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  • há 9 minutos
No que deveria ser apenas mais uma noite como outra qualquer, o horror e o sobrenatural invadem uma loja de conveniência.

Adaptação autorizada pelo autor.

História original: https://www.reddit.com/r/nosleep/comments/y7vscs/theyre_here/

Perfil do autor: https://www.reddit.com/user/Harbinger_51/

Adaptação do texto original, narração e edição: Extro

Músicas:

Repulsive_ Confusion

REPULSIVE - Confusion: https://www.youtube.com/watch?v=tWLsrVs26LQ
REPULSIVE - Akane's Regret:https://www.youtube.com/watch?v=YF4v8ZbIphA



Categoria

😹
Diversão
Transcrição
00:13— Eles estão aqui!
00:16Havia desespero e pânico na voz da gerente quando ela pronunciou isso com a respiração pesada.
00:23Isso combinava com a expressão da caixa, que mudou de neutra e cansada para uma aparência terrível e dolorosamente desperta.
00:33Outra funcionária que esperava atrás do balcão se levantou rapidamente e caminhou para algum lugar nos fundos da loja.
00:42Para contextualizar, era um pouco mais de nove e meia e tinha sido um dia corrido para mim.
00:49Eu fiz uma prova e vários testes em diferentes disciplinas e tinha acabado de fazer um treino pesado na academia
00:58antes de voltar para o meu apartamento e perceber que estava sem leite.
01:03Eu decidi então dar uma passada na loja de conveniência que fica bem embaixo do meu prédio.
01:10Eu sabia que fechava às dez horas, então tinha bastante tempo para comprar leite e dar uma olhada nos salgadinhos.
01:18Como não encontrei nada que me interessasse, eu levei a caixa de leite até o caixa para pagar.
01:25Eu era o único cliente na loja naquele momento e as únicas outras pessoas presentes eram três funcionários.
01:33E quem eram eles?
01:35Talvez algum tipo de equipe de limpeza ou de manutenção da loja, mas ela ainda não estava fechada.
01:44Peguei a caixa de leite e fui até a porta.
01:47A gerente parou bem na minha frente.
01:51Não podemos deixar que você saia agora.
01:53Não é seguro.
01:55Você tem que esperar conosco até que eles passem.
01:58Quem são eles?
02:00Eu respondi frustrado, mas ainda confuso.
02:04Por que inferno?
02:06Ela estava me impedindo de sair.
02:08Eu imaginava que os funcionários da loja gostariam que eu saísse, agora que o horário de fechamento estava se aproximando.
02:17A gerente refletiu sobre a minha pergunta por um instante, antes de balançar a cabeça e suspirar,
02:24como se estivesse estressada demais para me dar uma explicação naquele momento.
02:29Ela se virou para fechar as persianas metálicas da fachada, ignorando a minha pergunta.
02:37E, como eu disse, eles não deveriam fechar ainda.
02:42Não era a hora.
02:43Decidi que não ia ficar para descobrir qual era o joguinho que estavam jogando.
02:49Caminhei até a porta, mas me detive antes de sair.
02:53Do outro lado da porta estava um homem vestido com um terno antigo, porém caro e elegante, uma grande cartola.
03:02Parecia um corretor da bolsa dos anos de 1920, que tinha sido arrancado do espaço do tempo e colocado do
03:11outro lado do vidro.
03:12Passaram-se apenas alguns segundos antes de eu ouvir um grito abafado vindo de trás de mim.
03:20Olhei para trás e vi a caixa com as mãos sobre a boca, olhando para mim com lágrimas escorrendo pelo
03:26rosto.
03:27A gerente se voltou para a frente da loja.
03:31Quando me viu parado em frente à porta e o homem do outro lado, ela me deu uma ordem alta
03:36e firme.
03:37— Se afasta da porta! Agora!
03:39— Fiz o que ela disse, indo para perto dela.
03:43Mas antes que eu pudesse perguntar ou dizer qualquer outra coisa, ela gritou outra ordem.
03:49— Vá se esconder atrás de um corredor e espere até que eu mande você sair.
03:53Se você não fizer o que eu mandar, você vai morrer essa noite. Agora vai!
03:59Eu estava confuso com uma mistura de emoções e pensamentos,
04:04mas algo me dizia que ouvir o que ela estava dizendo era a melhor opção.
04:08Mesmo assim, naquele momento eu não tinha pensado em nenhum motivo pelo qual a minha vida
04:15ou de qualquer outra pessoa estaria em perigo.
04:18Talvez aquele homem fosse um problema frequente para a loja e assediar seus funcionários.
04:24Ou algo do tipo.
04:26— De qualquer forma, eu fiz o que ela mandou.
04:28— Coloquei o leite no balcão do caixa e fui me esconder entre os corredores num canto da loja.
04:35Fiquei parado ali por um instante, me sentindo estranho e um pouco assustado com o que quer que estivesse acontecendo.
04:42Peguei meu celular, mas ele não ligou.
04:45Eu juraria que a bateria não estava descarregada quando saí do apartamento.
04:50Era uma pena.
04:51Eu acho que só me restava esperar.
04:54Ouvia a gerente conversando com a caixa, que parecia bastante assustada com o homem ou com o que quer que
05:01estivesse acontecendo.
05:02Cerca de dois minutos depois, ouvia as portas automáticas abrirem e alguém entrar.
05:09O eco dos passos quebrou o silêncio enquanto a pessoa se aproximava do balcão.
05:14Ela parou e o silêncio voltou a reinar na loja, mas apenas por alguns segundos.
05:20Um homem com uma voz amigável quebrou o silêncio.
05:24— Boa noite.
05:26— Oi.
05:27Escutei a caixa tímida gaguejando, mal conseguindo formar palavras coerentes.
05:34— Você teria a gentileza de me indicar onde fica a seção de carnes da sua loja?
05:40— Caminhei na ponta dos pés até a beira do corredor e olhei para o balcão.
05:46O homem que o vira lá fora agora estava parado em frente à caixa.
05:50Ele tinha uma postura impecável.
05:53Era muito mais alto do que eu esperava.
05:56Devia ter entre 1,95 a 1,98.
06:01E sua estatura, usando aquela cartola, fazia ainda mais contraste com a caixa, que era baixinha.
06:09A caixa respondeu a ele, muito timidamente.
06:13— Nós... nós temos alguns pacotes de frios, peru, presunto.
06:20Eles estão... eles estão naquela seção bem ali, você vê?
06:25— Oh, me desculpe, querida, mas eu acho que não estamos falando da mesma coisa.
06:31Me disseram que havia um bom estoque de carnes recém-abatidas disponíveis para compra.
06:38— Ah!
06:39— Eu... eu... eu não sei o que o senhor quer dizer.
06:42— Ah, eu acho que sim.
06:44O homem não se mexeu.
06:47Permaneceu parado, em frente ao balcão, encarando a caixa silenciosa.
06:52Ela olhou para baixo, desesperada.
06:56Eu conseguia ouvir a sua respiração fegante e os seus soluços, enquanto o homem continuava imóvel.
07:03Era como se ele estivesse programado.
07:06Como um personagem não jogável em um jogo, esperando por um comando antes de poder dizer outra frase ou fazer
07:15qualquer outro movimento.
07:17Vi a gerente se aproximar por trás.
07:20Ela devia estar esperando nos fundos da loja.
07:23Parada atrás do homem, embora a uma boa distância.
07:27Ela mesma se dirigiu a ele.
07:30— Como podemos ajudá-lo, senhor?
07:32Ela a falou com bastante calma.
07:34E o homem se virou lentamente.
07:38Ele era, para dizer o mínimo, extraordinariamente bonito e bem apessoado.
07:45Barbeado, sem olheiras, sem manchas ou imperfeições na pele.
07:49E com dentes brancos como pérolas, que brilhavam do outro lado da sala, quando seus olhos encontraram os da gerente.
07:58— Boa noite.
07:59— Fui informado de que haveria um bom estoque de carne recém-abatida disponível para compra.
08:06— Senhor, infelizmente o nosso estoque de carne fresca acabou.
08:11Se depois o senhor retornar, nós teremos um novo lote disponível para compra.
08:17Mas, no momento, não temos nenhum em estoque.
08:21Agradecemos ao senhor por comprar conosco.
08:24O sorriso do homem se desfez enquanto ele encarava a gerente por um tempo que me pareceu durar uns bons
08:31trinta segundos.
08:33A completa ausência de qualquer movimento, por menor que fosse, o fazia parecer mais uma estátua do que uma pessoa.
08:41Então, ele aparentemente saiu do transe que se encontrava e o seu sorriso retornou.
08:47— Entendo. Voltarei depois. Desejo a vocês, senhoras, uma noite maravilhosa.
08:55E, com isso, ele saiu calmamente pelas portas automáticas, deixando a loja.
09:02A caixa atrás do balcão desabou em lágrimas.
09:06A gerente foi até lá, passou o braço em volta dela e a acompanhou até o fundo da loja.
09:12— Eu as segui.
09:14A gerente chegou ao canto oposto do fundo da loja onde eu estava escondido e abriu uma espécie de armário
09:22de materiais de limpeza.
09:24Lá dentro estava o terceiro funcionário que eu tinha visto se retirando para o fundo da loja mais cedo.
09:31Ele estava ao telefone, não ao celular, mas algum tipo de telefone fixo sem fio que eu presumi ser o
09:40telefone da loja.
09:41— Você conseguiu entrar em contato com eles?
09:44A gerente perguntou isso depois de ajudar delicadamente a caixa, que já estava histérica, a se sentar no chão do
09:51depósito.
09:52— Eles ainda estão tentando descobrir como chegar aqui.
09:56Pode levar um tempo. Você consegue se virar sozinha e ir fora?
10:01A gerente acenou com a cabeça, soltou outro suspiro, fechou a porta e se virou para mim.
10:07— Podemos ficar aqui por um tempo. Preciso de um dos meus funcionários ao telefone para que possamos pedir ajuda.
10:15E a outra parece incapaz de ajudar. Então, preciso que você faça o que eu digo para que todos possamos
10:22sobreviver a isso.
10:24Você não tem escolha. Se tentar ir embora, se fizer besteira, se não fizer exatamente o que eu digo, todos
10:32nós morremos. Entendeu?
10:34— Eu... Sim, eu entendo.
10:37— Lhe assegurei fazendo um aceno afirmativo com a cabeça.
10:42No entanto, estava longe de estar confiante da minha capacidade e ainda mais inseguro quanto à veracidade daquilo.
10:51Continuava sem a mínima ideia do que se passava e quem eram eles.
10:56— Tanto o homem estranho, de fato, como a pessoa com quem um funcionário no armário falava ao telefone.
11:03A gerente passou por trás do balcão ao lado do primeiro caixa.
11:07Nessa hora, pensei em correr, em sair a toda velocidade por aquela porta e voltar para o meu apartamento,
11:14onde não teria que lidar com o que parecia ser uma pegadinha que tentavam me pregar.
11:20Mas não tive tempo de arquitetar esse plano para fugir.
11:24As portas automáticas se abriram novamente e ouvi passos mais silenciosos, porém frenéticos.
11:33Olhei para a gerente que acenou com a mão e murmurou algo que presumi ser
11:37Se esconda, antes de se abaixar atrás do balcão.
11:41E voltei para o meu esconderijo original atrás dos corredores.
11:46O som doentio de uma respiração pesada, como a de um velho asmático, acompanhou os passos rápidos,
11:54correndo da entrada até o balcão.
11:57Pararam por um instante, mas a respiração era incessante.
12:03Recomeçou a andar.
12:04Parecia se aproximar, depois se afastar e depois se aproximar novamente.
12:10Depois se afastar de novo e se aproximar mais uma vez.
12:15Rapidamente eu juntei as peças, percebendo que estava se movendo pelos corredores,
12:20os percorrendo em ordem e que, eventualmente, chegaria ao meu.
12:26Entrei em pânico por alguns segundos, tentando bolar uma estratégia para não ser visto.
12:33Torci para quem quer que fosse não fosse atento o suficiente para me notar atravessando o corredor.
12:40Quando chegou ao corredor anterior ao meu, esperei que caminhasse para longe de mim.
12:46Me virei na lateral do corredor e dei uma espiada ao redor.
12:50E finalmente vi.
12:53Não era uma pessoa.
12:54A criatura tinha cerca de um metro e meio de altura.
12:59Estava completamente nua e tinha pele pálida e branca.
13:04Tão branca que parecia impossível ser de um ser humano vivo.
13:09As suas costas estavam extremamente curvadas, com a coluna vertebral tão saliente que parecia prestes a romper a carne.
13:19As pernas eram finas e pequenas, incapazes de suportar o peso da criatura que carregava.
13:26Os pés e os dedos eram semelhantes ao de um lagarto.
13:32Ao virar a esquina do corredor, pude ver seus braços curtos com mãos semelhantes a humanas e desproporcionalmente grandes, com
13:43unhas longas, pretas e sujas.
13:45Seu peito era definido por uma pele esticada sobre a caixa toráxica larga e o resto do torso parecia colado
13:55ao esqueleto, como se estivesse morrendo de fome.
13:59E o rosto era a pior parte.
14:02Sua mandíbula era muito, muito mais longa do que o de qualquer pessoa e terminava em uma ponta na parte
14:11inferior, parecendo quase uma caricatura.
14:14Sua boca estava aberta, deixando os dentes e as gengivas expostas.
14:20Os dentes pareciam impecáveis, como se tivessem sido perfeitamente confeccionados e não pudessem ter nenhuma imperfeição.
14:31Mas eram longos, muito longos, impossivelmente longos.
14:36As gengivas eram pretas, pareciam estar apodrecendo.
14:40O nariz e os olhos eram como os de um homem, mas a esclera era em um tom esverdeado, como
14:48se tivesse contraído alguma doença que a tivesse deixado dessa cor.
14:53Tinha apenas alguns fios de cabelo branco e áspero.
14:57Me movi o mais silenciosamente possível para o corredor seguinte.
15:03Quando a criatura finalmente terminou de vasculhar toda a loja, saiu dos corredores e passou pelas portas automáticas,
15:13respirando incessantemente o tempo todo, como se fosse morrer a qualquer minuto.
15:19Segundos depois, as portas se abriram novamente.
15:22A gerente gritou para que eu fosse até a frente.
15:27Hesitante, eu saí de trás do meu corredor e caminhei cautelosamente até a porta, observando quem estaria prestes a entrar.
15:36Mas elas pareciam apenas continuarem abertas.
15:41Fique atrás do balcão. Não diga nada. Sorria quando eles falarem.
15:46Sorria quando quem?
15:49Uma criança entrou correndo pela porta.
15:53Uma criança? Na rua? Nessa cidade? A essa hora? Por quê? Onde estavam os pais?
16:02Mas seis a seguiram. E todas pareciam muito pequenas.
16:07Eu diria que tinham uns cinco ou seis anos.
16:10Começaram a correr por toda a loja, entre os corredores e na frente.
16:15Acho que ficaram brincando de pega-pega ou esconde-esconde por um tempo.
16:21Rindo e agindo como crianças dessa idade costumam agir.
16:26Deixe eles em paz e faça o que eu disse.
16:29Quando eles sorrirem, sorria de volta.
16:32A gerente me lembrou do que ela disse.
16:35Eles continuaram brincando por uns cinco minutos antes de pararem de correr e virem para a frente da loja.
16:42Rapidamente formaram uma fila indiana em frente ao balcão.
16:47E cada um pegou uma barra de chocolate da prateleira ao lado.
16:52Daquelas que as lojas usam para exibir itens pequenos como salgadinhos e revistas.
16:58Que as pessoas costumam comprar por impulso.
17:01O primeiro garoto foi até a gerente no caixa e tirou um dólar e algumas moedas.
17:07Era exatamente o preço da barra.
17:10Mas, nessa situação, acho que ninguém teria reclamado se não fosse.
17:16Depois que o primeiro garoto colocou as moedas no balcão, ele se virou e olhou para mim.
17:23Ele simplesmente manteve contato visual, sem demonstrar nenhuma emoção em particular.
17:29Muito parecido com a maneira como crianças normais encaram estranhos em público sem nenhum motivo específico.
17:37Mas, logo descobri que aquelas não eram crianças normais.
17:42O garoto sorriu para mim e eu, fazendo como me foi instruído, retribuí o sorriso.
17:50Infelizmente, não consegui manter o sorriso quando o dele se alargou.
17:55Revelando que sua boca se abria de uma extremidade da cabeça a outra.
18:00Praticamente de orelha a orelha.
18:02Ele exibiu a sua longa fileira de dentes irregulares.
18:08E ele deve ter percebido uma mudança de humor pela minha expressão facial.
18:13E, por sorte, a gerente também.
18:16Ela virou lentamente a cabeça na minha direção.
18:21Sorria, de volta.
18:23Ela falou baixinho, mas com muita firmeza.
18:26Me forcei a sorrir, encarando não a uma criança, mas aquele monstro que havia fixado seu olhar no meu.
18:36Ele deu uma risadinha, desviando o olhar de mim antes de pegar a barra de chocolate e sair correndo da
18:44loja.
18:44Passei pelo mesmo tratamento pelos próximos cinco.
18:49Todos fizeram exatamente a mesma coisa.
18:53Parecia que eu era um operário de linha de montagem, cuja função era simplesmente ser exposto à imagem antinatural daqueles
19:02monstros enquanto eu me esforçava ao máximo para manter um sorriso.
19:07Felizmente, não durou muito e fiquei aliviado por ter acabado.
19:11Me virei e comecei a me afastar do balcão, quando a gerente agarrou meu braço e me puxou de volta.
19:19Ainda tem um aqui. Não vamos sair daqui até ele ir embora.
19:25Assenti com a cabeça e não disse nada.
19:28Consegui ouvi-lo correndo pelos corredores do fundo da loja.
19:32Acho que esse era o encrenqueiro do grupo.
19:35Eu vou te encontrar.
19:38Ele falou com a voz estridente enquanto corria.
19:42Alguns minutos se passaram antes de parar bem em frente ao armário do zelador.
19:49Olhou para cima como se pressentisse algo antes de agarrar a maçaneta e puxá-la para baixo.
19:56A caixa segurava a porta pelo lado de dentro e tentou impedir que se abrisse, mas não tinha força suficiente.
20:06O monstrinho soltou um grito antes de puxar a porta com uma força incrível,
20:11arrancando das dobradiças e arremessando a pobre da caixa ao chão.
20:17Ele olhou alternadamente da caixa para o outro funcionário ao telefone,
20:23antes de, com uma voz brincalhona, falar
20:26Vou te dedurar!
20:28Antes de sair correndo da loja, rindo o tempo todo,
20:33sem se dar ao trabalho de comprar uma barra de chocolate como os outros fizeram.
20:38A caixa parecia ter sido nocauteada.
20:42O outro funcionário espiou para fora do armário.
20:46Agora sem porta.
20:47Ele olhou para a gerente.
20:49O que fazemos agora?
20:52Não temos ideia de qual criança ele vai despertar.
20:55Pode ser uma entre milhares e os nossos amigos não chegaram aqui ainda.
21:00Eu acho que precisamos fugir.
21:03Não, não.
21:05Você e eu sabemos que isso não vai acabar bem para nós.
21:10Precisamos ficar aqui até passar ou até a equipe chegar.
21:14Pega o telefone e se esconde atrás dos corredores.
21:18Precisamos manter contato.
21:20Se não fizermos isso...
21:23Droga!
21:24Se esconda!
21:25Se esconda!
21:26A gerente rapidamente se abaixou atrás do balcão.
21:30Eu e o funcionário que estava ao telefone corremos para o canto dos fundos da loja,
21:36quando as portas automáticas se abriram novamente.
21:39Olhei para trás e vi que tínhamos esquecido algo.
21:44A caixa ainda estava no chão, desacordada e sem reação.
21:49Tentei chegar até ela, mas fui impedido pelo funcionário ao meu lado.
21:55Com o telefone ainda em uma das mãos e balançando a cabeça, ele sussurrou para mim.
22:01Não faça isso, é tarde demais.
22:04Meu coração afundou no peito, mas eu acreditava que ele estava certo.
22:10Me sentei com as pernas bambas.
22:13Novamente, a loja estava silenciosa.
22:17Silenciosa o suficiente para ouvirmos os cascos batendo no chão duro enquanto entravam.
22:23Uma risada sádica os acompanhava, e essa parecia ser uma voz adulta, provavelmente de um homem.
22:33Os passos eram altos, o suficiente para que fosse óbvio que o que quer que estivesse andando tinha um bom
22:40peso.
22:42Estava caminhando ao lado dos corredores opostos aos nossos, onde a caixa ainda estava caída.
22:48Nos movemos para a beira do nosso corredor, mas ficamos tempo o suficiente para vê-lo.
22:55Surgindo por trás do corredor, em frente a nós estavam as pernas de um cervo, sustentando a parte superior do
23:04corpo de um homem.
23:05Ou pelo menos era o que parecia, pois ele estava vestido com uma roupa de palhaço vermelho e azul.
23:13E o chapéu de bobo da corte combinava com as cores.
23:17Ele devia ter um metro e oitenta de altura, e o corpo por baixo da roupa se alongava nos braços
23:25e ombros.
23:26As mãos eram pretas, e cada dedo tinha uma unha longa, afiada e irregular.
23:33O rosto era pálido, mas brilhante, como se tivesse sido pintado.
23:38Os lábios e a área ao redor dos olhos também estavam pintados, embora fossem de preto, e o nariz era
23:46uma bola vermelha redonda.
23:49Parou de andar e rir quando chegou àquele corredor.
23:52Bem em frente, a porta quebrada e a caixa inconsciente que jazia diante dela.
23:58O palhaço se abaixou e, sem esforço algum, pegou a caixa pelo pescoço e a ergueu à sua frente.
24:07Olhou para ela, inclinando a cabeça com curiosidade.
24:11Como se tivesse encontrado algum tipo de espécime raro.
24:15Como se ele próprio já não fosse um.
24:18O funcionário ao meu lado sussurrava uma descrição apressada pelo telefone, e eu conseguia ouvir uma voz do outro lado
24:27da linha,
24:28embora estivesse muito baixa para entender qualquer palavra.
24:32A caixa abriu os olhos, finalmente despertando antes que seus olhos se arregalassem ainda mais,
24:40ao perceber o que ela estava enxergando.
24:43Ela gritou para o palhaço que a segurava pelo pescoço.
24:47Ele pareceu momentaneamente repelido pelo grito e a puxou para si,
24:53fechando a mandíbula em volta do seu pescoço e dando uma mordida.
24:58Sua boca se manteve aberta enquanto ela era instantaneamente silenciada.
25:04O palhaço deu outra mordida antes de estender a outra mão para agarrar também a sua cabeça.
25:11Num movimento rápido, arrancou a cabeça do corpo e a jogou na nossa direção.
25:16Espalhando sangue pelo corredor dos fundos como um aspersor de jardim, a cabeça caiu a poucos metros de onde nós
25:24estávamos.
25:25Não me atrevia a dar outra olhada.
25:28Mas naquele momento não importava.
25:31Outra rodada de risadas histéricas e rompeu do palhaço.
25:40Quando a voz aguda e perturbadora soou, o funcionário a meu lado deixou o telefone cair e tentou correr.
25:49Ele conseguiu chegar ao espaço vazio em frente ao balcão,
25:53antes que o palhaço atravessasse o caminho correndo na sua frente.
25:58A corrida desenfreada do funcionário foi facilmente interrompida e ele caiu para trás.
26:05O palhaço não se abalou nem um pouco por causa da trombada.
26:09A criatura agarrou o funcionário pelos pulsos e o ergueu até a sua altura.
26:15Puxou violentamente ambos os braços, os arrancando das articulações.
26:21O funcionário ainda vivo soltou gritos lancinantes enquanto sangrava impotente no chão.
26:29O palhaço riu por um instante, antes de desferir um chute com o casco, esmagando seu crânio.
26:37Olhei para o telefone e escutei algum tipo de feedback de quem estava do outro lado da linha.
26:44O peguei e o levei ao ouvido.
26:47Olá.
26:48Escuta, você precisa cegá-lo.
26:51Verifique seu telefone.
26:53Eu sei que não funcionava antes, mas vai funcionar agora.
26:57Você precisa ligar a lanterna e apontar para os olhos dele.
27:02Está me ouvindo?
27:03Tirei o meu celular do bolso.
27:06Estava ligado e, além disso, estava completamente carregado.
27:10Eu não o tinha carregado.
27:12Isso não fazia sentido.
27:14O palhaço falou do meio da loja.
27:17Não pense que eu esqueci de você.
27:20Tenho um troco diferente para você.
27:23Sei que você vai gostar.
27:25Deixei cair o telefone da loja e, assim como o funcionário, tentei correr.
27:31Disparei pelo último corredor antes de perceber que não tinha a mínima ideia de para onde estava indo.
27:38Entrei em pânico, tentando pegar meu celular novamente.
27:42Ele caiu do meu bolso no chão e rapidamente o recuperei, tentando ligar a lanterna enquanto cascos se aproximavam atrás
27:51de mim.
27:52Fui agarrado e virado à força, mas tive a sorte de ligar a lanterna do telefone bem a tempo.
27:59O palhaço gritou de dor e raiva enquanto corria para longe de mim em direção aos outros corredores.
28:06Ele arrebentou e jogou tudo o que podia das prateleiras destruindo a loja.
28:13Me recuperei e continuei apontando a lanterna do meu celular na direção dele.
28:19Tropeçou em uma prateleira que havia derrubado e caiu de cara no chão.
28:24Levantando-se de um salto, o palhaço se virou e tentou me acertar, mas cobriu os olhos e retomou seus
28:32gritos horríveis quando a luz o atingiu novamente.
28:36Correu, tropeçando e gritando pelas portas da loja e saiu.
28:41Tudo ficou em silêncio novamente.
28:44A gerente, que havia permanecido escondida atrás do balcão o tempo todo, se levantou e viu a carnificina com os
28:52próprios olhos.
28:53Pelo seu semblante, eu percebi que algo dentro dela havia morrido ao ver os corpos desmembrados de seus colegas.
29:01Mas ela não disse nada.
29:03Ao invés disso, se virou para mim e perguntou.
29:06Onde está o telefone?
29:09Desliguei a lanterna do meu celular e guardei no bolso antes de caminhar sobre a bagunça de mercadorias e sangue
29:16até o fundo da loja.
29:18Peguei o telefone da loja e o levei até a frente.
29:21O entregando à gerente que não se mexeu, ainda olhando com horror e incredulidade para os corpos à sua frente.
29:30Ela pegou o telefone e começou a conversar com alguém do outro lado da linha.
29:36Permaneci onde estava, sem coragem de olhar para trás e ver tudo aquilo novamente.
29:43Após cerca de 30 segundos de uma conversa da qual eu já não entendia nada e a qual eu já
29:49não estava mais prestando muita atenção,
29:52a gerente soltou outro suspiro.
29:55Dessa vez de alívio, murmurou.
29:58Ah, graças a Deus. Quanto tempo.
30:01Mais conversa do outro lado da linha.
30:03Ok, ok. Eu posso fazer isso. Ainda há mais um vivo. Vou pedir para ele ficar de olho na sua
30:10chegada.
30:12Dito isso, a gerente desligou o telefone e olhou para mim com olhos cansados e sem fôlego.
30:18Preciso que você fique perto da porta e observe se algum SUV preto vai parar.
30:24Me avise quando chegar. Grite para mim e eu direi se é o time que estamos esperando ou não.
30:30Se não for, se esconda. Eu preciso fazer algo nos fundos.
30:34Ela foi para os fundos da loja levando o telefone.
30:38Eu não estava com vontade de fazer mais perguntas.
30:42Imaginei que, quem quer que fosse essa equipe, eles deviam ser a nossa saída desse pesadelo.
30:49Caminhei até lá e parei em frente às portas automáticas, olhando para fora.
30:55Não conseguia ver nada além da rua típica que eu conhecia.
30:59Só que sem ninguém.
31:01Durante todo o tempo que eu esperei, eu pude escutar a gerente mexendo em alguma coisa nos fundos.
31:07Foi ali que comecei a processar tudo o que tinha acabado de vivenciar.
31:14Era demais.
31:16Meus pensamentos e emoções correram soltos na minha cabeça.
31:20Mas, acima de tudo, eu queria saber o que era aquilo.
31:24Nos minutos seguintes, ponderei as possibilidades e contemplei o mérito de cada uma delas.
31:31Nenhuma me deu uma explicação clara.
31:34E ainda não a tenho.
31:36Por fim, os SUVs pretos pararam em um grupo misto de homens com equipamento tático e fuzis e outros de
31:45terno e gravata saíram deles.
31:47Havia quatro ou cinco carros e cerca de seis pessoas saíram de cada um.
31:53Me virei para o fundo da loja e gritei.
31:56Ei, são eles!
31:58Eles estão aqui!
31:59Não recebi nenhuma resposta.
32:02Ei!
32:04Gritei novamente enquanto caminhava para o fundo da loja.
32:08No final do corredor mais afastado, o telefone estava no chão.
32:13Caminhei até ele, confuso, e me ajoelhei para pegá-lo.
32:16Mas estava perto o suficiente para ouvir os gritos do outro lado da linha antes de conseguir.
32:23Estamos aqui.
32:25Me recebe?
32:26Alô?
32:26Nossa equipe está entrando agora.
32:29Você ainda está conosco?
32:30Alô?
32:31Antes que eu atendesse o telefone, eu resolvi me levantar e virei a esquina entrando no último corredor.
32:40A gerente estava no chão, deitada de bruxos e uma poça de sangue.
32:45Seu corpo estava aberto na altura do abdômen e sobre ela um homem agachado.
32:51Era o homem de antes, o primeiro a entrar, o homem alto com o terno e chapéu elegantes.
32:58Mas dessa vez, sem o chapéu e o paletó, ele segurava uma grande faca, com a qual estava cortando o
33:06corpo da gerente.
33:08Os órgãos estavam em volta dos dois.
33:11Ele devia tê-los arrancado.
33:13Ele ergueu os olhos do que estava fazendo e sorriu para mim antes de voltar a olhar para baixo e
33:19continuar.
33:20E com a voz pragmática falou comigo.
33:23Eu disse que voltaria pela carne.
33:26Não tenho problema nenhum em abatê-la eu mesmo.
33:30Dito isso, ele arrancou o coração dela.
33:32E o ergueu como se fosse uma obra de arte da qual se orgulhava,
33:37antes de colocá-la em uma mala no chão ao seu lado e fechá-la.
33:41Ele se levantou olhando para mim e depois para a faca.
33:45Tenho certeza de que com você também terei cortes excelentes.
33:50Ele me encarou novamente e sorriu.
33:53Soltou um grunhido furioso antes de avançar para cima de mim.
33:58Eu virei a esquina e corri para a porta.
34:01Ele parou abruptamente ao ver os homens se aproximando do lado de fora.
34:06Ora, ora, você é o sortudo desta noite.
34:10Ele guardou a faca na bainha do colete antes de se virar calmamente e voltar para o último corredor.
34:18Voltou com a mão na mala e o corpo da gerente sobre o ombro,
34:22a carregando como se não pesasse nada.
34:26Aproximou-se do depósito de materiais de limpeza e abriu a porta,
34:30que eu juraria que tinha sido arrancado da dobradiça uns minutos antes.
34:35Quando a abriu, uma rajada de ar frio saiu.
34:39E, no pequeno ângulo que me permitia ver lá dentro,
34:44eu vi um corpo pendurado num gancho de açougueiro.
34:47O homem entrou, atirando o corpo da gerente a algum lugar lá dentro,
34:52antes de se virar e agarrar a maçaneta.
34:55Olhou para mim uma última vez antes de fechar a porta.
34:59E, num tom amigável, falou uma última vez.
35:03Tenha um bom dia.
35:05As portas automáticas se abriram atrás de mim
35:08e a multidão de homens invadiu o local imediatamente.
35:13Cerca de meia dúzia deles caminhou até a porta do armário
35:17e apontou suas armas para ela.
35:19Quando a porta se abriu,
35:21se depararam com o interior de um armário comum e nada mais.
35:25— Porra!
35:27Escutei esse grito antes de alguém chutar um pão da prateleira.
35:32— Estamos atrás daquele filho da puta meses.
35:35Como é que ele consegue escapar todas as vezes?
35:38Alguém fez um outro comentário e o restante varreu o resto da loja.
35:43Alguns trouxeram equipamentos de aparência estranha.
35:47Havia tanta coisa acontecendo que eu não conseguia acompanhar tudo.
35:51Mas observei algumas das ações deles.
35:54Alguns recolheram cabelos que haviam caído no chão.
35:58Outros usaram uma luz negra para mostrar as pegadas do monstro anterior.
36:04Recolheram todas as moedas e notas de um dólar com as quais as crianças haviam pago.
36:10E por fim trouxeram duas caixas grandes que usaram para recolher os corpos dos funcionários.
36:17Parecia que iam me deixar sem nenhuma resposta.
36:20Se passaram alguns minutos antes que um homem de terno se aproximasse.
36:26Ele não tinha o menor interesse em me perguntar nada.
36:29Era evidente que queria fazer uma declaração.
36:33— Eu sei que isso é muita coisa para assimilar.
36:35E eu sei que grande parte disso não faz sentido.
36:39Não há como explicarmos isso para você de uma forma que faça sentido.
36:43Sinto muito por tudo o que você viu e vivenciou essa noite.
36:48Mas não há nada que possamos fazer.
36:51Essas...
36:52Essas coisas estão acontecendo com pessoas no mundo todo.
36:57Por razões que ainda não descobrimos.
36:59Esta é a sétima vez que essa loja em particular é alvo de ataque.
37:05E estamos fazendo o que podemos.
37:08Somos um dos poucos que ainda estão tentando impedi-los.
37:11E precisamos que você mantenha silêncio sobre isso.
37:15Se as pessoas souberem sobre nós e descobrirem, nós não poderemos agir e nada disso será resolvido.
37:23Pessoas morrerão e a situação só irá piorar.
37:27Se você quiser ajudar a salvar outras pessoas, fique de boca fechada.
37:33Ele respirou fundo e olhou para mim com pena.
37:36E apontou para a entrada.
37:38Você pode sair agora por aquelas portas quando estiver pronto.
37:43Não sei o que ele quis dizer, mas eu nunca planejei ficar calado.
37:47O que aconteceu com aqueles funcionários da loja de conveniência precisa ser contado.
37:53As pessoas precisam saber disso.
37:55Contudo, não deixei transparecer as minhas intenções ali.
38:00Não falei nada.
38:02Passei pelas portas automáticas e saí.
38:04Em frente à rua lotada de veículos.
38:08Olhei para trás.
38:10Para a loja.
38:11As luzes estavam acesas e ela estava vazia.
38:15Me virei para a rua e os SUVs tinham sumido.
38:19As pessoas estavam caminhando normalmente em volta, como em qualquer outra noite.
38:26Escutei o som do trem do metrô se aproximando.
38:30E é isso.
38:31Escutei o som do trem do metrô se aproximando.
38:34Escutei o som do metrô se aproximando.
38:36Ou seja, eles ficaram mais tentando.
38:40Ou seja, eles ficaram mais tentando.
38:48Ou seja, isso para a loja.
39:12A CIDADE NO BRASIL
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