00:00E durante séculos, o acesso ao conhecimento foi para poucos.
00:05Hoje, qualquer pessoa com um celular na mão pode consultar sistemas capazes de resumir pesquisas,
00:13analisar dados e auxiliar na tomada de decisão.
00:18À primeira vista, parece uma democratização sem precedentes da inteligência humana, não é?
00:24Mas será mesmo?
00:26Esse é o nosso tema para a coluna da semana, Olhar do Amanhã.
00:43E vamos receber o Dr. Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista e futurista aqui do Olhar Digital.
00:53Vamos lá, deixa eu colocar o Dr. Álvaro Machado aqui nos estúdios.
00:57Dr. Álvaro Machado Dias, muitíssimo boa noite, seja bem-vindo como sempre.
01:03Boa noite, Marisa.
01:05Dr. Álvaro, hoje vamos explorar e falar sobre a mente humana.
01:10O que a abundância cognitiva está fazendo com os circuitos que usamos, por exemplo, para decidir, Dr. Álvaro?
01:19É, acho que a gente pode começar numa definição de abundância cognitiva, né?
01:24Porque numa época em que pensar é tão raro, que raios de conceito é esse?
01:30E eu te digo, abundância cognitiva significa excesso de informação.
01:36Cognição profunda não está aqui no escopo do conceito.
01:40É a ideia de você ter muita coisa para pensar, ainda que seja em nível superficial.
01:46De onde vem essa história?
01:48Vem da digitalização.
01:49E ela ganha o seu momento atual a partir das interações com a inteligência artificial,
01:54que são interações caracterizadas pela especificidade dessa entrega informacional.
02:00Quer dizer, a abundância já estava lá, a especificidade veio depois.
02:03E aí quando a gente olha do ponto de vista das tomadas de decisão,
02:09o que raios, que raios, né, que está acontecendo aí com o nosso cérebro?
02:13Para a gente entender isso, vale a pena pensar uma coisa.
02:18Ainda que a abundância seja um processo que, do ponto de vista da sua representação mais superficial,
02:26ele envolve o consumo de algo, né?
02:29Algo está em excesso porque algo, em última análise, está sendo servido a você ou a um ou outro ente.
02:36Na verdade, no contexto da inteligência artificial, a lógica se inverte.
02:42O que a gente faz, sobretudo, é o que se chama em inglês de cognitive offloading.
02:49A gente transfere para a máquina parte do nosso escopo cognitivo, intelectual.
02:56Coisa interessante, né, nas suas palavras.
02:58Que coisa curiosa.
03:00E eu vou te dizer de onde vem esse papo.
03:03É o seguinte, a despeito da informação parecer algo que a gente está consumindo,
03:09tal como comida, nesse conceito de abundância cognitiva,
03:13a verdade é que ela tem um sentido instrumental.
03:17Biologicamente, a gente não está atrás da informação.
03:20A gente está usando a informação para chegar em algum lugar.
03:22Se a gente consegue transmitir para a máquina a etapa necessária para esse processamento informacional,
03:28tanto melhor do ponto de vista de eficácia fundamental.
03:32E aí que está o risco.
03:33E aí que está o problema.
03:34Se a gente começa a fazer isso, as nossas capacidades decisórias, elas declinam.
03:41Isso é óbvio.
03:42Mas tem um ponto que vale a pena pensar.
03:44Elas não declinam da mesma maneira em todas as áreas decisórias.
03:48Intuições decisórias, decisões rápidas, tudo isso, não declina praticamente.
03:53Declina um pouquinho, mas não muito.
03:55Onde a gente declina é justamente onde a gente precisa botar mais energia na avaliação das opções,
04:01construção de modelos mentais, construção de possibilidades que não estão no domínio das opções.
04:08É o e se alguma coisa, ou seja, imaginação, que é justamente o domínio das decisões difíceis.
04:14Então, tudo isso para dizer que o cognitive offloading, esse processo de transmitir informações para fora do cérebro,
04:22quando há essa abundância cognitiva, que parece uma contradição, mas eu mostrei que não é,
04:26leva a um declínio na qualidade das decisões difíceis.
04:30Pois é, você sabe que eu acho esse tema interessantíssimo.
04:34Eu acho bem curioso, como eu costumo dizer, mas acho muito interessante, doutor Alva.
04:39Agora, a questão, porque acho que todo mundo percebeu isso no seu dia a dia,
04:43que algo está mudando mesmo o seu cérebro.
04:45Agora, é real? O cérebro humano pode mesmo se adaptar a esse cenário? O que acontece?
04:52A gente está falando de um cenário de maior ou menor investimento energético.
04:58No caso, menor.
04:59E a resposta é, obviamente, a gente pode.
05:02Na verdade, as tendências todas de modelagem do comportamento vão na direção,
05:12eu falei difícil, mas elas apontam para a ideia de que se você não estimular muito alguém,
05:18ou mesmo uma outra espécie, ela vai tender à ausência de busca,
05:24ausência de investimento energético, ausência de esforço, como se quiser chamar.
05:28Essa é a adaptação.
05:30Olha o grande problema.
05:31Então, a gente consegue se adaptar?
05:34Sim, sem dúvida.
05:35O grande problema é que a adaptação é justamente negativa do ponto de vista do seu valor humano.
05:41Olha que coisa mais curiosa.
05:43Porque na nossa vida, em que há muitas outras formas de abundância,
05:49algum nível de fricção, algum nível de esforço,
05:53é necessário para que a gente siga com a mente funcionando bem,
05:57e justamente se sinta bem.
05:59Porque quando você não faz nada, do ponto de vista imediato,
06:03você não sofreu, você não se cansou, não foi chato.
06:06Mas no médio prazo, essa perda de potência intelectual
06:11é experimentada como perda de vitalidade.
06:15E a perda de vitalidade está diretamente relacionada ao bem-estar.
06:19Ou seja, o paradoxo da história toda é que aquilo que evita um desprazer momentâneo
06:24produz uma insatisfação duradoura.
06:27Pois é, agora indo para o lado da base, né?
06:31Esse modelo tradicional de educação, nesse cenário,
06:35ainda que faça sentido, quer dizer, ainda faz sentido ter um modelo antigo
06:40de educação, enfim, de construção da cultura de uma criança, principalmente,
06:47com tanto conhecimento, com esse volume de conhecimento que está aí disponível.
06:52O modelo da educação ainda faz sentido?
06:55Esse modelo antigo, doutor Álvaro?
06:56Se é que dá para chamar de antigo, ou então vamos chamar de tradicional, não é?
07:01Tradicional.
07:01Eu adoro esse tipo de pergunta.
07:03Porque assim, eu tenho certeza que todo mundo que está nos assistindo está pensando,
07:07claro que não.
07:08Então, lógico, é claro que não.
07:10Mas olha uma coisa, se a grande questão concorrencial da escola fosse a alternativa informacional,
07:21as escolas tinham falido quando surgiram as bibliotecas.
07:26Não aconteceu.
07:27Você percebe?
07:29A ideia de que a escola concorre com o chat EPT pressupõe que a entrega que acontece na escola
07:36ela é uma entrega de verdade.
07:39Não.
07:40Eu preciso produzir essa redação de verdade.
07:43Ela tem que ser um grande texto.
07:45Ah, tá bom.
07:46Então eu vou usar o chat EPT, ele produz um grande texto, a escola perdeu o sentido.
07:50Esse é o raciocínio de quem reproduz essa máxima.
07:53Mas a redação da escola nunca serviu para nada mesmo.
07:55Ela sempre foi para ir para a lata do lixo.
07:57Ela serve para o desenvolvimento intelectual do aluno.
08:02Então, eu não acho, ao contrário do que se diz,
08:05que a IA generativa, per se, ela está tensionando a escola
08:12mais do que outras alternativas de informação, inclusive a biblioteca.
08:17A grande questão é que a IA generativa torna o método de avaliação hegemônico ineficiente.
08:27Porque o aluno que justamente busca esse momento de inércia, essa adaptação,
08:34como qualquer outro mamífero, ele vai burlar a regra se ele não tiver uma ética muito bem introjetada.
08:41E isso não é o caso em todas as pessoas, as famílias, não importa as idades.
08:47E aí, simplesmente vai, pela lei do menor esforço, usar a IA para produzir aquele conteúdo
08:54e entregar com a maior cara de pau.
08:56Aliás, grande parte do problema nem está nessa capacidade de pular o esforço.
09:05Está no fato de que isso cria uma situação para a cara de pau.
09:09Porque se a gente cria um ambiente onde as pessoas têm incentivos para mentir
09:15e elas começam a mentir, você, naturalmente, reduz-se a barreira para mentir na próxima.
09:22E assim a gente vai formando pessoas menos éticas.
09:25Então, esse é um outro risco sutil dessa história toda.
09:29Mas não é a educação que está tensionada.
09:32São sistemas de avaliação baseados em provas produzidas de maneira assíncrona.
09:40Ou seja, não é na hora do vamos ver sem consulta.
09:44Agora, doutor Álvaro, para até encerrar esse raciocínio.
09:48Então, falando em inteligência artificial,
09:51ela está democratizando as capacidades ou ampliando vantagens?
09:58É tipo tostines, né?
10:03É claro que são as duas coisas.
10:05Agora, o pulo do gato é que não são as duas de maneira equivalente.
10:10Olha só, você pega um call center, tem estudos em call center.
10:15O povo adora estudar call center, né?
10:17Você sabe por quê? Aliás, muito curioso.
10:19O pesquisador de comportamento sobre inteligência artificial gosta de estudar call center
10:23pelo simples fato de que tem bastante gente lá.
10:26Olha como as coisas são, né?
10:27As pesquisas parecem que buscam grandes objetivos.
10:29Não, é porque é mais fácil.
10:31E aí, nos estudos de call center, fica muito claro que o piso sobe,
10:35enquanto o expert também sobe, mas quase nada.
10:38Então, o piso sobe muito mais, consequentemente, o efeito é muito mais de nivelamento.
10:43Entre o sujeito lá que não tem a menor ideia como atender um call center,
10:46um dia depois, está fazendo um trabalho bastante razoável,
10:50enquanto aquele que sabe mais...
10:51Ah, até melhora um pouquinho qual é, mas muito pouca coisa,
10:54porque, afinal das contas, a atividade em si é mecanicista.
10:58Do outro lado, que está a grande questão,
11:01a gente tem também produção de assimetria,
11:05sobretudo onde o pensar envolve você botar coisas para trabalhar no seu lugar.
11:11É como, por exemplo, um líder de um laboratório científico.
11:14Tá bom, você não fica fazendo todos os experimentos, você precisa saber como faz,
11:18mas você coloca eles em curso e eles vão lá funcionando.
11:21São como maquininhas, cada uma fazendo uma coisa,
11:23e aí você orquestra essas coisas.
11:26Todos os processos que têm essas características,
11:28eles naturalmente se beneficiam da inteligência artificial e aí vem o negócio.
11:33Nesse domínio, quem realmente consegue orquestrar melhor,
11:38se beneficia muito mais.
11:39Então, você tem uma simetria muito grande.
11:42E aí, você tem um salto gigantesco,
11:45porque aqui já era um ambiente mais alto.
11:47Se nesse ambiente mais alto a IA cria uma simetria gigantesca,
11:51a relação de produtividade e capacidade de transformação da realidade
11:57desse sujeito que conseguiu incorporar a IA e fazer essas mudanças
12:00versus aquelas pessoas que estavam em processos mais operacionais
12:04e eventualmente até sem a IA,
12:05se torna dramaticamente gigante.
12:07Tá aí o negócio.
12:08Então, são as duas coisas, mas elas não são simétricas.
12:11O resultado final é que você produz, sim, desigualdade
12:15de acordo com todos os modelos econômicos relevantes hoje em dia,
12:18sobretudo do Darius Semoglu, que foi o Nobel de Economia,
12:21que agora ele está mais vocal nesse assunto da produção de desigualdade
12:25a partir da simetria de competências
12:27em função da democratização dos LLMs.
12:32Tá certo.
12:33Tá aí um cenário que eu acho que temos que voltar a falar mais vezes
12:37também aqui no nosso Olhar da Manhã.
12:40Doutor Álvaro Machado Dias, muito obrigada pela participação hoje.
12:44Adorei o tema.
12:45Semana que vem a gente fala um pouco mais sobre outros assuntos também.
12:48Tenha uma excelente semana.
12:50Você também, adorei.
12:52E todo mundo que nos acompanhou, até semana que vem.
12:54Até, Doutor Álvaro.
12:55Boa noite.
12:56Tá aí, pessoal.
12:57Doutor Álvaro Machado Dias falando hoje sobre a mente humana
13:02e essa realidade que está aí no nosso dia a dia.
13:06Bom, Doutor Álvaro Machado Dias, vocês já sabem.
13:08Ele é professor da Unifesp, neurocientista e futurista e colunista do Olhar Digital.
13:14Semana que vem ele volta na quarta-feira com mais assuntos
13:17para debater e falar um pouco aqui com a gente.
13:20Bom, Doutor Álvaro Machado Dias.
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