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  • há 7 horas
Transcrição
00:00E na coluna Olhar Espacial de hoje, Marcelo Zurita analisa um dos maiores obstáculos para futuras viagens espaciais,
00:11como superar a ausência de gravidade e ir mais longe no espaço.
00:18Então, já chegou a hora dele. Vamos lá, Marcelo Zurita.
00:31Olá, pessoal! Saudações astronômicas!
00:35Em meados do século XVII, o padre e escritor Richard Lassels escreveu
00:39Se o mundo é um grande livro, aquele que não viaja lê sempre a mesma página.
00:45350 anos depois, nosso desejo de viajar continua o mesmo,
00:49mas hoje esse livro parece pequeno demais para as ambições humanas.
00:53Queremos viajar pelo espaço, conhecer outros mundos,
00:56audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.
01:00Mas se quisermos ler outros livros da nossa biblioteca cósmica,
01:04ainda precisamos desenvolver novas tecnologias de propulsão
01:07e resolver alguns desafios relacionados à saúde humana.
01:11E entre eles, um dos mais importantes não tem muita gravidade.
01:16Sim, por mais divertidas que sejam as brincadeiras, os experimentos
01:19e os trocadilhos que podemos fazer com a ausência de gravidade,
01:23o organismo humano não foi preparado para viver sem ela por muito tempo.
01:27Sem a carga mecânica proporcionada pela gravidade,
01:31nossos músculos e ossos começam a perder massa,
01:33os fluidos do corpo se redistribuem e o nosso sistema de equilíbrio vai para o espaço.
01:39Até o sistema cardiovascular passa por mudanças importantes.
01:43Os astronautas da Estação Espacial Internacional
01:45experimentam esses efeitos durante meses
01:48e também nos ajudam a desenvolver maneiras de reduzir seus impactos.
01:52Ainda assim, eles não podem ser desprezados em viagens muito mais longas.
01:57Se conseguimos desenvolver motores suficientemente eficientes,
02:02uma viagem à margem poderá ser realizada em poucos meses,
02:05um período longo, mas ainda administrável.
02:07Porém, e se quisermos ir além?
02:10Viajar para as regiões mais distantes do sistema solar
02:12ou, em um futuro ainda mais distante,
02:15atravessar o espaço entre as estrelas?
02:17Nesse caso, talvez não seja suficiente simplesmente construir motores mais potentes.
02:23Precisaremos também construir ambientes
02:25nos quais seres humanos possam permanecer saudáveis
02:28durante viagens extremamente longas.
02:30Na ficção, isso costuma ser fácil.
02:32Basta apertar um botão e pronto.
02:35A gravidade está ligada.
02:36Todos voltam a andar normalmente,
02:38economizando uma boa quantia do orçamento de efeitos especiais.
02:43Na realidade, porém, não existe esse botão de ligar a gravidade.
02:47Mas existem maneiras de produzir dentro de uma nave
02:50uma aceleração que tenha os efeitos semelhantes.
02:53Uma delas é fazer a própria nave, ou parte dela, girar.
02:57Outra é acelerar continuamente em uma determinada direção.
03:01São soluções fisicamente possíveis e que funcionam muito bem no papel.
03:06Só que, na prática, a coisa é bem mais complicada.
03:09A ideia da nave giratória é antiga.
03:11Desde os primeiros conceitos de estações espaciais imaginados por Werner von Braun,
03:16estruturas rotativas aparecem como uma maneira de proporcionar aos ocupantes
03:20uma sensação semelhante à gravidade terrestre.
03:23Essa solução já apareceu inúmeras vezes no cinema,
03:26inclusive na nave Hermes de Perdido em Marte.
03:29E a ideia parece simples.
03:31Uma estrutura gira produzindo uma aceleração centrífuga
03:34que mantém nossos corpos contra o piso com a sensação de peso.
03:38Só que essa aceleração depende diretamente do tamanho da estrutura
03:41e da velocidade com que ela gira.
03:44Para se ter uma ideia, uma estrutura com apenas 20 metros de diâmetro
03:48teria que girar quase 10 vezes por minuto
03:50para produzir uma aceleração equivalente à gravidade terrestre.
03:54Com 200 metros, cerca de 3 rotações por minuto.
03:58E mesmo uma estrutura gigantesca com 2 quilômetros de diâmetro
04:02ainda precisaria girar a 1 rotação por minuto para gerar essa gravidade.
04:06Para uma estrutura com 200 metros, por exemplo,
04:09a velocidade na extremidade seria de aproximadamente 112 quilômetros por hora.
04:14E quanto mais rapidamente a estrutura gira,
04:17maiores podem ser os efeitos de corioles
04:19que podem causar desconforto e tontura.
04:22Ou seja, para tornar a rotação mais confortável,
04:26precisamos aumentar o tamanho da nave,
04:28trazendo uma série de outros problemas de engenharia.
04:31Mas existe uma forma ainda mais elegante
04:33de gerar uma força equivalente à da gravidade,
04:36acelerar a nave continuamente.
04:38Se a nave pudesse acelerar a 9,8 metros por segundo ao quadrado,
04:43os ocupantes sentiriam uma força semelhante ao próprio peso na Terra
04:46sem precisar de nenhuma estrutura giratória.
04:48O problema é que para manter essa gravidade,
04:52precisaríamos continuar acelerando continuamente.
04:55Mantendo essa aceleração,
04:57depois de apenas uma hora,
04:58a nave já estaria viajando a cerca de 35 quilômetros por segundo.
05:02Depois de duas horas e meia,
05:04estaria passando pela órbita da Lua a quase 90 quilômetros por segundo.
05:08Poderíamos chegar a Marte em menos de dois dias,
05:11acelerando metade do caminho e desacelerando a outra metade,
05:15gerando uma gravidade equivalente à terrestre durante praticamente todo o trajeto.
05:20Seria fantástico se alcançássemos essa capacidade um dia.
05:23Poderíamos inclusive pensar em viagens interestelares.
05:27Só que para isso,
05:28precisaríamos de motores extremamente eficientes
05:31ou levar uma quantidade obscena de propelente.
05:34E mesmo que conseguíssemos alcançar essa tecnologia,
05:37encontraríamos uma limitação fundamental da física,
05:40a velocidade da luz.
05:42Pela relatividade especial de Einstein,
05:45nenhum objeto com massa pode alcançar a velocidade da luz.
05:48Conforme nos aproximamos dela,
05:51cada aumento adicional de velocidade
05:52exige uma quantidade cada vez maior de energia.
05:55Para atingir exatamente a velocidade da luz,
05:58seria necessária uma quantidade infinita de energia.
06:01Talvez por isso uma solução intermediária seja mais realista.
06:06A gravidade parcial.
06:08A Lua possui cerca de 16% da gravidade terrestre.
06:12Marte, aproximadamente 38%.
06:15Uma estrutura giratória com 200 metros de diâmetro
06:18precisaria girar a cerca de 1,2 rotações por minuto
06:22para produzir uma gravidade lunar.
06:25Para a gravidade equivalente à Marte,
06:27seriam necessários aproximadamente 1,8 rotações por minuto.
06:31Complexo, mas bem mais simples do que produzir um G.
06:34Embora ainda não saibamos se esses níveis seriam suficientes
06:38para preservar a saúde humana durante anos.
06:41Resumindo,
06:42mesmo essas soluções aparentemente mais simples
06:45estão muito além das nossas capacidades atuais.
06:48Isso não significa que viagens espaciais sejam impossíveis.
06:52Significa apenas que algumas delas exigirão
06:55tecnologias que ainda não desenvolvemos.
06:57Se o mundo é um grande livro,
06:59que lemos através de nossas viagens,
07:02conhecer outros mundos é como folhear
07:04novos livros da nossa biblioteca cósmica.
07:07E para alcançarmos as prateleiras mais elevadas,
07:10precisamos de uma escada que ainda não temos.
07:13Precisamos desenvolver tecnologias
07:15que nos permitam viajar pelo espaço,
07:17com os olhos nas estrelas,
07:19mas mantendo nossos pés no chão.
07:21Bons céus a todos,
07:23e até a próxima!

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