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O documentário é um retrato da vida do ex-governador do Distrito Federal José Aparecido de Oliveira. O político foi assessor do presidente Jânio Quadros e teve participação fundamental na redemocratização do Brasil.
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AprendizadoTranscrição
00:00:28Legenda por Sônia Ruberti
00:00:58Legenda por Sônia Ruberti
00:01:00Na letra de seu nome, peço ao bom Jesus abençoar todos os seus passos, assim como eu o faço de
00:01:12coração.
00:01:13Sua mãe Aracy.
00:01:15E PS, lembre-se ainda de que seu pai lhes deixou um nome limpo e uma memória honrada.
00:01:29Tinha como dar reto? Não tinha, né?
00:01:33O homem que cravou uma lança na lua.
00:01:36O aparecido, ele faz parte dessa geração que tinha brasilidade na alma.
00:01:43Ainda mais como mineiro, ele tinha um sentimento muito grande de aglutinação.
00:01:48O jeitinho mineiro, ele era o papa, né?
00:01:53Ele não é só mineiro, não. Ele é brasileiro.
00:01:56Mas ele era uma pessoa normal.
00:01:58Simples assim. Ele não era personagem dele mesmo.
00:02:02Inquietador de serpentes.
00:02:03Tome cuidado com o desaparecido, porque ele é um cara que você não consegue dizer não pra ele.
00:02:08Um bom vivante também. Um amante da vida.
00:02:11Boêmio da vida.
00:02:13Mas era um cheito enquadrado.
00:02:15Ele tinha disciplinado. Ele tinha seus objetivos.
00:02:18Tinha essa característica de ter paixão pelas ideias.
00:02:21E por isso ele conseguia levá-las adiante com uma força que dificilmente se encontra.
00:02:28E depois o outro lado, que é o lado do amigo, do homem bem-humorado.
00:02:31Uma pessoa divertidíssima.
00:02:34Ampliava cada vez mais o seu círculo de amigos.
00:02:37Sabia cativar os seus amigos.
00:02:39Nas mais variadas gerações.
00:02:42Ele teve a capacidade ao longo do tempo e se renovando também.
00:02:46Ele tinha uma oratória brilhante, fulgurante.
00:02:50Falava muito bem e de uma maneira envolvente.
00:02:54Foi um homem fora de qualquer comparação, de qualquer avaliação.
00:02:59Nada. Um homem fora de série realmente.
00:03:02Porque ele só se interessava pelo bem público.
00:03:05As coisas ilusitadas, impossível de fazer, o Zé ia lá fazer.
00:03:10A vida dele provou que era um homem de invenções.
00:03:14Ele não seguia cartilhas.
00:03:16Ele tinha na vida a função que o hífen teve na gramática.
00:03:23Ele juntava as palavras.
00:03:26Ele juntava as pessoas.
00:03:26Se fosse todo mundo como José Aparecido, o mundo, o Brasil, seria uma coisa extraordinária.
00:03:47O nome dele é José Aparecido.
00:03:49Não é uma coisa de família, mas sim uma homenagem à santa.
00:03:55E mais do que uma homenagem, uma promessa que a minha avó fez à Nossa Senhora Aparecida.
00:03:59Porque antes dele, nasceu uma menina, chamava Neuza, e que faleceu logo em seguida.
00:04:06Porque teve tétano no umbigo.
00:04:08Logo depois, o meu pai nasceu e teve tétano no umbigo também.
00:04:13A vovó, que já tinha perdido a Neuza, a primeira, fez uma promessa à Nossa Senhora Aparecida.
00:04:18Que se o papai sarasse, ele daria o nome à santa a ele e a todos os filhos que viessem.
00:04:35A nossa família é toda oriunda da região Conceição do Mato Dentro, Itambé do Mato Dentro, Alvorada de Minas.
00:04:44Papai viajava muito.
00:04:46Ele foi fiscal de Minas.
00:04:48O papai era um homem também muito moderno, muito aventureiro, diria eu.
00:04:57E gostava muito de passar susto sem mamãe.
00:04:59E morreu de desastre de automóvel.
00:05:01Já tinha automóvel também, você entendeu?
00:05:05Então foi um motivo sempre assim, de muita preocupação.
00:05:08Ele era muito afoito.
00:05:11Mas muito alegre, muito, um pai maravilhoso.
00:05:15O meu avô, modesto, um homem à frente do seu tempo, faleceu muito jovem.
00:05:22Quando o meu pai ainda tinha 11 anos de idade e era o filho mais velho.
00:05:27O José Aparecido se posicionava ao lado da mamãe para nos ajudar na nossa educação.
00:05:34Mamãe era uma mulher forte.
00:05:37Muito forte.
00:05:38Muito lúcida e muito inteligente.
00:05:41A influência da minha avó na educação dos filhos, sobretudo do meu pai, foi muito grande.
00:05:47Ela é uma educadora, discípula da Helena Antipoff.
00:05:52E Dona Aracis sempre foi uma mestra.
00:05:54Quando José Aparecido nasceu, ela estava exatamente em São José do Rio Preto,
00:05:59distrito de Conceição do Mato Dentro, como professora da escola local.
00:06:04Depois ela seria também professora em Araxá,
00:06:07onde José Aparecido passou um trecho da sua infância.
00:06:11E de lá ela o mandou para o Colégio Arquidiocesano em Ouro Preto.
00:06:16Aquilo acho que marcou a vida dele.
00:06:18Sobretudo com os padres, com os professores.
00:06:22E o padre Mendes, que era o professor de português,
00:06:25e que junto com o padre Mendes, eles criaram o Grêmio Literário Tristão de Ataíde.
00:06:30Foi a pessoa que pegou no pé do José Aparecido
00:06:36e que despertou nele curiosidades literárias que não eram comuns naquela época.
00:06:42Estudou em Ouro Preto até terceira série.
00:06:46Depois, como mamãe, nós todos já estávamos em Araxá.
00:06:50Ele foi para Araxá, onde ele fez o estilo de guerra e terminou o ginásio.
00:07:22E José Aparecido veio para Belo Horizonte para estudar,
00:07:25mas, na verdade, desafiado pelos problemas econômicos
00:07:30e logo também fascinado pelo que a cidade lhe oferecia,
00:07:35ele vai ter uma atuação imediata como jornalista.
00:07:38Ele escrevia muito bem, sempre escreveu muito bem, falava de uma maneira excepcional.
00:07:44E foi logo para as redações de jornais e foi logo ocupar um espaço também na rádio,
00:07:49em confidência e se destacou nos meios de comunicação em Belo Horizonte
00:07:55como um jovem extremamente talentoso.
00:07:58Nós também éramos recém-chegados aqui.
00:08:02Ele vinha de Conceição e eu vinha de Campos Gerais, lá no sul de Minas, para estudar.
00:08:07Foi nascendo com esse convívio uma relação muito estreita entre nós.
00:08:14O governo estadual controlava todos os jornais.
00:08:17Nós já estamos, a nossa vocação era trabalhar na imprensa
00:08:23e aquela subserviência dos jornais de Minas ao Palácio da Liberdade,
00:08:29que era praticamente total, nos incomodava e nos desagradava muito.
00:08:35Dentro da UDN, existia um grupo de deputados
00:08:38com outra ideia, assim, mais progressistas e tudo.
00:08:43E eles também estavam com a ideia de fazer um jornal.
00:08:45Falei, então, vamos nos juntar e fazer isso.
00:08:49E eles, então, financiaram o primeiro número do jornal
00:08:52que nós pretendíamos lançar e que lançamos.
00:08:56O UBIDÃO foi um jornal de gozação e tinha que ser assim.
00:08:59Porque, como é que nós, com quatro páginas semanais,
00:09:03antes até quinzenais, nós íamos enfrentar a imprensa diária?
00:09:09Nós tínhamos que encontrar alguma coisa que mexesse com a sociedade mineira.
00:09:13Tiramos dois mil exemplares, se esgotaram.
00:09:16Na hora, tal era a videz por informação honesta,
00:09:21e nesse longo processo da existência do binômio de 12 anos,
00:09:26que só foi interrompido pelo golpe de 64,
00:09:29ele chegou a ser a maior atiragem de Minas.
00:09:32Eu estou contando a história do binômio porque é muito paralelo à história do Zé Aparecido.
00:09:38porque ele não era da redação, mas ele estava sempre em contato conosco,
00:09:43vivendo conosco, daquele grupo que fazia o binômio.
00:10:05Foi fazer uma entrevista com o doutor Américo René Janetti.
00:10:08E o Janetti ficou encantadíssimo com o José Aparecido.
00:10:12E convidou-o para ser assistente no gabinete dele.
00:10:20Ele era prefeito de Belo Horizonte na ocasião.
00:10:23Nessa mesma época, ele coordena uma campanha política para prefeito de Belo Horizonte,
00:10:27quando o terceiro colocado, que era o Azevedo,
00:10:32que era o doutor Celso Médio Azevedo,
00:10:34ele consegue elegê-lo.
00:10:37Ou seja, coordenando uma política para o terceiro colocado e se torna prefeito.
00:10:42E ele vem a ser, inclusive, o seu chefe de gabinete.
00:10:45Aparecido vai para a prefeitura e dá um show como chefe de gabinete do prefeito Celso Azevedo.
00:10:51É uma personalidade marcante que logo se torna reconhecida na cidade.
00:10:56José Aparecido passa a ser uma figura referencial e estratégica
00:11:00na vida política, na vida cultural de Belo Horizonte,
00:11:03nos meios jornalísticos, nos meios da cultura,
00:11:06e também na política.
00:11:07E é assim que ele vai ser observado e cooptado
00:11:12pelo deputado federal José Magalhães Pinto,
00:11:15que era banqueiro, presidente do Banco Nacional de Minas Gerais.
00:11:19Eu conheci o José Aparecido em 1959,
00:11:23quando nós estávamos preparando a convenção
00:11:27para presidente da UDN,
00:11:30que era candidato Magalhães Pinto contra o Hebert Levy.
00:11:35O Zé Cândido Ferraz me disse, olha, você tem que procurar o secretário particular do Magalhães Pinto,
00:11:43o José Aparecido,
00:11:45que é ele quem coordena o Magalhães e, em grande parte, faz a cabeça do Magalhães.
00:11:50Jânio estava atacando implacavelmente o presidente Juscelino Kubitschek
00:11:55e este pediu ao Geraldo Carneiro que conversasse com o governador de São Paulo,
00:11:59dizendo que, afinal de contas, eles eram homens públicos
00:12:01e aquele tipo de ataque rasteiro não levaria nenhum dos dois a lugar nenhum
00:12:07e prejudicaria, inclusive, a personalidade dos homens públicos na vida nacional.
00:12:13E Geraldo Carneiro passa um fim de semana no Palácio Campos Elíseos,
00:12:19convidado pelo governador Jânio Quadros,
00:12:21e ficaram numa conversa animadíssima
00:12:24e Jânio diz ao Geraldo Carneiro que ele era o homem mais inteligente
00:12:27que ele, Jânio Quadros, já tinha conhecido.
00:12:31E o Carneiro diz o seguinte, isso, governador,
00:12:34porque o senhor não conheceu o meu primo José Aparecido de Oliveira.
00:12:37e vai para o Rio e conta isso para o Aparecido.
00:12:40O Aparecido diz, não, não quer saber desse governador de São Paulo coisa nenhuma e tal.
00:12:44Logo depois eles se encontram e um fica completamente dominado pelo outro.
00:12:50Dentro da UDN ele percebeu o potencial da candidatura Jânio
00:12:56e assumiu, foi assumindo posições lá dentro junto a outros companheiros
00:13:01e passou a ser a figura, a ser mais ouvida pelo Jânio.
00:13:05Ele é coordenador das campanhas vitoriosas de Magalhães Pinto e Jânio Quadro
00:13:11e um ano depois, com 31 anos de idade,
00:13:13ele se torna deputado federal, secretário de governo
00:13:16e deputado federal sendo um dos dez mais bem votados no país.
00:13:20Os dois tinham grande afeto e estima pelo José Aparecido,
00:13:23mas também tinham um certo temor do José Aparecido,
00:13:26porque o José Aparecido, às vezes, ele,
00:13:30com aquela característica mineira, muito delicada,
00:13:35e muito afetuosa, ele tinha os seus momentos de irritação.
00:13:40E o José conseguiu, que não era fácil, colocar o UDN com o Jânio
00:13:47e o Jânio dando porrada no UDN.
00:13:50O eleitor votava duas vezes, uma vez para presidente da república,
00:13:54outra vez para vice-presidente, o adversário também.
00:13:59Então, a chapa do Jânio era Jânio e o Milton Campos vice.
00:14:06E o outro lado era o Marechal Lott e o Jão Goulart.
00:14:11E o José Aparecido teve a ideia de fazer uma chapa,
00:14:14que foi uma chapa Jan-Jan.
00:14:16Evidentemente que essa chapa ganhou disparado,
00:14:18até porque era melhor.
00:14:20O Milton Campos era uma grande figura,
00:14:22foi senador, governador, uma figura extraordinária,
00:14:25mas não tinha o apio popular, realmente.
00:14:29O Jango tinha e o Marechal Lott não tinha,
00:14:32quer dizer, então ganharam disparado.
00:14:35E ele se destacou tanto durante essa campanha
00:14:39que acaba sendo considerado indispensável pelo Jânio Quadros.
00:14:46E a maneira que o Jânio teve de contemplar o desejo de tê-lo perto
00:14:51foi nomeá-lo secretário particular.
00:14:54O Zé, embora num cargo nominalmente secundário,
00:15:00secretário particular,
00:15:03era, na verdade, o super-ministro do governo Jânio.
00:15:09Eu pegava no pé do Zé Aparecido
00:15:10porque ele foi secretário do Jânio Quadros, né?
00:15:14Eu falei, então você foi o responsável
00:15:16por não ter trancado o Jânio Quadros no banheiro
00:15:17e pedir que ele fizesse a renúncia,
00:15:19que desse golpe militar, essa coisa toda.
00:15:25O presidente Jânio Quadros, presente à cerimônia,
00:15:28encerra também um dos mais impressionantes capítulos da história do Brasil.
00:15:33Após as celebrações de estilos,
00:15:36o chefe do governo condecorou várias personalidades
00:15:39da vida pública brasileira com a ordem do mérito militar.
00:15:42Pouco tempo depois, renunciava ao poder,
00:15:45deixando a nação traumatizada.
00:15:57Ele, entre outros, era muito amigo do Carlos Castelo Branco,
00:16:02comumente conhecido como Castelinho.
00:16:05Dizem as más línguas, inclusive,
00:16:07que algumas colunas do Castelinho
00:16:08eram redigidas pelo Zé Aparecido.
00:16:11Até a carta de renúncia,
00:16:13o comunicado da renúncia do Jânio
00:16:16foi por ele redigido
00:16:17e passado a quem?
00:16:20Quase um, não digo um subalterno,
00:16:22mas uma dupla que ele fazia
00:16:24simplesmente com o Carlos Castelo Branco,
00:16:26o célebre Castelinho,
00:16:28um homem que sacava,
00:16:29quem mais sacou da política brasileira
00:16:31como homem de imprensa.
00:16:33Mas ele me explicou por que tinha renunciado.
00:16:36O presidente Sarney sabe.
00:16:39Sabe por que renunciei,
00:16:42senhor José Aparecido?
00:16:43Por causa da comida do palácio,
00:16:46que era feita por aqueles taifeiros da Marinha.
00:16:49Comida péssima.
00:16:50Então, renunciei.
00:16:52Foi aquela risada e etc e tal.
00:16:55Foi essa a explicação que ele me deu.
00:16:58O Jânio não gostava do Zé Aparecido.
00:17:02Eu até não assisti pessoalmente,
00:17:05mas algumas pessoas...
00:17:06Ele falava aquele molecote de Minas,
00:17:09de Minas,
00:17:10aquele molecote de Minas.
00:17:12E ele foi, foi,
00:17:14sai com um, sai com o outro.
00:17:15No fim da vida, na renúncia do Jânio,
00:17:17no fim da carreira política do Jânio,
00:17:19ele era a pessoa mais íntima do Jânio, né?
00:17:22E mais querida pelo Jânio.
00:17:24Ele realmente nunca foi um reacionário.
00:17:28Ele era um homem de visão,
00:17:31progressista da política e da vida.
00:17:34Ele estava partidariamente na UDN,
00:17:38ele foi sempre muito ligado,
00:17:40mas do setor progressista da UDN.
00:17:44Aí o Castelo Branco, na coluna dele,
00:17:46disse, naquele tempo a Bossa Nova surgia
00:17:48com uma nova música no Brasil,
00:17:52com grande sucesso, né?
00:17:53E ele então disse,
00:17:55Bossa Nova na UDN,
00:17:56quer dizer, nós estávamos tocando uma música
00:17:58que era diferente da tocada pela UDN.
00:18:00O chefe daquela facção Bossa Nova da UDN era ele.
00:18:06Porque a UDN era um partido muito conservador,
00:18:11não era de direita,
00:18:13mas era um conservadorismo
00:18:18empoeirado.
00:18:19O apartamento do Zé Aparecido e Copacabana
00:18:24era, ao mesmo tempo,
00:18:26o aparelho da Bossa Nova da UDN
00:18:29e do nosso grupinho,
00:18:32dentro do grupão majoritário da UNE,
00:18:38da União Nacional dos Estudentes.
00:18:40E representavam um componente progressista
00:18:44na política de mim.
00:18:45Naquela época era muito retrógrada.
00:18:48A esquerda aqui sempre foi muito fraca,
00:18:50mas naquela época era mais fraca ainda.
00:18:52Como é que ele conheceu Magalhães Pinto
00:18:54e foi amigo da vida inteira de Magalhães Pinto?
00:18:57Ele foi entrevistar o Magalhães Pinto,
00:18:58Magalhães Pinto é deputado federal.
00:19:00Ele foi entrevistá-lo,
00:19:02o Magalhães ficou impressionado
00:19:03com a sagacidade daquele jovem repórter
00:19:05e ali o convidou para trabalhar com ele,
00:19:08sendo secretário particular,
00:19:09depois secretário de Estado.
00:19:11Magalhães Pinto vai chamar José Aparecido,
00:19:14que passa a ter um desempenho,
00:19:18com grande desenvoltura,
00:19:20um desempenho muito ativo
00:19:22ao lado de Magalhães Pinto,
00:19:24de maneira a projetar Magalhães Pinto nacionalmente,
00:19:29até torná-lo presidente nacional da UDN
00:19:33e com isso permitir que ele estabelecesse
00:19:36uma presença autônoma,
00:19:39um desempenho próprio
00:19:41no quadro nacional da oposição.
00:19:44em contraposição a Carlos Lacerda.
00:19:47Carlos Lacerda seduzia ao subir a tribuna
00:19:51e Magalhães Pinto, já mais tímido,
00:19:53mais mineiro,
00:19:55mais aparentemente acanhado,
00:19:59seria eclipsado por Carlos Lacerda
00:20:01se não fosse a argústia de José Aparecido também
00:20:04no estabelecimento de várias estratégias
00:20:07que fizeram Magalhães presidente nacional da UDN,
00:20:11abrindo portas para a candidatura Jânio Quadros.
00:20:14participou ativamente no governo do Magalhães
00:20:18e foi afastado ou se afastou do governo do Magalhães
00:20:24dias antes do golpe.
00:20:26Ele percebe que o Magalhães Pinto
00:20:29está participando do golpe de 64.
00:20:32Olha bem, ele, um jovem, 34 anos,
00:20:36duas secretarias de Estado na mão,
00:20:39sabendo que o governador seria um líder de um movimento
00:20:44que estava em curso.
00:20:45Quem seria beneficiado? Ele.
00:20:47Ele rompe com Magalhães,
00:20:49volta para a Câmara
00:20:50e é um dos articuladores da CPI do IBADE,
00:20:54que é o Instituto Brasileiro de Ação Democrática,
00:20:56que foi depois descoberto
00:20:58que era uma autarquia, digamos assim,
00:21:01apoiada pela CIA no financiamento de campanhas
00:21:05com interesse norte-americano.
00:21:08Então, todo mundo que participou da CPI do IBADE
00:21:11foi cassado no ato institucional número 1.
00:21:1632 anos, deputado federal,
00:21:18e 34 anos, cassado pela ditadura.
00:21:34Eu fui visitá-lo na embaixada,
00:21:37já quando ele estava lá,
00:21:39asilado na embaixada.
00:21:40E cheguei lá e ele me disse,
00:21:43Sarney, me tira daqui com urgência,
00:21:46que eu não aguento mais
00:21:50a conversa com o Costa Santos,
00:21:54aquele cara dele,
00:21:55que ele é tão chato,
00:21:57que eu prefiro estar preso
00:21:59do que estar aqui ouvindo dessa maneira.
00:22:03Ele não era tão visado quanto eu e outros.
00:22:08Ele pôde ficar no Brasil.
00:22:09E ele continuou aí,
00:22:11com aquela capacidade dele,
00:22:13aquele carisma dele,
00:22:14ele continuou agindo.
00:22:16E teve participação grande
00:22:18na criação,
00:22:20depois fracassada,
00:22:22da Frente Ampla.
00:22:24Era um esforço, assim,
00:22:26suprapartidário
00:22:26para fazer frente ao governo militar.
00:22:32Mas quando houve o ato número 5,
00:22:34em 68,
00:22:36isso acabou.
00:22:37Aí o Zé Parecido
00:22:38passou a mesma,
00:22:39quase que a clandestinidade.
00:22:41E ele, nessa época,
00:22:42ele ficou muito triste,
00:22:44não era o estilo dele.
00:22:45O Zé era muito alegre, né?
00:22:47E muito comunicativo.
00:22:48Ele gostava de boas convivências.
00:22:52E ele me dizia sempre,
00:22:54porque eu tinha uma convivência íntima com ele,
00:22:56que muitas pessoas fugiam dele.
00:22:58Ele foi o único que reagiu
00:23:00à cassação,
00:23:01convidando o grande jurista mineiro,
00:23:04Sobral Pinto,
00:23:05a formular a sua defesa
00:23:08perante os tribunais,
00:23:10sabendo que aquilo era inviável,
00:23:12já que o regime autoritário
00:23:14tinha cortado todas essas possibilidades,
00:23:16mas ele fez questão de reagir.
00:23:18O professor Sobral Pinto,
00:23:20ele fez o protesto judicial
00:23:22contra a minha cassação.
00:23:24Este foi o único protesto judicial
00:23:26feito em 1964.
00:23:29Na época,
00:23:30nós imprimimos 10 mil exemplares
00:23:33e deve ter sido
00:23:35a primeira manifestação pública
00:23:38de resistência democrática
00:23:40ao golpe militar.
00:23:41E apesar de todos os golpes
00:23:43que sofremos,
00:23:44nós sempre fomos pessoas alegres,
00:23:46satisfeitas,
00:23:47felizes com a vida,
00:23:48porque o que nós sofremos
00:23:51só em nome dos nossos ideais.
00:23:54E esses ideais,
00:23:55se eles são fortes,
00:23:56elas não morrem nunca.
00:23:58Ele tinha diversos amigos,
00:23:59jornalistas muito importantes
00:24:01no Brasil inteiro,
00:24:02em todos os jornais,
00:24:03em todos os meios de comunicação
00:24:05do Brasil.
00:24:06E ele se tornou fonte
00:24:08desses amigos dele
00:24:09ao longo da vida.
00:24:11No Rio de Janeiro,
00:24:12todos os grandes jornalistas,
00:24:13os nomes de imprensa
00:24:14do Rio e de São Paulo,
00:24:16frequentavam José Aparecido,
00:24:18iam à casa dele.
00:24:19E ele se tornou
00:24:20a grande fonte da imprensa
00:24:21durante o regime militar.
00:24:23Ele sabia de tudo.
00:24:24E o regime militar
00:24:25o seguia
00:24:27como um elemento perigosíssimo.
00:24:45O Antônio Maria
00:24:46era o ser mais anti-udenista
00:24:48que tinha no Brasil.
00:24:50Ele tinha uma coluna
00:24:51no jornal
00:24:52só para bater na UDN.
00:24:54e o Zé,
00:24:55o cara mais o denista
00:24:56que tinha na época
00:24:57do Brasil,
00:24:57e conviviam e bebiu
00:24:59e tomavam porres enormes
00:25:00e tinham sido inimigos
00:25:02por causa disso.
00:25:04Inimigos, assim,
00:25:06até um dia
00:25:07os dois tomaram porres juntos
00:25:09e ficaram melhores amigos.
00:25:11O Milô,
00:25:12que era muito amigo
00:25:13do Zé Aparecido,
00:25:15nos apresentou a ele
00:25:17e o Zé Aparecido
00:25:20foi também
00:25:21um dos grandes
00:25:22responsáveis
00:25:23pelo jornal,
00:25:24porque ele lá
00:25:25no Banco Nacional
00:25:28arrumava
00:25:28os papagaios voadores,
00:25:31os papagaios sumiam
00:25:33pelo horizonte
00:25:34e nunca mais voltavam.
00:25:37Porque o Zé arrancava o dinheiro
00:25:38de onde ele tivesse.
00:25:39O Zé podia ter ficado
00:25:41miliardário,
00:25:42porque a facilidade
00:25:43com que o Zé arrumava o dinheiro
00:25:44era uma coisa impressionante.
00:25:45Impressionante.
00:25:46Impressionante.
00:25:47Foi anunciada, né,
00:25:49as últimas edições do Pasquim
00:25:51e ele, diretor do Banco Nacional,
00:25:54ele acha aquilo um crime, né?
00:25:56Ele sabia que os amigos deles,
00:25:58os amigos fraternais,
00:26:00não teriam emprego
00:26:01e acabaria uma manifestação
00:26:04do pensamento nacional,
00:26:05do pensamento de vanguarda,
00:26:07do pensamento ideológico, cívico, né?
00:26:10E ele intervém como diretor,
00:26:12colocando a irmã Maria Aparecida
00:26:14como sócia do Pasquim.
00:26:15Ele colocou a irmã
00:26:16e foi participar do jornal
00:26:18sem dizer,
00:26:19sem alarde,
00:26:20sem nada,
00:26:21no momento que o jornal
00:26:22estava definhando.
00:26:24Quem salvou,
00:26:24quem ajudou a salvar o Pasquim,
00:26:26você vê que,
00:26:26você, surpreendentemente,
00:26:28quem teve a maior força
00:26:30foi o José Aparecido
00:26:31e Fernando Gasparino,
00:26:33que nunca pediram nada,
00:26:35nem queriam o coragem
00:26:35de pedir a mim,
00:26:36evidentemente,
00:26:37nunca pediram nada,
00:26:38deram o dinheiro
00:26:39que foi necessário
00:26:39naquele momento.
00:26:40que foram os que mais
00:26:42me empurraram para entrar
00:26:43em 72 do Pasquim
00:26:44para salvar aquele negócio
00:26:45que estava no fundo do buraco.
00:26:47E depois,
00:26:48eu também,
00:26:48por uma questão de ética,
00:26:49peguei todo o dinheiro
00:26:50que eles tinham dado
00:26:51e transformei em ações
00:26:52e devolvido para eles.
00:26:54E José Aparecido,
00:26:55então,
00:26:55era uma pessoa
00:26:57que teve um papel
00:26:58muito importante
00:26:59na resistência democrática,
00:27:01auxiliando os artistas,
00:27:03os escritores,
00:27:04contribuindo para que se publicasse
00:27:05um livro,
00:27:06para que se encenasse
00:27:07uma peça,
00:27:08para que se realizasse
00:27:09um filme.
00:27:10O compromisso do José Aparecido
00:27:11era com a democracia
00:27:12e com a defesa
00:27:14das riquezas nacionais.
00:27:16Esse era o pensamento
00:27:18político dele.
00:27:18Ele nunca foi um teórico.
00:27:21e nem pretendeu sê-lo.
00:27:24Mas era um homem
00:27:24de grande acuidade,
00:27:26dos homens mais inteligentes
00:27:28que eu conheci.
00:27:29O ambiente de poder
00:27:30era um ambiente...
00:27:33Era o habitat
00:27:34do José Aparecido.
00:27:36Ele sabia se mover
00:27:37como poucos
00:27:38nesse ambiente.
00:27:40O Aparecido
00:27:41fez a política dele
00:27:42toda pensando em Minas.
00:27:45Pensando em Conceição
00:27:46e pensando em Minas.
00:28:12Conceição, no Mato Dentes,
00:28:14foi uma influência incentivadora
00:28:17e propulsora
00:28:18na vida do José Aparecido.
00:28:19Era um homem de raiz
00:28:21e um homem do mundo.
00:28:24Mas amava Conceição
00:28:27ardorosamente.
00:28:28E não tinha medo
00:28:29de declarar, não.
00:28:30Ajudou muito
00:28:31a progredir Conceição.
00:28:33Ele pensava muito
00:28:34em Conceição,
00:28:34como poderia ajudar,
00:28:35como fazer,
00:28:36não só o município,
00:28:37mas como as pessoas
00:28:38também de lá.
00:28:39E sempre voltava
00:28:41Conceição no jubileu,
00:28:43nas festas,
00:28:44nos aniversários dele.
00:28:46Eu tive a oportunidade
00:28:48de conviver com ele mais,
00:28:49porque durante algum tempo
00:28:51eu fui sobrinho,
00:28:53único.
00:28:55Então,
00:28:56ele se casou mais tarde,
00:28:58ele praticamente
00:28:59me adotava como filho.
00:29:02E aprendi muito com ele.
00:29:04Ele é a base
00:29:05da nossa família,
00:29:06ele é a estrutura
00:29:08em que a gente
00:29:10meio que cresceu em volta
00:29:13e se desenvolveu
00:29:14como família.
00:29:15A gente passava os natais
00:29:17em Conceição,
00:29:18do Mato Dentro,
00:29:19na casa da minha avó.
00:29:20E ele, naquela época,
00:29:22não tinha filhos.
00:29:22E ele era doido com criança.
00:29:24E tinha muito jeito
00:29:25com criança.
00:29:25Todos os sobrinhos,
00:29:26com certeza,
00:29:27têm essa memória
00:29:29muito forte,
00:29:30porque ele era
00:29:31o centro do Natal
00:29:32da família.
00:29:33Esperávamos ansiosamente
00:29:34pelo Natal
00:29:35quando chegava
00:29:35o tio Zé Aparecido
00:29:36e a casa toda
00:29:38se transformava.
00:29:39Porque se nós, então,
00:29:40estávamos na rotina
00:29:41da vovó,
00:29:42nós passávamos
00:29:43a viver
00:29:43uma verdadeira revolução.
00:29:44isso na infância
00:29:45é uma coisa mágica,
00:29:46porque significava
00:29:48uma casa cheia
00:29:4824 horas por dia,
00:29:50um entra e sai
00:29:51de pessoas.
00:29:51Tinha um carisma
00:29:52especial.
00:29:54Era um homem
00:29:55que todo mundo
00:29:57simpatizava,
00:29:57porque ele era
00:29:58uma pessoa muito
00:29:58cativante,
00:29:59ele se fazia
00:30:00amigo de todos.
00:30:02desaparecido,
00:30:03trouxe o mundo
00:30:04para Conceição
00:30:05e levou
00:30:06Conceição
00:30:07para o mundo.
00:30:08Conceição,
00:30:09na época,
00:30:10ela que teve
00:30:11o DDD
00:30:12e DDI,
00:30:14a Diamantina,
00:30:15que era uma cidade
00:30:15próxima,
00:30:16não tinha ainda.
00:30:17Nossa estrada
00:30:19daqui ligando
00:30:20a Belo Horizonte
00:30:20era o sonho
00:30:21de todo mundo,
00:30:23porque nós
00:30:23sofremos nessa estrada.
00:30:25Você podia escolher
00:30:25o lama
00:30:26ou poeira.
00:30:27E eu considero
00:30:29que ele é
00:30:30alter ego
00:30:31de Conceição.
00:30:32Ele é a própria
00:30:33Conceição.
00:30:34Uma coisa que sempre
00:30:35me surpreendia
00:30:36a cada vinda
00:30:37do embaixador
00:30:38era como ele
00:30:40conseguia colocar
00:30:41essa articulação
00:30:42política
00:30:43da nossa região
00:30:44toda
00:30:45a favor
00:30:46da própria região.
00:30:47Os seus objetivos,
00:30:48traduzindo,
00:30:50tudo isso,
00:30:51era em ver
00:30:52o desenvolvimento
00:30:53do Estado
00:30:54e ver
00:30:54a possibilidade
00:30:56das pessoas,
00:30:57a oportunidade
00:30:58das pessoas
00:30:59poderem,
00:31:01através da política,
00:31:02transformar
00:31:03as realidades.
00:31:05É impossível
00:31:06desassociar
00:31:07a cultura local
00:31:08do Zé Aparecido.
00:31:11Ele, de fato,
00:31:13apadrinhou
00:31:14todo o movimento
00:31:16cultural
00:31:18que podia acontecer
00:31:19no tempo dele
00:31:20aqui em Conceição.
00:31:30eu estava
00:31:31no Rio de Janeiro
00:31:32e me pediram
00:31:33para entregar
00:31:34uma carta
00:31:35para o Zé Aparecido
00:31:36aqui em Belo Horizonte,
00:31:38se eu poderia
00:31:38fazer esse favor.
00:31:40É assim que
00:31:40nós nos conhecemos.
00:31:42Uma carta
00:31:42voadora, né?
00:31:44Do Rio de Janeiro
00:31:45para cá,
00:31:46porque depois
00:31:47disso aí
00:31:47ele ficou
00:31:48me telefonando,
00:31:49ficou vindo aqui,
00:31:51ficou querendo namorar,
00:31:53então,
00:31:53entrouzou.
00:31:55Teve uma vida
00:31:55muito intensa,
00:31:56depois, né?
00:31:58Casou com a mamãe
00:31:59e aí sim,
00:32:01nasceu eu
00:32:01e a Maria Cecília.
00:32:03Mas o Geraldo
00:32:04falou que eu falava
00:32:05que o Zé Aparecido
00:32:06é avô dos próprios filhos.
00:32:08E ele meio que
00:32:09exerceu isso.
00:32:10O papai era um pouco
00:32:12avô, né?
00:32:14No carinho,
00:32:15no afeto.
00:32:16Ele não era...
00:32:17A gente podia tudo, né?
00:32:19Ele tinha aquela...
00:32:20Aquele carinho, né?
00:32:22de avô
00:32:23com os próprios filhos.
00:32:24Não tinha essa coisa, né?
00:32:26A casa era um lugar
00:32:27de família, não.
00:32:28A casa era
00:32:28o local dos amigos,
00:32:31era o local
00:32:31de articulação política,
00:32:33era o local
00:32:34também da...
00:32:35Nossa,
00:32:36dos filhos.
00:32:37Ele não ia
00:32:38à casa dos outros.
00:32:39As pessoas
00:32:40iam à casa dele.
00:32:41Não, é dia e noite.
00:32:43Entra a gente
00:32:44de manhã,
00:32:44de tarde, de noite, né?
00:32:46Eu ainda perguntei
00:32:47à dona Leonor,
00:32:48mas...
00:32:49Isso aqui não dorme?
00:32:53Como é que é aqui?
00:32:55Porque as noites
00:32:58iam pela noite
00:33:00adentro, né?
00:33:01Ele sempre
00:33:02teve uma casa
00:33:03de portas abertas,
00:33:04recebia generosamente,
00:33:06gostava da multidão.
00:33:07José Aparecido
00:33:08tinha horror
00:33:08de ficar só
00:33:09um segundo
00:33:10sozinho.
00:33:12Então, ele estava
00:33:13sempre cercado
00:33:14de muita gente.
00:33:16O apartamento
00:33:16do Zé no Réveillon
00:33:17era uma...
00:33:18uma festa, assim,
00:33:19uma festa
00:33:19e também o Versailles,
00:33:20assim,
00:33:20uma loucura.
00:33:21Só que um Versailles
00:33:22mais versátil,
00:33:24sem querer fazer
00:33:25trocadilho,
00:33:26porque havia ali
00:33:27gregos e baianos.
00:33:29Você tinha desde
00:33:29Leonel Brizola,
00:33:32donos de jornais,
00:33:33todos os jornalistas
00:33:34de esquerda do Brasil.
00:33:35Enfim,
00:33:35era uma pleia
00:33:37de, assim,
00:33:37muito heterogênea
00:33:38de figuras representativas
00:33:40da inteligência brasileira.
00:33:42e tinha gente
00:33:43de todo lado.
00:33:44Eu falava,
00:33:44mas como é?
00:33:45E esse direitista
00:33:46que está aqui comigo,
00:33:48esse cavernícola
00:33:49que está comigo aqui?
00:33:50Era amigo do Zé Aparecido
00:33:53e adorava o Zé Aparecido.
00:33:55Nas festas dele,
00:33:56era impressionante
00:33:57como ele conseguia
00:33:58untar um conjunto
00:34:00de pessoas,
00:34:01dando a cada um
00:34:02um tremendo sentimento
00:34:04de liberdade.
00:34:05E adentrava pela casa dele,
00:34:07ali na Avenida Atlântica,
00:34:08ou no apartamento dele
00:34:10lá em Minas,
00:34:10ou em Brasília,
00:34:12no Palácio de Águas Claras,
00:34:14pessoas dos mais diversos
00:34:15naipes,
00:34:16classes sociais,
00:34:18cantores,
00:34:19artistas,
00:34:19generais de fato,
00:34:20brigadeiros.
00:34:22Você habitava
00:34:23um universo
00:34:24de personagens
00:34:25fantásticos,
00:34:26quer dizer,
00:34:27as pessoas que estavam
00:34:28fazendo a história
00:34:29do Brasil
00:34:30naquela época,
00:34:31estavam ali circulando
00:34:33na maior calma,
00:34:34sentado do lado
00:34:35do tio Cido
00:34:36e ouvindo
00:34:37o que o meu tio
00:34:37tinha para falar.
00:34:39A casa dele
00:34:39era uma espécie
00:34:40Zurique,
00:34:41era um território
00:34:42neutro
00:34:43e que também
00:34:44dava o status.
00:34:46Tinha pessoas
00:34:47que iam a casa do Zé
00:34:48e as pessoas
00:34:49que não iam
00:34:49a casa do Zé.
00:34:50Aí ele começava
00:34:52a chamar fulano,
00:34:53chamar fulano,
00:34:54chamar fulano,
00:34:55aí virava,
00:34:55Bia,
00:34:56você convidou muita gente?
00:34:57Tem muita gente?
00:34:58O que eu vou fazer?
00:35:00Você está falando,
00:35:01eu estou fazendo,
00:35:01estou fazendo.
00:35:03E aí,
00:35:03nem é possível,
00:35:04será que vai todo mundo?
00:35:05E o pior é que
00:35:06é todo mundo.
00:35:07reuniria tantos ministros,
00:35:09tanta gente
00:35:11da situação
00:35:14e também da oposição
00:35:16numa festa
00:35:17em Conceição do Mato Dentro,
00:35:19que se transformava
00:35:22num fato nacional
00:35:24exatamente
00:35:25por essa reunião
00:35:27dos contrários
00:35:28em torno do Zé.
00:35:32e ia general,
00:35:33ia coronel,
00:35:34ia professor,
00:35:36ia caçado,
00:35:37ia governo,
00:35:38ia ministro,
00:35:39um aniversário.
00:35:40Ele conseguia agregar
00:35:42todo mundo
00:35:42no dia 17 de fevereiro
00:35:44na festa
00:35:44de aniversário
00:35:45dele
00:35:46em Conceição do Mato Dentro.
00:35:47Nós tínhamos
00:35:48esse convívio
00:35:49com os intelectuais
00:35:50que o Zé Aparecido
00:35:51trazia,
00:35:52era um negócio
00:35:52fantástico.
00:35:54Então ficava
00:35:55todo mundo
00:35:55tonto de uísque
00:35:56e eu falando
00:35:58com o Mário Palmeiro,
00:35:59com o Enfio,
00:36:00com o Giraldo
00:36:02e etc.
00:36:04E a gente
00:36:04ia até lá
00:36:06falando mal do Zé,
00:36:06claro, né?
00:36:08Porra,
00:36:09mas o Zé
00:36:09não podia morar
00:36:11mais perto,
00:36:12não sei o quê,
00:36:13e tatatá.
00:36:15Muitas vezes
00:36:15nos encontramos
00:36:16numa,
00:36:18umas famosas
00:36:19reuniões de sábado
00:36:20onde toda
00:36:22uma elite
00:36:23cultural
00:36:24e jornalística
00:36:26do Rio
00:36:26se encontrava,
00:36:28não é?
00:36:28E não era
00:36:29conversas
00:36:30porcas,
00:36:31não eram
00:36:32conversas
00:36:32sórdidas,
00:36:33eram conversas
00:36:36a propósito
00:36:37de,
00:36:38assim,
00:36:39da situação
00:36:40e de algum
00:36:41caminho,
00:36:42sempre de algum
00:36:43caminho.
00:36:44E uma coisa
00:36:45que sempre
00:36:46me encantou
00:36:46muito no
00:36:47Doutor
00:36:47Zé Aparecido
00:36:48com todo
00:36:49o turbilhão
00:36:50de trabalho
00:36:51é que ele
00:36:51chegava no
00:36:52gabinete,
00:36:53me cumprimentava
00:36:55e virava
00:36:56para mim,
00:36:56Beatriz,
00:36:57liga para
00:36:57a mamãe.
00:36:58A primeira
00:36:59ligação
00:37:00que eu fazia
00:37:00todo santo
00:37:02dia
00:37:02era ligar
00:37:03para a dona
00:37:04Aracê.
00:37:04Ele trabalhava
00:37:06com a porta
00:37:06do gabinete
00:37:07dele aberta
00:37:07e aí eu
00:37:08ouvia
00:37:09bença a mãe
00:37:10e começava
00:37:11o dia dele.
00:37:12Ele acordava
00:37:14cedo
00:37:14e começava
00:37:15a ligar
00:37:15para todo
00:37:16mundo
00:37:16para saber
00:37:16notícias.
00:37:17E de repente
00:37:18as pessoas
00:37:19chegavam
00:37:20na casa dele
00:37:20para almoçar
00:37:21ou à tarde
00:37:22e a casa
00:37:23estava sempre
00:37:23cheia de gente,
00:37:24aquela confusão,
00:37:25um monte de gente
00:37:25chegando,
00:37:26um monte de gente
00:37:26saindo e ninguém
00:37:27entendia
00:37:27como é que a casa
00:37:28estava cheia de gente.
00:37:29Uma das armas
00:37:30mais perigosas
00:37:31da política brasileira
00:37:33era exatamente
00:37:34o Zé Aparecido
00:37:35e um telefone.
00:37:38Geralmente
00:37:39em casa
00:37:40não dava
00:37:41para ter
00:37:41um número
00:37:42só de telefone.
00:37:43Então,
00:37:44ele ficava
00:37:44se revezando
00:37:45entre os dois números,
00:37:46ele mesmo
00:37:47que atendia
00:37:47os telefones,
00:37:48ele não tinha
00:37:49aquela coisa
00:37:51de correr
00:37:51de ninguém
00:37:52de se esconder.
00:37:53E o Zé
00:37:56começava a falar
00:37:57no telefone,
00:37:58fazia um pedido.
00:37:58Quando o outro
00:37:59ia fazer o pedido
00:37:59de lá,
00:38:00ele trocava de linha.
00:38:02Então,
00:38:03o interlocutor
00:38:03só ouvia o pedido
00:38:05dele.
00:38:05Você não ouvia
00:38:06a réplica,
00:38:07a réplica naturalmente
00:38:08e dizia
00:38:08você aproveita
00:38:09e quebra o meu...
00:38:10Ele trocava de linha.
00:38:12Resolvia tudo.
00:38:13Vinha com o nome dele,
00:38:15o nome dele,
00:38:15olha,
00:38:17abriu muita porta.
00:38:18Resolviu muita coisa,
00:38:20ajudou muita gente.
00:38:21Era uma coisa
00:38:22em que ele ficava
00:38:23realmente um período
00:38:24de tempo
00:38:25muito longo,
00:38:27falando com um,
00:38:27desligava,
00:38:28falava com o outro,
00:38:28voltava a falar com eles,
00:38:29voltava a falar com eles
00:38:30e ia juntando
00:38:31pela linha telefônica,
00:38:33ele ia costurando
00:38:34e bordando
00:38:35pela linha telefônica
00:38:36as pessoas.
00:38:37Eu acho que
00:38:37o que ele mais gostava
00:38:38é de fazer esses jogos,
00:38:40essas articulações
00:38:41e tentar viabilizar
00:38:42projetos novos
00:38:43e reunir pessoas
00:38:45e reunir ideias.
00:38:46Às vezes as pessoas
00:38:47acham que é trabalho,
00:38:48mas não,
00:38:48é a missão.
00:38:49Às vezes
00:38:50a passagem dele
00:38:52pela terra
00:38:53acho que foi
00:38:53um pouco
00:38:53uma missão,
00:38:54independente de casa
00:38:55onde ele estava,
00:38:57ele levava isso com ele.
00:38:58Em 74,
00:38:59terminava a cassação dele,
00:39:01mas os militares
00:39:02resolveram
00:39:03prorrogar
00:39:04a punição,
00:39:06tirando de José Aparecido
00:39:08aquilo que para ele
00:39:08era o próprio ar,
00:39:10que é
00:39:10a atividade política.
00:39:12Ele, então,
00:39:14ia empreender
00:39:15uma campanha
00:39:16nacional de salvaguarda
00:39:18da cidade de Serro,
00:39:19antiga vila do príncipe.
00:39:21Isso tem uma repercussão
00:39:22no país inteiro,
00:39:25tanto articulando
00:39:27o patrimônio cultural
00:39:28com a vanguarda,
00:39:30a ruptura,
00:39:30a transformação,
00:39:32tradição e modernidade,
00:39:34patrimônio e transgressão
00:39:36e ruptura
00:39:36em busca do novo.
00:39:38Ele soube conjugar isso
00:39:39muito bem
00:39:40e foi essa plataforma
00:39:42que o levou
00:39:43ao Ministério da Cultura,
00:39:44anunciado por Tancredo Neves
00:39:46e implantado
00:39:47por José Sarney.
00:39:48O papai teve
00:39:49algumas oportunidades
00:39:50que lhe foram tiradas
00:39:53pelas circunstâncias.
00:39:55Primeiro,
00:39:56em 1964,
00:39:58com a cassação,
00:40:00o papai já era
00:40:00um nome consolidado
00:40:01para governador de Minas.
00:40:05Ele foi cassado.
00:40:07Depois,
00:40:08em 1982,
00:40:09houve a união
00:40:10do Magalhães
00:40:11com o Tancredo.
00:40:13Então,
00:40:13o Tancredo
00:40:14sai candidato
00:40:14a governador
00:40:15e o papai
00:40:16seria o vice
00:40:18na chapa
00:40:19do Tancredo
00:40:20e estava tudo certo
00:40:22para ser homologado
00:40:23na convenção
00:40:25quando o papai
00:40:27tem um problema
00:40:28de coração,
00:40:29tem um infarte
00:40:31e vai para Cleveland.
00:40:32Quando o papai
00:40:33estava em Cleveland,
00:40:33foi feita a convenção
00:40:35do Tancredo
00:40:37e retiraram
00:40:38o nome do papai
00:40:39de vice
00:40:41para colocar
00:40:41o Hélio Garcia.
00:40:43E, então,
00:40:44os amigos do papai
00:40:45falavam
00:40:45quando abriam o peito
00:40:46do Zé Aparecido,
00:40:48eles levavam
00:40:48uma apoialada
00:40:49nas costas
00:40:49em Minas Gerais.
00:40:50Isso é um pouco
00:40:51de folclore,
00:40:53mas sintetizou
00:40:54um pouco
00:40:54aquele momento.
00:40:55O papai volta
00:40:57infartado,
00:40:58candidato a deputado federal
00:40:59e é um dos deputados
00:41:00mais votados
00:41:01em 1982.
00:41:03O que é importante
00:41:05é a definição
00:41:06de uma mensagem
00:41:08de renovação
00:41:09na política
00:41:09de Minas,
00:41:10inclusive dos métodos
00:41:12e dos processos
00:41:13que precisam
00:41:15ser recuperados,
00:41:17mantendo
00:41:18as tradições
00:41:20e o estilo
00:41:21da vida pública mineira.
00:41:23Todo mundo tinha medo
00:41:23do Zé Aparecido,
00:41:24todos os políticos,
00:41:25até o Jânio tinha medo,
00:41:26todo mundo tinha medo
00:41:26do Zé Aparecido.
00:41:28Então,
00:41:28o Tancredo queria
00:41:28o Zé Aparecido de perto,
00:41:30porém longe.
00:41:32São paradoxos
00:41:33que só se explicam
00:41:35claramente
00:41:35em Minas Gerais.
00:41:36Então,
00:41:37ofereceu ele
00:41:37qualquer ministério,
00:41:38perdão,
00:41:39qualquer secretaria,
00:41:40menos a Secretaria
00:41:40de Articulação Política.
00:41:42E o Zé Aparecido,
00:41:43os amigos todos
00:41:44empurraram o Zé Aparecido
00:41:45para ser secretário
00:41:46de Fazenda,
00:41:46que é onde está o dinheiro,
00:41:47onde está o poder.
00:41:48E eu me lembro
00:41:49que ele nos chamou
00:41:50a minha,
00:41:50meu pai,
00:41:51a casa dele
00:41:53e nos pediu,
00:41:56nos disse
00:41:57o que vocês acham disso.
00:41:58se você for secretário
00:42:00de Fazenda
00:42:01de Minas,
00:42:01é uma coisa
00:42:03mais ou menos normal.
00:42:04Agora,
00:42:04se você for ser
00:42:05secretário de Cultura
00:42:06de Minas,
00:42:06você vai ser
00:42:07o secretário
00:42:07de Cultura
00:42:07mais importante
00:42:08do Brasil.
00:42:09Deixa eu falar
00:42:10uma coisa clara
00:42:10com você,
00:42:11Ronaldo.
00:42:12Se você
00:42:12não aceitar
00:42:15a Secretaria
00:42:16de Planejamento
00:42:16ou de Fazenda,
00:42:17aí pode ficar
00:42:18com o seu critério,
00:42:19você vai dificultar
00:42:20muito
00:42:21a minha situação,
00:42:22porque eu estou
00:42:24sendo considerado
00:42:25para a Secretaria
00:42:26de Cultura
00:42:26que vai ser criada.
00:42:28se não tiver
00:42:28uma pessoa
00:42:29em quem
00:42:29eu confie
00:42:32na área
00:42:33econômica,
00:42:34com a situação
00:42:34que está em Minas,
00:42:35eu tenho até
00:42:36que pensar
00:42:36se eu devo
00:42:37entrar nessa.
00:42:41Então,
00:42:42pense nisso
00:42:42também,
00:42:43por favor,
00:42:43tá?
00:42:44Ele era duro
00:42:44com os amigos
00:42:45quando era preciso,
00:42:46entende?
00:42:46Mas a Secretaria
00:42:47de Cultura
00:42:48não existia,
00:42:48existia uma
00:42:49Coordenadoria
00:42:50de Cultura.
00:42:51Ele assumiu
00:42:52a Coordenadoria
00:42:53e transformou
00:42:54essa Coordenadoria
00:42:56na Secretaria
00:42:57de Cultura
00:42:57do Estado,
00:42:58o que demandou
00:42:59um enorme trabalho
00:43:00por parte dele
00:43:01e da equipe
00:43:02que ele montou.
00:43:03Como Secretário
00:43:04da Cultura,
00:43:05ele cria também
00:43:06a Rede Minas
00:43:07e o Fórum
00:43:08de Secretários
00:43:09de Estado
00:43:09da Cultura
00:43:10com o Darcy Ribeiro,
00:43:11que logo em seguida
00:43:11também cria
00:43:12a Secretaria
00:43:13de Cultura
00:43:13do Rio.
00:43:14E o papai
00:43:15e o Darcy
00:43:15passam a fazer
00:43:16uma hipopéia
00:43:19no Brasil,
00:43:20criando Secretarias
00:43:21de Cultura
00:43:21no Brasil inteiro
00:43:22e que...
00:43:24E aí,
00:43:25o Fórum
00:43:26de Secretários
00:43:26da Cultura,
00:43:27o papai
00:43:27é o primeiro
00:43:28presidente do fórum,
00:43:30que na verdade
00:43:30aquele fórum
00:43:31era o embrião
00:43:32do Ministério
00:43:33da Cultura.
00:43:34Os Secretários
00:43:35de Cultura
00:43:36pretendem
00:43:37uma política
00:43:39de que seja
00:43:40uma expressão
00:43:41da nossa unidade
00:43:42na afirmação
00:43:44da identidade
00:43:45cultural
00:43:46do Brasil.
00:43:47Eu me lembro
00:43:48que o Tancredo
00:43:48disse uma vez
00:43:49que ia chamar
00:43:50o José Aparecido
00:43:50para a Secretaria
00:43:51de Cultura
00:43:51porque o José Aparecido
00:43:52é bom ter ele
00:43:53por perto.
00:43:54O próprio Tancredo
00:43:55tinha um certo receio
00:43:56dele,
00:43:57porque não sabia
00:43:57o que ele podia
00:43:58fazer no dia seguinte,
00:44:00mas percebia
00:44:01que Aparecido
00:44:02era indispensável.
00:44:04Sem Aparecido,
00:44:04ele próprio,
00:44:05Tancredo,
00:44:06não ia a lugar nenhum.
00:44:08Tancredo teve,
00:44:09como grande articulador
00:44:10da sua campanha,
00:44:11José Aparecido
00:44:13de Oliveira,
00:44:13não houve outra pessoa
00:44:14que tenha estado
00:44:15em todos os pontos
00:44:16do país
00:44:18reunindo os apoios
00:44:19de que o governador
00:44:21de Minas Gerais
00:44:21necessitava
00:44:22para se efetivar
00:44:24candidato
00:44:24perante o colégio
00:44:26eleitoral.
00:44:27Na eleição direta,
00:44:28seguramente,
00:44:29o candidato
00:44:29teria sido
00:44:30Ulisses Guimarães,
00:44:31mas Tancredo,
00:44:32na eleição indireta,
00:44:33soube galvanizar
00:44:34todas as facções,
00:44:36soube uni-las
00:44:37e preparar,
00:44:38então,
00:44:38essa candidatura.
00:44:40Mais uma vez,
00:44:41Minas se une
00:44:42com a força
00:44:43do seu exemplo
00:44:45para unir o Brasil.
00:44:47Estamos todos juntos
00:44:49nessa campanha.
00:44:50Deixe o governo
00:44:52de Minas
00:44:52com emoção.
00:44:53Minas Gerais
00:44:55Minas Gerais
00:45:17Música
00:45:27A candidatura de San Pedro Neves nasce com as bênçãos de uma eleição popular.
00:45:35Ela é o estuário de todas as vertentes do pensamento democrático do Brasil.
00:45:42Por isso mesmo, nós vamos ao colégio eleitoral. E a única forma dentro dos condicionamentos ainda criados e mantidos por
00:45:54essa legislação de derrotarmos o sistema e virarmos uma página da história do Brasil.
00:46:03Eu era vice-presidente, o Zé Aparecido já tinha convencido o Tancredo e me convenceu a manter o Ministério da
00:46:14Cultura, que eles iam, que tínhamos que criar.
00:46:17Eu nada mais desejava do que essa oportunidade, que era um homem ligado muito a essa área, entendeu?
00:46:24E criamos o Ministério da Cultura e o escolhido era o, para ser escolhido, era o Zé Aparecido.
00:46:30Mas quando o Tancredo chamou o Aparecido para ser secretário de Cultura, primeiro, e depois no governo chamou para ser
00:46:43ministro da Cultura,
00:46:45o Tancredo sabia a jararaca que estava plantando, porque o Aparecido não ia pegar um ministério tão importante quanto o
00:46:56Ministério da Cultura e deixar por aí, de dar de barato para a coisa.
00:47:01Ele transformou o Ministério da Cultura num ministério importantíssimo para o país.
00:47:06Na verdade, esse ministério não foi ele que criou, foram três, Darcy Ribeiro, Céus Furtado e Zé Aparecido.
00:47:14Esses foram os três mentores do ministério.
00:47:16E o Zé ficou como ministro em Brasília.
00:47:19Ele me convidou pela parte da cultura indígena e o Carlos Moura, que é um amigo, pela cultura negra.
00:47:28Então, nós começamos a pensar o nosso Brasil, a identidade do povo brasileiro, falar dos nossos valores, das nossas tradições.
00:47:39Eu expliquei para o Zé Aparecido que nós precisamos ter um espaço de envergadura em Brasília, que fosse de alto
00:47:48nível.
00:47:48Nada de coisa chorada, coitado dos índios.
00:47:52Nós vamos enaltecer realmente a força cultural como matriz da cultura brasileira.
00:47:57A gente enfrentou muitas questões políticas, porque essa região aqui não é uma região para índios.
00:48:03Essa nobreza que a gente não pode esquecer do Zé Aparecido.
00:48:06Ele colocou em frente ao Palácio do Buriti, ao lado da Câmara Legislativa, ao lado do Memorial JK e dos
00:48:15tribunais também.
00:48:15É uma área nobre.
00:48:17Então, trazendo a questão indígena só do artesanato, da flecha, para um patamar diferente na relação cultural.
00:48:25Quer dizer, é um símbolo.
00:48:27Se todas as embaixadas aqui têm os seus espaços, por que a gente não pode ter uma espécie de embaixada
00:48:33dos povos indígenas?
00:48:34Então, esse espaço também não é só o cimento, a arquitetura do Neymar.
00:48:42Aqui embaixo, dessa área aqui, nós temos o espírito do índio.
00:49:04O ministro quer falar com você amanhã.
00:49:08Você, por favor, ele está te esperando às 8 horas da manhã.
00:49:12E na segunda-feira, às 8 horas da manhã, chego eu no gabinete e ele me disse
00:49:21Eu quero criar aqui uma assessoria, uma coordenação de cultura negra ou de cultura afro-brasileira.
00:49:33Vamos pensar o nome.
00:49:35Mas eu quero que você comece a trabalhar agora nesse sentido.
00:49:37José Aparecido instala na agenda da República e no aparelho do Estado brasileiro, isso é muito importante,
00:49:53uma assessoria específica para tratar de cultura afro-brasileira.
00:49:58José Aparecido colocou como um dos objetivos de superação do racismo, da discriminação, do preconceito, a valorização da cultura.
00:50:13Quando ele criou o Ministério da Cultura, que foi a cisão da educação, era o Ministério da Educação e Cultura,
00:50:19teve uma crítica muito grande na época, ele falava assim, educação é o corpo, a cultura é a alma.
00:50:25Ninguém via, e até hoje não vê, como o Zé sempre viu, a cultura como o principal fator de desenvolvimento
00:50:37social, econômico e político.
00:50:39Não é a economia. A economia é uma consequência da cultura.
00:50:44O único cargo que não tinha sido definido pelo Tancredo, que faltavam alguns ajustes de questão interna lá do Distrito
00:50:54Federal,
00:50:55era o do governo do Distrito Federal.
00:50:56O presidente José Sarney se deu conta rapidamente de que era um problema delicado
00:51:04e deveria receber um tratamento especial para que a capital da república fosse um centro administrativo
00:51:12que pudesse contar com uma capacidade, digamos, política ordenada para que as coisas corressem adequadamente.
00:51:21Estava tão confusa a questão da nomeação do governador de Brasília que o Tancredo não conseguiu fazer.
00:51:29Você tinha na lista aí, você tinha Maurício Correia, que era o presidente da OAB, você tinha Carlos Murilo.
00:51:35José Sarney disse que tinha que passar por duas viúvas mineiras.
00:51:40De um lado tinha a dona Risoleta, simbolizando o grupo Tancredo Neves,
00:51:44que tinha como candidato ao governador do Distrito Federal, José Hugo Castelo Branco, que era ministro.
00:51:49E do outro lado, a dona Sara, que tinha como candidato juscelinista ao governo do Distrito Federal,
00:51:57o ex-deputado e primo de Juscelino, Carlos Murilo Felício dos Santos.
00:52:01E o Sarney disse, mas e o meu candidato?
00:52:04Aí eu disse, José Aparecido, já que temos essa dúvida, vou fazer você que está articulando essa paz,
00:52:12e você articula muito bem, porque você sai com um articulador que disse, olha, o melhor sou eu.
00:52:18Que lá na origem de Brasília ele estava, e ele então como que já soubesse qual era a cartilha que
00:52:26ele tinha que seguir
00:52:27quando foi governador.
00:52:29E por que que ele saiu do Ministério da Cultura foi ser governador?
00:52:33Porque ele tinha essa capacidade de pensar a cidade como aqueles pioneiros e visionários da década de 60 tiveram.
00:52:42E logo no início do governo do Distrito Federal, no discurso dele de posse de governador,
00:52:48ele fala, vou governar Brasília com os olhos do Oscar e com o coração do Lúcio Costa.
00:52:53Me veio o oferecimento do cargo.
00:53:00Um choque geral.
00:53:04Dentro da minha casa, na minha rua, no meu meio de trabalho, no meio político, entendeu?
00:53:12Então a imprensa veio, não é?
00:53:15Foi uma coisa, assim, brutal.
00:53:19E eu tinha que achar o aparecido para ele dizer, aparecido, eu não vou aceitar.
00:53:26Mas o aparecido sumiu uns três dias, porque era o momento exato dele passar para governador.
00:53:34Aliás, se eu tiver que fazer um grande agradecimento, é esse homem ter achado que uma atriz poderia ser ministra
00:53:44da cultura de um país.
00:53:47Isso é um voo comovente.
00:53:52Entende?
00:53:53Só aquela cabeça.
00:53:55Poderia achar isso.
00:53:57E não só achar, mas pôr em prática.
00:53:59Sabe, chegar ao convite.
00:54:03Uma atriz?
00:54:05Nem um ator.
00:54:07Uma atriz.
00:54:09Dentro do mundo macho que a gente vive, ou em que a política brasileira vive.
00:54:23Os primeiros momentos de Brasília foram momentos de criação da estrutura política de uma cidade.
00:54:29Que era uma cidade criada durante praticamente aquele período de exceção.
00:54:36O Mário Eugênio é um jornalista muito contundente, que tinha em Brasília, radialista.
00:54:42Mineiro de Nanuki.
00:54:44Que fazia um programa muito forte nessa área de crimes, na Rádio Planalto.
00:54:50E foi assassinado.
00:54:52Depois ele estava desvendando vários crimes aqui em Brasília.
00:54:56E tal, indo atrás, acabou sendo assassinado.
00:55:00E, primeira coisa parecida.
00:55:02Eu quero, no meu governo, não pode ter crime insolúvel.
00:55:07Eu quero saber quem matou o Mário Eugênio.
00:55:10Eu sei que com um mês apareceu o assassino do Mário Eugênio.
00:55:16Que era um coronel da polícia, amando do SNI.
00:55:20Então, assim começou o governo desaparecido.
00:55:24Um governo de enfrentamento.
00:55:26Realizou uma devassa, porque estava, vamos dizer assim, loteando as terras do Distrito Federal.
00:55:32E ele botou um freio.
00:55:34Tudo da cabeça dele.
00:55:35E tudo em defesa da causa popular.
00:55:38A questão da ciclovia do lago é uma questão típica.
00:55:42Era uma entrega do lago para a população.
00:55:45Então, ele passou um trator, abre a ciclovia, que era justificativa para as pessoas andarem,
00:55:53e abrir a margem do lago para a população de Brasília.
00:55:59Um dia, à noite, eu me encontrei com o presidente Zé Sarney, na casa do ministro Aloysio Alves,
00:56:04e até comuniquei a ele.
00:56:07Falei, olha, presidente, nós vamos começar esse calçadão, essa ciclovia lá pela península dos ministros.
00:56:13Ele não tinha aquele espírito desenvolvimentista, vamos dizer assim, que era o do Israel ou outro.
00:56:20Mas ele tinha um muito mais alto, que era esse de ver Brasília sobre a expressão cultural,
00:56:26a beleza arquitetônica, a expressão de relação à humanidade do que tinha a cidade.
00:56:33E o aparecido queria fazer de Brasília uma Atenas brasileira.
00:56:39Ele queria trazer o Oscar, queria deixar eu falar em trazer o Tom Jobim, o Burley Marx,
00:56:46aquela anata da arte, da intelectualidade brasileira.
00:56:51O Oscar veio aqui para fazer, até ponto de onde ele desenhou.
00:56:57Lavanderia pública na cidade de Sarney, ele desenhou.
00:57:00Tinha mania de pegar na mão da gente, né?
00:57:01Então, me dava uma sensação, assim, de segurança fantástica,
00:57:05querendo mostrar tudo o que ele estava fazendo.
00:57:08E ele só dizia assim, não estou construindo Brasília, porque Brasília já está construída,
00:57:12mas estou reconstruindo aquilo que não deixaram seu pai fazer.
00:57:16Não é uma reconstrução, é uma continuação.
00:57:19Eu sei que o Zé Aparecido convocou Lúcio Oscar formalmente de volta à Brasília.
00:57:29Ele quis vincular os dois ao GDF, ao governo do Distrito Federal.
00:57:35Meu pai ficou profundamente feliz, porque Brasília foi uma coisa, para ele, ímpar.
00:57:44Não era uma relação íntima no sentido pessoal, mas era uma coisa comum em relação ao Brasil, sabe?
00:57:55Quer dizer, no fundo, o que eu vejo de analogia entre os dois é uma coisa que está em falta
00:58:00hoje, né?
00:58:02Porque, cara, é essa, eu quero mais gente que olhe para o Brasil com algum respeito.
00:58:08O Aparecido, em vez de pedir dinheiro para a campanha política, ou para ele próprio,
00:58:14ele pedia dinheiro para construir obras públicas.
00:58:18Estorquia, patrocínios de todas as formas, para o panteão, para a casa do cantador nordestino da Ceilândia,
00:58:36para a complementação da catedral e tantas outras obras que o marcaram.
00:59:11Estorquia, patrocínios de todas as obras que o marcaram.
00:59:20Se nós, que fazíamos parte da sua equipe, tivéssemos bons projetos,
00:59:26ele era incansável na captação de tais recursos, e isso aconteceu muito lá.
00:59:30Todos os governos contratam obras, e ele inverteu a coisa.
00:59:36Ao invés de contratar, ele convencia empresários que executassem eles próprios as obras que o governo quisesse
00:59:47e que fossem importantes do ponto de vista urbanístico,
00:59:51de complementar a parte urbanística, histórica e artística da cidade.
00:59:55O Distrito Federal é muito difícil administrá-lo.
00:59:58Parece que ali, e se tratando do plano piloto, é uma coisa, 600 mil, 800 mil habitantes.
01:00:04Mas quando se trata do Distrito Federal como um todo, é um poção de pobreza.
01:00:10Quando ele inicia a cidade satélite de Samambaia, com 720, 700 e poucos habitantes,
01:00:18quando ele deixa o governo do Distrito Federal e vai para o Ministério da Cultura,
01:00:22nós entregamos 9 mil casas, que significa 45 mil pessoas.
01:00:26Isso dava a ele uma satisfação muito grande e enfrentando mesmo uma oposição para o Distrito Federal,
01:00:34porque já caminhava esse, Unidade da Federação, para ter as suas eleições diretas, como vinha acontecer, por força dele.
01:00:43Tem até um fato muito engraçado, dos mais engraçados que eu acho da vida dos séculos,
01:00:47era muito engraçado, foi lá um líder de comunidade, que era um pastor dessas igrejas evangélicas e tal,
01:00:59e foi lá com um dos, era até um pastor, um dos agregados dele para conversar,
01:01:04que ele queria que fosse deputado e tal, e ele quis botar esse cara para ser secretário de Cultura de
01:01:11Brasília.
01:01:13Aí o Zé ficou assim, meio sem graça, mas falou, uai, você fuma maconha?
01:01:18Virou para o cara e falou, você fuma maconha?
01:01:20Eu falei, eu não fumo não.
01:01:22Ah, então você não pode, porque lá todo mundo fuma.
01:01:25Ele tinha uma cabeça muito aberta para tudo e para todos, ele não tinha preconceitos,
01:01:32ele era uma pessoa muito avançada.
01:01:34Ele tinha esse entendimento da realidade de Brasília, como um polo de energias, a questão esotérica,
01:01:44o sonho visionário de Dom Bosco, e respeitava isso.
01:01:48Ele estava numa sintonia que não era essa daqui só, né?
01:01:52Ele estava sintonizado em outras frequências, né?
01:01:58Nós tivemos um grande abri-á-las do movimento holístico e transdisciplinar.
01:02:05Surpreendentemente, esse abri-á-las, ele surge dentro do governo do Distrito Federal.
01:02:12Vamos realizar um congresso holístico.
01:02:15Para nossa surpresa, o José Aparecido se sentou e participou do congresso.
01:02:20Três dias, eu passo a palavra para ele encerrar o congresso,
01:02:25e ele disse, o que me impactou profundamente,
01:02:30esse congresso não pode acabar.
01:02:33Vamos criar uma universidade holística internacional
01:02:37e que o Pierre Vaio seja seu presidente e o seu reitor.
01:02:42Nesse espaço tão privilegiado que também foi a casa da ditadura,
01:02:47Gouberi Couto e Civo morou nessa casa,
01:02:50mas também aqui ele arquitetou a abertura.
01:02:54Darcy Ribeiro morou nessa casa também, é bom que se diga.
01:02:59É uma casa, portanto, que eu sempre digo de sonhos e de arrepios.
01:03:14Era uma figura à frente do seu tempo, jogava sementes, era um semeador.
01:03:24Ele punha na frente o lado da emoção e o lado da intuição,
01:03:34para depois ir agir das doses de razão do racionalismo que era preciso.
01:03:43É a famosa coisa de botar ciência no feitiço.
01:03:47O que o Aparecido evitou em Brasília foi que as quadras deixassem as quadras do Lúcio Costa.
01:03:53Eles pensavam em adensar as quadras com novos prédios,
01:03:56e colocar mais população dentro daqueles espaços.
01:04:00O Lúcio Aparecido teve uma visão de que aquilo ia acabar,
01:04:06não só com o projeto visionário do Oscar Niemeyer e do Lúcio Costa,
01:04:11como ia transformar Brasília numa cidade impraticável no futuro.
01:04:18O Aparecido, naturalmente, estava preocupado com a cidade pela qual ele era responsável.
01:04:26E viu a oportunidade, neste momento, de criar um fato histórico de enorme repercussão,
01:04:34que seria o tombamento de Brasília.
01:04:38Encomenda um relatório no Rio de Janeiro para um grupo de arquitetos ligados ao Oscar Niemeyer,
01:04:47e ao patrimônio histórico do Rio,
01:04:50para que fosse feita uma proposta diretamente à Unesco
01:04:56para reconhecimento de Brasília como patrimônio da humanidade.
01:05:02Em vez dele esperar para depois ir à Unesco, etc.,
01:05:06ele começou indo para a Unesco, propondo a Unesco,
01:05:12que considerasse Brasília patrimônio da humanidade.
01:05:15O fez por menos.
01:05:16A Unesco examina esse pedido, acha interessante,
01:05:22mas diz que ela não poderia tomar a dianteira do próprio país,
01:05:27que ainda não tinha feito nada,
01:05:29criado nenhum instrumento de preservação de Brasília.
01:05:33E aí?
01:05:34Aí eu apareci no chão, o Ifandes, assim, meu bem, bomba!
01:05:39Foi uma reunião tensa, complicada.
01:05:43Os Estados Unidos votaram contra.
01:05:45O embaixador dos Estados Unidos da Unesco foi lá e fez um discurso contra,
01:05:49que não podia tombar uma cidade que estava na placenta da história,
01:05:54sem construção.
01:05:55Brasília estará preservada da especulação imobiliária no plano piloto,
01:06:00nas referências fundamentais, no plano do Lúcio Costa e da arquitetura de Oscar Niemeyer.
01:06:06Isso garante não só também essa preservação, como nos dá uma condição privilegiada nos organismos internacionais de financiamento.
01:06:17Ele salvou Brasília.
01:06:20Por que eu digo isso?
01:06:23Porque ele usou uma estratégia brilhante para o tombamento.
01:06:30Porque se deixa na mão de um qualquer, um coronel daquele metia a mão e cadê Brasília?
01:06:39E o aparecido transformou Brasília numa cidade monumental.
01:06:44No plano piloto, ela continua preservada.
01:06:47Isso se deve, em grande parte, a esse feito do José Aparecido, que na época parecia impossível.
01:06:55E ele fez com que Brasília fosse o primeiro bem cultural contemporâneo
01:07:01inscrito na lista do patrimônio cultural da humanidade,
01:07:05entre os monumentos mundiais relacionados pela Unesco.
01:07:09Tem uma frase do Darcy com relação ao tombamento de Brasília.
01:07:13Ele falava, José Aparecido, você está doido, você não vai conseguir isso nunca.
01:07:17O Brasília tem 20 anos de idade, 25 anos de idade.
01:07:19Como é que você vai tombar uma cidade com 25 anos de idade?
01:07:22As cidades são tombadas, como Roma, como Jerusalém, como Ouro Preto, como...
01:07:28Aí ele falou, aí quando saiu, ele falou, Zé Aparecido é mais doido do que eu.
01:07:34Ele cravou uma lança na lua.
01:07:36Ele era um cidadão.
01:07:38O título de eleitor, por exemplo, para ele, deve ter sido uma igreção enorme,
01:07:43no certo sentido educacional, que tirou...
01:07:46Ele transfere o seu título para Brasília.
01:07:50A partir de hoje eu sou eleitor do Distrito Federal.
01:07:53E a partir de amanhã eu inicio a mobilização para transferência de títulos
01:07:58de todo cidadão brasiliense para o Distrito Federal.
01:08:04Eu imagino que ele deve ter sido muito criticado em Minas Gerais,
01:08:07mas ele foi muito elogiado em Brasília e no Brasil.
01:08:12Porque ele não deixou de ser mineiro em momento algum.
01:08:14Pelo contrário, Brasília é a capital, é de todos.
01:08:19Concretizando assim um pensamento, que ele seria o último a ser nomeado para o governo do Distrito Federal.
01:08:27Ou seja, o pensamento dele é que a partir dali houvesse eleições livres para o governo do Distrito Federal,
01:08:33como veio a ocorrer.
01:08:35E ele foi convidado pelo Sarney para reassumir o Ministério da Cultura.
01:08:41Já mais no fim do governo, eu notando também, achando que ele devia fazer mais política,
01:08:49voltasse para Minas Gerais, e aí resolvemos que ele voltaria ao Ministério da Cultura,
01:08:55onde ele também queria ficar, já tinha feito o que ele podia fazer para Brasília.
01:08:58É evidente que o Ministério da Cultura é hoje uma repartição muito bem estruturada
01:09:06num trabalho do professor Celso Furtado,
01:09:11que deixou um espaço para a discussão, para o debate,
01:09:17que envolve o próprio conceito da nação.
01:09:21O Zé Parecido, quando fez o Ministério da Cultura, ele colocou o cinema com uma importância, né?
01:09:27Nessa coisa dele, de busca de uma identidade nacional.
01:09:31O Zé Parecido era um brasileiro, o Zé Parecido não gostava de viajar.
01:09:34Ele ia para Portugal, o resto ele gostava daqui.
01:09:37A Embrafilme, durante a administração dele, ele montou uma equipe competente para administrar
01:09:42e ia de vento em pouco, até o Collor liquidar.
01:09:45Chegou no Ministério da Cultura e criou, de imediato, uma relação super simpática e objetiva
01:09:54com a classe artística, com o cinema.
01:09:56Foram feitos bons filmes e o cinema brasileiro voltou também a ter um certo vigor.
01:10:04E o Zé tinha essa visão já lá.
01:10:07O Zé dizia assim, o país só vai dar certo no dia que tiver um projeto cultural executado.
01:10:14Primeiro, é um projeto cultural.
01:10:17Então, formou-se, o Tancredo formou o Ministério da Cultura para isso.
01:10:23Até hoje, esse Ministério da Cultura não executou, não fez um projeto cultural para esse país,
01:10:32como uma matriz que vai determinar o país.
01:10:38Então, faltamos, nós voltamos, estamos sentindo falta do Zé todo dia.
01:10:45O papai sempre exerceu o poder moderador ao longo da vida.
01:10:50Onde ele ia, ele tinha essa capacidade de aparar as arestas, de ser algodão entre cristais.
01:10:58De uma forma impressionante, as pessoas confiavam nele, seja direita ou esquerda.
01:11:05É difícil explicar isso, mas era um fato.
01:11:08Porque o Zé Parecido era o mestre em conciliar contrastes, conciliar diferenças,
01:11:16colocar lado a lado pessoas que pensavam de forma inteiramente distinta.
01:11:21Se entrosar a caminho e numa proposta de entendimento com todos.
01:11:35Suportar até o insuportável.
01:11:37E um homem de ação, porque às vezes você faz isso tudo dentro de um gabinete e não move nada.
01:11:44Aparecido, não.
01:11:45Ele veio aqui em casa e me disse,
01:11:49Puxa, ele, eu estou com um problema muito grande.
01:11:51Itamar vai me convidar para ministro da Educação ou outro ministério.
01:11:54E eu não quero, não quero ser ministro de jeito nenhum.
01:11:57Aí eu disse para ele, Zé, você tem uma oportunidade de ter uma coisa que você quer
01:12:03e que você vai fazer com uma grande repercussão.
01:12:07Ele disse, o quê?
01:12:08Pega o telefone e pergunta a Leandro.
01:12:11Leandro, você quer ser embaixatriz em Portugal?
01:12:13Quando Itamar foi presidente da república, ele foi embaixador do Brasil em Portugal.
01:12:21Ele levou para Portugal o José Aparecido.
01:12:23Ou seja, levou agitação, levou sonhos, levou projetos, levou intelectuais mineiros.
01:12:28Um deles que ninguém achava possível tirar de Belo Horizonte, Francisco Iglesias.
01:12:33A meu ver, um dos maiores historiadores que o Brasil já produziu.
01:12:36Pois ele levou Iglesias para morar em Lisboa.
01:12:39Hoje, espantados com a capacidade do Zé, em menos de um mês de embaixada,
01:12:48de fazer da embaixada do Brasil um dos centros mais vivos e mais agitados e mais saborosos
01:13:02da intelectualidade e da política portuguesa.
01:13:05Desde a época que ele foi estudar em Ouro Preto, no Colégio Arquidiocesano,
01:13:11e ter aula com o Padre Mendes, que foi o grande professor e o grande responsável pela fascinação que ele
01:13:18passou a nutrir pela língua portuguesa,
01:13:20ele já começou a ter dentro dele aquela vontade da união dos povos, de falantes do português e com os
01:13:30desdobramentos também da política.
01:13:32E esse sonho ficou adormecido para retomar já com o Instituto Internacional da Língua Portuguesa
01:13:38e mais à frente com o presidente Tamar, que foi a constituição da comunidade dos países de língua portuguesa.
01:13:43Para a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, tudo conspirava contra, quer dizer, primeiro nunca tinham se reunido.
01:13:50Segundo, havia as resistências dos países africanos à questão colonial.
01:13:56Os países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e os outros tiveram que conquistar as suas independências.
01:14:07Então havia uma certa, digamos, desconfiança e temos o nosso embaixador Zé Aparecido que diz que justamente como elemento
01:14:21para consolidar a união e a confiança, criar uma obra como a Cplp.
01:14:27E com isso nós conseguimos, em torno da língua, fazer a reunião de São Luís.
01:14:33E eu mandei que o Zé Aparecido, e ele então foi com muita força a todos esses países,
01:14:38convidá-los pessoalmente para que eles viessem a essa reunião.
01:14:42E foi assim que nós reunimos aqui em São Luís os países de língua portuguesa.
01:14:47Mas não tivesse sido o Zé Aparecido resolvido fazer um périplo africano,
01:14:52que começou em Portugal, na realidade, depois ele foi para a África.
01:14:57E eu me lembro que naquela época nós não tínhamos um avião que cruzasse o Atlântico.
01:15:02Então o Zé Aparecido teve que ir para Portugal, o avião fez uma volta enorme,
01:15:06não sei exatamente como fez, enfim, deu a volta pela Terra Nova, Groenlândia, sei lá o que,
01:15:12para poder chegar na África e na África foi com ele a vários dos países,
01:15:18creio que, aliás, todos.
01:15:20E a força de persuasão do Zé Aparecido era uma coisa enorme e ele conseguiu trazer todos eles aqui.
01:15:27José Aparecido atravessou Angola, por exemplo, em avião, em zonas de bombardeio.
01:15:33Ele andou por campos minados, ele podia ter morrido numa dessas incursões que ele teve,
01:15:39lutando pela paz e pela fraternidade nos países de língua portuguesa.
01:15:44O resultado foi uma proeza.
01:15:46Ninguém acreditava que seria possível ter uma comunidade de povos de língua portuguesa.
01:15:52E a coisa funcionou.
01:15:53O Zé Aparecido foi uma das pessoas que conseguiu transformar o Atlântico num riacho,
01:16:05num riacho, no sentido de estabelecer as relações do Brasil com os países africanos.
01:16:17Mário Soares ficou completamente apaixonado por José Aparecido.
01:16:20E se tornaram amigos fraternais.
01:16:24Graças a essa amizade também se consolidou a comunidade dos países de língua portuguesa.
01:16:30José Aparecido viajou aos países africanos,
01:16:32teve um papel muito importante na independência de Timor-Leste.
01:16:36Realmente fez um grande trabalho, conseguiu unir essa gente com aquele espírito dele,
01:16:42tornou-se amigo de todos eles.
01:16:43do Bernardino dos Santos, que era da Guiné-Bissau.
01:16:49Ele pegava no cinturão dele, puxava, abraçava.
01:16:52Todo mundo pensava que ele ia liderá-la, ele ia conduzi-la.
01:16:57Mas no final, política é política, levou uma rasteira.
01:17:01É o governo brasileiro que tinha, naturalmente, reconhecimento de todos os outros países,
01:17:05que o primeiro secretário executivo, naturalmente, seria ele.
01:17:08E o Brasil, né, foi aquele que não o apoiou.
01:17:13Né, que aí lançou aquela nova maneira de se escolher o secretário executivo
01:17:20através da... a única maneira que poderia ser, né, que não seria o Brasil,
01:17:25era pela ordem alfabética dos países, que aí seria Angola.
01:17:28O Leopré se meteu e vingiu o cara de Angola.
01:17:34Pô, o meu cara de Angola...
01:17:37E o Fernando Henrique aceitou, que era o presidente.
01:17:40Aí o Gaspar Leandro falou com o Fernando Henrique.
01:17:45Escuta, Fernando, que sacanagem que você fez com o Zé, hein?
01:17:50Por que isso, cara? Que sacanagem que eu fiz?
01:17:52Mas ali foi sacanagem o Fernando Henrique.
01:17:54Ali a história não perdoa e a gente não pode passar a mão, a cabeça da história.
01:18:00A verdade é que o Fernando Henrique tinha inveja do aparecido no episódio na língua portuguesa.
01:18:08Só isso.
01:18:09E aí sabotou.
01:18:11Não podia impedir, mas aí sabotou do jeito que ele fez.
01:18:15Eu, uma vez, conversando até com o próprio, posso fazer essa inconfidência,
01:18:19conversando com o Fernando Henrique,
01:18:21depois ele disse que foi um erro não ter posto o Zé Aparecido.
01:18:24A opinião dele.
01:18:25Enfim, não foi.
01:18:26É uma pena, porque teria sido um coroamento para ele.
01:18:29Não que fosse um cargo mais importante do que o outro que ele já tinha tido,
01:18:32mas para ele, emocionalmente, era muito, muito importante.
01:18:35E aí eu tive a oportunidade de encontrar com esse primeiro secretário executivo,
01:18:39que era o Marculino Moco, foi primeiro-ministro de Angola,
01:18:43e eu sentei na mesma mesa que ele, lá no jantar que eles estavam oferecendo.
01:18:47E aí ele, ficando sabendo que eu era filha do Zé Aparecido,
01:18:51ali veio, assim, em pranto, falar comigo como é que foi,
01:18:55me relatar como é que tinha sido ele assumir a secretaria executiva,
01:19:01que ninguém o queria ali, né?
01:19:03E ele teve grandes dificuldades.
01:19:05E que o papai o abraçou, né, e deu a ele todo o suporte
01:19:11para que a comunidade não morresse.
01:19:14Independente de nomes, existia um projeto, um sonho,
01:19:18que era muito maior do que o nome, do que estar à frente da secretaria executiva.
01:19:23Mas o Zé Aparecido foi quem, sempre, durante toda a sua vida,
01:19:26até a sua morte, podemos dizer,
01:19:28foi ele que, o grande centro de convergência da comunidade e dos países,
01:19:35todos se reportavam a ele, se referiam a ele,
01:19:37ele era convidado por toda parte,
01:19:39a sua palavra tinha um brilho especial
01:19:41para todos que se envolveram nesse projeto magnífico.
01:19:44O Darcy era um mineiro mais baiano
01:19:46e o Zé Aparecido um mineiro mais interiorano,
01:19:51mato dentro, né?
01:19:53Deve ser uma coisa assim.
01:19:55Mas esse mato dentro dele era muito vicejante.
01:19:59E esse mato dentro dele era capaz de abrir assim,
01:20:05rasgar, para você entrar ali dentro.
01:20:08A grande pedra de toque
01:20:10entre a personalidade messiânica do Darcy
01:20:14e a personalidade do Aparecido,
01:20:17que era meio como um povo que se espraiava
01:20:23reunindo e coletando pessoas, etc.,
01:20:28dentro do seu caminhar,
01:20:30eles tinham algo muito comum,
01:20:31que é essa vocação furiosa pela coisa pública.
01:20:37O meu pai não era um político,
01:20:38meu pai era um homem público.
01:20:40Hoje a gente tem que saber diferenciar
01:20:42essas questões,
01:20:44porque o papai exercia a vida pública todo dia.
01:20:49Um homem desse tipo era o homem cordial
01:20:51e com a vocação do homem público,
01:20:55não do político.
01:20:57Essa coisa do político profissional,
01:21:00que só sabe dos conchados.
01:21:02Não, ele era o homem da coisa pública
01:21:05antes de mais nada.
01:21:06A profissão dele não era político.
01:21:09A profissão dele era servidor público.
01:21:13Quer dizer, as ideias dele
01:21:15eram sempre em função do geral,
01:21:21não do particular, do privado,
01:21:24dos interesses, do amigo, do não sei o quê.
01:21:26Ele não tinha esse tipo de política.
01:21:29Obviamente é uma perda muito grande
01:21:33ele ter ido embora cedo,
01:21:35mas ele foi um homem muito importante para o Brasil,
01:21:37participou da redemocratização brasileira
01:21:39intensamente pelo lado cultural,
01:21:41que é um lado muito importante, evidentemente.
01:21:44Tinha uma coisa que pouca gente tinha,
01:21:46mesmo naquela época,
01:21:47e hoje ninguém tem,
01:21:48que é a convicção.
01:21:49Ele tinha convicção,
01:21:50ele sabia,
01:21:51ele sabia realmente o que queria,
01:21:53o que devia fazer,
01:21:55em todas as oportunidades, realmente.
01:21:58Viraldo disse que José Aparecido
01:21:59era o maior mineiro do mundo,
01:22:02mas todo mundo acrescentava
01:22:03que ele era, na verdade,
01:22:04o maior amigo do mundo.
01:22:06José Aparecido soube ser amigo
01:22:08dos seus amigos
01:22:09de uma maneira fraterna e total.
01:22:13O Zé dizem que não há insubstituíveis,
01:22:16mas naquele estilo,
01:22:18o José Aparecido é único.
01:22:20Meu pai sempre falava,
01:22:21a partir do momento que você entrar para a política,
01:22:23a sua vida não é mais sua.
01:22:24A sua vida é pública
01:22:27e você está exercendo vida pública.
01:22:30E você vai afirmar todos os dias
01:22:33os interesses públicos
01:22:34e os valores éticos,
01:22:36os valores morais,
01:22:37da consciência limpa
01:22:38e, sobretudo, das mãos limpas.
01:22:40Nós somos amigos desses, nascemos.
01:22:43Mas foi uma coisa tão espontânea assim.
01:22:45A relação única e exclusivamente
01:22:47baseada na amizade e no respeito.
01:22:50Isso se sobrepõe a tudo.
01:22:52a ideologia, entendimentos, radicalismos.
01:22:58É engraçado quando a gente pensa no Zé Aparecido,
01:23:00a gente pensa que quando é que eu conheci o Zé,
01:23:01é difícil,
01:23:03porque parece que a gente conheceu o Zé a vida toda.
01:23:05E aí, porque o cara,
01:23:06aquele amigo que entra na sua vida,
01:23:08ele faz parte, desde o começo,
01:23:09desde antes de você conhecer,
01:23:10ele já fazia parte.
01:23:11Uma grande inteligência,
01:23:13um grande articulador político
01:23:15e conseguia ter uma grande influência.
01:23:18E sabia manejar o afeto,
01:23:20a ternura com um certo temor.
01:23:22Eu falo uma falta imensa,
01:23:24inclusive para os políticos,
01:23:27para ensinar política para o pessoal.
01:23:31Porque eu acho que o pessoal não está sabendo
01:23:33fazer política direito aqui no Brasil, mas não.
01:23:37como seria bom
01:23:39um Aparecido vivo
01:23:42e vital
01:23:43para conversar,
01:23:47dialogar
01:23:48civilizadamente
01:23:50no meio
01:23:53desse ambiente.
01:23:57Leviandade de um lado,
01:24:00vaidades
01:24:01explodindo de outro.
01:24:03Era uma coisa
01:24:04muito acima
01:24:05de ideologia,
01:24:06mas muito acima
01:24:07de ideologia
01:24:08e dessa coisa ridícula
01:24:10que, infelizmente,
01:24:11ficou o Brasil.
01:24:12Uma pessoa como ele
01:24:14funcionaria
01:24:15nesse ambiente aqui,
01:24:16eu acho que ele ia estar
01:24:17botando fogo em tudo.
01:24:19O Zé Aparecido
01:24:19era um homem
01:24:20que não acreditava
01:24:21que um país
01:24:22pudesse ter uma transformação
01:24:24social e econômica
01:24:25sem passar
01:24:26por uma profunda
01:24:27transformação cultural.
01:24:30Então, isso é uma coisa
01:24:31que faz muita falta,
01:24:32que está fora de moda hoje.
01:24:33essa busca
01:24:34de uma identidade
01:24:35sempre mutante,
01:24:36mas uma identidade nacional.
01:24:38Não se fala mais disso.
01:24:39Ele não agia
01:24:40só no campo da cultura.
01:24:42Ele era um articulador
01:24:44político
01:24:47inigualável.
01:24:48Nesse momento
01:24:49de desconstrução
01:24:50permanente
01:24:51de tudo
01:24:51que há de positivo
01:24:53no país,
01:24:53eu tenho certeza
01:24:54que se José Aparecido
01:24:56estivesse aqui,
01:24:57ele seria
01:24:58o fio condutor
01:24:59de novas atitudes
01:25:01e em busca
01:25:04da regimentação
01:25:07das mentalidades positivas
01:25:09para a transformação
01:25:10que o país exige.
01:25:12projeta aí em cima
01:25:13o aparecido
01:25:14que vem um...
01:25:16que nasce
01:25:17nesse país,
01:25:19não só um aparecido,
01:25:21mas muitos aparecidos
01:25:22para a gente ter
01:25:23um contato humano,
01:25:25não sórdido,
01:25:27não vilipendiado,
01:25:29não utilitário.
01:25:33Porque é isso que eu sinto
01:25:34hoje na política brasileira.
01:25:36um desligamento total
01:25:38do fator cultural
01:25:40em torno
01:25:41do que se possa fazer
01:25:42de arte
01:25:43nesse país
01:25:43ou até desconhecendo
01:25:45que a gente é
01:25:46o que a cultura
01:25:46do nosso país é
01:25:47em todas as chaves.
01:25:50Ao matarem
01:25:51a nossa cultura,
01:25:53a gente fica
01:25:53num esqueleto
01:25:56monstruoso.
01:25:57Mas, enfim,
01:25:58a história é assim,
01:25:59ela se faz
01:26:00pela sua própria lógica.
01:26:02É como o rio,
01:26:04o rio vai por aí,
01:26:06encontra uma barreira,
01:26:07tem uma floresta,
01:26:09tem uma cachoeira,
01:26:10ele se dizia,
01:26:11mas ele vai sair
01:26:12no mar.
01:26:13Você não tem a dúvida.
01:26:15As águas vão sair
01:26:16no mar.
01:26:17E as águas da história
01:26:19vão chegar até lá.
01:26:20Nós,
01:26:21apesar de todos
01:26:22os retrocessos,
01:26:23nós vamos fazer
01:26:24do Brasil
01:26:25uma grande potência.
01:26:26Que isso não seja
01:26:28apenas propriedade
01:26:29daqueles grupos
01:26:30que vêm explorando
01:26:32a nossa história
01:26:33aí durante tantos anos.
01:26:35Mas a favor
01:26:36da grande maioria
01:26:37que é o povo brasileiro.
01:26:39que é o povo brasileiro.
01:27:06que é o povo brasileiro.
01:27:44que é o povo brasileiro.
01:28:06que é o povo brasileiro.
01:28:44Legenda Adriana Zanotto
01:28:59Legenda Adriana Zanotto
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