00:00A gente tem visto aí nesse pós-eleição uma série de movimentos, de protestos, né, contra a eleição do Lula, defendendo o Bolsonaro, e aí no meio disso começa a ganhar força aquele discurso do separatismo, né, de que, ah, não, já que foi o Nordeste que elegeu o Lula, né, e o Sul é que elegeu o Bolsonaro,
00:25então isso significa que a gente tem de ter, tem que separar, tem que ter países, cada um com a sua opção política, e aí, enfim, tem gente que olha e já vê risco de se repetir o que aconteceu na Ucrânia em 2014.
00:45Vira uma maluquice esse debate, e ao mesmo tempo a gente não pode ironizar nem rir disso, porque a gente ria dos grupos que defendiam a intervenção militar em 2013,
01:00e que hoje estão aí protagonizando o debate público, né?
01:04Agora, para você ver, eu acho que sempre a gente precisa ter a perspectiva histórica e antropológica em levar em conta.
01:18Eu costumo dizer que o Rio Grande do Sul não é a terra só de Gisele Bündchen,
01:26é também a terra de Ronaldinho Gaúcho, de Lupicínio Rodrigues, de Daiane dos Santos.
01:34A processão, quando o Piscínio Rodrigues faz aquela música, você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher?
01:43Aquela é uma música que ele viu a mulher dele, a paixão da vida dele, Ináia, Desnáia, não me lembro agora o nome,
01:50com um cara na processão fluvial lá do Guaíba, aquela é uma profissão religiosa negra.
01:58Porto Alegre é assim de terreiro de candomblé.
02:01Quem, entre os formadores antropológicos do Rio Grande do Sul, é fundamental a presença dos cearenses.
02:14A economia do Rio Grande do Sul, muito tempo, foi movimentada pela exportação de gado e carne de charque,
02:19quem ensinou lá a fazer carne de charque foi os cearenses.
02:23É uma migração do Ceará para o Rio Grande do Sul.
02:28Eu sempre me lembro também da Paraná, como a gente pode falar, Paulo Leminski,
02:33que hoje é celebrado como poeta oficial do Paraná.
02:37Leminski é descendente, tem um avô polonês e uma avó negra.
02:42Leminski foi ligado também, veio na Bahia visitar e se aproximar do Axé do Opo Afonjá, no terreiro de candomblé.
02:54Leminski que tinha poemas que falavam girafas africanas, como meus avós.
02:59Então, as coisas não estão...
03:03Agora fica um segmento social que tem expressão, que tem poder, que tem dinheiro, que tem força,
03:11que começa a falar, não é bem assim.
03:15O que é que Ronaldinho Gaúcho tem a ver com a imigração alemã e as colônias italianas?
03:23Uma vez, no 7 de setembro, no Rio Grande do Sul, eu estava viajando pelo interior do Rio Grande do Sul
03:31e numa cidadezinha pequena tinha um desfile do 7 de setembro, onde passavam todas as nações do mundo.
03:39E a África era uma nação.
03:42Você fala, puxa, a África é um continente, meu amigo.
03:45É um continente.
03:46E esses Brasis Sulinos, uma espécie de Neo-Europa, no certo sentido,
03:57isso foi uma coisa mais recente.
03:59A conquista daquele território não foi europeia, nem a manutenção dele.
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