00:00A neuroprotética é a área que desenvolve próteses cerebrais para recuperar funções perdidas e no futuro, talvez, ampliar as capacidades humanas.
00:08O campo vive uma revolução com novos dispositivos, startups e muita inovação.
00:14Para entender esse cenário, eu converso agora com Álvaro Machado Dias, que é um dos notáveis aqui do nosso canal.
00:19Tudo bem, Álvaro? Seja bem-vindo, boa tarde.
00:21Tudo bom.
00:22Vamos começar falando, então, sobre uma visão geral do que é a neuroprotética, para quem nunca ouviu falar nesse termo.
00:28Perfeito. É o seguinte, o nosso cérebro é parte do sistema nervoso e o sistema nervoso tem muitas vias de acesso para a gente ou modificar o comportamento
00:41ou fazer leituras do comportamento, leituras do comportamento neurológico, no caso, que é o comportamento que vai dar origem ao comportamento motor, a todas as nossas ações.
00:52O campo da neuroprotética, ele começa no sistema nervoso periférico, com implantes cocleares na década de 60.
01:01Na década de 1990, começam a surgir os primeiros implantes cerebrais.
01:07E esses implantes, eles têm muito mais função proativa do que de leitura.
01:12Então, eles servem para estimular algumas áreas do cérebro para que comportamentos sejam mais bem executados, comportamentos que, eventualmente, estão dando muita dificuldade para os pacientes.
01:26Então, um exemplo clássico é o do comportamento motor.
01:30Então, você põe uma neuroprótese que faz estimulação em áreas muito específicas, numa área em particular chamada gânglios da base,
01:38para gerar estabilização do movimento em quem tem perda dos corpos neuronais dopaminérgicos,
01:45que é um marcador importante da doença de Parkinson.
01:49E aí, você começa a ter outras dessas próteses sendo desenvolvidas, tá?
01:53Então, são próteses cirúrgicas e o campo vai evoluindo no começo desse século, ganhando outras funcionalidades.
02:03Então, muitas dessas próteses começam a ser instaladas fora do cérebro diretamente.
02:09Então, por exemplo, próteses para estimulação através do nervo vago de áreas subcorticais,
02:16que estão embaixo do córtex, que é a parte mais importante para pensar, porque isso gera melhora na depressão.
02:23E assim vai.
02:24Aí, próteses de braço com leituras avançadas, com inteligência artificial,
02:30que também, em última análise, estão conectando esse sistema, portanto, o código do sistema nervoso com a nossa capacidade de movimento.
02:39E esse campo vai ganhando forma e dá um salto muito importante no final da década passada,
02:47com o lançamento de várias iniciativas, entre elas a da Neuralink, do Elon Musk,
02:53que se propõe a fazer coisas muito mais ambiciosas, já na linha de uma interface sintética
02:59entre a máquina e o cérebro humano, aí sim, para efetivamente conseguir fazer essa mediação do pensamento com a ação.
03:07A gente estava vendo imagens ali, eu achei interessante que apareceu uma mão com um sexto dedo.
03:12Acho que ninguém precisa de mais um dedo na mão, né? Já tem cinco aqui.
03:15Mas para quem perdeu um dedo, por exemplo, pode ser interessante.
03:18Vamos pensar em aplicações práticas, assim, que podem chegar no futuro.
03:22Por exemplo, com implantes cerebrais, um cego pode voltar a enxergar,
03:27uma pessoa com dificuldade de audição pode voltar a ouvir,
03:31uma pessoa que não mexe um membro,
03:33talvez não porque falte tendão, falte nervo, mas porque falta conexão cerebral.
03:38Essa pessoa pode voltar a mexer com esse membro?
03:41Sem dúvida, isso já está acontecendo.
03:44Quando a gente pensa, por exemplo, nesses avanços neuroprotéticos, por exemplo, no campo da visão,
03:52vale lembrar que a retina já é parte do sistema nervoso.
03:55Então é uma reconstrução que, em última análise, envolve impulso elétrico.
03:59Quando a gente está falando dos implantes cocleares, é a mesma coisa.
04:03Qual que é o grande negócio?
04:04O que a cóclea vai fazer é a transdução do impulso,
04:08que é mecânico, que é a pressão do ar, e impulso elétrico novamente.
04:12Então você tem aí, de fato, algo que está envolvendo a linguagem do sistema nervoso.
04:18E olha que interessante, Marcelo, a gente vê hoje em dia o uso da inteligência artificial,
04:24inclusive da inteligência artificial generativa, aquela que está dando o que falar,
04:29para melhorar a capacidade das próteses, desse tipo, próteses biônicas, por assim dizer.
04:36Então, por exemplo, na Universidade de Lausanne, na Suíça,
04:40há um estudo muito interessante que deu um artigo,
04:43deu demonstrações públicas de grande destreza numa prótese de mão
04:48que faz essa intermediação entre o comportamento protético e toda a estrutura nervosa
04:55usando um algoritmo generativo para essa leitura.
04:59Isso faz com que o movimento seja muito mais preciso, muito mais rápido.
05:04Então a gente tem um avanço importante juntando o sistema nervoso e inteligência artificial.
05:10Falando agora de cognição, você acha que vai chegar um tempo em que a gente possa ter
05:14algum tipo de implante neural que vai fazer a gente expandir a consciência,
05:18a gente expandir a nossa capacidade de pensar e compreender o mundo?
05:23Esse é um grande sonho, não é isso?
05:25Está na ficção científica há muito tempo e a ideia é que a gente faça a interoperabilidade
05:33entre as informações que estão fora, então, portanto, o código da internet,
05:39um código digital e o código de comunicação cerebral.
05:44Quando a gente olha para o cérebro e vai buscar esse código,
05:48o que a gente vê são sinais chamados potenciais de ação que, em conjunto,
05:54eles geram frequências de ondas, então é tal como se o cérebro fosse uma espécie de instrumento musical
05:59e as frequências estão associadas a modos cognitivos e assim por diante.
06:04Só que quando a gente desce para o nível dos neurônios individuais,
06:07o que a gente vê é comunicação química, neuroquímica e a gente não encontra no domínio da comunicação neuroquímica
06:16alguma coisa que possa ser decodificada e, enfim, algoritimizada,
06:23tal como o código digital, tal como a gente conhece da computação tradicional.
06:27Em outras palavras, a gente, no fundo, no fundo, não conhece a linguagem do pensamento.
06:34Tem um pensador muito interessante chamado Jerry Fowler que criou esse conceito Language of Thought,
06:39a linguagem do pensamento, e a gente não conhece a linguagem do pensamento.
06:43Então, não dá para a gente falar que isso está num horizonte próximo,
06:47porque isso é para a gente conectar, trazer informação de fora para dentro do cérebro,
06:51a gente precisaria decodificar qual é essa linguagem do pensamento para fazer a interoperabilidade.
06:55Esse é o verdadeiro problema.
06:57Mas, do outro lado, é perfeitamente possível e está acontecendo que a gente use o nosso cérebro,
07:05o nosso pensamento, a gente tem um sentimento de que a gente quer fazer alguma coisa,
07:08por assim dizer, uma orientação intencional, e isso é decodificado pela máquina.
07:13Por quê?
07:13Porque aí você está associando esse próprio código elétrico e não a linguagem do pensamento
07:18com o comportamento que você quer que a interface realize.
07:21Então, ainda que seja difícil você enriquecer o cérebro com uma prótese que vai te tornar um super-humano,
07:27que é aquela tese original da Neuralink, do Elon Musk,
07:31isso aí está meio fora das nossas perspectivas do ponto de vista mais realista,
07:35é muito possível você resolver uma série de problemas neurológicos e melhorar a vida das pessoas.
07:40Tudo muito interessante o que você trouxe para a gente hoje,
07:43mas eu vou passar o dia pensando para que serve um sexto dedo.
07:45Eu não vi utilidade nisso, professor.
07:47Muito obrigado pela participação.
07:49Eu que agradeço.
07:49Foi ótimo.
07:50Obrigado.
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