- há 2 dias
Categoria
😹
DiversãoTranscrição
00:00num lugar como aquele...
00:01Não, foi exatamente isso que eu vi, mamãe? Foi?
00:04Foi, meu filho. Foi exatamente isso que você ouviu.
00:08E você acha isso um pedido razoável, sensato, civilizado?
00:11Você acha que isso é uma coisa de uma pessoa normal?
00:16Sensata, civilizada, dá um terreno como aquele de mão beijada
00:19pra construir casas por os mortos e fome que eu nem sei que existe?
00:23Minha filha, você é bom.
00:26E você vai me mostrar que é.
00:28Olha, você vai doar esse terreno, sim, Gustavo, de mão beijada, sim, e agora?
00:34Eu não quero ser pessimista, Úrsula, mas eu duvido.
00:38Que o Gustavo doe o terreno?
00:40É.
00:41Seu sobrinho, eu gosto dele, ele tem muitas qualidades.
00:46Mas generosidade, francamente, eu nunca notei.
00:49Ai, Evandro, vamos torcer.
00:52Porque, olha, eu tô louca pra resolver esse assunto.
00:55Eu, só de pensar, naquele mundo de gente, amontoado numa quadra de basquete, olha, eu perco o sono à noite.
01:05Mas eu não vou dar terreno de jeito nenhum, de jeito nenhum.
01:08Não, você só pode estar falando da boca pra fora, porque no fundo do seu coração...
01:12Mamãe, você tá completamente louca.
01:14Filho, solidariedade.
01:17Você é bom, que eu sei.
01:19Quando você era pequeno, você dava seus brinquedos com a maior boa vontade...
01:23...pros crianças pobres, pros filhos dos nossos empregados.
01:26Eu me lembro que eu ficava toda orgulhosa.
01:29Você não pode ter mudado tanto assim.
01:31Mas, mamãe, é diferente.
01:32A gente tá falando de um terreno, de um pedaço de terra que eu vou herdar dos meus avós.
01:37E vai esperar valorizar pra quê?
01:40Vai acrescentar tão pouco?
01:43Gustavo, meu filho, seu pai e eu acumulamos um patrimônio que um dia vai ser seu, só seu.
01:50Um patrimônio imenso.
01:53Será, meu filho?
01:55Será que você não vai se sentir um pouco mais feliz?
01:59Que você não vai se sentir mais em paz com a vida?
02:03Doando esse um terreno pra essa gente que tá precisando tanto?
02:08Mamãe, você quer saber?
02:09Eu vou me sentir um idiota.
02:11Oh, Deus.
02:12Eu não entendo.
02:13Você nunca ligou pra dinheiro?
02:15Nunca foi de guardar?
02:16Que seu pai, inclusive, sempre reclamou?
02:18Agora, agarrado, assim, agarrado num terreno como se fosse tudo que você tem na vida.
02:25Mãe, se você tá realmente querendo dar uma de Madre Teresa de Calcutá, compra o terreno.
02:31Compra.
02:32É.
02:32Eu ligo aí pra um amigo meu que faz corretagem e te deu o preço agora mesmo.
02:38Bem que eu queria.
02:40Só que acontece que...
02:43Como é que eu vou te explicar?
02:45Não, não precisa explicar nada, não.
02:46Tá tudo no nome do velho mesmo.
02:47Não.
02:49Não está tudo em nome do seu pai, não.
02:52O que acontece é que ele foi tomando conta da questão das finanças cada vez mais e mais.
02:59Eu acabei não entendendo mais nada.
03:00E é claro que na minha conta pessoal eu não tenho essa quantia.
03:04Eu teria que pedir a ele.
03:05E você conhece seu pai tão bem quanto eu.
03:08Você sabe o quanto ele não suporta a ideia de perder alguma coisa.
03:15De vender alguma coisa.
03:16O quanto ele é apegado a tudo que nós temos de material.
03:20Mas você, meu filho, você é diferente.
03:23Não, eu não sou tão diferente assim não, mamãe.
03:24Porque terreno pra favelado eu não vou dar de jeito nenhum.
03:36Eu compro.
03:42Eu amo, só tenho um pouquinho de pena.
03:45Porque eu vou ser obrigada a me desfazer de algumas coisas bonitas até que um dia seriam suas.
03:52Algumas joias.
03:55Algumas telas.
03:56As que foram do meu pai, é evidente.
03:58Deixa ver o Almeida Júnior.
04:00Pedro Alexandrino.
04:02Ah, sim.
04:03Aquele retrato lindo da sua avó que foi pintado pelo Eliseu Visconti.
04:09Exato.
04:09Isso tudo vale muito.
04:12Lógico que de uma hora pra outra sim eu vou ser obrigada a vender meio por baixo.
04:17Mas eu vou me sentir bem melhor mesmo assim.
04:20Mas você não tá falando sério.
04:24Vender as telas que um dia eu vou herdar pra comprar um terreno.
04:27O retrato da vovó pelo Visconti.
04:30Gustavo, meu filho, eu acho que você não entendeu.
04:33Eu tô me sentindo, meu filho, eu estou me sentindo capaz de qualquer coisa pra ajudar aquelas pessoas a construírem
04:39as casas deles.
04:41A gente tá falando da vida de mais de cem pessoas, Gustavo.
04:47Joias, telas, a gente tem muito mais.
04:51Sabe, meu filho, no dia que eu morri,
04:54E eu acho que eu vou me sentir muito melhor com a sensação de ter conseguido ajudar um pouco,
05:01pelo menos algumas pessoas,
05:04muito melhor do que com a sensação de ter conseguido manter o patrimônio da família
05:10mais três ou quatro bonitas obras de arte.
05:25As minhas telas vão pro brejo.
05:28Eu vou falar com o Jean ou com a Márcia.
05:32Eles vão conseguir me ajudar a vender o mais rápido possível essas telas.
05:44Eu dou a porcaria do terreno. Pronto.
05:52Sabia, meu filho?
05:55Ah, eu sabia que você ia acabar concordando.
05:59Eu tinha certeza.
06:01No fundo, no fundo, você tava fazendo gênero, não é, meu filho?
06:04Por causa do teu trabalho, não é isso?
06:06Porque, como executivo, você não pode estar sendo generoso demais.
06:11Tem que bancar o burão, não é?
06:13Mas, meu filho, eu tenho certeza,
06:16uma certeza absoluta de que,
06:18olhando pro rosto de cada uma dessas pessoas,
06:25você vai sentir, você vai ver o quanto esse seu gesto
06:31vai te fazer se sentir mais feliz, mais leve.
06:37Entende?
06:38Vem.
06:39Vem? Vem pra onde?
06:40Vem comigo pro colégio.
06:41Vamos imediatamente dar essa notícia maravilhosa
06:45que vai deixar tanta gente feliz.
06:47Não, mamãe, dá essa notícia a você mesmo. Vai lá.
06:50De jeito nenhum.
06:52Você vai ter uma satisfação enorme
06:55de dar você mesmo, pessoalmente, a notícia.
06:57Vai, meu filho, vai.
06:58Vai botar uma roupa e vem comigo pro colégio. Vamos?
07:00Mas, mamãe, é que eu...
07:02Anda, meu filho, vai botar uma roupinha. Vai.
07:04Depressa. Não temos um minuto a perder.
07:14A Marina, por favor.
07:17Tereza Pelegrini.
07:23Marininha, eu tenho uma notícia tão boa
07:26que você não vai nem acreditar.
07:28Sua mãe vai ficar aí?
07:29Não. Pior, eu vou ter que sair.
07:31Ah, Gustavo, fica mais um pouquinho.
07:34Pra que essa peça toda?
07:36É, eu também gostaria de ficar, mas...
07:38eu tô arriscado a perder uma nota preta em telas.
07:42Olha, é...
07:43Você, me desculpa, tá?
07:45Depois eu te ligo.
07:48Quando você sair, bate a porta.
07:51Você vai adorar dar essa notícia pessoalmente.
07:53Mamãe, eu tenho tanta coisa pra fazer lá no grupo.
07:55Mamãe, olha só que horas são.
07:57Dez minutinhos, meu querido.
07:59O Ivandro vai ficar tão feliz.
08:01E a Marininha, meu Deus do céu.
08:02Se você tivesse ouvido a voz dela, ainda há pouco, no telefone...
08:06Tá bom.
08:07Momento.
08:09Um momento.
08:13O nosso amigo, doutor Gustavo,
08:17doou o terreno pra construção das casas.
08:27Nós...
08:27Nós vamos começar imediatamente.
08:31Sem papelada, né, doutor Evandro?
08:33Porque esse negócio de papelada é sempre uma trava.
08:36Nós vamos fazer tudo ao mesmo tempo.
08:38Enquanto vocês fazem um mutirão pra construção,
08:41nós tratamos dos papéis.
08:43O importante é que agora cada família
08:47tem um pedaço de terra pra construir sua casa.
08:54Silêncio.
08:55Silêncio, por favor.
08:57Os aplausos não são para mim.
09:00Os aplausos são para o doutor Gustavo Pellegrini.
09:04Por favor, Gustavo.
09:07Por favor.
09:19Obrigado pelas palmas, mas eu tenho muito trabalho
09:22e vocês também têm que construir as suas casas.
09:26Felicidades.
09:32Ele tá tudo dentro dos conformes, doutor.
09:34Mas como é que a gente vai fazer pra levantar as casas?
09:37Eu acho que o Pedro pode explicar melhor,
09:40afinal a ideia original foi dele.
09:42Pedro, Pedro, por favor.
09:55O Pedro conseguiu, Esther.
09:57Ele sempre consegue, Joel.
10:00É incrível como ele sempre batalha pelo que ele quer.
10:02Bom, gente, primeiro a gente tem que deixar a terra pronta
10:05pra assentar as casas.
10:07Depois, todo mundo com a mão na massa,
10:10cada um ajudando o outro.
10:13Quando a gente se une,
10:16quando briga junto por uma coisa,
10:18tudo fica mais fácil.
10:19A vitória fica muito mais bonita.
10:31Obrigada.
10:31E lá, você viu o seu Gustavo?
10:33Já saiu?
10:34Ele passou por aqui e tem pressa.
10:36Vai ter trabalho pra todo mundo.
10:37Não tem tanta pressa pra chegar no escritório,
10:39o pai viajando, nem se despediu direito do Evandro e da Marlininha.
10:43Vai ver, era isso mesmo que ele queria, né?
10:45Isso mesmo o quê?
10:48Desculpa, dona Tereza, mas eu acho que já falei demais.
10:51Não, falou até aqui, vai ter que continuar.
10:54Você está sabendo de alguma coisa que tenha acontecido
10:55entre o meu filho e o Evandro ou a Marlininha?
10:59A fofoca que eu vi por aí, né?
11:01Mas vai ver, é tudo mentira.
11:03Ah, eu não posso passar adiante, não tenho certeza.
11:06A senhora, se quiser, pergunta pra eles.
11:08Poxa, logo agora que ele doou o terreno,
11:11a gente tem mais é que agradecer.
11:15A gente falou quanto tempo ele ainda fica no Rio?
11:17Acho que quase um mês.
11:21Me desculpa, eu não vi.
11:23Não, tudo bem.
11:23Eu estava distraído.
11:28Desculpa.
11:29Não, acontece.
11:30Obrigada.
11:34Mas então foi grosso mesmo?
11:36Desumano.
11:37Não, ele tinha alguma razão, Tereza.
11:39Só tentou alertar a Marlininha
11:41pra ela não vir a ter problemas.
11:42Vai pedir desculpas.
11:43Não, Tereza, peraí.
11:45O Gustavo já desredeu o terreno, está tudo bem.
11:47Não vai deixar a Marlininha magoada de jeito nenhum.
11:53Agora?
11:54Pelo amor de Deus, meu filho.
11:55O que que custa?
11:57Bem que eu senti um clima esquisito entre vocês dois.
12:00Ela foi pro escritório.
12:01E em cinco minutinhos você esclarece isso.
12:04Imagina como é que eu vou me sentir
12:06sabendo que não ficou nada esclarecido.
12:08Uma amiga que eu adoro.
12:10Então minha mãe tá deixando o currículo dela
12:12na mão do máximo de pessoas.
12:13Se a senhora puder dar uma olhada.
12:14Ah, deixa comigo sim, Alice.
12:16Eu tenho muitas relações, eu tenho muitos amigos.
12:20Eu vou ficar atenta.
12:21Tá bom.
12:23Puxa, muito obrigada.
12:24Não tenho nem como agradecer.
12:25Eu vou lá ver se o pessoal tá precisando de alguma coisa.
12:27Se não tiver,
12:29só de ver a cara deles com o problema resolvido
12:31já vai ser o máximo.
12:34Oi.
12:35Oi, Tereza.
12:36Ah, Alice,
12:37assim que eu tiver qualquer notícia
12:39de possibilidade de trabalho pra sua mãe,
12:41eu te dou um toque.
12:41Tá certo.
12:42Obrigada.
12:43Dá licença.
12:46Marininha,
12:47o Gustavo quer conversar com você um instante.
12:53É,
12:54pra pedir desculpas.
12:57Mamãe tá achando que a gente brigou e...
13:01Bem, você sabe que o tempo todo
13:02eu fiquei preocupado com a segurança do colégio.
13:06E com a sua, é claro.
13:07Quando esse pessoal precisa de um bom carpinteiro,
13:09de um eletricista de mão cheia,
13:11eles mandam procurar onde?
13:12Da favela.
13:14A favela somos nós, gente.
13:16E dessa vez,
13:17vamos trabalhar em mutirão pra nós mesmos.
13:23Olha aqui.
13:25Ninguém precisa perder emprego.
13:27Mas quem tiver desempregado,
13:29aposentado,
13:30criança,
13:30maiorzinha,
13:31pode trabalhar o tempo todo.
13:32Quem puder tirar férias,
13:34tira,
13:34pede uma licença.
13:35Agora,
13:36nos fins de semana,
13:37aí sim,
13:38todos juntos,
13:39damos aquela virada.
13:42Nós,
13:43nós vamos descansar carregando pedra,
13:46mas vai valer a pena.
13:48Vai valer, gente.
13:49É isso aí, pedra.
13:53Eu tô que dar uma saída.
13:54Eu vou ver umas coisas pra casa.
13:56Eu quero fazer umas compras.
13:57Não tô querendo abusar da Natália, sabe?
13:59Daqui a pouquinho eu tô de volta.
14:02Ei, ei.
14:04Com licença.
14:06O meu nome é Gustavo Pellegrini.
14:08Eu...
14:09Bem, eu por acaso ouvi
14:10você comentar com a Marininha
14:12que a tua mãe tá precisando de emprego.
14:14Qual é a área dela?
14:15Ela trabalhava numa revista que fechou.
14:18Chefe do departamento de pesquisa.
14:20Ah.
14:21Olha,
14:22aqui tá o meu cartão.
14:23Esse é o endereço do meu escritório.
14:25Eu tenho algumas relações.
14:27É...
14:27Se você passa lá...
14:29Enfim, quem sabe eu possa ajudar.
14:32Não, mas...
14:32Passa hoje à tarde mesmo.
14:34Eu não devo sair do escritório antes das sete.
14:37Vai sim.
14:43Ele é o filho daquele sacana.
14:46Você acha mesmo que ele arruma emprego pra minha mãe?
14:48Deve ser completamente diferente, né, Alice?
14:50Doa o terreno pra construir casa e tudo.
14:53É, né?
14:54É, eu acho que eu vou sim.
14:56Ah, ele ser filho do cara não tem nada a ver.
14:58É besteira minha.
14:59É, eu acho que eu vou sim.
15:29É, eu acho que eu vou sim.