00:00Bom, o nosso assunto agora é a indústria de petróleo e a transição energética.
00:04Comigo aqui no estúdio do Jornal Times Brasil, Cristiano Pinto da Costa, ele é presidente da Shell Brasil.
00:10Cristiano, boa noite. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
00:13Quero começar com uma pergunta bem direta.
00:15Quais são os principais investimentos e projetos nesse momento da Shell aqui no Brasil?
00:20Boa noite, Cris. Obrigado pelo convite. Um prazer estar aqui nesse programa com você.
00:24A Shell tem uma história muito bonita no Brasil. São 112 anos de operação contínua no país.
00:31A gente hoje é o segundo maior operador de exploração e produção, o segundo maior produtor de óleo e gás no Brasil, depois da Petrobras.
00:39Nós estamos presentes em mais de 40 blocos de exploração e produção.
00:43Estivemos atuando nos últimos leilões de concessão da ANP.
00:48Temos participação acionada em 19 navios e plataformas.
00:51E também temos uma participação no setor de distribuição de combustível e produção de etanol, que é a Raizen.
00:58Além de uma comercializadora de energia e estamos dando aí os passos iniciais naquilo que a gente chama de mercado de carbono, soluções baseadas na natureza.
01:06Então, temos um portfólio bem robusto e abrangente ao longo desses 112 anos de operação no Brasil.
01:11Qual é o peso do Brasil para o restante do grupo?
01:14Hoje, dependendo da métrica que você usar, o Brasil está entre os cinco maiores países do ponto de vista de representatividade do Grupo Shell no mundo.
01:22Em que etapa que está aquele projeto de exploração de petróleo em águas profundas na área do pré-sal na Bacia de Santos?
01:28É um consórcio de empresas, mas queria entender qual é a participação da Shell dentro desse consórcio.
01:33Eu acho que você deve estar se referindo a um projeto que a gente anunciou recentemente, a decisão final de investimento.
01:38O projeto que a gente chama de Gato do Mato, ele é uma descoberta lá no polígono do pré-sal brasileiro.
01:44A Shell e os parceiros Eco Petrol e Total Energy e a PPSA, representando o governo brasileiro, tomaram aquilo que a gente chama de decisão final de investimento.
01:52Ou seja, a gente se comprometeu a construir o navio plataforma e botar esse campo em produção, que vai entrar em produção no final da década.
01:59É o maior investimento da Shell feito no país, nós somos os operadores do campo.
02:05Essa plataforma demora 45 meses para ser construída, então ela só entra em produção em 2029.
02:11Mas um projeto de extrema importância para o grupo Shell no Brasil.
02:15Está se falando muito nesse momento, claro, da questão da margem equatorial.
02:19Qual é a sua avaliação sobre a possibilidade de exploração de petróleo?
02:23Vamos lá, sim, é um debate bastante atual e bastante quente.
02:27Eu sempre começo esse ponto dizendo que, para mim, essas são as decisões de política energética que o Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, tem que tomar no Brasil.
02:36O Brasil quer ou não abrir a exploração de novas fronteiras, ou novas fronteiras exploratórias, margem equatorial sendo uma delas.
02:44A minha opinião é que o Brasil tem uma oportunidade grande ali.
02:47O Brasil mostrou que tem um histórico de ser um grande e confiável supridor de óleo e gás para o mercado mundial.
02:54A gente tem um histórico de segurança de 15 anos na Bracia do Pré-Sal muito bom.
03:00O país vem furando poucos poços exploratórios.
03:03Para você descobrir novas reservas de gás ou de óleo, você precisa fazer poços exploratórios.
03:08Um dado que me chama bastante a atenção da Agência Nacional de Petróleo, no começo da década de 2010, 2012, o Brasil furava mais ou menos 100 poços exploratórios por ano.
03:17Em 2024, nós furamos seis. Ou seja, se o Brasil não voltar a perfurar poços de exploração, a gente corre risco de ver um declínio de produção na próxima década e talvez reverter uma tendência recente.
03:30O Brasil virá um exportador de petróleo e o maior contribuinte da balança comercial no final do ano passado.
03:35Então, é uma decisão super importante. O Brasil tem uma oportunidade, um histórico de ser um produtor confiável, competitivo, com um track record muito bom do ponto de vista de segurança.
03:46E essa oportunidade, eu acho que ela parece que o governo brasileiro vai avançar.
03:51Você falou da questão dos leilões da ANP. A gente sabe que vai ter um agora em junho que inclui áreas da Foz do Rio Amazonas.
03:58Como é que a Shell vai se posicionar?
04:00A gente não comenta sobre o que a gente vai fazer no leilão.
04:05Eu como jornalista tenho que perguntar, né?
04:06Está correto. Eu já estava esperando a pergunta, Cris.
04:09Mas o que eu posso dizer é que a Shell foi a única companhia internacional que participou de todos os leilões da agência reguladora no Brasil.
04:17A gente tem um comprometimento enorme com o Brasil.
04:19O Brasil, como eu falei, é uma das cinco maiores operações para o Grupo Shell no mundo.
04:23Nos últimos dois leilões, a gente adquiriu 13 blocos na bacia que a gente chama de Sul de Santos,
04:3029 blocos em parceria com a Petrobras na bacia de Pelotas.
04:33Ou seja, a gente é um ator ativo, um player ativo nos leilões da ANP.
04:37Estamos com times olhando o leilão, obviamente, como a gente faz sempre.
04:41A decisão, se a gente vai participar ou não, nós vamos deixar para o dia do leilão.
04:45Em relação à transição energética, que é outro assunto que muito se fala também,
04:49qual é a avaliação, a posição de vocês?
04:52Primeiro, eu acho que a companhia tem uma meta global de atingir emissões líquidas a zero em 2050,
04:58de acordo com as diretrizes do Acordo de Paris.
05:02Então, eu acho que a gente começa desse ponto de partido.
05:05Se a gente trouxer o debate aqui para o Brasil, ano passado a Shell fez,
05:10pela primeira vez, a gente publicou um documento chamado
05:13Cenários de Transição e Segurança Energética para o País.
05:16E o que a gente mostrou nesse estudo?
05:19A gente mostrou nesse estudo que, dado o contexto global
05:21de necessidade de acelerar a transição energética,
05:25é inegável que há um aquecimento global
05:28e que o mundo tem que endereçar esse grande desafio da humanidade atual.
05:33Porém, em outras vertentes também, a gente precisa garantir segurança energética
05:38e cada vez mais, a gente tem falado num tema chamado adição energética,
05:43ou seja, o consumo de energia no mundo cresce ano após ano.
05:47Então, o dilema é muito mais complexo,
05:49você tem que endereçar a transição energética com segurança energética,
05:53mas também fornecendo mais energia,
05:55porque o mundo começa a consumir cada vez mais energia.
05:57E o Brasil tem uma posição de destaque em relação a isso.
05:59O Brasil já tem uma matriz energética bem mais limpa do que as grandes economias mundiais.
06:05O Brasil tem a capacidade de ser um ator,
06:08tanto no setor de óleo e gás, quanto no setor de biocombustível,
06:12quanto no setor de energia renovável solar e eólica,
06:16quanto no setor de créditos de carbono, com soluções baseadas na natureza.
06:21Ou seja, a oportunidade que o Brasil tem,
06:23dado o dever de casa que já foi feito pelo Brasil,
06:26dado o consumo de energia global crescente,
06:28é que a gente seja um ator em todo o espectro de fornecimento de energia.
06:32O que está faltando para resolver de vez essa questão?
06:35Uma vez que, pelo que você coloca aqui, nós somos até protagonistas nesse cenário.
06:40Eu acho que a questão da transição energética e do suprimento de energia,
06:44ele precisa ser uma colaboração entre a sociedade em geral,
06:47cada um de nós, a gente consome energia.
06:50A questão da transição...
06:51Então, se está aumentando, né?
06:52E cada vez mais aumentando.
06:53A inteligência artificial, por exemplo...
06:55Exato, os três maiores fatores, voltando no consumo,
06:59os três maiores fatores para o aumento de consumo de demanda global são,
07:03há um crescimento populacional entre agora e 2050,
07:05que pode chegar a 2 bilhões de pessoas a mais no planeta em 2050 versus 2020.
07:11Você tem a necessidade do mundo de dar condições de vida a quem vive no hemisfério sul,
07:18equivalente a quem vive no hemisfério norte,
07:20um dado aqui que é super importante,
07:22o consumo per capita de energia para quem vive no hemisfério sul
07:25é um terço do consumo per capita de energia de quem vive no hemisfério norte.
07:29E tem uma correlação direta entre consumo per capita de energia e qualidade de vida.
07:33Então, esse é o segundo fator.
07:34E o terceiro fator, você tocou bem nele,
07:36é o crescimento de demanda oriundo da inteligência artificial.
07:40O que está faltando?
07:41Acho que é uma colaboração entre iniciativa privada,
07:44sociedade do ponto de vista de demanda,
07:46a transição energética, ela passa por mudança comportamental,
07:49estímulo de demanda ou redução de demanda, eficiência energética
07:53ou consumir produtos com mais baixa intensidade de carbono.
07:56E o governo?
07:57O governo tem um papel importantíssimo com políticas públicas
08:00que estimulem essa redução de demanda
08:02ou conversão para um consumo de mais baixo carbono.
08:05Para acabar rapidamente, você acha possível o fim dos carros a gasolina?
08:10Eu acho que eventualmente isso vai acontecer.
08:12O difícil é você conseguir ter precisão de quando isso vai acontecer.
08:17E a outra coisa também é errado você assumir que vai ter uma data única para o mundo inteiro.
08:22Você tem países como a Europa, como a China,
08:25que estão bem mais avançados nessa jornada por várias razões.
08:28Você tem outros países que estão um pouco menos avançados.
08:31O Brasil, por exemplo, eventualmente vai ter uma penetração de veículos elétricos
08:35bem maior na frota daqui a 5, 10, 20 anos.
08:38Porém, hoje a gente já tem uma frota de veículos que roda com bastante etanol.
08:43Tem quase 30% de etanol na mistura da gasolina.
08:47Você já tem uma intensidade de carbono da nossa frota hoje muito mais baixa do que outros países,
08:52dado o trabalho bem feito pelo governo brasileiro
08:54da penetração e da criação dessa grande indústria que são os biocombustíveis.
08:58E a gente tem dimensões continentais no país,
09:01o que torna a eletrificação da frota um pouquinho mais complicada do que na Europa.
09:06Mas eu acho que esse dia vai chegar e é difícil precisar exatamente quando.
09:09O que eu posso dizer é que não vai ser a mesma data
09:11para o mesmo país, no mesmo lugar do mundo.
09:14Cristiano, muito obrigada. Prazer conversar com você.
09:17Boa noite.
09:18Prazer foi meu. Muito obrigado.
09:19Obrigada a você.
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