Há um antigo posto de gasolina nas florestas do noroeste do Pacífico. Se você o vir, FUJA!!!
História original: https://www.reddit.com/r/nosleep/comments/124a8zy/theres_an_old_gas_station_in_the_forests_of_the/
Perfil do autor: https://www.reddit.com/user/JLGoodwin1990/
Adaptação do texto original, narração e edição: Extro
Músicas:
REPULSIVE - Confusion: https://www.youtube.com/watch?v=tWLsrVs26LQ
REPULSIVE - Akane's Regret: https://www.youtube.com/watch?v=YF4v8ZbIphA
Myuu - Underworld : https://www.youtube.com/watch?v=hZqdaWPSa5A
#creepypasta #conto #sobrenatural #paranormal #fantástico
História original: https://www.reddit.com/r/nosleep/comments/124a8zy/theres_an_old_gas_station_in_the_forests_of_the/
Perfil do autor: https://www.reddit.com/user/JLGoodwin1990/
Adaptação do texto original, narração e edição: Extro
Músicas:
REPULSIVE - Confusion: https://www.youtube.com/watch?v=tWLsrVs26LQ
REPULSIVE - Akane's Regret: https://www.youtube.com/watch?v=YF4v8ZbIphA
Myuu - Underworld : https://www.youtube.com/watch?v=hZqdaWPSa5A
#creepypasta #conto #sobrenatural #paranormal #fantástico
Categoria
😹
DiversãoTranscrição
00:00Música
00:21Merda!
00:22Eu virei o volante bruscamente para a direita,
00:26fazendo os pneus cantarem em protesto.
00:29Uma buzina grave soou alto, quase estourando meus tímpanos.
00:34E o interior do carro foi momentaneamente iluminado por faróis brancos e fortes.
00:41Por uma fração de segunda, minha vida passou diante dos meus olhos.
00:46Então senti a irregularidade da beira gramada da estrada sacudindo o carro.
00:53O caminhão de dezoito rodas que havia invadido a minha faixa passou a menos de trinta centímetros.
01:00Em disparada, uns cento e dez quilômetros por hora ou mais.
01:05Quando eu recuperei o fôlego, eu abri o vidro do motorista, coloquei a cabeça para fora na chuva e gritei
01:13Seu filho da puta!
01:16Embora soubesse que o motorista do caminhão de toras não conseguiria me ouvir àquela distância.
01:23No instante seguinte, a voz indignada de uma mulher ecoou pelos altos falantes do meu Chrysler 300 alugado.
01:32Como é que é?
01:34Recuperando a calma e me lembrando que eu estava no meio de uma ligação, eu me sentei novamente no banco.
01:41Não com você, Erin, eu disse em tom de desculpas.
01:44Se você não escutou a confusão aqui do meu lado da linha, eu vou explicar.
01:49Eu quase fui esmagado na frente de um caminhão de um imbecil que invadiu a minha faixa.
01:56Houve um momento de silêncio nos alto-falantes.
01:59Então a minha gente soltou um pequeno resmungo.
02:03Menos mal.
02:05É preciso ter paciência com os idiotas na estrada hoje em dia.
02:09Que bom que você não se envolveu em um acidente, Al.
02:13Eu não gostaria de perder o meu melhor cliente e amigo de uma só vez.
02:17Eu respondi sorrindo.
02:19Saber que você se importa me tranquiliza.
02:23E depois de alguns momentos para relaxar os músculos, eu voltei a dirigir.
02:30Era inverno de 2022 e eu estava a caminho de uma sessão de autógrafos em Seattle.
02:37Estava vindo de Gold Beach, Oregon, onde eu morava.
02:41Eu era um escritor que tinha acabado de entrar para a lista de best-sellers do New York Times com
02:49meu romance de estreia.
02:50E, como tal, estava no início da minha turnê de autógrafos que me levaria por todo o país.
02:59Obviamente, como muitas pessoas me reconheceriam rapidamente se eu usasse aqui o meu nome verdadeiro, eu o mudei.
03:07Assim como outros.
03:09Erem, a minha agente, sugeriu que eu voasse para Seattle do aeroporto de North Brand.
03:16Mas eu tenho medo enorme de voar desde os ataques de 11 de setembro de 2001.
03:23Então, sabendo que eu ainda não tinha comprado um carro novo para substituir o meu que estava em petição de
03:30miséria,
03:31ela providenciou um carro alugado para mim.
03:33E eu comecei a viagem de quase sete horas e meia rumo ao norte.
03:39Eu não teria tido esse problema com esse idiota se a Interestadual 5 não tivesse ficado congestionada por causa de
03:47um acidente.
03:49Erem, com a voz repreensiva, respondeu.
03:52Bem, foi você quem quis dirigir, Al.
03:56Você tem ideia de onde você está agora?
03:59Olhei para o mapa do GPS pela centésima vez.
04:03E a tela parecia realmente ter algum problema.
04:07Ela tinha algum tipo de interferência enquanto a antena no teto do carro tentava se comunicar com algum satélite em
04:16órbita.
04:17Era uma porcaria.
04:18Então, falei.
04:20Não, esse sistema de navegação está com defeito.
04:23E a Enterprise ainda se diz uma boa locadora de carros.
04:28Olhei para cima, bem a tempo de ver uma placa com o símbolo de um posto de gasolina passar rapidamente.
04:35Graças, senhor, por essas pequenas gentilezas, eu pensei.
04:39Erem, tem um posto de gasolina logo ali na frente.
04:43Eu estou com pouco combustível, então vou parar lá, pegar uma orientação e te ligo quando estiver a caminho, ok?
04:51Escutei um suspiro no alto-falante e ela respondeu.
04:56Certo, por favor, tente não demorar muito.
04:59A editora não vai gostar se você chegar atrasada à sua primeira sessão de autógrafos amanhã.
05:05Eu vou ser o mais rápido possível, disse, tentando a tranquilizar.
05:10Então, aportei o botão vermelho da desconexão e encerrando a chamada.
05:16Soltei um suspiro de alívio.
05:19Erem tinha sido a minha tábua de salvação.
05:21E ela era quem havia organizado o meu contrato, incluindo um adiantamento muito bom.
05:28Mas, depois de um tempo, fica cansativo de lidar com ela.
05:33Olhei, através do parabrisa, para a estrada de duas faixas à minha frente.
05:39Apreciando, havia apenas o som da chuva batendo forte na parabrisa do carro,
05:44dos limpadores de parabrisa funcionando e dos pneus no asfalto molhado.
05:49Por mais alguns minutos, tudo que eu via pela beira da estrada eram árvores intermináveis.
05:56Até que eu via as luzes brilhantes aparecerem à frente.
06:01À direita, como se fosse um farol.
06:04Era evidente que aquele posto era bem antigo.
06:08Dava a impressão de que existia, pelo menos, desde a década de 1950.
06:14Ou até antes disso.
06:16O logotipo iluminado do posto girava preguiçosamente no alto de um poste.
06:23Havia um contorno verde desbotado e o desenho de um brontossauro.
06:29E letras vermelhas igualmente desgastadas que formavam a palavra Sinclair.
06:35Eram coisas que eu não imaginava ver aqui porque eu achava que essa empresa já havia falido.
06:41E acho que ninguém avisou ao dono desse posto.
06:45Entrei com o carro no posto.
06:47Meus pneus passando por cima de um pequeno fio preto que faz a campainha clássica tocar duas vezes.
06:55Em algum lugar fora do meu campo de visão.
06:59Parando ao lado da bomba verde, eu desliguei o motor.
07:03E relaxei no confortável banco de couro.
07:06Escutando o tic-tac do motor esfriando.
07:09Fechei os olhos e só consegui escutar o zumbido alto das luzes florescentes e a chuva batendo forte na cobertura
07:18metálica sobre as bombas.
07:21Abri os olhos ao ouvir a chuva diminuir.
07:24E olhei em volta.
07:26Observando o relógio analógico no painel.
07:30Iluminado pelas luzes do teto.
07:32Era às sete e meia.
07:34Dez minutos haviam se passado e ninguém ainda havia aparecido.
07:39Vamos lá, cara, eu pensei.
07:42E rapidamente toquei a buzina.
07:44O som estridente quase pareceu quebrar o silêncio como uma bola de beisebol atravessando uma vitrine.
07:52E nada.
07:53Ninguém apareceu.
07:55Droga, eu pensei.
07:56Então desabotoei o cinto de segurança e puxei a maçaneta.
08:01Usando o pé para abrir a porta.
08:03Um vento gélido atingiu meu rosto quando pisei no concreto rachado.
08:08Me fazendo levantar a gola do casaco.
08:12Olhei ao redor.
08:13Ouvindo apenas o som do vento e vando entre as árvores.
08:18O canto dos grilos e o que deviam ser os piados de uma coruja em algum lugar da floresta.
08:24As portas das garagens estavam abertas.
08:28E na luz amarelada e fraca do que deviam ser lâmpadas incandescentes antigas.
08:33Eu pude ver o que parecia ser um Cadillac dos anos 50.
08:38E no elevador havia um Jeep internal scot dos anos 70.
08:43Mas nenhum mecânico à vista.
08:46Voltei para o carro e apertei a buzina de novo.
08:50Dessa vez por mais tempo.
08:51Novamente o som reverbou pelas árvores e pelo posto.
08:56Por algum motivo, dessa vez eu estremeci um pouco com o barulho.
09:01Porque parecia ser quase um sacrilégio perturbar o silêncio por aqui.
09:07Balancei a cabeça.
09:09De onde infernos estava vindo esse pensamento?
09:12Esperei mais um minuto.
09:14E ainda não havia sinal de vida.
09:17Talvez o posto estivesse de alguma forma fechado.
09:21Esse pensamento era preocupante.
09:24Eu não tinha visto nenhum sinal de civilização além daquele caminhão de toras há duas horas e meia atrás.
09:31Eu não sabia que distância estava a próxima cidade ou o posto de gasolina.
09:36E por mais econômica que o Chrysler tivesse sido, eu não queria tentar dirigir mais com apenas um quarto do
09:43tanque.
09:44Decidi descobrir por mim mesmo.
09:47Bati a porta do motorista com um som alto.
09:50Contornando a frente do carro, eu caminhei até as portas abertas da oficina.
09:55O som dos meus passos ecoando no cimento.
09:59Olhei em volta.
10:01Notei o óleo derramado no chão, ferramentas, garrafas, mangueiras desorganizadas, jogadas sem cerimônia nos fundos.
10:09Mas eu não vi ninguém.
10:11Ótimo, eu pensei.
10:13Olhando para cima e vendo a lua brilhando, começando a aparecer por trás das nuvens.
10:18Eu tinha começado a me virar e a caminhar em direção ao que devia ser um escritório ou loja de
10:25conveniência
10:26quando essa figura enrompeu pela porta, quase me fazendo pular de susto.
10:31Ah, eu excramei involuntariamente, recebendo uma risada amigável em resposta.
10:37Desculpe, senhor. Eu não queria assustá-lo e muito menos fazê-lo esperar tanto.
10:43Recuperei o fôlego, soltei uma risada forçada e olhei para o homem.
10:48Ele parecia ter entre quarenta e poucos a cinquenta e poucos anos.
10:53Vestia um macacão verde da Sinclair, com o mesmo dinossauro verde estampado na frente.
11:00O pet do outro lado indicava que o seu nome era Harold.
11:05O restante do cabelo que ele tinha estava penteado para trás.
11:08E ele me deu um sorriso com dentes surpreendentemente brancos.
11:13Acenei com a mão e ri de alívio.
11:15Não se preocupa, cara. É que por um segundo eu achei que esse lugar estivesse fechado.
11:21Ou algo assim.
11:22Não, senhor. É só o fato de que sou apenas eu, um mero mortal trabalhando no turno da noite.
11:29Ele falou isso enxugando a testa em tom de brincadeira.
11:33Eu dei uma risadinha irônica e sorri.
11:36O homem claramente tinha um bom senso de humor.
11:40Imagino que precise de gasolina.
11:42Ele perguntou mudando de assunto para os negócios e apontando para o meu carro.
11:48Assentiu.
11:49Sim, por favor. Se puder, abasteça com gasolina comum.
11:54Ele assentiu e começou a caminhar em direção ao carro enquanto dava a volta,
11:59abrindo a porta do motorista e apertando o botão para abrir a tampa do tanque.
12:05Harold soltou um assobio baixo ao puxar a bomba do suporte.
12:09Que carro bonito, senhor.
12:12Ele exclamou examinando.
12:14Parece caro.
12:15Eu dei de ombros e disse
12:18É um carro bonito. É um Chrysler 300S.
12:22Mas, infelizmente, não é meu.
12:24Ele olhou para mim e arqueou uma sobrancelha enquanto encaixava o bico da bomba e puxava a alavanca.
12:31É um carro alugado. Eu acrescentei rapidamente,
12:35percebendo que, do jeito que eu falei, parecia que eu tinha roubado algo assim.
12:40Ele pareceu relaxar.
12:42Ah, faz sentido.
12:44É mais bonito e mais novo do que qualquer coisa que nós costumamos ver por aqui.
12:50Apontei com um polegar para a garagem e disse
12:53Mas vocês têm gente com bom gosto por aqui.
12:57Aquele ali atrás é um Coupé de Ville 55.
13:01Eu comentei e ele riu, assentindo com aprovação.
13:04Vejo o que você entende de carro, senhor.
13:08Ele disse isso com um tom impressionado e olhando para o visor da bomba de gasolina.
13:14Entendo sim. Eu adoro carros. Eu respondi.
13:18Ele olhou para mim novamente.
13:20Então, você é algum tipo de colecionador de carros ou piloto de corrida?
13:26Balancei a cabeça negativamente.
13:29Não. Infelizmente, eu não sou. Eu sou escritor.
13:33Ele ergueu a cabeça bruscamente.
13:36Seus olhos verdes pareciam brilhar sob a luz fluorescente.
13:41Escritor?
13:42Nossa, eu nunca pensei que teria um escritor um dia aqui no meu posto.
13:46Ele exclamou sorrindo.
13:49A senti com a cabeça, sentindo um leve desconforto me invadir.
13:53Eu ainda não tinha me acostumado com a reação das pessoas ao saberem da minha profissão.
13:59Ele continuou.
14:01Que tipo de livros você escreve?
14:04Ele perguntou animado.
14:06Para ser sincero, eu escrevo livros do gênero de terror.
14:11Admiti-o fazendo sorrir amplamente com essa informação.
14:15Terror é o meu gênero literário favorito.
14:19Eu adoro tudo.
14:20Desde os clássicos antigos até o Stephen King.
14:24Ele me olhou com curiosidade.
14:27Quantos você já escreveu?
14:29Eu levantei um dedo.
14:31Apenas um publicado.
14:33Na verdade, eu estava a caminho de uma sessão de autógrafos agora mesmo.
14:38Ele assentiu com aprovação e depois olhou para a bomba de gasolina antes de falar novamente.
14:46Então, você já viu alguma coisa realmente assustadora?
14:52Eu ergui uma sobrancelha diante dessa pergunta, porque aquilo me pegou completamente de surpresa.
14:59Ah, o que você quer dizer com isso?
15:01Eu perguntei em resposta.
15:03Ele continuou olhando para as bombas de gasolina, mas respondeu.
15:07Muitos escritores de terror que conheço falam sobre como tiveram suas próprias experiências assustadoras.
15:16Seja um susto comum ou até mesmo uma experiência sobrenatural.
15:22É isso que os ajuda a escrever histórias verdadeiramente aterrorizantes.
15:27Então, ele olhou para mim novamente.
15:30Seu rosto exibiu um sorriso que me fez estremecer por dentro.
15:35Por um instante, me parecia um sorriso largo demais.
15:40Então, ao piscar, eu percebi que era apenas um sorriso normal.
15:45Embora um pouco estranho.
15:47As luzes do poço deviam ter enganado a minha percepção.
15:51Então, eu só estava perguntando se você já teve alguma experiência realmente assustadora
15:59que o inspirou a escrever terror.
16:02Por um momento, houve um silêncio entre nós, enquanto eu ponderava sobre essa pergunta.
16:09Esse silêncio foi quebrado apenas pelo grito de uma coruja, em algum lugar na escuridão crescente.
16:16Então, dei de ombros.
16:19Sinceramente, eu odeio te desapontar.
16:23Mas não.
16:23Eu admiti.
16:25Ele me lançou um olhar ligeiramente surpreso.
16:29Mesmo?
16:30Assenti que sim, decidindo ser honesto com ele.
16:33Mesmo.
16:34Para ser completamente sincero com você, Harold.
16:38Por mais que eu ame o terror, tanto escrever quanto ler e assistir,
16:42medo eu parei de ter há muito tempo.
16:45A expressão de surpresa pareceu aumentar no seu rosto.
16:49Mesmo?
16:50Ele repetiu, olhando novamente para a bomba.
16:53Que pena.
16:55É mesmo.
16:56Eu adorava me assustar com um bom filme ou um livro de terror.
17:01Mas, conforme eu fui ficando mais velho, esse medo simplesmente desapareceu.
17:07Agora, eu escrevo sobre o que eu sei que assusta os outros.
17:12Como eu fiz com o meu primeiro livro.
17:15Mas, honestamente, quando eu escrevo, eu não sinto esse medo em mim.
17:20Nesse momento, eu estava pensando no quanto eu odiava admitir isso.
17:26Mesmo quando dei a minha primeira entrevista online para uma revista sobre o meu romance,
17:31eu menti, dizendo que o meu próprio trabalho me assustava.
17:35Mas, de certa forma, foi bom finalmente admitir a verdade para alguém.
17:41Mesmo que fosse um estranho que eu provavelmente nunca mais veria na minha vida.
17:46Levantei o olhar e o vi me encarando intensamente.
17:49E, para ser sincero, ele estava assustador.
17:53Seus olhos verdes quase brilhavam sob as luzes.
17:57E o seu sorriso havia desaparecido completamente.
18:01Dei um passo para trás com a mudança repentina em seu comportamento.
18:06Mas, tão rapidamente quanto o sorriso sumiu, ele reapareceu.
18:12Com o agradável sorriso do início.
18:14Bem, tenho certeza que, se você procurar bem, você encontrará essa sensação novamente.
18:22Ele disse isso com a voz carregada do que parecia ser uma genuína empatia.
18:28A senti e, olhando para a floresta, eu disse, espero.
18:33Eu admiti isso sinceramente.
18:36Então, ouvi o som da bomba finalmente sendo desligado.
18:40E, pronto.
18:42Harold falou alegremente, tirando o bico da mangueira do carro e o colocando de volta no suporte.
18:49Ele olhou para o visor.
18:51São 23 dólares e 17 centavos.
18:55Eu me espantei um pouco.
18:57Menos de 24 dólares por 3 quartos do tanque?
19:01Eu não via gasolina tão barata desde pelo menos até a minha adolescência.
19:07Mas, ao mesmo tempo, eu não ia recusar uma oportunidade dessas.
19:12Eu meti a mão no bolso de trás e tirei a carteira.
19:15E de lá o cartão de crédito.
19:18É, por acaso vocês aceitam o cartão de crédito?
19:22Perguntei, meio receoso, de que ele dissesse não.
19:25Mas, ele tirou o cartão da minha mão e alegremente...
19:29Claro que sim, senhor.
19:31Ele olhou para o nome do meu cartão.
19:33Senhor Demascus.
19:34A maquininha de cartão, no entanto, fica lá dentro do prédio principal.
19:40Ele gesticulou na direção da porta por onde tinha saído.
19:44O senhor se importaria se eu levasse o cartão lá para passear?
19:48Balancei a cabeça negativamente.
19:51Não, claro que não, eu falei.
19:53E ele se virou e caminhou de volta para o prédio.
19:56Já volto com o seu recibo rapidinho.
19:58Eu dei uma pequena risada ao escutar uma expressão que eu não ouvia há anos,
20:05quando notei algo.
20:06Eu não tinha visto as costas do homem desde que ele apareceu.
20:11E essa era a primeira vez.
20:14A parte de trás do macacão dele tinha o mesmo desenho verde da frente.
20:19E havia um pano vermelho sujo de óleo no bolso de trás.
20:24Mas meus olhos foram atraídos por uma coisa.
20:27O que parecia ser um grande rasgo.
20:31Logo abaixo do grande pet com o logotipo nas costas.
20:35Quase como se ele tivesse sido cortado.
20:39E eu consegui ver uma camisa branca.
20:41Igualmente manchada por baixo.
20:44Ei, eu o chamei.
20:46Ele parou e se virou para mim, ainda sorrindo.
20:49Sim?
20:50Ele perguntou.
20:52Apontei para as minhas costas.
20:54Seu macacão, ele tem um rasgo enorme nas costas.
20:58Eu só queria te avisar caso você não soubesse.
21:01Por um instante, a mesma expressão engraçada passou pelo seu rosto.
21:06Então ele acenou com a mão.
21:08Como se dispensasse o assunto.
21:11Ah, eu sei.
21:12Eu ainda não tive tempo de consertar.
21:14Então ele abriu a porta, fazendo tilintar um sino pendurado na maçaneta interna e entrou.
21:21Fiquei sozinho novamente e sem querer parecer mal educado esperando dentro do carro, eu fui até a frente e me
21:29encostei no capô, olhando para a noite.
21:33Meus olhos vagavam distraídamente pela escuridão enquanto eu esperava Harold voltar.
21:39Foi então que os meus olhos finalmente se voltaram para a grande placa à minha frente.
21:46Era a placa que anunciava o preço da gasolina por galão.
21:50E como eu tinha entrado no posto pelo outro lado e sem mencionar o fato de estar muito entretido conversando,
21:58eu nem tinha reparado nela antes.
22:00Era fácil de notar que estava um pouco deteriorada, já que a luz que a iluminava e que permitia ver
22:08os preços à noite piscava, parecendo que ia se apagar a qualquer momento.
22:14Dava até para ouvir o barulho alto da luz piscando no silêncio.
22:18Mas não foi isso que me chamou a atenção.
22:21Não.
22:22O que me chamou a atenção foram os preços exibidos naquela placa piscante.
22:27Não é possível.
22:29Sussurrei para mim mesmo.
22:31Continuei olhando para os dois primeiros números sem acreditar.
22:36Oitenta e oito centavos por galão de gasolina comum?
22:40Não importava o quão no meio do nada aquele posto estivesse.
22:45Não havia como cobrar tão pouco pela gasolina.
22:49Sem falar que mostrava os preços tanto da gasolina sem chumbo quanto da gasolina com chumbo.
22:56Algo que havia sido proibido pelo menos até meados da década de noventa.
23:02Eu tentava processar aquilo quando outra coisa finalmente me ocorreu.
23:08Toda a floresta ao redor do posto havia mergulhado em silêncio.
23:12Eu não estou falando de um silêncio qualquer.
23:15Os grilos, corujas, o farfalhar do que eu imaginava serem cervos ou alces entre as árvores.
23:24Tudo havia desaparecido.
23:26Até o vento parecia ter parado.
23:29Era uma quietude quase sobrenatural.
23:33Como se toda a floresta tivesse suspendido a respiração.
23:37Era, no mínimo, perturbador e sombrio.
23:42E me causou um arrepio na espinha.
23:45O único som que eu conseguia ouvir era o zumbido das luzes do posto.
23:50Que me pareciam agora um rosinado de alguma criatura.
23:55Eu senti que todos os músculos do meu corpo estavam tensos.
24:00Embora eu não entendesse o porquê.
24:02Claro, o silêncio é sombrio.
24:06Mas não é nada do qual se possa ter medo de verdade.
24:10Foi o que eu pensei.
24:12Mas, por mais que eu repetisse esse pensamento para mim mesmo,
24:17não conseguia evitar a sensação crescente de nervosismo naquele silêncio.
24:23Ok, que se dane.
24:25Eu disse finalmente.
24:27Nesse momento, até o som da minha própria voz ecoando,
24:32parecia um pouco estranha para mim.
24:35Fui em direção à porta por onde Harold tinha entrado.
24:39E, enquanto caminhava, olhei para o meu relógio de pulso
24:42e vi que mais quinze minutos haviam se passado desde que ele tinha ido embora.
24:47Onde o inferno ele estava?
24:49Eu soltei um suspiro, tanto de frustração quanto para tentar aliviar a estranha sensação
24:57que se formava no meu estômago.
24:59Quando finalmente cheguei à porta e estendi a mão, segurando a maçaneta.
25:05A maçaneta estava gelada, de um jeito quase elétrico.
25:10E eu a girei rapidamente, abrindo a porta e fazendo a campainha tilintar.
25:16Um som alto demais para todo aquele silêncio.
25:21Entrei e deixei a porta fechar atrás de mim.
25:24A campainha tilintando novamente.
25:28Dessa vez, com seu som abafado no interior do prédio.
25:33Eu olhei em volta.
25:34Além de uma velha máquina de Coca-Cola em um canto da sala, não havia comida nem bebida.
25:42Ao invés disso, havia dois ou três prateleiras que ocupavam a maior parte do espaço.
25:49Estavam cheias do que pareciam ser latas antigas de óleo de motor e outras peças automotivas diversas.
25:58Todas as latas tinham o logotipo do dinossauro.
26:02Respirei fundo e torci um pouco.
26:04O ar estava um tanto mofado.
26:07Como se não tivesse sido arejado há muito tempo.
26:11Olhando para a frente, eu vi o balcão onde o Harold provavelmente ficava.
26:17Uma caixa registradora antiga estava em cima dele.
26:21E atrás dela havia uma porta aberta com a placa somente para funcionários.
26:27Mais adiante, um longo corredor de azulejos se estendia por um tempo, antes de desaparecer em uma curva.
26:36Encarei o caixa.
26:38Eu não vi um desses desde a minha infância nos anos 90.
26:42Uma certa onda de nostalgia invadiu o ambiente, apertando meu coração.
26:47Mas, logo em seguida, essa sensação foi dissipada por um desconforto que me envolvia como se fosse uma nuvem de
26:56poeira.
26:58Tudo aquilo, todo aquele lugar, parecia errado.
27:04Não sabia explicar o porquê, mas sentia como se insetos estivessem rastejando sobre a minha pele.
27:11Após um momento de hesitação, eu abri a boca.
27:16Ei, Harold!
27:17Eu chamei com minha voz parecendo abafada.
27:21Assim como o toque da campainha.
27:24Eu esperei.
27:26Nenhuma resposta.
27:28Ei, Harold!
27:30Você está aí atrás?
27:32Eu chamei novamente.
27:34E nada.
27:35Me sentindo cada vez mais apreensivo, enquanto as luzes fluorescentes pareciam zumbir alto demais.
27:43Estiquei o pescoço para olhar o corredor.
27:46Bem na esquina, eu vi a placa azul brilhante indicando o banheiro.
27:51Tomei a minha decisão e chamei de novo.
27:54Harold!
27:55Olha, se você puder me ouvir, eu estou indo até o balcão para usar o banheiro, ok?
28:00Não consigo segurar até chegar na próxima cidade.
28:06Isso era mentira.
28:07Eu não tinha comida nem bebido nada nas últimas duas horas que justificasse essa necessidade.
28:14Mas, por precaução, caso ele aparecesse no corredor, eu não queria me meter em encrencas.
28:22Por mais estranho que eu me sentisse com isso, mesmo assim eu não queria irritar o homem.
28:28Respirando fundo, pulei o balcão e entrei no corredor.
28:33Diferentemente da sala principal, esse era iluminado por três ou quatro lâmpadas incandescentes penduradas no teto.
28:41Isso dava ao corredor um aspecto um pouco mais escuro do que a sala atrás de mim.
28:47E hesitei por um instante antes de começar a caminhar,
28:51tomando cuidado para que os meus passos não ecoassem muito.
28:55O corredor parecia não ter fim, mas finalmente cheguei à curva.
29:01Querendo manter as aparências, eu girei a maçaneta do banheiro e abri a porta.
29:06Depois de olhar em volta por um instante, eu fechei a porta rapidamente, reprimindo uma tosse e um engasgo.
29:14O local estava com uma aparência nojenta, como se não tivesse sido limpo há anos, talvez décadas.
29:22Me virando, notei uma luz mais forte no final do próximo trecho do corredor.
29:28Hesitei por um momento e depois comecei a caminhar na direção dela.
29:33Tudo que eu queria era sair dali naquele momento.
29:37Passei por outra porta aberta e, olhando através dela, eu vi as duas vagas da garagem à vista lá de
29:44fora.
29:45A lufada de ar frio e fresco me aliviou um pouco e continuei andando.
29:51Ao chegar à porta, eu olhei em volta e vi que era um escritório.
29:57Havia duas mesas lá dentro, cada uma com uma placa de identificação na borda.
30:03Avistei o nome de Harold na mesa mais distante.
30:07Também vi o meu cartão de crédito no meio da mesa.
30:10O azul brilhante se destacava entre a madeira escura e os papéis brancos.
30:17Soltando um suspiro de alívio, eu fui até ele e rapidamente o peguei.
30:22Decidi que deixaria apenas uma nota de vinte, uma de dez na mesa e sairia dali o mais rápido possível.
30:29Eu não sabia para onde o homem tinha ido e cada fibra do meu ser me dizia para ir embora.
30:37Ao pegar a minha carteira, meus olhos se depararam com uma placa na parede de trás da mesa,
30:43com uma moldura dourada brilhando na penumbra.
30:48Fiquei olhando para ela.
30:50A fotografia era claramente do Harold, com uma aparência quase idêntica à que eu vi dele,
30:56só que mais limpa.
30:59Abaixo havia uma declaração gravada no falso dourado.
31:04Funcionário do mês, Harold Jakoski.
31:08Não pude deixar de sorrir ao pensar em quanto ele devia ter se esforçado para conseguir aquilo.
31:15Menos de um segundo depois, porém, o sorriso sumiu do meu rosto ao ler a inscrição abaixo.
31:22Agosto de 1976.
31:27Balancei a cabeça, esperando que eu apenas estivesse lendo as coisas erradas por causa da penumbra.
31:34Esperando que os números mudassem para 2006 ou, quem sabe, até mesmo 1996.
31:42Mas não.
31:43Continuava a mesma coisa.
31:45Que merda é essa?
31:47Eu exclamei, sentindo outro arrepio percorrendo a minha espinha.
31:51Não havia a menor possibilidade de que, se ele aparentava ter 40 ou 50 anos em meados da década de
32:0070,
32:01ainda estivesse com a mesma aparência 46 anos depois.
32:06Ele estaria, pelo menos, na casa dos 80 ou 90 agora.
32:10E, certamente, não estaria mais trabalhando ali.
32:14Que inferno estava acontecendo?
32:16Eu sussurrei novamente.
32:19Sentindo como se tentáculos de medo estivessem saindo da escuridão e se enroscando em mim,
32:25eu me virei para sair correndo da sala e do posto.
32:28Mas paralisei ao ver o Harold.
32:31Ele estava sentado em uma cadeira giratória preta antiga, de costas para mim e na sala ao lado.
32:38Eu não conseguia identificar o cômodo, pois era iluminado apenas por uma lâmpada muito fraca,
32:45diretamente acima dele.
32:47Mas o ambiente me transmitia uma sensação realmente assustadora.
32:52Pela primeira vez em anos, eu começava a sentir realmente medo.
32:58Antes que eu pudesse me mover ou dizer qualquer coisa, ele falou.
33:02Bem, senhor Demascus.
33:04Olha, me desculpe por ter entrado sem avisar.
33:08É que...
33:09Bem, senhor Demascus.
33:11Como o senhor se sente?
33:13Meus ombros caíram quando uma onda de confusão me envolveu.
33:18Como eu consegui dizer?
33:21Como o senhor se sente?
33:23O senhor se sente com medo?
33:26O senhor sente pavor?
33:32Ele soltou essa risadinha baixa.
33:35Uma que parecia diferente da risada alegre que eu ouvi lá fora.
33:40Eu não sabia como reagir.
33:43E finalmente ele falou de novo.
33:45Está tudo bem.
33:47Você não precisa me contar.
33:49Eu sei.
33:50Eu consigo sentir.
33:54Ele soltou essa outra risadinha e eu senti vários arrepios percorrendo a minha espinha.
34:02Sinceramente, senhor Demascus, eu estou feliz com isso.
34:06Ele falou se levantando, mas ainda de costas para mim.
34:11Porque todos vocês têm um gosto muito melhor quando estão com medo.
34:16Dessa vez eu consegui dizer algo.
34:19Que porra!
34:21Não foi a resposta mais eloquente.
34:24Mas aparentemente o Harold achou engraçado.
34:27Pois ele soltou outra risada baixa e sombria.
34:31Ele finalmente se virou para mim.
34:33E eu dei um pulo para trás batendo com as pernas na mesa dele.
34:38E fazendo com que a sua placa de identificação caísse no chão.
34:43O homem ainda sorria para mim.
34:45Um sorriso agora bem mais largo.
34:48Com uma malícia que quase me fazia mijar nas calças.
34:53E ele não parecia vivo.
34:56Seus olhos verdes, antes brilhantes, agora pareciam vidrados e sem vida.
35:03Para ser franco, ele se parecia mais com um boneco de ventrilo.
35:08Uma marionete.
35:09Do que qualquer outra coisa.
35:11Ele pareceu se inclinar em minha direção.
35:15E finalmente ele falou.
35:17Mas eu vou tornar isso esportivo.
35:20Você tem 20 segundos para correr.
35:23Engolindo em seca, eu olhei em volta e vi uma barra de ferro em cima da mesa dele.
35:29Peguei-a imediatamente.
35:31Pronto para acertar o homem na cabeça se ele fizesse algum movimento na minha direção.
35:36Foi então que ele simplesmente caiu de cara no chão.
35:40Caiu até a metade do corpo se curvando e não se mexeu.
35:46Olhei para ele e engasguei ao perceber o que eu estava vendo.
35:50O homem parecia uma bola de praia murcha.
35:54Como se todos os seus órgãos e sangue tivessem sido sugados.
35:59Vi o rasgo nas costas do macacão novamente.
36:03Dessa vez, muito mais visível.
36:05Atrás dele, a sua camisa branca, suja, também estava rasgada.
36:11Revelando.
36:12Ah, que droga.
36:14Um buraco nas costas.
36:16Eu conseguia ver a parte branca da sua coluna claramente visível sob a luz amarela.
36:23Enquanto encarava, eu ouvi uma voz.
36:26Esta, porém, não era a do Harold.
36:30Parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.
36:35Muito mais grave do que qualquer voz humana que eu já tivesse ouvido.
36:39Só ela quase me fez urinar nas calças.
36:43Porque tinha um tom verdadeiramente maligno e sádico.
36:4720
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36:5018
36:5117
36:53Olhei para cima.
36:55Para o quarto escuro de onde o Harold havia caído no chão.
36:59E finalmente, pela primeira vez em anos, eu gritei.
37:03Pairando na escuridão.
37:05Além do alcance da fraca luz, estavam dois enormes olhos verdes brilhantes.
37:11Eram maiores do que os olhos humanos jamais poderiam ser.
37:16E tinham um formato também desumano.
37:19Parecendo duas luas crescentes.
37:22Neles residiam a alegria mais maligna e sádica que eu já vira na minha vida.
37:29Ao meu grito, a voz parou a contagem regressiva e deu uma gargalhada.
37:36Uma gargalhada estrondosa.
37:38Como unhas arranhando um quadro negro.
37:42E então ele começou a contagem regressiva novamente.
37:47A excitação maliciosa nela era palpável.
37:50Dezesseis, quinze, quatorze.
37:54Não esperei mais.
37:56Eu não queria ver a quem pertenciam aqueles olhos.
37:59Me virei sair correndo do escritório pelo corredor.
38:03Meus passos e a respiração ofegante ecoavam como tiros.
38:08O corredor parecia não ter fim.
38:10E eu não consegui entender porque eu estava demorando tanto para chegar à curva.
38:16Finalmente, porém, eu cheguei lá.
38:18E congelei.
38:20Eu estava de volta à entrada do escritório.
38:24Atrás de mim, eu ouvia a voz chegar a dez.
38:27E comecei a correr novamente pelo corredor.
38:30Parecia que demoraria ainda mais para chegar à curva.
38:34E dessa vez, estendi a mão para agarrar a borda da quina.
38:38Apenas para agarrar a borda da madeira da porta do escritório.
38:42Meus olhos se arregalaram e eu comecei a sentir lágrimas começarem a cair.
38:48Enquanto eu corria novamente.
38:51A voz continuou a contar enquanto eu disparava pelo corredor cada vez mais longo.
38:56Sete, seis, cinco.
39:00Soltei um soluço abafado enquanto agarrava a quina de azulejos.
39:04Me impulsionando da borda do corredor para agarrá-la.
39:08Em vez disso, eu bati com tudo na parede.
39:11Ao lado da porta do escritório.
39:14Caí no chão, tentando me levantar quando ouvia a voz terminar a contagem.
39:19Três, dois, um.
39:22Pronto ou não, senhor Demascus, aqui vou eu.
39:27Assim que ele terminou de proferir a última palavra, a voz ficou ainda mais grave.
39:33Como se eu estivesse ouvindo a voz do próprio diabo falando comigo.
39:38Percebi que se olhasse para trás agora, eu o veria.
39:42Parado no meio do escritório sobre o seu fantoche humano.
39:46Me recusei a olhar para trás.
39:49Eu sabia que era isso que ele queria.
39:52Lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto, se misturando com o sangue da minha cabeça, onde eu havia batido com força
40:00na parede.
40:02Todas as mortes de filmes e livros de terror passaram pela minha mente.
40:07E eu sabia que nenhuma delas era nem de longe tão horrível quanto a que aquela coisa havia planejado para
40:15mim.
40:16Foi então que um pensamento, apenas um pequeno vislumbre de esperança, passou pela minha mente.
40:23Algo que eu já tinha visto enquanto caminhava pelo corredor até o escritório.
40:28Senti a adrenalina percorrendo o meu corpo.
40:31Eu podia morrer tentando fazer isso.
40:34Mas eu tinha que tentar.
40:36Ouvi o chão atrás de mim tremer e senti um hálito quente e fétido roçando na minha nuca.
40:43Por um microsegundo eu fiquei paralisado de medo.
40:47E então soltei um grito estrangulado, explodindo em movimento.
40:52Ouvi um urro de frustração atrás de mim, seguido por uma risada.
40:58Sabia que assim que eu chegasse ao fim do corredor, ele usaria todo o seu poder para me trazer de
41:05volta.
41:06A coisa tinha poder sobre aquele corredor.
41:09Mas ele não percebeu que havia deixado uma brecha.
41:13Com esse pensamento ainda ecoando na minha mente, eu corri.
41:18Incapaz de conter os gritos enquanto disparava pelo corredor.
41:22Parecia ainda mais longo do que antes.
41:25Mas quando cheguei à metade, eu vi o que esperava encontrar.
41:29A porta da garagem estava aberta, quase escondida atrás de uma prateleira de óleo.
41:36Soltei outro grito, dessa vez de determinação.
41:40Atrás de mim eu ouvi a criatura parar de rir.
41:44E agora ela soltava um urro de fúria, percebendo o que eu pretendia fazer.
41:50Senti algo começar a correr no corredor atrás de mim, como se quisesse me agarrar.
41:57E a sensação de algo afiado cortando as minhas costas.
42:02E então eu pulei em direção à porta e a atravessei.
42:07Aterrissei numa poça de óleo ainda viscosa debaixo do cadilac.
42:13E o que eu vi agora estava enferrujado, com décadas de abandono.
42:18Sem perder um segundo, eu pulei de pé e corri para as portas abertas da garagem.
42:24Atrás de mim eu ouvi um rugido mais alto, mas não olhei para trás.
42:30Saí correndo de dentro da garagem para a noite, ainda carregada com os sonhos da floresta.
42:38Disparei em direção ao meu carro, quase voando sobre o capô.
42:42E abri a porta do motorista com um estrondo.
42:45Me joguei no banco e apertei o botão de partida.
42:49Por um momento apavorado com a possibilidade de um típico clichê de filme de terror, com o carro não ligando.
42:57Mas, para minha surpresa e gratidão, ligou.
43:01Com o rugido do V6 ecoando e enquanto agarrava a alavanca para engatar a marcha,
43:07eu arrisquei a olhar para a entrada da garagem.
43:10E não consegui evitar de gritar novamente.
43:14O posto de gasolina inteiro ficou às escuras.
43:18O interior, as luzes do teto, tudo.
43:22Eu conseguia ver o contorno do prédio.
43:25Mas só isso.
43:26E os olhos.
43:27Os olhos me encaravam de dentro da garagem com fúria e ódio absolutos.
43:34Ainda gritando e olhando para eles, eu pisei fundo no acelerador.
43:38Os pneus cantaram e o carro disparou como um foguete.
43:42Saindo debaixo da marquise e invadindo a estrada.
43:47Me recusei a olhar pelo retrovisor.
43:49Eu sabia que veria aqueles olhos uma última vez nele.
43:53E não queria.
43:55Mantive os olhos fixos na estrada à minha frente até onde os faróis alcançavam.
44:00Meus nós dos dedos já estavam brancos de tanto eu agarrar o volante e acelerar para longe do inferno atrás
44:08de mim.
44:09Eu praticamente não tirei o pé do acelerador.
44:13Fazia as curvas em alta velocidade.
44:16Só quando as luzes da próxima cidade, da qual eu não lembro o nome, finalmente apareceram no horizonte, eu senti
44:24que as lágrimas começaram a rolar.
44:27E dessa vez, de felicidade e alívio.
44:30Dirigi direto para a delegacia.
44:32Eu sabia que nunca conseguiria contar a eles o que realmente tinha acontecido, porque eles pensariam que eu estava completamente
44:41louco ou sob o efeito de alguma droga.
44:44Mas eu poderia dizer que tinha sido atacado por um lunático desvairado em um posto de gasolina antigo.
44:51E foi exatamente o que eu fiz.
44:54Entrei correndo e implorando para falar com alguém.
44:57Os policiais na recepção me acalmaram e colheram o meu depoimento, levando tudo muito a sério quando mostrei as minhas
45:06costas, que, como se constatou, tinha três cortes profundos.
45:11Mas, quando eu lhes contei onde tinha acontecido tudo, os olhares confusos surgiram em suas faces.
45:19Enquanto um paramédico entrava correndo para examinar os meus ferimentos, um dos policiais saiu pelos fundos e voltou com o
45:28sargento de plantão, um senhor de uns 60 anos.
45:32Por favor, me conte de novo o que aconteceu com você.
45:36Ele perguntou gentilmente.
45:39Eu contei e, quando terminei, ele balançou a cabeça.
45:43Filho, não é possível que tenha acontecido no posto de gasolina Sinclair, a uns 10 ou 12 quilômetros daqui.
45:51Ele falou isso de uma forma empática.
45:55E eu gaguejei.
45:56Por que não?
45:58Eu perguntei, lutando para encontrar as palavras certas.
46:03Porque ele fechou em 1979, depois que um incêndio enorme o destruiu, matando todos que estavam lá dentro.
46:13Já se passaram quase seis meses desde aquele incidente.
46:17Nunca compareci à sessão de autógrafos do meu livro, o que me rendeu um telefonema furioso da Erin.
46:25Mas a fúria dela desapareceu quando soube que eu havia sido atacado.
46:31Contei a ela que tinha sido alguém que eu havia parado no acostamento para tentar ajudar.
46:37Eu não queria repetir a mesma conversa que tive com a polícia.
46:41Eles disseram que tentariam encontrar quem me atacou.
46:46Mas sei que nunca o farão.
46:48Não depois de me mostrarem um recorte de jornal, amarelado pelo tempo.
46:53Com os escombros queimados do posto de gasolina onde eu estava.
46:58Junto com uma fotografia muito familiar de um homem sorrindo ao lado do posto, antes do incêndio ocorrer.
47:07Continuo sendo um escritor de terror.
47:10O horror que eu vi naquela noite não me impediu de escrever.
47:14Meu segundo romance será lançado esse ano.
47:18Mas agora, sempre que eu me sento ao computador e começo a escrever uma cena verdadeiramente assustadora,
47:28Sinto arrepios de medo da minha própria criação percorrendo a minha espinha.
47:34Porque eu sei que os verdadeiros horrores existem nesse mundo.
47:39E espero nunca mais me deparar com um deles.
47:43Eu estou publicando isso aqui não apenas para finalmente poder contar a verdade sobre o que eu vivi,
47:50Mas também como um aviso, para quem quiser escutar.
47:55Se você estiver no noroeste do pacífico, em uma estrada deserta de mão dupla, no meio do nada,
48:04E por acaso se deparar com um posto de gasolina antigo,
48:09Iluminado por um logotipo desbotado de um brontossauro verde girando na noite,
48:16Simplesmente acelere fundo e continue dirigindo.
48:19Porque pode ser que você não tenha a mesma sorte que eu tive.
48:45E aí
49:05Legenda Adriana Zanotto
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