00:00E ainda nesse assunto, a alta nos preços do petróleo, impulsionada de fato pelas tensões no Oriente Médio, gera inflação
00:07global e risco de recessão.
00:09Para falar sobre esse assunto, a gente recebe agora o professor de Economia do INSPER, Roberto Dumas.
00:14Professor, seja muito bem-vindo. Bom dia.
00:17Bom dia, Paula. Bom dia, Caneta. Prazer estar com vocês aqui.
00:20Professor, a situação já não está fácil. Já tem alta no diesel, no querosene para aviação.
00:26Você vê ainda uma piora nesse cenário, levando em consideração que a gente não tem um consenso em relação a
00:31esse conflito, professor?
00:33Veja, eu vejo uma piora, não só por causa do diesel, da gasolina, mas também por causa do fertilizante de
00:39alimento.
00:40O problema é o seguinte, mesmo que a guerra acabe hoje, já está ocorrendo uma destruição da infraestrutura energética
00:50dos países aliados dos Estados Unidos e inimigos do Irã, e até mesmo do Irã.
00:58Então, se a guerra acaba agora, para você restabelecer essa infraestrutura energética, vai demorar algum tempo.
01:07Então, o preço do petróleo vai ficar puxado por algum tempo.
01:12Então, nós não temos a capacidade de refino, e isso acaba puxando o preço da gasolina e do óleo diesel.
01:22Mesmo que tivéssemos a capacidade de refino, nós estamos falando de uma commodity.
01:29Por exemplo, nos Estados Unidos, o preço do diesel e da gasolina subiu, respectivamente, 40% e 35%,
01:38que pode prejudicar as eleições de mid-term lá em novembro.
01:44E a estaga inflação, ou seja, recessão com inflação, porque o que está acontecendo é um choque de oferta.
01:52Você para de trabalhar, deixa de comprar o combustível porque não tem, e isso faz o PIB sofrer, mas a
02:02inflação vem junto.
02:03E prejudica ainda mais, se você me permite, a decisão das políticas monetárias dos bancos centrais ao redor do mundo,
02:12que todos esperavam que iria cair, não vertiginosamente, mas que a taxa de juros cairia.
02:19Por exemplo, no Brasil, caiu 0,25%.
02:22Nós não esperamos mais uma taxa de juros de 12,25% no Brasil, mas já estimativas apontam 13%
02:32de juros
02:33e na curva de juros, já 14% dos estimados, ou seja, dos antigos 15%, que agora está em 14
02:43,75%, Paulo.
02:45Pois é, agora, professor Dumas, bem-vindo, bom dia ao senhor.
02:48Queria pedir uma análise e reflexão a partir das informações que foram divulgadas nos últimos dias,
02:54principalmente a manifestação de Donald Trump naquele pronunciamento para a nação anteontem,
03:00quando ele menciona a possibilidade de ampliação do conflito, intensificação dos ataques,
03:07e aí, obviamente, os mercados acabam sentindo muito esse tipo de declaração.
03:12Fala-se muito, claro, no preço do petróleo, mas é preciso olhar adiante e entender exatamente quais reflexos em outros
03:21setores.
03:22A gente exibiu há pouco uma reportagem em relação à situação das aéreas,
03:27o quanto elas são impactadas por conta da elevação do preço do querosene.
03:32Mas é possível nós relacionarmos ou elencarmos outros setores que certamente serão muito impactados?
03:40Eu me lembro que em um outro programa o senhor mencionava a situação que envolve os fertilizantes,
03:45porque, inclusive, tem data para você aplicar os fertilizantes por conta da safra.
03:50Diferentemente do represamento no escoamento do petróleo, que é uma questão logística,
03:56a produção de alimentos depende da chegada do fertilizante,
04:00para você aplicar o fertilizante no plantio, tem a data certa.
04:04Se você perde isso, você perde a safra.
04:07E aí aumentam muito os custos para a produção de alimentos, né?
04:12Você colocou muito bem, Cariato.
04:14Veja, nós importamos mais ou menos 70% de todo o fertilizante que a gente usa.
04:21E 15% dos fertilizantes nitrogenados passam pelo Oriente Médio.
04:2845% da oreia passa pelo Oriente Médio.
04:33E 25% da amônia passa pelo Oriente Médio.
04:37Por exemplo, a oreia chegou a subir de 490 dólares a tonelada para 560 dólares a tonelada.
04:47E isso aumenta o preço de alimento para humano e aumenta o preço de alimento para animal.
04:55Ou seja, preço de alimentação.
04:58E o problema, Cariato, é que no Brasil você tem 70% da população que ganha de um a dois
05:05salários mínimos.
05:06Se a inflação de alimentos bater, vamos supor, 10%, vai ter gente que vai comer menos.
05:13Isso influencia o PIB e vai ser um dos motivos que pode fazer com que o presidente
05:21perca mais popularidade aliado ao alto endividamento das famílias.
05:27Ou seja, está com comprometimento de renda de 29%.
05:31Ou seja, você ganha 100 reais, 29 reais você paga para o banco de amortização e juros.
05:39Agora, com o aumento de alimento e com o desemprego aumentando e com o PIB, produto interno bruto,
05:48provavelmente menor do que foi em 2025, vai ser um ano bem desafiador.
05:55Porque, veja, nós não estamos falando apenas da guerra do Irã.
05:59Estamos falando da Rússia, da Ucrânia, estamos falando da China, estamos falando da Venezuela,
06:04estamos falando da Colômbia, estamos falando dos Estados Unidos.
06:08E isso sempre acaba tendo uma turbulência.
06:12E quando você tem turbulência, risco, incerteza, faz com que o consumidor e o produtor
06:19manerem nas decisões de investimento e de consumo.
06:24Professor, o nosso economista Alan Gani, aqui da Jovem Pan, também vai fazer uma pergunta para o senhor.
06:31Fala, Dumas.
06:32Bom dia, prazer falar aqui contigo, meu amigo de INSPER.
06:35Professor, como é que o senhor vê as medidas adotadas pelo governo para conter a alta dos preços?
06:43Então, subsídios, reduções fiscais.
06:45O senhor acredita que são medidas prudentes ou vale aquela máxima liberal?
06:51O remédio para o preço alto é o próprio preço alto?
06:56Isso é um retrocesso.
06:59Não aprendemos nada, não esquecemos nada.
07:02Por exemplo, se você mexer no preço, provavelmente a oferta vai ser mexida.
07:09Você quer tirar o pisco-fins.
07:11Gente, é um choque de oferta.
07:14Tem menos petróleo.
07:16Se tem menos petróleo, o preço sobe.
07:21É a lei máxima de macroeconomia.
07:24Não adianta falar, olha, o preço subiu, mas eu não vou passar para você.
07:29Não existe almoço de graça.
07:32Quem vai pagar isso daí?
07:34Ah, o exportador paga.
07:36Então, fica uma coisa de o exportador dá uma subvenção daqui, tira desse lado, faz um puxadinho, vamos refinar, vamos
07:45prender quem vai.
07:47Isso me lembra o plano cruzado de 1986, quando queriam prender o falecido, saudoso Abílio Diniz,
07:58porque ele estava vendendo um desodorante acima da tabela do Sarney no supermercado dele.
08:05Isso é um absolutamente retrocesso da política econômica.
08:11Capítulo 1 de qualquer livro de macroeconomia.
08:14Cai a oferta, o preço sobe, a demanda tem que cair.
08:19Paciência.
08:20São ciclos econômicos que nós estamos vendo.
08:23Então, eu vejo com péssimos olhos essas medidas do governo.
08:29Professor, a gente fala muito sobre os reflexos econômicos em relação a esse conflito,
08:34Irã e Estados Unidos, a gente tem o nosso economista aqui na Jovem Pan que fala,
08:37a gente fala com o senhor também, mas quais são os reflexos falando de Estados Unidos?
08:42O que pesa para o Donald Trump olhando para um cenário negativo para a continuidade desse conflito?
08:50Duas coisas.
08:52Primeiro, inflação e juros.
08:55Inflação porque o CPI, o IPC dele, já está 2,8%.
09:03Não pegou ainda todo o impacto da guerra.
09:08E também tem o tarifácio.
09:10Se bem que o tarifácio, depois que a Suprema Corte derrubou o IEPA, que era a lei de poderes
09:16econômicos em caso de emergência, melhorou um pouquinho.
09:20Mas tem um ponto, por exemplo.
09:22Na reunião da semana retrasada, o FONC, que é o cupom deles, o Comitê de Política Monetária,
09:30manteve a taxa de juros intacta.
09:33Ou seja, isso é péssimo para a popularidade de Trump.
09:39Então, veja, olha que interessante.
09:41Você está com inflação, o nível de PIB do quarto trimestre de 2025 foi de 0,7%.
09:51Inflação e taxa de juros mantida pela turma do Jeremy Powell.
09:57Apesar de ter um dissidente querendo diminuir.
10:02Então, você vê que a taxa de juros vai continuar alta e o PIB começa a cair com mais inflação.
10:09Como o Caniato falou, nós estamos correndo o risco de termos uma tarifação.
10:15Recessão com inflação nos Estados Unidos.
10:19E é óbvio que isso bate no Brasil e bate nas bolsas.
10:24Porque tem muita gente apostando no standard por 500, mas está com cheiro de bolha, formato de bolha e característica
10:34de uma bolha.
10:35Então, é complicado você botar seu dinheiro agora numa bolsa de valores dos Estados Unidos,
10:43dado esses efeitos deletérios que a guerra do Irã com os Estados Unidos e Israel está suscitando, Paulo.
10:51Pois é. Agora, professor, só para a gente fechar nossa discussão, é preciso olhar para outras crises que nós passamos,
10:59a elevação do preço do petróleo em outras ocasiões, as consequências também para o mercado brasileiro.
11:05E sempre quando isso acontece, há uma grande discussão sobre a necessidade do...
11:11Especialmente a Petrobras se ajustar, nos tornarmos autossustentáveis em relação a alguns combustíveis.
11:17Eu me lembro que isso foi tratado também na época da greve dos caminhoneiros, na gestão de Michel Temer.
11:23Pois bem, a partir dessa situação, queria, em um tópico inseparado, que o senhor discorresse em relação a Petrobras.
11:30O que vem sendo feito?
11:31O senhor mencionou no início da entrevista sobre uma dificuldade em relação ao refino.
11:37Essa seria um dos itens, um dos tópicos a serem tratados.
11:43Mas olhando para a Petrobras, o que a empresa e o governo, naturalmente, por ser maior acionista, deveriam fazer a
11:50partir de agora?
11:52Veja, se você ficar completamente independente das comórdices lá fora, é importante deixar claro o seguinte.
12:00Comórdice é cotado em dólar e comórdice tem um preço internacional.
12:06Mesmo que eu fosse independente de gasolina e diesel, a gente sempre fala, Petrobras é nossa, Petrobras é minha.
12:16Eu sou um acionista majoritário.
12:19Então, mesmo que nós tivéssemos 100% do refino, o preço também deveria subir.
12:26Porque, se não, o que que acontece?
12:29Você está deixando, não maximizando o lucro da Petrobras.
12:34Aí muita gente fala, mas a Petrobras tem uma função social.
12:39Discordo diametralmente.
12:41Quem tem função social é o tesouro.
12:44A Petrobras tem a função de distribuir hidrocarbonetos e maximizar o lucro.
12:51maximizando o lucro, entrega esse lucro para o tesouro e o tesouro faz lá suas políticas públicas sociais.
13:00Não é para fazer política pública com Petrobras.
13:04Então, só para resumir, mesmo que nós fôssemos totalmente independente, o preço deveria subir.
13:12Olha o que aconteceu com a Venezuela.
13:15Completamente independente, o preço ficou lá embaixo, destruiu o PDVSA e eles não tiveram mais dinheiro para explorar petróleo.
13:24Lógico, estamos longe disso, graças a Deus.
13:28Mas essa ideia de que vamos abrasileirar o preço dos combustíveis, já deveria estar nas catacumbas da teoria econômica.
13:40Professor, quem assiste a gente nesse momento deve pensar, olha, eles são muito pessimistas, né?
13:47Mas, na verdade, não tem o que fazer, né, professor?
13:49Essa é a realidade dos fatos desse conflito e o senhor trouxe as explicações muito bem aqui para a gente.
13:55Nós conversamos com o professor de Economia do INSPER, Roberto Dumas.
13:58Professor, sempre muito bom ter a sua companhia aqui no Jornal da Manhã e aqui na Jovem Pan.
14:03Obrigado, gente. Bom dia, bom feriado para vocês.
14:05Bom dia, professor.
14:06Bom dia, professor.
Comentários