Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 7 meses
CEO da Ogilvy e chairman da David relembra como entrou na publicidade pela “porta dos fundos” e fala sobre a importância das referências aleatórias para a construção de um repertório que seja interessante para a criatividade e os negócios
Transcrição
00:00Meu convidado de hoje já cantou em karaokê na Liberdade para conquistar clientes, já foi expulso de uma entrevista de emprego
00:06e bateu na porta das principais agências do país de um jeito inusitado.
00:11Há quase três décadas na OGV, uma das principais marcas de agências globais,
00:16ele responde como CEO da Operação Brasileira e como Chairman e cofundador da David, que é a agência irmã da OGV.
00:23Eu sou a Isabela Leste e esse é o podcast A Ideia e hoje eu tenho o prazer de conversar com o Luiz Fernando Musa, seja muito bem-vindo.
00:31Obrigado Isabela, obrigado pelo convite, é tudo verdade, hein?
00:34É tudo verdade.
00:41Essa história aí de ter sido expulso, você me contou numa entrevista que a gente fez,
00:48para a minha mensagem um tempo atrás, vamos relembrar essa história, por que você foi expulso, o que você fez?
00:54Não, então, eu comecei primeiro na HCA Propaganda, que ficava ali em frente à CBBA, ali na Avenida Rebouças,
00:59e fui trabalhar com o Irã Castelo Branco.
01:03Comecei na HCA como redator, como fazendo um pouquinho de tudo, era uma agência pequena,
01:08foi ótimo, assim, nada como aprender podendo fazer um pouco de tudo,
01:12e o Irã foi um dos meus mentores ali, com 17 para 18 anos eu comecei.
01:19Estava entrando na faculdade, comecei a fazer o estágio, acabei ficando por lá,
01:24trabalhei com o mercado imobiliário, fazia texto para lançar, dei nome para um monte de prédios.
01:28De lá, eu resolvi sair, isso foi plano Collor ainda, 1990, cara, velho, hein?
01:33E aí eu saí, resolvi, vou sair, na época alguém falou, vou abrir uma agência no Rio de Janeiro,
01:42queria que você viesse, aí veio o plano Collor, não tinha agência no Rio de Janeiro,
01:46aí não tinha nada, aí eu fui procurar emprego, aí fui trabalhar na House da Coelho da Fonseca,
01:53que eu, de novo, mercado imobiliário, eu já trabalhava ali com varejo e tal,
01:56nome de prédio, vendendo apartamento ali, perdizes, tem uns 150 prédios ali,
02:00que o nome do edifício eu que escrevia ali, entendeu?
02:03A fase do nome italiano, a fase do nome francês e por aí vai.
02:09E aí eu fui trabalhar, aí eu falei, não, preciso sair disso aqui, procurei emprego,
02:14num classificado de jornal naquela época, aí achei emprego na Sojei,
02:18ficava aqui pertinho, na Alameda Campinas, e era uma agência japonesa,
02:23e fiquei uns dois anos lá, era uma agência pequena, só tinha clientes japoneses,
02:27o diretor-geral da operação era japonês do Japão, ela era uma subsidiária de uma empresa
02:34que era a terceira ou quarta agência do Japão e só tinha no Japão.
02:39E eu cheguei a ser convidado com vinte e poucos anos, vinte e um, vinte e dois anos,
02:44era bem novo mesmo, a ir morar no Japão, falei, você acha que você é muito legal,
02:48você é muito bom, você não quer ir para o Japão?
02:49Eu falei, meu Deus do céu.
02:51Quantos anos você tinha?
02:52Vinte e pouquinho, eu tinha acabado de me formar, vinte e três, vinte e dois, sei lá,
02:57eu devia ter uns vinte e dois anos, e não era o que eu queria,
03:01e naquela época também estava começando no Brasil, assim, núcleos de especialização em cliente japonês, sabe?
03:07A Fisher tinha isso, agências tinham uma coisa, assim.
03:12Aí vem a história do karaokê, porque eu realmente abracei a cultura, entendeu?
03:16Então, assim, tinha os jantares, uns karaokês, ia o cliente de tudo quanto é concorrente,
03:21se encontrava ali, japoneses mesmo.
03:24E cantei em japonês, tá?
03:25Não é que eu cantei, Fábio Júnior ali, mandei, eu lia em linguagem ocidental a letra em japonês
03:31e cantei em japonês.
03:32Foi muito mais um gesto de mostrar, ó...
03:35Tô dentro.
03:35Tô dentro, tô afim e tal.
03:37Foi uma época boa, assim, porque eu dormia pouco, assim, sabe?
03:41Ia, bebia, jantava, era...
03:43E no dia seguinte, nove da manhã, todo mundo lá, bom dia, tudo bem?
03:47Como se nada tivesse acontecido na noite anterior, né?
03:51E aí eu falei, pô, na verdade, eu preciso tentar ir pra uma das agências grandes do mercado.
03:59E mandei meu currículo pra vários lugares, tá?
04:03Bom, essa é uma outra história, mas enfim.
04:05Aí eu comecei a buscar contatos.
04:07E na época, eu tinha uma pessoa que conhecia um irmão que tava voltando pro Brasil,
04:14que tava assumindo uma posição numa agência importante, das grandes agências do Brasil aqui.
04:23Eu mandei meu currículo pro irmão do amigo do irmão.
04:26Eu sei que um belo dia toca o telefone e...
04:31Olha, tal pessoa, não vou falar nem o nome da agência, gostaria de falar com você.
04:36Eu falei, pronto, aconteceu.
04:38Vou pra uma agência legal, grande e tal.
04:40Não que eu sou gente não fosse legal.
04:42Era, mas eu queria dar um passo...
04:46Aí eu cheguei na entrevista.
04:47Essa pessoa tava brasileira, tava acabando de chegar no Brasil.
04:50Sentei na frente dele e ele falou assim,
04:52ah, você atende tal conta, né?
04:53A gente atende uma conta concorrente aqui.
04:55Ah, eu sei, acho que é até por isso que vocês me chamaram e tal.
05:00Ah, mas você...
05:02Estamos falando em 90 e bolinha, tá?
05:04Tá.
05:05Mas você trabalhou aonde?
05:07Ah, trabalhei aqui, fiz mercado de imobiliário.
05:09Ah, tá.
05:09Mas nunca trabalhei em multinacional?
05:11Falei, não.
05:12Você...
05:13Não.
05:14Eu falei, ué...
05:15Aí o cara começou a bater.
05:16Eu falei, ah, então tá, mas...
05:18Se eu não posso vir pra cá, já que você trabalhou em agências assim, assado,
05:23você não pode me indicar?
05:24Não, eu não posso.
05:25Imagina, pra você, você tem que ser estagiário em algum lugar.
05:28Eu não conheço esse nível de pessoas.
05:30Ah, sim, tá?
05:31Aí o cara foi batendo, batendo, e chegou uma hora e eu falei assim, ó, seguinte, irmãozinho,
05:35deixa eu te falar.
05:37Você falou que eu tô fora do mercado, que eu não sirvo pra nada, mas vem aqui, ó.
05:40O teu cliente, que é concorrente do meu, tava comigo no karaokê ontem e falou que a
05:44campanha que vocês acabaram de botar no ar aí, foi um horror, não funcionou.
05:49Tá bem insatisfeito.
05:50Tu sabia disso?
05:51Porque eu tô fora do mercado, vai ver, que eu tô sonhando com isso.
05:54Mas não esquenta não, não tenho a menor vontade de trabalhar aqui.
05:57Como assim?
05:59Eu vou chamar os seguranças pra te tirar daqui.
06:02Eu falei, mas que chamar a segurança?
06:03Não precisa não.
06:04Tô indo embora.
06:05Aí eu falei, pô, acabou minha carreira agora, tipo.
06:08E saí.
06:09Saí e realmente, assim, cheguei em casa mal.
06:12Falei, bom, fim da linha pra mim, vamos pensar em outra coisa.
06:17Porque eu achei que tinha sido isso.
06:19Mas foi bom, porque no outro dia eu chego na Sojei e eu tava determinado realmente a ir
06:29pra uma agência grande no Brasil.
06:30Uma das agências, na época, você tinha, sei lá, era a Ogre, era o MAP, era a Léo
06:37Boulinê, era o Young na época, enfim, você tinha lá.
06:40E essa agência que você fez a entrevista e foi expulsa era uma dessas?
06:43Não era uma dessas.
06:44Mas era uma grande.
06:45Eu não vou dar muito mais elementos aí, mas não era uma dessas, mas era uma que
06:49tava surgindo magnânima, assim.
06:56Aí eu cheguei no outro dia na agência e falei, cara, paciência, eu vou pra aquele
07:00rolê, vou mandar currículo por aí.
07:03Mandar currículo pra quem tá assistindo a gente, assim, na época era cartinha mesmo,
07:07tá?
07:07Não tinha e-mail, não tinha nada disso, era correio, né?
07:11E você escreveu à mão?
07:12Não, eu tava folhando um anuário de ilustração e vejo uma ilustração de executivos escalando
07:22o pão de açúcar no Rio de Janeiro e um bondinho vindo com um executivo lá dentro
07:29dando tchauzinho.
07:30Eu olhei aquela ilustração e falei, nossa, isso aqui é bom.
07:32Aí eu falei assim, ó, neste bonde sirvo até café, era o título, e no bondinho eu
07:42botei o nome das empresas.
07:44Então era Standard Home, Young Home, Almap BBDO, acho que já era Almap BBDO, Salis,
07:54enfim, eram suspeitos da época ali.
07:56Mas mandei pra uns 20 lugares, tá?
07:59E como é que eu achei pra onde mandar?
08:00Olhava no anuário de agências, presidente e vice-presidente.
08:05E aí mandei esse anúncio e mandei atrás meu currículo, que basicamente era a minha
08:10experiência na HCA, depois na House da Coelho da Fonseca e depois na Sojei.
08:19E eu falei, ó, qual que você precisar, tamo aí.
08:24Aí eu tô voltando pra casa dali a uma semana, botei tudo no correio, mandei pra todo mundo.
08:30Não acreditei que ia dar certo, né?
08:32Eu falei, bom, sei lá, tentei um approach, tinha 3, 4 anos de experiência no mercado,
08:36tentei um approach maluco e falou, vou começar do zero em algum lugar.
08:41Um belo dia, tô na minha casa, toco o telefone, telefone fixo, alô, tá?
08:45Queria falar com o Luiz Fernando Musa e tal.
08:47Ah, sou eu. Ah, aqui é a Angélica Armentano, da OGV.
08:52Eu falei, aí tá, tem alguém que sabe desse rolê e tá me zoando, alguma amiga, alguma coisa assim.
08:58Não, é sério, não sei o que.
08:59Aí no dia seguinte tava eu lá na OGV e dali a uma semana eu comecei.
09:06Você começou.
09:07E comecei atendendo localiza, seminovos localiza, vendendo carro usado, fazendo anúncio de tijolinho de jornal.
09:15Então, já era o varejo ali, né?
09:17Esse varejo, eu vinha do mercado imobiliário.
09:20E a Angélica falou assim, eu não sei por quê.
09:22Eu tinha 10 indicações de pessoas que podiam vir, mas tal pessoa tá saindo, tal pessoa tá saindo, eu preciso de uma pessoa pra fazer aqui.
09:29Mas assim, a Angélica me contratou a minha chefe, que seria a minha chefe, saiu de licença pra casar ou pra ter filho.
09:39Aí dali a três meses a Angélica saiu, foi pra DPZ e aí eu tava sozinho numa agência que era enorme pra mim na época, perto do que eu tinha trabalhado,
09:49com uma conta de varejo e aí eu era tudo na conta.
09:53Eu era o redator, o atendimento, o diretor de arte, fui fazendo conexões na agência e dali a seis meses a Localiza procura alguém dentro da agência importante lá pra dar o feedback.
10:04Todo mundo achou que era pra perder a conta.
10:07E é pra falar que assim, tava na melhor relação da história.
10:10E aí uma outra pessoa da agência, a Iná, que liderava o Nilever na época, me puxou pra trabalhar no time dela e entrar na...
10:19E a partir daí foi.
10:21E aí foi.
10:22E aí dali a dez anos, tive chance de sair algumas várias vezes, acabei ficando sempre.
10:29Depois de dez ou doze anos na Ogrovi, já com a chegada do Sérgio, já o Sérgio já tava lá, eu fui assumindo tudo que era o Nilever.
10:37E aí teve a chance de...
10:39Aí a gente, eu, Anselmo e Gaston, tivemos a chance de fundar a David fora, fora do grupo.
10:45Isso já, bem depois.
10:46Isso já, bem depois.
10:47Quinze anos depois.
10:49Então assim, eu também tive a chance de dentro da Ogrovi empreender, lançar um negócio e tô lá, sei lá, tô lá.
10:56Mas foi assim, e fui expulso, cantei no karaokê, faltou alguma coisa aí daquelas mentiradas no começo?
11:02Você falou que é tudo verdade, hein?
11:04É tudo verdade, porque é mesmo.
11:05Mas daí você teve chances de sair.
11:09Você faz parte de uma geração que fica bastante tempo ainda nos empregos.
11:15Porque hoje a gente tá nesse debate todo de geração Z que não fica mais de dois anos no emprego.
11:22Então, olha só.
11:23Eu acho que a grande questão...
11:30Eu sou de uma geração onde esta troca era menos comum, seja em agência ou seja em qualquer lugar.
11:39Mas tem um detalhe aí também.
11:41Eu sempre tive uma consciência do que eu queria.
11:46E o difícil hoje é as pessoas saberem o que elas precisam e o que elas querem.
11:51Porque problema a gente sempre vai ter.
11:53Às vezes a gente quer só trocar de problema.
11:56Beleza, mas sair daqui pra lá ou de lá pra colar, beleza.
12:01Muitas vezes você tá só trocando de problema.
12:04Mas eu sempre fui muito inquieto.
12:06Eu tive convite pra ir pra cliente.
12:10A pessoa que me expulsou da agência me chamou, tipo, oito anos depois, pra ser contratada em outro lugar.
12:22E você falou o quê?
12:23Eu não falei nada.
12:24Eu fui, quando eu descobri que a entrevista era com esta pessoa, eu falei...
12:29Fudeu.
12:31A pessoa me entrevistou como se nunca tivesse existido aquele acontecimento de cinco anos, seis anos pra trás.
12:39E eu acho que eu não sou uma pessoa tão difícil na época de ser reconhecido fisicamente.
12:44E não foi um episódio que a pessoa esquece, né?
12:46Mas isso também aconteceu.
12:48E aí eu já queria...
12:49E assim, tive chances.
12:51E aí, assim, sempre eu tava aprendendo.
12:54Eu não tava buscando um benefício na hora.
12:56Apesar de não ter grana e dinheiro ser importante,
12:59eu tinha uma coisa e eu tinha uma gratidão à Ogreve.
13:04Porque foi a única agência que me abriu a porta.
13:08Eu tinha uma gratidão imensa aquilo.
13:10E eu tava num espaço ali, com a Unilever, onde eu aprendia muito.
13:15Era treinamento pra todo lado, muito por conta da Unilever.
13:19Minha primeira viagem internacional...
13:20Primeira vez que eu fui pra Europa, eu fui graças à Unilever e à Ogreve.
13:23Pra uma reunião internacional de conforto.
13:27Então, assim, eu tinha um senso de gratidão e um plano de correr maratona.
13:34Eu acho que o grande desafio hoje é como é que você equilibra essa expectativa jovem,
13:42que é dormir frustrado e acordei com a vida mudada amanhã,
13:46porque tem esse valor hoje, tudo pode ser transformado de um dia pra noite.
13:53Essa coisa do instantâneo, do sucesso instantâneo, do dinheiro instantâneo.
13:57Porque tudo que você consome, transforme sua vida em um dia.
14:01Cara, e as coisas levam tempo.
14:03De certa forma, eu sempre tive, pra mim, que eu tava numa corrida de maratona, na profissão.
14:13E você falou que sempre soube onde você queria chegar.
14:16Sempre soube.
14:16Que lugar que era esse?
14:17Ah, eu queria...
14:20Por ter passado, principalmente no começo da minha carreira,
14:24por diferentes lugares e pequenos lugares,
14:26aí eu chego numa operação grande como a Ogreve.
14:28Eu já, de cara, vi a diferença do que era um mundo onde todo mundo tem uma bomba,
14:34você pula em cima e vamos pro pau resolver, independente se você é jornalista
14:38e eu sou o redator e ele tá lá gravando.
14:41Se você tem um problema, eu faço a sua, depois ele faz a minha.
14:45Sabe, uma coisa assim, onde já não tem tanta linha.
14:49Você tem um problema, vamos resolver o problema.
14:51Isso vinha desse mundo pequeno e vinha desse mundo instantâneo.
14:55O varejo tinha isso, o varejo imobiliário.
14:57Pô, tem que fazer a convenção pra corretor da Lopes.
15:02Quem vai pra convenção do corretor?
15:03O influenciador da época, o creator da época era o Miele, a Dercy Gonçalves, sabe?
15:09A gente fazia esse rolê e lançava o nome no prédio.
15:11Aí tinha que fazer o mapa da região.
15:14Tu sabe como fazia mapa de região de mercado imobiliário nessa época?
15:18Eu não vou lembrar o nome do cara.
15:19Se eu não me engano, o ilustrador chamava Chicão.
15:22Ele fazia acho que 100% dos mapas de empreendimentos imobiliários em São Paulo.
15:27Você não tinha o mapa da cidade.
15:29Você tinha lá o guia de ruas, etc., que era editado ano a ano.
15:33Então você vai lançar um prédio aqui na Alameda Santos.
15:36Ele vinha de moto e percorria tudo de moto, desenhando.
15:41Tem a padaria tal, tem o restaurante tal.
15:44Porque ele tinha a moto dele e fazia isso.
15:46Ele fazia quase todos aqueles mapas ilustrativos que iam nos folhetos de lançamento de prédio.
15:51Então tinha essa coisa de resolver o problema e criativamente dar formas pra resolver o problema.
15:57Aí você cai numa agência grande, estruturada, onde você tem este, aquele, departamentos e processos, isso e aquilo.
16:03Eu falei, cara, esse rolê não vai funcionar muito pra mim aqui.
16:07Mas eu caí numa conta de varejo e aí eu fui fazendo as minhas conexões ali dentro.
16:12Não, tem que produzir o filme.
16:13Tá bom, mas...
16:15Quem é o cara de produção?
16:17Não tem.
16:18Peraí que eu vou ligar pro cara da produtora tal que eu conheço.
16:20Vai sair o filme.
16:21Eu acho que essa questão, assim, temos um problema e esse problema é meu.
16:27Eu não vou falar, já que a Isabela Alessa não veio, não vamos fazer o programa hoje.
16:31Esta atitude que a responsabilidade é do outro, isso tem uma coisa que mudou.
16:41Então eu vim de um lugar onde eu tinha que dar certo, não tinha rede de segurança.
16:45Temos um problema, vamos atrás, vamos tentar resolver.
16:48Se a gente não conseguir resolver, beleza, olha, não conseguir resolver.
16:52Mas tentar...
16:54Então vem um pouco dessa escassez, tá?
16:57Então eu já vim desse lugar aí.
16:58E acho que foi isso um pouco que eu imprimi na Ogilvy também.
17:01Dessa coisa, desse espírito de fazer, que tá lá no David Ogilvy, tá?
17:05Por acaso...
17:07É, o David Ogilvy, ele é meio que um...
17:10E eu me encontrei muito na filosofia do cara, entendeu?
17:15Quando você lê David Ogilvy, quando você fala dos hábitos, tudo isso, você fala, cara,
17:18meu lugar tá aqui.
17:19Então tinha isso.
17:20E eu sabia que eu tava numa maratona.
17:22E eu queria chegar num lugar onde eu pudesse imprimir.
17:25O meu estilo ia causar impacto maior do que estando ou dentro do departamento de criação,
17:32ou estando dentro do atendimento, ou estando só no cliente.
17:35Então eu tinha isso, claro.
17:37E a pressão do mais cinco dinheiros pra cá ou menos cinco dinheiros pra lá,
17:42era uma coisa que pegava pra mim, mas que não me movia necessariamente a uma troca.
17:49Eu tive a chance uma vez...
17:52Cara, assim, e aí é uma história que eu acho que eu nunca contei.
17:57Nunca contei nem pros meus pais.
17:58Minha mãe tá viva e meu pai não, mas assim...
18:01Em dois mil e...
18:03Sei lá, dois mil e um?
18:05Não, em dois mil...
18:07A Silvia Leado, ela era a diretora global de Dove no mundo.
18:12A gente tava começando a história de campanha de Melbilt, eu envolvido aqui por Brasil e tal.
18:18E ela queria que eu fosse pra Ogreve, Chicago na época,
18:23pra liderar a Dove nos Estados Unidos e ser a pessoa dela da agência lá.
18:29Então ela falou com a CEO Global na época.
18:31Eu falei, hum, que procói.
18:32Eu cheguei a ir pra Chicago e tal.
18:34E era uma proposta muito legal.
18:38Eu era jovem, tinha recém-casado, não tinha filho, tava saindo de uma posição aqui pra ser o cara.
18:47E a Silvia, pô, tu tá comigo, vem pra cá.
18:49Isso aconteceu real, tá?
18:50E aí, assim, tudo perfeito.
18:53Ia morar em Chicago, ganhar em dólar, proposta adequada, tudo certo.
19:00Só que o meu coração falava pra eu não ir.
19:05E não por razões profissionais.
19:07Tinha meu pai vivo, tinha minha mãe, tinha meus avós,
19:10que era muito forte pra mim essa conexão com o interior de São Paulo, com Limeira.
19:16E eu tinha acabado de casar.
19:18Eu falei, será que eu indo pra lá, qual é o próximo passo?
19:22Você vai pra uma posição global.
19:25Depois dessa posição global, você sai pra outra posição global, em outro lugar.
19:28É uma vida mais que...
19:30O que eu via de carreira era uma coisa que eu ia pular de um lugar pro outro,
19:35gerir uma vida internacional.
19:37Eu falei, mas eu não quero, eu quero estar num lugar meu no Brasil e fazendo a coisa acontecer.
19:43E tinha essa minha ligação com a família que eu queria estar perto deles.
19:47Que pra mim era importante.
19:50E eu nunca...
19:51Óbvio que minha família, cara, que legal, vai morar nos Estados Unidos e tal.
19:54Eu não falei, por causa de vocês eu não vou.
19:58Isso foi de 2001, tá?
20:01Um pouquinho antes do 11 de setembro, que eu tava nos Estados Unidos, inclusive, de 2001.
20:06Mas foi um pouquinho antes.
20:09Isso foi de 2000 pra 2001.
20:112003 ou 2004 eu perdi meu avô, 2006 eu perdi meu pai.
20:17Hoje, olhando pra trás, eu entendo que eu fiz a escolha certa.
20:19Aqueles cinco anos ali, todo mundo precisava de mim aqui no Brasil.
20:24Tinha nada a ver com o lado profissional.
20:25Então, assim, nunca pra mim foi só o lado profissional.
20:29Sempre foi a profissão e tudo que tá no entorno.
20:33Então, eu acho que assim...
20:34E eu sempre olhei desse lugar.
20:36Porque, às vezes, principalmente depois da pandemia, você vê que a gente perdeu a fricção de trocar emprego.
20:42Trocar de emprego, né?
20:43Com o negócio de home office, às vezes é só um e-mail pro teu chefe e trocar a senha do teu celular se sai de um ambiente A pro ambiente B.
20:50Então, a pessoa que ganhava um dinheiro, que se tem uma proposta pra ganhar 1,3 dinheiros, faz essa troca.
20:58Talvez, antigamente, você faria essa troca.
21:00Um dinheiro versus dois dinheiros.
21:03Porque você tem...
21:04Pô, tem a Isabela lá que eu quero encontrar porque tem uma troca.
21:07A minha chefe é ela.
21:08Não sei quem.
21:09Tem a cultura.
21:10Tem isso.
21:10Quando você vai pra dentro de casa, essa fricção na pandemia, a troca de emprego na pandemia foi brutal.
21:15Em níveis onde a mudança de salário é assim, tá, mas eu vou ganhar mais três dinheiros aqui porque eu só tenho que trocar a senha do meu computador e passar a trabalhar virtualmente com outras pessoas.
21:27E tem também, eu acho, que essa angústia de ser muito rápido.
21:33Essa rapidez que a gente tem no mundo pra tudo.
21:36Quero saber onde fica tal coisa.
21:38Vem aqui.
21:38Quero ter tal pergunta.
21:39Vai no...
21:40Tá tudo ali.
21:40Tá tudo ali instantâneo.
21:41Vou ver um filme.
21:42Você liga pra você...
21:43Essa pressa tá em tudo.
21:46Então, uma das coisas que eu falo também é que a gente tem que ter muito cuidado com essa pressa porque nem tudo na vida vem assim.
21:53Você não emagrece na pressa.
21:55Hoje em dia, com os remédios, talvez você emagreça na pressa, mas você não emagrece na pressa.
22:00Você não faz uma...
22:01Eu brinco com o meu filho, mas o meu filho do meio, que tem 18 anos, menor aí, ele aprendeu a fazer churrasco e tal.
22:09E você não faz uma cortela no bafo de seis horas em seis minutos.
22:15Então, a gente também precisa começar a entender o valor do tempo e passar o valor do tempo pra essas gerações.
22:23Porque tem coisas que demandam tempo.
22:26Eu tava...
22:28Eu até cheguei a escrever um texto.
22:31Não foi publicado até no Valor.
22:33Eu saí do show do Caetano com a Bethânia, meio impactado.
22:37Falei assim, cara...
22:39Foi um baita show.
22:40Não, mas não pelo show só.
22:42Quanto tempo demora pra você construir...
22:46Esse legado.
22:47Esse legado.
22:49Aí você olha assim...
22:51Tá aí até...
22:52Se não me engano, acho que é Globoplay, né?
22:54Homem com H e Raul Seixas.
22:56São duas séries que estão...
22:57Duas minisséries.
22:59Não, um é filme e o outro...
23:00É, Homem com H é filme.
23:01É filme e o Raul Seixas.
23:03E você olha aquilo, você olha a história das voltas que o mundo teve que dar pra que a pessoa chegasse onde chegou.
23:12Seja o Neymato Grosso, que, porra, nasceu numa família, foi pra aeronáutica, depois foi pra Brasília cantar.
23:20Aí você pega a história, a trajetória do Raul Seixas.
23:22Queria ser músico, mas aí acabou vindo, acho que foi pro Rio de Janeiro, aí virou produtor.
23:27Aí depois...
23:28Então você vai vendo como a narrativa...
23:31Você vai entender a história quando você olha pra trás, não quando você olha pra frente.
23:36E quando a gente traz isso pra publicidade, existe uma pressa também, de todos os lados, pra se atingir resultados e tal.
23:45Dá pra traçar um paralelo dessa pressa com o que vem acontecendo agora, nesse momento?
23:51Total.
23:51Com o Cannes, com a busca por prêmios, o videocase que é adulterado.
23:57Como é que você tá vendo esse momento pra criatividade?
24:00Eu acho que assim, eu não acho que as coisas aconteceram por pressa, tá?
24:05Acho que assim, vamos só separar.
24:07Uma coisa é ética, outra coisa é essa excitação em querer ser, tá?
24:14Em querer fazer.
24:16Eu, como brasileiro, porque teve determinados momentos que eu era o único brasileiro na sala, dentro do ambiente que eu tava em Cannes ali, lá no espaço da Ogo, com a David e tal.
24:27Tiveram alguns momentos que eu era o único brasileiro.
24:31No ano do Brasil, a vergonha foi pra todo mundo.
24:36Agora, o que leva a isso?
24:43O que faz isso?
24:45E você lê, tava ontem, antes de ontem, na Ad Age, uma discussão grande sobre isso, enfim.
24:51Acho que a própria Minha Mensagem tá fazendo uma matéria também sobre esse tema.
24:55A gente tem que tomar muito cuidado, porque assim...
24:57E eu saí de Cannes assim, eu falei, voltei pra década de 90, cara.
25:01Sabe?
25:03Onde tudo valia.
25:05Não, não vale.
25:06E assim, pra mim foi pior ainda, porque eu acho que num ano, onde a indústria inteira tá em xeque, onde o talento como um todo tá em xeque,
25:16a gente perdeu uma grande chance de mostrar o valor humano diante de toda a tecnologia, como o melhor parceiro dessa tecnologia.
25:25Então foi um festival, de certa forma, que, assim, sei lá quantos festivais de Cannes eu já estive de todas as maneiras.
25:36Já como um ilustre desconhecido, já como agência do ano, já como musa da David, da Ogre, disso e daquilo, em várias versões.
25:44Mas você sempre sai de lá inspirado, ou sai de lá...
25:50Eu não...
25:52Definitivamente eu não saí desta forma, deste específico.
25:56Porque eu acho que como um todo a indústria perdeu uma grande oportunidade de mostrar o seu valor.
26:02E uma das coisas que Cannes tem de mais bacana é pro talento novo, que é pra deixar a ambição ali,
26:09pra você sair de lá se sentindo pequenininho, falando, quero fazer isso, quero conseguir fazer esse tipo de coisa.
26:17Então você ajudar essa pessoa começante, essa galera mais nova a sonhar, sair de lá com ambição e sair de lá renovado, falando,
26:27eu vou buscar mais, eu vou atrás de fazer mais.
26:31E aí quando você começa a ver...
26:33E a gente já é velho o suficiente também pra olhar algumas coisas e falar, tá, conta outra pra mim, né?
26:39Então assim, tem vários problemas.
26:42Ah, o festival está mudando agora.
26:44Também não vou culpar a inteligência artificial, porque também é muito fácil.
26:47Graças à inteligência artificial nos videocases que isso aconteceu.
26:51Não, gente, para tudo.
26:53Ninguém coloca uma ideia em Cannes sozinho.
26:57O festival tem sua parcela de culpa também.
26:59O festival, o anunciante, o ecossistema inteiro.
27:02Então, o que aconteceu fez mal não só pras empresas que fizeram, enfim, que forçaram a mão ali,
27:15mas pra todo mundo que ganhou de maneira bacana, também de maneira honesta.
27:21Porque é bom você ter um trabalho que ganha, que inspira, que dá uma inveja nas pessoas que iria ter feito,
27:28mas é que transforma o negócio do cliente, porque só tem razão da criatividade quando ela resolve um problema real,
27:36quando ela resolve e ela funciona.
27:39E tem coisas que funcionam e tem coisas que não funcionam.
27:42Mas eu acho que, assim, eu não sei se foi porque era o ano do Brasil.
27:47Também eu vejo uma discussão assim, não, porque as grandes holdings têm listas de quais agências mais criativas,
27:53porque se CEOs globais são premiados...
27:56Cara, eu acho que não é isso, tá?
27:57Essa ansiedade de Cannes sempre existiu.
28:01Essa vontade, essa ambição sempre existiu.
28:04Acho que isso não é o problema.
28:05Acho que o problema aqui é uma questão ética e de comportamento.
28:10Por que as pessoas estão tão desesperadas achando que vale tudo?
28:15Mas os fantasmas sempre existiram.
28:18De certa forma, o sempre eu não sei, mas de certa forma, eu acho que o festival, em alguns casos,
28:28eu acho que...
28:29É que por muito tempo depois parou isso.
28:33Quando eu comecei lá atrás, eu via isso com uma frequência maior.
28:39Depois eu acho que parou.
28:40Agora, assim, é muito bom quando você sobe no palco e vai pegar um prêmio para a Coca-Cola,
28:47para a Unilever, para, sabe?
28:49Pega a Dovis Kets, que foi, acho que, um trabalho transformador para um monte de gente que estava ali.
28:54Inclusive, transformou vidas em indivíduos ali, né?
28:59Hugo, Diego, Ikewey, eu, Anselmo.
29:02Tipo, foi um momento, assim, um trabalho que não só transformou a história da marca e criou um paradigma.
29:12A partir dali, tinha cliente que falava, me faz o Dovis Kets para a minha marca.
29:16Durante dois, três anos, aquele modelo serviu de base para muita coisa.
29:22Então, é completamente diferente.
29:24O valor é outro, entendeu?
29:25O valor é completamente outro, porque eu só não consigo entender como é que alguém que faz um fantasma,
29:33ganha um prêmio fantasma, deixa eu te falar uma coisa igual você usar qualquer coisa falsa, sabe?
29:41Você pode, nossa, isso aqui é falso, mas é igualzinho ao original.
29:45Mas você sabe.
29:46Então, para quê?
29:47Você, você que ganhou com alguma coisa falsa, não está enganando o júri, o festival, está se enganando.
29:58E isso eu acho medíocre, entendeu?
30:01Este é o problema.
30:03Então, assim, mas foi um festival esse ano que...
30:09Eu acho que a gente...
30:11A parte boa de tudo isso é que vai fazer a gente parar para pensar.
30:16Para pensar.
30:16E acho que o nosso mercado precisa de mais pensamento e menos pressa.
30:23E o trabalho que as agências vão ter para recuperar essa confiança, essa reputação,
30:31você acha que é uma coisa contornável?
30:35É engraçado, né?
30:36Porque há quantos anos a gente discute que o desafio de qualquer agência ou da nossa indústria
30:42é mostrar o valor para o cliente.
30:44Cara, se a gente está num negócio de mostrar...
30:47Primeiro que a gente fala que cria valor para o negócio do cliente, para as marcas do cliente.
30:52Nós temos que entender como é que a gente cria valor para o nosso negócio.
30:56E o primeiro valor que a gente tem que entender é faça coisas que te dê orgulho e dê orgulho para ele
31:06que transforma o negócio do cara.
31:09E que você fala, pô, entendi por que eu preciso de criatividade no que eu faço.
31:13que é para gerar um resultado maior, que é para fazer com que as pessoas parem e tenham admiração por aquilo
31:21e gerem uma consequência ali.
31:22O que a gente faz, ele é com um objetivo específico.
31:27Então, claro que é reversível, mas depende só do trabalho bem feito.
31:32Tem uma coisa que a gente tem que parar.
31:35Ah, eu acho que tem uma coisa importante que eu falei.
31:40Não foi em entrevista, eu estava falando na agência.
31:44Cara, chega.
31:45O mundo não é sobre narrativa.
31:47Porque se você olha para a política, é narrativa de um lado, narrativa de outro.
31:51Se você olha para ver...
31:53O mundo se tornou uma história de narrativa.
31:56Então, a narrativa se sobrepôs aos fatos.
31:59Esquece.
32:00Vamos tentar botar um pé no freio, vamos ao fato.
32:02Faz um bom trabalho.
32:03Este é o fato.
32:05Faz um bom trabalho, que gerou um resultado.
32:07Que...
32:08Ah, tá legal.
32:10Então, é que eu acho que também o mundo passou...
32:13E aí, eu não sou o cara que culpa a rede social, que culpa a tecnologia.
32:17Não.
32:18Eu acho que tudo isso está aí.
32:19E a gente tem que abraçar, usar e entender os efeitos disso.
32:23Mas, pelo contrário.
32:24Eu acho que a tecnologia mais nos ajuda.
32:26O que a gente tem que exercitar é...
32:29Vamos parar e pensar os prós e contras.
32:32Porque na vida tudo tem prós e contras.
32:34O que a gente faz e quais são os valores.
32:37Então, assim...
32:38A gente tem que tomar cuidado que a gente não está num jogo de quem tem a melhor narrativa.
32:43A gente tem que estar no jogo de quem faz o melhor trabalho.
32:46Isto eu acho que a gente perdeu.
32:50E talvez tenha uma geração que entenda que a narrativa, o storytelling, é mais importante do que o fato.
33:01Entendeu?
33:02Então, vamos voltar ao que importa.
33:03É o fato.
33:04Faz um bom trabalho.
33:05A verdade, seja para você primeiro, é a que conta.
33:09Eu acho que é um trabalho de reconstrução.
33:16É uma pena que a gente já tem que fazer um trabalho de reconstrução por conta da tecnologia, por conta do AI.
33:22A gente já tem que fazer esse trabalho de reconstrução pensando que tudo que a gente faz está transformando violentamente e rapidamente de uma maneira que a gente nunca nem viu.
33:32Agora, a gente ainda tem que pôr, para dentro dessa equação, também reconstruir uma reputação que nem estava lá em cima, assim, sabe?
33:44Como é que você faz isso, cara?
33:45Você só fala assim, confio em você ou você confia em mim se eu demonstrar isso.
33:51Você não fala assim, pode confiar em mim.
33:52Você fala, tá, legal, parabéns.
33:55É com o quê?
33:56Com o comportamento, todo dia.
33:57Então, assim, eu acho que a gente tem que parar de buscar grandes narrativas, que é o que o mundo está se tornando, e voltar aos fatos, entendeu?
34:05Tipo assim, me dá um fato.
34:07Ah, ganhei com isso, ganhei com aquilo, olha aqui, você viu.
34:10Outra coisa, o festival também, não o Cannes, qualquer festival, quantas categorias tem?
34:17Muitas.
34:18É assim, claro, é um negócio.
34:22E a indústria também foi para outras áreas.
34:24Mas o festival, ele premiava muito menos.
34:27Eu não fiz isso, mas quantos leões se distribuíam há 10 anos atrás e quantos leões se distribuíam hoje?
34:35Quantas categorias tinha e quantas categorias tem?
34:37Legal, eu entendo que o mercado expandiu, você tem diferentes coisas.
34:43Então, assim, isso também diminui o valor do prêmio.
34:48Então, assim, eu acho que a gente também tem que tomar cuidado com quantidade.
34:53Aí tem uma outra questão, o júri.
34:58Uma coisa é eu ter 10 categorias e preciso de 10 júris.
35:02Quantos júris Cannes precisa hoje?
35:04A hora que você abre o júri, você também tem que ter de jurados uma quantidade, talvez, de profissionais
35:14que tem menos experiência.
35:16Ser júri não é uma coisa simples.
35:19Ser júri demanda tempo, demanda critério, demanda ética,
35:24porque muitas vezes o jurado do país A ou do país B está lá para falar
35:27peraí que eu preciso checar se esse dado valeu, porque eu não tenho isso claro.
35:33Então, tem vários elementos, tem várias nuances.
35:38Não dá para chegar e falar, foi isto.
35:40Ou tal pessoa é um mau caráter.
35:42Para, eu também só acho que, assim, personificar em alguns indivíduos esse comportamento
35:47também é hipócrita.
35:49É muita gente envolvida em torno.
35:52Claro, é hipócrita.
35:53O que a gente tem que parar e discutir, assim, o nosso trabalho é sobre fatos.
35:59Então, assim, vamos voltar ao que interessa, o trabalho aqui na mão, entendeu?
36:04Mas é um momento, é o que eu te falei, a minha sensação saída de Cannes esse ano
36:10talvez tenha sido um dos anos que eu saí com o pior aftertaste do festival.
36:15Um gosto amargo ali.
36:16Muito.
36:16E com uma ligeira chateação de falar
36:21que merda essa história do Brasil.
36:24Porque o Brasil ganhou essa estampa lá.
36:26Isso colou na gente de maneira forte, assim.
36:31E você citou Dove Sketches e que Cannes é um lugar que você vê algumas ideias
36:36que você tem inveja, às vezes, queria ter feito.
36:39Ah, sim.
36:40Qual que é a ideia que você não fez e que você queria ter feito?
36:43Desse ano de Cannes, por exemplo?
36:47Da Vida.
36:47Puta, da Vida tem 8 milhões.
36:49Da Vida tem várias.
36:52De Cannes desse ano, se eu não me engano, é a FCB Nova York,
36:55que é dos áudios, do Closed Caption.
36:59Closed Caption.
37:00Cara, é genial.
37:03Aquele, para mim, é um case que você diz assim,
37:04você entendeu por que é legal a criatividade humana?
37:07Por que a criatividade é importante?
37:08Você está transformando coisas.
37:10E é um case que levou 6 anos para ser feito.
37:13Exato, exato.
37:15Mas, assim, eu nem sabia.
37:18Demorou 6 anos.
37:19Trabalho com academia, né?
37:21Com a academia de consulta.
37:22Para desenvolver isso.
37:22Não tinha referência aqui.
37:24Mas é genial.
37:26É a hora que você fala assim,
37:27caralho, eu quero fazer isso.
37:31Eu quero fazer isso assim.
37:32Entendi por que eu defendo criatividade fora do mercado publicitário.
37:37Porque, assim, é isso.
37:38Não precisava ter nascido...
37:40A criatividade se expressa de tudo quanto é jeito.
37:42Então, assim, é um trabalho bacana.
37:44Outro trabalho bacana, simples,
37:46da marca de...
37:48Marca própria lá, que a partir da inflação,
37:52falou, quer saber?
37:53Vou produzir meu produto e vou trocar a embalagem.
37:55Vou meter o preço na embalagem.
37:57É simples.
38:00É quase simplista.
38:03Mas é genial.
38:04Você fala, caralho.
38:05Agora, porra, tem coisas assim...
38:09Se eu for falar lá do meu começo de carreira, tudo.
38:12Tipo, Hitler, comercial da Folha de São Paulo.
38:15É genial.
38:16Entendeu?
38:17E, aliás, quem que eram as suas principais referências no começo da carreira?
38:21Porque você tem um tio-avô que era publicitário, né?
38:24Ele era referência para você?
38:26Não.
38:26Na verdade, eu era criança.
38:28Era a única pessoa do lado da família do meu pai,
38:31que sempre foi muito pequena.
38:33Era um tio-avô meu, Augusto de Ângelo,
38:37que ele morava na época...
38:38Ele era de São Paulo.
38:39Tio-avô mesmo, porque ele era tio do meu pai.
38:42Irmão da minha avó.
38:44Ou seja, mãe do meu pai.
38:45A única pessoa da família ali.
38:48E ele era publicitário.
38:49Ele começou numa agência,
38:52na época dos primórdios da publicidade.
38:54Eu morava aqui no Brooklyn, ali perto da...
38:57Hoje é a Berrine,
38:58mas ali era uma comunidade, aquele pedaço todo ali.
39:01Eu morava ali.
39:03E ele, quando vinha nos visitar...
39:04Meu irmão era afiliado dele.
39:07E ele vinha contando histórias
39:09da década de 70, da publicidade.
39:11Ah, fiz um comercial de margarina.
39:13Mila, margarina, que veio do milho e tal.
39:16E ele vinha contando essas histórias.
39:18E ele viajava para os Estados Unidos e trazia coisas.
39:21Olha, trouxe essa bala, trouxe esse brinquedo.
39:23Caralho, eu olhava aquilo.
39:25O que ele faz, entendeu?
39:27Ah, faz propaganda.
39:29E eu passei a assistir comercial na televisão
39:31e consumi aquilo, admirar.
39:33E ele ficou, acho que, 50 anos.
39:36Ele chegou a ser presidente da Thompson no Brasil.
39:39Depois foi na América Latina.
39:40Isso na década de 70, 80.
39:43Se aposentou, acho que final dos anos 80.
39:46E foi, assim, que despertou em mim
39:48muito mais lúdico,
39:50porque eu era uma criança nessa época.
39:52E aí foi a primeira inspiração infantil.
39:59E nessa mesma época, tinha o feriado da...
40:02Tinha o feriado.
40:02Tinha o seriado da feiticeira.
40:05Que era a Samanta, Tabata, Felina.
40:07E você lembra que o marido dela
40:09trabalhava numa agência de propaganda.
40:10Então, todo episódio...
40:12Ela tinha a magia...
40:14Todo episódio tinha um pedacinho do episódio da feiticeira
40:17que aparecia.
40:18E aquilo passava na televisão.
40:19Cara, então, assim,
40:23eu me agarrei e me apaixonei por publicidade muito cedo.
40:27Muito cedo mesmo.
40:28Inspirado por ele.
40:29E aí, quando eu comecei a...
40:31Quando eu escolhi fazer faculdade de comunicação...
40:35Prestei para administração, comunicação,
40:37mas eu fiz mesmo ESPM.
40:40ESPM.
40:40E 89 para 90.
40:46Na época, quem já estava começando ali?
40:51Marcelo Serpa já estava nos primórdios ali da UMAP.
40:56Acho que você tinha ali Washington, sem dúvida.
41:00Todo mundo da DPZ.
41:01Ali naquele começo de DPZ.
41:04O Fábio veio um pouquinho depois,
41:08mas sempre foi um cara que...
41:10Acho que foi uma baita referência em tudo que fazia.
41:17Caralho, esqueci alguém.
41:18Mas, nessa época, era muito essa galera.
41:20Era DPZ, Washington...
41:23Washington muito, assim, né?
41:24Porque você acertou.
41:25Peguei essa época.
41:26Hitler, Cachorrinho da Cofap.
41:28Primeiro Sutiã.
41:29Teve muito...
41:32Claro que não foi ele sozinho,
41:34mas acho que o legado é gigantesco
41:37e essa galera aí, né?
41:39E hoje, quem são as suas referências?
41:43Está de sacanagem comigo, né?
41:45Eu acho que esse é um dos desafios que o mercado tem.
41:49Esse é um tremendo desafio que o mercado tem.
41:53Porque para onde a gente olhava naquela época,
41:55você encontrar referências
42:00e pessoas que se olhavam e te inspiravam.
42:04E eu era muito inspirado no mercado publicitário.
42:08Entendeu?
42:08Hoje, eu não sei se eu estou tão inspirado no mercado publicitário.
42:11Hoje, você busca suas inspirações onde?
42:13Porque você vive falando sobre a importância
42:15de buscar referências não óbvias.
42:18Onde é que você busca essas inspirações?
42:21Assim, eu acho que...
42:27Primeiro é na vida,
42:29porque eu costumo falar também
42:30que trabalhar com publicidade,
42:31você precisa gostar de gente
42:33e saber observar.
42:34Saber achar pessoas interessantes.
42:39Porque pessoas são de diferentes lugares,
42:41têm diferentes experiências.
42:42Então, assim...
42:44E tudo é válido.
42:45E era uma coisa que a gente demora para aprender.
42:47Quando eu era mais jovem,
42:48você geralmente acha que sabe mais coisas.
42:50Você não tem esse lugar tanto empático
42:52de reconhecer valor naquilo que é diferente de você.
42:56E o mundo está abolhado também.
42:58A gente também ficou muito mais refém do algoritmo
43:01do que qualquer outra geração.
43:04É muito bom sair...
43:06Eu busco referência em fazer aquilo
43:08que geralmente está fora do meu radar
43:10de gostar ou não gostar.
43:12Sabe?
43:13Um lugar que eu aprendi muito,
43:15na mesa de pôquer,
43:17porque te obriga a sentar com 10 pessoas
43:19que você está jogando ali
43:21e que são 10 pessoas que você...
43:23Para jogar bem,
43:24você precisa entender quem são aquelas pessoas
43:26para entender como é que elas estão jogando.
43:27Você não joga com as suas cartas.
43:29Isso foi um primeiro choque.
43:31Você aprende na experiência de ser pai
43:33a tentar entrar nesse universo
43:37daquilo que teus filhos te dão tapas na cara
43:40o dia inteiro
43:40de como é que eles veem a vida.
43:43Você aprende
43:44lendo, consumindo conteúdo.
43:48Cara, assim, o lugar de aprender...
43:51O mais louco é que, assim, olha só,
43:53quando eu comecei,
43:54para que a gente aprendesse,
43:56você tinha que ter anuário, livro,
43:58tudo físico.
43:59Cânes era um ilustre desconhecido.
44:02Para saber o que aconteceu em Cânes,
44:03você esperava chegar ao DVD,
44:05ou a fita,
44:05ou a matique de Cânes.
44:09Hoje está tudo online.
44:11Hoje, eu acho que a gente não aprende
44:13por preguiça.
44:15Mas eu acho que, assim,
44:17tem a coisa da vida real.
44:19E tem a coisa de furar as bolhas.
44:23Talvez, assim,
44:23eu vou falar uma coisa não muito legal,
44:25mas meus amigos não são publicitários.
44:26Ah, talvez 15, 20 anos atrás,
44:31a maior parte dos meus amigos
44:32eram todos publicitários.
44:36Hoje, eu me inspiro em pessoas.
44:39Eu podia aqui falar,
44:40ah, porque eu estou lendo isso,
44:41estou lendo aquilo.
44:42Para.
44:43É a vida real mesmo que te inspira.
44:46Entendeu?
44:47É você ter conversas com todo mundo.
44:51Estar aberto para ter essa troca com todo mundo.
44:54mesmo que esse todo mundo
44:56é um todo mundo que você não necessariamente goste.
45:00Então, vem daí.
45:01Para mim, a diversidade
45:02que o mercado tem que...
45:04que a gente tem que ter também
45:06é esta diversidade da diferença.
45:10Porque, obviamente,
45:11eu entrei no mercado
45:12onde a publicidade era
45:13um item de luxo aqui.
45:16Luxo que eu digo assim,
45:17para uma casta.
45:19Eu acabei furando essa bolha.
45:21Consegui entrar furando essa bolha lá,
45:23mas era uma casta.
45:25Hoje, dentro da própria agência,
45:26você tem isso.
45:27Só que, assim,
45:28por que as pessoas
45:30querem ir para Cannes?
45:31Vai para o zoológico também
45:33aqui de São Paulo.
45:35Sabe?
45:36É tão importante quanto.
45:40Ah, vai para o museu.
45:41Legal, vai também.
45:43Mas vai dar um rolê no Braz, entendeu?
45:45Vai ver o que rola lá.
45:48Vai no shopping lá do Braz,
45:50que tem lá.
45:50Não sei se você já foi.
45:52Animal.
45:53E vai ver o que as pessoas
45:55estão vendo ali.
45:56O que elas estão gostando
45:57daquilo ali.
45:58Por que elas estão
45:59consumindo aquilo ali.
46:01Porque, assim,
46:02a gente tem que entender de gente,
46:03entendeu?
46:04E o que aquilo faz nas pessoas.
46:07Então, assim,
46:07as minhas referências continuam.
46:09Elas foram muito
46:10para esses lugares, sabe?
46:11Olhar pessoas diferentes
46:13e me relacionar com pessoas
46:15completamente diferentes.
46:17e entender
46:19o que que é bom,
46:22o que que importa para elas.
46:23E o que que elas estão fazendo
46:24com a vida delas também.
46:26O que que elas estão,
46:26como é que elas estão
46:27se descobrindo.
46:29Tem uma coisa, assim,
46:30eu lia muita biografia.
46:33Eu sempre tive.
46:34Aí eu não sabia
46:35que uma coisa
46:35estava conectada na outra.
46:37mas eu acho que
46:39a nossa grande fonte
46:40de inspiração
46:40são as pessoas.
46:41E é isso que a gente tem.
46:42Não pode perder.
46:43E eu já gostava disso.
46:44Porque desde moleque
46:45eu escolhi os livros.
46:45Desde moleque não,
46:46mas desde, sei lá,
46:47quando eu comecei a ler mais,
46:49assim,
46:50eu adorava escolher biografia.
46:51Você tem que me perguntar
46:52o que que você mais gosta de ler.
46:53Se eu for pegar um livro,
46:54é biografia.
46:55E tem uma biografia
46:56que te marcou mais
46:57do que as outras.
46:57Ah, tiveram várias.
46:59Mas, assim,
47:00do Garrincha
47:00com Elza Soares.
47:01Tipo,
47:02é lindo o livro, assim.
47:05Mas, assim,
47:08essa é uma que veio
47:09de bate-pronto, assim.
47:11Mas eu acho que a gente
47:12aprende muito
47:13com a vida das pessoas.
47:15Com os erros e acertos
47:16que as pessoas fizeram
47:18na própria vida.
47:19Eu vejo que...
47:20Vem muito daí, sabe?
47:21E eu acho que
47:22essa preguiça
47:22eu nunca perdi.
47:24E já na reta final
47:26da nossa conversa,
47:27qual é que foi
47:28o principal aprendizado
47:30que você teve
47:31com o maior erro
47:33que você já cometeu?
47:34E qual que foi esse erro?
47:36Ah, e eu acho que, assim,
47:37o maior aprendizado...
47:38Tava lá no David Ogilvy, tá?
47:40Tava lá no David Ogilvy.
47:41Ele já tinha escrito
47:42uma frase,
47:43mas eu acho
47:44que pra mim
47:46me define
47:46e me ajuda
47:47a definir muito
47:48que a maior vantagem
47:49competitiva
47:50que você tem
47:50é ser quem você
47:51realmente é.
47:55Então,
47:57e eu sempre fui
47:58meio um ponto
47:59fora da curva,
48:00entendeu?
48:01Sempre fui mais alto,
48:02sempre fui mais gordo,
48:03sempre fui mais...
48:03não falava inglês.
48:06Você entende
48:06o que eu tô dizendo?
48:07Assim,
48:07eu gostava de Fábio Júnior
48:09enquanto as pessoas
48:09estavam curtindo
48:10lá a geração
48:12do rock and roll
48:13da década de 90,
48:15sabe assim?
48:15Seattle,
48:16Feelings.
48:16Eu tava ali
48:17curtindo Fábio Júnior,
48:18entendeu?
48:19Enquanto os caras
48:20queriam tocar guitarra,
48:21eu tocava gaita,
48:22sabe assim?
48:23E este era eu,
48:25esta autenticidade.
48:27Acho que o maior erro,
48:28eu acho que eu
48:29por acaso
48:31não cometi
48:31ou talvez
48:33possa ter cometido
48:34em alguns momentos
48:35da minha vida,
48:36mas não tem de ser
48:37aquilo que você não é.
48:39Invista tudo
48:40pra saber
48:40quem você é.
48:43E eu acho
48:44que isso eu fiz bem,
48:45porque com 17 anos
48:47eu tinha lá
48:48uma taróloga
48:48que cruzava
48:49horóscopo
48:50e taróloga.
48:51Sabe assim,
48:52eu sempre tive
48:53instrumentos,
48:54abandonei isso,
48:55depois eu
48:56queria nem fazer
48:57publicidade,
48:57eu queria fazer
48:58teologia,
48:58porque eu queria
49:00estudar essas coisas
49:01todas.
49:04Hoje eu sou muito
49:04mais de me inspirar
49:06na Bíblia,
49:06se eu quero pegar
49:07alguma coisa
49:07eu vou lá
49:08e leio,
49:08porque assim,
49:09tá,
49:09aquilo vai me contar
49:10alguma coisa.
49:12Mas eu acho
49:12que essa investigação
49:13de saber quem eu era
49:14e me conformar
49:15com aquilo que eu era,
49:16porque tem uma coisa,
49:17você pode saber
49:17aquilo que você é
49:18e eventualmente
49:19você olha uma referência
49:20na rede social
49:21e fala,
49:21mas isso não sou eu,
49:23quer dizer,
49:24eu sou isso,
49:24mas eu queria ser aquilo.
49:27Então acho
49:27que o maior erro,
49:28eu posso ter cometido
49:29em algumas vezes
49:30da minha vida
49:31de tentar parecer
49:33ou ser alguma coisa
49:34que eu não era,
49:34seja você,
49:35entendeu?
49:36Seja a sua melhor
49:37versão de você,
49:39seja a sua melhor
49:39versão da sua
49:41própria história,
49:42não baliza o teu,
49:43a tua régua
49:44pelo sucesso do outro,
49:46porque balizar a tua régua
49:48pelo sucesso do outro,
49:48o sucesso do outro
49:49é a história do outro,
49:51baliza a tua régua
49:52pelo melhor que você
49:53pode ser dentro
49:54da tua história,
49:55cada um está individualmente
49:57buscando o próprio potencial,
49:58o grande erro
49:59é que tu sai
50:01da narrativa
50:02de o meu melhor potencial
50:04chegar no máximo
50:05que eu pudesse chegar
50:06para querer chegar
50:07no máximo do outro
50:09e assim,
50:09você não vai ter
50:10Ronaldo,
50:12Pelé,
50:12Maradona e Feathers,
50:17João Fonseca,
50:18a profusão,
50:19entendeu?
50:20Ele tem a história dele
50:21e a régua dele,
50:22a tua régua
50:23pode ser outra
50:24e está tudo bem.
50:26Então,
50:26eu acho que o maior erro
50:27é tentar parecer
50:28aquilo que você não é.
50:29Então,
50:29muito rápido,
50:30eu abracei
50:31toda,
50:33uns 10,
50:3410 não,
50:35uns 8 anos atrás,
50:37começaram,
50:38começou a se falar
50:39na vulnerabilidade,
50:40né?
50:40Então,
50:40eu comecei
50:41a vulnerabilidade
50:42muito antes disso,
50:43sem falar em vulnerabilidade,
50:47mas aceitar
50:48a sua vulnerabilidade
50:50e aceitar
50:50quem você é
50:51e saber
50:52quem você é
50:53te ajuda
50:54a decidir
50:54aquilo que você busca.
50:55Eu estava contando
50:56a história lá
50:56do porquê
50:56que eu não fui morar fora
50:58quando eu tinha
50:5820 e poucos anos,
51:00porque eu estava vulnerável,
51:01eu queria minha família
51:02perto de mim
51:02e era uma decisão
51:04que eu tentava explicar
51:05para as pessoas,
51:06ninguém concordava,
51:07você é burro,
51:08você vai ganhar em dólar,
51:09você vai morar
51:09nos Estados Unidos,
51:10tá?
51:11O que é importante
51:12para mim é isso,
51:13não quer dizer
51:13que você precisa concordar.
51:16Então,
51:16muito cedo
51:17eu tive que tocar,
51:19talvez por uma impossibilidade
51:20de parecer
51:21mais bonito,
51:22mais magro,
51:22mais interessante,
51:24mais inteligente
51:25do que o outro,
51:27eu falei,
51:27eu vou apostar tudo
51:28na autenticidade,
51:29e aí conecta com hoje.
51:32O que que eu acho,
51:33e eu tenho falado isso
51:34muito dentro da criação,
51:35para os clientes,
51:37de novo,
51:38eu não estou falando
51:38contra a inteligência artificial,
51:40porque assim,
51:40é desesperador,
51:41eu estou usando isso
51:42há dois anos,
51:43quando surgiu o chat CPT lá,
51:44a Coca-Cola,
51:45eu fui o primeiro
51:46a baixar aquela bagaça
51:47e comecei,
51:47eu me lembro,
51:48eu estava em Paraty,
51:49há dois anos e meio atrás,
51:50falando,
51:51caceta,
51:51o que é isso aqui?
51:53Então,
51:53eu já estava simulando
51:54uma conversa
51:55da Madonna
51:56com o John Lennon,
51:57naquela,
51:58e eu falei,
51:58não é possível
51:59que está acontecendo,
51:59que eu estou conseguindo
52:00fazer isso aqui,
52:01na primeira versão
52:01do chat CPT.
52:02aí,
52:05assim,
52:06então,
52:06eu acho que assim,
52:07o erro é você
52:08não se olhar no espelho
52:10e falar quem sou eu
52:11e entender quem é você
52:12e não olhar na tela
52:14do celular
52:15ou na referência
52:15do vizinho
52:16e falar,
52:18eu queria ter
52:18mais 10 centímetros,
52:20eu queria ter
52:20menos 10 quilos,
52:21eu queria ser mais...
52:22Caralho!
52:25E David Ogilvy está lá,
52:26uma das coisas
52:27que eu me identifico
52:27é porque está lá,
52:28ele fala,
52:28a maior vantagem competitiva
52:30que você tem
52:30sem quem você é.
52:32E, assim,
52:33se eu fosse contar
52:34a minha história
52:35olhando de trás
52:35para frente,
52:37de hoje para trás,
52:39o que eu fiz
52:41na HCA,
52:42mercado imobiliário,
52:43o que eu fiz depois
52:44na agência japonesa
52:45lá na Sojei,
52:46depois o que eu fiz
52:47na House da Coelho da Fonseca,
52:50graças a esses
52:514, 5 anos
52:51que eu já tinha
52:52de mercado
52:53fazendo aquilo,
52:53que nunca,
52:55se eu contasse para alguém
52:56aquilo,
52:56iria me levar
52:57para uma multinacional,
52:58foi o que me levou.
53:00Porque,
53:00porque eu tinha aquilo,
53:01eu fui trabalhar
53:02com a conta de varejo
53:03para vender carro usado
53:04dentro da Ogilvy,
53:05entendeu?
53:06Numa época
53:07que as grandes contas
53:07eram America Express,
53:09Free,
53:10BAT,
53:11enfim,
53:12e eu era o cara
53:12que estava fazendo,
53:13vendendo Kombi,
53:15fazendo anúncio classificado
53:16para vender Kombi,
53:17entendeu?
53:18E,
53:19aí você entende
53:20que só faz
53:22o que você tem hoje,
53:23e eu falei isso ontem,
53:25tá?
53:25Eu falei,
53:26a gente está todo mundo
53:27dirigindo na neblina,
53:28sabe como é que você diz?
53:29Não é que você está cego,
53:30você está vendo ali,
53:30cinco metros na frente,
53:32você está olhando ali
53:32para onde aponta
53:34a setinha
53:35da pista.
53:38Está tudo bem,
53:38você está enxergando
53:39esses cinco por cento,
53:40você talvez não veja
53:40o horizonte,
53:41vamos experimentar
53:42e vamos seguir fazendo.
53:43Escolhe o hoje.
53:44O que você tem
53:45para escolher hoje?
53:47E não vamos viver
53:48a ansiedade
53:48do que virá,
53:49do que será,
53:50do que como vai ser,
53:51porque o publicitário
53:52adora também
53:52ficar cagando regra.
53:53Olha,
53:54vem aqui que eu vou te dizer
53:55como será.
53:57Cara,
53:57como será que seria?
53:59Vive,
53:59que eu acho que é isso,
54:01entendeu?
54:01Eu acho que o erro
54:02é não viver intensamente.
54:05Esse seria o erro.
54:06E não se reconhecer
54:07naquilo que é você.
54:09Acho que essa...
54:10E só pegando
54:12para a gente finalizar
54:13aquele episódio,
54:14você foi expulso
54:15da entrevista,
54:16oito anos depois
54:17o cara voltou a te chamar,
54:18você fez a entrevista
54:19com ele,
54:20você tocou no assunto.
54:21Não toquei.
54:21Mas você foi.
54:22Eu fui.
54:23É o que eu descobri na hora, né?
54:25Porque uma pessoa
54:27que me conhecia
54:27falou,
54:27Musa,
54:28tem uma oportunidade aqui.
54:30E eu te indiquei.
54:31Eu falei,
54:31ah, legal,
54:32marcaram a entrevista.
54:34Não era nem
54:35para trabalhar na agência,
54:36era para ser
54:36head de marketing
54:37de um cliente,
54:38ou gerente de um cliente legal,
54:41de uma marca legal.
54:43E quem ia entrevistar
54:44era esse cara.
54:45Aí eu descobri,
54:45ah, tá bom,
54:46mas vou falar com quem?
54:48Tal pessoa.
54:48Eu falei,
54:49ai.
54:51Eu entrei,
54:53olá,
54:53tudo bem?
54:55Me arrependi,
54:56se fosse eu hoje,
54:57já tiraria onda,
54:58já falei,
54:58porra,
54:59tu me expulsou
54:59da última reunião,
55:00chamou até o segurança
55:01da agência,
55:02agora tu tá aqui
55:02querendo falar comigo.
55:04Mas não falei nada.
55:06Mas também não vale a pena,
55:07entendeu?
55:07O que que você guarda
55:09desse episódio?
55:10O que que te ensinou?
55:11Não desisti, cara,
55:13porque isso não aconteceu
55:14comigo.
55:14você vai pegar essa história
55:15em qualquer jogador
55:16de futebol
55:17que levantou
55:19Copa do Mundo,
55:20que fez qualquer coisa,
55:21tem uma história
55:21de fracasso.
55:22O fracasso é parte
55:23do sucesso,
55:24o erro é parte
55:24do acerto.
55:26O problema também
55:27é que assim,
55:28não,
55:28doeu?
55:28Doeu pra caralho.
55:30Só que eu falei, tá?
55:31Todo mundo que
55:32criou a expectativa,
55:33e aí,
55:33como é que foi a entrevista
55:34na agência legal lá?
55:36O cara me expulsou,
55:37disse que eu não sirvo
55:38pra nada.
55:40Diz que eu não falo inglês,
55:42que ele só pode me indicar
55:43pra estágio,
55:43que ele não pode me indicar
55:45pra ninguém,
55:45que eu não sirvo pra nada.
55:46Não, beleza,
55:47é a opinião dele.
55:50Doeu?
55:51Doeu.
55:52Um dia,
55:52doeu dois dias.
55:54Mas o que que eu fiz
55:54com aquilo?
55:55Eu sentei e fui achar
55:57um jeito de resolver
55:58o meu problema.
55:59Eu falei,
55:59já sei,
55:59vou descaralhar,
56:00vou mandar um currículo
56:01aleatório,
56:02vou fazer alguma coisa
56:03mostrando algum valor.
56:05E aquele currículo,
56:06nesse bonde,
56:07não sirvo até café,
56:09é verdade até hoje, tá?
56:12Eu mostrei,
56:12vontade ali,
56:13botei uma foto,
56:14botei um resultado,
56:15e foi aquilo ali
56:16que me levou.
56:17Então, assim,
56:17de novo,
56:18tem saída.
56:19Pouquíssimas coisas na vida
56:20te botam num lugar
56:22onde você não tem saída.
56:24E dói.
56:25E vai te machucar.
56:28Só não adianta
56:29ficar imobilizado,
56:30chorando na cama.
56:31Eu chorei um,
56:32dois dias.
56:33Falei,
56:33pô, fiz um papelão,
56:34talvez eu não sirva pra isso.
56:36Questionei,
56:37falei,
56:37será que eu sou um impostor?
56:38Estudei errado,
56:39fiz tudo errado.
56:40Não é pra mim.
56:41Poderia ter isso.
56:42Mas também não tinha onde cair morto,
56:44cara,
56:44e eu queria muito.
56:45Quando você quer muito,
56:47você fala,
56:47quer saber?
56:48O que que eu posso fazer?
56:49Vou dar mais um tiro pro alto
56:51pra ver o que que acontece.
56:54Então,
56:55de novo,
56:56mas também reconhecer,
56:57porque às vezes você fala assim,
56:58não,
56:58mas se eu tivesse nascido
57:00o filho de não sei quem
57:01que o pai deixou a agência,
57:03ou se eu tivesse sido
57:04o filho do outro
57:05que me botou,
57:05ai,
57:06porque não sei o que,
57:06não sei quem indica.
57:08Tá ali,
57:09neném,
57:09tá bom,
57:11filho,
57:11mas não é.
57:12Não é a realidade.
57:13Então,
57:13o que que a gente lida com a...
57:15Essa coisa de lidar com a realidade,
57:17então,
57:18boa,
57:19conectando com aquilo
57:19que a gente falou
57:20dos festivais lá,
57:22um parar
57:22de achar que a narrativa
57:25é mais importante
57:26do que a realidade.
57:27Vamos parar e chegar assim.
57:28E eu já fiz isso
57:29várias vezes na agência.
57:30Eu falei, ó,
57:31de trabalho real,
57:33ganho certinho,
57:34bonitinho,
57:35assim, tá.
57:36Só que a gente foi
57:36a mesma agência
57:37que fez aquilo.
57:38Vocês acham que isso aqui
57:38tá do tamanho daquilo?
57:40Não tá.
57:42Tá bom,
57:42mas não tá bom o suficiente.
57:45Outra frase genial
57:46do David Ogri.
57:47Talvez isso explique muito
57:48o fato de eu estar
57:49há tanto tempo na Ogri.
57:50A coisa da cultura.
57:51que ele fala assim,
57:53cara,
57:53o divinamente descontente.
57:55Ela tá preocupada
57:55com o horário já,
57:56porque a gente tá falando muito.
57:57O divinamente descontente.
58:00Hoje em dia
58:01não dá pra ficar lá
58:01e falar muito isso,
58:02porque o que é
58:03o divinamente descontente?
58:04Ela tá aqui,
58:05essa água,
58:05legal?
58:06Legal.
58:06Matou a sede?
58:07Matou.
58:07Muito bem,
58:08como é que eu faço agora
58:09pra fazer uma água
58:09melhor que essa?
58:10Esse é o divinamente descontente.
58:13Só que se a gente pratica
58:14hoje assim,
58:14nossa,
58:16vou burnoutar todo mundo.
58:17Não é sobre o excesso isso.
58:20É sobre você chegar
58:20num lugar
58:21comemorar esse lugar
58:25que você chegou
58:25e falar agora
58:26como é que eu melhoro
58:27um pouquinho mais daqui.
58:28E partir pra próxima.
58:30E partir pra próxima.
58:31Então,
58:32acho que é isso.
58:32Acho que assim,
58:33é muito mais filosófico.
58:34A gente falou pouco,
58:35a gente falou mais de filosofia,
58:37mas eu acho que isso
58:37explica muito,
58:38entendeu?
58:39O cenário publicitário
58:41e do mundo.
58:41Ah,
58:41a gente tá precisando
58:42de mais tempo
58:42pra filosofar,
58:43pra pensar
58:44antes de falar.
58:45e menos ficar
58:46no automático.
58:47E na rapidez
58:49de achar a narrativa
58:49certa.
58:50Musa,
58:51obrigada pelos conselhos
58:52pros nossos ouvintes aí,
58:54pros nossos espectadores.
58:55Até uma próxima.
58:56Obrigado vocês,
58:57valeu.
58:58Você está acompanhando
58:59a ideia,
59:00veja esse e outros episódios
59:02nas plataformas
59:03do Meio e Mensagem
59:04e em todos os agregadores
59:05de podcast.
59:06Os episódios são gravados
59:07no Content Club.
59:09Até a próxima.
Comentários

Recomendado