00:00O Brasil corre risco de perder o mercado venezuelano de feijão preto para os Estados Unidos,
00:11mesmo sendo mais competitivo em preço e logística.
00:15Entre 2024 e 2025, o feijão brasileiro dominou o fornecimento à Venezuela com preços em
00:20torno de 700 dólares por tonelada, mas em 2026 o cenário muda.
00:24Os Estados Unidos estariam usando linhas de crédito e acordos políticos para impor a compra do feijão americano,
00:30deslocando o produto brasileiro?
00:32Para debater essa questão, eu falo agora com o presidente do IBRAF, Instituto Brasileiro do Feijão e Pulsos no Brasil,
00:38Marcelo Eduardo Lúders.
00:40Marcelo, bem-vindo. Bom dia para você.
00:44Bom dia. Prazer em estar aqui, filho.
00:46Marcelo, começando essa discussão, o Brasil pode ser prejudicado por essa aproximação,
00:51por esse episódio dos Estados Unidos invadindo a Venezuela?
00:54O Brasil pode ser prejudicado nessa questão do feijão preto?
00:59O possível, diante de algumas afirmações que foram feitas aí depois da captura do Maduro,
01:06onde os Estados Unidos deixam claro que eles vão passar a dominar,
01:11ou eles vão decidir sobre importações da própria Venezuela.
01:17Então, já dizendo que alimentos ou grãos, pelo menos grãos e medicamentos estariam sendo atendidos pelos Estados Unidos.
01:26Isso vindo a acontecer vai significar que o Brasil, que tem aí uma capacidade bastante grande de produção
01:35e uma competitividade muito grande tenha, eventualmente, que ficar fora do jogo com a Venezuela,
01:42o que seria lamentável.
01:44O 2024 para 2025 já teve uma queda nas exportações de feijão preto do Brasil para a Venezuela,
01:50em função até desses movimentos iniciais de mudança no perfil.
01:55O exportador brasileiro está se adaptando?
01:57Quer dizer, outros mercados como México, Índia, eles podem ocupar esse espaço e minimizar esse efeito?
02:03Quando a gente fala e trata da importação da Venezuela, nós estamos tratando basicamente de feijão preto.
02:12Feijão preto, o Brasil e o mundo têm como mercado a América Central, seria aí México para baixo.
02:22Então, os países latinos aí que são grandes importadores de feijão preto.
02:27Ocorre que, no ano passado, houve uma diminuição da importação da Venezuela de feijão preto
02:34em relação a 2024, muito em função de que 2024 foi um ano, entre aspas, eleitoral na Venezuela,
02:43onde houve uma preocupação do próprio governo de permitir, de trazer um volume maior de feijão.
02:49Já em 2025, essa emergência, ela continuava do ponto de vista dos consumidores venezuelanos,
02:56eles tinham necessidade de ter esse produto lá, mas já não foi possível realizar essas exportações para a Venezuela
03:06em função de diversos problemas e dificuldades econômicas, já que a Venezuela estava vivendo,
03:12e em função de que já não era um interesse tão grande do governo naquele momento aí em 2025.
03:19E o Brasil diminuiu a produção em relação ao ano de 2024 e 2025, no início agora de 2026.
03:28Naturalmente, devido a essa diminuição no ano passado, os preços no Brasil também ficaram mais baixos,
03:35não estimulando o plantio.
03:37Então, o que nós temos buscado fazer no Brasil é alertar os produtores, alertar as cooperativas,
03:43enfim, quem precisa tomar a decisão, de que ao longo do ano nós devemos ter um volume bem menor de exportações de feijão preto.
03:52E em função disso, o produtor precisa estar alerta e não aumentar a área de produção de feijão preto.
04:00Queria que você comentasse um pouquinho com a gente, Marcelo, do perfil do produtor, né?
04:03Porque você falou cooperativas, o produtor do feijão preto, ele é um médio produtor aqui no Brasil.
04:08Ele tem alternativas? Como é que fica a composição dessa cultura com outras em relação a essa possível indicação de troca da área plantada?
04:16Quer dizer, quais são as alternativas para que não tenha uma queda na renda?
04:21Bom, ele é um produtor, principalmente, do estado do Paraná.
04:24O Paraná é um estado que produz entre 70% e 80% do feijão preto do Brasil.
04:29Em função disso, é um conhecimento que o produtor do Paraná tem de como produzir um bom feijão preto.
04:40Então, na medida em que diminui a área, saem aqueles produtores que são mais oportunistas,
04:46que viram o mercado reagindo e começaram a plantar,
04:50e ficam os produtores tradicionais de feijão preto.
04:53O Brasil, tradicionalmente, em feijão preto, era até 2023, 2024, até 2023, eu diria,
05:01um importador de parte da sua demanda.
05:05Nós temos um consumo de cerca de 500 mil toneladas no Brasil, 550 mil toneladas a ano,
05:11e o Brasil não estava produzindo tudo isso.
05:13Houve um esforço da cadeia produtiva de levar ao conhecimento do produtor
05:19que nós estávamos importando uma determinada quantidade,
05:22que variava, dependendo do ano, entre 60 e 70 mil toneladas,
05:26até 80 mil toneladas, e importava da Argentina.
05:29Então, num primeiro momento, nós alcançamos a autossuficiência,
05:33entre 2022 e 2023.
05:34Em 2024, geramos um volume maior do que a nossa demanda,
05:39e em 2025 também.
05:40Então, esses produtores que entraram oportunamente no mercado,
05:45eles têm outras alternativas.
05:46Eles podem implantar o feijão carioca, o feijão vermelho, o feijão rajado,
05:51isso na área dos feijões.
05:53E, indo a um nível mais extremo, eles têm também a possibilidade
05:58de se voltar para a soja e para o milho.
06:01Porém, é muito importante que um país como o Brasil continue investindo
06:06em ter essa habilidade maior, esse conhecimento para produzir diferentes feijões,
06:15inclusive o feijão preto, porque nós entendemos que, no último ano,
06:19pelo menos, nos últimos seis meses, nós vimos um aumento na produção do México,
06:25por exemplo, que é importante player também no mercado mundial.
06:28Na medida em que o México teve uma boa safra,
06:31e isso tem sido mais raro nos últimos anos,
06:34precisa menos importação.
06:36Mas o Brasil pode buscar responder uma demanda externa
06:41que, eventualmente, venha de outro país ou de outros países,
06:44além de cuidar de que nós tenhamos a autossuficiência nos próximos anos.
06:51É curioso você falar do México.
06:53Eu imaginava que o México era um grande exportador,
06:55mas eu não imaginava que o Brasil,
06:56eu imagino o Brasil como um país do feijão,
06:58eu não imaginava que a gente era importador.
07:00Agora, em relação ao mercado interno,
07:02o mercado consumidor interno do Brasil não é suficiente para abastecer?
07:06Quer dizer, todos os produtores de feijão não podem usar o mercado interno
07:10para evitar esse problema com as exportações?
07:12O mercado interno não é grande o suficiente para servir,
07:15para todos, para abastecer, de forma geral, todos esses produtores?
07:20Sim, ele tem uma demanda cerca de 3 milhões de toneladas,
07:253 milhões e 100 mil toneladas.
07:26Estratégicamente, para o setor, é interessante utilizar a exportação
07:32como uma garantia de mercado para o produtor.
07:36O produtor, quando planta, ele vai buscar garantias de que ele vai ter mercado.
07:40Então, se ele sabe que determinadas variedades de feijão
07:44têm um mercado internacional, ele tem uma maior possibilidade
07:49de entender que o mercado é grande e ele pode gerar excedentes.
07:52Por isso, é interessante um país como o Brasil,
07:56que não tem uma política de estímulo por parte do governo
07:59de produzir um alimento básico, como o feijão,
08:02utilize outras ferramentas do mercado.
08:05E essa ferramenta, que usualmente é utilizada em outros produtos também,
08:10como o milho, por exemplo,
08:12seja utilizada nesse caso, que é a exportação.
08:16Então, a possibilidade de ter um mercado demandando do Brasil
08:20abre a segurança para o produtor plantar.
08:23O produtor plantando suficiente para atender o Brasil
08:27é um estímulo que nós buscamos,
08:29porque nós temos uma necessidade de um bom volume de feijão.
08:34O feijão é básico, pesa no orçamento da família brasileira,
08:38se ele muda de patamar de preço,
08:40como acontece em volta e meia, de subir 20% ou 30%.
08:43Então, é claro que é um esforço num país continental
08:47você fazer chegar essas informações a todos os produtores
08:50e que eles reajam de acordo com as informações
08:53que vão chegando do exterior.
08:55Que determinado feijão é mais interessante produzir esse ano,
08:59outro feijão é melhor não produzir.
09:01Enfim, é uma coordenação que vem se buscando,
09:05mas que é um grande desafio para uma cadeia produtiva como o do feijão.
09:09Muito obrigado, Marcelo Eduardo Luders, presidente do IBRAF.
09:12Obrigado pela sua participação.
09:14Boa segunda-feira, boa semana para você.
09:17Foi um prazer, estamos sempre à disposição.
09:19Uma boa semana.
09:20Obrigado.
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