00:00Jornal Times Brasil exclusivo CNBC de volta e a gente vai falar sobre esse ano de 2025 que foi um ano histórico na economia mundial, especialmente pelo tarifaço do presidente Donald Trump que afetou globalmente as relações comerciais e também as políticas monetárias.
00:19E sobre esse assunto e a postura dos bancos centrais ao redor do mundo, eu converso agora com o Marcos Moreira, que ele é sócio da Gartem Capital.
00:30Boa noite Marcos, muito bem-vindo aqui ao nosso jornal.
00:33Queria começar já te perguntando para a gente fazer uma avaliação sobre o que você viu, como você enxerga esse ano de 2025, porque inevitavelmente o tarifaço foi o grande tema.
00:44Mas agora, como os bancos centrais ao redor do mundo se comportaram para ajustar suas políticas monetárias nesse cenário? Boa noite.
00:54Boa noite Renan, boa noite a todos que estão nos acompanhando aí nesse dia 25 de dezembro.
01:00Bom, na verdade no início do tarifaço, inclusive no fatídico 2 de abril, que foi conhecido como Liberation Day,
01:08inclusive eu estava em Nova Iorque nessa data com a agenda de reuniões, para justamente entender qual seria o sentimento do mercado com relação a esse tarifaço.
01:19Que até no momento nós acreditamos que os impactos são menores do que o mercado esperava.
01:27Então no início do ano era um cenário desconhecido.
01:30A primeira sensação dos bancos centrais era de fato de aguardar qual que seriam os reflexos nos principais indicadores econômicos,
01:40como por exemplo, inflação, o que isso poderia eventualmente mexer com a própria balança comercial dos Estados Unidos.
01:49E esse impacto foi sendo postergado.
01:52Então os bancos centrais iam acompanhando, não viam um impacto muito representativo,
01:58acompanhava-se os trimestres seguintes e agora nós chegamos ao final de 2025 com impacto na nossa percepção marginal,
02:07que não teve uma mudança de postura muito significativa, por exemplo, nas decisões de juros dos bancos centrais.
02:15Discutia-se no início do ano que o tarifaço poderia postergar, talvez para 2026,
02:23o início do ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos,
02:27mas o Banco Central Americano já vem cortando juros nas últimas reuniões,
02:32tanto que os Estados Unidos estão fechando agora 2025 com a taxa de juros entre 3,5% e 3,75%
02:39e a gente deve ter ainda mais alguns cortes no começo de 2026.
02:45Então o impacto que era desconhecido nos parece claro agora,
02:51mas melhor ou menos prejudicial para a economia como esperava-se inicialmente.
02:57Agora, obviamente, esse tarifaço acabou gerando mais barreiras comerciais,
03:03a gente teve uma guerra de certa maneira, isso acaba gerando uma certa pressão inflacionária.
03:08Isso contribui para a desaceleração das economias globais?
03:11Porque a gente vê muitas vezes órgãos revisando para baixo as economias globais,
03:17pelo menos a previsão de crescimento delas.
03:19E qual é a sua avaliação nesse cenário?
03:22Renan, talvez o principal impacto que o mercado esperava fosse uma recessão mesmo nos Estados Unidos.
03:30Na verdade, esse era o principal ponto de discussão entre os economistas,
03:34só que essa recessão não veio.
03:36Então nós devemos ter, por exemplo, um PIB nos Estados Unidos crescendo algo perto de 2%,
03:42que inclusive é próximo do PIB potencial,
03:46que é a capacidade de uma economia crescer sem gerar uma pressão adicional na inflação.
03:51Então, o FMI, por exemplo, projeta um crescimento global em 2025,
03:56fechando em 3,2%, marginalmente abaixo do que foi em 2024.
04:02Então, naturalmente, pode sim haver um impacto no crescimento das atividades econômicas,
04:10visto que você pode gerar um fator adicional restritivo,
04:14dado um aumento generalizado dos preços,
04:17visto que à medida que é imposta uma nova tarifa,
04:21essa tarifa tende a navegar ao longo de toda a cadeia produtiva
04:26e, no final das contas, o consumidor final acaba pagando
04:30e a leitura disso é mais inflação.
04:34Inclusive, se eu puder destacar um ponto de atenção para 2026,
04:41chama-se inflação.
04:42Os Estados Unidos estão cortando juros,
04:44com a inflação ainda acima da meta.
04:47Então, hoje, por exemplo, nós temos um juro real,
04:51que é aquele juro acima da inflação nos Estados Unidos,
04:54na casa é de 1%.
04:55Então, com a inflação rodando a 3%,
04:58mas ainda resistente,
05:01sem sinais claros de redução para os 2%,
05:05que é a meta do Banco Central americano,
05:09sem dúvidas a inflação é um indicador
05:11para ser monitorado de perto ao longo de 2026
05:15e foi um dos principais indicadores também acompanhados pelos bancos centrais em 2025.
05:21Agora, Marcos, como resposta ao Tarifácio,
05:24a gente viu aí deseiras de países buscando acordos bilaterais.
05:29O Brasil foi um deles, que foi em busca de novos mercados.
05:32Agora, esse movimento, você acha que ajudou a reduzir os riscos
05:36ou gerou uma economia global muito mais fragmentada nesse ano de 2025?
05:40Eu acho que fragmentou bastante, Renan,
05:44porque no primeiro momento foi dado um choque global
05:49onde as principais economias ex-Estados Unidos
05:53entenderam que quando há uma alta interdependência
05:58de uma economia como os Estados Unidos
06:00e você tem, paralelo a isso,
06:03uma medida com alto impacto como foi o Tarifácio,
06:06você acaba colocando a economia global em uma situação muito frágil.
06:11Então, fragmentou, sim, um pouco do mercado.
06:14Isso, por exemplo, favoreceu os países de economias emergentes,
06:19assim como o Brasil.
06:20Então, nós vimos um processo que nós chamamos de rotação de capital,
06:25ou seja, saiu um pouco de dólares de recurso dos Estados Unidos
06:30e foram direcionados, por exemplo, para economias emergentes.
06:34E o Brasil, por ser um emergente que é um dos principais exportadores
06:39de commodities do planeta
06:41e que exporta, talvez, um dos maiores juros,
06:44e talvez não, com certeza, um dos maiores juros reais do mundo,
06:48acabou se beneficiando.
06:49Então, nós vimos um alívio na pressão cambial aqui no Brasil,
06:54que, inclusive, favoreceu e ajudou o Banco Central,
06:58que deve fechar 2025 com a inflação
07:01muito próxima ali do teto da meta.
07:05Então, esse processo de fragmentação foi natural,
07:09no entanto, que nós podemos também observar que, com isso,
07:14nós vimos uma postura de aversão a risco,
07:17os próprios bancos centrais aumentando as suas reservas,
07:21nós vimos ativos como, por exemplo, o ouro,
07:24batendo as máximas nos últimos meses
07:28e, sem dúvida, essas tensões geopolíticas
07:31acabam agravando um pouco mais esse cenário.
07:35Agora, Marcos, queria ouvir a sua perspectiva
07:38sobre o futuro do tarifácio do presidente Donald Trump,
07:41porque, como você bem colocou,
07:43em abril ele começou numa versão maximalista,
07:45com aquele evento do Liberation Day,
07:47o dia da libertação,
07:49dizendo que quase todos os países do mundo seriam afetados.
07:52Depois, a gente viu até alguns acordos
07:54entre Estados Unidos, União Europeia,
07:56Estados Unidos e Reino Unido,
07:58mas o presidente Donald Trump recuou também
08:00em muitas tarifas.
08:01E qual é o futuro dessa política,
08:04que é a chave desse Trump 2.0?
08:08Excelente pergunta,
08:10porque o Trump de 2025
08:12foi rodeado de incertezas.
08:15Acho que quem lê o livro,
08:16o jeito Trump de fazer negócios,
08:19conseguiu ter um pouco de familiaridade
08:21com o que aconteceu em 2025,
08:23porque a postura do Trump é justamente essa.
08:26Joga uma tarifa muito alta
08:28e efetivamente,
08:29após algumas negociações,
08:31após decorrido um prazo,
08:33o que fica é uma tarifa um pouco menor.
08:35Então, para você ter uma ideia,
08:37a tarifa efetiva,
08:39hoje, dos Estados Unidos,
08:40é algo perto de 11%, 12%.
08:43Vale lembrar que teve economias
08:45com tarifas de 50%,
08:47de 30%, de 20%,
08:50mas que após um período,
08:52essas tarifas diminuíram.
08:53Esse cenário de incerteza,
08:55sem dúvidas,
08:56ele deve continuar para 2026.
08:59O Trump deve continuar
09:01utilizando as tarifas
09:03como uma ferramenta de negociação,
09:06principalmente à medida
09:08que o impacto das tarifas
09:10não seja uma deterioração
09:13tão profunda da economia
09:14como esperava-se inicialmente.
09:17Então, à medida que a economia
09:18responda de maneira
09:19um pouco mais positiva,
09:21esse cenário,
09:23ele pode voltar à tona.
09:24O grande ponto
09:25que pode ser um freio de mão
09:27para o tarifácio
09:29é, de fato, a inflação.
09:31Porque vale lembrar
09:32que nós estamos diante
09:34de uma mudança muito significativa
09:36na presidência,
09:37no Conselho do Banco Central
09:39norte-americano,
09:40e a partir de junho do ano que vem,
09:42a gente vai ter um Banco Central
09:44predominante a favor
09:47de corte de juros.
09:48E se você tem
09:49uma inflação acima da meta
09:52em um momento
09:53onde os juros
09:54continuam caindo,
09:56não tem muito espaço
09:57para você flertar
09:59com a inflação.
10:00Então, sem dúvidas,
10:01o impacto inflacionário
10:03de novas sanções tarifárias
10:06ao longo de 2026
10:08pode
10:09adiviar um pouco
10:11esse receio
10:13do mercado
10:13de início
10:15ou de retomada
10:16de novas tarifas.
10:18Tá certo.
10:19A gente conversou
10:20com o Marcos Moreira,
10:21sócio da Garten Capital.
10:23Marcos,
10:24muito boa noite para você.
10:25Muito obrigado
10:25pela entrevista.
10:27Obrigado, Renan,
10:28e todo o time
10:29desse Brasil.
Comentários