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  • há 2 dias
Neste corte de Mercado, a apresentadora Veruska Donato conversa com Sam Cyrous, doutor em Psicologia Clínica e Cultura, descendente de iranianos e nascido no Uruguai. Na entrevista, ele explica quem é o povo persa, a influência histórica da cultura persa no mundo e como funciona o poder político no Irã sob o regime dos aiatolás. Sam também analisa a divisão da sociedade iraniana, a força da Guarda Revolucionária e os possíveis cenários para o país em meio às tensões e conflitos no Oriente Médio. Segundo ele, apesar da complexidade política, há um traço marcante: a tradição pacífica do povo persa e o desejo de liberdade de grande parte da população iraniana.

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Transcrição
00:00Vou conversar com um descendente de pais persas, de pais iranianos, que é o Sam Sirous.
00:07Ele que é doutor em psicologia clínica e também cultura. Seja muito bem-vindo.
00:13É um homem multicultural, posso dizer assim, com descendência persa de pai e mãe,
00:18nascido no Uruguai e radicado aqui no Brasil.
00:23Bom dia, obrigado pelo convite. E faltou a nacionalidade portuguesa, que eu também tenho.
00:28Ah, meu Deus. Então tá bom, já acrescentei.
00:32O Sam, a gente te convidou aqui para poder entender um pouco, né?
00:36Está todo mundo opinando sobre guerra, todo mundo falando sobre conflito,
00:39mas pouca gente entende do mundo persa.
00:44E eu queria que você explicasse para a gente quem é o povo persa.
00:49O povo persa é um povo, na verdade, multifacetado.
00:54Nós temos, e aí os historiadores, eles variam de 7, 5, 3.500 anos de existência.
01:01E nesses anos, nós tivemos vários grupos étnicos que foram entrando e fazendo parte
01:07dessa grande família que nós podemos chamar de persa.
01:11Nós temos os balut, nós temos os curdos, que são alguns dos mais conhecidos.
01:16E, claro, os persas originais de Fars.
01:20Todo esse conjunto, ao longo dos anos, foi expandindo como império
01:24ou, eventualmente, diminuindo o seu tamanho.
01:27Os afigãos, a meu ver, são persas.
01:30E para muita gente, não são.
01:32Então depende quem é o historiador, quem é o analista que está falando com vocês agora.
01:36A meu ver, o império persa é muito mais amplo e muito mais vasto ou império já não existe mais?
01:43O domínio da cultura persa é muito mais amplo e muito mais vasto do que nós achamos.
01:49Não é só o Irã.
01:50Os números...
01:55Ah, meu Deus.
01:56Toda vez que eu estou engatando numa entrevista, interrompe.
02:00Espera só um pouquinho.
02:00Sam, você pode voltar um pouquinho?
02:02Porque deu um picote aí.
02:04Só você estava falando dos números persas.
02:07Pode continuar.
02:08Então, os números são chamados de números árabes,
02:10mas a matemática tem grande força e influência indiana e persa.
02:14A astronomia nasce na Pérsia.
02:17Vários conceitos da medicina nascem de persas.
02:19Então muitas das coisas que nós fazemos no nosso dia a dia têm influência persa.
02:24E os persas?
02:25A gente não consegue pensar no Irã...
02:27Eu vou tratar de Irã.
02:28A gente não consegue pensar no Irã sem pensar no regime dos ayatollahs,
02:33que na verdade estão lá há 47 anos, é bastante tempo,
02:37mas não estão lá a vida toda.
02:39Os iranianos, eles aceitam esse regime dos ayatollahs ou é um país dividido?
02:46É um país e uma diáspora dividida.
02:49São 47 anos de domínio de um regime islâmico,
02:54mas são 1.200, 1.300 anos de presença islâmica no Irã.
02:58O regime islâmico, claro, é o grupo mais fanático,
03:01que se apossou do país há 47 anos,
03:04e que está em uma série de decisões que asfixiam a liberdade e oprimem a própria população.
03:10Mas eu vou dar uma estatística do próprio regime islâmico.
03:1480% das mesquitas estão vazias nos últimos cinco anos.
03:18Isso demonstra claramente que a população cada vez menos tem uma propensão
03:22a se aproximar do que é hoje o islã que acontece no Irã.
03:26A maioria da população, 60% da população, nasce depois da Revolução Islâmica iniciar.
03:31Então eles não viram um mundo pré-Revolução Islâmica.
03:34E se fosse um mundo saudável, se fosse um mundo de liberdade,
03:38do mundo economicamente estável,
03:40essa população seria mais propensa a aceitar o Islã.
03:44Nesse momento, infelizmente ou felizmente, não.
03:47Eles estão cada vez, a minha geração, que eu também tenho menos de 47 anos,
03:52cada vez está mais afastada do Islã e do regime islâmico.
03:56Então podemos dizer que 17% a 25% da população iraniana é pró-regime islâmico,
04:02e 75% a 80% é contra.
04:04Só tem um detalhe, 25% de 90 milhões de pessoas ainda é muita gente.
04:10E os iranianos hoje têm força para romper com esse regime?
04:16Você vê mudanças no próprio regime?
04:19Porque a escolha do novo Ayatollah mostra que a guarda revolucionária iraniana
04:24e que o regime dos ayatollahs ainda manda e manda muito, ainda pelo menos é o que parece.
04:31Os iranianos hoje têm lideranças e eles, culturalmente,
04:35eles são adaptados para poder fazer essa mudança?
04:38Porque a gente tem visto o presidente americano convocar direto os iranianos
04:41para eles fazerem a mudança de dentro para fora.
04:43Você vê algo desse tipo?
04:46Eu vejo, primeiro, eu preciso dizer que eu vejo quatro perguntas na sua pergunta.
04:50É uma situação extremamente complexa.
04:53Primeiro, o que é a guarda revolucionária?
04:56O CEPA, ou a guarda revolucionária, tem 125 mil pessoas no seu contingente
05:01e tem vários braços.
05:03Tem um braço paramilitar que são os Bacid,
05:05que tem 390 mil pessoas aproximadamente,
05:08e tem uma força econômica e política muito grande no país.
05:12Então é uma presença muito forte, dentro e fora, inclusive.
05:16Lideranças.
05:17Nós temos, por um lado, dentro do regime islâmico,
05:20então, a liderança que é a chamada guarda, o CEPA.
05:24Fora do regime islâmico, nós temos Pahlavi tentando assumir o príncipe herdeiro,
05:29tentando assumir essa posição de alguém que vai trazer equilíbrio e tranquilidade
05:34e estabilidade para o país para uma transição democrática,
05:37só que tem uma variável muito importante.
05:39Os regimes, eles não caem magicamente porque a população sai às ruas.
05:44A população foi esmagada a partir de 28 de dezembro até final de janeiro.
05:48As estatísticas variam.
05:495.100 é a estatística do regime,
05:5150 mil são o que as ônibus dizem que morreram durante as manifestações,
05:56sem contar a quantidade de pessoas que ainda se encontram presas.
06:00Então é muita gente morta por uma tentativa de mudança de regime.
06:04Os regimes, para mudarem, eles precisam...
06:05Isso é história.
06:06Eles precisam de alguns fatores.
06:07Um deles é em sucesso do próprio regime,
06:11outro deles é vontade populacional,
06:13outro deles é uma liderança uníssona
06:15que consiga convergir todo mundo e Pahlavi tenta ser isso, mas não consegue.
06:19E por fim, alguém de dentro do regime que traia o regime.
06:23E essa quarta pessoa ainda não foi encontrada.
06:26Isso é história, não é a minha crença, não é a minha opinião, não é o que eu quero.
06:30Então, sinceramente, enquanto não se achar a quarta pessoa,
06:33a pessoa que vai mudar de dentro, que vai influenciar,
06:37o regime só muda de mal para pior, que foi o que aconteceu a meu ver ontem.
06:42E aqui é a minha opinião.
06:42Eu acho que a eleição do Khamenei, do filho do Khamenei, é extremamente perigoso para todos nós.
06:49Irânianos e não iranianos, diáspora ou residentes do Irã.
06:53Agora, o Irã tem um presidente.
06:55Qual que é o papel do presidente em meio ao poder dos ayatollahs?
07:02Primeiro, qual é o papel de alguém que finge-se que é eleito
07:06quando, na verdade, o líder supremo,
07:09esse superlativo é fantástico, o líder supremo,
07:12nomeia os candidatos ou escolhe os candidatos.
07:15Há algumas eleições, quando o Rouhani foi eleito,
07:19eu fui ver a lista, os currículos das pessoas que eram candidatas,
07:22a sua vasta maioria eram familiares do Alifamenei,
07:25do então líder supremo.
07:27Então, o líder supremo, ele escolhe as pessoas que podem ser candidatas.
07:31As pessoas não, desculpe, os homens que podem ser candidatos.
07:35A equivalência seria a um país europeu que tem um monarca
07:39ou que tem um presidente que dura um mandato de 5, 10 anos.
07:43E um primeiro-ministro.
07:45O Irã basicamente tem o líder supremo,
07:47que é o líder teoricamente religioso, mas é grandemente político,
07:50que toma as grandes decisões de política externa,
07:53de armamentos e defesa,
07:56grandes decisões econômicas, tem o poder de veto,
07:59temos o líder supremo.
08:00Por outro lado, temos uma espécie de primeiro-ministro
08:02que se chama presidente,
08:04que é quem toma as grandes decisões do executivo diário.
08:07Espero ter sido claro para o nosso espectador.
08:10É, o presidente, ele é, vamos dizer assim,
08:14uma figura só que ilustra.
08:16Não é nem ilustra, é ilustra.
08:18Pode-se dizer assim, né?
08:19É uma figura, a meu ver, do que eu entendo da Constituição
08:22e da realidade iraniana, quase simbólica.
08:25Mas depende também o quanto o líder supremo
08:27dá esse poder para o presidente.
08:30A Marlene já tinha bastante poder.
08:32O Patami tinha bastante poder.
08:34E eu estou falando de um conservador e um progressista, podemos dizer.
08:38Os últimos, Rouhani e Pesestian,
08:41eles quase não tinham poder ou têm poder.
08:43Ali, Flamenei, ele tomava conta de quase tudo.
08:46Quase nada era feito sem autorização dele.
08:48E todos nós sabemos que microgestão não é eficaz no governo.
08:52O Sam, vou usar aqui uma licença da psicologia,
08:57já que é a sua formação inicial.
08:59E aí eu quero te perguntar, qual é o seu desejo para o Irã?
09:02Mas o que você vê que vai acontecer com o Irã
09:05nesse conflito, nessa guerra?
09:08Eu sei que fazer previsão para a guerra é horrível.
09:11Estou te botando num enorme sinuca de bico.
09:14Mas eu só quero fazer essa diferenciação para quem está nos assistindo.
09:19Qual é o desejo do Sam e o que você enxerga que pode vir a acontecer?
09:23E se em algum momento, desejo e realidade vão se fundir?
09:29O meu desejo, sinceramente, talvez seja irrelevante no meio disso tudo.
09:34O desejo político.
09:35O desejo real é que as pessoas tenham liberdade,
09:37que elas possam respirar
09:38e o Irã poder voltar a fazer parte da comunidade internacional,
09:41como sempre fez.
09:42Os grandes imperadores persas eram exímios
09:46nesse processo de relações internacionais,
09:49de comunicação com povos diferentes,
09:51de interculturalidade.
09:52Foi isso que fez a Pérsia especial.
09:55Só que o que pode acontecer?
09:56Pouco provável a meu ver, mas eu gostaria muito que acontecesse,
10:00a transição para um regime democrático,
10:02verdadeiramente democrático.
10:03Não uma travestilidade de democracia.
10:07O que pode acontecer, o que o Donald Trump tem dito que quer que aconteça,
10:11é um outro modelo, que ele está chamando de modelo Venezuela,
10:14que é pegar alguém lá de dentro e colocar no lugar.
10:17Essa é uma mudança superficial.
10:18É como você sair de um relacionamento tóxico com um namorado,
10:22um marido, um pai ou uma mãe ruim
10:24e arrumar outro namorado, um marido ou sogro tóxicos.
10:28Então, isso não vai servir para nada,
10:30o modelo Venezuela.
10:32Uma guerra civil é pouco provável,
10:34conhecendo a natureza do povo persa
10:37ou dos povos que constituem o Irã.
10:40e talvez uma terceira guerra mundial,
10:42que eu espero que ninguém torça por isso.
10:44É também uma realidade.
10:46Então, são esses quatro cenários possíveis.
10:48Para encerrar, você falou que não acredita numa guerra civil.
10:51Por quê?
10:52O povo iraniano, o povo persa,
10:54não é um povo violento, é isso?
10:57Não é um povo que goste, que tenha gosto pela guerra?
11:02Verusca, a única verdade, talvez,
11:04que eu tenha ouvido todos os lados dizerem,
11:07porque nós vivemos num conflito de narrativas,
11:09ao mesmo tempo que vivemos num conflito bélico,
11:11é que o povo persa é pacífico.
11:13Nós somos o povo que criou Rumi, Sadi,
11:19Ferdossi, os maiores poetas,
11:20que todos os poetas de Shakespeare,
11:22ou escritores, como essa de Queiroz,
11:24se emulavam para copiar.
11:26E esses poetas dizem, basicamente,
11:29quase em consenso e uníssono,
11:31que nós não merecemos um nome humano
11:34se nós não sentimos a dor do outro.
11:37Os persas, em teoria,
11:40somos empáticos, somos cuidadosos
11:42e somos pacíficos.
11:43E isso é a única verdade que Donald Trump,
11:47Vladimir Putin,
11:48ou o próprio regime islâmico têm dito,
11:49é a única verdade que eu concordaria com todos.
11:53Os persas são um povo pacífico.
11:56As armas aos curdos, por exemplo,
11:59podem ajudar a criação de uma guerra civil,
12:01o que é extremamente preocupante.
12:03Os ataques e a guerra
12:05podem unir alguns grupos no Irã
12:07a favor do regime islâmico,
12:09ou não.
12:10E aí eu quero só dar uma nota.
12:11Você não me perguntou isso,
12:12mas eu quero dizer uma coisa.
12:13Eu não sou a favor das incursões
12:16dos Estados Unidos de Israel no Irã.
12:18Mas eu consigo entender
12:19quando eu vejo uma iraniana
12:21ou um iraniano dizerem,
12:22eu prefiro morrer,
12:24eu prefiro o meu sangue jorrar nas ruas
12:27para que outros iranianos
12:29e as próximas gerações tenham liberdade.
12:31Então, de novo,
12:32eu não sou a favor da incursão,
12:34mas eu compreendo quando alguém diz isso.
12:36E é isso que faz esse conflito
12:38ser muito mais delicado
12:40e muito mais complexo.
12:41Sam, eu lamento muito
12:43por esse momento
12:45que o Irã está passando
12:47e agradeço muito
12:48a sua entrevista.
12:49Muito obrigada.
12:50Espero trazê-lo
12:51num momento mais alegre.
12:53Obrigado, Verusca,
12:54pelo convite.
12:55Espero virem momentos tristes
12:57e momentos alegres,
12:58porque é nesse momento de desafio
13:00que nós vemos
13:00quem realmente é ser humano.
13:02Obrigado, Verusca,
13:03e produção.
13:03Obrigada, Sam.
13:04Obrigada, bom dia.
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