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Discurso ambiental de Lula não combina com financiamento de gasoduto, diz geólogo
O Antagonista
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00:00
E a gente volta aqui ao Meio Dia em Brasília trazendo o professor Luiz Fernando Scheibe,
00:04
que é geólogo, para explicar esse detalhe aí que impacta justamente a questão do X.
00:10
Tudo bem, professor? Está me escutando agora? Me escuta?
00:14
Tudo bem, se escuto bem. Vocês me ouvem?
00:17
Pronto, agora sim, agora sim, a gente está te ouvindo.
00:21
Obrigada pela gentileza de vir ao Meio Dia em Brasília.
00:25
Valeu. Então, bom dia mais uma vez.
00:29
Davi, deve estar escutando também.
00:33
Ouvi com muita atenção as colocações do economista Davi Leves.
00:39
E acho que ele tem razão quando ele coloca a sua preocupação com a questão do meio ambiente.
00:51
Realmente, o gás do xisto, não é que o gás em si tenha inconvenientes em seu uso,
00:58
ele é gás semelhante ao gás natural, é apenas um método de extração desse gás de xisto,
01:05
que é muito criticado, porque é um método que utiliza uma quantidade muito grande de água,
01:11
que nem sempre é abundante nos locais de retirada,
01:15
e que tem uma capacidade muito grande também de produzir essa água depois contaminada durante o processo de extração.
01:27
Então, para o caso do Brasil, nós temos sempre colocado que o Brasil realmente não precisa
01:36
de investir nesse tipo de fraturamento hidráulico que vai dar origem a esse gás,
01:47
gás de folhelho ou gás de xisto.
01:50
Não precisa, por quê?
01:51
Porque nós temos uma quantidade imensa de petróleo,
01:57
que infelizmente uma grande parte dela está sendo, foi já, está sendo alienada
02:02
para empresas que não podem, nas quais nós não podemos exercer o nosso controle social.
02:14
Então, a ideia de que a Petrobras deveria ser a grande produtora de óleo no país,
02:23
e que ela tem um compromisso com o povo brasileiro,
02:28
ela, digamos assim, ela supera eventuais possibilidades de alguns grupos econômicos
02:38
de virem a lucrar no Brasil com a extração desse gás de folhê.
02:43
No caso específico desses empréstimos que seriam feitos para a Argentina
02:49
ou para qualquer outro país, nós achamos que essas políticas são políticas interessantes
02:56
porque elas podem, de certa forma, alavancar a indústria do nosso país.
03:02
E essa verba do gás de xisto, essa verba, aliás, dos empréstimos,
03:11
ela pode realmente ajudar a alavancar essas nossas indústrias.
03:18
Então, há um, digamos, um descompasso aí, porque no caso brasileiro,
03:26
nós temos nos pronunciado constantemente contra a utilização do fraturamento hidráulico,
03:34
não é contra o gás, mas é contra o método de extração desse gás,
03:38
que é um método extremamente agressivo do ponto de vista ambiental.
03:43
Agora, a realidade da Argentina, com relação à vaca muerta,
03:50
ela é uma realidade em que realmente a Argentina depende hoje,
03:56
para o seu abastecimento de gás e de óleo, desse tipo de extração.
04:04
É um pouco como a extração dos Estados Unidos.
04:06
Estados Unidos estavam vendo os seus recursos, as suas reservas de gás e de petróleo terminarem.
04:16
E eles, então, quase que numa ação desesperada, vamos dizer assim,
04:23
eles entraram para essa possibilidade, desenvolveram a tecnologia,
04:30
e hoje quem detém essa tecnologia é basicamente uma grande empresa americana
04:37
e uma grande empresa franco-suíça.
04:41
Então, por outro lado, são essas grandes empresas que têm o maior interesse
04:47
na extração do gás de xílio, mais até, às vezes, do que os próprios habitantes do local.
04:56
Porque no caso de vaca muerta, interrompa, se você achar que estou falando demais,
05:03
mas...
05:04
Pessoal, pode favorecer.
05:06
Pessoal, há um embate muito grande com os indígenas da região,
05:13
que estão sendo prejudicados nas suas áreas por culpa dessa extração do gás de xílio.
05:20
Quanto à operação econômica, diretamente, de que o BNDES, financiando obras em outros países,
05:34
pode ajudar esses outros países e, ao mesmo tempo, ajudar a nossa Rússia,
05:39
nós achamos que é perfeitamente viável.
05:42
Inclusive, aquela ideia de que o BNDES era uma caixa preta e outras coisas,
05:48
ela foi, em grande parte, desmentida, porque o nosso ex-presidente assumiu,
05:55
dizendo que ia desvelar a caixa preta do BNDES,
05:59
contrataram uma agência de auditoria, por muito dinheiro, inclusive,
06:08
e essa agência de auditoria não comprovou nenhum problema
06:12
com relação aos empréstimos feitos pelo Brasil.
06:17
Então, achamos que a questão do gás de xílio para o Brasil,
06:23
que é um país tropical,
06:26
que detém uma possibilidade muito grande de aproveitar a maior fonte energética
06:33
que nós temos, que é o próprio sol,
06:38
através de diversas formas de produção de energia,
06:42
formas alternativas de produção de energia.
06:44
Então, essas formas alternativas que não envolvem os combustíveis fósseis
06:54
é que devem, no caso do Brasil, ser ampliadas e ser melhor utilizadas.
07:02
Eu só queria uma coisa...
07:05
Pode complementar.
07:05
Não é exatamente sobre essa questão,
07:11
mas essa questão do aumento da gasolina agora,
07:15
por causa do tal do PPI,
07:17
faz muito tempo que a gente também fala
07:20
que esse tal de preço de paridade de importação
07:25
não é um preço real para o Brasil,
07:29
ele não convém aos brasileiros,
07:31
ele tem que ser modificado
07:33
e nós esperamos que essa nova diretoria da Petrobras,
07:37
que vai assumir,
07:38
tenha a coragem de enfrentar essa questão,
07:42
porque não assumiu ainda,
07:44
mas que ela tenha a coragem de enfrentar essa situação
07:47
e voltar para utilizar um preço que seja compatível com a realidade,
07:52
de que mais de 80% dos nossos combustíveis
07:56
são retirados no Brasil.
07:59
São nossos, são retirados no Brasil
08:02
a um preço que é, às vezes, até de um décimo
08:06
do valor internacional do petróleo.
08:09
Então, temos que terminar com esse tal de PPI,
08:12
porque, se não, realmente,
08:14
todos os meses nós vamos ter novas surpresas
08:18
a respeito do preço da gasolina.
08:20
Mas, fico à disposição para outras questões.
08:24
Obrigada, professor.
08:25
Só para complementar,
08:27
o xisto não é regulamentado no país
08:29
justamente por essa questão de ser muito poluente.
08:32
Apoiar um projeto de extração do xisto
08:34
não iria na contramão
08:35
do que o governo tem empregado ultimamente
08:38
de apoiar a sustentabilidade,
08:40
preservação ambiental
08:41
e até essa questão do embate com os indígenas?
08:46
Eu acho que há uma certa contradição nisso,
08:49
não tem dúvida nenhuma.
08:51
Há uma certa contradição,
08:53
porque não é que ele não é regulamentado no país,
08:56
ele está judicialmente questionado no país.
09:01
E nós lutamos muito para que acontecesse isso,
09:06
ou seja,
09:07
que não houvesse essa extração do gás de folheiro
09:12
ou gás de xisto aqui no Brasil.
09:13
e estimular essa extração em outros países
09:20
é, de certa forma, uma contradição.
09:23
Agora, é claro que localmente
09:26
nós temos que ver essa situação.
09:29
Considerando a situação do Brasil,
09:32
nós temos aqui possibilidade
09:34
de suprir todas as necessidades brasileiras
09:37
sem importação de combustíveis fósseis
09:41
e utilizando muitos desses recursos
09:44
para a implementação
09:48
de cada vez mais formas
09:50
de produção de energias alternativas.
09:56
Por outro lado,
09:57
eu acho também que a gente tem que ter
09:59
um pouco de cuidado,
10:00
porque este afã
10:03
de cada vez produzir mais energia,
10:06
cada vez produzir mais energia,
10:09
ele também tem que ser colocado
10:11
do ponto de vista
10:13
de que nós precisamos também
10:16
utilizar formas
10:19
em que não haja necessidade
10:26
de tanta energia de fósseis.
10:28
Então, nesse sentido, por exemplo,
10:31
só como exemplo,
10:32
o agronegócio,
10:35
produção da soja e etc.,
10:37
é uma forma de extração
10:40
que utiliza muita energia,
10:42
energia fóssil.
10:45
Enquanto que a agricultura familiar,
10:49
a agricultura orgânica,
10:52
que são formas de produção de alimentos
10:54
e não tanto de ração,
10:56
essas formas de produção de alimentos,
11:00
elas têm que ser
11:02
muito mais incentivadas no nosso país
11:06
do que essas formas de produção
11:09
de monoculturas
11:11
exclusivamente para exportação.
11:15
Então, acho que essa questão
11:17
também fica, digamos assim,
11:20
por trás desse grande problema
11:22
que é realmente a questão
11:25
do fraturamento hidráulico
11:26
para a produção do gás de chisco,
11:29
gás de folia.
11:32
Só para a gente encerrar
11:34
a linha de pensamento aqui,
11:36
fazer um desfecho sobre esse assunto,
11:38
nesse momento,
11:39
seria melhor para o Brasil
11:40
o governo pegar esse investimento,
11:44
investir esses recursos aí
11:45
previstos para a Argentina
11:46
no próprio país
11:47
para a exploração de energia
11:49
aqui dentro mesmo,
11:51
ou essa alternativa
11:52
seria uma alternativa viável
11:53
também de investir na Argentina?
11:59
Bom, na verdade,
12:00
eu acho que nós temos que pensar
12:02
que o recurso existe
12:04
tanto para uma coisa
12:06
como para a outra.
12:07
Se do ponto de vista geopolítico,
12:10
essa relação com a Argentina
12:12
pode ser dinamizada,
12:14
pode ser melhorada
12:16
através desse empréstimo,
12:19
eu não veria nenhum problema
12:20
em realizar esse empréstimo,
12:22
até porque essa quantidade
12:25
que se prevê
12:27
que seja emprestada
12:29
de 880 milhões de dólares
12:32
não é alguma coisa
12:34
que para o BNDES
12:35
vai fazer tanta diferença.
12:38
Nós temos recursos em caixa
12:40
para fazer isso,
12:42
mas para fazer muito mais coisa
12:44
aqui dentro do Brasil.
12:45
Agora, o que nós precisamos
12:47
é de investidores no Brasil
12:50
para assumir esses riscos
12:52
e para assumir essas questões,
12:55
porque, infelizmente,
12:57
os investimentos no nosso país
12:59
têm se destinado
13:00
quase que exclusivamente
13:02
à ciranda financeira.
13:05
Então, se os investimentos
13:09
dentro do país
13:10
fossem canalizados
13:12
para a indústria nacional,
13:14
para a melhoria
13:16
da questão ambiental nacional,
13:18
para as nossas questões sociais,
13:20
que são também
13:21
extremamente importantes,
13:24
nós teríamos muito mais possibilidade
13:26
de melhorar a vida dos brasileiros
13:28
do que simplesmente
13:31
entrando nessa ciranda financeira
13:33
que acaba
13:34
simplesmente
13:36
aumentando
13:38
cada vez mais
13:40
a renda
13:42
já absurdamente grande
13:44
dos grandes
13:45
financistas.
13:47
O caso
13:48
das americanas
13:49
agora,
13:49
eu acho que deixa
13:50
muito claro
13:51
que nós estamos
13:53
tratando aí
13:54
com pessoas
13:55
que estão
13:55
preocupadas
13:56
com a sua renda
13:58
pessoal
13:58
e que não estão
14:00
preocupadas
14:00
com a melhoria
14:02
da situação
14:03
do povo brasileiro.
14:08
Professor,
14:09
só para a gente
14:09
já falei que era
14:11
para encerrar,
14:11
mas eu acho que vale a pena
14:12
a gente destacar,
14:13
eu comentei mais cedo
14:14
com o economista
14:16
Davi Leles
14:16
sobre justamente
14:17
essa política
14:18
verde que o BNDES
14:20
tem
14:21
e talvez uma resistência
14:22
que possa haver
14:23
a financiar
14:24
esse gaseoduto
14:26
de vaca moerta
14:26
justamente por essa
14:27
questão da política.
14:28
O senhor acha que
14:29
essa visão verde,
14:32
desse lado verde
14:33
aí do BNDES
14:33
pode vir a ser
14:35
um entrave
14:35
a esse possível
14:36
financiamento?
14:39
Eu acho que
14:41
eventualmente sim,
14:42
dependendo aí
14:43
de quão
14:44
seriamente
14:45
vai ser
14:47
assumido
14:49
esse lado
14:50
verde aí
14:51
do tal
14:52
de capitalismo
14:53
verde
14:54
que se prega
14:55
tanto
14:55
e que
14:56
na verdade
14:57
muitas vezes
14:58
não é mais
14:59
do que uma maquiagem
15:00
também
15:00
sobre
15:01
outras
15:03
questões.
15:06
Então,
15:06
eu acho que sim,
15:08
que pode haver
15:09
uma
15:11
certa resistência
15:13
de algumas áreas
15:15
pelo menos
15:16
a esse empréstimo
15:18
destinado
15:19
às
15:20
tubulações
15:21
de gás.
15:24
Na verdade,
15:26
é alguma coisa
15:28
que
15:28
às vezes
15:29
a gente diz,
15:29
mas se o Brasil
15:30
não emprestar,
15:31
deixa de
15:33
alferir
15:35
a renda
15:36
da venda
15:37
dessa tubulação
15:38
e vamos deixar
15:40
para a China
15:42
fazer esse negócio
15:43
com a Argentina,
15:44
por exemplo,
15:45
que eles vão ter
15:46
todo o interesse
15:47
em financiar
15:48
esse,
15:49
essa
15:49
empreendimento.
15:52
Perfeito,
15:56
professor,
15:56
o debate é amplo,
15:57
a gente sabe que
15:58
muita coisa ainda vai
15:59
acontecer até a aprovação
16:01
desse possível financiamento
16:03
do BNDES
16:03
à Argentina,
16:04
a esse gaseoduto,
16:06
mas agradeço muito
16:06
a sua gentileza
16:07
de vir a meio de
16:08
em Brasília,
16:08
explicar detalhes,
16:09
especialmente os impactos
16:10
ambientais aí
16:11
da extração do chifre,
16:13
desse gás que é poluente,
16:15
desse gaseoduto,
16:16
e a gente segue aqui
16:16
acompanhando os debates
16:17
e os desdobramentos.
16:19
Obrigada pela gentileza,
16:20
professor.
16:22
Obrigado pela oportunidade
16:24
e um bom dia para todos.
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