00:00o que causou indignação no futebol europeu.
00:02Jogadores do Real Madrid acusam o argentino Gianluca Prestiani
00:06de ter dito ofensas racistas ao brasileiro Vini Júnior.
00:10A gente vai falar sobre essa situação com o nosso comentarista jurídico Fabiano Rosa.
00:14Fabiano, seja muito bem-vindo a essa edição do Radar.
00:18Olá Marcelo, uma alegria estar com você.
00:21Fabiano, quando um caso de racismo atinge um atleta como o Vinícius Júnior,
00:25envolvendo um clube do porte do Real Madrid e também do Benfica,
00:30até que ponto ainda dá para tratar isso como um episódio isolado
00:33e não como uma falha estrutural de compliance e também de governança no futebol europeu?
00:39Marcelo, infelizmente, quando nós falamos de futebol europeu,
00:43casos de racismo e de xenofobia não são casos isolados,
00:47são práticas infelizmente históricas e reiteradas.
00:51Tão reiteradas, Marcelo, que a FIFA teve que criar um protocolo antirracista
00:56para incidir nesse combate, essa prática danosa ao futebol.
01:02E que foi, nesse caso, acionado por ocasião das ofensas que o Vinícius Júnior relatou ter sofrido.
01:09Vale a pena relembrar para a nossa audiência que o protocolo antirracista da FIFA prevê,
01:14desde uma interrupção da partida com jogadores em campo,
01:17em que nos alto-falantes do estádio, das arenas, é explicado o que está acontecendo,
01:22tem aí um caráter educacional, até a suspensão temporária da partida,
01:27que foi o que aconteceu com a remoção dos jogadores de campo,
01:31por cerca de 11 minutos a partida ficou interrompida,
01:34e até mesmo a interrupção definitiva da partida.
01:37Marcelo, o que a gente vê com o Vinícius Júnior,
01:39ele é muito mais do que comportamental, ele é uma prova do seu tempo,
01:44em que, nos dias de hoje, grandes atletas como o Vinícius Júnior,
01:48com o próprio Mbappé e tantos outros,
01:50não silenciam mais diante de ataques racistas vindos às torcidas.
01:56Nesse caso, o que nos chama a atenção, Marcelo,
01:58é que pela primeira vez nós vemos esse ataque vindo,
02:02na pessoa do Vinícius Júnior, de um colega de campo, de um outro jogador.
02:06Quando nós vemos uma marca como o Real Madrid, Benfica,
02:10envolvendo o jogador que foi escolhido como o melhor jogador do mundo em 2025,
02:14sofrendo isso em campo,
02:15se percebe de que esse é um sinal de alerta muito perigoso
02:20para uma que é uma das paixões globais, que é o futebol, nos nossos dias.
02:25Exatamente.
02:26Agora, Fabiano, sendo o futebol uma indústria bilionária,
02:30uma indústria global, que é sustentada por marcas
02:33que vendem valores como diversidade, respeito e inclusão,
02:36qual o peso real dessas marcas aí, dos patrocinadores, das federações,
02:40na pressão por ambientes esportivos íntegros?
02:43Ou a gente está num discurso bonito que não se efetiva,
02:47que não funciona na prática?
02:50Marcelo, eu quero crer e acredito que nós temos hoje
02:54uma mudança de patamar nesse caso.
02:58E eu explico por quê.
02:59O futebol é um negócio econômico de impacto global.
03:02Vamos ver, por exemplo, a Copa do Mundo,
03:04o que vai acontecer esse ano, no México, Estados Unidos e Canadá,
03:09tem a previsão de receita na casa de 2,5 a 3 bilhões de dólares,
03:15exclusivamente advindo de patrocínio e marketing,
03:17sem contar as verbas de natureza de direitos de transmissão.
03:21Quando nós estamos vendo isso, não só na Copa do Mundo,
03:25nas grandes competições como a Champions League e outros campeonatos,
03:27como acompanhamos agora recentemente a final do NFL nos Estados Unidos,
03:33com aquele espetáculo que foi o show do Bad Bunny,
03:36nós percebemos que as marcas não estão comprando apenas
03:41uma exposição midiática ou uma exposição exclusivamente
03:46do seu conteúdo relacional.
03:48As marcas também compram a experiência, o símbolo, o engajamento,
03:54o que representa o futebol, paixão, solidariedade, espírito empreendedor,
04:00a competição, a beleza da diversidade.
04:03Quando a gente fala de Copa do Mundo, por exemplo,
04:04Marcelo, nós estamos falando de seleções do mundo inteiro,
04:07raças diferentes, credos diferentes, todos os continentes.
04:11Portanto, hoje eu percebo, como profissional na área de compliance,
04:15Marcelo, que há uma pressão, uma pressão que vem das marcas
04:18que não querem estar associadas a um espetáculo que não tenha
04:23um completo associação com respeito às pessoas, à diversidade, à inclusão,
04:29à beleza daquilo que é, quem sabe, o centro do futebol,
04:32que é a arte, a arte da competição, a arte da vitória, a arte da disputa,
04:37mas a disputa respeitando as pessoas, respeitando mulheres,
04:41respeitando crianças.
04:42A gente percebe essa mudança nos estádios e a gente percebe
04:46a pressão das marcas que não querem se associar.
04:50Por isso, aqui nós estamos, Marcelo, diante de um imperativo
04:53de ordem ética, ou seja, não se aceita mais esse tipo de ataque
04:59às pessoas na sua dignidade, mas também temos um imperativo
05:03de ordem mercadológica, sem sombra de dúvida.
05:06Agora, na sua visão jurídica e de compliance,
05:08o que gera mais mudança concreta?
05:10Punições esportivas tradicionais ou o impacto reputacional e econômico
05:15que os casos de racismo estão provocando aí sobre clubes,
05:19sobre ligas, também sobre os patrocinadores
05:21nas grandes competições internacionais?
05:24Marcelo, eu diria que as duas coisas.
05:26Explico por quê.
05:27Por muito tempo, muitos desses fatos aconteceram nos estados do mundo inteiro
05:32envolvendo xenofobia, machismo e casos de racismo,
05:36e eles eram ignorados, não geravam consequência.
05:39Então, sim, punições de ordem esportiva que passam por perda de mando de campo,
05:45restrição de torcida, até balimento de torcedores dos estádios,
05:50eliminação de competições, a consequência desses atos praticados
05:55pelas torcidas, eles geram um impacto muito forte,
05:59tanto do ponto de vista educacional, como do ponto de vista concreto.
06:03Quero dar um exemplo aqui para a nossa audiência.
06:05Durante muito tempo, se invadiam os estádios no Brasil.
06:08Era uma prática.
06:09A torcida invadia os campos nos nossos estádios.
06:13Depois que se criou uma mudança regulatória,
06:16fazendo com que os clubes perdessem pontos,
06:19caso a sua torcida invadisse o campo,
06:22o que aconteceu?
06:23Acabaram praticamente as invasões de campo,
06:25porque a torcida não quer prejudicar o seu clube.
06:28Então, a primeira parte da minha resposta é, sim,
06:30esse impacto que gera a punição.
06:32Mas também nós estamos tratando de um impacto reputacional
06:35no momento em que o futebol também passa justamente
06:38por mudanças mercadológicas, com a SAF,
06:41com a maior importância dos patrocinadores no cotidiano da gestão
06:45e do papel das federações esportivas.
06:48A CBF no Brasil, desde a nova gestão do presidente Samir Schauser,
06:52tem dado um exemplo da importância que tem dado
06:55à formação de uma nova educação,
06:57uma nova visão de combate a essa prática de discriminação nos estádios
07:02que passa por árbitros treinados,
07:05que passa pelo VAR, que passa por gerar consequência.
07:08Eu acredito, sim, Marcelo, mais do que nunca,
07:10que no futebol dos dias de hoje,
07:13integridade não é mais uma questão de discurso.
07:15Ela é a postura dos vencedores.
07:18Sejam eles os clubes, sejam eles os torcedores,
07:21sejam eles os atletas.
07:22Fabiano Rosa, comentarista jurídico,
07:25muito obrigado pela sua participação nessa edição do Radar.
07:28Muito obrigado, Marcelo.
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