00:00O tarifácio de 50% dos Estados Unidos aos produtos brasileiros está provocando o chamado efeito sanfona no frete marítimo.
00:08Logo após o anúncio da cobrança, os preços aumentaram.
00:11Porém, já há sinais de queda diante da perspectiva de interrupção dos envios.
00:15A gente conversa agora com Michel Rubsek, que é professor de gestão financeira da Fundação Vanzolini.
00:21Bom dia, professor. Seja muito bem-vindo ao Real Time.
00:24Bom dia, Marcelo. Prazer estar aqui com você de novo.
00:26Professor, é possível a gente saber ou tentar prever como é que vai ser o comportamento dos valores dos fretes de agora em diante?
00:34Olha, o que aconteceu foi que, num primeiro momento, os fretes cresceram ao redor de 30% com a pressa dos exportadores
00:43de tentarem embarcar suas mercadorias o mais rapidamente possível.
00:48Só que agora, se chegando perto do dia 1º de agosto, as mercadorias já têm que estar nos Estados Unidos antes de 1º de agosto
00:55para não sofrerem o tarifácio, então o frete praticamente voltou à situação anterior.
01:02Um exemplo, por exemplo, uma média de um container, 3, 4 mil dólares para envio para os Estados Unidos,
01:08subiu para cerca de 5 mil e agora voltou para o preço anterior.
01:12A tendência talvez seja até de uma queda no futuro, porque a demanda certamente vai cair.
01:18Eu tenho falado muito nos últimos dias da dificuldade de alguns setores, como o da pesca,
01:24de mandar produto para os Estados Unidos, porque, obviamente, são produtos perecíveis,
01:28eles têm que chegar lá dentro de uma determinada condição, né?
01:33Mas também porque essa distância marítima daqui para os Estados Unidos,
01:38ela talvez supere esse prazo de 1º de agosto aí.
01:41O senhor tem ideia de quanto tempo demora para um navio carregado sair, por exemplo,
01:44do Porto de Santos para chegar em algum porto americano?
01:47É, cerca de 7 a 10 dias, se for um porto na Costa Leste.
01:54Então, para mercadorias perecíveis, enfim, esse prazo praticamente já se esgotou,
01:59porque, enfim, tem todo o manuseio nos portos, às vezes atraso na entrega, no embarque.
02:06Então, praticamente, esse é um produto que a exportação está totalmente paralisada
02:13à espera de um possível adiamento ou alguma negociação que esteja acontecendo.
02:19Um produto que não seja perecível, por exemplo, se mandar hoje, ainda tem a chance de chegar lá antes do dia 1º, né?
02:25Ainda tem gente se movimentando para fazer isso?
02:28Tem, mas cada vez menos, né?
02:30Porque o risco é grande, né?
02:32E se chegar lá depois, se a tarifa já estiver em vigor, vai ser tarifado.
02:37Então, praticamente hoje, já reduziu bastante essa demanda.
02:42Essas empresas que transportam produtos com esses grandes navios cargueiros,
02:46elas são, na maioria, empresas estrangeiras, professor?
02:49Sim, sim.
02:50São praticamente todas multinacionais, enfim, que operam no mundo inteiro
02:54e que, enfim, vão realocar os navios para outras lotas,
02:58porque a tendência é que o movimento caia bastante, né?
03:01O impacto vai ser brutal para alguns setores, né?
03:05A gente tem visto aí reportagens, enfim, aço de laranja, aviões, enfim.
03:10Todos esses são produtos que, na sua maior parte, são transportados por navios
03:15e esses navios provavelmente vão reduzir a quantidade de disponibilidade
03:21para exportação para os Estados Unidos, né?
03:23É, obviamente, como o senhor disse, vai ter um impacto gigantesco
03:26em muitos setores da economia brasileira, mas, pelo que o senhor está falando aí,
03:30não vai haver um impacto nesse frete marítimo aí, nessa questão logística,
03:33porque são empresas estrangeiras, né?
03:35Não é uma coisa que emprega muita gente aqui no Brasil.
03:39É, enfim, esses navios operam no mundo inteiro, né?
03:42A demanda, desde o final da pandemia, tem estado muito aquecida, né?
03:47Os preços dos fretes nos últimos anos aumentaram bastante, né?
03:52E, certamente, essas empresas não vão ter dificuldades de realocar os navios
03:57para outras rotas, até porque é possível que o Brasil consiga outros mercados,
04:04pelo menos para a parte dos produtos, né?
04:05Então, é um mercado bastante dinâmico, onde a alocação de navio
04:10é uma coisa relativamente simples, né?
04:12Não é um produto, não é uma infraestrutura parada no lugar.
04:16Você consegue, simplesmente, redirecionar as rotas para a Europa, para a Ásia,
04:20que são os mercados, provavelmente, de estilo de parte da produção brasileira,
04:25que vai deixar de ser exportado para os Estados Unidos.
04:28Professor, uma questão crucial, agora, que se coloca nessa negociação
04:32entre Brasil e Estados Unidos, é se Brasília deveria retalhar Washington
04:36na questão das tarifas.
04:38Parece haver uma espécie de consenso aí, de que retaliar com uma tarifa flat aí, né?
04:43De 50%, ou seja de quanto for aí, não seja o mais inteligente,
04:48porque vai encarecer a produção brasileira,
04:51quando a gente fala de insumos que o Brasil importa dos Estados Unidos
04:56para a produção por aqui.
04:57Por outro lado, não é muito ruim chegar numa mesa de negociação?
05:00Com o outro lado, já pensando que você não vai retaliar,
05:03e que, por isso, tira um pouco dessa pressão?
05:06Olha, os Estados Unidos é um país bem mais poderoso que o Brasil.
05:10Tem ferramentas muito mais eficazes do que o Brasil tem para retaliar.
05:16Eu acho que é uma questão, basicamente, política.
05:19É necessário muita habilidade nesse momento.
05:23Uma complicação adicional é que o tarifácio parece ser motivado,
05:28principalmente por uma questão política, que tem a ver com o ex-presidente Bolsonaro,
05:34não necessariamente com a questão comercial,
05:36porque o Brasil, a gente sabe, os Estados Unidos tem superávit comercial com o Brasil.
05:41Então, a posição brasileira é uma posição complicada,
05:45mas a gente tem visto aí, das atitudes, um pouco imprevisíveis do presidente Trump,
05:51que uma retaliação pode levar a uma retaliação até muito pior.
05:56Enfim, tem falado aí de corte do GPS na reportagem anterior e outras medidas,
06:01eu particularmente não acredito,
06:04mas as ferramentas que os Estados Unidos têm contra o Brasil são muito maiores.
06:08E retaliar também significa que os produtos importados dos Estados Unidos
06:12vão ser mais caros para o consumidor e para os produtores brasileiros.
06:16Então, eu acho que é um assunto que tem que ser tratado com muito cuidado e com muita delicadeza.
06:21Agora, a gente imaginando um cenário em que os Estados Unidos têm uma tarifa básica
06:26para a gente aí de 50% sobre os produtos brasileiros
06:29e a gente não aplique tarifa nenhum para os produtos americanos
06:32ou mantém uma tarifa bem mais baixa,
06:34isso mostra que a nossa balança comercial com os Estados Unidos
06:37vai ficar ainda mais injusta com o passar do tempo.
06:41E a gente sabe também que déficit comercial com um país grande como os Estados Unidos
06:44não é algo muito desejável a longo prazo para a nossa economia, né, professor?
06:48O Brasil exporta basicamente commodities, uma coisa de aviões também,
06:55mas basicamente commodities e importa produtos com maior valor agregado,
07:02computadores, máquinas.
07:05E para o Brasil restringir essa importação também é um prejuízo para a nossa economia.
07:11O Brasil tem amplos superávit com o mundo de uma forma geral,
07:15então seria possível administrar um déficit com os Estados Unidos, né?
07:22Mas não é desejável que esse déficit cresça tanto também, né?
07:26Olha, aqui eu acho que é uma questão onde as autoridades têm que ser muito racionais, né?
07:32Não dá para reagir com o fígado, né, simplesmente por uma questão de orgulho nacional.
07:37A gente viu o que aconteceu com a Colômbia, que teve algum tipo de tentativa de retaliação
07:41e levou a alguma coisa muito pior.
07:44Não me lembro exatamente qual foi o tema, mas aconteceu logo no início da questão das tarifas, né?
07:49Então, eu acho que é um negócio que basicamente necessita de muita diplomacia e menos bravatas.
07:56Tá certo. Michel Rubicek, professor de gestão financeira da Fundação Vanzolini,
08:01muito obrigado pela sua participação e bom dia.
08:04Bom dia, eu que agradeço.
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