00:00E o Irã prometeu que vai continuar a guerra contra os Estados Unidos e Israel até a rendição e o
00:06arrependimento permanente do inimigo,
00:08que fará ataques devastadores contra os dois rivais.
00:12Então, para a gente repercutir essa fala, recebemos a doutora em Direito Internacional, a Priscila Canepar,
00:18a quem agradecemos demais pela participação. Seja muito bem-vinda mais uma vez aqui à Jovem Pan, Priscila.
00:25Obrigada, bom dia Daniel, bom dia Paula, bom dia a todos que estão nos assistindo.
00:30Quais as análises que devemos fazer a partir dessa manifestação do Irã?
00:36Porque havia dúvidas em relação ao poderio ofensivo do país persa, principalmente após notícias de que os Estados Unidos e
00:45Israel
00:45teriam bombardeado muitos depósitos de mísseis.
00:49Ainda há dúvidas sobre o fôlego e a capacidade de reação do Irã.
00:56Bom, Daniel, acho que é importantíssimo a gente destacar um primeiro ponto implícito nessa manifestação do Irã,
01:02que é justamente a não rendição do Irã em relação à finalização dessa guerra.
01:06Essa é a primeira perspectiva.
01:08Uma segunda perspectiva também muito importante de destacar nesse momento é que, independentemente do que o Trump vem falando em
01:16relação justamente a tratativas da paz,
01:20o Irã não está disposto a ceder seus objetivos.
01:23Seus objetivos nesse momento basicamente são aquele que versa sobre uma independência em relação à perspectiva do governo,
01:30segundo uma perspectiva também que fala sobre a questão nuclear, o Irã quer ter o direito do enriquecimento de urânio.
01:38E aí é importante deixar bem claro para a nossa audiência que uma coisa é o enriquecimento de urânio para
01:43fins pacíficos,
01:45outra é para fins militares, para desenvolvimento de bomba atômica.
01:48Então, basicamente, ele quer desenvolver o que diz o governo iraniano, o enriquecimento de urânio para fins pacíficos,
01:56já que isso se atrela a um direito propriamente previsto no Tratado de Não-Proliferação, cujo qual o Irã faz
02:01parte.
02:02E um terceiro ponto que é importantíssimo também falar é que o Irã, ele vem falando justamente nesses ataques,
02:09provando que seu regime não está deteriorado, como se outrora imaginou,
02:14e principalmente com a fala do Trump tendo dito que o regime já estava, enfim, substituído,
02:20que a mentalidade desse regime já tinha sido alterada.
02:24Em realidade, o que o Irã quer reafirmar é que eles estão em guerra, eles vão perdurar nessa guerra,
02:29isso é importante de sacar, e que eles não irão render e principalmente seu regime continuar forte.
02:35Eu não acredito que nesse momento vão acontecer alguns ataques diferentes daqueles que estão ocorrendo,
02:41mas a gente precisa entender que, diferentemente do que o Trump falou,
02:46a prática dos Estados Unidos nesse momento nos denota outra situação,
02:50que é justamente, o Trump vem falar que eles estão alcançando seus objetivos em duas a quatro semanas,
02:57essa guerra vai ser finalizada, mas o que a gente vê na prática é os Estados Unidos movendo contingente militar
03:04em direção ao Irã.
03:05Em outros termos, o que a gente tem observado é que possivelmente os Estados Unidos podem estarem planejando uma invasão
03:12terrestre,
03:13e aí, por consequência, o Irã quer dar essa mensagem que, se de fato isso acontecer e a garra é
03:18perdurar e se aprofundar,
03:20ele vai vir a contra-atacar de maneira robusta Israel e Estados Unidos.
03:26Então, são esses pontos que a gente tem que observar.
03:28E, obviamente, não deixar também de destacar que o Irã já fez ameaças,
03:33inclusive contra empresas dos Estados Unidos, principalmente de Big Tech,
03:38que estão localizadas em territórios dos países árabes.
03:41Então, é importante a gente ver esses sinais em contraposição, inclusive, com o que foi o discurso do Trump ontem,
03:47Denílio.
03:49Priscila, agora há pouco a gente conversava com os nossos comentaristas,
03:52eu perguntei para eles, inclusive, o que o Irã quer, o que eles precisam para reabrir o Estreito de Hormuz.
03:58E o que eles querem, de fato, é, ah, os Estados Unidos parem de bombardear o Irã.
04:03Mas eles querem muito mais, né, Priscila?
04:05Eles querem reconhecimento, eles querem espaço no debate nuclear também.
04:09Vai muito além de só pararem de bombardear o Irã.
04:15Pois é, Paula.
04:16E aí a gente vê algumas situações contraditórias no ambiente internacional, né?
04:21De fato, o regime do Irã, ele precisa ser fiscalizado,
04:24porque é um regime sanguinário, é um regime repressivo em termos de direitos humanos.
04:28É um regime que se aprofundou em uma crise econômica,
04:31que gerou, inclusive, graves e grandes manifestações no final do ano passado.
04:35Mas, em contrapartida, a gente precisa ler o outro sinal,
04:39que o Irã, ele faz parte do Tratado de Não Proliferação.
04:43Então, basicamente, ele abre as portas para que haja uma fiscalização da Agência Atômica Internacional.
04:49Isso que aconteceu ao longo de décadas, principalmente aprofundando-se no governo do Barack Obama,
04:54que veio, inclusive, um tratado em 2015 para haver uma mutua fiscalização.
04:59Ou seja, para que os Estados Unidos pudessem fiscalizar, inclusive,
05:04e especialmente, o programa nuclear e enriquecimento do urânio do Irã.
05:08Esse ponto, Paula, é importante a gente também pegar o gancho em relação aos Estados Unidos
05:13talvez não estarem observando o que aconteceu ao longo da história.
05:17Ao longo da história, houve uma pressão na década de 80 e começo da década de 90
05:22em relação ao programa nuclear da Coreia do Norte.
05:25A Coreia do Norte fazia parte, sim, justamente desse Tratado de Não Proliferação.
05:30Ocorre que foram tantas pressões que a Coreia do Norte simplesmente resolveu sair desse tratado
05:36e saindo falando que agora, sim, iria desenvolver bomba atômica.
05:40Então, o que a gente tem que observar é que, de fato, o Irã quer alcançar alguns objetivos,
05:45mas ainda a sociedade internacional tem um meio de fiscalização.
05:49Inclusive, o Irã já abriu a possibilidade de passar esse urânio, que está enriquecido,
05:53há mais do que precisa para a tecnologia nuclear, para outros estados fiscalizarem.
05:59Então, talvez seja o momento de a gente sentar à mesa justamente para ver as demandas do Irã
06:04e ver o que é plausível e o que não é plausível, independentemente das vontades do Trump.
06:09E falo aqui que o Trump tem suas vontades próprias, porque para Israel, de fato, o Irã é uma ameaça
06:16existencial.
06:17Para os Estados Unidos, o Irã não é uma ameaça existencial.
06:19A ameaça vem desse enriquecimento de urânio.
06:22Então, se a gente abre a porta para essa negociação,
06:25talvez o regime iraniano consiga também negociar um outro ponto que preocupa os Estados Unidos,
06:32que é esse aprofundamento do enriquecimento de urânio.
06:35Agora, Priscila, só para fecharmos a discussão aqui,
06:37quando o Donald Trump sinaliza para a continuidade desse conflito
06:41e fala, inclusive, no escalonamento, na intensificação dos ataques,
06:46que devemos considerar em relação aos outros países que, em alguma medida, foram atingidos pelo Irã.
06:54Dá para a gente entender que essas outras nações que foram bombardeadas de maneira pontual, específica,
07:01poderiam colaborar com a ofensiva americana barra israelense?
07:06E do lado do Irã, os grupos rebeldes continuarão dando suporte, algum tipo de apoio?
07:12Daniel, a sua pergunta é tão cheia de camadas que a gente precisa dividir.
07:16Eu acho que o primeiro ponto é a gente entender que esses países continuam em uma posição,
07:21vamos colocar assim, de neutralidade.
07:23A exceção, talvez, da Arábia Saudita, que tenha mais esse viés
07:26de compactuar com as ações dos Estados Unidos,
07:30esses países não queriam essa instabilidade, principalmente, advinda no cenário iraniano.
07:36Porque, de fato, o Irã não é uma nação árabe, é uma nação que tem problemas endêmicos
07:41com os países da região e, principalmente, esses países sabem que o Irã é o segundo
07:46maior contingente militar da região, só perdendo para Israel.
07:50Então, o que a gente pode esperar?
07:51Se os Estados Unidos atracarem o Irã, por consequência, o Irã vai contra-atacar
07:57as bases militares, as empresas dos Estados Unidos, que se localizam em países como Qatar,
08:03como Emirados Árabes Unidos, como Kuwait.
08:06Esse é o primeiro ponto.
08:08E aí a gente vai precisar entender também como é que vai ficar a situação
08:12do relacionamento do Irã com esses governos.
08:16Porque uma coisa é a gente observar o Irã atacando bases militares
08:19desses países atrelados aos Estados Unidos.
08:22E o outro ponto dessa ligação é também como é que vai ficar
08:26a relação dos Estados Unidos com esses países.
08:29Porque a gente precisa entender que dentro da perspectiva
08:32de ter uma base militar dos Estados Unidos, os Estados Unidos oferecem uma contrapartida.
08:37A contrapartida é segurança.
08:39Agora, a partir do momento que o Qatar se vê atacado pelo Irã,
08:43ainda que seja uma má base militar dos Estados Unidos,
08:45o Qatar vai repensar essa relação justamente falando
08:48bom, os Estados Unidos não estão me protegendo suficientemente
08:52porque eu tive um ataque iraniano.
08:54Será que seria interessante eu perpetuar essa noção,
08:57essa ideia de bases militares dentro da minha regionalidade?
09:01Esse é um ponto para a gente ficar atento.
09:03Em relação aos grupos radicais, os grupos extremistas, os grupos terroristas,
09:08que são os próxis iranianos, a gente precisa analisar os cutis.
09:13Porque existe uma saída, sim, para o petróleo em outro Golfo.
09:17Esse Golfo, a partir do momento que a gente observa aqui,
09:22a gente tem o fechamento do Estreito do Armuz,
09:24ele acaba sendo crucial principalmente para a saída do petróleo da Arábia Saudita.
09:29Se, porventura, os Estados Unidos fizerem um ataque mais ofensivo ou terrestre contra o Irã,
09:36a gente pode prospectar que esse grupo cutis do Iêmen vai vir fechar outra saída,
09:42justamente do Golfo, da perspectiva do petróleo que vem da Arábia Saudita para o mundo.
09:49E aí isso vai impactar ainda mais a economia global.
09:52Uma situação muito complexa, a gente quer agradecer muito a Priscila Caneparo,
09:57sempre colaborando com a gente aqui na Jovem Pan para entender os desafios do mundo,
10:02olhando especialmente para esse conflito no Oriente Médio.
10:04Grande abraço, bom dia, bom dia de quinta-feira e até a próxima, professora.
10:11Obrigada, bom dia para vocês também, bom trabalho.
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