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Roberto Rodrigues, engenheiro agrônomo e ex-ministro da Agricultura no governo Lula de 2003 a 2006, concedeu entrevista ao Morning Show e analisou se o agro brasileiro saiu vencedor com o acordo entre Mercosul e União Europeia.
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NotíciasTranscrição
00:00Agora eu quero falar sobre o acordo da União Europeia-Mercosul, que está rendendo protestos,
00:04mas também os produtores brasileiros estão comemorando bastante essa situação.
00:09Por isso a gente vai conversar com o ex-ministro da Agricultura, que já está conectado com a gente ao vivo aqui,
00:15o Roberto Rodrigues, ele que é professor também da área,
00:19que vai poder falar sobre a expectativa do mercado em relação a isso.
00:22Porque setor de carnes, indústria de produtos, manufaturados e industrializados
00:27estão comemorando bastante essa decisão, esse acordo. Muito bom dia.
00:32Bom dia. De fato, é um acordo desejado há mais de 20 anos, 26 anos de disputa nesse processo todo,
00:43que ganhou uma dimensão nova, provavelmente por causa das ações de presidente Trump dos Estados Unidos,
00:48da sua área política, comercial e geoeconômica também,
00:52que deixou a Europa, de certa maneira, isolada.
00:57Estados Unidos de um lado, China, Rússia do outro lado, a Europa ficou meio isolada.
01:02Então, era muito importante para a Europa, finalmente, fazer um acordo comercial
01:06com uma região que está próxima, até fisicamente mais próxima do que outras regiões,
01:13mas que, fundamentalmente, é uma ligação histórica também com a União Europeia,
01:17que é a América Latina, em especial o Bercosul.
01:20De modo que o acordo, tendo patinado durante tanto tempo,
01:25rapidamente agora foi impulsionado,
01:29supostamente por causa dessa questão, dessa provocação do presidente Trump.
01:34Então, é muito positivo que o assunto seja resolvido, finalmente,
01:37embora tenha ainda que passar pelo Parlamento Europeu,
01:40mas, aparentemente, as coisas estão bem encaminhadas.
01:43Do ponto de vista prático, concreto, em termos de exportações imediatas,
01:49não há muita expectativa, por várias razões.
01:51Primeiro, porque nós temos quotas com a Europa,
01:55hoje são quotas pequenas de produtos agrícolas,
01:58e não há nenhuma expectativa de aumentar essas quotas no curto prazo,
02:01porque a desgravação tem um tempo para conseguir entre 10 e 15 anos,
02:06devendo produtos da região e da atividade produtiva.
02:09Então, de 10 a 15 anos é que vai ter a desgravação.
02:12E é isso, é aí que o comércio vai aumentar e evoluir positivamente.
02:17Mas, de qualquer maneira, é muito importante que isso aconteça,
02:22porque um acordo com a União Europeia é um aval para outros países,
02:27outros países do planeta, se interessem por acordo com produtos agrícolas da região do Mercosul.
02:33Então, é muito importante, muito positivo e vale a pena para todos nós.
02:36Ministro, na sua avaliação, quais vão ser os principais efeitos de médio e longo prazo
02:44para a economia brasileira?
02:46Terão vencedores e perdedores nessa história?
02:50Sim, possivelmente, como em todo grande acordo, grande negociação,
02:56teremos vencedores e teremos alguns perdedores.
02:59Eu diria que os vencedores principais são aqueles ligados às cadeias produtivas de alimentos.
03:06Porque carne deve ter um aumento de exportação,
03:10frutas é um tema muito delicado e que provavelmente é um grande acesso ao mercado europeu.
03:16Mesmo café também deve haver um avanço.
03:19Por outro lado, há um temor aqui no Brasil de que os produtos de vinho
03:25sofreram algum tipo de concorrência difícil com produtos europeus.
03:34Mas isso tudo, toda vez que há um acordo comercial grande,
03:39há um acordo com 720 milhões de pessoas.
03:44E uma boa parte, mais da metade, com um modelo aquisitivo alto.
03:48Então, é o maior acordo comercial da história contemporânea do mundo.
03:52Então, realmente, vai abrir mercado para todo mundo.
03:55O que acontece, de maneira geral,
03:58é que esses acordos criam dificuldades para certos setores
04:01que, por sua vez, serão obrigados a visita à tecnologia,
04:06em gestão e inovação.
04:08E isso acaba dando uma construção competitiva.
04:11Vou lembrar um fato.
04:12Quando foi montado o Mercosul, no final dos anos 90, no século passado,
04:19houve a enorme preocupação por parte dos agricultores brasileiros
04:22de que a concorrência com a Argentina ia ser prejudicial para a gente.
04:26Ao contrário, houve uma demanda extraordinária por parte dos agricultores brasileiros
04:30de tecnologia, de inovação, de investimentos em pesquisa.
04:34E nós, hoje, somos os grandes exportadores mundiais de alimentos e produtos agrícolas,
04:38mesmo que a Argentina não concorda conosco livremente.
04:41Então, quando há uma concorrência dessa natureza leal, verdadeira,
04:47todo mundo investe tecnologia em modernização.
04:50Então, mesmo aqueles eventuais perdedores, por circunstâncias de momento,
04:56possivelmente investirão mais em tecnologia
05:00e vão ser concorrentes também no futuro de médio e longo prazo.
05:04É, porque se de um lado tem a contrapartida,
05:06do outro também tem o receio.
05:07Por isso que os agricultores franceses estão protestando tanto
05:11e dizem que é uma concorrência desleal.
05:14Ana Beatriz Rich.
05:15Professor, a gente sabe que esse acordo foi discutido por 20 anos, praticamente.
05:21Mais de 26 anos.
05:22É, 25.
05:24O senhor deve ter acompanhado ao longo do tempo aí na sua carreira.
05:27E a minha pergunta é, o que fez ele finalmente ser aprovado agora?
05:31O que mudou ao longo desses 25 anos para a gente finalmente conseguir aprová-lo?
05:36Olha, Ana Beatriz, eu acho que são duas razões principais.
05:41A maior de todas as áreas, já citei aqui,
05:43é a ação do presidente Europeu, dos Estados Unidos,
05:47que, de certa forma, isolou a Europa economicamente do resto do mundo.
05:50A Europa ficou fora dessas grandes discussões.
05:53Em Estados Unidos, de um lado, o Ásia, do outro lado, China, a própria Rússia.
05:58A Europa ficou um pouco isolada no processo.
06:00Ela precisava buscar alternativas de integração global que gerasse resultado positivo para ela.
06:06Tanto na importação quanto na exportação.
06:09E a América Latina, e o Mercosul especificamente, era um caderno natural para isso.
06:14Então, eu acho que o grande agente principal foi realmente essa questão da geopolítica moderna.
06:19Mas tem um outro tema importante, sua pergunta, Ana Beatriz.
06:23E que é o seguinte, hoje a União Europeia tem 27 países.
06:27Quando nós começamos essa discussão, era praticamente só a Europa Ocidental.
06:32Mas já estavam entrando os países do Leste Europeu,
06:34que passaram a ser por todos os agrícolas importantes também.
06:37Então, países como a Hungria, a Polônia, a República Tcheca, a Eslováquia,
06:41que não era um país importante, se agrícolas falando, porque tinha até todo o processo, digamos, do mundo comunista,
06:50que não tinha muita ação de governo em cima, hoje se liberou.
06:56Então, esses países passaram a ser produtivos, eficientes e competem hoje dentro da União Europeia,
07:02entre os países da União Europeia.
07:04Então, esse fato tem gerado também essa grande manifestação dos produtores franceses,
07:12provavelmente dos franceses, mas de outros países também,
07:15porque o que eles precisam é de mais subsídio, de mais subvenção, de mais apoio
07:21para que eles enfrentem a concorrência interna.
07:24Então, usa-se muito essa coisa do Mercosul como uma defesa para os produtores franceses
07:32em busca de mais proteção, mais subsídio.
07:35Então, é preciso compreender um pouco esse futuro interno também da União Europeia.
07:39Não é apenas a geopolítica que foi mexida duramente pelo presidente Trump,
07:45mas também é uma concorrência interna entre os países europeus,
07:48pela qual alguns produtores franceses, particularmente, pedem mais proteção.
07:56Então, é todo um movimento muito articulado de maneira global,
08:03mas também internamente da Europa.
08:05Jás Peixoto.
08:06Ministro, o agronegócio brasileiro teve uma expansão característica muito alta,
08:11principalmente por atingir mercados como o mercado asiático,
08:15nos grãos, nas carnes, em tudo.
08:18Então, nós tivemos isso.
08:19A Embrapa teve um fator muito diferencial em relação à tecnologia.
08:22Hoje, nós vemos a China expandindo em tecnologia agrícola
08:27e buscando produzir ou incentivar a produção no continente africano.
08:32E, quem sabe, no futuro se tornando uma potência agrícola
08:35e até disputando o mercado com o Brasil.
08:38Como o senhor vê essa questão da demanda por tecnologia
08:42e do nosso baixo investimento, pelo menos na minha perspectiva,
08:45em relação à tecnologia agrícola como incentivo público?
08:49E, também, como que o senhor encara, à luz do acordo do Mercosul
08:53com a União Europeia, agora, o interesse do Brasil
08:56de buscar novos mercados e expandir ainda mais nesse mercado asiático?
09:01Muito obrigada.
09:03Muito obrigado pela pergunta.
09:05E parabéns pelo seu comentário inicial.
09:07A sua observação, esse fato de que a China está buscando
09:11produzir em outros continentes, porque ela tem limitação diária,
09:15e indo para a África, a sua observação é muito precisa,
09:18é muito preciosa.
09:19Então, vamos lá.
09:22Primeiro, a China tem sido, de longe, o nosso grande mercado.
09:25Mais da metade da exportação brasileira do agro vão para a China hoje.
09:28E a Europa é o segundo colocado, com 18%.
09:31É uma margem pequena, que pode aumentar bastante.
09:36Mas, mais do que isso, eu acredito que os países têm que ser buscados,
09:41com o mercado também.
09:41Por exemplo, a Índia.
09:43A Índia tem uma população maior do que a da China.
09:47E que tem uma população, uma classe média muito grande,
09:51o poder aquisitivo também é alto.
09:53Nós, portanto, muito pouco para a Índia.
09:54Então, tem que buscar acordos comerciais.
09:58A tua pergunta é muito boa.
09:59A nossa luta, e eu tenho discutido isso há décadas,
10:02é buscar acordos comerciais fortes, com países grandes,
10:06de consumidores volumosos, para a gente poder avançar nesse mercado.
10:11Então, eu diria que a Índia é um grande mercado a ser demandado.
10:16Todo o Oriente Médio, os países árabes que hoje têm dificuldade de produção,
10:20uma boa parte deles, a área desértica do Oriente Médio.
10:24Então, são potenciais consumidores nossos.
10:27E os países asiáticos também, Indonésia, Malásia, Filipinas,
10:32são mercados a serem observados.
10:34Mas não apenas.
10:35América Latina é um mercado para a gente.
10:37O ano passado, exportamos muito para a Argentina, é importante.
10:41Um importante mercado.
10:42Mas a Argentina é na área industrial, particularmente.
10:45Mas não só na área industrial.
10:46Também na agrícola.
10:47Trocamos produtos com a Argentina,
10:49e o Mercosul também, o Uruguai e o Paraguai.
10:52Então, há espaço para a busca do novo mercado.
10:55A sua pergunta é muito preciosa.
10:58Porque, de fato, eu diria que nós temos quatro grandes temas a desenvolver
11:04para abrir a produção brasileira.
11:06O primeiro deles é acordos comerciais.
11:09E é bem importante lembrar que o Ministério da Agricultura,
11:12que é uma área internacional que eu criei quando fui ministro,
11:15por oportuno, criei também os adios agrícolas,
11:18tem aberto mercados nos últimos cinco, seis anos,
11:21até mais de 500 mercados abertos pelo Ministério da Agricultura.
11:25São mercados com nicho específico, pedaço pequeno,
11:30cujo valor comercial é relativo.
11:34Mas o conjunto é positivo.
11:36Então, tem que buscar acordos comerciais com grandes países consumidores.
11:40Inclusive, os Estados Unidos, Canadá,
11:43a antiga Alca, que buscava tanto tempo.
11:45Então, é muito importante a sua posição.
11:48Agora, de fato, nós não podemos pensar apenas
11:53em serem exportadores de commodities agrícolas.
11:57E a sua visão sobre a África é muito relevante.
12:01Nós temos que exportar também, mais do que alimento,
12:04mais do que commodities,
12:05temos que exportar a indústria de transformação,
12:09as variedades vegetais e plantas agrícolas cultivadas no mundo tropical.
12:13Hoje, o mundo tropical é, de longe,
12:16a grande chave para a círcula cimentar,
12:19mas também energética, a transenergética,
12:21e cuidando do clima.
12:22Nós desenvolvemos no Brasil a mais importante tecnologia tropical sustentável do planeta.
12:28E isso vai ser replicado no cinturão tropical.
12:31América Latina, África, Sub-Sahariana,
12:33e parte da Ásia também.
12:35Isso é tão relevante quanto exportar alimentos.
12:38Exportar conhecimento,
12:40conhecimento, know-how adquirido durante durante 50 anos.
12:43Então, não é só exportar alimentos,
12:46não é só concorrer a vindo mercado para alimentos.
12:49É exportar conhecimento,
12:51que vale tanto quanto ou até mais do que a gente precisa de alimentos.
12:54Então, há um espaço para o Brasil fazer essas coisas.
12:56Mas era muito consistente.
12:57A COP30, inclusive, agora,
12:59novembro passado, venha no Pará,
13:01mostrou que a nossa tecnologia tropical
13:04é replicável no mundo tropical.
13:07Claro, observando as diferenças de solo, de clima,
13:12e até de instituições de cada país tropical.
13:14Mas o modelo desenvolvido no Brasil é replicável no mundo tropical.
13:17Então, não é só produção agrícola.
13:20É toda a cadeia produtiva agrícola organizada
13:23e nós conseguimos fazer competência com tecnologia,
13:26com logística em estrutura,
13:29com cooperativismo sólido.
13:31As cooperativas brasileiras hoje
13:32estão expondo por quase 60% da produção agrícola.
13:35É uma coisa notável.
13:36E as cooperativas têm 80% de pequenas e velhas produtores.
13:39Então, é um espaço de crescimento
13:41para todos os produtores no Brasil e no mundo.
13:45Sem dúvida.
13:46Nós conversamos, então, com o Roberto Rodrigues,
13:48ex-ministro da Agricultura,
13:50e também professor da área,
13:51que eu agradeço demais a presença aqui no Morning Show,
13:53com esclarecimentos,
13:55falando, então, sobre essa questão
13:56que os Estados Unidos foram importantes,
13:58a decisão do Trump para que esse acordo fosse celebrado,
14:01e principalmente para a gente não exportar
14:03somente os nossos produtos, que têm um baita potencial,
14:05mas enfatizando a tecnologia,
14:07porque a gente tem muita pesquisa por aqui também,
14:10das empresas voltadas ao agronegócio,
14:12e essa tecnologia precisa ser exportada.
14:14Muito obrigado.
14:16Eu que agradeço.
14:18Valeu.
14:19E olha só,
14:20aqui a gente também está repercutindo
14:22sobre o acordo, tudo,
14:24essas manifestações e mobilizações
14:26em relação a Paris,
14:28que é o principal mercado resistente,
14:30vamos dizer assim,
14:31os agricultores estão resistentes
14:33quanto à celebração desse acordo.
14:34O álbum de casamento não deu resultado.
14:36Mas, exatamente,
14:37é esse ponto que eu queria trazer.
14:39Mas as fotos são bonitas.
14:42Não, e gente,
14:43vamos combinar aqui.
14:44Vamos lá, tiram fotos juntos, tudo.
14:45Paris e resistência
14:47não é pessoal.
14:49Paris gosta de resistir a tudo,
14:50a todo momento,
14:51não é só com a gente o problema.
14:53É, eles veem uma madeira
14:55e eles pensam no incêndio
14:56ali na Champs-Elysées, né?
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