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  • há 6 horas
Transcrição
00:00E na coluna Olhar Espacial de hoje, lá vem ele, Marcelo Zurita.
00:05E ele nos conta a história de um meteorito lunar que entrou para a história.
00:10Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:22Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:25Frequentemente, o chileno Rampablo Pizarro organiza expedições de caçadores de meteoritos para o Atacama, no Chile.
00:33Com a técnica certa e as condições favoráveis do deserto, eles costumam encontrar alguns.
00:38Mas no dia 19 de maio de 2026, juntamente com uma equipe de pesquisadores russos, eles fizeram uma descoberta incrível.
00:46Mikhail Nepomiluev e Ilia Kiriashko encontraram uma pequena pedra de apenas 12 gramas diferentes das outras rochas locais.
00:54Mas, à primeira vista, nada que chamasse muita atenção.
00:58A surpresa veio depois, com as análises que revelaram que aquela rocha tinha uma origem extraordinária.
01:04Ela veio da Lua.
01:06Batizado de Kalama 957, o meteorito foi oficialmente reconhecido pela comunidade científica no último dia 3 de novembro,
01:14tornando-se o primeiro meteorito lunar encontrado nas Américas.
01:17Foi classificado como uma brecha de fusão feodispática lunar, um nome tão complicado quanto os seus descobridores russos,
01:25mas que conta muito sobre a origem cósmica dessa pequena rocha.
01:29Meteoritos lunares já são raros, mas como este, só foram catalogados outros sete em todo o mundo.
01:35Eles são fragmentos da superfície da Lua que foram lançados ao espaço por impactos de asteroides ou outros corpos celestes,
01:43e depois de uma longa viagem, acabaram chegando à Terra.
01:46Apesar de milhares de meteoritos já terem sido encontrados em nosso planeta,
01:51muitos deles vindos de asteroides distantes,
01:53os de origem lunar representam uma fração muito pequena desse total.
01:58Uma das razões está justamente na semelhança entre essas rochas lunares e as terrestres.
02:04A Lua e a Terra compartilham o mesmo passado cósmico.
02:08Os cientistas acreditam que há aproximadamente 4,5 bilhões de anos,
02:12um planeta mais ou menos do tamanho de Marte se chocou com a Terra primitiva.
02:18Parte do material lançado ao espaço nessa colisão acabou se reagrupando e formando a Lua.
02:24Essa origem comum ajuda a explicar a semelhança geológica entre os dois corpos.
02:30Assim, a única característica mais marcante que diferencia visualmente o meteorito lunar de uma rocha terrestre
02:36é a crosta de fusão, uma fina e escura camada formada pelo derretimento superficial do meteorito
02:43pelo calor intenso gerado quando a rocha espacial atravessa a atmosfera da Terra.
02:48Só que tem outro problema.
02:50Dependendo do ambiente, depois de décadas ou séculos de exposição à chuva, vento e à erosão,
02:56essa camada pode desaparecer.
02:58E sem ela, um meteorito pode se tornar praticamente indistinguível de uma rocha numa busca visual.
03:05Ou seja, é possível que você já tenha chutado um meteorito lunar na rua
03:09ou usado para tentar derrubar uma manga do pé sem sequer ter desconfiado da sua verdadeira origem.
03:14E é por isso que a imensa maioria dos meteoritos lunares conhecidos
03:18foi encontrado na Antártida ou em regiões desérticas,
03:22ambientes que podem preservar a rocha espacial por milênios,
03:25além de facilitar sua identificação visual.
03:28Na Antártida, eles se destacam sobre o gelo e podem se concentrar em determinadas regiões
03:33devido ao movimento das geleiras.
03:35Nos desertos, a crosta escura se distingue facilmente de outras rochas.
03:40Não por acaso, o Kalama 957 foi encontrado justamente no Atacama,
03:45um dos ambientes mais secos do planeta.
03:47Só que ele estava bem desgastado e não tinha mais crosta de fusão,
03:51indicando que há uma queda muito antiga
03:53e que os pesquisadores eram muito bons para conseguirem distinguir entre as rochas do deserto
03:58e uma que veio da Lua.
04:00Mas como um pedaço da Lua pode vir parar aqui na Terra?
04:04Nosso satélite não possui uma atmosfera significativa
04:07para frear os objetos que atingem sua superfície.
04:10Asteróides e meteoroides colidem com o solo lunar em velocidades
04:14que podem ultrapassar dezenas de quilômetros por segundo.
04:17A energia liberada nessas colisões é suficiente para escavar crateras,
04:22pulverizar rochas e, em alguns casos,
04:25lançar enormes quantidades de material para o espaço.
04:28Para escapar da gravidade lunar,
04:30um fragmento precisa atingir uma velocidade de aproximadamente 2,4 quilômetros por segundo.
04:37Não é sempre que isso acontece.
04:39É preciso de uma combinação de massa e velocidade que produza energia suficiente
04:45e, mesmo assim, apenas uma parte dos fragmentos recebe a energia suficiente
04:50na direção correta para escapar definitivamente da gravidade da Lua.
04:54Uma vez no espaço, esses fragmentos podem seguir diferentes caminhos.
04:58Alguns entram em órbita que acabam cruzando a trajetória da Terra em poucos anos.
05:03Outros passam a orbitar o Sol e podem levar milhões de anos até encontrar o nosso planeta.
05:08Ao chegar à Terra, o fragmento de rocha ainda precisa resistir à passagem pela atmosfera
05:13sem ser completamente destruído pelo aquecimento.
05:16Devido à altíssima velocidade com que esses corpos viajam pelo espaço,
05:21quando atingem nossa atmosfera, acabam comprimindo e aquecendo os gases à sua frente,
05:25o que cria uma bolha de plasma que pode chegar a alguns milhares de graus Celsius.
05:30Isso faz com que a maior parte deles sejam completamente vaporizados durante a passagem,
05:35mas alguns fragmentos maiores conseguem sobreviver e atingir o solo.
05:40É assim que um pedaço da Lua pode terminar em um deserto chileno.
05:44E como os cientistas sabem que essas pedras realmente vieram da Lua?
05:49A resposta está nos laboratórios.
05:52Os pesquisadores analisam a composição químicos, minerais, as características isotópicas
05:56e a estrutura interna das amostras,
05:58comparando esses resultados com os materiais trazidos pelas missões Apolo e Luna.
06:03E aí não bastam características isoladas.
06:06É a combinação de diferentes evidências que permite estabelecer a origem lunar.
06:11No caso do Calama 957, a classificação como brecha de fusão feodispática descreve muito bem a sua composição.
06:19Uma brecha é uma rocha formada por fragmentos de outras rochas e minerais.
06:23Quando um impacto extremamente energético acontece, parte desse material pode ser derretido pelo calor da colisão.
06:29Ao esfriar e solidificar, esse material fundido incorpora os fragmentos funcionando como uma espécie de cimento natural.
06:37Já o termo feodispática indica a presença abundante de feodispatos, minerais muito comuns na crosta lunar.
06:45Na pequena amostra do Calama 957, foram identificados fragmentos de diferentes tipos de rocha,
06:51incluindo arnotositos, materiais balsáticos, espinélios, troctolitos e idunitos.
06:57Não sei bem o que são, mas representam diferentes registros da história geológica da Lua, reunidos em apenas 12 gramas.
07:05E esses meteoritos têm um valor científico que vai muito além da curiosidade de encontrar pedaços de outro mundo aqui
07:11na Terra.
07:12As missões Apolo e Luna trouxeram amostras lunares, mas coletadas em regiões relativamente restritas da superfície e ao custo de
07:20bilhões de dólares.
07:22Os meteoritos, por outro lado, são entregues em domicílio e praticamente de graça.
07:27Eles nos permitem estudar materiais de outras regiões da superfície lunar, inclusive do lado oculto.
07:33Embora a identificação de sua região de origem não seja tão simples.
07:37No fim das contas, o Calama 957 é muito mais do que uma pedra de 12 gramas encontrada no deserto.
07:44É um fragmento de outro mundo que atravessou o espaço, sobreviveu à reentrada na atmosfera
07:49e permaneceu na superfície terrestre provavelmente por milhares de anos até ser reconhecido.
07:55Um pequeno presente dos céus que pode nos ajudar a conhecer um pouco mais do nosso vizinho cósmico.
08:02Bom céus a todos e até a próxima!

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