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  • há 7 meses
Transcrição
00:00E vamos repercutir esse assunto na coluna da semana Olhar do Amanhã.
00:17Vamos receber então ao vivo o doutor Álvaro Machado Dias,
00:23que é professor da Unifesp, neurocientista, futurista e colunista aqui do Olhar Digital.
00:29Vamos lá? Olá, boa noite, doutor Álvaro Machado Dias.
00:34Seja muito bem-vindo, querido.
00:36Boa noite, Marisa.
00:38Doutor Álvaro, vamos falar sobre essa questão do Google,
00:42que anunciou que vai levar IA para a educação e para o setor público.
00:48Doutor Álvaro, como que a interação com a inteligência artificial em serviços essenciais
00:53pode melhorar a qualidade desses serviços?
00:56Pois é, no evento em São Paulo, no dia de hoje, a empresa anunciou essa entrada no setor público
01:04e uma versão educacional, é o Gemini for Government e Gemini for Education,
01:12que são, vamos dizer assim, especializações da plataforma para funcionar dentro do Google Workspace,
01:18o que é muito bem-vindo, tá?
01:21O meu ponto de vista original, o primeiro, o primeiro, o movimento de saída
01:27é louvar a iniciativa do Google e dizer que ela está alinhada aos princípios do uso racional da inteligência artificial.
01:38Por quê?
01:38Porque a inteligência artificial, ela precisa entrar nos setores em que a massa crítica de informações é maior.
01:47Então, por exemplo, dados governamentais envolve justamente uma massa crítica,
01:50uma quantidade gigantesca de informação e onde há gargalos muito claros de eficiência.
01:57Aqui, evidentemente, é o caso, né?
01:59A gente não precisa nem discutir o assunto.
02:02E na educação é a mesma coisa.
02:04Eu acho que a gente não tem tanto, assim, dados sistematizados,
02:08mas, por outro lado, existe sim uma possibilidade de trazer apoio ao aprendizado
02:15e também apoio aos professores em muitas circunstâncias.
02:18É claro que a gente tem que sempre estar pensando isso de maneira cuidadosa,
02:22porque algoritmizar o trabalho dos professores não é bom.
02:25Agora, o que eu acho?
02:27Que a gente tem que pensar esse lado positivo e fazer um esforço para levar as coisas nesse sentido,
02:33mas também tem consciência do fato de que promessas de modernização e eficiência como essas,
02:39elas podem também levar a caminhos negativos.
02:44Não estou dizendo que vai acontecer no Brasil.
02:46Acho que não é o caso necessariamente.
02:49Mas, olha só, nos Estados Unidos, o DOJ, aquela iniciativa do governo,
02:54para, enfim, criar uma, que teve o Elon Musk como cabeça por muito tempo,
03:00para levar uma disrupção à estrutura do funcionalismo americano,
03:07usando, em grande medida, tecnologia para isso,
03:11terminou com o quê?
03:13Com demissões que eram tão irracionais
03:16que as pessoas tiveram que ser recontratadas.
03:19terminou com processos que pareciam desfuncionais,
03:23pareciam não ter muita razão de ser eliminados,
03:27para depois os técnicos descobrirem que aqueles processos eram fundamentais
03:33para vários outros, que esses, sim, eram muito mais percebidos no seu valor intrínseco.
03:37Ou seja, a gente não pode subestimar a complexidade da estrutura subjacente
03:45ao funcionalismo público e também ao grande hub da educação
03:53que envolve as escolas públicas, as escolas técnicas,
03:58as escolas privadas e assim por diante.
04:01Feita essa ressalva, eu diria que o movimento é extremamente positivo.
04:07E um único, último ponto, tá?
04:08Eu acho que a gente também tem que pensar muito
04:11sobre o quanto essa entrada do Google nesses serviços,
04:16ela vai acontecer de maneira isolada,
04:19só essa empresa,
04:21ou o quanto a gente vai ter competição nesses setores.
04:24A competição é muito bem-vinda,
04:27é muito melhor para o Estado brasileiro
04:29que exista o concorrente da OpenAI e da DeepSeek e assim por diante.
04:34Por razões óbvias, eu acredito nas forças do mercado
04:37e acho que nada como a competição
04:40para a gente terminar com o melhor produto final
04:42para o todo, que no caso, para esse ente que é a população brasileira.
04:47Com certeza.
04:47Agora, ainda falando também em Brasil,
04:50a empresa anunciou que pretende entrar no Guinness,
04:53treinando cerca de um milhão de pessoas em IA.
04:57É um número bastante ousado, não é?
05:00E uma iniciativa bem diferente.
05:01Agora, com essa aprendizagem,
05:03o que pode mudar na nossa sociedade, não é?
05:06Podemos olhar para as IA de uma forma, digamos, mais crítica, doutor Álvaro?
05:12Eu vou começar, desta vez, muito excepcionalmente,
05:17questionando uma premissa da pergunta,
05:19que é muito boa, como sempre.
05:21Mas, será que efetivamente será possível produzir aprendizado?
05:28Por quê?
05:29Olha só, a tese de você botar muita gente ao mesmo tempo
05:34é a tese de que existem lacunas comuns.
05:39Você pode preencher essas lacunas com conhecimento de maneira simultânea,
05:43atingindo um milhão de pessoas.
05:46Verdade?
05:47Mas quais são as lacunas tão básicas a ponto de você poder fazer isso?
05:52Só aquelas muito fundamentais.
05:55E estas muito fundamentais, assim, do tipo,
05:59olha, você sabia que existem IAs?
06:02IAs podem responder perguntas?
06:05IAs podem te ajudar a criar um planejamento, sabe?
06:09Coisas que todo mundo que acompanha a gente sabe faz anos.
06:13Então, o nível do aprendizado que você consegue
06:17quando você padroniza um grupo muito grande é muito pequeno.
06:21Isso, aliás, está nas teorias do aprendizado, tá?
06:23Existe uma correlação inversa entre os tranches, os clusters de alunos
06:34e a especificidade ou profundidade do aprendizado.
06:38Quanto menos você tem essa clusterização, essa separação de alunos,
06:44menos você pode ser específico e menos você pode informar
06:47na necessidade específica cada um desses grupos.
06:51Então, eu não acho que essa iniciativa tem jeito, tem ares
06:55de verdadeira transmissão de conhecimento, como num curso ou coisas do gênero,
07:00dado o seu caráter genérico e imenso.
07:04Mas acho que é muito positiva para abrir os olhos para esse debate.
07:09A visão crítica que eu tenho é que, olha só,
07:13o grande risco da entrada da inteligência artificial na educação é a massificação,
07:20que aí não é exatamente sobre você entregar o conteúdo para todo mundo,
07:24mas você assumir que não importam as dúvidas individuais,
07:28as questões, as premissas e assim por diante.
07:31Então, o risco é a transmissão dessa mensagem para o mercado educacional
07:35de que o massivo resolve, sendo que a gente está numa luta na educação brasileira
07:41para evitar a massificação justamente, por exemplo,
07:45do ponto de vista da inteligência artificial, através de agentes
07:48que tenham capacidade de identificar as dificuldades,
07:51as lacunas específicas de cada aluno e atender e supri-las
07:54através de conteúdo específico ao longo do tempo.
07:57Então, é isso.
07:58Mas, claro que no todo é muito bem-vindo.
08:00Vamos aí ver se vai realmente entrar para o Guinness
08:02ou se a conexão vai cair no meio.
08:03Muito bem observado.
08:06Vale realmente prestar atenção nesse momento, nessa intenção,
08:11que é mais, talvez, massificação, talvez mais familiaridade
08:15do que efetivamente ensino.
08:16Muito bem observado, doutor Álvaro.
08:18Agora, com a chegada até de chips e modelos de IA mais potentes ao Brasil,
08:23doutor Álvaro, que relação tem isso com o Brasil se transformar,
08:27talvez, entrar na corrida dos data centers,
08:31como nós já falamos por aqui na nossa coluna?
08:33Olha, o Brasil está efetivamente buscando esse lugar ao sol.
08:38O nosso ativo é energia.
08:42O Brasil, enquanto todo mundo discute formas de alimentar data centers,
08:50que tem ressalvas, como a gente justamente já discutiu aqui,
08:53como energia eólica, que é muito bem-vinda.
08:55Mas tem algumas ressalvas.
08:57O Brasil é uma potência, é a grande referência mundial em energia renovável
09:04em função das hidroelétricas, em relação às quais não há nenhuma ressalva.
09:09Entende?
09:10Então, assim, o Brasil tem muito para desenvolver desse potencial.
09:15Agora, a gente tem que lembrar que a energia não pode ser armazenada e levada para outro país
09:21de maneira viável economicamente, porque justamente entre as duas coisas,
09:25a energia que é a energia usada lá, existem as tais baterias,
09:29que são o grande gargalo.
09:31Caras e, acima de tudo, logisticamente complexas.
09:34Você precisaria de muitas baterias e assim por diante, torna tudo impossível.
09:38Portanto, a gente tem que olhar esse tipo de notícia à luz daquilo que efetivamente
09:44pode se desdobrar dos esforços que estão acontecendo.
09:49E o que pode se desdobrar de um esforço para a gente ter data centers mais eficientes
09:55no estado de São Paulo, que é exatamente o que está em discussão,
09:58é simplesmente responsividade de modelos, de IAs, maior, com latência menor e maior estabilidade.
10:06Mais nada, não há, eu vi essa discussão já surgindo em alguns jornais,
10:12algumas revistas, mas para mim parece muito claro, vale a pena a gente esclarecer
10:18que não há uma ponte evidente entre esse tipo de lançamento
10:24e um salto no posicionamento do Brasil em relação a essa corrida dos servidores,
10:31que em última análise é muito baseada na matriz energética disponível
10:36e na estabilidade dos serviços para atender o mercado global e não o mercado local.
10:40Aqui o papo é totalmente local.
10:43É isso aí.
10:44Agora, Álvaro, para a gente encerrar, eu queria que você falasse sobre a sua visão,
10:49sobre o movimento do Google de integrar cada vez mais a IA aos navegadores,
10:56nos navegadores, resumindo o texto, trazendo resposta pronta, enfim.
11:01Qual é a sua visão sobre essa iniciativa?
11:03São pontos mais positivos do que negativos e como eles interferem no aprendizado
11:09até das pessoas que consomem essas informações e também nos conteúdos diversos
11:17que a internet oferece?
11:19Qual é a sua visão sobre esse movimento do Google?
11:21Perfeito.
11:23O Google realmente acabou de integrar a IA nativa,
11:27ele estava com os resumos de buscas,
11:29agora tem essa IA que já operando no mercado brasileiro.
11:33Eu, por acaso, fui escolhido como beta tester,
11:36então eu estava com ela há um tempinho aqui na versão brasileira,
11:39além de ter a americana,
11:41porque, claro que eu testo um monte de coisa fora,
11:43via VPN, etc.
11:45Mas, enfim, eu estou bastante familiarizado com o tema.
11:50Eu diria o seguinte, primeira coisa,
11:53para as pessoas, em geral,
11:55nas mais variadas circunstâncias,
11:57porém não em todas,
11:59é melhor.
12:00Torna a experiência mais fluida e mais rápida.
12:04Porém,
12:05uma coisa que a gente tem que pensar,
12:07e é sempre o danado do porém, né, minha amiga querida?
12:10É sempre ele
12:10que aparece no meio do caminho
12:12para estragar a brincadeira.
12:14Olha só,
12:16teve um,
12:16a gente discutiu aqui,
12:19aliás,
12:19um grande processo antitrust
12:22em que o Google
12:23foi o réu
12:25nos Estados Unidos
12:26e lá,
12:27pelas tantas,
12:28numa das audiências,
12:30eis que surge
12:30da boca dos advogados
12:33a seguinte fala,
12:34mais ou menos assim, tá?
12:36que o mercado
12:37de websites,
12:41essa produção espontânea,
12:44ela de fato estava sendo achatada
12:47por essas inteligências artificiais
12:50nos browsers
12:51e que, por exemplo,
12:52o desmembramento da empresa
12:53só aceleraria esse processo.
12:54Ou seja,
12:55na hora do vamos ver o papo
12:56de que essas IAs
12:58que fazem,
13:00que atendem as demandas
13:02do consumidor de informação,
13:04elas não achatam,
13:06não limitam
13:07e eliminam
13:07os incentivos
13:08para a geração de websites,
13:10é um papo falso.
13:12E aí,
13:12quando a gente olha
13:13por esse ponto de vista,
13:14existem duas questões problemáticas.
13:16A primeira
13:17é uma questão
13:18que a gente pode chamar
13:20da questão do ovo e da galinha.
13:22Os resumos
13:23são interessantes
13:24porque eles fazem uso
13:25de informação viva,
13:26essas informações vivas
13:27vêm dos websites
13:29com menos incentivos,
13:30a gente vai ter menos websites,
13:32tendo menos websites,
13:33essa informação tende
13:34a cair de qualidade.
13:35E aí,
13:35todo mundo sofre.
13:37Essa que parece ser
13:38a grande questão,
13:39ela é de resolução simples.
13:41Tá bom,
13:41a hora que começar
13:42a acontecer isso,
13:44a IA passa,
13:45eles reprogramam a IA
13:46para dar só um contexto
13:47bem curtinho
13:48e botar,
13:49dar muito mais destaque
13:50para os websites
13:50e tudo se resolve.
13:52Só que existe
13:53um outro problema
13:54e esse problema
13:55que não é um problema,
13:56existe uma outra questão
13:58que é muito mais séria,
13:59que é a seguinte,
14:00não são simplesmente
14:02informações
14:03desprovidas
14:06de sentido comercial
14:07que estão sendo indexadas.
14:10Existe todo um movimento
14:11para entrar no mundo
14:14do e-commerce.
14:15Olha só,
14:16os e-commerces
14:17ou os marketplaces,
14:18por exemplo,
14:18a Amazon,
14:19eles são,
14:20na linguagem do
14:21Yannis Varoufakis,
14:22aquele ex-ministro da Grécia,
14:24que, enfim,
14:25hoje em dia
14:25é um economista
14:26bastante vocal
14:28sobre tecnologia,
14:29lido pelos cultos,
14:31o Yannis Varoufakis
14:32vai chamar isso
14:33de feudos
14:34ou estruturas
14:35tecnofeudais.
14:36Eu sou crítico
14:37em relação
14:38ao ponto de vista dele,
14:38mas reconheço
14:39que é articulado,
14:41é inteligente.
14:42Pois bem,
14:43esses feudos,
14:44eles estão sendo
14:46pressionados,
14:47ameaçados
14:48por essas IAs,
14:49porque essas IAs
14:50vão começar
14:51a oferecer produtos ali.
14:52Ou seja,
14:52você não precisa mais
14:53ir no Amazon,
14:54no Walmart,
14:54onde for,
14:55para você comprar
14:55alguma coisa.
14:56os produtos
14:57vão aparecer
14:58diretamente
14:59nessas IAs
14:59e, inclusive,
15:00vai ser possível
15:01comprar diretamente ali.
15:02Esse movimento,
15:04que, aliás,
15:04está sendo descrito
15:06aqui em primeira instância
15:06no olhar digital
15:07como tanta coisa
15:08do ponto de vista
15:08da tecnologia,
15:10precisa ser considerado
15:11à luz do movimento
15:12que está acontecendo
15:13em termos de alterações
15:14de arquitetura
15:15de browser.
15:16Qual é a questão?
15:18Do ponto de vista
15:19do consumidor,
15:20você ter essa ampliação,
15:22essa disrupção
15:23das barreiras,
15:24a queda do Império Romano,
15:26parece positivo.
15:28Só que existe
15:29o problema
15:31da seleção
15:32dessas ofertas
15:33nessas IAs.
15:36Então,
15:36pensa, por exemplo,
15:36que você tem
15:37um pequeno e-commerce.
15:38Seu e-commerce
15:39não tem um SEO
15:40muito bom,
15:41o negócio
15:41não é tudo isso,
15:43mas você vive
15:44de um público cativo
15:46que compra as coisas
15:47que você tem
15:47para oferecer,
15:48que tem algum tipo
15:49de diferencial,
15:49sei lá.
15:51Esse e-commerce,
15:52que tem uma indexação
15:54muito frágil,
15:56dificilmente vai aparecer
15:57nas sugestões
15:58do Gemini
15:59e da IA Nova.
16:00Então,
16:01na prática,
16:02existe o risco
16:03de muitas e muitas
16:05empresas
16:06que trabalham
16:06justamente
16:07nessa linha
16:08que tem algo
16:09de relacional
16:11na internet,
16:12desapareçam.
16:13Aí está a questão,
16:14porque no Brasil
16:15existem muitos
16:17websites assim
16:18e não existem
16:19tantas
16:19magazines Luizas.
16:21Então,
16:21é algo a se pensar.
16:23Esse assunto
16:24é a ser discutido
16:25muito ainda,
16:26não é,
16:26doutor Álvaro?
16:27Bom,
16:28deixamos para
16:28outros momentos.
16:30Então,
16:30a nossa coluna
16:31de hoje,
16:32Olhar do Amanhã,
16:33fica por aqui.
16:34Doutor Álvaro Machado Dias,
16:35nos encontramos
16:36na próxima quarta-feira.
16:38Um super beijo
16:39e uma excelente semana.
16:41Para você também,
16:42para todo mundo
16:42que nos acompanhou
16:43e até lá.
16:44Até.
16:45Muito obrigada,
16:45doutor Álvaro.
16:47Está aí, pessoal,
16:48mais uma coluna
16:48Olhar do Amanhã
16:50com o doutor Álvaro Machado Dias.
16:52Sempre muito interessante
16:53trazendo pensamentos aqui,
16:55análises dos acontecimentos.
16:57Doutor Álvaro Machado Dias,
16:59que é professor da Unifesp,
17:00neurocientista futurista
17:01e colunista aqui
17:03do Olhar Digital.
17:04Como vocês já sabem,
17:05semana que vem tem mais.
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