00:00E o mapa da produção mundial de petróleo deve passar por um redesenho em 2026.
00:06Brasil, Guiana e Argentina mostram um potencial para liderar o crescimento da produção na América do Sul
00:12com mais de 700 mil barris adicionais por dia, ultrapassando a Venezuela.
00:18A conclusão é de um relatório da Ristad Energy, uma empresa de inteligência e pesquisa energética.
00:24Eu vou conversar agora sobre esse assunto com Edmilson Moutinho, que é professor do Instituto de Energia e Ambiente da
00:31USP.
00:31Tudo bem, professor? Bom dia, seja muito bem-vindo ao Real Time.
00:35Bom dia, Natália. Bom dia a todo mundo. Vamos conversar um assunto empolgante.
00:39É, muito interessante mesmo. E, professor, quando se fala no potencial de crescimento da produção de petróleo na América Latina,
00:47na América do Sul, a gente já logo pensa na Venezuela, que ganhou as manchetes nos últimos tempos.
00:53Mas agora a gente vai olhar aí para um outro trio. Brasil, Argentina e Guiana, né?
00:59E por que vale a pena a gente olhar para esses países? Como é que está o potencial deles?
01:05Eu acho que vale a pena no seguinte sentido. Houve uma mudança importante no direcionamento,
01:12nas forças de direcionamento do mercado de petróleo.
01:15Hoje em dia, as forças são mais econômicas, são mais de boa gestão, de boa governança.
01:23Essas são as forças dominantes e menos a geopolítica.
01:26Não que a geopolítica do petróleo não continue importante,
01:29mas a definição do papel dos países está mais relacionada a essa boa governança,
01:36bons contratos, respeito aos contratos, do que propriamente dito a geopolítica
01:41ou a própria disponibilidade geológica de petróleo.
01:45Bom, professor, e essa expectativa de crescimento do peso da América Latina no mercado,
01:50ela vem num momento de preços do barril na casa dos 70 dólares, bem abaixo do recorde, né?
01:56E também um momento de grande oferta.
01:58É mais um componente para manter as cotações estáveis ou até mesmo em queda?
02:04É, porque é sempre a margem.
02:08Esses países, os nossos países, eles não participam do grupo da UPEP, por exemplo.
02:14Eles não são definidores de preços nos grandes acordos geopolíticos.
02:19Nós participamos na margem.
02:21Preços vão subindo, a gente vai seguindo investimentos e vai conseguindo expandir a produção.
02:29Quando os preços caem, a gente tem a produção mais cara, a gente costuma ser afetado também.
02:35Então, a gente fica trabalhando na margem.
02:39Cenários de longo prazo de super oferta nos prejudicam muito,
02:42porque nós estamos na franja da margem dos menos competitivos.
02:46E, professor, os Estados Unidos prometem reerguer a indústria petrolífera da Venezuela.
02:52Nos últimos dias, emitiram licenças para Chevron Shell e outras retomarem as operações na Venezuela, né?
02:59Isso pode realmente reacelerar a oferta venezuelana, mexer no jogo regional?
03:05Em quanto tempo?
03:08Pois é, a Venezuela levou 15 anos para destruir o parque petroleiro deles, a produção deles,
03:15e vai levar talvez outros 15 ou 20 para conseguir erguer.
03:18Isso se tiver boa gestão, isso se tiver um longo prazo estável de investimentos.
03:24A Venezuela, diferente do Brasil, da Argentina e da Goiânia,
03:29onde nós funcionamos mais...
03:32Forças internas que viabilizam investimentos, aqui a coisa anda.
03:35Na Venezuela, dado o potencial geológico, o impacto grande que pode ter,
03:43você fica muito submetido às questões geopolíticas.
03:46Então, as questões de sanções ainda afetam muito a Venezuela, afetam muito menos a nós.
03:51E nós exportamos para a China também, Goiânia, Brasil, todos exportam para a China.
03:56Mas eu acho que as questões de sanções políticas nos afetam muito menos
03:59do que afetará para a Venezuela poder se reerguer.
04:04Agora, a geologia eles têm, sempre que tiverem, continuam tendo.
04:08Então, eles que não perdem muito tempo, porque o horário do petróleo na matriz energética mundial
04:15também está correndo contra.
04:17Exatamente.
04:18E, professor, olhando de volta para Brasil, para a Argentina e para a Goiânia,
04:22queria que o senhor ajudasse a gente a entender o modelo de produção de cada um,
04:26o tipo de produção.
04:27Por exemplo, o grosso do Brasil vem de águas profundas, do pré-sal.
04:31Como que é isso na Argentina, como que é na Goiânia e, no fim, quem que é mais competitivo?
04:37É, não são comparáveis porque são recursos muito distintos.
04:40Eu diria que Brasil e Goiânia são mais comparáveis.
04:43São recursos offshore, o Brasil vai em águas muito mais profundas,
04:47depende muito de avanços tecnológicos,
04:49mas são avanços que a Petrobras já dominou.
04:51Então, aqui é problema de capital.
04:55A gente adotou a tecnologia dos FPSOs, que é a mais simples, não vou detalhar aqui,
05:01mas são aqueles navios produtores, é a tecnologia mais simples que virou padrão
05:05para águas profundas e que nós desenvolvemos aqui, padronizamos aqui.
05:10Cada vez que você conseguir viabilizar um novo FPSO,
05:13você tem um salto de produção aí de uns 150, 200 mil barris dia.
05:19Então, aqui são crescimentos mais marginais.
05:22A Goiânia, como é muito menor, quando você entra com um navio novo desses,
05:26que eles usam a mesma tecnologia, aí os saltos são maiores para eles.
05:30Então, aqui nós seguimos uma escadinha com degraus menores.
05:34A Goiânia segue uma mesma escadinha, onde os saltos para cada entrada de navio,
05:40relativamente ao que eles têm, é maior.
05:42E a Argentina é completamente diferente, porque aí são recursos onshore,
05:47recursos não convencionais, recursos muito mais baratos para desenvolver,
05:52mas a produção também é muito menos competitiva, no sentido de cada poço produz menos,
05:58mas você pode produzir muitos postos, você pode procurar muitos postos.
06:02Na Argentina, o problema deles, a restrição é de ter dutos,
06:06porque eles estão no interior com essa produção,
06:08você tem que ter capacidade de dutos para levar para a costa, para exportar,
06:12e a regulação, a regulamentação de acesso a esses dutos.
06:17Nós nem precisamos pensar muito nisso, enquanto acesso ao mercado global.
06:22Vai do navio e vai direto para o navio exportador.
06:26Então, sequer temos tantas restrições de logística.
06:30Para eles, a logística é muito importante.
06:33Muito obrigada, Edmilson Moutinho, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP,
06:38por ajudar a gente a entender as características potenciais
06:41e os desafios de cada um nessa história.
06:43Ótimo dia, até a próxima.
06:46Obrigado.
06:47Tchau, tchau.
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