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O humorista Léo Lins conversou com a jornalista Madeleine Lacsko e o cineasta Josias Teófilo sobre sua absolvição após a polêmica envolvendo uma piada em um show.

Sem filtro, o comediante fala sobre liberdade de expressão, os limites do humor e revela os bastidores da batalha judicial que enfrentou até a decisão final.

Papo Antagonista é o programa que explica e debate os principais acontecimentos do dia com análises críticas e aprofundadas sobre a política brasileira e seus bastidores.

Apresentado por Madeleine Lacsko, o programa traz contexto e opinião sobre os temas mais quentes da atualidade. Com foco em jornalismo, eleições e debate, é um espaço essencial para quem busca informação de qualidade.

🕕 Ao vivo de segunda a sexta-feira às 18h.

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Transcrição
00:00Olha, aqui no finzinho do programa, olha quem veio nos visitar.
00:07Hoje aqui é diferente. Corre pra cá, agora...
00:10Aí!
00:11E aí?
00:12Tudo bom?
00:14Aqui, olha aqui pra câmera.
00:16Léo Lins tá aqui comigo.
00:18Salve, salve, tudo bom?
00:19Porra, agora é livre.
00:20Pede uma cadeira pra Léo Lins.
00:23Visita ilustre aqui.
00:25Tô até aproveitando.
00:26Não vai mais preso.
00:27Tô circulando, tô andando por aí.
00:29Não precisa... Já tô acostumado com o banco do réu.
00:33Pera aí, eles vão passar uma cadeira pra cá.
00:35Fica aqui.
00:36Ou então tome o lugar do Josias ou põe a cadeira aqui?
00:40O que é mais fácil? Tome o seu lugar.
00:42Nós vamos fazer uma entrevista completa.
00:45Vamos fazer uma entrevista completa que vai ao ar.
00:49Amanhã no Papo Antagonista.
00:52Amanhã.
00:54Agora, quero saber o seguinte, Léo.
00:56Paulo, como é que foi esse julgamento aí no TRF3?
01:04Você tava lá? Você não tava?
01:07Não, não, não.
01:07Eu te falei que eu descobri que o desembargador que dá sentença é meu amigo há 30 anos.
01:11Pô!
01:12Ali Maslum.
01:14Um cara sensacional.
01:16Eu mandei pra ele.
01:17Eu não sabia quem era, mas já mando um abraço pra ele.
01:20Manda.
01:20O doutor Ali Maslum, ele é fenomenal tecnicamente.
01:24Um homem sensacional.
01:25E eu achei uma coisa interessante na sentença,
01:28que ele fez a diferenciação entre você, Leonardo,
01:32e a sua persona do stand-up.
01:35Sim, sim.
01:36E é essa toda a confusão do Ministério Público, né?
01:38É, exato.
01:40É isso.
01:40A gente tem...
01:41Você tá no palco, uma performance artística.
01:44Se você tá num palco, é uma performance artística.
01:47Tem uma...
01:48Uma tecnicalidade aí entre personagem e persona.
01:52Porque foi, mas...
01:53Não é um ator num filme, não.
01:55É uma persona cômica.
01:57Mas acho que pro grande público,
01:59essa questão técnica não vem ao caso.
02:02Mas é isso.
02:03Você tá num ambiente para uma performance artística, né?
02:07Toda performance artística, ela pressupõe em três pontos, digamos assim.
02:12Você tem um meio transmissor, receptor e um ambiente.
02:14Eu sou um comediante.
02:15Pressupõe-se que o que eu falo é ficção.
02:18Eu não sou um jornalista, eu não sou um engenheiro, um astronauta,
02:21nem um médico para passar uma receita de medicamento.
02:24Eu sou um comediante, eu falo piadas.
02:26Eu estou em cima de um palco, que é um ambiente milenar próprio
02:31para você fazer apresentações fictícias, né?
02:36Inclusive podendo transgredir normas,
02:38porque não é uma transgressão real, ela é simbólica.
02:41Então, eu sou um comediante num palco de teatro,
02:44onde as pessoas que estão ali sabem o que está acontecendo.
02:47Então, esses três pontos desse triângulo do pacto simbólico
02:50estão completamente presentes.
02:53A gente pode discutir questão de gosto, questão estética,
02:56questão de achar a piada completamente errada,
03:01por desagradável, sei lá, nojenta.
03:05Mas não para vir o Estado e prender, pelo menos ao meu ver.
03:10Eu quero saber, o Denis tem uma pergunta aí para o Léo Lins.
03:14Foi inesperado.
03:16Denis nem sabia.
03:18Aliás, nem eu sabia.
03:20A gente estava tentando aqui, finalmente costuramos.
03:22Deu certo?
03:23O Denis está aí na linha ou não?
03:25Vou deixar o Denis para depois.
03:27Olha lá, Denis, pode falar.
03:29Porra, grande Denis.
03:30Grande Denis, porra.
03:32É, está aqui.
03:33Tudo bom, irmão?
03:35Nós estamos tentando tirar todos os humoristas da cadeia.
03:38Eu e o Denis.
03:40Vocês sabem, a gente faz o bastidor free humor, né, Denis?
03:45É muito bom ver o Léo livre.
03:49É duro, né, Léo?
03:50Tem que falar isso.
03:51Não, eu comentei isso.
03:53Léo, a gente é amigo, a gente bate papo lá no WhatsApp.
03:57E eu admiro muito o trabalho que o Léo faz.
03:59Eu digo que ele é um defensor da liberdade,
04:02como muitos, assim, ditos liberais brasileiros não são.
04:05Porque é um cara que dá, assim, se abre para a pancada em nome da arte que ele faz.
04:11Mas, Léo, eu vou fazer aqui um desagravo que não é seu.
04:16Claro que, do ponto de vista da técnica da defesa, é uma baita defesa dizer,
04:20olha, há aqui uma separação entre o indivíduo poético, a licença poética,
04:26o sujeito que está no palco, e o sujeito que é o sujeito da vida real.
04:30Eu te conheço na vida real.
04:31Poucas vezes conheci alguém de um coração tão bom,
04:35alguém tão generoso, tão gentil como você.
04:37Então, são duas coisas completamente diferentes.
04:40Mas eu, como defensor da liberdade, vou além.
04:43É preciso, no campo da expressão,
04:46que as pessoas tenham, sim, o direito de dizer coisas grotescas, desagradáveis, absurdas.
04:55Eu não estou falando agir dessa maneira, mas dizer.
04:58Então, beleza, do ponto de vista, o advogado chama e fala assim,
05:01cara, nós vamos por aqui que a gente vai te absolver.
05:04Perfeito.
05:05Mas, como defensor da liberdade que sou, nem esse argumento é suficiente.
05:09As pessoas, no plano da palavra, devem ter o direito ao que os gregos chamavam de parrecia,
05:16a liberdade de dizer de maneira tosca, de maneira desagradável,
05:20porque é exatamente por aí que nós estabelecemos os caminhos de um processo civilizatório.
05:25E, olha, queria te perguntar como é que ficou, no fim.
05:29Você não vai preso mais?
05:31Então, as coisas que o pessoal comprou, os amigos compraram para levar na cadeia,
05:34não vai mais usar.
05:36Agora, eles já levaram cigarro para mim, o pessoal estava levando no show.
05:39Estava levando cigarro.
05:41Levaram algema, cigarro, levaram até lubrificante.
05:44É verdade, pior que é verdade mesmo.
05:46É verdade.
05:47Mas não vai precisar.
05:49Não vai mais usar.
05:50Ah, não vai mais usar.
05:51Não vai mais usar.
05:55Vitória, embora amanhã, meu advogado já falou, olha, amanhã a gente tem outro.
05:58Falei, mas agora a gente vai com moral, né?
06:00Ganhamos a Libertadores da América, agora chega com moral para outro jogo.
06:04Mas amanhã já tem outro.
06:07Quanto você está agora?
06:08Ah, já parei de contar, já parei de contar faz tempo.
06:10E entram tanto no cível quanto no criminal, é isso?
06:14Criminal, eu sei que eu sou o número um no Brasil.
06:18Criminal, eu sei que passou de 20, assim.
06:20Só a criminal.
06:21Eu sei que eu sou mais processado criminalmente, deixando bem claro tudo.
06:26Isso eu faço questão de reforçar.
06:29Todos os meus processos, tanto cíveis quanto criminais, são por piadas no ambiente de piada.
06:34Ponto.
06:35Não tem nada.
06:36Ah, ele xingou alguém na rua, ele agrediu, ele destratou, ele cuspiu.
06:40Nada, nada.
06:42É piada no palco.
06:43Então, isso me deixa com a consciência muito tranquila, porque eu estou fazendo o meu trabalho
06:48num ambiente apropriado para isso, né?
06:51Tem gente que, ah, o comediante acho que pode tudo.
06:52Não, eu não acho que eu posso tudo.
06:54Eu acho que eu posso contar piada num ambiente de piada, né?
06:57É isso.
06:58Eu não vou fazer, por mais que...
07:02A gente acabou, o Denis acabou de trazer essa questão, né?
07:04Realmente, a pessoa tem o direito de ter uma opinião que seja detestável, que seja.
07:09Mas, se eu estou numa fila de mercado, eu vou começar a fazer uma fritada com o sujeito
07:15que está ali esperando para fazer as compras dele?
07:17Não.
07:18Ele tem todo o direito de entrar com um processo cível.
07:21Eu estou parado para fazer compra.
07:22O cara acha que está num palco de teatro para começar a fazer piada com a minha pessoa?
07:27Eu tirar a foto do cara, expor e fazer piada?
07:30Porque aí já entra uma questão de direito de imagem, né?
07:33Aí tem algumas questões que, de fato, são muito claras na lei.
07:39Eu não posso pegar um sujeito anônimo, começar a filmar ele na rua, fazendo uma fritada com ele.
07:44É completamente diferente.
07:46Mas, se eu pego um político e faço uma piada com ele,
07:49é, eu acho que aí pode.
07:50O direito de imagem é diferente.
07:52Já teve processo que eu perdi para fazer react de vídeo de pessoa famosa,
07:56por uso indevido de imagem.
07:57Que aí eu também não compreendo.
07:59Porra, quantas pessoas já não fizeram montagem, coisa com a minha imagem?
08:03Então, aí é aquele...
08:06Um peso duas medidas, né?
08:08Ô Josias, tem uma pergunta?
08:10Tenho, é o seguinte.
08:11Eu lembro quando o Chico Buarque, na década de 80, foi entrevistado no Censura Livre,
08:15e perguntaram a ele, ah, por que você fala no feminino?
08:18Porque você é uma...
08:20Seria uma questão homossexual?
08:22Ele disse, veja bem, na minha letra, eu posso ser um homem, eu posso ser uma mulher,
08:26eu posso ser um homossexual.
08:27Em uma canção, você pode assumir todas essas personalidades.
08:32Eu acho que na comédia é a mesma coisa.
08:33Porque isso não é só na comédia, até no Twitter.
08:36De repente, eu vejo, tem perfis que assumem personalidades, né?
08:40Tem um que não é Léo Lins, que é muito engraçado.
08:42Eu choro de rir com esse perfil.
08:45Então, não é ele mesmo, né?
08:46E aí é engraçado, o pessoal fica até dizendo que é.
08:49Eu digo, olha, leio o nome.
08:50Não é Léo Lins.
08:51É, pois é.
08:53Mas a pergunta é a seguinte, o que eu queria saber de você, Léo, é o seguinte.
08:57Esse seu processo, você acha que...
09:01A impressão que eu tenho é que as pessoas processam,
09:04não necessariamente porque querem ver o sujeito condenado,
09:07porque eu acho que eles têm a impressão que isso não vai chegar às últimas condenações.
09:11Mas eu tenho a impressão que eles fazem isso para calar os outros,
09:13para que as outras pessoas fiquem com medo.
09:16Então, a pergunta é, até que ponto existe autocensura na comédia?
09:22Eu não tenho como cravar uma resposta,
09:25porque eu precisaria fazer uma enquete aí com mais colegas
09:31para te responder com mais assertividade.
09:34Mas eu posso dizer que já ouvi de pessoas falarem,
09:39na dúvida, velho, eu não vou nem...
09:42Deixa quieto, eu não vou nem falar disso daí.
09:47Então, tomando como gancho a sua pergunta,
09:50isso já chegou, podemos dizer que, pelo menos em algumas pessoas,
09:56já surtiu efeito, sim.
09:58Pode-se dizer, não sei em quantas,
10:00mas já escutei de algumas pessoas exatamente essa frase.
10:06Mas, cara, o meu intuito com comédia é...
10:09Eu acho que tem essa questão de, às vezes, servir de exemplo,
10:13cortar a cabeça, enfiar na lança e botar na entrada da cidade,
10:16que é para quem chega e está aqui, é melhor não...
10:20Tomar cuidado, tomar cuidado nesse lugar.
10:22Mas o meu intuito fazendo humor é sempre o riso,
10:25que é o intuito de qualquer comediante.
10:28Eu não vou querer subir no palco e...
10:30E que 10% do meu público saia irritado por causa das coisas que eu falei.
10:35Faz o menor sentido.
10:37O menor sentido.
10:37Eu quero que as pessoas saiam do meu show falando
10:40que foi o melhor show de humor que eu já vi na vida.
10:42É isso que eu quero.
10:44Eu quero que elas saiam nunca rir tanto na minha vida.
10:46Isso que é gratificante.
10:48Eu não quero ser responsável por causar dor em alguém.
10:51De forma alguma.
10:52Então, o meu objetivo com piada é sempre o riso.
10:54Nunca a polêmica e jamais a dor.
10:57E, Léo, com esses processos todos,
11:01queria que você explicasse como é que é a sua vida.
11:03Porque esse era o pior, porque você estava oito anos,
11:08pedindo oito anos de prisão,
11:09você não podia fazer piada com quase nada,
11:15tinha que se apresentar lá, enfim, tinha um monte de coisa.
11:18Teve uma repercussão...
11:19É, um processo que está se estendendo já há uns três anos e meio, né?
11:22E tiveram algumas consequências que eu sinto até hoje.
11:28As minhas redes sociais foram suspensas quase um ano.
11:32Isso jogou o meu algoritmo no lixo.
11:35Tem rede social que eu tinha com um crescimento X,
11:39hoje é 10% de X.
11:42Não entrego o conteúdo.
11:44E eu dependo disso para divulgar o meu show e para ter um engajamento.
11:47Agradeço todo mundo que me acompanha,
11:49porque ainda com todas essas restrições,
11:51eu consigo ter um engajamento alto.
11:53Talvez pelas pessoas irem atrás de me buscar,
11:56porque você joga o meu nome na busca,
11:57meu perfil não aparece.
11:59Então, assim,
12:01é como se estivesse tentando esconder de tudo quanto é jeito.
12:03Então, teve essa repercussão muito negativa para mim
12:06na suspensão das redes sociais.
12:08Mas bloquearam conta em banco.
12:10Eu tive dificuldade para abrir conta em banco.
12:12Vários bancos me negavam.
12:14O Compliance não aceitava.
12:16Nubank me negou.
12:17Banco Inter me negou.
12:18Vários bancos eu não podia abrir conta.
12:21Então, mais um dano causado por conta disso.
12:26Bloquearam conta em banco.
12:27Eu tive problema para abrir conta.
12:28Suspenderam minhas redes sociais um ano.
12:30Eu era proibido de sair de São Paulo sem autorização judicial.
12:33Tinha que comparecer uma vez por mês diante de uma autoridade
12:36para dar esclarecimento das minhas atividades.
12:38E tinha essa lista de temas que não poderia fazer piada.
12:42Tudo isso ficou válido quase um ano.
12:44Isso aí, é importante falar, não teve nem julgamento.
12:48Isso foi via liminar.
12:49É verdade, eu lembro de ver direto.
12:51Foi via liminar.
12:52Isso não é que julgou...
12:53Não, não.
12:53Isso foi direto.
12:54Isso entrou valendo sem nem...
12:57Sem nem eu me defender.
12:59Isso entrou valendo.
13:01Aí entramos com uma ação no STF, caiu para o André Mendonça julgar
13:05e ele derrubou a liminar.
13:06Isso depois de...
13:07Foi uns 10 meses que ficou válido.
13:09E aí o processo seguiu.
13:11A gente entrou com a ação na liminar apenas.
13:13A ação era para isso.
13:14Derrubou.
13:15Ele falou que siga agora, então, o devido processo.
13:17O julgamento saiu dia 3 de junho,
13:19que foi essa condenação de 8 anos, 3 meses e 9 dias
13:23e a multa de quase 2 milhões,
13:25a qual tivemos a segunda instância agora,
13:27que eu ganhei de 2 a 1 apertado, mas ganhei.
13:31Ô, Léo, a gente está aqui, olha,
13:34nos minutinhos finais do programa.
13:36Já vou te dando boa noite, Denis.
13:38A gente tem dois minutinhos para fechar.
13:40Vamos lá.
13:40Queria saber o seguinte.
13:43Você deixou já de fazer alguma piada
13:47e você faria tudo de novo?
13:53Olha, o que eu sempre falo,
13:55quando eu lanço um show, não tem nada ali que está...
13:59Não, não.
14:00Quando eu gravo, registro e publico,
14:02todas as piadas que estão ali,
14:03elas passaram por um crivo muito grande.
14:06Porque quando eu fecho o show para registrar,
14:09todas as piadas que estão ali
14:10foram contadas pelo menos 200 vezes,
14:14porque é o número de shows aproximado,
14:16250 vezes,
14:18em todos os estados do Brasil.
14:20Então, eu fechou no Amapá, no Acre,
14:22Bahia, Rio Grande do Sul,
14:23Minas Gerais, São Paulo, Brasília.
14:25Fichou em todos os lugares.
14:27Capital, interior.
14:28Fichou para brasileiros no exterior.
14:30A piada que passou todo esse crivo,
14:32ela fica para o registro oficial do show.
14:35E aí eu publico e lanço ele.
14:37Então, não dá para alguém falar,
14:39mas essa piada ofendida.
14:41Cara, essa piada eu contei
14:42para rico, para pobre.
14:44Contei para sul, nordeste, norte, centro-oeste,
14:47brasileiro no exterior.
14:48Brasileiro, contei para homem, mulher,
14:50para branco, para negro, para indígena.
14:52Já teve indígena no meu show.
14:53Contei para pessoa com deficiência,
14:55pessoa sem deficiência.
14:55Contei para tudo, cara.
14:57Tudo.
14:58Então, eu não tenho como falar
15:00que eu me arrependo de um show
15:02que passou por um crivo.
15:04Passou por um crivo.
15:05Passou no Inmetro.
15:06Então, uma coisa que eu fiquei curioso
15:08é o seguinte.
15:09Uma das grandes funções da arte
15:11que a gente vê
15:12é expandir os limites do convencional.
15:15Então, você levar tudo ao extremo.
15:18Então, você vê...
15:20Tem grande função na história do cinema
15:22quando você leva a violência ao extremo,
15:25ou o humor ao extremo,
15:26ou o humor negro ao extremo,
15:27ou a sexualidade ao extremo.
15:32Então, isso tudo expande os limites
15:35e faz com que as pessoas tenham possibilidades maiores.
15:38Então, nesse sentido,
15:39eu entendi que o seu show
15:41era exatamente no sentido de expandir.
15:43como é que eu posso fazer a piada
15:45a mais pesada possível.
15:47E, nesse sentido,
15:49a esquerda sempre valorizou,
15:51expandia esses limites.
15:52Eu digo,
15:53por que que para um lado não pode?
15:55Então, por que que nesse sentido
15:57ficou proibido?
15:58Então, é a pessoa
15:59ou é o que ela fala?
16:04Existe esse ponto que você tocou.
16:07E, uma coisa que é interessante,
16:09até fazendo um gancho
16:10com essa questão de origem, né?
16:13Realmente, eu acho que o que acontece
16:15é o que sempre aconteceu,
16:17que é uma disputa por poder.
16:19É isso.
16:20Eu vou dar um exemplo claro aqui
16:22também dessa disputa por poder.
16:24Tem um trecho na minha sentença
16:25que fala...
16:28Inclusive, ele diz que faz humor negro
16:29uma palavra racista,
16:30reforçando o racismo na sociedade.
16:33E, aí, se você for olhar
16:34a origem dessa palavra,
16:36na palavra humor negro,
16:38ela foi...
16:39E, olha que curioso.
16:40Em geral, quem hoje reclama
16:42desse termo
16:43são pessoas mais ligadas
16:44a uma esquerda política, né?
16:46E, eu não sei se vocês sabem,
16:48mas esse termo foi criado
16:49pelo André Breton,
16:50que era membro do Partido Comunista.
16:52Então, você olha a ironia disso.
16:56E, esse termo,
16:58ele foi criado na década de 30,
17:00num livro chamado Antologia,
17:02Delisle Monois,
17:02um livro francês,
17:03e, na tradução,
17:04virou Antologia do Humor Negro,
17:06em inglês, Black Humor.
17:07Esse livro seria lançado
17:08em 1940,
17:09com a invasão da Alemanha nazista
17:10na França,
17:11atrasou todo...
17:12Aliás, em todo sentido,
17:14um livro de humor negro
17:15ser atrasado,
17:15ainda mais por causa disso.
17:17E, aí, foi lançado em 1945.
17:19Ele fala...
17:20Ele foi o fundador
17:21do movimento surrealista.
17:23Esse movimento,
17:24ele lança
17:25um manifesto surrealista
17:26em 1924,
17:27onde a ideia dele,
17:28o que que era?
17:29Era romper com o excesso
17:30de racionalismo,
17:31que veio ali
17:32com o iluminismo.
17:33E, se você pegar o contexto,
17:35isso vem logo após
17:36a Primeira Guerra Mundial.
17:37A ideia era,
17:38pois,
17:38esse excesso de racionalidade
17:40levou o ser humano
17:41para uma coisa terrível,
17:42para uma guerra mundial.
17:43Então, a ideia
17:44era o oposto,
17:45era ir lá
17:46na psique,
17:47nas profundezas
17:48da mente.
17:49Ele tinha muita...
17:50Ele foi inspirado
17:51por teorias do Freud,
17:53também,
17:53do subconsciente.
17:55Então, por isso,
17:56o humor negro,
17:56que é você ir lá
17:57na profundeza,
17:58lá na sombra,
17:59e a definição dele
18:00é automatismo psíquico puro.
18:03É você ir lá buscar
18:03a real função
18:05do pensamento
18:07sem...
18:08Independente
18:08de uma censura
18:09racional,
18:10ético ou moral.
18:11A ideia era,
18:12não tem isso,
18:13não vamos ter
18:14essa censura racional,
18:15ética e moral.
18:16Então, você olha,
18:18a riqueza do termo,
18:19que eu acho
18:20muito curioso,
18:21interessante,
18:22para alguém vir hoje
18:23e falar
18:24o humor negro é racismo.
18:26Porra, cara,
18:28é sério,
18:29você está tornando
18:30a coisa rasa,
18:32pobre e mentirosa.
18:34Além de tudo,
18:35você está em...
18:36Aí tem o Comedy Central,
18:38um dos maiores canais
18:39de humor do mundo,
18:40divulgando campanha
18:41que o humor negro é racismo.
18:42Eu acho um desserviço,
18:44um termo tão rico assim,
18:46e ligado à história da comédia,
18:48você fazer isso.
18:49E aí começam-se campanhas,
18:51não, o humor negro é racismo,
18:52tem que usar o humor ácido,
18:53ok.
18:53Aí, há poucos anos atrás,
18:55estreia lá na Globoplay
18:56um programa chamado
18:56Humor Negro.
18:58E não tem problema nenhum.
18:59Com diversas pessoas.
19:01E aí você vê,
19:02ao mesmo tempo,
19:03e aí entra essa questão
19:03do diferencial,
19:05completando agora
19:05a origem do termo
19:07com o atual,
19:07você tinha ao mesmo tempo
19:10esse termo
19:11humor negro
19:11no meu processo
19:12me acusando de racismo
19:13e estampado
19:14num programa
19:15da Globoplay.
19:16E não tem problema nenhum.
19:21aí fica
19:22essa esquizofrenia
19:23na sociedade.
19:25Uns podem,
19:26outros não.
19:28Que isso tem
19:30até
19:31explicações
19:32psicológicas
19:33também para isso.
19:33Tem um livro
19:34que eu estou escrevendo
19:35para lançar muito em breve,
19:36onde eu fiz uma pesquisa
19:36muito extensa
19:37sobre humor.
19:38e tem uma teoria
19:40que chama
19:40Teoria da
19:42Affective Dispositional Theory,
19:43Teoria Disposicional
19:44da Efetividade.
19:45Onde você,
19:46as pessoas que você tem
19:49mais carinho,
19:50se identifica mais,
19:52naturalmente
19:52você vai ter
19:53uma tendência emocional
19:54a interpretar
19:56o que ela fala
19:56de forma mais lúdica,
19:58uma brincadeira.
19:58Pode ser uma grosseria,
19:59mas foi uma brincadeira,
20:01foi uma escorregada,
20:02foi um escorregão.
20:03E as pessoas
20:04que você não gosta,
20:04se falarem a mesma coisa,
20:05você interpreta
20:06como agressividade.
20:07Mas isso é
20:08do ser humano.
20:11Então é importante
20:12a gente ter
20:13essa noção
20:14do funcionamento
20:15do ser humano,
20:16porque em algumas
20:18situações
20:18isso é perigoso.
20:20Por exemplo,
20:20no caso de um juiz,
20:21é importante você
20:22ter noção,
20:23porque ele é uma pessoa também.
20:25Serem humanos
20:25estão sujeitos
20:26a falhas.
20:27Então precisa
20:29ter esse conhecimento
20:30para que possa dar
20:30um passo atrás
20:31e falar,
20:31opa, espera aí,
20:32será que eu não estou agindo
20:33na emoção
20:34e racionalizando
20:36só para justificar isso?
20:37Deixa eu tentar olhar
20:38de uma maneira
20:39mais fria.
20:40Então,
20:41o livro que eu estou lançando
20:42agora é até um,
20:43de certa forma,
20:44uma maneira de devolver
20:46ao humor
20:46tudo que ele já me deu.
20:47Eu acho que tudo
20:48que eu tenho na vida
20:49veio por conta do humor
20:50e eu acho que ele está
20:52sendo mal julgado.
20:53As pessoas não estão
20:54compreendendo.
20:55Então,
20:56eu estou devolvendo
20:57para o humor
20:57para que ele seja
20:58devidamente julgado
21:00e apreciado.
21:01Você está falando
21:02isso dos progressistas
21:04agirem assim hoje?
21:06Eu achei tão curioso
21:07porque os dois juízes
21:09que deram em seu favor,
21:12primeiro André Mendonça,
21:14pastor,
21:15conservador,
21:16Ali Maslum,
21:18muçulmano,
21:19praticante,
21:21super conservador,
21:22ele,
21:23mulher,
21:24filhos.
21:25E a juíza progressista
21:27é quem queria te botar
21:29na cadeia
21:29oito anos.
21:31E a gente está
21:32se encaminhando
21:32aqui para o final
21:33e a discrepância
21:36da realidade
21:38com a minoria
21:40que dizem proteger
21:42é enorme.
21:43Eu já fui
21:44em vários
21:45dos seus shows.
21:45Eu posso falar.
21:46Fora evento
21:47feito para pessoas
21:49com deficiência,
21:50eu nunca vi
21:51nenhum outro evento
21:52com tantas pessoas
21:53com deficiência
21:54na minha vida.
21:55Não,
21:56eu fui num show dele
21:57que tinha duas fileiras
21:58de anões,
21:59de pessoas com dano.
22:00Aí eu entrei lá
22:01e falei,
22:01foi você que armou isso, né?
22:03Aí ele,
22:03não,
22:04eu não sei de nada,
22:05eles vieram sozinhos,
22:06eles tinham ido sozinhos mesmo.
22:08É verdade.
22:08Mas a grande questão é,
22:11você levou no processo
22:13as pessoas
22:14que se diziam
22:15a serem as minorias
22:16protegidas,
22:18falando que tinham dado
22:19risada das piadas.
22:20Sim, sim.
22:22E mesmo assim,
22:23a opinião de todas
22:25as minorias que estavam lá,
22:26que as que estavam
22:28eram apenas a meu favor,
22:29a opinião dessas pessoas
22:31foi solenemente ignorada
22:34e basicamente
22:35era o Estado falando,
22:37você não sabe
22:38do que você pode assistir
22:39ou rir não,
22:39deixa que eu vou decidir
22:40para você.
22:42E aí,
22:43pô,
22:43eu discordo disso, né?
22:45Eu quero o Estado
22:46agindo como Estado,
22:47não como curador
22:48de obra de arte.
22:51Eu não acho que
22:51essa função de curadoria
22:53de obra artística,
22:55se a gente tiver
22:56sem violência,
22:58sem criminalidade,
22:59com saneamento básico
23:00em todas as cidades,
23:01com meios de transporte
23:02apropriado,
23:03com inflação adequada,
23:05economia,
23:06se não tiver,
23:07resolve o caso
23:07de INSS,
23:08do Banco Master,
23:09resolve todos esses problemas,
23:10aí,
23:11aí você faz
23:12uma curadoriazinha
23:13na obra de arte.
23:15Bom,
23:16Léo Lins,
23:17prazer enorme
23:18ter você aqui
23:19no estúdio
23:19do Papo Antagonista,
23:21valeu mesmo
23:22por ter vindo.
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