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Neste episódio do Ladoa!, Madeleine Lacsko recebe o sociólogo Richard Miskolci para discutir a "selva digital" e o fenômeno do Brain Rot, o esgotamento mental causado pelo excesso de algoritmos. O professor analisa como a preferência por comunicações "editadas" nas redes sociais substituiu a espontaneidade das conversas reais, gerando um isolamento disfarçado de controle.

A conversa explora ainda os limites da Inteligência Artificial frente à sensibilidade humana e o perigo das bolhas que destroem o diálogo e alimentam a desinformação. Miskolci reforça a urgência de resgatarmos a curadoria e o convívio presencial como antídotos para a exaustão de um mundo hiperconectado, onde a opinião individual muitas vezes tenta atropelar os fatos.

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Richard Miskolci, Sociologia Digital, Madeleine Lacsko, Lado A, Comportamento Digital, Redes Sociais, Desinformação, Inteligência Artificial, Polarização Política, Saúde Mental Digital.

Categoria

😹
Diversão
Transcrição
00:00:00Bem-vindo a mais um episódio do Lado A.
00:00:05Hoje você vai conhecer Richard Nikolsi, um sociólogo que decifra a selva digital.
00:00:12Professor titular da Unifesp e presidente do Grupo de Trabalho de Sociologia Digital da Associação Internacional de Sociologia,
00:00:20ele é o Sherlock Holmes da internet, investigando como as tecnologias moldam nossas relações.
00:00:28Desinformação? Fake News? Richard está na linha de frente, analisando os fenômenos que bagunçam nossa cabeça online.
00:00:37Com um olhar afiado e um teclado como arma, ele nos ajuda a navegar nesse mar de bits e bytes
00:00:43com um pouco mais de sanidade.
00:00:46Richard, muito obrigada por ter vindo, uma alegria enorme ter você aqui.
00:00:51Alegria é minha, Nadal, é um prazer imenso.
00:00:54Richard, primeiro, queria que você explicasse pra gente, você recentemente assumiu um posto internacional de destaque na sociologia, no mundo
00:01:04digital.
00:01:05O que é isso de que você faz parte internacionalmente? Como é que os acadêmicos se organizam?
00:01:12Bem, eu sou sociólogo e eu sou especialista em sociologia digital.
00:01:17A sociologia digital, ela estuda essas mudanças pelas quais nós temos passado, a partir do momento que a gente passou
00:01:24a se comunicar por meio dos computadores,
00:01:27por meio dos celulares inteligentes, como isso modificou as relações sociais, as relações amorosas, inclusive, familiares,
00:01:36como isso gerou coisas boas, mas também outras não tão boas. Então, de uma forma geral, é isso.
00:01:43E aí existe uma sociedade internacional que une sociólogos? O que é esse posto que você assumiu?
00:01:50Então, tem a Associação Internacional de Sociologia e eu virei presidente do Working Group in Digital Sociology.
00:01:57Quer dizer, eu coordeno um grupo de pesquisa dentro da Associação Internacional, que inclusive é o maior grupo de pesquisa
00:02:04atualmente,
00:02:05e esse grupo, ele discute essas problemáticas. Para você ter uma ideia, tem 250 sociólogos do mundo inteiro só nesse
00:02:14Working Group, né?
00:02:15E quase todas as áreas da disciplina, quer dizer, se a pessoa estuda violência, se ela estuda questões familiares ou
00:02:24saúde,
00:02:25todo mundo hoje em dia tem que entender o que tem se passado por causa das novas tecnologias
00:02:30e acaba passando pelo nosso grupo, fazendo apresentações nos congressos, né?
00:02:35Então, eu coordeno isso, procuro organizar publicações a respeito desses temas
00:02:39e também é meio que guiar um pouco esse campo, que é um campo relativamente novo dentro da disciplina,
00:02:47como também essas questões para todo mundo, inclusive para o jornalismo, né?
00:02:50Sim, é uma coisa muito nova, mas eu acho que nas outras áreas a gente vê a tecnologia chegar,
00:02:58tem uns que abraçam, tem outros que rejeitam, mas não tem assim uma profundidade analítica,
00:03:05não se analisa muito como o comportamento das pessoas muda, o máximo que eu acho que a pessoa pensa assim,
00:03:11ah, em rede social ficou todo mundo mais gritando, mais violento, mas para aí.
00:03:16Agora, a sociologia, ela já vai e se aprofunda de uma outra forma, né?
00:03:21Então, a gente estuda desde a origem de tudo isso, então, por exemplo, para o jornalismo,
00:03:27mas mesmo para as novas gerações, né? Os jovens hoje em dia são nativos digitais,
00:03:31as novas gerações nasceram já dentro da internet, então elas nem sabem o que é a vida sem essas tecnologias.
00:03:39Então, na sociologia, a gente busca compreender como essas tecnologias foram criadas,
00:03:44com que objetivos e depois o que dá, às vezes é diferente do que tinha se planejado, né?
00:03:50E como isso foi modificando as relações.
00:03:53Pouca gente sabe, por exemplo, que o que a gente vivencia hoje é absolutamente ligado
00:03:59a invenções da Segunda Guerra Mundial, ou até prévias, né?
00:04:02Por exemplo, o artigo que cria a possibilidade do computador, doutor, é dos anos 30, né?
00:04:09Pouca gente lembra disso, né?
00:04:10E a própria tecnologia dos computadores, ela é desenvolvida para quebrar códigos
00:04:15durante a Segunda Guerra Mundial, e com uma disputa entre a União Soviética e Estados Unidos,
00:04:21eles resolvem criar uma rede de comunicação, né?
00:04:25Então, vem daí, e isso é importante, porque, por exemplo, viram tão Segunda Natureza
00:04:31que as pessoas hoje em dia não percebem que, no fundo, tudo isso se resume à junção do computador com
00:04:37o telefone.
00:04:38A verdade é essa.
00:04:40Tudo é a junção do computador com o telefone, né?
00:04:43As novas gerações nem usam telefone, não fazem mais ligações,
00:04:46capaz até de alguma criança, alguém está vendo a gente falar o que é uma ligação, né?
00:04:51Mas, efetivamente, até o fato de que a gente não liga mais um para o outro
00:04:57é sinal de como essas transformações se estabeleceram, né?
00:05:02Mas o telefone, por exemplo, todas as mídias, elas estão vinculadas nesse processo.
00:05:09Vou te dar um exemplo.
00:05:09Eu tinha uma amiga que faleceu e que ela era uma socióloga
00:05:14que a família dela tinha telefone em Belo Horizonte,
00:05:16acho que das primeiras famílias a terem telefone.
00:05:19E aí ela conta que a avó dela atendia o telefone e dizia assim,
00:05:23quem ousa, né?
00:05:25Quer dizer, ligar para alguém na casa da pessoa era invadir um espaço sagrado da família.
00:05:32Então, houve um processo social e histórico
00:05:35em que as pessoas passaram a se conectar primeiro pelo telefone
00:05:40e até chegar ao que a gente tem hoje
00:05:42e que foi bem difícil, na verdade.
00:05:46Hoje se naturalizou, as pessoas mandam mensagens umas para as outras
00:05:49sem conhecerem, sem nada.
00:05:52Eu acho que o telefone sempre teve uma certa...
00:05:55Sabe, as pessoas pentiam um pouquinho de medo quando era criança.
00:05:58É muito comum a criança nos anos 70, 80,
00:06:01ficar com vergonha de ligar para alguém, né?
00:06:04Sim.
00:06:04Porque invadia a privacidade da pessoa.
00:06:06Fala com a sua avó, lembra?
00:06:08Que sempre tinham, fala com a sua avó.
00:06:09Ah, não, não quero falar com a tia, não sei o quê.
00:06:12Eles não têm mais isso.
00:06:14Então, mas...
00:06:15Acho que isso é isso da gente tirar foto deles.
00:06:18Ah.
00:06:18Eles enchem o saco de tirar foto.
00:06:20E aí já me falaram.
00:06:21Não, eles não gostam que tiram foto porque expõem na rede social.
00:06:24Mas assim, meu filho não tem uma foto na rede social.
00:06:27Mas ele me dá limite de foto que eu posso tirar dele.
00:06:32Não gosta.
00:06:33É, mas tem muito a ver, né?
00:06:35Por exemplo, a gente está no videocast.
00:06:37No fundo, tem...
00:06:39Isso aqui é o rádio.
00:06:40A gente voltou ao rádio, né?
00:06:43Eu nunca saí do rádio, Richard.
00:06:45Nunca saí do rádio, né?
00:06:46Eu comecei no rádio em 1996 e eu...
00:06:48Assim, eu não vi uma...
00:06:52Eu não vi uma quebra de fronteira.
00:06:54Porque o rádio sempre foi muito imediato.
00:06:57Eu lembro quando aconteceu um acidente.
00:06:58A única coisa é que a gente ia para a rua na época, né?
00:07:01Agora são os meninos de playground de areia anti-alérgica.
00:07:04Eu sei que eu tenho de cara.
00:07:06Mas sei lá.
00:07:08Descobriram o cativeiro de alguém sequestrado.
00:07:10Teve um assassinato, por exemplo.
00:07:12O cara que atirou no shopping.
00:07:13Eu fui a primeira a chegar lá.
00:07:15Eu entrei lá, o povo estava ensanguentado ainda.
00:07:17Aquela vez no cinema.
00:07:19No cinema, atirador do cinema, do shopping Morumbi.
00:07:22A gente ia, mas assim...
00:07:25O jeito que você fala, essa intimidade, o receber cartas.
00:07:29Eu recebia carta, recebia fax.
00:07:32Essa troca sempre existiu.
00:07:34Eu acho que agora ela ficou mais rápida e mais fácil também.
00:07:37Eu acho muito mais fácil nos dias de hoje do que quando tinha fitão que eu tinha que cortar com
00:07:42gilete.
00:07:43É, melhorou.
00:07:44Mas a verdade é que o rádio, ele era um fundo de áudio, até musical.
00:07:49Porque a música vem por ele.
00:07:51A unificação brasileira, assim como nação, passou pelo rádio.
00:07:56Rádio nacional foi fundamental.
00:07:57E o samba, sendo criado pelo regime do Vargas como canção nacional.
00:08:03Assim como o gênero musical brasileiro.
00:08:06Eles tiveram um papel de união.
00:08:09O rádio, ele colocava as pessoas juntas.
00:08:11Ou mesmo se a pessoa estivesse sozinha em casa.
00:08:13Ela ficava fazendo coisas enquanto ouvia o rádio.
00:08:16Que é o mesmo que acontece com os podcasts e videocastos.
00:08:20A pessoa coloca lá e fica fazendo coisas.
00:08:23Então, tem uma coisa de ser uma companhia.
00:08:26Tem uma coisa de retomar a uma nostalgia de contextos de conversa, de troca, sem conflito.
00:08:36Porque o lado complicado das novas tecnologias é que elas são muito conflitivas.
00:08:42E cansa demais.
00:08:43E as pessoas estão cansadas disso.
00:08:45Então, é por isso que os videocasts e os podcasts voltaram com tudo.
00:08:49E uma coisa é você ter esse som de fundo que acompanha a tua vida e é gostoso.
00:08:54Outra coisa é a internet em si, as redes sociais, elas capturam a sua atenção.
00:09:01E essa captura da atenção, ela é cansativa.
00:09:04Ela não só te captura por um contexto que é muito comercial.
00:09:08No fundo, a rede social é uma televisão de cachorro, né?
00:09:10Vamos ser sinceros, né?
00:09:11E passa e passa.
00:09:13Aquele monte de coisa vazia.
00:09:14Um monte de informação que você não precisa.
00:09:16É tudo rápido.
00:09:17Eu brinco que é a rádio relógio.
00:09:18Quem é do Rio de Janeiro deve lembrar da rádio relógio, né?
00:09:21Aparece até na hora da estrela da Clarice Lispector, né?
00:09:26E que era uma rádio que ficava o tempo todo dando alguma informação, que não tinha muita importância, e falavam
00:09:33da hora.
00:09:34Então, quando você está capturado nas redes sociais, aquilo gera o que os americanos até apelidaram de brain rot.
00:09:42E que seria apodrecimento cerebral, porque efetivamente você tira muito pouco daquilo, né?
00:09:48Enquanto que o podcast ou videocast, a pessoa não está capturada.
00:09:53Ela se engaja dentro do que ela quer.
00:09:57E tem esse ritmo mais agradável também da conversa, né?
00:10:01Que é o que as pessoas têm falta, porque a nossa sociedade se individualizou demais.
00:10:04Eu costumo dizer, perdão, que no fundo, né, a internet, ela tem a ver com o quanto as pessoas têm
00:10:14contato com uma tela.
00:10:15Porque inicialmente, no rádio, obviamente não tinha tela.
00:10:18Mas quando chega o cinema, as famílias de classe média iam ao cinema uma vez por mês, uma vez por
00:10:24semana.
00:10:24Quando chega a televisão nos anos 50, os privilegiados que podiam ter televisão,
00:10:29trouxeram a tela para dentro de casa e passaram a ter a tela todo dia.
00:10:33No geral, no fim do dia, né?
00:10:36Quando a tela fica pequena, né, no celular, a pessoa está conectada o tempo todo.
00:10:42E tem coisas boas, mas tem coisas ruins.
00:10:45Porque é muito cansativo, realmente é estressante, né?
00:10:48Eu queria voltar nesse negócio do brain roto que você me falou, porque eu não conhecia.
00:10:52Uma amiga minha, que é doutora em genética, chama Luciana Feliciano.
00:10:57Eu estava reclamando com ela, que eu falei assim,
00:10:59Eu estou com a impressão de que existe uma precariedade cognitiva se formando.
00:11:07A pessoa é incapaz de abstrações.
00:11:10Então, assim, você fala alguma coisa, a pessoa não entende o sentido,
00:11:13ela captura uma palavra que desperta nela algum tipo de sentimento
00:11:17e responde aquela palavra ignorando o contexto.
00:11:21Aí eu falei para ela, é muito aflitivo isso, porque são adultos.
00:11:25Não é possível que eles não consigam articular o sentido disso.
00:11:29Dá a impressão que está florescendo uma precariedade cognitiva coletiva, né?
00:11:35Aí ela falou para mim, vai ler esse conceito de brain roto,
00:11:39que é cérebro podre, né, na verdade.
00:11:41O que é exatamente o brain roto?
00:11:44É uma coisa física? É uma coisa de treino? É o quê?
00:11:47Bem, eu sou socióloga, então vou falar pela sociologia, tá?
00:11:50Para mim, a questão é mesmo social.
00:11:52O que acontece é que as redes sociais, elas são, primeiro,
00:11:57que são um contexto absolutamente comercial.
00:11:59Virou tão segundo a natureza, que eu acho até fascinante
00:12:02que as pessoas escutam o tempo todo,
00:12:05ah, mas querem, por exemplo, a absoluta liberdade online.
00:12:09Bem, mas sempre houve regulamentação da mídia, por exemplo,
00:12:14porque você não pode falar coisas que são ofensivas ou violentas, né?
00:12:19E todo mundo tem responsabilidade legal na vida cotidiana.
00:12:21Se você faz algo errado, tá lá o seu CPF, né?
00:12:24Por que que online seria diferente?
00:12:26Então, as redes sociais, em particular, elas colocam a pessoa comercialmente,
00:12:32é uma venda, é propaganda, é mentira, vamos ser sinceros, é mentira,
00:12:36no centro do mundo.
00:12:37E elas te dão a impressão de que ali você é o centro das atenções
00:12:41e que os seus valores e a sua visão do mundo é o que vale.
00:12:44Isso só pode dar errado, porque isso vai te colocar em conflito com todo mundo,
00:12:49com o vizinho, com os seus parentes, que você se dava super bem,
00:12:53repentinamente você começa a ter conflito na rede social.
00:12:57Porque é um contexto no qual a negociação dos contextos não existe.
00:13:04É bem isso que você falou.
00:13:05É como se você fosse uma pessoa una,
00:13:07e que se comporta do mesmo jeito na igreja, na festa, no seu onde,
00:13:12e é o único perfil que você tem, que você entra em tudo.
00:13:15Hoje em dia, antigamente, a gente tinha.
00:13:18As gerações atuais não vão lembrar, mas a gente vai lembrar.
00:13:21Você tinha um perfil para entrar no MySpace,
00:13:23você tinha um perfil para entrar no seu onde,
00:13:25e você se comportava diferente.
00:13:28No Ocult, você se comportava diferente em outra rede.
00:13:31A partir do momento que as empresas do Vale do Silício unificaram os perfis,
00:13:37e a gente passou a se comunicar totalmente da mesma maneira,
00:13:42o tempo todo, aí começam os problemas.
00:13:46Começa esse conflito, começam esses problemas de também você se sentir estressado.
00:13:53Mas, sobretudo, eu acho que essa coisa do brain rot,
00:13:58desse problema que você comentou,
00:14:01passa por uma sensação de que o mundo não é como a gente queria.
00:14:06Bem, nunca foi.
00:14:07Só que, dentro de uma rede social,
00:14:09a rede social te vende a falsa impressão
00:14:13de que as coisas devem ser como você acha que deve.
00:14:17E aí, você entra em conflito.
00:14:20Então, é uma máquina de gerar conflito, frustração, ressentimento.
00:14:24Aí, quando, por exemplo, aparece algo,
00:14:27e alguém discorda, aquilo vira uma coisa de manada,
00:14:30vai todo mundo para cima.
00:14:31Não, isso não poderia ter acontecido e tal.
00:14:34As pessoas têm um limite muito menor,
00:14:37hoje em dia, para a divergência,
00:14:40para o pensamento que é diferente do dela,
00:14:43e muito menos capacidade de ouvir.
00:14:46Ela quer só falar.
00:14:48Ela não quer ouvir.
00:14:49Ela quer ser o centro da atenção
00:14:52e não transmitir a sua atenção.
00:14:55e, infelizmente, não tem volta.
00:14:58Vamos ter que aprender a lidar com isso.
00:15:00Na sociologia, o que a gente diz é que as tecnologias vêm.
00:15:04Às vezes, elas são planejadas por uma coisa,
00:15:06elas viram outra.
00:15:07Não tem controle.
00:15:07É tipo Frankenstein.
00:15:09O médico lá criou o monstro,
00:15:11queria que fosse de um jeito,
00:15:12e o monstro saiu correndo atrás dele.
00:15:14E essas tecnologias estão correndo atrás da gente.
00:15:17Só que a gente vai fazer as pazes
00:15:19e vai aprender a lidar com elas,
00:15:21impor limites.
00:15:22Você falou do seu filho,
00:15:23sabe o que eu lembrei?
00:15:24Essa coisa de não querer ter foto
00:15:27é um avanço.
00:15:28Porque essas novas gerações,
00:15:3115 anos, para baixo,
00:15:33tem muito mais claro
00:15:34do que quem tem hoje na faixa dos 20 ou 30,
00:15:37que tem tudo para ser público.
00:15:38Que você colocar uma foto numa rede social,
00:15:42você está abrindo a sua intimidade
00:15:44num nível que pode não ser saudável,
00:15:47pode não ser seguro.
00:15:49Se você postar uma foto que está viajando,
00:15:51você está dando um alerta
00:15:51e tua casa está vazia,
00:15:53podem ir lá roubar.
00:15:54É meio senso comum,
00:15:56mas eu acho que hoje em dia
00:15:58as gerações que são nativos digitais,
00:16:00elas postam menos,
00:16:02elas estão querendo menos
00:16:03entrar na rede social também.
00:16:05E é uma sabedoria adquirida socialmente.
00:16:08E você sabe que essa coisa,
00:16:11por exemplo,
00:16:11eu venho hoje pela minha casa,
00:16:12o meu filho aprendeu isso.
00:16:14De dopamina barata,
00:16:16de como você fica viciado,
00:16:17de como você emburrece,
00:16:18do efeito das telas.
00:16:20Ele aprendeu isso direito como?
00:16:23Vendo influencers que falam disso.
00:16:25Eu fiz aí um e-book
00:16:27para ensinar os pais
00:16:28a lidarem com os filhos na internet,
00:16:30porque eu vejo um comportamento
00:16:31que ele é oscilante entre
00:16:33o relapso total,
00:16:35que é o mesmo tipo de pai
00:16:36que deixava a TV de babá,
00:16:37hoje ele deixa na internet.
00:16:39E o que quer castrar tudo?
00:16:41O pai do não, não, não.
00:16:42Não, não pode isso,
00:16:42não pode aquilo.
00:16:43Não adianta você falar não
00:16:44para o seu filho
00:16:45se você não explica o que é que pode.
00:16:46Você tem que dar uma alternativa.
00:16:48Se você der alternativas interessantes,
00:16:50você não vai precisar nem dizer o não.
00:16:53Mas aí é paradoxal,
00:16:55porque assim,
00:16:56é por ali,
00:16:58pelas redes,
00:16:59que ele realmente aprende
00:17:01quais são os perigos
00:17:03e os vícios
00:17:04que tem nessa coisa de internet.
00:17:07É, mas é inevitável.
00:17:09Isso foi assim
00:17:10com todas as tecnologias, né?
00:17:12Quando, por exemplo,
00:17:13chegou a televisão com tudo,
00:17:14porque ainda que as classes
00:17:16médias e altas
00:17:17estivessem em TV
00:17:17nos anos 50, 60,
00:17:19ela se populariza no mundo
00:17:20e particularmente no Brasil
00:17:22nos anos 70.
00:17:23E é nessa mesma década
00:17:25que em vários países,
00:17:27até países ricos,
00:17:28como a Inglaterra,
00:17:29eles começam a ficar dizendo
00:17:31que a violência tinha aumentado
00:17:32porque as pessoas assistiam
00:17:34muito programa violento na TV.
00:17:36Então, demorou um tempo
00:17:37para as pessoas perceberem
00:17:39que, olha,
00:17:39o que aparece na TV
00:17:41não é a realidade.
00:17:42E as pessoas agora
00:17:43ainda têm uma geração,
00:17:45mas eu acho que as mais novas
00:17:47vão adquirir essa percepção
00:17:49de que, no fundo,
00:17:51o mundo não é
00:17:51o que está nas redes sociais
00:17:53e o que está na internet.
00:17:54A vida real é diferente.
00:17:56Nós, como sociólogos,
00:17:57a gente tem hoje
00:17:58de um desafio incrível
00:17:59em sala de aula,
00:18:00porque as gerações que chegam,
00:18:02elas têm dificuldade,
00:18:04elas querem estudar alguma coisa,
00:18:05elas pensam,
00:18:05eu vou entrar nas redes sociais
00:18:07ou eu vou entrar online
00:18:08e vou capturar os dados e tal.
00:18:11Aí a gente chega e fala,
00:18:12olha, não confunda
00:18:13os dados de uma sociedade
00:18:15ou as redes sociais
00:18:16com a própria sociedade
00:18:18porque você pode se surpreender.
00:18:19Não é a mesma coisa, né?
00:18:21Por isso que ainda tem
00:18:22que fazer pesquisa.
00:18:23E as novas gerações
00:18:25vão começar a ter uma percepção
00:18:27que essas que estão agora
00:18:28na faixa dos 20 e 30
00:18:29tiveram maior dificuldade
00:18:30de alcançar.
00:18:31De que, olha,
00:18:32as redes sociais não são tudo
00:18:34e não são um retrato fiel
00:18:36do mundo.
00:18:37E se elas te deixam com raiva
00:18:40ou bravas ou ressentidas,
00:18:43isso daí é interesse econômico
00:18:45porque nada gera mais clique
00:18:46do que raiva, né?
00:18:48E, inclusive, também
00:18:50cria um exército de gente
00:18:52para apoiar grupos políticos radicais
00:18:54de qualquer tipo, né?
00:18:55Isso que você falou
00:18:56de não saber lidar
00:18:58com a coisa da máquina
00:19:01ou da internet,
00:19:03julgar que tudo
00:19:03que está ali é real.
00:19:04Sabe o que me lembrou?
00:19:06A matéria até hoje
00:19:07mais vista da história
00:19:08da Folha de São Paulo,
00:19:09não sei se ainda é,
00:19:10mas acho que é.
00:19:11Você lembra na pandemia?
00:19:13Você estava pesquisando
00:19:14isso também,
00:19:14de desinformação,
00:19:15que saiu uma manchete
00:19:16da Folha
00:19:17que estavam dando vacina vencida?
00:19:20Saiu uma manchete
00:19:21da Folha
00:19:21que estavam dando vacina vencida.
00:19:22Por quê?
00:19:24Porque o registro
00:19:26foi colocado
00:19:28da aplicação,
00:19:29não foi colocado
00:19:29da aplicação,
00:19:31não colocaram
00:19:32no dia certo.
00:19:33Então colocaram
00:19:34num dia errado
00:19:35como se tivesse sido vencida.
00:19:36Como que estava
00:19:37na tabela
00:19:38aparecia aquilo
00:19:39que estava no computador?
00:19:41Se fosse a julgar
00:19:42pelo input
00:19:44dos dados ali,
00:19:45estava certo.
00:19:46Só que a pessoa
00:19:47não levou em conta
00:19:48que tinha um...
00:19:49demorava dias
00:19:51até fazer
00:19:51porque ele estava
00:19:52atendendo muita gente
00:19:53no Pró-Saúde,
00:19:54então tirava tipo
00:19:54um dia por mês
00:19:55para atualizar tudo.
00:19:57Naquele dia,
00:19:58no mês seguinte,
00:19:58já teria vencido,
00:19:59mas quando ele deu
00:20:00a vacina,
00:20:00não.
00:20:02E os repórteres,
00:20:04a Folha ficou
00:20:05três dias com isso
00:20:05no ar sem corrigir,
00:20:06e os repórteres
00:20:08sequer cogitaram
00:20:09ao fazer a matéria.
00:20:11Não,
00:20:12deixa eu ver
00:20:12se esse dado aqui
00:20:13que está no computador
00:20:15é o que efetivamente
00:20:16ocorreu.
00:20:17Que é uma coisa
00:20:18que eu que sou
00:20:19da geração passada,
00:20:20eu faria.
00:20:20A primeira coisa,
00:20:21eu ia lá no posto
00:20:22ver como é que
00:20:22eles inserem o dado.
00:20:24Então,
00:20:25isso que você está falando
00:20:26é muito interessante
00:20:27porque aí a gente
00:20:27entra na questão
00:20:28da desinformação,
00:20:29né?
00:20:30A verdade
00:20:31é que você
00:20:32é de uma geração
00:20:33que foi preparada
00:20:35para fazer checagem,
00:20:37para construir
00:20:38uma reportagem,
00:20:40para escrever algo
00:20:41com todas as parâmetros
00:20:43do jornalismo profissional.
00:20:45A verdade é que
00:20:46o jornalismo profissional
00:20:47é muito recente,
00:20:48parece que ele se estabelece
00:20:50mesmo no começo
00:20:51do século XX
00:20:52nessas grandes universidades
00:20:54americanas tipo Harvard,
00:20:55se não me engano
00:20:55em 1912,
00:20:56por aí.
00:20:57Antes o que tinha
00:20:58era um jornalismo
00:21:00partidarizado,
00:21:00assim,
00:21:00os jornais eram todos
00:21:01a favor de um partido,
00:21:03de outro partido,
00:21:03eram financiados
00:21:04pelos próprios políticos,
00:21:05na maior parte do mundo.
00:21:07Tem até uma discussão
00:21:08de que isso está acontecendo
00:21:09de volta,
00:21:10às vezes não diretamente
00:21:11financiados,
00:21:12mas que o jornalismo
00:21:13está se partidarizando
00:21:14como já era
00:21:15no século XIX.
00:21:16Quando se profissionaliza
00:21:18e vocês jornalistas
00:21:19começam a ser formados
00:21:20desse jeito,
00:21:22vocês têm uma preocupação
00:21:23fundamental
00:21:24e vocês viram
00:21:25os gatekeepers,
00:21:27os controladores,
00:21:28né,
00:21:28do acesso à informação
00:21:29no bom sentido,
00:21:30porque vocês checam,
00:21:32vocês constroem a notícia
00:21:34com toda a certeza
00:21:35de que aquilo é
00:21:36um fato verídico,
00:21:37comprovável e tudo.
00:21:40Com a chegada
00:21:41das novas tecnologias,
00:21:42isso vai criando,
00:21:44o primeiro que tem
00:21:44fonte de informação
00:21:45não profissional adoidado,
00:21:47muito maior
00:21:48do que profissional.
00:21:49E esse papel
00:21:50de curadoria
00:21:52que o jornalismo tinha,
00:21:53ele passa a ir perdendo
00:21:55valor dentro
00:21:56do próprio jornalismo,
00:21:57isso é assustador.
00:21:58Então você tem
00:21:59uma nova geração
00:22:00que a curadoria
00:22:01está perdendo espaço
00:22:02para a ideia do furo,
00:22:04da rapidez
00:22:05com que a notícia chega.
00:22:07Mas de que adianta
00:22:08noticiar rápido
00:22:09e errado, né?
00:22:10E aí a desinformação,
00:22:12primeiro que esse tema
00:22:13é complicado pra caramba, né?
00:22:15Pouca gente sabe,
00:22:16mas quem inventou
00:22:17o termo de desinformação
00:22:18foram os russos, né?
00:22:19Eles tinham, né?
00:22:20O Ministério da Desinformação,
00:22:22inclusive.
00:22:24Eles tinham departamentos
00:22:26que estudavam
00:22:28conscientemente
00:22:29processos de desinformação.
00:22:31Por isso que eles são
00:22:31os melhores disso
00:22:32no mundo até hoje, né?
00:22:33É.
00:22:35Historicamente,
00:22:35até hoje,
00:22:36a rede deles
00:22:39interfere no mundo inteiro, né?
00:22:41Mas a ideia
00:22:42de desinformação,
00:22:43eles,
00:22:43que eu lembre,
00:22:44assim,
00:22:45do que eu li,
00:22:45eles também chamavam
00:22:47de desinformação
00:22:49todo o que era dito
00:22:51sobre o capitalismo.
00:22:52Então, no fundo,
00:22:54desinformação,
00:22:54a gente pode dizer até hoje,
00:22:56é um outro nome
00:22:57pra propaganda.
00:22:58Então,
00:22:58notícia é notícia.
00:23:00Desinformação
00:23:01é propaganda.
00:23:01Porque se você dá uma,
00:23:03não é o caso
00:23:04desse exemplo
00:23:04que você deu,
00:23:05mas durante a Covid,
00:23:06aquele monte de notícias
00:23:07sobre remédio
00:23:08que não tinha feito,
00:23:09aqueles kits Covid da vida
00:23:11que um monte de gente tomou,
00:23:12até hoje,
00:23:13a gente teve problemas
00:23:13de saúde por causa disso,
00:23:16aquilo beneficiava quem?
00:23:17Quem vendia esses remédios.
00:23:19Então,
00:23:19era propaganda.
00:23:20Então,
00:23:21a desinformação,
00:23:22às vezes,
00:23:23na maior parte dos casos,
00:23:24não nesse que você comentou,
00:23:25esse foi um problema
00:23:26de checagem,
00:23:27um processo que está atingindo
00:23:28o próprio jornalismo profissional,
00:23:30mas muito frequentemente,
00:23:31quem compete
00:23:32com uma notícia
00:23:33bem feita
00:23:34é propaganda,
00:23:35que se vende
00:23:36como notícia,
00:23:37porque aí a pessoa pensa,
00:23:38essa notícia
00:23:39saiu no jornal,
00:23:40não sei o quê,
00:23:41não vai nem checar
00:23:42que às vezes
00:23:42aquele jornal não existe,
00:23:43o nome inventado,
00:23:44mas normalmente
00:23:46é propaganda.
00:23:47Então,
00:23:47para os russos,
00:23:48toda notícia
00:23:49vinda do Ocidente
00:23:50era propaganda,
00:23:51era desinformação
00:23:52e no Ocidente
00:23:53também se falava
00:23:54que aquilo
00:23:54era propaganda russa.
00:23:57Então,
00:23:57é um jogo
00:23:58de guerra informacional,
00:24:00a gente vive
00:24:01num mundo
00:24:01de guerra informacional
00:24:02que salva a gente
00:24:03é o bom senso,
00:24:05parar para pensar
00:24:06e infelizmente
00:24:07o que as pessoas
00:24:08menos têm
00:24:08hoje em dia
00:24:09é tempo
00:24:09e não estão sendo
00:24:11educadas e preparadas
00:24:13para poder refletir
00:24:14e escolher melhor
00:24:14as fontes.
00:24:15Essa coisa
00:24:16da internet,
00:24:18acho que sobretudo
00:24:18das redes sociais,
00:24:20de estar
00:24:21em hipercomunicação
00:24:23o tempo todo,
00:24:24todo mundo te chamando,
00:24:25é como se as pessoas
00:24:25fossem obrigadas
00:24:26a não mais parar
00:24:27para refletir
00:24:28e a precisar
00:24:30ter uma opinião
00:24:30sobre tudo
00:24:31e tomam
00:24:33ações impulsivas
00:24:35e quem não
00:24:36é impulsivo
00:24:37e agressivo
00:24:38é visto
00:24:39como omisso
00:24:41quando na verdade
00:24:43é o contrário,
00:24:44porque o impulsivo
00:24:45ele chama
00:24:46atenção justamente
00:24:46para mascarar
00:24:48a falta de capacidade
00:24:49que ele tem
00:24:49de lidar
00:24:49com uma situação.
00:24:51Quem tem capacidade
00:24:53de lidar
00:24:53com uma situação
00:24:53simplesmente lida,
00:24:55não fica gritando,
00:24:57xingando os outros,
00:24:58mas eu acho assim
00:24:58que essa falta
00:24:59de parar
00:25:00para pensar
00:25:01reflete em coisas
00:25:02do tipo.
00:25:04Uma fonte
00:25:05da polícia
00:25:05estava me falando
00:25:06que hoje
00:25:06mais de 90%
00:25:08dos sequestros
00:25:09são golpes
00:25:10do Tinder
00:25:10em São Paulo.
00:25:12Que loucura,
00:25:13não?
00:25:13Mas faz todo sentido,
00:25:15né?
00:25:16Porque a maioria
00:25:16dos golpes
00:25:17eu recentemente
00:25:18quase caí em um
00:25:18e olha que eu estudo
00:25:20isso,
00:25:21digamos que sou
00:25:22das pessoas
00:25:22mais preparadas
00:25:23se eu cair
00:25:24no golpe,
00:25:25então,
00:25:25eu percebi
00:25:26na hora
00:25:27não cair,
00:25:28tá?
00:25:29E o que me salvou
00:25:30foi a percepção
00:25:31da urgência.
00:25:32A maioria dos golpes
00:25:33eles são
00:25:34pelo WhatsApp
00:25:36principalmente,
00:25:37agora tem muita
00:25:37clonagem de WhatsApp,
00:25:39mas pode ser
00:25:39pelo Tinder,
00:25:40etc.
00:25:41Se baseia na ideia
00:25:42você tem que fazer
00:25:43algo logo.
00:25:44Olha,
00:25:45isso é a maior armadilha,
00:25:46não tem,
00:25:47tirando a morte,
00:25:48tudo mais pode esperar.
00:25:49Então,
00:25:50efetivamente,
00:25:51acho que essa seria
00:25:52uma lição
00:25:53para todo mundo,
00:25:54se você quer evitar
00:25:54um golpe,
00:25:56cair em golpe,
00:25:57quando alguém te pede
00:25:58um dinheiro,
00:25:58emprestado no WhatsApp,
00:26:00quando surge alguma coisa
00:26:01dizendo que você ganhou
00:26:02um prêmio,
00:26:03pare para pensar
00:26:04e dê umas horas,
00:26:06converse com o vizinho,
00:26:07converse com alguém,
00:26:08porque a gente está
00:26:09muito conectado,
00:26:10mas a gente está
00:26:11mais solitário também,
00:26:12porque quando a nossa vida
00:26:14era mais comunitária,
00:26:16a gente tinha
00:26:17com quem compartilhar
00:26:18as coisas na hora.
00:26:20Hoje em dia,
00:26:20você pode ter contatos,
00:26:22mas as pessoas
00:26:22moram muito sozinhas,
00:26:24ou não conversam entre si,
00:26:26tem famílias,
00:26:27cada um
00:26:27numa correria,
00:26:28cada um para um lado,
00:26:29então,
00:26:30se te diz que você tem
00:26:31que fazer algo logo,
00:26:32numa mensagem,
00:26:33uma coisa envolvendo
00:26:34algum banco,
00:26:35alguma coisa,
00:26:36pare,
00:26:37não faça,
00:26:38peça opinião de alguém,
00:26:40é a melhor coisa,
00:26:42quer dizer,
00:26:42o tempo é inimigo,
00:26:44no caso,
00:26:45dos golpes.
00:26:46Tem que ter paz,
00:26:47tem que ter calma,
00:26:49mas também com relação
00:26:50que você estava falando
00:26:51em saber se uma notícia
00:26:53é verdadeira ou não,
00:26:54nem todo mundo consegue
00:26:56checar a fonte,
00:26:57mas só o fato da pessoa
00:27:00saber ir devagar,
00:27:01com calma,
00:27:03esse imperativo da opinião,
00:27:05ele é extremamente
00:27:06conflitivo,
00:27:07porque ele envolve,
00:27:09nós somos das duas profissões
00:27:11mais atacadas,
00:27:12estamos aqui os dois,
00:27:13uma jornalista
00:27:14e uma professora universitária,
00:27:15por que nós passamos
00:27:16a ser atacados?
00:27:17Porque vocês jornalistas
00:27:19falam que vocês foram
00:27:21atrás da notícia,
00:27:23checaram,
00:27:23construíram como notícia,
00:27:25e nós professores,
00:27:26nós fazemos pesquisa,
00:27:28nós somos cientistas,
00:27:30quer dizer,
00:27:30para eu falar algo
00:27:31sobre algum tema,
00:27:33eu li uma quantidade
00:27:34imensa de livros,
00:27:35eu entrevistei pessoas,
00:27:36fiz grupos focais,
00:27:38só que na era
00:27:39das redes sociais,
00:27:40se deu microfone
00:27:41para todo mundo
00:27:42e se igualou
00:27:43a opinião
00:27:44de todo mundo
00:27:45com a notícia
00:27:46criada pelo jornalismo
00:27:47profissional
00:27:48ou com a ciência,
00:27:49não dá,
00:27:51o mundo sem curadoria
00:27:52é o mundo pior,
00:27:54a qualidade das conversas
00:27:56caiu muito
00:27:57e as pessoas
00:27:57estão brigando demais,
00:27:59porque é opinião
00:27:59contra opinião,
00:28:01tem que na verdade
00:28:02ter fato,
00:28:04tem que ter
00:28:05embasamento empírico,
00:28:07sabe,
00:28:07uma descoberta científica,
00:28:09algo realmente científico
00:28:10ou uma notícia
00:28:11construída com seriedade
00:28:13pelo jornalismo profissional,
00:28:14não pode estar
00:28:15no mesmo nível
00:28:16da opinião,
00:28:17né,
00:28:18aí obviamente
00:28:19que num contexto
00:28:21em que todo mundo
00:28:22só tem opinião,
00:28:23todo mundo briga
00:28:24e ninguém tem razão.
00:28:25e também
00:28:26acho que as pessoas
00:28:28emburrecem,
00:28:29porque a pessoa
00:28:30casa com a opinião,
00:28:32a gente conversa
00:28:33muito,
00:28:35vira e mexe
00:28:35a gente muda
00:28:36de opinião
00:28:36por causa
00:28:37de uma informação
00:28:37nova que o outro
00:28:38trouxe,
00:28:39eu me lembro
00:28:40umas 4, 5 vezes
00:28:41que eu mudei de opinião
00:28:42porque você me manda
00:28:42alguma coisa,
00:28:43eu falei,
00:28:44puta,
00:28:44eu não sabia disso,
00:28:45só que o que acontece
00:28:46hoje é,
00:28:47quando vem uma opinião
00:28:49contrária,
00:28:51uma opinião não,
00:28:52a pessoa te traz um fato
00:28:53contrário ao que você
00:28:54estava opinando,
00:28:55em vez da pessoa
00:28:56falar,
00:28:56pô,
00:28:56não sabia disso aqui,
00:28:58vou agora passar
00:28:58a raciocinar com isso aqui,
00:29:00não,
00:29:00a pessoa fica brava,
00:29:03e assim,
00:29:04acaba tomando decisões
00:29:06erradas,
00:29:07eu acho que isso contamina,
00:29:08não é só em debate,
00:29:10acaba fazendo
00:29:11esse mesmo processo
00:29:12com relacionamento
00:29:14amoroso,
00:29:15com relacionamento
00:29:16familiar,
00:29:17com decisões
00:29:18profissionais,
00:29:19porque você está
00:29:19indo num caminho,
00:29:21vem o red flag
00:29:23para você,
00:29:24tem um red flag
00:29:25desse tamanho,
00:29:26a pessoa,
00:29:26não,
00:29:27ninguém mandou me falar
00:29:28que você está me afrontando
00:29:29e não sei o que,
00:29:30as pessoas estão tomando
00:29:31decisões piores,
00:29:33sendo que tem um
00:29:34repositório enorme
00:29:35de conhecimento
00:29:36para elas irem beber
00:29:37da fonte.
00:29:39É,
00:29:39mas não dá para esquecer
00:29:40que hoje em dia,
00:29:41por exemplo,
00:29:41pelas próprias redes sociais,
00:29:43que quase todo mundo
00:29:44é conectado,
00:29:45até as crianças,
00:29:45até as que não deveriam,
00:29:47tem dados sobre isso,
00:29:48no Brasil é assustador,
00:29:51o que se passa
00:29:52é que as pessoas
00:29:53estão perdendo
00:29:54essa noção
00:29:55da necessidade
00:29:56do conhecimento
00:29:57embasado,
00:29:58quer tenha vindo
00:29:59da mídia,
00:29:59de uma notícia,
00:30:01né,
00:30:01de um veículo
00:30:02que tem responsabilidade,
00:30:03que pode ser acionado
00:30:04legalmente
00:30:05se ele falar algo errado,
00:30:06né,
00:30:06isso é muito importante,
00:30:08ou vindo de um cientista.
00:30:10Então,
00:30:10o que ela recebe
00:30:11por um aplicativo
00:30:12de mensagem,
00:30:13ou ela vê na rede social,
00:30:15foi nivelado,
00:30:17esse,
00:30:17para mim,
00:30:18é o ponto,
00:30:19esse nivelamento,
00:30:21tirou o lastro
00:30:23de algo que foi
00:30:24baseado em alguma
00:30:25reflexão,
00:30:26alguma coisa,
00:30:26acabou.
00:30:27por que que a pessoa
00:30:27não raciocina,
00:30:29não para,
00:30:30e ela tal.
00:30:31O viés de confirmação
00:30:32é a coisa mais confortável,
00:30:34então,
00:30:34se você já pensa
00:30:35de um jeito,
00:30:36a maior parte
00:30:36do que você lê online,
00:30:38basicamente,
00:30:39é feito para
00:30:41consolidar o que você
00:30:41já acredita.
00:30:43A ideia de bolha,
00:30:44né,
00:30:44a ideia de filtros,
00:30:46bolha,
00:30:46todo mundo acha
00:30:47que na rede social tem,
00:30:48ah,
00:30:48eu tenho amigos
00:30:49de todo quanto é tipo.
00:30:50Não é verdade.
00:30:52Sociologicamente,
00:30:52tenho que dizer,
00:30:53posso garantir,
00:30:54não é.
00:30:55Todo mundo
00:30:56está na sua bolha,
00:30:57sempre esteve.
00:30:59Só que,
00:31:00no passado,
00:31:01você tinha
00:31:01a sua família,
00:31:03os seus gostos pessoais
00:31:04e tudo,
00:31:05você saía na rua,
00:31:06o tempo todo
00:31:07você falava
00:31:07com gente diferente
00:31:08e que você
00:31:09tinha que ter
00:31:10um jogo de cintura
00:31:11e tinha que se comunicar,
00:31:12mesmo porque
00:31:13se você se perdia,
00:31:14você tinha que pedir
00:31:15informação na esquina.
00:31:17Verdade.
00:31:18Parar e perguntar
00:31:18como eu chego ali.
00:31:20Hoje em dia,
00:31:20a pessoa é totalmente
00:31:21isolada na sua bolha,
00:31:23ela sai de casa
00:31:24com o map ali,
00:31:26com o mapa
00:31:27no celular,
00:31:28ela não fala
00:31:29com mais ninguém
00:31:30que diverge dela
00:31:31ou com quem
00:31:32ela vai ter que fazer
00:31:33um esforço
00:31:34de construir uma empatia
00:31:35e mesmo não
00:31:36tendo coisas em comum,
00:31:38ter que conversar,
00:31:39né.
00:31:40Então,
00:31:40a gente perdeu,
00:31:41isso a gente chama
00:31:43na sociologia
00:31:43de bridging,
00:31:44que é você aprender
00:31:45a construir pontes
00:31:47e a sociedade
00:31:48das mídias,
00:31:49ela basicamente
00:31:51é uma sociedade
00:31:52em que você só faz
00:31:53o que os americanos
00:31:53chamam bonding,
00:31:54é proposital.
00:31:56Você entra numa rede social,
00:31:57você sempre vai ter gente
00:31:59que por mais que você ache
00:32:00que é diferente,
00:32:01é da sua classe social,
00:32:02tem as mesmas ideias,
00:32:04o seu mesmo nível educacional,
00:32:05e aí é todo mundo igual.
00:32:07Quando surge algo
00:32:08que foge do habitual
00:32:10nesse mundo de bolhas
00:32:12que a gente passou a viver,
00:32:14é inaceitável,
00:32:15as pessoas ficam chocadas.
00:32:17A nossa geração,
00:32:18que conheceu o mundo
00:32:19antes da internet,
00:32:20tem mais noção
00:32:22de que isso não é normal.
00:32:23Os nativos digitais
00:32:25têm um imenso desafio
00:32:26de perceber,
00:32:27gente,
00:32:28não é normal
00:32:28que todo mundo concorde,
00:32:30que você pegue
00:32:31o feed
00:32:33da sua
00:32:34rede social
00:32:35e é o tempo todo,
00:32:37se você é de um partido político,
00:32:38só aparece coisas
00:32:39pró,
00:32:40ele
00:32:40e contra um ou outro,
00:32:43né.
00:32:43Se é sempre igual,
00:32:45se é tão homogêneo,
00:32:46é óbvio que você está vivendo
00:32:48num mundo da fantasia.
00:32:49O mundo real,
00:32:50você tem que conversar
00:32:51com pessoas,
00:32:52você tem que ir na padaria,
00:32:53você vai ter que conversar
00:32:54na fila,
00:32:55você vai ter que fazer amizade
00:32:56com gente que você não tem
00:32:58necessariamente algo em comum,
00:33:00você vai enfrentar uma fila,
00:33:01você vai para o médico,
00:33:03tem que esperar,
00:33:03tem que conversar
00:33:04com outras pessoas, né.
00:33:06Mas efetivamente,
00:33:08não é exagero dizer,
00:33:09as pessoas estão menos sociáveis,
00:33:11menos capazes
00:33:12de conversar com gente
00:33:13diferente delas.
00:33:15e é pior
00:33:16nas classes mais altas,
00:33:18porque as classes mais altas
00:33:20são mais isoladas socialmente.
00:33:22Então,
00:33:22a classe média e alta,
00:33:24não por acaso,
00:33:24as pesquisas internacionais
00:33:26mostram que polarização política
00:33:27é nas classes altas,
00:33:29porque a classe popular,
00:33:30ela pega o busão cheio
00:33:32e tem que conversar
00:33:33com as pessoas,
00:33:34o próprio contexto
00:33:35as obriga a estar juntas,
00:33:37a fazer troca,
00:33:38a conversar com a vizinha
00:33:39que ela não gosta,
00:33:41uma pessoa de uma religião,
00:33:42outra pessoa da outra religião
00:33:44e ainda assim,
00:33:44elas vão se encontrar
00:33:45na festa do bairro, né.
00:33:47É nas classes médias
00:33:49e altas
00:33:49que a pessoa é capaz
00:33:51de se isolar do mundo
00:33:52e aí ela não consegue
00:33:54ter esses processos
00:33:56que antes eram normais
00:33:57de falar,
00:33:57eu tenho que conviver
00:33:59com uma pessoa
00:34:00que pensa diferente de mim,
00:34:02eu tenho que viver
00:34:03e ser capaz
00:34:04de ter algo em comum.
00:34:07Breeding.
00:34:08Como os nossos antepassados,
00:34:10né,
00:34:10tá brincando com esse programa,
00:34:11parece que é a comunidade
00:34:12húngara de São Paulo.
00:34:13A comunidade húngara
00:34:14de São Paulo
00:34:14tá aí instaurada.
00:34:16Chegaram no mesmo ano,
00:34:17bobeou no mesmo navio,
00:34:18bobeou no mesmo navio
00:34:20e os imigrantes,
00:34:23imigrantes
00:34:24e também os refugiados
00:34:26chegam num lugar novo,
00:34:28eles têm que construir
00:34:29relações com pessoas
00:34:30muito diferentes, né.
00:34:32Isso é a magia
00:34:34e o lado mais feliz
00:34:36da vida em comunidade,
00:34:37da vida em sociedade.
00:34:39infelizmente,
00:34:40as novas tecnologias
00:34:41estão tirando
00:34:42essas habilidades
00:34:43e criando gerações
00:34:45que não estão aprendendo
00:34:46a construir
00:34:49essa capacidade
00:34:50relacional
00:34:50mais aberta.
00:34:52Você estudou também
00:34:53como isso deriva
00:34:54para os relacionamentos
00:34:56amorosos.
00:34:57Sim, sim.
00:34:58O que que muda
00:34:59nos relacionamentos
00:35:00amorosos?
00:35:01Primeiro que o povo
00:35:02tá tudo se conhecendo
00:35:03por app, né?
00:35:04Então,
00:35:05ultimamente,
00:35:05se você quer saber,
00:35:06tá aí já uma migração.
00:35:07as pessoas estão se paquerando
00:35:08mais por rede social
00:35:10mesmo
00:35:10e tem até movimentos,
00:35:12mas ainda muito iniciais
00:35:13de pessoas que não querem
00:35:14mais iniciar nada online.
00:35:16Mas, assim,
00:35:17eu estudei
00:35:18desde quando as pessoas
00:35:19usavam sites,
00:35:21bate-papos
00:35:21até chegar nos apps
00:35:23de relacionamento.
00:35:23Fiz uma pesquisa
00:35:24de 10 anos,
00:35:25inclusive nos Estados Unidos.
00:35:27E uma coisa que
00:35:28eu descobri
00:35:29nessa longa pesquisa
00:35:30que originou até um livro
00:35:31que já tem quase 10 anos
00:35:33é que, na verdade,
00:35:35o que as pessoas buscavam
00:35:37e até hoje
00:35:38buscam nesses aplicativos
00:35:39não são relações.
00:35:41Elas buscam controle.
00:35:43Porque,
00:35:44na vida real,
00:35:45é como eu te disse,
00:35:46você conhece alguém,
00:35:47você vai ter que criar,
00:35:49vai ter que fazer
00:35:50commitments, né?
00:35:51Você vai ter que aceitar
00:35:52que a pessoa
00:35:53não é perfeita.
00:35:54Sim.
00:35:54Ela não é tão linda,
00:35:55ela não necessariamente
00:35:56é aquilo e tal.
00:35:57No aplicativo,
00:35:58como ele vende filtros,
00:36:00as pessoas tendem
00:36:01a buscar a pessoa ideal
00:36:03em todos os sentidos,
00:36:05em termos físicos,
00:36:06em termos de qual
00:36:08o seu nível de renda,
00:36:09profissão,
00:36:10tudo.
00:36:10Tem filtro para tudo.
00:36:11No final das contas,
00:36:13ela está se comportando
00:36:16num mercado,
00:36:16como se aquela pessoa
00:36:17fosse um produto, né?
00:36:19As pessoas sabem disso,
00:36:20até brincam com isso
00:36:21nos próprios aplicativos,
00:36:22está cheio de perfil
00:36:23que a pessoa fala,
00:36:24ah, minha data de validade
00:36:25ou minha data de expiração
00:36:28ainda está longa
00:36:29para dizer que não passou, né?
00:36:32E por aí vai.
00:36:33Mas a verdade
00:36:34é que
00:36:35as pessoas
00:36:37por meio dos aplicativos
00:36:38elas descobriram,
00:36:40acham,
00:36:41porque isso é a propaganda,
00:36:43né?
00:36:43No final de tudo começo,
00:36:44de que elas poderiam
00:36:46dosar o nível de envolvimento.
00:36:48Então,
00:36:49quem busca alguém
00:36:50por aplicativo
00:36:51não está buscando alguém,
00:36:52está buscando uma relação
00:36:53em que a pessoa,
00:36:56o envolvimento com a pessoa
00:36:58é no nível que ela quer.
00:37:00então ela está buscando,
00:37:02na verdade,
00:37:03controle,
00:37:04segurança, né?
00:37:06E a fadada não dá certo, né?
00:37:09Mas isso deságua também
00:37:10para os relacionamentos
00:37:12depois que se tornam
00:37:14reais ou...
00:37:16porque eu tenho visto
00:37:18esse é um fenômeno
00:37:19que eu não consigo entender
00:37:19cada vez mais conteúdo
00:37:21sobre pessoas
00:37:22narcisistas.
00:37:23Eu só estudei
00:37:25psiquiatria forense,
00:37:26que aí tem a tetra de perversa,
00:37:28que o maquiavelismo
00:37:29nem é síndice,
00:37:31mas entra,
00:37:32e aí tem os psicopatas,
00:37:33sociopatas,
00:37:34sádicos,
00:37:34e narcisistas.
00:37:34Não, mas ele é muito radical,
00:37:36madame, não, gente.
00:37:36Não, mas assim,
00:37:37eu só conhecia isso, né?
00:37:38O narcisista,
00:37:41que além de patológico,
00:37:43é criminal.
00:37:45Esse é o perfil
00:37:45que eu conhecia.
00:37:46O que eu tenho visto
00:37:47nas redes de explodir
00:37:48de narcisismo,
00:37:49na verdade,
00:37:50não são narcisistas patológicos,
00:37:53são cacoetes narcísicos
00:37:55em pessoas comuns.
00:37:58Isso também não vem
00:37:59dessa sensação,
00:38:00dessa coisa de querer
00:38:01ter o controle sobre o outro?
00:38:02Olha, nos aplicativos,
00:38:04sobretudo os aplicativos gays,
00:38:07era muito comum
00:38:09a pessoa dizer
00:38:11que procurava alguém semelhante.
00:38:13Quer dizer,
00:38:14mais narcísico que isso,
00:38:16impossível.
00:38:16Liberate.
00:38:17Não é?
00:38:18Quem não sabe o Liberate
00:38:20era um pianista famoso,
00:38:22que arrumou um marido,
00:38:24que ele esculpiu
00:38:25o marido de cirurgia plástica
00:38:26à sua imagem e semelhança
00:38:28do avó assustadora.
00:38:29Então, assim,
00:38:31procura alguém semelhante
00:38:32ou apenas semelhante,
00:38:33aí o Coisa Narcísica
00:38:35está muito claro, né?
00:38:36Mas, no geral,
00:38:38eu diria que
00:38:39é fadado
00:38:40a na relação face-a-face
00:38:43e não dá certo
00:38:44daquele jeito.
00:38:45Mas a tecnologia,
00:38:46não dá para dizer
00:38:47que não funciona,
00:38:48é totalmente engordo,
00:38:49depende.
00:38:49O que eu posso te garantir
00:38:51é que essas tecnologias
00:38:52são americanas.
00:38:53Elas foram feitas
00:38:54para a realidade americana.
00:38:55Eu entrevistei muita gente
00:38:56em São Francisco,
00:38:58muitos funcionários
00:38:58do Google,
00:38:59da Apple,
00:39:00eles usavam
00:39:00esses aplicativos
00:39:01e lá funcionava melhor
00:39:03do que aqui.
00:39:04Por quê?
00:39:05Porque lá,
00:39:06a pessoa não tem medo
00:39:07de sair na rua,
00:39:09de encontrar com alguém
00:39:09à noite,
00:39:10porque não tem tanta violência
00:39:11urbana,
00:39:12tudo.
00:39:12Então,
00:39:12os aplicativos,
00:39:14eles,
00:39:14no contexto
00:39:15para o qual eles foram
00:39:16criados originalmente,
00:39:18sobretudo a Califórnia,
00:39:19a pessoa podia conhecer
00:39:21alguém e sair
00:39:21para tomar um café
00:39:22e começava a conhecer logo.
00:39:24No Brasil,
00:39:25como, primeiro,
00:39:26um país hiperconectado,
00:39:28acho que pouca gente
00:39:29sabe disso,
00:39:29nós somos ou o mais
00:39:31ou o segundo mais
00:39:32conectado do mundo.
00:39:34Mentira!
00:39:35Sim,
00:39:35a gente está sempre
00:39:36em competição
00:39:37com a África do Sul.
00:39:38E por que Brasil
00:39:40e a África do Sul
00:39:40são os países
00:39:41mais conectados?
00:39:42Porque são países
00:39:44com alto grau
00:39:45de violência urbana
00:39:46e com muita insegurança,
00:39:49né?
00:39:49Então,
00:39:49as pessoas ficam
00:39:50mais tempo online
00:39:52por questões
00:39:53de segurança
00:39:53e também por questões
00:39:55de pouca renda.
00:39:56Então,
00:39:57são países
00:39:57com um nível médio
00:39:58de renda mais baixo,
00:40:00com muita violência
00:40:02e...
00:40:03Então,
00:40:03as pessoas não têm
00:40:04muitas opções de lazer,
00:40:05elas ficam mais conectadas,
00:40:07né?
00:40:07Aí,
00:40:07a pessoa se conhece
00:40:08por um aplicativo,
00:40:09ela fica trocando mensagens
00:40:11porque ela tem medo.
00:40:12Ela não vai encontrar
00:40:13a pessoa logo
00:40:13que ela acabou de conhecer,
00:40:14né?
00:40:15Te encontra daqui
00:40:15a 15 minutos.
00:40:16Não!
00:40:18Você já...
00:40:19É assalto!
00:40:20É assalto!
00:40:21Que é o meu rim,
00:40:22né?
00:40:22Que é o meu rim.
00:40:23Essa pessoa quer te encontrar
00:40:25em 15 minutos
00:40:26aqui, né?
00:40:27Mas, na verdade,
00:40:28é porque a nossa sociedade
00:40:29ela é mais perigosa mesmo,
00:40:31né?
00:40:32E isso,
00:40:32você quer saber,
00:40:33aí o aplicativo
00:40:34começa a não dar certo.
00:40:35Quanto mais tempo
00:40:36a pessoa demora
00:40:37para encontrar,
00:40:38mais ela idealiza.
00:40:39Quando ela chega
00:40:40pessoalmente,
00:40:41mais ela se decepciona.
00:40:43Entre a fantasia
00:40:44das redes sociais
00:40:45ou dos aplicativos
00:40:46e a realidade
00:40:47do contato próximo,
00:40:49tem um oceano, né?
00:40:51Então tem um pouco
00:40:52que passa por aí.
00:40:53Com relação ao narcisismo
00:40:55que você estava falando,
00:40:56gente,
00:40:57a coisa básica
00:40:59dessas tecnologias,
00:41:00eu falo assim,
00:41:00a gente fala de internet,
00:41:01as pessoas começam
00:41:02a viajar,
00:41:03assim,
00:41:03eu lembro quando
00:41:04teve algum bloqueio
00:41:06de rede,
00:41:07eu não lembro
00:41:07o que aconteceu,
00:41:08e aí as pessoas
00:41:09começaram a reclamar
00:41:10e tal,
00:41:10mas é um direito e tal.
00:41:12Gente,
00:41:12essas plataformas
00:41:13são privadas,
00:41:14elas nunca foram pensadas
00:41:15para funcionar totalmente livres,
00:41:18você fazer o que você quer,
00:41:19elas são controladas
00:41:20por pessoas de verdade
00:41:22lá no Vale do Silício,
00:41:24não é o espaço público,
00:41:26as pessoas acham
00:41:27que é o espaço público,
00:41:27então elas são comerciais.
00:41:29Sendo comerciais
00:41:30e negócio,
00:41:31elas te vendem
00:41:32como sendo,
00:41:33na verdade,
00:41:34algum benefício,
00:41:35algo livre, né?
00:41:37Mas, na verdade,
00:41:38ela está te vendendo
00:41:39uma coisa
00:41:39e ela te vende a ideia
00:41:41de que você é o centro
00:41:42do mundo.
00:41:42Todo mundo que cria
00:41:44um perfil online
00:41:45fica com a impressão,
00:41:46e essa é a alma
00:41:47do negócio,
00:41:48de que você
00:41:49é o centro do mundo.
00:41:51E, obviamente,
00:41:52não é, né?
00:41:53Assim,
00:41:53deveria ser óbvio,
00:41:54mas é uma ilusão
00:41:55tão bem construída
00:41:56que as pessoas
00:41:56ficam frustradas.
00:41:58Então,
00:41:58muitas das brigas
00:41:59online,
00:42:00dos problemas
00:42:01relacionais,
00:42:02também amorosos,
00:42:04passam por isso.
00:42:05E elas modificaram
00:42:06tão radicalmente
00:42:07a nossa vida social
00:42:08que, por exemplo,
00:42:09a gente estava falando
00:42:10de não telefonar mais.
00:42:11Quem telefona, né?
00:42:13Eu não conheço mais
00:42:13ninguém que telefona.
00:42:14Eu tenho dois amigos
00:42:15que telefonam.
00:42:16Dois,
00:42:17e qual é a idade deles?
00:42:18Não é melhor não revelar.
00:42:19Ele tem 55, 56
00:42:22e o outro tem 90.
00:42:24Pronto,
00:42:25já entregou.
00:42:25O de 90 eu até entendo,
00:42:27mas esse que tem 55, 56,
00:42:29ninguém da geração dele
00:42:30também telefona.
00:42:31Então,
00:42:32quando ele liga
00:42:32e a gente não atende,
00:42:33ele fica muito bravo.
00:42:35Tá,
00:42:36mas você viu a idade?
00:42:37Porque aí tem...
00:42:38A molecada não tem mais,
00:42:41não tem ninguém telefone.
00:42:42Mas por quê?
00:42:43E não é natural.
00:42:45É porque as mensagens,
00:42:47mesmo de áudio,
00:42:47não só as escritas,
00:42:49mas as de áudio,
00:42:50elas são editadas.
00:42:51Nós somos de uma geração,
00:42:53e nós para baixo,
00:42:54que passou a se comunicar
00:42:56com controle.
00:42:57O que todas essas tecnologias
00:42:59vendem para a gente
00:43:00é a ideia de que a gente
00:43:01pode controlar
00:43:02e ter mais segurança
00:43:03na relação com o outro.
00:43:05E é uma ilusão.
00:43:06Mas, por exemplo,
00:43:08as relações ficam muito
00:43:10artificiais, sabe?
00:43:12Nem todo mundo,
00:43:13não dá para generalizar,
00:43:14mas a tendência
00:43:15é uma artificialidade.
00:43:16Se você...
00:43:17Eu sei de histórias,
00:43:18fiz pesquisas sobre isso,
00:43:19de pessoas que namoravam
00:43:20trocando mensagens,
00:43:22trocando áudios e tal,
00:43:23e a coisa descambou
00:43:26depois radicalmente,
00:43:27porque você conheceu
00:43:28uma edição da pessoa.
00:43:31Exatamente.
00:43:31A pessoa te criou um programa,
00:43:33entendeu?
00:43:34E ela não era aquilo,
00:43:35né?
00:43:35Obviamente.
00:43:36No telefone,
00:43:39poderia ser o teste
00:43:40do telefone, né?
00:43:41Você conversar
00:43:43sem controle,
00:43:45está aberto a mudar
00:43:46de assunto o tempo todo,
00:43:47ter que ter o jogo
00:43:48de cintura,
00:43:49você tem muito mais
00:43:51exposição e possibilidade
00:43:53de descobrir coisas
00:43:55do que mandando
00:43:55e trocando mensagens.
00:43:57Então, essas relações
00:43:58criadas por aplicativos,
00:43:59elas têm esses problemas.
00:44:01E, assim,
00:44:02primeiro que,
00:44:03para a realidade americana,
00:44:04até funcionou melhor.
00:44:05aqui nunca funcionou
00:44:06plenamente por causa
00:44:07dos nossos problemas
00:44:08estruturais,
00:44:09não era nem dos aplicativos,
00:44:11né?
00:44:11Mas, de uma forma geral,
00:44:13quer seja por amor,
00:44:14quer seja com a família
00:44:15e tudo,
00:44:16a relação editada,
00:44:18ela é uma perda.
00:44:19O fato da gente
00:44:20não conversar mais
00:44:22é uma perda.
00:44:24Eu tenho
00:44:24uma experiência
00:44:25de tentar encontrar
00:44:27com amigos
00:44:27para bater papo.
00:44:29porque está desaparecendo.
00:44:30O próprio
00:44:31ideia do podcast,
00:44:32do videocast,
00:44:33a gente está tentando
00:44:34substituir essas conversas
00:44:36que eram parte
00:44:36da vida cotidiana
00:44:38e que as pessoas
00:44:38não têm mais, né?
00:44:40A gente está sentindo
00:44:41falta disso,
00:44:42está fazendo muita falta,
00:44:43é o comfort food
00:44:44da alma, né?
00:44:45E sabe uma coisa também?
00:44:47Aqui,
00:44:47quando eu propus
00:44:48o projeto
00:44:49um antagonista,
00:44:49tinha muito disso.
00:44:51Eu passei a minha vida
00:44:52sem viver
00:44:55da minha opinião,
00:44:56dando uma opinião
00:44:57aqui ou outra ali
00:44:58por ego,
00:44:58por vaidade,
00:44:59porque eu queria
00:45:00me posicionar,
00:45:0225 anos de jornalismo.
00:45:04De 5 anos para cá,
00:45:05as pessoas só querem
00:45:06a sua opinião
00:45:07em temas onde,
00:45:09de repente,
00:45:09a minha opinião
00:45:10nem é tão relevante.
00:45:13Então,
00:45:14eu acho que falta
00:45:15um pouco de perspectiva,
00:45:17porque eu sei que a pessoa
00:45:18olha ali
00:45:18como um norte
00:45:20aquela opinião,
00:45:21mas uma coisa
00:45:22é você ver como um norte
00:45:23a opinião,
00:45:23a outra coisa
00:45:24é você ter essa experiência
00:45:26de uma troca,
00:45:28de uma conversa,
00:45:29e isso não pode desaparecer.
00:45:31E eu vejo muitas trocas
00:45:32e conversas.
00:45:34A gente teve uma leva,
00:45:36né,
00:45:36do podcast na pandemia
00:45:37que ficou muito famosa,
00:45:39mas trocas e conversas
00:45:41que não estão
00:45:42no mesmo nível,
00:45:43que não tem curadoria.
00:45:45E eu acho que descamba um pouco.
00:45:47A curadoria faz muito,
00:45:48muita falta, né?
00:45:49Essa ideia de substituir
00:45:51o jornalismo profissional
00:45:53ou a ciência
00:45:54pela opinião
00:45:55é uma tragédia.
00:45:56Tanto, assim,
00:45:57até os pesquisadores
00:45:58sobre opinião pública,
00:45:59sobre esfera pública,
00:46:01né,
00:46:02o alemão
00:46:03Jürgen Habermas,
00:46:04o grande teórico,
00:46:05né,
00:46:05ele fala
00:46:06a qualidade do debate público
00:46:08caiu,
00:46:08de verdade,
00:46:09por causa dessas novas
00:46:10tecnologias.
00:46:11É maravilhoso
00:46:12que todo mundo
00:46:13possa falar,
00:46:14mas é tipo língua,
00:46:15você sabe que eu adoro
00:46:16estudar línguas,
00:46:17né,
00:46:17estudo até hoje,
00:46:19né,
00:46:19e minha mãe sempre dizia,
00:46:21mas você tem que ter algo
00:46:22de bom pra falar
00:46:23em todas elas.
00:46:25Não adianta falar
00:46:26e não ter o que dizer.
00:46:28E substituir
00:46:29o jornalismo
00:46:31ou a ciência
00:46:32pela opinião
00:46:33não dá conta,
00:46:35e aí vira mesmo
00:46:36uma gritaria
00:46:37e vira uma competição,
00:46:38porque opinião
00:46:39por opinião
00:46:39todo mundo
00:46:40tem a sua.
00:46:41Então,
00:46:41o que vai definir
00:46:43que algo
00:46:44vale a mais?
00:46:45Porque tem que valer.
00:46:46É diferente
00:46:47eu achar
00:46:48que algo
00:46:49na física
00:46:50é daquele jeito,
00:46:51a minha opinião.
00:46:52Outra coisa,
00:46:53é um físico
00:46:54vir aqui
00:46:54e explicar
00:46:55o que é aquilo
00:46:56realmente
00:46:57pela ciência.
00:46:58A opinião
00:46:59não é a opinião
00:47:00ali dele,
00:47:01ele vai,
00:47:02algumas pessoas
00:47:03vão dizer
00:47:03a opinião do físico,
00:47:04isso está acontecendo,
00:47:05né,
00:47:05o cientista pega mesmo,
00:47:07eu sou o ciólogo,
00:47:07eu falo algo
00:47:08e o estudante fala,
00:47:09mas é a sua,
00:47:10então na sua opinião,
00:47:11eu falo,
00:47:11não,
00:47:12essa não é minha opinião,
00:47:13isso é o resultado
00:47:13da pesquisa,
00:47:15isso é um dado,
00:47:16isso é ciência,
00:47:17né.
00:47:18Mas pra tudo isso,
00:47:19Richard,
00:47:19acho que as pessoas
00:47:20também perderam
00:47:21um pouco a noção,
00:47:21isso de ficar no centro,
00:47:24outro dia alguém
00:47:25falou pra mim
00:47:26que eu fico observando
00:47:27isso talvez
00:47:28de uma maneira
00:47:28muito dura
00:47:29e muito crítica,
00:47:30porque eu sempre estive
00:47:31na mídia
00:47:31desde que eu tinha
00:47:3217 anos,
00:47:34e eu sei que não é
00:47:35sobre mim
00:47:35e que as pessoas
00:47:36não gostam de mim,
00:47:37eu sei que eu não sou
00:47:39o centro do mundo
00:47:39e que isso,
00:47:40mas as pessoas
00:47:42não sabem,
00:47:44então elas começam
00:47:45a achar
00:47:45que elas podem,
00:47:47que elas sabem
00:47:48de tudo
00:47:48que o outro
00:47:48tá fazendo,
00:47:49também um pouco
00:47:50de efeito
00:47:50o Dunning Kruger,
00:47:51e não tô falando
00:47:52só pra um cientista,
00:47:54pra um nada,
00:47:55o cara vai achar
00:47:56que ele vai dizer
00:47:58pro azulejista
00:47:59da casa dele
00:48:00como é que põe
00:48:01o azulejo,
00:48:02o calheiro,
00:48:03entende,
00:48:04ele vai explicar
00:48:05pra cozinheira dele
00:48:06como é que cozinha,
00:48:07e tá ficando assim,
00:48:09a pessoa não tem noção
00:48:10de qual é o campo
00:48:12de conhecimento dela.
00:48:14Mas isso tem a ver
00:48:15com essa mágica comercial,
00:48:19né,
00:48:19que é atraída
00:48:20desse tipo de comunicação
00:48:21que dá a impressão
00:48:22que o que cada um pensa
00:48:24tem a mesma validade.
00:48:25Efetivamente,
00:48:26não tem,
00:48:26você deu um bom exemplo,
00:48:27o calheiro,
00:48:28que é coisa mais,
00:48:29né,
00:48:29o calheiro,
00:48:30quando vai na minha casa.
00:48:31O calheiro,
00:48:32se ele não for bom,
00:48:33não tem solução,
00:48:35e ele é que sabe,
00:48:35eu não tenho como
00:48:36competir com o calheiro,
00:48:38e eu quero que ele
00:48:38faça um bom serviço,
00:48:40não vou ficar dando
00:48:40minha opinião pro calheiro,
00:48:41eu quero que ele termine
00:48:42o serviço dele,
00:48:43né,
00:48:44e por exemplo,
00:48:45a gente na sociologia,
00:48:46a gente fala a partir
00:48:47de pesquisa,
00:48:47a partir de dados,
00:48:48aqui a gente tá
00:48:49uma conversa informal,
00:48:50então eu não fico falando
00:48:50o nome de autor,
00:48:51etc,
00:48:52se eu saio o Habermas
00:48:53aí sem querer,
00:48:53mas isso é,
00:48:54não tem jeito.
00:48:55Mas,
00:48:56é,
00:48:57é,
00:48:57muito comum um estudante,
00:48:59às vezes,
00:49:00ou alguém numa entrevista
00:49:01e tal,
00:49:01então essa é a sua opinião,
00:49:03às vezes a minha opinião
00:49:04é contrária ao resultado
00:49:06da pesquisa,
00:49:07mas eu tenho que lidar
00:49:08com a realidade,
00:49:10eu não,
00:49:10eu não preciso concordar
00:49:12com o resultado da pesquisa,
00:49:13a gente faz ciência
00:49:15e muito frequentemente
00:49:16o resultado
00:49:17não é o que a gente
00:49:18queria ter pra apresentar,
00:49:20entendeu?
00:49:20Então,
00:49:21é o princípio de realidade.
00:49:23Eu diria que a lógica
00:49:25das comunicações atuais,
00:49:26ela é uma tentativa
00:49:28de proteger as pessoas
00:49:30do princípio de realidade.
00:49:31É como a história
00:49:32do golpe,
00:49:33você fica pensando,
00:49:34não,
00:49:34isso não deve ser golpe.
00:49:36É golpe sim.
00:49:37É golpe sim.
00:49:38É,
00:49:38estou te oferecendo,
00:49:39estou a ele.
00:49:40É golpe sim.
00:49:41Mas isso da opinião,
00:49:42outro dia eu fui dar
00:49:43uma entrevista
00:49:44que a pessoa falou,
00:49:46não,
00:49:46porque política
00:49:47é tal coisa,
00:49:47tal coisa,
00:49:48eu falei,
00:49:48não,
00:49:48mas desculpa,
00:49:48política não é isso,
00:49:50política é a arte
00:49:51de gerir a pólise.
00:49:52Não,
00:49:52mas a minha opinião
00:49:53é isso.
00:49:54não sabe diferenciar
00:49:55o fato de opinião,
00:49:56porque a palavra
00:49:57tem uma definição.
00:49:58Não importa o que
00:49:59que ele acha,
00:50:00a definição é aquilo ali
00:50:01e pronto.
00:50:03E as pessoas
00:50:03estão tendo muita
00:50:04dificuldade em lidar
00:50:05com os fatos da vida
00:50:07que são contra elas.
00:50:08Aí eu vejo,
00:50:09por exemplo,
00:50:09esses movimentos
00:50:10que tem de cancelamento,
00:50:13você já foi cancelado,
00:50:15né,
00:50:15super?
00:50:15Sim,
00:50:16sim.
00:50:16Esses movimentos
00:50:18tem justamente a ver
00:50:19com essa recusa.
00:50:20tanto à esquerda
00:50:22quanto à direita,
00:50:23a ciência
00:50:24particularmente
00:50:24virou alvo,
00:50:25porque quando você
00:50:26apresenta o resultado
00:50:27de pesquisa,
00:50:28se aquilo não for
00:50:29considerado benéfico
00:50:30por um grupo,
00:50:31ele vai pra cima
00:50:32de você.
00:50:33E pior, né,
00:50:34poderia ir contra a pesquisa,
00:50:36questionar a metodologia,
00:50:38não,
00:50:38eles vêm pra cima
00:50:39do cientista,
00:50:40né,
00:50:40mate o mensageiro,
00:50:42né,
00:50:42não gostou da mensagem,
00:50:44pegue a tira,
00:50:45né,
00:50:45tipo,
00:50:46atira no pianista,
00:50:47né,
00:50:47não gostou da música,
00:50:48atira,
00:50:49mata o pianista,
00:50:50é a mesma coisa
00:50:51no jornalismo,
00:50:53é a mesma coisa
00:50:54na ciência.
00:50:55Você tem esses movimentos
00:50:56que são populistas,
00:50:58à direita,
00:50:59à esquerda,
00:50:59é absolutamente
00:51:00democrático,
00:51:01em todo o espectro
00:51:03político
00:51:03tem gente
00:51:04cancelando
00:51:05todo mundo.
00:51:06E a coisa comum
00:51:08é não aceitar
00:51:09o princípio
00:51:09de realidade,
00:51:11não lidar
00:51:11com o contraditório.
00:51:13E o que eu acho
00:51:14que talvez tenha
00:51:15de diferença,
00:51:16se é que há,
00:51:17é que historicamente
00:51:18em alguns grupos
00:51:19à direita,
00:51:20não todos,
00:51:20tá,
00:51:21só os extremistas,
00:51:22eles efetivamente
00:51:24impuseram censura,
00:51:25impuseram ditaduras
00:51:27e tal.
00:51:28Na extrema esquerda
00:51:29também,
00:51:29né,
00:51:30mas a esquerda
00:51:31muito frequentemente
00:51:32acha que está lutando
00:51:34pela liberdade de expressão,
00:51:35mas não tem como lutar
00:51:37pela liberdade de expressão
00:51:38fazendo uma campanha
00:51:39contra o que alguém disse,
00:51:41né,
00:51:41você tem que ter
00:51:42um argumento contrário,
00:51:43não a ideia de
00:51:44vou destruir a vida
00:51:45dessa pessoa,
00:51:47é tipo a briga
00:51:47com o amiguinho
00:51:48e que vai lá
00:51:49e bate no amiguinho,
00:51:50não,
00:51:51tem que conversar,
00:51:52né,
00:51:53tá faltando adulto
00:51:54na sala e,
00:51:55e,
00:51:56é uma recusa
00:51:57da realidade,
00:51:59sem dúvida nenhuma
00:52:00tem a ver com isso,
00:52:01império da opinião,
00:52:02vida é tirania,
00:52:02opinião é tirania,
00:52:05não tem,
00:52:05não tem espaço,
00:52:07as pessoas acham,
00:52:08por exemplo,
00:52:08que a autoridade,
00:52:09hoje em dia,
00:52:09virou sinônimo
00:52:10de autoritarismo,
00:52:11mas gente,
00:52:12eu sempre brinco
00:52:13com os estudantes,
00:52:14eu respeito qualquer estudante,
00:52:15o conhecimento que todo mundo
00:52:16traz para a sala de aula,
00:52:18mas eu estudei a vida inteira
00:52:20para dar uma aula,
00:52:21eu entro numa sala de aula,
00:52:23eu não estudei só para dar aquela aula,
00:52:24eu tenho 25 anos
00:52:25de experiência docente,
00:52:27então eu chego ali
00:52:29preparado,
00:52:29e eu estou dando aquela aula
00:52:31com muito,
00:52:32muita dedicação e carinho,
00:52:34se eu fosse para uma aula,
00:52:36e eu chegasse lá,
00:52:37e o professor dissesse,
00:52:38ah, mas me diga você,
00:52:40o que você pensa,
00:52:42gente,
00:52:43eu não queria fazer esse curso,
00:52:45já pensou você pagar
00:52:46para um curso,
00:52:47e você chega lá,
00:52:48e fala,
00:52:48não gente,
00:52:49eu não vou falar nada,
00:52:50porque todo mundo é igual,
00:52:51e eu quero ouvir
00:52:52o que vocês pensam,
00:52:53então tem uma falsa
00:52:54ideologia igualitária,
00:52:56que curiosamente,
00:52:58ela é uma invenção
00:52:59publicitária,
00:53:00vinda do próprio
00:53:01Vale do Silício,
00:53:03então a ideia é assim,
00:53:04todo mundo é igual,
00:53:05e todas as opiniões são,
00:53:07aliás,
00:53:07tudo é opinião,
00:53:08e tudo tem o mesmo valor,
00:53:10bem,
00:53:11não vai dar certo,
00:53:12o calheiro sabe fazer calha
00:53:14melhor do que eu e você,
00:53:16o cara que põe piso,
00:53:19melhor,
00:53:19o cara que é físico,
00:53:21sabe de física,
00:53:22de verdade,
00:53:23né,
00:53:24eu sei de sociologia,
00:53:25o resultado da pesquisa,
00:53:26às vezes,
00:53:27não me agrada,
00:53:28mas eu apresento mesmo assim,
00:53:29porque é a minha profissão,
00:53:30né,
00:53:31como você,
00:53:31vocês têm compromisso com o fato,
00:53:33se o fato desagrada,
00:53:34fazer o que?
00:53:35E tem uma coisa que eu acho que,
00:53:37é,
00:53:37uma coisa que pra mim sempre foi muito presente,
00:53:39pra curar notícia,
00:53:40que é o seguinte,
00:53:41é o tal do véio de confirmação,
00:53:44tem políticos de quem eu gosto,
00:53:46tem políticos que eu odeio,
00:53:48se for alguma coisa,
00:53:50que o político que eu odeio se ferra,
00:53:52eu vou querer muito acreditar,
00:53:54se for uma coisa que o político que eu gosto se dá bem,
00:53:57eu vou querer muito acreditar,
00:53:59então nesses casos,
00:54:00por exemplo,
00:54:00ah,
00:54:01o fulano se ferrou,
00:54:02eu respiro,
00:54:04volto pra trás,
00:54:04eu vou checar aquilo até o fim,
00:54:06pra ver se eu não tô me induzindo,
00:54:09e eu fico surpresa que as pessoas não fazem isso,
00:54:12porque se você,
00:54:13se você se precipitar,
00:54:15quem se ferra é você,
00:54:17não é outra pessoa.
00:54:18Mas é porque nós somos profissionais,
00:54:20a gente estudou pra fazer isso,
00:54:22e pra nós é uma questão de princípio,
00:54:25as pessoas que não param pra pensar,
00:54:27que um jornalista,
00:54:28ou um cientista,
00:54:30é assim,
00:54:31é uma vocação,
00:54:33é uma profissão,
00:54:34e é uma responsabilidade.
00:54:36Então eu não escrevo um texto científico,
00:54:38eu não faço nada no qual eu evoque uma pesquisa,
00:54:42com total cuidado,
00:54:43porque é minha responsabilidade.
00:54:46Agora,
00:54:46a pessoa comum,
00:54:48como audiência,
00:54:49numa rede social,
00:54:50ela não tem esse peso da responsabilidade,
00:54:52aí ela diz que não gosta de você,
00:54:54você tá errado,
00:54:55ou você tá tendenciando,
00:54:57ou você tá defendendo o político tal,
00:54:59e provavelmente a mesma coisa,
00:55:01vai ter gente dos dois lados te acusando.
00:55:03Sim,
00:55:04pra mim sempre tem,
00:55:04que aí eu sei que eu tô certo,
00:55:06porque aí eu tô no caminho certo,
00:55:07quando eu tô me acusando.
00:55:08Mas também tem uma contaminação,
00:55:12ideológica,
00:55:12até muito panfletária,
00:55:15tanto no jornalismo,
00:55:16quanto na universidade.
00:55:17essa contaminação existe,
00:55:19e existe a ponto de,
00:55:21assim,
00:55:22eu tava outro dia falando
00:55:24com o pessoal de Angola,
00:55:25porque eu morei lá,
00:55:27é impressionante que
00:55:28lá é a ditadura mais longeva da África,
00:55:32com o mesmo partido no poder,
00:55:34é uma ditadura ferrenha,
00:55:36que tem manifestação,
00:55:37eles saem dando tiro nas pessoas,
00:55:39só que com os amigos,
00:55:41você pode falar muito mais do que aqui.
00:55:43Então, assim,
00:55:44eu me sinto muito mais cerceada aqui,
00:55:47do que lá que é uma ditadura,
00:55:49porque no meu meio lá,
00:55:50eu consigo falar tudo que eu quiser,
00:55:52eu não preciso ter medo de falar errado,
00:55:54e aqui,
00:55:55qualquer deslize que você faz...
00:55:58Bem,
00:55:58primeiro que você não é de lá,
00:55:59então a gente,
00:56:00dentro de uma ditadura,
00:56:01já também me vi em contextos,
00:56:03que aí eu não grimo e sinto normal,
00:56:06porque eu não tenho que conviver com a urbana.
00:56:09Então, assim,
00:56:09ainda posso falar qualquer coisa,
00:56:11mas tem um outro elemento,
00:56:13eu entendo o que você quer dizer.
00:56:15Eu acho que o controle,
00:56:17o controle sobre o que a gente pode dizer,
00:56:21sobre...
00:56:21Primeiro que eu e você,
00:56:24dadas as devidas proporções,
00:56:25você tem muito mais impacto na opinião pública, né?
00:56:27Eu estou na universidade,
00:56:28ninguém quase me lê,
00:56:30assim,
00:56:30é um circuito especializado, né?
00:56:32Mas mesmo nesse circuito especializado,
00:56:34tem percepções,
00:56:35como você sabe,
00:56:36tem cancelamentos e tal.
00:56:39Nesses contextos especializados,
00:56:41eu acho que tem aquilo que a gente já tinha falado antes,
00:56:45dessa competição.
00:56:47Quando...
00:56:47O que as redes sociais trouxeram é a ideia de que,
00:56:51mesmo que você não tenha estudado,
00:56:54mesmo que você não tenha feito apuração de fato,
00:56:57ou não tenha feito uma pesquisa,
00:56:59pela tua experiência,
00:57:02você pode discordar e acusar o outro de estar mentindo.
00:57:06Mas isso eu já vi também na universidade, gente,
00:57:09com essa história.
00:57:10Como é que é essa história que eles falam?
00:57:12Que é as vivências.
00:57:14Quando vem...
00:57:16Experiência.
00:57:17Você vai viver...
00:57:17Eu já falo...
00:57:18Ah, não.
00:57:19Não.
00:57:20Não.
00:57:20Não.
00:57:21Não.
00:57:21Isso tem a ver com o seguinte.
00:57:23Primeiro, assim,
00:57:24a gente está vivendo num mundo muito complicado,
00:57:27atualmente,
00:57:28que as identidades se tornaram
00:57:30um grande referencial da política.
00:57:31Você que é filha de sindicalista,
00:57:35é da época da esquerda defender trabalhador,
00:57:38e eu sou da época que também a gente tinha
00:57:39uma formação muito forte nessa questão
00:57:41da valorização do trabalho,
00:57:43do salário e tudo.
00:57:44É difícil para a gente entender
00:57:46que essa nova geração
00:57:49perdeu essas referências,
00:57:50mesmo porque mudou a estrutura de trabalho.
00:57:52E toda a mídia e tudo
00:57:55criou essa ideia de que a sua via
00:57:58para se estabelecer no mundo,
00:58:01ter renda, conseguir vaga na universidade,
00:58:03tudo passa por assumir uma identidade.
00:58:06Então, isso é na universidade,
00:58:08então vira essa hipervalorização,
00:58:10e aí também você tem os primos e irmãos,
00:58:13eu brinco que são gêmeos hipófagos.
00:58:16Você tem essa esquerda identitária
00:58:18e você tem a direita identitária
00:58:20que vai contra ela.
00:58:22Mas, na verdade, parece que uma
00:58:23é a cabela eleitoral da outra,
00:58:24porque elas se elegem, né?
00:58:26Sim.
00:58:26As duas se elegem,
00:58:28a extrema direita e essa esquerda identitária.
00:58:31E na universidade,
00:58:33esse marxismo preocupado, por exemplo,
00:58:36com o trabalhador, com a renda que valorizava,
00:58:39temos que ter os pobres na universidade,
00:58:41ele foi muito forte e ele foi perdendo o poder
00:58:44para esse discurso das identidades
00:58:47e, infelizmente, tudo que se generaliza
00:58:51se simplifica, né?
00:58:53Então, tem mesmo,
00:58:54como tem no espaço da opinião pública
00:58:56com vocês jornalistas,
00:58:58também a ideia de que ou é de um lado
00:58:59ou é de outro,
00:59:00se eu não consigo te localizar,
00:59:02eu vou te perseguir.
00:59:04Na universidade, é a mesma coisa.
00:59:06Se você não assumir uma posição,
00:59:09e preferencialmente da maioria, né?
00:59:11Você vai ser atacado em algum momento.
00:59:14Eu acho que vai ter,
00:59:16e já está tendo um ajambramento,
00:59:18assim, a coisa está chegando num limite
00:59:20que não dá.
00:59:21Como a população está cansada
00:59:23de polarização política, né?
00:59:24Tem pesquisas indicando,
00:59:25as pessoas cansam também,
00:59:27porque é muito estressante
00:59:28viver no conflito, né?
00:59:30E, assim,
00:59:32a vida social tem que ser no meio termo.
00:59:34Se você não cria um equilíbrio,
00:59:36não tem quem aguente conviver.
00:59:38A gente precisa conviver,
00:59:40a gente precisa criar laços,
00:59:42gostar das pessoas que pensam
00:59:44diferente da gente,
00:59:45conseguir articular,
00:59:47mesmo porque todas as mudanças sociais,
00:59:50elas passaram por confluências.
00:59:52A gente que lembra da geração
00:59:54do Mário Covas,
00:59:56Fernanda Henrique...
00:59:57Eu cobri Mário Covas
00:59:59no governo do Estado
01:00:01muito tempo,
01:00:02mas o que eu vejo também
01:00:04é que era um...
01:00:05Não era só conciliador,
01:00:07era profundidade de análise
01:00:10e capacidade de ação.
01:00:12Mesmo o Paulo Maluf,
01:00:13que eu cobri muito tempo,
01:00:15que era inimigo figadal do Covas,
01:00:17não sei se as pessoas sabem disso.
01:00:19Vou ver até se eu acho um vídeo
01:00:20falando disso.
01:00:22Ah, é a Júlia Maga,
01:00:23anota aí o vídeo do Liberate
01:00:26lá no negócio que eu falei,
01:00:27mas do Mário Covas e do Maluf.
01:00:30Pouca gente sabe,
01:00:31eles eram inimigos figadais
01:00:32da faculdade.
01:00:34Eles se odiavam na poli.
01:00:36Gente, nem eu sabia disso.
01:00:38É.
01:00:39Eles se odiavam desde lá.
01:00:41Mas os dois tinham
01:00:42uma capacidade de análise,
01:00:46de articulação,
01:00:48e de realização
01:00:50do que eles acreditavam
01:00:51muito grande.
01:00:53O Maluf era mais extremista,
01:00:56jogava muito bem para a massa,
01:00:57mas ele fazia isso pensado.
01:01:01O Covas,
01:01:04eu me lembro das coisas
01:01:05que o Covas falava,
01:01:06quando surgiu essa coisa
01:01:08de negação da política,
01:01:09ele deu uma entrevista e falou assim,
01:01:10eu tenho muito orgulho
01:01:11de ser político
01:01:12e eu não acredito em ninguém
01:01:13que tem vergonha
01:01:14de fazer o que faz.
01:01:16Se ele está falando
01:01:17que tem vergonha
01:01:18de ser político,
01:01:19é que ele quer te dar um golpe.
01:01:20Tenho orgulho
01:01:21de ser político.
01:01:22Não tenho nada
01:01:23de me envergonhar com isso.
01:01:26E sou um político
01:01:27que aprendi com o povo.
01:01:28Por isso sou candidato.
01:01:29Foi com esse povo
01:01:30que eu aprendi
01:01:31que ele prefere
01:01:33muitas vezes
01:01:34um não discutido
01:01:35do que um sim
01:01:36que ele sabe
01:01:37que não vai ser cumprido.
01:01:38Sou candidato
01:01:39porque tenho
01:01:40a humildade necessária
01:01:41para saber que o poder
01:01:43não tem outro significado
01:01:44a não ser
01:01:45meio
01:01:46para justificar
01:01:48e dar vazão
01:01:49aos compromissos
01:01:50de natureza popular.
01:01:51Por isso sou candidato.
01:01:53Não, e a maioria
01:01:54que se diz antipolítico
01:01:55tem 30 anos
01:01:56nas costas de política
01:01:57e normalmente
01:01:58as pessoas elegem
01:01:59essas pessoas.
01:02:00É fascinante
01:02:01como o discurso
01:02:02diz eles são todos ruins
01:02:03mas vote em mim.
01:02:05Então, mas assim...
01:02:06Então, eu não consigo entender.
01:02:08A pessoa vê isso.
01:02:10Tipo, o cara
01:02:11ele é o antipolítica
01:02:12e ele vive de política.
01:02:14A família vive de política.
01:02:15Eu não estou falando
01:02:16de uma pessoa específica
01:02:17mas de várias
01:02:18no nível federal
01:02:20no nível estadual
01:02:21no nível municipal
01:02:22é um discursinho
01:02:23que sempre teve.
01:02:24Que é a tal
01:02:25da dissonância cognitiva.
01:02:27Por que as pessoas
01:02:28veem alguém
01:02:29falando uma coisa
01:02:30e fazendo outra
01:02:31e não agem?
01:02:33Olha, aí
01:02:34a gente assim...
01:02:36Primeiro que política
01:02:37você sabe que
01:02:38uma em cada cinco pessoas
01:02:40no Brasil
01:02:40se interessa por política.
01:02:41só.
01:02:42Então, a maior parte
01:02:44das pessoas votam
01:02:45sem pensar muito.
01:02:45E está todo mundo gritando
01:02:46por quê, Richard?
01:02:47Você é um em cada cinco?
01:02:48Mas a gente está
01:02:49naquela bolha
01:02:50dos 20%
01:02:51desse um em cada cinco
01:02:52que fica brigando.
01:02:53Né?
01:02:54Entendeu?
01:02:55Entendi.
01:02:55Que fica brigando.
01:02:56Mas a maior parte
01:02:57da população
01:02:59não tem tempo
01:02:59para isso.
01:03:00Tem que trabalhar,
01:03:01ralar
01:03:01e aí as vésperas
01:03:03da eleição
01:03:03vai ter condições
01:03:04de assistir
01:03:05a propaganda eleitoral
01:03:05gratuita
01:03:06e vota com muita
01:03:07sabedoria
01:03:08da sua forma.
01:03:09Gostou, não gostou
01:03:10do resultado eleitoral?
01:03:11É o que tem
01:03:12para hoje.
01:03:13As pessoas reclamam
01:03:14ou falam
01:03:14Ah, mas você elege
01:03:15a direita, você elege
01:03:16a esquerda.
01:03:16O Brasil é uma coisa
01:03:17tão curiosa
01:03:18que se para para pensar
01:03:19você tem governos
01:03:20às vezes majoritários
01:03:22de esquerda
01:03:23e o congresso
01:03:25de direita.
01:03:27Aí fala
01:03:27Mas que contraditório
01:03:29tudo.
01:03:29Não, pode ser
01:03:30que a nossa sociedade
01:03:30seja assim
01:03:31e encontrou
01:03:32o equilíbrio
01:03:32desse jeito.
01:03:33Elege o cara
01:03:34de esquerda
01:03:35para o cargo majoritário
01:03:36e elege o congresso
01:03:38de direita
01:03:39ou o contrário.
01:03:40Cada sociedade
01:03:41é uma sociedade
01:03:42não tem que ter
01:03:43necessariamente lógica
01:03:44e a democracia
01:03:46é necessariamente
01:03:47um regime
01:03:49de muito conflito.
01:03:51Não precisa ser radicalizado
01:03:53como atualmente
01:03:54mas não tem consenso
01:03:56e essa é a magia
01:03:57da democracia
01:03:58poder discutir
01:03:59e discordar.
01:03:59Quando todo mundo
01:04:00diz que está tudo bem
01:04:01cuidado
01:04:02você está dentro
01:04:03de uma ditadura.
01:04:04É importante
01:04:05que as pessoas
01:04:06possam discordar
01:04:07e tudo mais.
01:04:08É que é cansativo.
01:04:10Imagino para você
01:04:11jornalistas
01:04:11ainda nesses últimos
01:04:12dez anos
01:04:13que foram particularmente
01:04:14muito tensos.
01:04:16Para a gente
01:04:17na universidade
01:04:18também muito difícil
01:04:19muito cansativo.
01:04:20Ainda mais sociólogo
01:04:21no meu caso.
01:04:23Talvez na física
01:04:24não tenha chegado
01:04:25tanto.
01:04:26Mas sociólogo
01:04:27cientista político
01:04:28a gente foi muito
01:04:29eu fiz pesquisa
01:04:30sobre polarização política
01:04:32eu participei
01:04:32de uma pesquisa internacional
01:04:33e uma coisa
01:04:35que eu aprendi
01:04:36fazendo grupos
01:04:37focais
01:04:37com as pessoas
01:04:38que votavam
01:04:39à esquerda
01:04:39ou na extrema direita
01:04:40é que na verdade
01:04:42elas eram
01:04:42muito mais
01:04:44complexas
01:04:45do que apareciam
01:04:46nas redes sociais
01:04:47ou até mesmo
01:04:48no jornalismo.
01:04:49Sabe
01:04:49a pessoa vota
01:04:51na extrema direita
01:04:52ela não é necessariamente
01:04:53uma pessoa
01:04:54hiper religiosa
01:04:55ou preconceituosa.
01:04:57Tinha pessoa
01:04:58que votava
01:04:58na esquerda
01:04:59e era preconceituosa
01:05:00tinha gente
01:05:01que votava
01:05:01na direita
01:05:02e era incrivelmente
01:05:03liberal
01:05:05acontece
01:05:06e por isso que eu te falo
01:05:07que os dados
01:05:07de pesquisa
01:05:08pesquisa mesmo
01:05:10primeiro que a sociedade
01:05:11não é essa
01:05:12essa gritaria
01:05:13que a gente vê
01:05:14nas redes sociais
01:05:14ela é outra coisa
01:05:16segundo que o resultado
01:05:17de pesquisa
01:05:18ele é contra intuitivo
01:05:19não é o que você
01:05:20está vendo
01:05:20na rede social
01:05:21e às vezes
01:05:22nem o que aparece
01:05:22no jornal
01:05:24nem o que aparece
01:05:24no jornal
01:05:25então é fascinante
01:05:26bem, eu sou sociólogo
01:05:27eu gosto disso
01:05:28senão eu não estaria
01:05:29nessa profissão
01:05:29seria outra coisa
01:05:30aliás eu sou economista
01:05:31podia estar atuando
01:05:32na economia
01:05:32mas ele é sociólogo
01:05:34que eu acho
01:05:34fascinante ver
01:05:35como o que
01:05:37coletivamente
01:05:38a gente é
01:05:39é sempre mais
01:05:42complexo
01:05:42do que o nosso
01:05:43círculo individual
01:05:44os nossos amigos
01:05:45e tudo
01:05:46a sociedade é muito maior
01:05:47do que a vida
01:05:48que a gente conhece
01:05:49nas nossas
01:05:51relações cotidianas
01:05:52
01:05:52e ela pode ser
01:05:54assim
01:05:54algo que você fala
01:05:55mas por que
01:05:55que dá nisso
01:05:56bem
01:05:57a gente faz pesquisa
01:05:58justamente pra entender
01:05:59mas o que eu posso
01:06:00te dizer
01:06:00é que geralmente
01:06:01quando a gente
01:06:02descobre as razões
01:06:03é fascinante ver
01:06:04como principalmente
01:06:06mesmo no Brasil
01:06:07um país
01:06:07com maior parte
01:06:08da população
01:06:09com tanta dificuldade
01:06:10com baixo nível
01:06:11educacional
01:06:12com renda
01:06:13muito baixa
01:06:14com tudo isso
01:06:15como é uma população
01:06:17sábia
01:06:17sabe
01:06:18é fascinante
01:06:20é muito inteligente
01:06:21nas suas decisões
01:06:22cotidianas
01:06:23em relação
01:06:23às questões
01:06:25básicas
01:06:25da vida
01:06:26inclusive
01:06:27na hora
01:06:28de votar
01:06:28também
01:06:29
01:06:29e a gente
01:06:31agora
01:06:31vai acrescentar
01:06:32mais uma camada
01:06:33com a inteligência
01:06:35artificial
01:06:37e aí
01:06:38tem um monte
01:06:38de gente
01:06:39com medo
01:06:39de perder
01:06:40emprego
01:06:40na área
01:06:41do jornalismo
01:06:41tem muita
01:06:42gente
01:06:42com medo
01:06:44e
01:06:45enfim
01:06:47agora vai se
01:06:48dividir o mundo
01:06:49entre quem aprendeu
01:06:50a usar a inteligência
01:06:51artificial
01:06:52e quem não
01:06:52
01:06:52porque é nova
01:06:53tecnologia
01:06:54agora
01:06:54então
01:06:55eu diria assim
01:06:57primeiro
01:06:57eu não sou
01:06:58tecnofóbico
01:06:58eu acho ótimo
01:06:59que as pessoas
01:07:00usem todas
01:07:01as tecnologias
01:07:01que existem
01:07:02não sou contra
01:07:03não
01:07:03mas eu sou cético
01:07:05porque como eu estudo
01:07:06isso há décadas
01:07:07eu te diria
01:07:08que hoje em dia
01:07:09essas críticas
01:07:10a e a
01:07:10lembram muito
01:07:11quando descobriram
01:07:12os algoritmos
01:07:13na década
01:07:14de 2010
01:07:14quando chega
01:07:15o que acontece
01:07:16na década
01:07:17de 2010
01:07:18foi quando
01:07:19as pessoas
01:07:19efetivamente
01:07:20ficaram conectadas
01:07:21tem dados
01:07:22variam de país
01:07:23para país
01:07:24o Brasil
01:07:24foi 2014
01:07:26segundo o IBGE
01:07:27aqui em São Paulo
01:07:28antes
01:07:28mas no Brasil
01:07:29como um todo
01:07:292014
01:07:30foi quando
01:07:31a maior parte
01:07:32da população brasileira
01:07:34se tornou
01:07:34conectada
01:07:35o tempo todo
01:07:36pelas redes
01:07:37e tal
01:07:37
01:07:38estava todo mundo
01:07:39nas redes sociais
01:07:40descobriram
01:07:41que elas não faziam
01:07:42só o que queriam
01:07:43que tinha o algoritmo
01:07:44que na verdade
01:07:45o que você achava
01:07:46que você gostava
01:07:47na verdade
01:07:47é que você estava
01:07:48sendo guiado
01:07:48ali dentro
01:07:49
01:07:49e na década
01:07:50de 2020
01:07:52descobriram
01:07:52a inteligência artificial
01:07:54que é basicamente
01:07:56entre os seus elementos
01:07:57tem um algoritmo
01:07:58também
01:07:58primeiro que
01:07:59inteligência artificial
01:08:00a gente tem que discutir
01:08:02o que que está sendo
01:08:03chamado de inteligência
01:08:05você lembra daquele papo
01:08:06de internet
01:08:061.0
01:08:082.0
01:08:096.0
01:08:10eu nunca entendi
01:08:10o que que era aquilo
01:08:11fez bem
01:08:12porque não é nada
01:08:13não que entendi
01:08:13era tudo propaganda
01:08:14não as pessoas falavam
01:08:16e eu falava
01:08:17mas tá
01:08:17o que que isso tem
01:08:18de diferente
01:08:19sabe carro 1.0
01:08:201.2
01:08:211.3
01:08:22é estratégia de marketing
01:08:23mas efetivamente
01:08:25por exemplo
01:08:26inteligência artificial
01:08:27tudo bem
01:08:28eu conheço as ferramentas
01:08:30e tal
01:08:30
01:08:32efetivamente
01:08:33não é nada
01:08:34de excepcional
01:08:35primeiro que não é
01:08:35inteligência
01:08:36você é bem radical
01:08:37não é inteligência
01:08:38e não é artificial
01:08:39por quê?
01:08:40inteligência
01:08:41é um conceito humano
01:08:42o que que é inteligência?
01:08:44pra ter inteligência
01:08:45você tem que ter corpo
01:08:46você tem que ter sensibilidade
01:08:48você tem que ter
01:08:49intersubjetividade
01:08:50eu tô aqui conversando
01:08:51com você
01:08:52ou quem tá vendo
01:08:53a gente assistindo
01:08:54e ouvindo a gente
01:08:55ela tá tendo ideias
01:08:57isso tem a ver
01:08:58com uma experiência
01:08:59profundamente humana
01:09:01a inteligência artificial
01:09:03é um golpe de marketing
01:09:06digamos assim
01:09:06de pra uma nova tecnologia
01:09:08que nem é tão nova assim
01:09:10eles chamarem de inteligência
01:09:12automação
01:09:13e chamar de artificial
01:09:15o que não tem nada
01:09:16de artificial
01:09:17porque até a nuvem
01:09:18ela é física
01:09:19no sentido de que
01:09:20você tem um data center
01:09:21lá no meio do deserto
01:09:26consumindo toneladas de água
01:09:28pra esfriar o negócio
01:09:29com um monte de trabalhador
01:09:31imigrante mexicano
01:09:32sofrendo em volta
01:09:34daquele negócio
01:09:34
01:09:35então assim
01:09:36a inteligência artificial
01:09:37ela não é inteligência
01:09:39no sentido humano
01:09:40a não ser que você comece
01:09:41a tratar o seu celular
01:09:43o computador
01:09:43como se fosse
01:09:44um outro ser humano
01:09:45
01:09:45mas tem gente fazendo isso
01:09:47tem gente fazendo isso
01:09:48mas essa antropomorfização
01:09:50aí do equipamento
01:09:51é discutida
01:09:52
01:09:52a gente é da época
01:09:53que falasse a pessoa
01:09:54
01:09:55
01:09:55
01:09:56então
01:09:57não é
01:09:59inteligência
01:10:00e não é artificial
01:10:01porque toda a base
01:10:03dessa
01:10:03do que eles estão
01:10:04chamando de inteligência
01:10:05artificial
01:10:05ela é baseada
01:10:07em data centers
01:10:08enormes
01:10:08que consomem
01:10:09uma quantidade
01:10:10inacreditável
01:10:10de energia
01:10:11de água
01:10:12de recursos naturais
01:10:13tem toda uma cadeia
01:10:15de trabalho
01:10:15por trás
01:10:16que eu e você
01:10:16não vemos
01:10:17mas um monte
01:10:18de trabalhador
01:10:18pobre
01:10:19sendo explorado
01:10:20pra manter
01:10:20aquilo lá
01:10:21funcionando
01:10:21caminhões
01:10:22e a estrutura
01:10:24tem gente construindo
01:10:25aquilo é físico
01:10:26
01:10:26aquilo é físico
01:10:27e o que ela faz
01:10:29ela automatiza
01:10:30coisas
01:10:31talvez de uma maneira
01:10:32um pouco mais sofisticada
01:10:33do que no começo
01:10:34da internet
01:10:35a internet
01:10:36ela foi ficando
01:10:36cada vez mais fácil
01:10:38pro usuário comum
01:10:39inteligência artificial
01:10:40é a evolução
01:10:41disso
01:10:42
01:10:42ela adota
01:10:44características
01:10:44dos algoritmos
01:10:45da década
01:10:46de 2010
01:10:47ela tem
01:10:48é claro
01:10:48ela aprimora
01:10:50o machine learning
01:10:51
01:10:51mas ela é baseada
01:10:53numa utopia
01:10:53de engenharia
01:10:54que pra nós
01:10:55sociólogos
01:10:55é engraçado
01:10:56que lembrando
01:10:5760
01:10:58sabe aquele sonho
01:10:59do futuro
01:10:59meio Brasília
01:11:00Jetsons e tal
01:11:01de que as máquinas
01:11:04tomariam
01:11:05um lugar
01:11:05do trabalho humano
01:11:06meio Jetsons
01:11:07ou até Flintstones
01:11:09
01:11:09tipo assim
01:11:10a ideia
01:11:10é que você vai
01:11:11deixar o seu trabalho
01:11:12pra uma outra coisa
01:11:13quem usufrui disso
01:11:15nós
01:11:16jornalistas
01:11:18professores universitários
01:11:19quem tem esses trabalhos
01:11:20mais intelectuais
01:11:21fazem uso dessas
01:11:23ferramentas
01:11:23e às vezes até bom
01:11:24só que assim
01:11:25a maior parte da população
01:11:28essa inteligência artificial
01:11:29vai tomar o trabalho
01:11:30delas
01:11:30porque obviamente
01:11:31o atendente de marketing
01:11:33que já foi substituído
01:11:34por aquele sistema
01:11:35eletrônico
01:11:36se tem alguém
01:11:37ainda ali
01:11:37vai ser substituído
01:11:38por outro
01:11:39sistema eletrônico
01:11:40não é exemplo
01:11:41eu fiz um
01:11:42algoritmo
01:11:44no
01:11:45chat
01:11:46GPT
01:11:46porque eu tinha
01:11:48um problema
01:11:48de pessoas
01:11:49responderem
01:11:49pra alunos
01:11:51e mentorados
01:11:52então a pessoa
01:11:53esquecia
01:11:53a pessoa isso
01:11:54a pessoa aquilo
01:11:54eu que não sei
01:11:56programar
01:11:56eu direcionei
01:11:58pra ele
01:11:58ele fez o algoritmo
01:11:59eu botei em Python
01:12:01nas minhas tabelas
01:12:02a minha tabela
01:12:03responde sozinha
01:12:04as pessoas agora
01:12:05então
01:12:05a inteligência artificial
01:12:07de uma forma simplificada
01:12:08é isso
01:12:09é isso
01:12:10é isso
01:12:10mas por exemplo
01:12:12o que eu te digo
01:12:12de saber usar ou não
01:12:13tem muitos colegas
01:12:14jornalistas
01:12:15usando inteligência artificial
01:12:17pra escrever os textos
01:12:18eu estudo muito
01:12:20você sabe
01:12:20padrões de linguagem
01:12:22o padrão de linguagem
01:12:23por trás do discurso
01:12:24o que ele revela
01:12:25da pessoa
01:12:26eu sou muito nisso
01:12:27eu já leio
01:12:29eu já sei
01:12:30qual texto é de A
01:12:30qual não é
01:12:31sim
01:12:32porque eles dizem
01:12:33eu já vi palestras
01:12:35de especialistas
01:12:36engenheiros
01:12:37do Vale do Silício
01:12:38e tudo
01:12:39e eles
01:12:39tem muito orgulho
01:12:41de que eles copiam
01:12:42redes neurais
01:12:43e tudo mais
01:12:44quer dizer
01:12:44eles usam analogias
01:12:46com a forma
01:12:47do funcionamento
01:12:48do cérebro humano
01:12:49mas efetivamente
01:12:50o que eles estão
01:12:50construindo
01:12:51é computação
01:12:52gente
01:12:52esse tema
01:12:53é prévio
01:12:53ao computador
01:12:54eram mulheres
01:12:55que faziam esse trabalho
01:12:56elas ficavam fazendo
01:12:57aqueles cartões
01:12:58e aí os computadores
01:13:00eles eram mecânicos
01:13:02até a gente chegar agora
01:13:04mas efetivamente
01:13:06o que está sendo feito
01:13:08é a automatização
01:13:09de alguns procedimentos
01:13:10e como eles se baseiam
01:13:12base no que?
01:13:13em mais e mais dados
01:13:16no fundo
01:13:17a inteligência artificial
01:13:19ela tem de novidade
01:13:21uma coisa quantitativa
01:13:22
01:13:23eu estou simplificando
01:13:23para o grande público
01:13:24é um pouco mais complexo
01:13:25que isso
01:13:26mas efetivamente
01:13:27se antes eles tinham
01:13:28uma base de dados
01:13:30de um milhão de dados
01:13:31agora eles têm trilhões
01:13:32de dados
01:13:33então a probabilidade
01:13:35de você pedir
01:13:36alguma coisa
01:13:36para um programa
01:13:37e ele conseguir
01:13:39te dar uma resposta
01:13:40mais próxima
01:13:41do aceitável
01:13:43aumentou
01:13:44porque a base
01:13:44de dados aumentou
01:13:45só que tem problemas
01:13:47éticos
01:13:47de onde vem
01:13:48esses dados?
01:13:49porque a extração
01:13:50de dados
01:13:51já é um problema
01:13:52eu tenho horror
01:13:53nesse termo
01:13:54mineração de dados
01:13:55porque evoca
01:13:56a ideia de minério
01:13:57
01:13:57então assim
01:13:58é tipo como se fosse
01:13:59uma coisa natural
01:14:00que tivesse lá
01:14:00para você descobrir
01:14:01igual ao ouro
01:14:02todas as corridas
01:14:04do ouro
01:14:04envolveram
01:14:05faroeste
01:14:07exploração
01:14:07dos mais pobres
01:14:08assassinatos
01:14:09tudo de ruim
01:14:11
01:14:11então o data mining
01:14:13
01:14:13o data mining
01:14:14é basicamente
01:14:15roubo de dados
01:14:16por exemplo
01:14:17tem questões éticas
01:14:18já é injusto
01:14:19que tirem
01:14:20os nossos dados
01:14:21quando a gente
01:14:21está navegando
01:14:22mas e das crianças?
01:14:25eu te digo
01:14:25não é mais absurdo ainda?
01:14:27quer dizer
01:14:28tem limites éticos
01:14:30que a nossa sociedade
01:14:31está começando
01:14:32a descobrir agora
01:14:33e que
01:14:34essas ideias
01:14:35de machine learning
01:14:36de inteligência artificial
01:14:38elas tentam apagar
01:14:39do discurso
01:14:40alguns falam
01:14:41não
01:14:41mas a gente vai ter
01:14:42uma preocupação ética
01:14:44e não sei o que lá
01:14:45é mas o banco
01:14:46está lá
01:14:47já foi construído
01:14:48já foi extraído
01:14:49dessas pessoas
01:14:49elas vão voltar atrás
01:14:51e vão revisar
01:14:51esse banco
01:14:52e quando você fala
01:14:53mas ainda não é
01:14:54tão boa
01:14:55é como se fosse
01:14:56aprimorar e melhorar
01:14:58não
01:14:58a lógica em si
01:15:00é mecânica
01:15:01e automatizadora
01:15:02como você escreve
01:15:03muito bem
01:15:04se você usar
01:15:05inteligência artificial
01:15:06o que ele vai te dar
01:15:08de resultado
01:15:08vai ser incrivelmente
01:15:10melhor do que
01:15:1095%
01:15:1299% das pessoas
01:15:13agora se a pessoa
01:15:14não consegue
01:15:15redigir
01:15:16o que ele vai oferecer
01:15:17para ela
01:15:18é aquilo que você olha
01:15:19e fala
01:15:19isso aqui
01:15:20é inteligência artificial
01:15:21
01:15:22e nós
01:15:23sabe o que tem
01:15:23acontecido
01:15:24que eu acho
01:15:25fascinante
01:15:25como o futuro
01:15:26repete passado
01:15:27e como a tecnologia
01:15:28nos traz de volta
01:15:29ao analógico
01:15:30eu tenho até essa brincadeira
01:15:31o futuro
01:15:32será analógico
01:15:33
01:15:35eu especialista
01:15:36em sociologia digital
01:15:37dizendo que o futuro
01:15:38será analógico
01:15:40mas desde que
01:15:41passou a ter essas
01:15:42tecnologias
01:15:43tipo chat GPT
01:15:44de 22
01:15:45para cá
01:15:45meus colegas
01:15:47na universidade
01:15:47não podem mais
01:15:48dar trabalho em casa
01:15:49a gente voltou
01:15:50para a prova
01:15:51porque como você
01:15:52vai ter controle
01:15:53você pede trabalhos
01:15:55os trabalhos
01:15:56vêm todos
01:15:57duvidosos
01:15:58se não tem como
01:15:59comprovar
01:15:59não é como antes
01:16:00a história do plágio
01:16:01tinha um software
01:16:02de plágio
01:16:03o de inteligência artificial
01:16:04sempre fica
01:16:05uma dúvida
01:16:06então na dúvida
01:16:07voltou para a sala
01:16:08de aula fazendo
01:16:09prova
01:16:10com a mão
01:16:11entendeu
01:16:11redigindo
01:16:12é muito engraçado
01:16:14que você está
01:16:15com a tecnologia
01:16:15supostamente mais avançada
01:16:17você é obrigado
01:16:18a pegar o lápis
01:16:19e a borracha
01:16:20e o papel
01:16:21então eu tenho
01:16:23essa visão
01:16:24de que
01:16:25é um
01:16:26exagero
01:16:27nos medos
01:16:28com relação a
01:16:28EA
01:16:29exagero
01:16:30nas expectativas
01:16:31a realidade
01:16:32vai estar
01:16:32sempre no meio
01:16:33mas ela não é
01:16:35tudo isso
01:16:36e não será
01:16:36ela infelizmente
01:16:38tem o potencial
01:16:39como todas
01:16:40as automatizações
01:16:41de tirar
01:16:42empregos
01:16:43repetitivos
01:16:44então empregos
01:16:45mais simples
01:16:46ou tarefas
01:16:47mais simples
01:16:47ela vai poder assumir
01:16:48mas ela é basicamente
01:16:50um programa melhorado
01:16:51no caso
01:16:52por exemplo
01:16:53no jornalismo
01:16:54aí eu tenho uma coisa
01:16:55que eu acho que ela vai eliminar
01:16:57a famosa matéria fria
01:16:58que tinha aquela coisa
01:17:00dos jornais
01:17:01mercado financeiro
01:17:02jogo de futebol
01:17:05a matéria que você prepara
01:17:07a matéria
01:17:07dica cultural
01:17:08isso aí
01:17:09reportagem de viagem
01:17:10reportagem de viagem
01:17:12isso aí tudo
01:17:12
01:17:13aí ela pode fazer
01:17:14mas a qualidade
01:17:15é sempre duvidosa
01:17:17se pode servir
01:17:18para um certo público
01:17:19o mais exigente
01:17:21não vai ficar satisfeito
01:17:23com aquilo
01:17:23não vai
01:17:24entendeu
01:17:24e como você
01:17:25naquela sua prestação
01:17:26de serviço
01:17:28que tem que explicar
01:17:29para as pessoas
01:17:30isso daqui é
01:17:30e ah
01:17:31tem um segmento
01:17:33que nunca vai cair
01:17:34naquilo
01:17:34entendeu
01:17:34pode enganar
01:17:35algumas pessoas
01:17:36mas outras não
01:17:37então
01:17:38é muito engraçado
01:17:39que a tecnologia
01:17:40ela até hoje
01:17:42ela evoca
01:17:43essas coisas
01:17:44o medo de que
01:17:45as máquinas vão
01:17:45dominar o mundo
01:17:46uma coisa meio
01:17:47age well
01:17:48
01:17:48voltar para
01:17:49coisas assim
01:17:50de ficção científica
01:17:51
01:17:52ou
01:17:53essa expectativa
01:17:54talvez positiva
01:17:55mas sempre frustrada
01:17:57de que
01:17:57vai ter alguma máquina
01:17:59algum software
01:17:59que vai fazer o trabalho
01:18:00para a gente
01:18:01vai nos tornar
01:18:02mais produtivos
01:18:03pensa que a lógica
01:18:05no fundo
01:18:05é benéfica
01:18:06a empresa
01:18:07instituição
01:18:08não a nossa vida
01:18:09porque
01:18:10a qualidade
01:18:12da coisa
01:18:13não vai ser
01:18:14tempo
01:18:15isso daí
01:18:15economiza tempo
01:18:17do trabalho
01:18:18faz a gente
01:18:19fazer mais coisas
01:18:20mas quem disse
01:18:21que mais é melhor
01:18:22exato
01:18:23Richard
01:18:24você vê
01:18:24num futuro próximo
01:18:26assim
01:18:26falando agora
01:18:27para a gente encerrar
01:18:28para as pessoas
01:18:29que estão agoniadas
01:18:30que estão vendo
01:18:32muita gritaria
01:18:33e ficando
01:18:35desesperançosas
01:18:36que vem o caos
01:18:38político
01:18:38porque nós
01:18:39efetivamente
01:18:39temos um caos
01:18:40político
01:18:40não só no Brasil
01:18:41parece que o caos
01:18:43político
01:18:44se instaurou
01:18:45as autocracias
01:18:46estão voltando
01:18:47e as pessoas
01:18:49muito loucas
01:18:50e muito censoras
01:18:51e muito gritando
01:18:54como que essas pessoas
01:18:55fazem
01:18:56para enxergar
01:18:58a régua do mundo
01:18:59como ela é
01:19:00de ciclos
01:19:01de idas
01:19:01de vindas
01:19:02como que você se organiza
01:19:03socialmente
01:19:04para isso
01:19:04olha
01:19:05bem
01:19:06se eu tivesse a resposta
01:19:07eu vendia
01:19:08e ficava milionária
01:19:09mas
01:19:10o que eu te diria
01:19:12é que
01:19:12primeiro
01:19:13não está assim
01:19:13no mundo inteiro
01:19:14infelizmente
01:19:15o Brasil
01:19:16é um dos países
01:19:17onde isso está
01:19:17mais quente
01:19:18e tem a ver
01:19:19com o fato
01:19:20que também tem
01:19:22o seu lado bom
01:19:22de que o Brasil
01:19:23faz parte
01:19:24da vanguarda
01:19:25do mundo
01:19:26
01:19:26se
01:19:27assim
01:19:28os países
01:19:28que estão
01:19:29sem
01:19:29esses problemas
01:19:30é porque
01:19:31estão
01:19:32diminuindo
01:19:33perdendo importância
01:19:34global
01:19:35então
01:19:36a gente
01:19:36está passando
01:19:37por um período
01:19:38de transformação
01:19:39incrivelmente
01:19:40profundo
01:19:40como poucas vezes
01:19:41na história
01:19:42da humanidade
01:19:43não é à toa
01:19:44que surge muito
01:19:45esse tipo de comparação
01:19:46com os anos 30
01:19:47e que infelizmente
01:19:48gerou autoritarismos
01:19:49tenebrosos
01:19:50à esquerda
01:19:51e à direita
01:19:52fascismo
01:19:53estalinismo
01:19:54e tal
01:19:54mas
01:19:55e tem um recorte
01:19:57geracional
01:19:58por exemplo
01:19:58a coisa dos cancelamentos
01:19:59tem muito a ver
01:20:00com o fato
01:20:01de que a nossa geração
01:20:03ela
01:20:03conhece o mundo
01:20:04antes dessas
01:20:05transformações
01:20:06e é a última
01:20:07que tem essa memória
01:20:09as novas gerações
01:20:10não vão lembrar
01:20:11o que era antes
01:20:12
01:20:12então
01:20:13esse processo
01:20:14é sempre doloroso
01:20:15é aquela história
01:20:16
01:20:16
01:20:17do Gramsci
01:20:18que
01:20:18você tem esse contexto
01:20:20em que o novo
01:20:21ainda não nasceu
01:20:22
01:20:23e você tem
01:20:24o velho
01:20:25está morrendo
01:20:26e aí
01:20:27é um dos momentos
01:20:28mais dramáticos
01:20:29mas
01:20:30a gente está vivo
01:20:31
01:20:32pensa que os nossos
01:20:32antepassados
01:20:33pegaram aquele navio
01:20:34há 100 anos atrás
01:20:35
01:20:36eles eram de países
01:20:38destruídos pela guerra
01:20:39perseguidos
01:20:40por questões éticas
01:20:42religiosas
01:20:43assassinaram
01:20:44mataram
01:20:44se a gente for atrás
01:20:46dos nossos antepassados
01:20:48não falta tragédia
01:20:49a gente sobreviveu
01:20:50a gente vai encontrar
01:20:51meios
01:20:52de fazer isso
01:20:54
01:20:54e
01:20:55e a gente espera
01:20:56que para melhor
01:20:57Richard
01:20:58muito obrigada
01:20:59muito obrigada
01:21:00foi demais
01:21:01mas
01:21:01vocês conheceram
01:21:03aqui
01:21:03o Richard
01:21:04Miscolce
01:21:05mostrando aí
01:21:06vocês veem
01:21:07gente
01:21:07o conhecimento
01:21:09científico
01:21:10ele é orientado
01:21:11para a sociedade
01:21:11quanta coisa
01:21:13que a gente imagina
01:21:14que ninguém está
01:21:14olhando
01:21:15que está sendo
01:21:16cuidado
01:21:16no ambiente científico
01:21:17no ambiente
01:21:18da universidade
01:21:19esse aqui
01:21:20é o lado
01:21:20ar
01:21:21você tem um compromisso
01:21:22comigo
01:21:22toda quarta-feira
01:21:238 horas da noite
01:21:24eu quero você aqui
01:21:25porque você vai
01:21:26conhecer uma pessoa
01:21:28diferente
01:21:29que vai te abrir
01:21:30o olhar
01:21:31que vai te trazer
01:21:32novidades
01:21:33cada semana
01:21:34um novo convidado
01:21:35não esqueça de me acompanhar
01:21:37diariamente
01:21:37aqui também
01:21:38no narrativas
01:21:39antagonista
01:21:40às 5 horas da tarde
01:21:42beijo para vocês
01:21:43até mais
01:21:44que conversa boa né
01:21:45e na semana que vem
01:21:47nós vamos receber
01:21:48Edson Aram
01:21:50um jornalista
01:21:51com grandes histórias
01:21:53nos vemos
01:21:54quarta-feira que vem
01:21:55às 8 horas da noite
01:21:57até lá
01:22:21oi
01:22:21o alguém
01:22:22vai te dar
01:22:22ou
01:22:24ou
01:22:26ou
01:22:27ou
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