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  • há 5 horas
Transcrição
00:00Pesquisadores da MetAI demonstraram um sistema, o Brain Tool QWERTY, capaz de transformar a atividade cerebral captada por sensores externos
00:13sem nenhuma cirurgia em texto escrito.
00:16A notícia foi tratada como um avanço de acessibilidade, mas também marca um ponto de virada silencioso. A fronteira entre
00:27o que pensamos e o que pode ser lido está ficando mais fina do que a maioria das pessoas percebe.
00:35Esse é o assunto da nossa coluna de hoje, Olhar do Amanhã.
00:51E vamos receber o Dr. Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista, futurista e colunista do Olhar Digital. Vamos lá?
01:01Deixa eu colocar o Dr. Álvaro aqui na nossa tela para bater um papo.
01:06Olá, boa noite, Dr. Álvaro Machado Dias. Seja muito bem-vindo.
01:11Boa noite, Marisa.
01:12Doutor Álvaro, vamos lá, vamos conversar sobre esse assunto. O que exatamente esses sistemas capturam? Pensamento ou intenção motora de
01:24comunicar algo, Dr. Álvaro?
01:28Ah, sua pergunta foi genial. Eles não capturam pensamento, eles só capturam essa intenção motora. O que acontece é o
01:34seguinte.
01:35Quando a gente vai digitar alguma coisa, existe uma, vamos dizer assim, uma cápsula de pensamento, um snippet, tá bom?
01:46Um trechinho que serve para o planejamento motor.
01:51Então existe uma área chamada suplementar motora, no córtex pré-frontal, que serve ao planejamento que se mantém sincrônico durante
02:01o processo de digitação, né?
02:03A digitação em si é fluida, mas o planejamento está lá.
02:07Existe uma máquina que está entre a ressonância magnética funcional, aquela cápsula, e a eletroencefalografia, aqueles eletrodos, que chama MAG.
02:17E magnetoencefalografia. E ela é uma máquina muito grande, que através de medidas magnéticas, capta com precisão temporal, que é
02:27uma coisa do EG, desse sinalzinho do eletrodo.
02:30Mas também com precisão espacial, que é essa coisa da ressonância, onde a atividade elétrica está acontecendo.
02:36O que foi feito foi um estudo para associar o que está acontecendo em tempo real nessas áreas de pré
02:45-motores, de planejamento motor durante a intenção de digitar com aquilo que efetivamente está saindo na tela.
02:54Aí há uma indicação que determinada atividade elétrica está associada a determinado padrão, determinada letra digitada e assim por diante.
03:05Claro que você precisa de um LLM para corrigir as palavras no final, percebe?
03:08Não é que o negócio lê tudo de uma vez só.
03:12A máquina identifica um pouquinho o que está sendo lido e um LLM tenta traduzir que raios é aquilo no
03:17contexto da frase.
03:18A combinação das duas coisas gera uma leitura, por assim dizer, que não é do pensamento em si, percebe?
03:26Ninguém está extraindo o pensamento da mente das pessoas, mas sim desse comportamento que está na sua essência, direcionando o
03:35que vai ser escrito, portanto a intenção, como você bem colocou.
03:39Agora, doutor Alvo, por que essa diferença entre ler mente, ler os nossos pensamentos e decodificar essa intenção de escrita
03:48importa tanto?
03:49Porque ler pensamentos em última análise é algo que está no domínio da extração, da extração, muitas vezes a revelia,
04:02é algo perigoso, é aquela ideia de você estar passando no metrô e aí tem uma máquina no futuro que
04:07saca o que está acontecendo na sua cabeça e manipula o seu comportamento por isso.
04:12Algo de perigoso mesmo nessa ideia. Enquanto quando a gente está falando aqui dessa intenção, a gente evidentemente está falando
04:19de algo que está no domínio da consciência do sujeito e que em última análise ele pode não manifestar.
04:25Então, extração de intenção está sempre ou quase sempre alinhado àquilo que é objetivo do sujeito.
04:34Extração de pensamento é algo que pode ser contrário ao interesse e pode terminar em dominação.
04:39Só que a grande verdade é que não existe extração de pensamento.
04:43Ninguém nunca decodificou qual é o código na mente, por assim dizer, né?
04:48Como que o neurônio na sua atividade elétrica molecular se torna símbolo, se torna imagem, palavra e assim por diante.
04:55O que a gente consegue é extrair esses padrões que estão muito mais ligados àquilo que a gente quer fazer
05:02e associa deliberadamente, intencionalmente com uma atividade elétrica.
05:06Por exemplo, eu quero escrever uma palavra, eu deixo registrar no meu cérebro, as pessoas entendem o que é ativado
05:12quando eu quero fazer aquilo e é esse movimento intencional que vai fazer com que eu no futuro possa usar
05:17o cérebro, por assim dizer, com uma coisa por fora e não por dentro, para digitar com mais facilidade.
05:24O que é, assim, mão na roda e é o grande objetivo da meta nesse caso.
05:29Muito complexo, aliás, né? Porque depende muito da intenção da pessoa também e na decodificação dessa intenção, da intenção ser
05:36bastante clara.
05:37Agora, doutor Alvaro, esse avanço todo, né? Ele também pode levar a uma discussão sobre, sei lá, privacidade cognitiva ou
05:46algo assim?
05:47Pode, pode sim. A gente tem toda uma área surgindo chamada neurodireitos, é uma área na qual a grande discussão
05:56é esse uso, a revelia das informações cerebrais.
06:00Eu acho que esse tipo de dispositivo, ele tem contribuição para o desenvolvimento teórico dessa área e também ele pode
06:08se revelar um problema à luz do que essa área diz.
06:12Vou dar um exemplo. Você usa a máquina para, intencionalmente, como você bem colocou, através do refinamento da sua própria
06:19intenção, você tem que fazer um esforço para ficar claro no que você quer fazer, digitar sem ter que digitar
06:25de fato.
06:26Muito legal. A coisa começa a funcionar. Daqui a pouco, a máquina está, através dessa sua intenção, identificando o que
06:35você vai digitar e, portanto, o que você está almejando ou pensando indiretamente,
06:40não porque ela sabe, e te oferecendo propaganda. Está aí o risco, entende? É um risco não de manipulação 7
06:48.0. Não, é o bom e velho risco da manipulação através do contexto,
06:54manipulação que vai gerar um momento de facilitação para te entubar alguma coisa. Seja um produto que eu acho bem
07:03menos problemático ou seja uma mensagem ideológica,
07:05o que pode, sim, se tornar muito mais problemático. Então, está aí o verdadeiro risco.
07:10Agora, o que a gente tem que pensar mais profundamente é que, para além dessa questãozinha, existem discussões sobre neurodireitos
07:19que são realmente relevantes desde já.
07:23Vou dar um exemplo. Cada vez mais a gente está conhecendo quais são os fatores genéticos associados a doenças neurodegenerativas.
07:31Eu falo cada vez mais porque são muitos fatores, tudo isso é poligênico, tudo isso é complexo e a gente
07:37vai descobrindo o tempo todo novos fatores.
07:39Acabou de sair aí uma revisão sobre esquizofrenia com mais de 600 genes novos descobertos associados à doença.
07:45Mas a gente vem descobrindo essas coisas.
07:47O que acontece? Esse tipo de dado, ele pode servir, onde a legislação permite, para fazer triagem de pacientes,
07:56para determinar faixas de preços em planos de saúde e assim por diante.
08:00No Brasil isso não vai acontecer porque a lei já blinda a população desse tipo de risco.
08:06Mas efetivamente, a ideia de você usar dados cerebrais, dados que nesse caso, como eu estou dizendo, não são ondas
08:12cerebrais, não são tempo presente,
08:13mas são dados sobre a possibilidade de longevidade, ou em outras palavras, de doença no cérebro,
08:19para determinar de alguma maneira um comportamento econômico, é algo que está no horizonte do possível
08:25e eu diria que tende a acontecer onde não há regulação.
08:29Pois é, os tempos mudam e as regulações também precisam acompanhar.
08:34Muito interessante esse assunto, não é, doutor Álvaro?
08:37Principalmente quando você fala da questão da escrita, a escrita e a intenção da escrita é uma coisa,
08:42e o que você quer escrever é outra, completamente abstrato, não é?
08:47Exatamente, está aí a grande questão.
08:50Essas leituras de pensamento hoje, elas são sempre próxis, elas não estão efetivamente no domínio do simbólico.
08:57Quando você imagina alguma coisa, você pensa em palavras, tudo isso envolve algo que para nós segue misterioso,
09:05que é como essa atividade neurológica que se dá através das conexões entre neurônios, pulsos neurais,
09:13que lembram um pouco o código Morse, se converte na experiência mental que a gente tem,
09:18onde a gente efetivamente mexe as coisas, imagina, troca ordens, volta atrás.
09:23Isso ninguém sabe.
09:24E talvez seja o maior mistério que a gente tem para desvendar em todos os tempos.
09:31Desvendar a mente humana, concordo, interessantíssimo.
09:34Doutor Álvaro Machado Dias, adorei o tema de hoje, viu?
09:38Semana que vem temos mais assuntos para falar por aqui.
09:41Tenha uma excelente noite e uma semana especial também.
09:45Você também, todo mundo que nos acompanhou, até quarta que vem.
09:49Até, boa noite.
09:50Tá aí, pessoal, doutor Álvaro Machado Dias com a gente falando sobre a mente humana.
09:56Olha que interessante esse tema.
09:57E aí, o que vocês acharam? Gostaram?
09:59Pois é, semana que vem, quarta-feira, tem mais Olhar do Amanhã para vocês
10:04com o doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista, futurista e colunista aqui do Olhar Digital.
10:10Semana que vem, ele volta.
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