00:00O cenário agora é o assunto, agora aliás, é o cenário global do agronegócio.
00:05Em tempos de riscos e incertezas em todo o planeta, empresas do agro já perceberam que a cadeia de suprimentos
00:11é um dos principais desafios para o sucesso e até para a sobrevivência do negócio.
00:16No caso brasileiro, como as empresas nacionais têm respondido a esse desafio
00:21e de que maneira elas podem redesenhar a cadeia de suprimentos para diminuir os riscos.
00:26É sobre isso que a gente conversa agora com o Otávio Lopes, sócio líder de agro da EY para a
00:31América Latina.
00:32Otávio, seja muito bem-vindo.
00:34Obrigado, Marcelo. Boa tarde.
00:35Bom, eu queria começar te perguntando o seguinte.
00:37A cadeia de suprimentos, a gente sabe que ela vem sendo chacoalhada muito nos últimos anos aí.
00:42Eu queria que você descrevesse para a gente o que está acontecendo.
00:46Legal. O que a gente vem vendo nos últimos anos são acontecimentos...
00:53A gente começou com a Covid. Talvez a Covid tenha sido o grande marco de trazer um mundo normal
01:01para esse mundo diferenciado que a gente está vivendo hoje.
01:05A gente chama esse mundo na EY de mundo nave.
01:10Ele é não-linear, ele é acelerado, ele é volátil, ele é interconectado.
01:15O que diz para a gente que os choques que acontecem, eles não acontecem isoladamente.
01:23Eles balançam e chacoalham a cadeia como um todo.
01:26Após a Covid, a gente viu uma sequência de fatos.
01:29A Covid trouxe um vento de cauda no consumo e, ao mesmo tempo, ela criou um grande desafio para o
01:39suprimento.
01:39As cadeias de suprimento tiveram que se reinventar a partir de uma demanda acelerada
01:46e uma máquina que ainda baseava-se muito na força humana, no braço da força de trabalho,
01:55que não estava disponível para estar no chão.
01:58Esse foi o primeiro grande choque que a gente viu nas cadeias.
02:02Na cadeia do agro, isso não foi diferente.
02:04Na sequência, a gente começou a ver os eventos de barreiras tarifárias.
02:09A gente viu a guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos,
02:14que a gente teve um retorno recentemente para uma condição quase que normal ou, digamos, benéfica ao Brasil.
02:25A gente tem barreiras sanitárias, regulatórias, como o acordo de deflorestamento,
02:36prevenção do deflorestamento da União Europeia,
02:39que faz com que países que queiram acessar o mercado de consumo na União Europeia
02:45tenham produtos que venham de áreas de não deflorestamento.
02:51Todos esses eventos, esses choques, somados à natureza que é o grande, digamos assim, desafio para o agronegócio,
03:03a incerteza da natureza para o agronegócio, vem redesenhando a cadeia de suprimentos, com certeza.
03:10Muito interessante isso que você trouxe para a gente.
03:12Essa falta de mão de obra que você detectou aí no tempo da pandemia ainda,
03:16porque não estava tão automatizado.
03:18Você acha que esse cenário mudou muito de lá para cá?
03:21Hoje em dia a gente já tem uma agricultura mais mecanizada, menos dependente de mão de obra intensiva?
03:27Então, a gente vem fazendo progressos.
03:30A gente já tem mecanização nas culturas, por exemplo, na soja, no milho.
03:35A gente ainda depende muito de mão de obra em culturas como das frutas, frutas de mesa.
03:41A gente ainda depende da mão de obra.
03:44E o que é uma infelicidade, é uma coincidência infeliz, é que as frutas não aguardam serem colhidas no pé.
03:55Elas vão apodrecer, elas vão cair e a gente vai ter as perdas.
03:58Então, assim, vem se pensando, vem tendo avanço em uso de robótica,
04:03vem tendo avanço no uso da combinação de robótica com inteligência artificial
04:08para que as máquinas se tornem mais ágeis e ajudem nisso.
04:11Ao mesmo tempo, toda automação, a gente fala de automação dentro da porteira,
04:17mas a cadeia de agronegócio inclui você transportar, processar e fazer chegar ao mercado destino.
04:25E tudo isso vem sendo automatizado e vem sendo preparado para responder a esse mundo que eu falei,
04:35que é o mundo nave, que é esse mundo mais complexo em que a gente está vivendo.
04:40Eu nunca tinha pensado nesse aspecto aí que você trouxe, no caso das frutas,
04:44porque imagino que colher soja, colher milho, até mesmo café, dependendo do terreno,
04:49você já consegue fazer com máquinas.
04:51Agora, no caso das frutas, a gente vai ter que esperar chegar, por exemplo,
04:54um robô humanoide desses que a gente tem visto aí a China e os Estados Unidos exibirem?
04:59Exatamente.
04:59A gente já tem alguma automação, não é que a gente não tenha nenhuma.
05:03A grande maioria da colheita de frutas, ela ainda é feita por mão de obra.
05:12E eu vou te falar, até grandes culturas, a gente pega o óleo mais consumido no mundo,
05:16que é o óleo de palma, a colheita de cachos de palma em países como Indonésia e Malásia é feita
05:21barulmente.
05:23Então, você imagina o impacto no mundo de óleos vegetais quando você dependia de mão de obra humana
05:29para estar nos campos de palma nesses países e ela não estava lá presente.
05:34Agora, como é que as empresas brasileiras têm reagido a esses desafios globais?
05:39Muito bom. O Brasil, a gente vem falando nisso aqui no programa, o Brasil vem fazendo o seu dever de
05:49casa
05:50para estar preparado para esse mundo novo.
05:54A primeira coisa é, a gente falou aqui de barreiras tarifárias e barreiras não tarifárias.
06:01Essas duas barreiras, o Brasil começou a se preparar olhando diversidade de mercados,
06:09olhando diversidade de portfólio.
06:11A gente teve, por exemplo, durante o tarifácio, a abertura de 398 mercados para a carne brasileira,
06:20novos mercados para a carne brasileira.
06:22E a gente precisa se habilitar para exportar do ponto de vista sanitário para esses mercados.
06:27A gente precisa se habilitar do ponto de vista logístico para exportar para esses mercados.
06:32Então, o que as companhias, não só brasileiras, mas mundiais estão fazendo,
06:38elas estão mudando de um modelo que estava preparado para ser just-in-time,
06:43onde era principalmente velocidade e custo, para ser um modelo just-in-case.
06:49Se acontecer isso ou se acontecer aquilo, o que eu faço?
06:53E antecipar a esses riscos.
06:57Então, as companhias estão investindo muito na antecipação de entender os riscos,
07:06entender os possíveis choques e responder muito mais rápido a esses choques.
07:12Essa diminuição do prazo entre entender o que pode acontecer e reagir,
07:17faz toda a diferença e vai dar o tamanho do ganho ou do prejuízo que você vai ter.
07:23O Brasil tem feito um grande trabalho nesse sentido.
07:25Otávio Lopes, sócio líder de agro da EY para a América Latina.
07:29Foi um prazer ter você com a gente hoje.
07:30Muito obrigado, Marcelo.
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