00:00Música
00:13Minha esposa e eu moramos em nossa casa há cerca de 5 anos e, nesse tempo,
00:20provavelmente descemos ao porão poucas vezes.
00:23Nossa casa é uma antiga casa vitoriana do tipo geminada.
00:28Então, o porão é frio e úmido.
00:31Quando nos mudamos, nós guardávamos o vinho e outras coisas lá embaixo.
00:37Porque a minha esposa gostava da ideia de dizer às pessoas que nós tínhamos uma adega.
00:43Mas ficou cansativo ter que descer lá toda vez.
00:48Então, nós paramos de usá-lo.
00:50Somos só nós dois.
00:52Então, nós nunca precisamos realmente usar aquele espaço todo para armazenamento.
00:59Até que, algumas semanas atrás, nós decidimos reformar o porão.
01:05Talvez o transformar em uma mini-academia ou algo assim.
01:10Então, no fim de semana, nós descemos e começamos a limpar.
01:14O porão tinha daquele piso antigo de pedra.
01:19Mas as paredes estavam cobertas por um papel de parede floral horrível e amarelado.
01:26Parecia coisa muito velha.
01:28E presumi que aquilo ali estava há décadas.
01:31Então, nós começamos a remover o papel da parede.
01:35E foi aí que encontramos a porta.
01:38A porta, que estava coberta com papel de parede, estava embutida na parede.
01:45Era de madeira lisa e a maçaneta havia sido removida.
01:49A deixando totalmente plana.
01:52Ficamos bastante perplexos por nunca termos notado isso antes.
01:57Porque ela havia se integrado muito bem ao resto da parede.
02:02Mas, naquele momento, eu estava muito animado por termos encontrado uma porta secreta.
02:08Então, eu ignorei um pouco a estranheza da situação.
02:13Todas as casas de nossa rua têm porão.
02:16Então, presumi que devia ser uma porta antiga, que daria acesso ao porão do vizinho.
02:24Decidimos que iríamos até a casa do vizinho amanhã de manhã para falar sobre a porta.
02:29E sugerir que a fechássemos com tijolos ou algo assim.
02:34Porque eu não me sentia muito confortável com esse ponto de acesso à nossa casa.
02:39Minha esposa tentou olhar pelo pequeno buraco circular na porta,
02:44onde a maçaneta havia sido removida.
02:47Mas estava completamente escuro lá dentro.
02:51Então, como somos curiosos, usamos a lanterna do celular dela para espiar pelo buraco.
02:57Minha esposa olhou primeiro.
03:00E, de repente, ela ficou imóvel.
03:04Isso não dá para o porão do vizinho.
03:07Ela falou isso lentamente, se afastando da porta.
03:13Franzia a testa, peguei o celular dela e fui ver por mim mesmo.
03:17Ao invés do porão, havia degraus de pedra que desciam.
03:21Com a luz do celular, eu não conseguia enxergar muito longe.
03:25Então, peguei a minha lanterna potente e, com algum esforço, eu consegui empurrar a porta.
03:32Descemos a escadaria olhando para baixo com a lanterna.
03:35Ela não era muito comprida e, no final, havia outra porta.
03:40E essa parecia bem antiga.
03:43Com painéis de madeira unidos por colunas de metal.
03:47Tinha até uma daquelas maçanetas de metal em formato de argola.
03:53Não fazia sentido como aquilo podia estar ali.
03:57Mesmo sendo um declive, o início da escada ainda invadiria o porão do vizinho.
04:02Nós tínhamos ido ao porão dele algumas vezes para tomar uns drinks.
04:08Ele tinha transformado aquilo em uma sala de jogos com bar e uma mesa de bilhar.
04:14Eu nunca reparei nenhuma grande saliência na parede que poderia cobrir a nossa escada.
04:21Ou que o porão fosse menor que o nosso.
04:24Já que haveria uma parede inteira cobrindo essa passagem.
04:29Minha esposa achou que, provavelmente, nós deveríamos conversar com o nosso vizinho antes de descer e saiu.
04:37Mas eu estava muito curioso com tudo aquilo.
04:41Então, eu peguei a lanterna e desci.
04:44Coloquei a mão na maçaneta e percebi que ela estava um pouco rígida.
04:48Mas fiquei surpreso ao ver que ela abria.
04:51E iluminei o interior da sala com a lanterna.
04:55Era uma sala de concreto.
04:57Parecida com o nosso porão.
04:59Só que menor.
05:01E aquela era a única outra entrada ou saída que eu conseguia enxergar por ali.
05:07Agitei a lanterna e quase pulei de susto.
05:10Havia um homem parado contra a parede do fundo.
05:14De costas para mim.
05:16Ele estava completamente imóvel.
05:18E vestia um terno e um chapéu de aba pretos.
05:23O homem estava tão imóvel que comecei a imaginar que era um manequim.
05:28Até que ele lentamente levantou um dos pés.
05:32Eu fiquei paralisado com a luz da minha lanterna apontada para ele.
05:37Era forte o suficiente para iluminar o seu corpo.
05:40Mas o resto do cômodo estava na mais completa escuridão.
05:46Ele manteve o pé no ar.
05:48Antes de movê-lo lentamente um passo para trás.
05:52Seus movimentos eram antinaturais e bruscos.
05:57Como o de alguém que não sabia andar direito.
06:01Permaneceu assim por um instante completamente imóvel com o pé para trás.
06:06Então, ergueu o outro pé no mesmo movimento brusco.
06:10Dessa vez, ao dar o passo para trás, o seu pé bateu com força no chão.
06:16O some despertou do meu estado de choque e eu dei um pulo para trás.
06:20Assim que me movi, foi como se eu tivesse acionado alguma coisa.
06:26E, de repente, ele se moveu muito rápido.
06:29Ele estava correndo de costas na minha direção.
06:33Com as pernas se movendo de forma totalmente antinatural.
06:37Escrevendo isso agora, parece até engraçado.
06:41Mas, na hora, foi absolutamente aterrorizante.
06:44Eu nunca tinha visto ninguém se movendo daquele jeito.
06:49Instintivamente, eu joguei a lanterna nele.
06:52Talvez eu pensasse que ia conseguir nocautear ou algo assim.
06:57Sinceramente, eu não sei.
06:59Só corri de volta escada acima.
07:03Batendo a porta e fugindo como um desesperado pelas escadas que davam para fora do porão.
07:09Batendo também aquela outra porta da parede.
07:12Hesitei junto à porta, abarricando com o braço e tentando controlar a respiração e entender o que tinha acabado de
07:21presenciar.
07:22Ouvi o som da porta do porão se abrindo.
07:26Em seguida, o que pareceu ser um enorme pedaço de carne se arrastando pelo chão.
07:34Achei que comecei a ouvir um chiado baixo.
07:38Momento em que saí correndo da casa, gritando o nome da minha esposa.
07:43Ela estava parada na porta da casa do vizinho, conversando com ele.
07:48Eu a agarrei e a puxei para o outro lado da rua.
07:51Gritando também para o meu vizinho se afastar da casa.
07:55E sem nem tentar explicar o que eu tinha visto, eu peguei o meu telefone e liguei para a polícia.
08:02Ficamos ali no escuro, ao lado do meu vizinho que estava de roupão e chinelos, olhando para a casa.
08:09Depois de alguns instantes, eu vi as luzes que tínhamos deixado acesas piscarem pela janela da cozinha.
08:16E então se apagaram completamente.
08:20Tudo o que eu me lembro é de segurar a mão da minha esposa com força, olhando para dentro das
08:25janelas escuras e esperando a polícia chegar.
08:29Quando chegaram, eles revistaram a casa, mas não encontraram ninguém lá dentro.
08:35A porta do porão estava aberta, assim como a porta dos fundos.
08:40Eles revistaram nosso jardim, mas não encontraram ninguém.
08:44Nem pegadas ou sinais de que alguém tivesse estado lá.
08:49Eles trouxeram a equipe para examinar o cômodo secreto que nós havíamos encontrado.
08:55Meu vizinho alegou não saber nada sobre o cômodo.
08:59E que também não conseguia entender como a escada e o cômodo poderiam existir.
09:04Como aquilo poderia caber entre os nossos dois porões.
09:09E nem a polícia também conseguia arranjar uma explicação.
09:13Eu não queria voltar lá nunca mais.
09:16Então eles nos mostraram fotos das paredes do cômodo.
09:20O concreto estava esculpido com símbolos esquisitos.
09:24E encontraram o que parecia ser um sangue seco bem antigo.
09:29Eles enviaram fotos dos símbolos para o departamento de história da universidade local.
09:35Mas ninguém sabia o que significava.
09:38Eles lacraram a sala e nós nunca mais descemos ao porão.
09:44Acho que cometi um grande erro naquele dia ao abrir aquela porta e ao entrar naquela sala.
09:51Eu acho que eu liberei algo naquele dia.
09:54Algo que alguém havia trancado por algum motivo.
09:58E não acho que isso seja algo bom.
10:19E não acho que isso seja algo bom.