00:00Eu converso agora com o Elber Barral, consultor em comércio internacional, a quem eu desejo boa noite.
00:07E, Barral, vamos tentar montar esse quebra-cabeça com as poucas peças que nós temos, né?
00:13Algo que talvez seja um pouco mais sólido, essa inflação nos Estados Unidos.
00:19É o maior índice em quatro meses.
00:23Tem a ver com o tarifácio?
00:24Ainda a gente tem que tomar um cuidado para analisar isso.
00:27Mas o que a gente teve de últimas informações é que os Estados Unidos, a administração Donald Trump, personificando, então, o presidente, porque é uma decisão da Casa Branca,
00:38deu mais uma volta no parafuso que está apertando o Brasil com o anúncio de que o Brasil vai ser investigado na chamada Sessão 301,
00:48que é prevista na Constituição ali do Comércio Americano, algo que remonta da década de 70, uma lei de 1974.
00:55Ou seja, a ameaça subiu um pouco mais de tom, subiu um degrau.
01:01Aqui no Brasil, está um barata voa, um corre, parece um formigueiro chutado, de todo mundo tentando aliviar, pedir um adiamento, pedindo para a Casa Branca rever.
01:14Aí eu te passo a batata quente, barral.
01:16O que a gente consegue ver de cenário concreto diante dessas variantes que são muito maiores do que os dados concretos que a gente tem?
01:26Boa noite mais uma vez.
01:28Boa noite, Marcelo. Obrigado pelo convite.
01:30Só para a gente entender o que está acontecendo e que fase nós estamos agora.
01:34Os Estados Unidos, nas últimas duas semanas, enviaram cartas para vários parceiros comerciais.
01:39Vários. Desde países asiáticos e países vizinhos, ameaçando novas tarifas a partir de 1º de agosto.
01:50A tarifa média hoje cobrada pelos Estados Unidos depois de abril é 10% e 30% contra a China.
01:56Então agora ele está ameaçando elevar essas tarifas contra vários países.
02:00Então ameaçou 30% contra a Europa, 35% contra o Canadá, 25% contra o Japão e o Brasil recebeu uma ameaça mais séria que é uma tarifa de 50% contra todas as exportações brasileiras.
02:13Na realidade tem os produtos excluídos, mas a grande parte das exportações seria afetada a partir de 1º de agosto.
02:20Então isso, e aí o governo brasileiro foi pego de surpresa, o setor privado também, e está havendo agora uma tentativa de coordenação entre o Brasil e o setor privado, o governo brasileiro e o setor privado, para tentar dar uma resposta ao governo americano.
02:36O grande problema dessa estabilidade é o prazo muito curto.
02:40Não se faz uma negociação comercial num período tão curto sem que sequer haja uma coordenação no Brasil com relação a quais poderiam ser concessões, quais poderiam ser ofertas, para eventualmente dar, fazer alguma concessão para os Estados Unidos.
02:55Por isso a sugestão dos empresários que se prorrogue a negociação, que foi algo que os Estados Unidos fizeram há pouco tempo com o Canadá, com o México, com a China, eles estão com as tarifas, inclusive, suspensas em sua maioria, para esperar uma negociação de mais longo prazo com a China.
03:13Então essa é a situação. E aí, hoje, Marcelo, para complicar mais a coisa, o USTA, que é o escritório comercial do governo norte-americano, abriu uma investigação 301, que já tinha sido informada pelo Trump na carta que enviara ao governo brasileiro.
03:31A seção 301 é um poder do governo americano, do executivo americano, de investigar países que discriminam empresas americanas.
03:43Então eles listam, eu estava lendo justamente agora o jornal oficial dos Estados Unidos, eles listam alguns itens que poderiam ser objeto de discriminação, como é o fato de haver casos contra empresas de tecnologia norte-americanas,
03:58o fato de haver desmatamento, várias questões que serão investigadas num prazo de alguns meses e que podem levar até mais tarifas contra o Brasil, ou pelo menos contra alguns setores brasileiros.
04:13Então é uma situação bastante séria, bastante complexa e é nisso que estamos.
04:17Agora, Barral, tem uma outra complexidade, que é uma outra variante que é um dificultador, que é o Donald Trump, que construiu a sua carreira como um negociador,
04:28ele se diz um negociador nato, de fato ele vem aí de uma vida privada e dentro do setor privado, como um grande negociador, escreveu livros sobre a arte da negociação e tudo mais,
04:40se diz um duro negociador e que se torna cada vez mais imprevisível.
04:45Vou tentar olhar um pouco o copo meio cheio.
04:48Agora saíram as taxas de inflação referentes ao mês anterior, então nós estamos em julho, saiu referente a junho,
04:58a maior taxa nos últimos quatro meses, os americanos não veem uma inflação tão alta, não é tão alta assim, 2,7, mas não enxergam nada disso desde fevereiro.
05:07Agora, o Brasil, o que exporta para os Estados Unidos?
05:11Itens que vão para a cesta básica, alimentos dentro de casa e depois matéria-prima, ou seja, desde carro até suco de laranja,
05:19pode ficar mais caro para o americano, para o americano médio, americano de classe média baixa, que é essa grande massa eleitora do Trump.
05:27Este fator, na tua experiência como um consultor de comércio internacional, Welber,
05:32será que pode ser uma carta na manga para o Trump recuar?
05:36Porque desde que ele tomou posse, ele anunciou as tarifas, abriu esse tarifácio, depois ele recua.
05:44Isso até criou-se um termo jocoso nos Estados Unidos, que o Trump sempre se acovardeia,
05:52ele sempre se acovarde, o chicken out, ele dá um passo para trás que ele acaba cedendo.
05:57Nós, que representamos itens básicos para os americanos, não é 100% que vem do Brasil,
06:04o suco de laranja, ou a proteína animal, ou o café, só estou citando aqui três exemplos,
06:09mas isso vai pesar no bolso do americano.
06:11Isso pode ser um argumento de barganha para a gente conseguir uma atenuação dessa tarifa de 50% ou um adiamento?
06:18Sim, é um argumento importante, Marcelo, e aí três comentários.
06:23O primeiro deles é que se esperava já essa inflação.
06:26Vários estudos econômicos dos Estados Unidos já esperavam a partir de abril,
06:29quando foi anunciado o chamado dia da libertação, as primeiras tarifas americanas,
06:36o impacto inflacionário.
06:37Ela foi atrasada, de certa forma, porque as empresas estavam muito estocadas.
06:41As empresas americanas estavam importando muito desde o começo do ano,
06:45justamente por conta da imprevisibilidade.
06:47Então, agora deve-se começar a sentir a inflação.
06:51A segunda observação, é que você deve se recordar,
06:54em abril houve uma queda muito grande da Bolsa,
06:56e houve um efeito muito grande sobre ações americanas.
06:59E agora não, apesar dessas novas medidas.
07:02E isso é porque boa parte do mercado financeiro americano
07:06está apostando que o Trump não vai implementar essas tarifas tão altas,
07:11justamente por conta do impacto inflacionário que pode ter.
07:14Esse impacto já foi calculado por alguns centros de pesquisa americano,
07:19mantidas essas tarifas, a mais de 4% nos próximos 12 meses,
07:24que é uma tarifa altíssima para os padrões americanos,
07:27e que vão levar, necessariamente, a uma elevação de juros nos Estados Unidos.
07:31Hoje, o Trump já criticava o Fed, o Banco Central americano,
07:35por não reduzir as taxas de juros.
07:39E, provavelmente, vão se elevar, o que vai afetar tanto a inflação quanto a taxa de juros,
07:44a popularidade do presidente americano, que, como você disse, é muito imprevisível.
07:48Então, pode acontecer muita coisa de agora até 1º de agosto.
07:52Valberto, infelizmente, a gente só tem mais dois minutinhos de conversa.
07:55Agora, eu preciso tocar no outro lado da moeda.
07:57Eu falei do copo meio cheio, que a capacidade do Brasil tem uma barganha,
08:00o copo meio vazio, a outra metade, o que acontece conosco aqui, né?
08:04A gente estava ouvindo o nosso repórter em Brasília, o Eduardo Gair,
08:08falando que o setor de frutas, em especial um recorte que ele trouxe,
08:13as culturas de manga estão desesperadas porque vai sobrar o produto,
08:18vai ter perda, vai ter uma baixa no preço.
08:23O que mais que pode acontecer para nós aqui no Brasil?
08:26Então, só para a gente observar, a nossa exportação para os Estados Unidos
08:29é 11% do total das exportações brasileiras.
08:31Ou seja, não vai haver uma crise econômica do Brasil,
08:35mesmo que se interrompesse toda a exportação para os Estados Unidos.
08:38Agora, há vários setores e, principalmente, várias empresas
08:42que dependem do mercado americano.
08:45Então, se você pega o suco de laranja, é o maior comprador,
08:48café é o maior comprador do Brasil, suco de laranja,
08:51hoje, a área salineira, a área de exportação de sal,
08:55reclamava que é 50% das suas exportações, frutas.
08:58Então, há alguns setores que vão ser muito impactados.
09:02E aí, claro, estão muito preocupados, estão pressionando o governo brasileiro
09:05para conseguir, pelo menos, uma prorrogação
09:08para que se faça uma negociação de mais longo prazo.
09:12O grande problema aqui é que, na verdade, como eu disse,
09:15de um lado, tanto o setor privado quanto o governo brasileiro
09:17foi um peito de surpresa.
09:18E, de outro lado, Marcelo, os Estados Unidos já estão envolvidos
09:22em uma negociação bastante complexa com a União Europeia,
09:25uma negociação em curso com a China.
09:28Há duas delegações da Coreia e do Japão
09:33que já estão há um mês em Washington tentando negociar com o governo americano.
09:38Então, é muita mudança e muita ao mesmo tempo.
09:42E o que faz com que a negociação com o Brasil possa não ser prioridade
09:47em detrimento dos exportadores brasileiros,
09:49mesmo que não seja mantido 50%, mas qualquer tarifa mais alta vai prejudicar o Brasil.
09:55Welber, diante deste mar de incertezas, eu só tenho uma,
10:00que é nós vamos nos falar muito em breve,
10:03porque essa história ainda, pelo visto, tem muitos desdobramentos.
10:06Dia 1º de abril já está na esquina aqui, acenando,
10:09pouco mais de duas semanas.
10:11É um tempo muito curto aqui, então muita coisa pode acontecer.
10:14Obrigado pelos esclarecimentos.
10:16O Welber Barral, que é consultor em comércio internacional,
10:20deu uma aula pocket aqui para a gente.
10:23certamente a gente vai se esbarrar aqui na nossa programação muito em breve.
10:28Welber, obrigado mais uma vez, até a próxima.
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