOGO SAIRIA
00:48:13ESSAS TRÊS
00:48:14DE NEGÓCIO
00:48:15FORAM ATÉ COMPRIDAS
00:48:16TINHA ELE
00:48:18TINHA EVET
00:48:18TINHA ELE
00:48:18CHAMBIA
00:48:18TINHA ELE
00:48:19TINHA FEET
00:48:20TINHA ELE
00:48:22TINHAE
00:48:23DEALARDO
00:48:24TINHA ULTHO
00:48:24TINHAE
00:48:24TINHAE
00:48:28TINHAE
00:48:30TINHAE
00:48:51O que o levou a abandonar o terrorismo?
00:48:54Covardia ou medo?
00:48:55Nem covardia e nem medo.
00:48:58Os motivos que me levaram a abandonar o terrorismo foi a convivência com os elementos desse terrorismo.
00:49:03E esse terrorismo é uma continuação daquela situação inconsequente do movimento estudantil, só que com mais graves consequências.
00:49:11E os motivos principais foram aquela carta que me serviu para esclarecer, escrita ao jovem brasileiro, que eu entendi bem
00:49:18a mensagem contida.
00:49:20Os motivos principais também foram as viagens sendo essencializadas, quando eu tive a oportunidade de ver em loco as realizações
00:49:28existentes no país sendo encaminhadas.
00:49:31E também que a minha entrega, as autoridades brasileiras, a justiça brasileira, ela representaria não só a entrega em si,
00:49:41mas também um exemplo a que novos jovens não entram nesta aventura idiota, sanguinária e ao terrorismo.
00:49:55Presidência da República
00:49:57Serviço Nacional de Informações
00:49:59Agência Regional de São Paulo
00:50:027 de julho de 1970
00:50:04Assunto
00:50:06Masafumi Yoshinaga
00:50:09Nos últimos dias de junho
00:50:11O epigrafado, depois de manter contato com os familiares dos cinco estudantes presos que renegaram a violência estéreo como forma
00:50:20válida de ação, e se convenceram da espontaneidade daquela decisão, resolveu-se entregar às autoridades policiais, pondo-se à disposição
00:50:30da justiça brasileira.
00:50:31Não obstante, seja cedo para se poder aquilatar da sinceridade da conversão do epigrafado aos ideais revolucionários, não há dúvidas
00:50:42de que foi altamente positiva sua tomada de posição.
00:50:47Ressalta-se como pontos mais marcantes os seguintes
00:50:51Repercussão na imprensa escrita e falada
00:50:54Foi excepcionalmente ampla e favorável à reação da imprensa local, através de ampla e bem desenvolvida cobertura.
00:51:04No noticiário, nos comentários e nos editoriais, foi sempre salientado que a ação do epigrafado foi ato de coragem e
00:51:13dignidade.
00:51:14O episódio foi apresentado como exemplo a servir de inspiração a outros jovens desencaminhados.
00:51:22As críticas do epigrafado a seus ex-líderes foram realçadas.
00:51:27Sua trajetória pelo terrorismo, explicada como fruto da imaturidade e inexperiência,
00:51:34e seu último ato como reconhecimento das falhas ideológicas de um terrorismo primário e fanático.
00:51:44Em conclusão, a tomada de consciência do epigrafado entregando-se à justiça
00:51:50representa o primeiro e efetivo passo constatado nessa área,
00:51:56visando o desarmamento dos espíritos daquela parcela da nossa juventude alienada
00:52:02para os autênticos valores nacionais e ideais revolucionários.
00:52:07Se seu exemplo fortificar, grande êxito poderá ser alcançado na luta antissubversiva.
00:52:17Masafumi tem acesso.
00:52:19Masafumi tem acesso.
00:52:20Masafumi é um argumento de segurança.
00:52:22Masafumi é um argumento do Estado.
00:52:35O Massa não conseguia trabalhar em lugar nenhum.
00:52:38Ele era o Massafumi.
00:52:40Ou ele era um terrorista, um ex-terrorista perigosíssimo,
00:52:45ou ele era um traidor.
00:52:48Então nem na direita, nem na esquerda, ele tinha pra onde correr.
00:52:51Muita gente fala que o Marcos não acompanhou o Massafumi nesse momento,
00:52:56quando ele começa a entrar em profunda depressão.
00:52:58Ele, sim, entra numa depressão terrível.
00:53:01Mas, na verdade, a gente ia lá quase toda semana na casa do Massa.
00:53:07E a determinado momento ele resolve que ele não fala mais.
00:53:11Queria parar de falar.
00:53:13Parar de falar?
00:53:14É.
00:53:14Parou de falar sobre o assunto?
00:53:16Parou de falar.
00:53:18Sobre qualquer coisa?
00:53:19Sobre qualquer coisa.
00:53:20Ele já começava?
00:53:22Ele ficava mudo?
00:53:23Ficava mudo.
00:53:24Massafumi parou de falar.
00:53:26Ele achava que a repressão ouvia os pensamentos dele.
00:53:32Ia pro litoral porque, ao nível do mar,
00:53:36as ondas cerebrais não se propagavam pro Planalto.
00:53:41Uma loucura.
00:53:42Ele tentou se suicidar duas vezes.
00:53:45O que foi isso?
00:53:45O que foi?
00:53:45O que foi?
00:53:45Amém.
00:54:22Amém.
00:54:2618 de janeiro de 1971. Confidencial.
00:54:31Senhor Ministro, tenho a honra de levar ao conhecimento de Vossa Excelência o documento anexo que trata de assunto de
00:54:38interesse desse ministério.
00:54:39Caso Vossa Excelência concorde com o aproveitamento dos jovens que efetivamente optem pela reintegração na sociedade, abandonando a subversão, sugiro
00:54:50que seja estabelecida uma diretriz que regule o assunto.
00:54:54General de Brigada, Carlos Alberto da Fontoura, chefe do Serviço Nacional de Informações.
00:55:03No meu caso, evidentemente, foi o primeiro arrependimento de forçar, porque eu nunca tive intenção nenhuma, nem jamais faria em
00:55:13situação normal, nem tive em mente obter nada, nem nada, né, que foi um negócio que decorreu totalmente da fragilidade
00:55:26de um momento que estava em condições subhumanas.
00:55:39No dia em que eu fui preso, depois de apanhar o dia inteiro, de manhã até lá, à noite, com
00:55:46o intervalo, quando às vezes iam interrogar outro e tal, mas depois de um dia todo massacrado, pô, eu estava
00:55:54percebendo que...
00:55:56que não ia dar pra aguentar numa de não falar nada e tal.
00:56:01Então, se você quer escapar aí, eu te arrepiar, mandar arrepiar todo, escreve algo pra convencer os jovens que não
00:56:13devem participar da guerrilha hoje.
00:56:16Quer dizer, eu sabia que tinha havido lá aquele arrependimento primeiro, que divulgaram à imprensa só e sabia do massa
00:56:27-fume que tinha sido pela TV.
00:56:29Aí eu pensei, pô, na TV, com minha cara toda amarrotada, vou me levar lá pra todo mundo ver que
00:56:36a gente apanha que nem desgraçado?
00:56:40Então, não vai, tá? Vão publicar essa porra num jornal que se dane ele.
00:57:03Assunto. Declarações de Celso Lungaretti.
00:57:07No 8 de julho do corrente ano, espontaneamente, sem qualquer tipo de coação ou promessa de vantagens futuras, de próprio
00:57:16punho, escreveu o Manifesto Anexo,
00:57:19em que repudia de modo veemente a ação subversiva revolucionária e declara, a partir daquele momento, ter abandonado esse tipo
00:57:28de luta política.
00:57:30Hoje à noite, será televisionada uma entrevista gravada em tape dada por Celso Lungaretti a repórteres locais.
00:57:38Face à repercussão positiva que deverá ter na opinião pública.
00:57:42E considerando o momento atual, seria interessante que a mesma fosse projetada em outras áreas.
00:57:51Só sei que foi filmado no estúdio da Globo do Jardim Botânico. Isso com certeza.
00:57:58E quanto ao negócio do rosto, fizeram bastante maquiagem.
00:58:02Ele estava pior que a atriz velha escondendo ruga.
00:58:08Encheram de maquiagem para...
00:58:11Diz o Ivan Seixas, que é um companheiro...
00:58:15Também tem um papel importante nesse negócio.
00:58:18Ele estava com o Lamarca e...
00:58:21Pessoas que estavam vendo junto me criticaram, falaram que tinha que morrer e tal.
00:58:26E o Lamarca dizia, não, mas vocês vão ver que esse cara foi torturado pra caramba.
00:58:33Se eu tivesse controle da situação, eu jamais teria levantado esse tipo de coisa.
00:58:47Não dá pra desfazer.
00:59:02Mas quatro jovens estudantes tomam contato com a realidade.
00:59:07Arrependem-se. Repudiam o terrorismo. Caraca.
00:59:11Gustavo Guarana Barbosa, o Celso, com 20 anos, estudante secundário, natural da Guanabara,
00:59:18confessou que foi recrutado para os quadros da VAR Palmares por Allan Kardec Pimentel e Rui Manuel.
00:59:24Participou de roubos e era elemento de contato com as organizações do Rio, Brasília, Goiânia e Estado do Rio, verdade.
00:59:32Comprava armas e efetuava pagamento dos aluguéis dos aparelhos, mais ou menos.
00:59:39Assunto.
00:59:40Gustavo Guimarães Barbosa, codinome Celso.
00:59:45Imaturo, voltado e atraído ao banditismo pelo espírito de aventura, viu todos os seus encantos sumirem ao ser preso.
00:59:54Caiu na dura realidade e procurou reparar o erro cometido, buscando uma solução para melhorar sua imagem e reintegrar-se
01:00:01na sociedade.
01:00:03Sua atitude foi motivada por interesse e como fuga da situação em que se encontrava.
01:00:09Fez programa de TV.
01:00:13Depois de algum tempo, me levaram da solitária onde eu estava,
01:00:19e que eu até gostava, porque meditava, fazia meu joguinho de xadrez com miolo de pão, uma série de coisas
01:00:26assim.
01:00:26Volta e meia, alguém abria a porta e mostrava para um oficial que estava passando por lá.
01:00:32Terrorista!
01:00:33Me apontava e eu, aquele menino indefeso ali, estava nessa altura já fazendo uma autoavaliação da história toda
01:00:42e sabendo que tinha sido um equívoco mesmo.
01:00:44Eu me lembro muito, eu estava até numa cela isolada lá e abriu a porta e disse
01:00:49olha aqui, terrorista!
01:00:50Aí pendeu, era o Massafume.
01:00:51Eu vi a foto dele no jornal, o cara não deixou eu ler, mas eles me relatavam que estavam acontecendo
01:00:59esses casos.
01:01:02O próprio Lungaretti.
01:01:04E eles, depois, quando começaram a conversar mais comigo sobre isso, falavam desses caras com bastante simpatia.
01:01:12Pô, Lungaretti, inteligente pra caramba, não sei o quê, o Massafume e tal.
01:01:16E eu não me identificava de jeito nenhum com as atitudes deles, mas eu fui meio que levado a isso
01:01:26e não disse não porque achei que me convinha.
01:01:30Eu não procurei, eu fui perguntado se eu faria.
01:01:34Me chamaram pra alguma coisa, alguma conversa que eu não lembro realmente,
01:01:38e disseram, você faria uma entrevista e tal?
01:01:40Eu disse, faria.
01:01:41Não concordo mais mesmo, faria.
01:01:43Nos propuseram um programa de televisão, onde a gente iria fazer uma autocrítica da atuação política, na guerrilha e tal.
01:01:53E todos concordamos, porque a perspectiva de ter uma liberdade condicional depois nos atraía também.
01:02:00Eles prometeram isso?
01:02:02Prometeram isso.
01:02:15Quando estava marcada já a entrevista na televisão, me pediram que escrevesse alguma coisa, pra brifar os entrevistadores.
01:02:23E eu tinha um caderno onde eu escrevia coisas e cartas pelos pais e tal, e fiz, tirei do caderno
01:02:30e guardei aqui.
01:02:32Os fatores que me levaram à marginalização e ao terrorismo foram muito mais existenciais do que políticos e ideológicos.
01:02:41Adolescência em desenvolvimento, consciente eu estava, antes da militância na organização, de que vivia transições.
01:02:49Essas transições punham em xeque um ponhado de coisas, negavam outro tanto, chocava-me a vida padrão, o terno gravato,
01:02:56o império das máquinas.
01:02:58Eu queria fugir disso tudo.
01:02:59A sociedade pede-nos uma verdadeira colaboração.
01:03:03Vamos participar.
01:03:04O governo promete-nos mais oportunidades para essa participação.
01:03:08Devemos cobrá-las.
01:03:10Vamos formar mais projetos, Rondon, Mauá.
01:03:13Vamos engrossar as fileiras do serviço social.
01:03:15Vamos dedicar tempo livre à alfabetização, ao trabalho desinteressado, reais sementeiras de progresso e justiça.
01:03:22Com essa mensagem, quero declarar de público que renuncio definitivamente ao terrorismo e renego com plena certeza de estar agindo
01:03:32certa e lucidamente toda a prática da organização a que pertenci e de qualquer outro grupo terrorista.
01:03:40E quando você lê a carta hoje, como ela te soa?
01:03:43Rapaz, não me soou mal agora, não.
01:03:46Eu estava lendo, eu achei até legal a carta, embora, como eu disse, eu não precisasse ter falado tanto nesses
01:03:54projetos do governo, mas a intenção foi essa.
01:03:57Foi dizer que era uma roubada, que, de fato, que tem outras maneiras de participar.
01:04:02Eu não podia falar em esquerda, vamos repensar a esquerda.
01:04:05Não podia.
01:04:06Tinha meus limites.
01:04:07Se eu fui dentro dos limites, talvez tenha ficado mais do que devia, mas é o que foi possível para
01:04:13mim.
01:04:15Fomos conduzidos até a TV Globo, na época, no Jardim Botânico, onde havia...
01:04:23Eram quatro entrevistadores, um de cada canal, e fizemos o programa.
01:04:30Eles ensaiaram vocês antes?
01:04:32Fizemos uma reunião, teve uma reunião antes, disseram cada pergunta que ia ser feita para cada um.
01:04:37Os jornalistas?
01:04:38É, os jornalistas, os quatro.
01:04:39E eles não estavam dispostos a encontrar verdade nenhuma?
01:04:42Estavam dispostos a seguir aquele roteiro deles, né?
01:04:45O script era esse, era jovens arrependidos, terroristas arrependidos.
01:04:49E agora vamos fazer uma entrevista com o Gustavo Barbosa, um jovem terrorista e tal,
01:04:54que está em algum lugar do Rio de Janeiro, concedendo essa entrevista.
01:04:59Em algum lugar, era 50 metros dele.
01:05:02Depois de poucas semanas, eu fui solto.
01:05:04Eu e os outros.
01:05:06Acabou o programa, me levaram para casa.
01:05:08De lá, eu fui ajudado em termos profissionais, porque eu precisava de um emprego.
01:05:14E, ainda durante essa operação, me indicaram para trabalhos.
01:05:21Meu primeiro emprego foi um pistolão do então ministro Andreasa, para trabalhar na Ponte Rio-Niterói.
01:05:29E eu fui lá para uma função burocrática, no escritório da construção da Ponte Rio-Niterói.
01:05:36Depois de alguns meses, eu não aguentei.
01:05:37Pedi demissão, saí, fui levar minha vida, fui fazer artesanato.
01:05:42Estava voltando à vontade de querer ser hippie.
01:05:45O que você acha do termo arrependido, arrependimento?
01:05:49Eu não gosto, eu não me sinto bem com essa expressão.
01:05:52Por quê?
01:05:53Nem com terrorista, nem com arrependimento.
01:05:57Não sei, sinceramente, eu acho que é mais pela carga emocional,
01:06:03meio culposa que essa palavra traz.
01:06:05Eu prefiro falar em autocrítica.
01:06:33Desenvolvimento e segurança.
01:06:35Bem-estar da coletividade.
01:06:40É muita coisa, né?
01:06:42Ah, daqui eles criavam...
01:06:45Criavam um gato e um papagaio.
01:06:48Era anistia.
01:06:51Um se chamava anistia, o outro se chamava revolução.
01:06:56Aqui é Manuel com as irmãs.
01:06:59Eu acho que é a primeira vez que elas vão visitá-lo.
01:07:01Quando elas chegaram, ele não reconheceu as irmãs.
01:07:06Ele estava sem vê-la há quase dez anos.
01:07:10Quando a gente começou a se namorar,
01:07:12não se paquerar, nem namorar.
01:07:15Eu disse assim, do que você se arrepende na vida?
01:07:17Eu não me lembrava que ele era um dos chamados arrependidos.
01:07:21Do que você se arrepende na vida?
01:07:24Ele disse, de nada.
01:07:25Nem do arrependimento.
01:07:27Em que momento ele se arrepende, entre aspas?
01:07:33É, aí quem fala é ele, né?
01:07:36Eu vou ser assim, vamos dizer, o cavalo dele.
01:07:39Está na carta que ele escreveu a Dom Paulo.
01:07:43O desespero que ele vai sentindo na tortura.
01:07:47Ele chega a um ponto de tanto pavor
01:07:51que ele tremia ao som da porta abrindo.
01:07:57Os militares, que são...
01:08:00Não vou ter os nomes assim de pronto para te dizer,
01:08:03mas na carta estão registrados.
01:08:05Um era... O nome de guerra desse cara era Pedro Paulo.
01:08:14Começa a perguntar se ele não iria à televisão,
01:08:18se ele não daria um depoimento
01:08:21dizendo que ele se arrependia,
01:08:25porque ele teria melhores condições,
01:08:27ele poderia ter uma cela com cama,
01:08:29porque ele dormia numa cela nu no chão,
01:08:32sem banho, sem nada.
01:08:34Imagina ser um mês numa cela nu,
01:08:39com frio, com sede, tomando porrada,
01:08:42no pau de arara, no choque elétrico, no afogamento.
01:08:47Ele é entrevistado, fala, responde a um questionário
01:08:51que ele tinha decorado,
01:08:53que eles tinham dito o que ele tinha que falar.
01:08:56Ele se recusa a dizer que não tem tortura.
01:09:00Aí ele volta para a cela onde estavam os outros presos,
01:09:03e aí eles colocam uma televisão dentro da cela.
01:09:08Aí o Manuel entendeu.
01:09:10Coloca uma televisão para que todos assistissem o depoimento do Manuel.
01:09:15Eu acho que fizeram para que o Manuel fosse morto.
01:09:18Eu tenho a mais absoluta certeza que fizeram isso
01:09:21para que o Manuel fosse morto naquele momento.
01:09:24Aí, em 76, já nesse processo, é que ele escreve a carta para o Dom Paulo.
01:09:30Dentro da prisão?
01:09:32Dentro da prisão.
01:09:33Ele só sai da prisão em 79, 80.
01:09:38Em 76, ele escreve a carta.
01:09:40Me fala um pouco dessa carta.
01:09:42A carta foi escrita, até onde eu sei, a Yara.
01:09:47Fala um pouco sobre isso, a Yara.
01:09:49Ela foi sendo escrita aos pouquinhos.
01:09:54Escrita, aí era passada limpo,
01:09:57aí levava um pedaço dentro...
01:09:59As visitas iam pegando no papel de pão,
01:10:04assim...
01:10:05Iam colocando dentro da roupa,
01:10:07escondido dentro do sutiã, dentro da calça,
01:10:10para poder tirar a carta de lá.
01:10:12Até que juntaram e entregaram ao Dom Paulo Evaristo Arte.
01:10:16Ele pede que a carta seja passada para a Amnistia Internacional,
01:10:20para a Comissão de Direitos Humanos da ONU,
01:10:22que seja...
01:10:23E, realmente, a carta teve uma repercussão imensa.
01:10:26Ele denuncia todo o processo de arrependimento,
01:10:30como se dá, né?
01:10:31O dele e de outros.
01:10:33E as consequências para ele?
01:10:34Ele sofreu, ele sabia que ia sofrer.
01:10:37Mas ele já estava...
01:10:38O momento era outro.
01:10:41Ele estava amadurecido, ele tinha consciência,
01:10:43e ele tomou a decisão absolutamente corajosa,
01:10:48que eu duvido que muitos tivessem,
01:10:54de denunciar o que ele fez.
01:10:58Ele fala sobre o que ele fez,
01:11:00ele dá a cara a tapa.
01:11:01Ele diz ao mundo, ele não diz só aquilo,
01:11:05ele diz ao mundo o que estava se passando,
01:11:07nos porões da ditadura,
01:11:09o que eram esses arrependimentos,
01:11:11que eram grandes farsas montadas
01:11:15pela comunicação do governo.
01:11:21portanto, não era aquilo.
01:11:23Não sei que estava havendo tortura, não.
01:11:24Ele sabia e se aproveitavam disso.
01:11:27Então, é um gesto...
01:11:30Caramba!
01:11:31Eu soube que a carta existia,
01:11:33mas ele nunca me deixou ler.
01:11:34Eu só fui ler depois que ele faleceu.
01:11:36Ele sempre me pediu,
01:11:37eu não quero que você leia,
01:11:38porque eu não quero que você pense em mim,
01:11:40passando por isso tudo.
01:11:41E foi a única vez que ele falou comigo,
01:11:42abertamente, sobre isso.
01:11:43É difícil ainda ler essa carta,
01:11:46graças ao tempo ou amanhã um pouco os tempos?
01:11:50Hum...
01:11:51Não sei dizer.
01:11:53É triste.
01:11:54É muito triste.
01:11:55É muito triste...
01:11:57A gente está vivendo um momento terrível no Brasil,
01:12:00que você tem gente pedindo a volta da tortura,
01:12:03gente pedindo a volta da ditadura
01:12:05e você perceber que essas coisas
01:12:08eram cometidas por homens,
01:12:12algumas mulheres que eram pais de família, avós,
01:12:19deviam ter suas casas,
01:12:20iam para suas casas,
01:12:22sentavam à mesa com seus familiares,
01:12:25falavam sobre o dia,
01:12:28falavam sobre seu trabalho,
01:12:29que tinha sido difícil.
01:12:31Nossa, hoje passei, não sei quanto,
01:12:3312 horas interrogando um terrorista,
01:12:37filho da puta,
01:12:38e as famílias deviam dizer
01:12:41Ai, que horror, não é, pai?
01:12:42Porque alguns torturadores,
01:12:44a notícia, a documentação,
01:12:47levavam seus filhos para assistirem.
01:12:51Então, é duríssimo,
01:12:54é duríssimo você ver isso.
01:12:57A tortura não acaba,
01:12:58ela não acaba nunca.
01:13:01Você saber que no Brasil de hoje,
01:13:03nas polícias civis e militares,
01:13:07isso está ocorrendo,
01:13:08isso está ocorrendo,
01:13:10não acabou.
01:13:14Ela cessou a tortura na política,
01:13:19mas a tortura ao preso comum continua,
01:13:22com a mesma brutalidade.
01:13:24As mulheres presas continuam sendo violentadas,
01:13:28abusadas, estupradas.
01:13:31Isso é um horror.
01:13:34Então, ler essa carta, ela traz isso.
01:13:37Ela tem a dor do Manuel e tem a dor do Brasil.
01:13:44Desde o momento em que fui preso,
01:13:46vi-me tomado de verdadeiro pânico,
01:13:48que a cada instante aumentava,
01:13:50e principalmente quando eu me vi rodeado de policiais
01:13:54que espancavam, chegavam e ameaçavam-me todo o tempo.
01:13:58Se antes estava apavorado,
01:14:01agora via-me em verdadeiro desespero.
01:14:03E esse tipo de recepção inicial,
01:14:06não tem outro adjetivo,
01:14:09é o de levar o preso ao desespero,
01:14:11não lhe dando tempo de qualquer raciocínio.
01:14:14Esse espancamento no dops da Guarabara foi até à noite,
01:14:18sendo que naquele estabelecimento
01:14:20ele tem contato pela primeira vez
01:14:22com o pau de arara e choques elétricos.
01:14:25O pau de arara são dois cavaletes
01:14:28ou duas mesas ligadas para uma barra de ferro,
01:14:31onde o indivíduo fica preso,
01:14:35amarrado pelos pés e mãos.
01:14:37Essa sessão de tortura foi acompanhada
01:14:39por choques elétricos nos órgãos genitais,
01:14:42na boca e na cabeça,
01:14:44e também sofri diversos ferimentos nas costas,
01:14:47produzidos por cigarros e charutos,
01:14:50que os torturadores apagavam em minhas costas.
01:14:53Devo salientar aqui
01:14:55que, quando era levado para a cela,
01:14:58a água era cortada
01:14:59e senti uma sede incrível,
01:15:01pois, além dos choques causarem muita sede,
01:15:04quase sempre esta era
01:15:07intensificada pelo sal que me obrigava a comer.
01:15:09A cela era completamente vazia.
01:15:12Além da falta d'água,
01:15:14não tinha cama ou colchão.
01:15:16Eu dormia nu no cimento frio.
01:15:19Por vários dias, urinei sangue.
01:15:22Permaneci no Cisa por cerca de 20 dias
01:15:25e diariamente era torturado,
01:15:27sendo que, em certa noite,
01:15:29fui embarcado em uma lancha
01:15:30que, durante várias horas,
01:15:32navegou pela Baía de Guanabara.
01:15:34e, durante esse passeio,
01:15:36os torturadores ameaçaram matar-me
01:15:38e, por diversas vezes,
01:15:40atiraram-me amarrado à água.
01:15:43E, quando parecia que eu ia afogar,
01:15:45era içado para a lancha.
01:15:47Quando foi mostrado na televisão,
01:15:49o que se pretendia não era mostrar
01:15:52um elemento que estava arrependido do que fizera
01:15:55e que encontraram agora o caminho certo.
01:15:57A pretensão era procurar desmoralizar a luta
01:16:01que se travava, então.
01:16:05Para a repressão, não importava o fato
01:16:06de que eu estivesse arrependido ou não.
01:16:08O que interessava era que, arrependido ou não,
01:16:11eu me mostrava utilizável
01:16:13e, neste sentido, serviria como uma arma a mais
01:16:15a ser utilizada na propaganda antissubversiva.
01:16:21Quero acrescentar ainda que este depoimento,
01:16:23antes de ter o sentido de uma retomada
01:16:25essa disposição revolucionária,
01:16:27ele é sobretudo e, principalmente,
01:16:29a tentativa de um saudar de contas pessoal.
01:16:32Isto é, é um pagamento de uma dívida
01:16:35que tenho para comigo mesmo,
01:16:36pois entendo que a traição por mim cometida
01:16:39não foi apenas uma traição revolucionária.
01:16:41Uma traição política,
01:16:43ela foi também uma traição pessoal,
01:16:46uma traição a mim mesmo,
01:16:48uma traição, há mais de quatro anos,
01:16:49de uma pátria na qual eu acreditava.
01:16:52Observo ainda a minha disposição
01:16:54de estar pronto a responder pelas denúncias
01:16:59que é que faço em qualquer organismo ou tribunal
01:17:02que se dispõe à luta pelos direitos fundamentais
01:17:05da pessoa humana.
01:17:07Manuel Henrique Ferreira,
01:17:09ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária,
01:17:11UPR, e Movimento Revolucionário,
01:17:148 de outubro, MR8,
01:17:16condenado a 57 anos e 3 meses de reclusão.
01:17:20Presídio de Político, Rio de Janeiro, 1976.
01:17:28E agora, ao término desse programa, aí no reduto dos seus lares,
01:17:34ao lado da família, eu peço a vocês todos que se unam
01:17:38e que juntos ouçamos o hino nacional brasileiro.
01:17:44Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
01:17:47de um povo heróico brado retumbante.
01:17:51E o sol da liberdade em raios fúlgidos
01:17:55brilhou no céu da pátria nesse instante.
01:17:59Se o penhor dessa igualdade
01:18:02conseguimos conquistar com um braço forte,
01:18:06em teu seio, ó liberdade,
01:18:09desafia o nosso peito a própria morte.
01:18:13Ó pátria amada, idolatrada,
01:18:17salve, salve.
01:18:20Brasil, um sonho intenso,
01:18:24um raio vívido de amor e de esperança a terra desce,
01:18:28sem teu formoso céu risonho e límpido,
01:18:32a imagem do cruzeiro resplandece.
01:18:36Gigante pela própria natureza,
01:18:40és belo, és forte, impávido colosso,
01:18:45e o teu futuro espelha essa grandeza.
01:18:50Terra adorada, entre outras mil,
01:18:54és tu, Brasil, ó pátria amada.
01:18:57dos filhos deste solo,
01:19:00ex-mãe gentil,
01:19:03pátria amada, Brasil.
01:19:07Pátria amada, Brasil,
01:19:35de
01:19:44O que é isso?
01:20:20O que é isso?
01:20:45O que é isso?
01:21:05O que é isso?
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