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00:00No dia 8 de setembro, a Meta lançou o Muse, um agente de IA que roda sozinho em segundo plano,
00:07o tempo todo.
00:09Ontem a OpenAI respondeu com o Dots, ferramenta capaz de acompanhar calendário, e-mail e dezenas de aplicativos,
00:18sem que ninguém precise pedir nada.
00:21Estamos entrando em uma nova era da IA?
00:25Esse é o assunto para a nossa coluna da semana, Olhar do Amanhã.
00:41E vamos receber o Dr. Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista, futurista e colunista do Olhar Digital.
00:51Vamos lá, deixa eu encontrar aqui o Dr. Álvaro.
00:54Olá, Dr. Álvaro Machado Dias, muitíssimo, boa noite, bem-vindo.
01:00Boa noite, Marisa.
01:01Dr. Álvaro, vamos lá, vamos falar sobre novidades de ferramentas aí no mundo da IA.
01:07Muse e Dots prometem aprender com o tempo o que cada pessoa prefere, sem que ela precise, aliás, explicar absolutamente
01:16nada.
01:17Mas a gente sabe, não é, Dr. Álvaro, que gostos podem mudar com o tempo, para nós humanos.
01:23O quanto estamos engessando, vamos chamar assim, a nossa própria experiência humana ao ceder tanto para as IAs?
01:31É uma boa pergunta, e eu acho que assim, o grande lance não é que a gente, por deixar a
01:40computação ambiental, que é essa nova maneira de se fazer registros,
01:46tomar conta do nosso espaço existencial, que a gente vai se tornar engessado.
01:52Não acho, eu acho isso mais um mito. Por quê?
01:56Porque em última análise, se o produto é bom, ele é muito pouco intrusivo.
02:02Você percebe muito pouco, e há muito pouco te engessando nisso.
02:07Onde que tem alguma coisa te engessando?
02:09Bom, se o negócio está te gravando, você sabe que é bom você não falar aquelas coisas que você não
02:14gostaria que fosse parar num servidor.
02:17Então, realmente, isso é verdade.
02:19E, claro, se tem outra pessoa gravando, você está na empresa, não vai fazer aquela brincadeirinha de mau gosto sobre
02:27o seu chefe, né?
02:28Vai que...
02:29Mas, o grande lance não está aí.
02:33O grande lance está no fato de que essa estrutura, essa arquitetura de registros, ela tem uma finalidade.
02:42E a finalidade disso é tornar sua vida melhor.
02:46É tornar sua existência muito mais prática, muito mais orientada por dados, muito mais diretiva,
02:54e qualquer outra derivada dessas visões pragmatistas, que, enfim, são, no final das contas, a linguagem do software funcional, né?
03:06Do software que serve para alguma coisa prática.
03:08E aí tem um problema.
03:10Uma coisa é você ter uma ferramenta de produtividade que você usa no trabalho, isso e aquilo.
03:15Outra coisa é quando a sua vida está imersa numa lógica de produtividade plena, entendeu?
03:22Que um aplicativo vai te ajudar a lembrar o que você pensou, vai te ajudar a ter um insight sobre
03:28o que aconteceu ontem e assim por diante.
03:30Por quê?
03:31Porque essas coisas, que são em si pontualmente poderosas e positivas,
03:36elas produzem o mesmo efeito de todas as outras muletas digitais.
03:41Elas, com o tempo, reduzem a necessidade e, consequentemente, o incentivo
03:47para que você vá lá e faça um esforço genuíno seu para pensar.
03:53Então, que bom, eu tenho aqui um negócio que me ajuda a lembrar o que aconteceu ontem na minha vida
03:57e ajuda a organizar meu dia de manhã.
03:59Tá bom, então agora eu posso viver como uma espécie de vegetal.
04:02Eu acordo e o music vai me levando.
04:05Deixa a vida me levar, como diz aquela música.
04:07Não acho que essa seja uma perda irrisória, tá?
04:13Eu acho que os ganhos são grandes, mas eu acho que também a perda está muito mais nesse nível da
04:19coisa,
04:19da preguiça mental, da algoritmização do pensamento, do que qualquer outra coisa.
04:25Agora, doutor Álvaro, se a IA aprende tão bem os nossos hábitos, aponta até de antecipar nossos próprios desejos,
04:35não somos nós que estamos nos tornando mais, digamos, previsíveis?
04:45Não, veja bem, se uma IA que tem capacidade de aprender os nossos desejos,
04:52ela não precisa da previsibilidade em si para funcionar.
04:58Ela pode ser suficientemente capaz para processar todas as dimensões necessárias
05:06para um mapeamento efetivo dos nossos desejos.
05:10Percebe?
05:10A ideia de que a previsibilidade, ela é imperativa, ou ela em si vai emergir disso,
05:19é uma ideia de que o sistema de previsão é um sistema em si limitado.
05:24Então, consequentemente, eu preciso da pessoa numa caixinha para que haja isso.
05:29E não é verdade.
05:30Existem sistemas, a gente se acha muito complexo,
05:33mas existem sistemas dinâmicos, sistemas que mudam com o tempo,
05:37muito mais complexos que a gente, cuja previsibilidade é muito menor.
05:41E a inteligência artificial, mesmo assim, consegue trabalhar,
05:44gerando isso que a gente chama de forecasting, dessas projeções de futuro.
05:48Então, eu não acho que é esse o ponto.
05:51O que eu acredito está muito na linha da outra resposta.
05:54É o seguinte, na medida em que eu consigo ter essa visão pragmática da minha vida,
06:01e eu faço análise de ontem, disso, daquilo, daquilo, daquilo, pá, pá, pá.
06:04É natural que eu produza de maneira intencional, e às vezes até não intencional,
06:11uma convergência em sentido aquilo que a análise da minha vida sugeriria
06:18como um comportamento ótimo, adequado, ideal, o que quer que seja.
06:23E isso em si gera uma previsibilidade.
06:26Vou dar um exemplo, de maneira bem prática, tá?
06:29Porque eu sei que às vezes essas coisas que eu falo são até abstratas.
06:33É o seguinte, pense no sujeito que usa um reloginho para dormir,
06:38daqueles que medem a respiração, o batimento cardíaco, etc.
06:41O reloginho tem uma capacidade, hoje em dia, com uma rede neural super poderosa,
06:47de processar muitos sinais e produzir muitos insights diferentes.
06:53Atender as demandas do relógio, por assim dizer, fazer o relógio funcionar direito,
06:56não é nada que depende de um comportamento previsível ou coisa do gênero.
07:00Muito pelo contrário.
07:01O relógio capta, inclusive, as oscilações estocásticas, as variações ao acaso, tudo.
07:07Só que, quando você começa a usar esse reloginho, você começa a ver e falar assim,
07:11putz, essa noite eu dormi cinco horas e meia.
07:14E aí você sabe que você precisa dormir, no mínimo, você precisa dormir sete, em torno de sete.
07:17Aí você pensa assim, no outro dia, hum, eu não posso dormir tão pouco,
07:22porque você lembrou do reloginho.
07:23E aí você vai dormir mais cedo.
07:25E aí, no final das contas, quando você olha depois de um mês, dois meses,
07:28a pessoa que está usando o reloginho está tendo um comportamento muito mais consistente,
07:34assíduo nas suas dimensões.
07:36E ela se torna, assim, mais previsível.
07:38Afinal de contas, você sabe que ela não vai dormir um dia às nove da noite,
07:41outro dia meia-noite, outro dia às duas da manhã,
07:44porque isso iria contra a ideologia, a filosofia do próprio reloginho que ela está usando.
07:50Então é só isso que eu estou dizendo.
07:52Nesse caso, por exemplo, essa constância é ruim,
07:54do ponto de vista de saúde, ela é ótima.
07:56Mas, de fato, a pessoa se tornou mais previsível.
07:58Então é nesse sentido que eu acho que esses aplicativos como o Muse Charme,
08:02que é essa nova bolinha que tem 10 centímetros,
08:04uma espécie de um tamagotchi animado ali dentro,
08:09buscam trazer benefício para a vida das pessoas.
08:11São benefícios que, no final das contas,
08:14aumentam a regularidade e a funcionalidade
08:16e também nos tornam mais previsíveis
08:18e talvez reduzam um pouco esse sentimento de liberdade,
08:21de acaso, que também é bom.
08:23Está aí o trade-off.
08:24Pois é, com certeza.
08:26Esse exemplo aí que você mencionou, doutor Álvaro,
08:28realmente traz benefício para a saúde.
08:30Opa, tenho que prestar atenção ali na minha saúde
08:33que eu estou sendo um pouco negligente.
08:35Agora, delegar essas pequenas decisões,
08:40pequenos rumos, digamos assim,
08:41para um agente que trabalha sozinho,
08:43ele até ajuda bastante e é vendido como uma economia de esforço mental.
08:48Agora, e para o outro lado, como que fica a nossa mente,
08:51o nosso cérebro, o que acontece com ele
08:53a partir desse momento que a gente delega essas pequenas ações
08:56e não toma essas decisões pequenas mais no dia a dia?
09:02Tem dois caminhos para ver isso, tá?
09:05O primeiro é o da pessoa que não tem outras coisas puxando a sua vida,
09:11a sua cognição,
09:12e o outro caminho é de quem tem.
09:14No primeiro caso, evidentemente, o que acontece
09:17é que há um declínio de atividade cognitiva,
09:21o que não é positivo do ponto de vista
09:23tanto do bem-estar quanto da longevidade cerebral.
09:26do lado de quem tem um monte de coisas muito mais importantes
09:29para tratar,
09:31sei lá, um presidente de empresa,
09:34sei lá que coisa,
09:35aí a gente pode dizer que isso libera esforço mental
09:39para ser investido em coisas muito mais relevantes
09:42do que ficar ajustando a rotina,
09:44que é a lógica de uma agenda,
09:46a agenda funciona assim,
09:47a lógica de um secretário,
09:48tudo isso serve para você organizar as coisas,
09:51gastar menos energia nessa etapa
09:53que supostamente pode ser delegável sem nenhum custo pessoal
09:57e botar energia nas coisas que interessam de verdade.
10:01Então, de primeira,
10:02eu diria que a grande questão é
10:04o que você faz com a energia excedente,
10:06ou sobressalente.
10:07Mas não é só por aí,
10:09esse papo é muito baseado na premissa
10:13de que o grande lance é o tempo
10:16e a disponibilidade que você gera com essas coisas.
10:19Não, tem uma dimensão
10:21que efetivamente muda na sua essência
10:24e é a dimensão da calibragem.
10:27Olha só,
10:28porque eu não tenho um sistema muito perfeito
10:30de análise das coisas ao redor,
10:33eu testo mais coisas.
10:36Trocando em miúdos,
10:37eu vou em restaurantes que eu não conheço tão bem
10:40e que simplesmente eu ouvi falar
10:42através de um contato,
10:43um amigo ou amiga que me diz que é legal,
10:45porque eu não tenho um agente da inteligência artificial
10:48que é capaz de ir lá e comer no meu lugar,
10:52em todos os restaurantes de São Paulo, do Brasil,
10:54e me dizer em quais eu devo ir.
10:56Até porque isso já sai caro, né?
10:58Mas enfim, você entendeu o ponto.
11:00Como a gente não tem como substituir isso,
11:02nós não somos reis e rainhas,
11:04não, no século XVII,
11:07a gente efetivamente precisa ir lá
11:09e experimentar as coisas.
11:10Só que experimentando as coisas,
11:12a gente descobre coisas.
11:14Então, onde está a verdadeira perda
11:17do excesso de algoritimização pragmática?
11:21Está na redução do número de riscos
11:24que você tem que tomar
11:24e, consequentemente, das coisas que são legais
11:27que você não conheceu porque você não arriscou.
11:29Que é tudo assim na vida.
11:30Se você tivesse pensado racionalmente
11:32em tudo que você faz até hoje,
11:33provavelmente você não tinha casado, entendeu?
11:35Assim é.
11:36Você não teria feito a faculdade,
11:37você não teria feito nada.
11:38Porque a maior parte das coisas
11:39que dão certo nas nossas vidas
11:42acontecem porque um dia você decidiu
11:43fazer uma coisa meio fora do script.
11:45Então está aí a grande questão verdadeira
11:47dessa história toda.
11:49Muito interessante mesmo, doutora Alvaro.
11:52Agora, em tempos de discussões
11:53sobre os riscos da IA,
11:55o que é mais preocupante?
11:57Máquinas que pensam como humanos
11:59ou humanos que começam a pensar como máquinas?
12:03Aliás, aqui um parênteses até curioso.
12:05Dia desses eu vi um vídeo na internet
12:08das pessoas agora falando como se fossem prontes.
12:12Imagina uma sala florida
12:14com uma janela aberta na lateral,
12:16o vento passando.
12:18Eu falei, gente, que loucura isso.
12:22Pois é, eu chamei isso de algoritimização do pensamento.
12:24Até que eu mudei bem lá atrás com esse papo.
12:27Eu devia ter chamado de estupidificação do pensamento,
12:29mas ia ter gente ofendida com a história.
12:31Não é bem que eu não fiz isso.
12:33É claro que a máquina pensar como ser humano
12:35é bem melhor.
12:37Só que vamos lembrar, não é tão bom assim.
12:39Porque, olha só, a gente pensa assim,
12:41mas a máquina é pensar como ser humano.
12:43O ser humano, eu adoro o ser humano.
12:44Ele é um animal que merece muito estudo mesmo.
12:47Porque, olha só, aí o ser humano pensa assim,
12:49é, porque ela vai pensar de maneira humanística
12:53as questões com emoções.
12:55O sujeito já se acha camões, né?
12:57A Clarice Lispector que está do outro lado.
13:00Mas não é, em geral, é só um tonto mesmo.
13:02E aí você vai ver, a pessoa está pensando,
13:05cheia de dúvidas, não sabe um monte de coisa,
13:08hesita, decide, depois decide o contrário.
13:10Isso que é pensar como humano.
13:11Imagina se tivesse o chat EPT,
13:14o Claudio vai querer, é todo certinho.
13:15Imagina o Claudio pensando como humano.
13:17Ele fala uma coisa, depois ele diz outra.
13:18Ele fala, é verdade, eu mudei de ideia.
13:20É um caos total.
13:21O ser humano é tudo menos essa beleza que ele se acha.
13:24Mas tudo bem, vamos assumir essa parte
13:27que estamos falando aqui de Kant.
13:30Todo mundo é Emanuel Kant.
13:31Então tá legal.
13:32Aí do outro lado, a gente tem um problema de verdade.
13:35Porque se as pessoas começam a pensar como máquina,
13:39na verdade, o que elas estão fazendo é compressão.
13:42Elas começam a pular todas as partes
13:44que articulam as ideias
13:46e fica só com aquele negócio central.
13:49É tipo, você só fala assim,
13:50sujeito, verbo e objeto.
13:52E objeto, entendeu?
13:53Suas frases só têm isso.
13:55Elas não têm mais adjunta de nominal,
13:56adjunta de verbal, não tem mais nada.
13:58Elas só são isso.
13:59Entende?
13:59Aí fica uma coisa absolutamente pobre.
14:02Porque a articulação
14:04tá nesse componente temporal humano
14:07que não é interessante que você tenha
14:10numa relação de máquina o tempo todo.
14:12Então você quer justamente
14:13que a resposta de máquina seja meio comprimida,
14:16que você entenda rápido e passa pra próxima.
14:19Até porque é quase de graça pra ela gerar outra.
14:21Então toma alguns segundos da tua vida.
14:23De resto, quase mais nada.
14:25Então qual é o grande ponto?
14:26Quando você começa a pensar como máquina,
14:28na verdade, você tá pensando como um sistema cognitivo
14:31cuja geração de ideias
14:34é comoditizada por definição
14:37e você poderia estar gerando a próxima daqui a três segundos
14:39a custo zero.
14:40Poxa, muito obrigado.
14:41Se é assim, eu vou ficar quieto, né?
14:45Pois é, não.
14:46São novos tempos e esperamos mesmo
14:48que os humanos não pensem como máquinas,
14:51porque realmente seria simplificar muito
14:53o nosso cérebro humano, não é, doutor Álvaro?
14:57Bom, que assunto super bacana que hoje
15:00teremos outros na semana que vem, com toda certeza.
15:03Doutor Álvaro, excelente semana pra você.
15:06Pra você também, pra todo mundo que nos acompanhou.
15:08Pessoal, deixa na agenda, toda quarta-feira,
15:11mais ou menos 7h35, 7h40, 7h45.
15:14Estou por aqui no Olhar Digital News.
15:17Até lá.
15:18Até, doutor Álvaro.
15:19Boa noite, querido.
15:21Tá aí, doutor Álvaro Machado Dias,
15:23com a gente em mais uma coluna Olhar do Amanhã,
15:26com um pensamento sobre esse momento
15:28das máquinas e humanos.
15:30Gostaram?
15:31Bom, semana que vem tem mais Olhar do Amanhã pra você.