00:00Eu quero falar do vídeo do Lima Duarte, que tem 96 anos.
00:04Foi homenageado na Associação Paulista de Críticos de Arte
00:10e fez uma declaração que, na cabeça dele, de homem de 96 anos,
00:17é contra o racismo, e eu vou te explicar por quê.
00:21E foi cancelado pela Beautiful People como se racista fosse. Vamos ver.
00:27Um moleque daqui chegou para mim e falou assim, vamos na zona.
00:33Eu falei, o que é zona? Ele falou, é mulher. Eu falei, mulher? Vamos?
00:40Mas como é que é? Tem duas ruas em São Paulo.
00:43São Paulo tinha confinamento, duas ruas.
00:46A Emorés e Itaboca, aí no Bom Retiro.
00:50Ele falou, na Emorés, a mulher é 5 mil reais.
00:54E na Itaboca, a mulher é 3.
00:57Eu falei, vamos na Itaboca.
01:00Ele falou, só tem preta.
01:04Eu não fui.
01:08Moleque de rua.
01:11Dormi embaixo do caminhão.
01:13Não fui porque só tinha preta.
01:17Que vida, hein?
01:19Que coisas eu fui percebendo ao longo dessa vida.
01:24Então, fomos na Emorés.
01:27Tinha uma judia, que era dona da casa.
01:32Uma dessas que vieram para a guerra, né?
01:35Olhou para mim e falou, ô menino, o que você está fazendo aí?
01:39Aí eu vim ver uma mulher aí.
01:41Chega para cá.
01:43E eu fiquei morando com ela.
01:46Ela era uma judia, tinha uma francesa, tinha uma visão estranha do mundo, não é?
01:53Um dia ela falou assim, menino, você precisa fazer alguma coisa.
01:56Você é muito louco.
01:58Você sabe cantar?
02:00Eu falei, só canto muito cantar a minha mãe, né?
02:05Que é...
02:11Bom, então a gente viu as caras e bocas que a moça fez ao fundo.
02:16Por quê?
02:16Por falta de sinapses e de capacidade de cognição.
02:20Ou talvez por se achar tão virtuosa que não precisa nem entender o que um homem de 96 anos disse.
02:27Ficou muito claro ali o que ele disse.
02:29Havia uma exploração específica da prostituição da mulher negra, onde se colocava nessas mulheres um preço mais baixo.
02:39E sabe-se lá que condições.
02:41Numa época em que a prostituição era confinada no Brasil, o que se chamava de zonas de baixo meretrício.
02:50E ele foi acusado de ser racista, quando na verdade, na cabeça dele, o que ele fez?
02:54Eu vou me negar a ser um consumidor dessa forma absurda de violação e de rebaixamento e de exploração das
03:04mulheres negras.
03:05Foi isso o que ele fez na cabeça dele?
03:08E é isso que era da época.
03:11Tentar dizer que é racismo, é racismo por quê?
03:16Porque vocês acham que é muito legal a mulher ter o direito de se prostituir, que prostituição é uma coisa
03:23muito legal.
03:25Que o bloco da Bruna Surfistinha é o que relata a realidade da prostituição.
03:30Que prostituta é vocação, que não é exploração da mulher.
03:37Quando ele fala, ali só havia negra e eu não quis ir, então qual é a cabeça de quem diz
03:43que isso é racismo?
03:44Não, você tem que explorar a mulher negra, sim.
03:47Não, ela tem que passar, sim, pela exploração dura.
03:51É uma covardia o que as pessoas que estão ali no palco fizeram com o Lima Duarte.
03:58E é uma vergonha que a Associação Paulista de Críticos de Arte coloque numa premiação pessoas que são incapazes de
04:07entender um discurso simples.
04:09Que saa a arte, entendem de lacração, entendem de afastar o cidadão da arte.
04:16O que vocês acharam do discurso dele?
04:18Gente, eu fiquei chocada com a reação das pessoas, tendo certeza de que ele é racista.
04:24Eu acho que tem... pode falar.
04:25Bom, não tem nada de racista, concordo com você, Madá.
04:30E é um relato super valioso do que foi o Brasil lá.
04:35Ele está com 96 anos agora, então estamos falando de uma coisa que aconteceu 80 anos atrás.
04:39E ele fala, não só... ele nasce em Minas Gerais, vem parar em São Paulo.
04:46Então, o mundo do passado era um mundo muito mais difícil do mundo que a gente vive hoje.
04:53Hoje a gente tem esses discursos de vitimização, mas hoje a gente vive numa sociedade muito mais civilizada e rica
05:01do que era no passado.
05:03E o Lima do Arte permite que a gente veja o quanto a sociedade evoluiu.
05:09Ele mesmo evoluiu.
05:10Ele diz, olha, está contando só para a gente lembrar, para saber como é que a coisa era no passado.
05:16E não só ele conta do prostíbulo das negras, conta da própria situação dele, que vem de Minas Gerais e
05:23não tem onde ficar, é um moleque de rua.
05:25Mas ele também fala, no outro prostíbulo eram judias, dessas que vieram com a guerra.
05:31Então, também isso aconteceu muito.
05:34Segundo a Guerra Mundial, teve muito judeu vindo aqui para o Brasil, para Buenos Aires também, na Argentina.
05:41E teve muito prostíbulo também comandado por judeus, ou por judias.
05:47Então, a gente, na verdade, tem que olhar esse passado, a gente não pode se privar disso.
05:53E até para aprender e entender que a gente vive realmente hoje uma sociedade muito beneficiada.
06:01E aí parar de ficar reclamando e ficar condenando os outros por qualquer coisa que eles falem.
06:08Então, dizem que o etarismo é o último preconceito aceitável.
06:15É o preconceito contra a gente velha.
06:17Eu acho que, se a gente quiser olhar por esse ângulo, é possível também, se a gente quiser embarcar nessa
06:23pegada.
06:26Agora, eu interpreto o discurso do Lima Duarte por uma das últimas frases que ele diz.
06:32Que ele fala, eu era moleque, fui dormir embaixo de caminhão, logo depois de contar,
06:38que ele não aceitou ir ficar no prostíbulo com as mulheres negras.
06:46Eu li um pouco diferente de você, Madá.
06:51Eu entendo que ele está dizendo, sim, eu fui preconceituoso.
06:54E daí depois ele fala, olha como era.
07:00Olha o que eu fui percebendo depois com o passar do tempo.
07:03Ele toma uma distância em relação ao menino que ele mesmo foi.
07:07Ele olha hoje aos 96 anos para o menino e fala, sim, era um menino daquela época, de 15 anos,
07:16que foi preconceituoso.
07:18Tinha os seus preconceitos.
07:19Mas ele toma distância, ele não está chancelando o preconceito.
07:23Seja em relação às prostitutas, seja em relação às mulheres negras.
07:27Então, assim, você querer dizer que o Lima Duarte está fazendo um elogio ao menino que ele era naquela época,
07:36é um absurdo.
07:38Não foi isso que ele disse.
07:40Ele está olhando para o passado e fala, olha, eu pensava de um jeito que eu não penso mais hoje.
07:45Era diferente.
07:47E era pior.
07:49Muito pior.
07:50Era pior.
07:51É isso que ele está dizendo.
07:53Quando você presta atenção no tom e na frase final dele, olha como era, né?
08:00Olha como as coisas que eu fui...
08:01Acho que ele fala, olha as coisas que eu fui percebendo.
08:05Ele está dizendo, eu fui percebendo que aquilo lá era errado.
08:08Que o jeito que eu me comportava, que eu pensava, era errado.
08:11Então é isso.
08:12Agora, as pessoas se ofendem antes de pensar.
08:17A reação imediata de todo mundo hoje em dia é a ofensa.
08:21É apontar o dedo falando que o cara é ruim.
08:25Que está reforçando os preconceitos.
08:29Não.
08:30Se você der dois segundos e prestar atenção mesmo no que ele está dizendo, é o contrário disso.
08:35Mas, enfim, a associação chamou um cara de 96 anos para ser homenageado.
08:42Para ser cancelado depois.
08:44Assim, quanto mais...
08:45A associação de roteiristas...
08:47Você sabe que a associação de roteiristas tem um cancelamento fortíssimo.
08:50A associação de roteiristas que fazê evento falando boa noite a todes.
08:55A associação paulista dos críticos de arte humilhou o Lima Duarte para permitir que esse povo burro e que acha
09:05que sinalizar virtude vai fazer deles uma pessoa melhor.
09:09Um milho, um senhor de 96 anos, que é um baluarte da arte brasileira.
09:13Essas associações vão fazer o quê?
09:15Elas vão fechar?
09:17Porque, entendam o seguinte, hoje, nós que somos da geração de 40 anos estamos reclamando porque a gente pode falar
09:23que é ridículo.
09:24Os de 30 e os de 20 têm que compactuar porque senão eles são cancelados.
09:28Mas tem uma nova geração que está vindo aí que vai pegar esses vídeos todos e vai esfregar na cara
09:33de vocês.
09:34Vocês estão fazendo isso agora, daqui a 10 anos vocês não vão mais trabalhar em lugar nenhum.
09:39Todo mundo que vocês cancelaram, todo mundo que vocês tiraram emprego, vai ter emprego antes de vocês voltarem a trabalhar
09:46na vida.
09:46Vocês não voltam mais.
09:47Quem vê a cara dessa moça ali, olha a maldade, a vontade de tirar uma casquinha em cima de alguém
09:56famoso que, olha, ele falou uma coisa que eu posso distorcer para parecer que eu sou melhor moralmente que ele.
10:03E eu sou uma lutadora, sabe por quê?
10:05Porque eu enfio o dedo na cara de um senhor de 96 anos distorcendo o que ele diz.
10:12E é uma coisa maluca, né?
10:14Porque esse pessoal tira o direito de uma pessoa de 96 anos de ter a história dela.
10:20A história dela é diferente.
10:23Ele está contando como é que era a vida dele, como é que foi a vida dele, o que ele
10:26pensava, o que ele sentia, como é que ele se comportava quase 100 anos atrás.
10:31Eles estão dizendo, não, você não pode.
10:33Isso aí que você viveu não pode viver.
10:35Você não pode ter vivido.
10:36Você tem que recontar toda a sua história do jeito que nos agrade.
10:40Não, né?
10:41Pelo amor de Deus.
10:44Ouvindo o Lima do Ar, eu queria que contasse mais coisas de como era esse mundo no passado.
10:49Mas realmente hoje, com essa vigilância, com esse monitoramento que a gente tem, principalmente nessa área da arte,
10:57a gente realmente perde acesso às histórias dessas pessoas e a gente podia crescer muito com essas histórias.
11:04Ah, mas se as pessoas crescerem, como é que essa gente vai se encaixar em algum empreguinho?
11:11Não é verdade?
11:12É uma gente altamente dependente da mediocridade, do cancelamento, da sinalização de virtude.
11:22A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:28A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:28A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:29A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:32A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:36A gente vê as obras artísticas que esse pessoal faz, não é verdade?
11:43O que é isso?
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