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  • há 11 horas
Uma pesquisa já consagrada no campo da arborização urbana estabelece o que ficou conhecido como a "regra 3-30-300": para viver bem em uma cidade, cada morador deveria enxergar ao menos três árvores de sua janela, residir num bairro com cobertura arbórea mínima de 30% e morar a no máximo 300 metros de uma praça ou floresta urbana. São Paulo, uma das maiores metrópoles do planeta, está longe desse padrão — e de forma desigual.

“Cerca de 60% da cidade tem uma densidade arbórea razoável, mas essa cobertura fica muito concentrada nos bairros mais ricos”, afirma Aline Cavalari, professora de fisiologia vegetal da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo – campus de Diadema), coordenadora do curso de especialização em arborização urbana da instituição e pesquisadora de referência no tema, em entrevista ao programa VEJA+Verde, apresentado por Diogo Schelp, editor de VEJA Negócios.

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00:01Transição. Tem a ver com o trânsito. Tem a ver com mudança. E também tem a ver com a Juliana.
00:06E com essa pedra aqui ó, o níquel.
00:09O níquel é essencial em vários tipos de bateria. Nas placas solares ou nos carros elétricos.
00:15E tudo isso tem a ver com o papel da Vale para acelerar essa tal de transição energética.
00:21Essa é a mineração que pensa no hoje e no amanhã. Essencial para todos.
00:26E se é essencial para você, tem a ver com a Vale.
00:30Qual é a importância das árvores para o clima das cidades?
00:33O que os cidadãos podem fazer para ajudar a melhorar a arborização urbana?
00:38Este e outros temas agora no Veja Mais Verde.
00:47Olá! Neste episódio de Veja Mais Verde, nós vamos falar com a professora Aline Cavallari.
00:57Professora Aline, muito obrigado por aceitar o convite para essa entrevista.
01:00Eu que agradeço. Fico muito feliz em divulgar o nosso trabalho.
01:04A professora Aline Cavallari, ela é fisiologista vegetal, docente da Unifesp do campus de Adema
01:10e coordenadora do curso de especialização em arborização urbana da Unifesp.
01:16E, obviamente, nós vamos falar sobre árvores na cidade, não é, professora?
01:19Eu queria lhe perguntar sobre a mentalidade predominante que existe nas cidades brasileiras,
01:25principalmente nas grandes cidades, em relação às árvores.
01:28De forma geral, a árvore entra em conflito com a urbanização.
01:35E, em cidades grandes, essa urbanização é demasiadamente grande.
01:39Então, é visto que a urbanização tem prioridades, porque isso desenvolve a cidade,
01:48isso gera empregos e tudo mais, mas as cidades, cada vez mais, estão tendo ilhas de calor.
01:53E, quando essa ilha é muito afetada, as pessoas começam a sentir esse calor,
02:02começam a ter problemas com saúde pela ilha de calor, problemas respiratórios,
02:09existem problemas gravíssimos psicológicos por falta de vegetação.
02:14Então, aí a vegetação começa a ter uma importância.
02:18Então, a gente sente essa importância pela falta.
02:22e isso fica nítido.
02:24Quando tem excesso, a mentalidade está tudo ok.
02:27Então, você vê bairros discrepantes, bairros muito arborizados,
02:32onde as pessoas valorizam aquilo, mas ainda não sentem falta,
02:36porque não falta esse bem ali.
02:38E bairros pouquíssimos arborizados, onde essas ilhas de calor são muito mais vistas,
02:45sentidas e a necessidade de arborizar.
02:50O que a gente sente muita falta é relacionado à educação ambiental,
02:54que essa é pouco explorada num contexto geral do ensino.
03:00Então, isso precisa melhorar para que tanto as pessoas que vivem em bairros arborizados
03:05e as que não vivem valorizar essa arborização.
03:10Esses benefícios ecossistêmicos, benefícios de saúde e benefícios mentais que as plantas trazem.
03:18Você pode me explicar um pouquinho, em primeiro lugar,
03:22justamente esse benefício psicológico, digamos assim, da cobertura vegetal?
03:27Qual é a relação?
03:28A relação é que vários estudos mostram que quando você mora próximo a um bairro arborizado
03:34ou próximo desse bairro tem uma praça, uma floresta urbana, por exemplo,
03:40você consegue fazer passeios higiênicos, passeios que você consiga se conectar com a natureza.
03:47E esse passeio higiênico ajuda na diminuição da ansiedade, por exemplo.
03:53Existem outros trabalhos que mostram que ambientes hospitalares,
03:59onde existem jardins hospitalares, há melhora dessas pessoas internadas.
04:05Então, mesmo pessoas que estão numa UTI, por exemplo, e que não têm acessibilidade,
04:10mesmo que o hospital tenha um jardim,
04:12hoje tem trabalhos que colocam uma floresta digital num óculos digital
04:18e essa pessoa passeia pela floresta e vê que os sinais vitais dela melhoram.
04:23Então, essa higiene mental que a árvore traz é visual, é sensitiva,
04:31a umidade desse lugar também melhora a respiração.
04:35Então, todos esses fatores diminuem a ansiedade.
04:38E qual a relação com o clima?
04:41O que esses lugares com calor intenso nas cidades têm relação com a baixa vegetação?
04:48Sim, a vegetação é super importante para trazer sombra, mas você pode me falar assim,
04:54ah, mas um prédio também faz sombra.
04:56Sim, mas não faz uma sombra úmida.
04:58A planta faz uma sombra úmida, a planta transpira.
05:02Então, nessa evapotranspiração, que é essa troca de vapor com o ambiente,
05:08essa sombra vai ser uma sombra mais úmida e isso diminui muito o calor.
05:14Mas não adianta ter uma árvore só.
05:16A gente tem que ter várias árvores fazendo uma cobertura de copa nesse bairro, por exemplo.
05:22E árvores pequenas não têm esse papel, mas elas também não podem ser esquecidas.
05:29Existem duas linhas na arborização.
05:32Pesquisadores que só acreditam em arborização de árvores de grande porte,
05:36outros de baixo porte, que fica abaixo da fiação,
05:39porque esse é um grande conflito que a gente vai falar.
05:41Mas eu sou do caminho do meio.
05:44Eu acho que tem que ter as duas coisas,
05:45porque uma árvore de porte grande tem um papel ecossistêmico grande,
05:50ela faz troca de calor muito mais.
05:52E a árvore pequena entra num contexto de paisagismo,
05:57acumula poluentes também.
05:58Os poluentes têm densidades diferentes,
06:02então têm posições na atmosfera diferentes.
06:05Então, árvores grandes vão conectar, coletar poluentes que estão mais acima.
06:10Árvores de baixo porte, as que estão mediano, onde a gente anda.
06:15Então, elas têm sua importância.
06:17E eu garanto para você, com os estudos que eu já li,
06:21que uma árvore na porta da sua casa, você vai ter 50% a menos de poluição dentro da sua
06:27casa,
06:28além de diminuir o seu gasto energético de energia elétrica, por exemplo.
06:32Uma árvore de grande porte, ela corresponde a 5 máquinas de ar-condicionados ligados.
06:38Olha só.
06:38Quer dizer que uma pessoa que mora em casa, ela tem um benefício,
06:42e tem uma árvore na porta de casa, ela tem um benefício maior do que uma pessoa que mora no
06:4520º andar de um edifício.
06:47Sim, sim.
06:47Em termos de poluição, por exemplo.
06:49Em termos de poluição, sim.
06:50Mas existe uma regra de um pesquisador que ele explica que se você...
06:57Todas as cidades deveriam ter na sua rua pelo menos três árvores,
07:04no seu bairro ser arborizado pelo menos 30% de cobertura arbórea,
07:10e você morar a 300 metros de uma praça ou de uma floresta urbana.
07:15Então, é chamada a regra 330-300.
07:18Se você tem essa regra onde você mora, você mora muito bem.
07:22Você estava falando sobre as ilhas de calor.
07:25Então, a gente tem, numa cidade como São Paulo,
07:27regiões que não têm quase cobertura vegetal, e por isso ocorrem essas ilhas de calor?
07:32Sim, porque a reflectância desse calor, ele absorve o asfalto e o concreto absorve isso muito rápido,
07:39mas dispersa também muito rápido.
07:40Então, nessa absorção, você chega a ter lugares que ultrapassam 45 graus.
07:47Isso é inviável para qualquer ser vivo, né?
07:50Então, imagina, você está com febre.
07:52Quando você está com 37,5, você já está com febre, já se preocupa.
07:55Imagina o planeta com 40 e poucos graus.
07:58Então, é super importante que, nesses bairros, difícil acessar o viário que a gente fala, que é o sistema de
08:09calçada.
08:10Muitas vezes é estreito, muitas vezes a fiação não deixa com que a gente plante, né?
08:15Mas, provavelmente, tem uma praça nesse bairro.
08:18Tem um campo de futebol que você pode fazer uma arborização mais intensa ali.
08:23Então, existem alternativas, né?
08:27Existem, por exemplo, comunidades que podem se unir ao redor de um terreno
08:32e fazer daquele terreno um espaço arborizado, um espaço de lazer, inclusive, que é isso que falta.
08:39As escolas são potenciais locais para melhorar isso.
08:43Então, as escolas das periferias, elas devem ser mais arborizadas, porque a gente já fez um estudo, que está aí
08:53em prelo,
08:54mostrando que as escolas da periferia, elas têm, sim, mais arborização que as escolas do centro da cidade.
09:02Mas, que essa população da periferia é o único lugar de lazer, muitas vezes, que ela tem.
09:06Então, se eu pudesse dar uma dica para o administrador público, é invista na arborização das escolas, né?
09:17E invista no ensino de educação ambiental. Eu acho que esse é o futuro.
09:22Qual é a proporção de ruas arborizadas ou de árvores em São Paulo? Essa proporção é adequada?
09:30Não, essa proporção não é adequada, né? Existe uma densidade diferenciada entre os bairros, né?
09:39E por que que não é adequada? Porque a cidade cresceu demais, como é aquilo que a gente estava falando
09:44no começo,
09:45e as periferias foram crescendo de uma forma desordenada e não teve um planejamento.
09:51Então, eu sempre digo que na prefeitura, né, as secretarias se conversam e devem se conversar, né?
09:58A Secretaria de Planejamento, a Secretaria do Verde tem que trabalhar em conjunto com isso.
10:04Mas é uma cidade gigantesca, né? Com poucos funcionários.
10:09Então, a gente precisa aí ter um investimento nessas secretarias para que eles consigam dar conta dessa demanda.
10:16Então, tem um índice, digamos assim, que possa ser usado para comparar São Paulo com outras metrópoles?
10:23Temos. Eu não sei os números exatos, mas eu acredito que 60% da cidade de São Paulo tem arborização
10:30em densidade boa, né?
10:33Mas ficam em locais muito concentrados, né?
10:37Outras cidades, como Maringá, por exemplo, é uma cidade que foi planejada.
10:43Então, Maringá tem, provavelmente, os seus 80% de cobertura arbórea e muito bem distribuída.
10:50Maringá é uma das cidades de exemplo.
10:52Então, isso vai de encontro com o planejamento.
10:56Então, o planejamento é muito importante ser feito com relação à moradia e à arborização.
11:03Perfeito.
11:05Dá para dizer que os bairros nobres de São Paulo têm uma arborização melhor em geral?
11:11Sim, temos.
11:12Isso é fato, né?
11:14Os bairros nobres, eles têm menos edificações também, né?
11:19De altas.
11:20Temos mais residências.
11:22Então, existe já calçadas mais largas, são bairros mais antigos.
11:29Então, a arborização acaba sendo mais valorizada nesses bairros, inclusive valoriza o metro quadrado do bairro, né?
11:38Ter uma arborização melhor.
11:39Sim, muito.
11:40E o número de árvores em São Paulo vem caindo ou aumentando?
11:43Vem aumentando.
11:44Os plantios cada vez mais estão aumentando, né?
11:47E a gente tem que olhar para esse tipo de plantio com um olhar muito crítico e científico.
11:56Então, a gente tem um trabalho agora que acabou de ser aprovado junto com a Prefeitura, com a Secretaria do
12:01Verde,
12:02onde a gente vai plantar árvores e acompanhar essas mudas por quatro anos.
12:06Hoje, a mortalidade dessas mudas é muito alta.
12:09Então, muitas vezes é um investimento plantar e depois elas não retornam como investimento ecossistêmico.
12:16Então, a gente tem que tentar entender o porquê.
12:18Porque hoje a árvore tem vários conflitos, né?
12:21Com o asfalto, com a fiação, com o vandalismo.
12:24Então, é um pool de coisas que podem acontecer para ter o insucesso.
12:32Outras árvores, por exemplo, já muito antigas, geram desserviços em vez de gerar serviços.
12:38Por exemplo?
12:38Por exemplo, quedas.
12:40Em chuvas muito intensas, existem as quedas de árvores, como vocês veem por aí.
12:46E ela é sempre a protagonista dessa história, porque ela cai, mas a culpa não é dela.
12:51Hoje, a gente planta árvores de grande porte em calçadas que não as sustentam, em berços muito pequenos.
12:58Então, é tentar entender...
13:00Eu acho que o especialista vai nesse sentido.
13:03Qual é a árvore correta para se plantar naquele sistema viário?
13:08Como que a gente entende a raiz dessa árvore?
13:11O que seria melhor para ela?
13:13Só que se a gente for tirar todas as árvores e plantar tudo de novo, não é consciente fazer isso.
13:20Então, o que a gente faz hoje?
13:21Estuda para que os próximos plantis tenham sucesso.
13:25E os que já existem, quais são as melhorias que a gente pode fazer?
13:29Muitas vezes a gente pode tirar todo aquele calçamento, deixar um solo mais drenável, colocar uma grade e manter aquela
13:36árvore.
13:37Além de fazer as avaliações de risco.
13:39Então, as avaliações de risco de queda de árvores são muito importantes de serem feitas numa cidade que tem árvores
13:46idosas.
13:48As árvores idosas, elas são como nós, elas ficam com o sistema imune mais decaído, elas têm mais...
13:55Não posso dizer flacidez, no nosso caso seria, mas elas têm uma probabilidade de emolecimento maior.
14:02Então, elas ficam mais propensas a pegar parasitas, por exemplo.
14:07Então, a gente tem que ter um cuidado com elas e normalmente elas estão em ambientes que têm um fluxo
14:13de gente muito grande.
14:15Então, hoje em dia tem várias tecnologias.
14:18Você pode ter um...
14:19Hoje a Prefeitura de São Paulo está fazendo um inventário arbóreo, onde ele passa um laser nas árvores e detecta
14:27a cobertura arbórea,
14:29detecta se ela tem uma inclinação e acende um alerta.
14:32Olha, aquela árvore está inclinada, é melhor mandar um técnico lá e esse técnico vai avaliar visualmente.
14:39Se ele achar que é necessário, ele vai chamar uma empresa que vai fazer uma tomografia naquela árvore
14:45e ver o quanto de madeira essa árvore tem ainda dentro para tomar uma decisão se ela vai ser suprimida
14:51ou não.
14:52E suprimiu, tem que substituir.
14:56No caso de uma árvore dessas, se a árvore está doente, ela fica doente porque é um fluxo, uma consequência
15:04natural
15:04ou há tratamentos que podem ser feitos, depender do exemplar?
15:10Ela fica doente, como nós, porque ela tem todas as fases que a gente tem, então a árvore é uma
15:17mudinha,
15:18depois ela passa por uma fase madura, onde ela tem as suas flores, frutos e tudo mais e depois ela
15:24vai envelhecer.
15:26No vegetal a gente chama senescência e essa senescência traz vários problemas de saúde.
15:32Então elas ficam suscetíveis a pragas, por exemplo.
15:37Existem formas de melhorar? Existe.
15:39Com adubação, com sustentação.
15:42Então se essa árvore está um pouquinho tensa, pode pôr em sustentação.
15:46Existem muitos trabalhos, inclusive um trabalho novo que é chamado de endoterapia.
15:53Eles colocam um soro nutritivo nessa árvore, tem tido bastante sucesso.
15:57Então existem muitas formas, porém, para ter tudo isso vai um custo, tem um custo.
16:05Será que vale a pena?
16:07Então depende do lugar, depende da história dessa árvore.
16:12Então o técnico de arborização da prefeitura, ele é capacitado a colocar tudo isso no papel e tomar uma decisão.
16:21Quando é feita a remoção de uma árvore dessas, então o ideal é substituí-la, plantar outra no lugar?
16:27Plantar outra no lugar.
16:28Ou, às vezes, se ela não é uma árvore, por exemplo, ela já existe.
16:34E você fez alguma coisa ali em torno dela, uma edificação, mas ela é nativa.
16:42Então se você retirá-la, você tem que plantar 20, 15 árvores da mesma espécie, por exemplo, ou de uma
16:48espécie nativa.
16:51Quando a gente tem construções, por exemplo, construir um condomínio novo, ele vai lá e tem uma autorização para retirada
16:58das árvores que estão ali.
16:59E aí ele entra num processo chamado compensação ambiental.
17:03Então ele vai pagar mudas para a prefeitura de São Paulo, para a prefeitura de qualquer cidade que a gente
17:09esteja falando.
17:10E a prefeitura recebe essa muda e vai ela escolher o local de plantio.
17:16Lembrando que em qualquer construção existe uma porcentagem que ele não pode mexer, que é uma área preservada.
17:24Mas existem essas condições.
17:27E é muito importante que as pessoas entendam que retirar uma árvore não é uma coisa simples.
17:34Demora um dia, dois, para retirar.
17:38Depois fica o toco da árvore lá.
17:40Esse toco tem que vir uma destocadeira, que é uma máquina específica que vai fazer essa destoca,
17:47para depois formar um berço e plantar.
17:49Então não é no mesmo dia que isso vai acontecer, numa demanda grande de uma cidade dessa.
17:54Na calçada de casa cortaram uma árvore, mas ficou o toco, nunca tiraram o toco.
17:59Ah, então tem que entrar em contato, porque eles tem que vir tirar, fazer a destoca.
18:02Já estão crescendo outras vegetações em cima, já faz muito tempo.
18:08Mas queria dar um exemplo desse também.
18:11Na frente da minha casa tinha uma amoreira, tem uma amoreira.
18:15E ela cresce muito, a copa dela é muito vasta e ela afeta a fiação elétrica.
18:21Então volta e meia, precisa chamar a prefeitura para fazer uma poda para que ela não derruba a energia,
18:28inclusive da rua, não só da minha casa.
18:31Olha só a situação, eu queria saber se é uma situação comum.
18:36Chamamos para fazer uma poda, nessa amoreira, a prefeitura no caso.
18:40Demorou muito tempo, não veio ninguém averiguar.
18:44Eis que um dia passa um caminhão da Enel e podou todas as árvores da rua, inclusive a amoreira.
18:52Uma poda bastante drástica.
18:55Inclusive a gente acha que tinha ninhos de sabiá laranjeira que desapareceram, nunca mais apareceram depois dessa poda.
19:05Algumas semanas depois a gente recebe uma notificação no e-mail de que o técnico da prefeitura tinha ido ao
19:13local verificar o pedido inicial que a gente tinha feito.
19:16E a informação era, vimos que já foi podado.
19:20Quer dizer, falta uma conversa, a primeira pergunta é, falta uma conversa melhor, uma coordenação melhor entre concessionários de serviço
19:28público, no caso a Enel, e a prefeitura.
19:30Isso é frequente, esse tipo de situação?
19:32Você tem até um desperdício de tempo de trabalho dos profissionais nesse caso.
19:37Sim. Como eu te falei, a prefeitura hoje tem pouca mão de obra e são todos muito bem capacitados, mas
19:46existe uma demanda muito grande.
19:49Toda árvore que tem conflito com a fiação, dependendo desse conflito, é a Enel que vai fazer a poda, porque
19:55ela tem que desligar essa energia para fazer a poda.
19:58Então, a responsabilidade é da Enel.
20:01A prefeitura em si, ela contrata uma empresa terceirizada para fazer essa poda.
20:06E essas empresas terceirizadas precisam cada vez mais capacitar seus funcionários.
20:11Então, se eu achar, se eu falar para você que a conversa não existe, existe, mas às vezes ela não
20:17é interpretada da forma correta.
20:20E a Enel também precisa capacitar esses seus funcionários, porque a Enel prioriza a fiação.
20:28E a árvore, muitas vezes, ela tem que ter uma condução de poda coerente, porque quando você poda de qualquer
20:36forma, só priorizando a fiação, você tira a estabilidade física.
20:40Então, você fica instável. E a sua raiz também já está instável lá embaixo.
20:46Então, qualquer vento, qualquer chuva mais drástica, ela vai cair.
20:50Então, existe sim, essa conversa existe, mas o time não é o mesmo.
20:57Então, precisa melhorar esse time.
21:00E é isso que eu te falei, toda vez que tiver conflito e que essa poda é na fiação, é
21:05a Enel que tem que fazer.
21:06Que existe todo um cuidado, um EPI importante que tem que ser usado, né?
21:11Mas falta sim.
21:13Vamos para um rápido intervalo e já voltamos.
21:17Veja mais verde.
21:20Um oferecimento vale.
21:26Veja mais verde.
21:29Um oferecimento vale.
21:34Voltamos para a entrevista com a professora Aline Cavallari.
21:38Professora, qual a importância das árvores das cidades para a fauna?
21:43Muito importante.
21:45Hoje, a gente prioriza o plantio de árvores nativas do estado de São Paulo e da cidade de São Paulo,
21:52porque são elas que atraem essa fauna.
21:56E uma das coisas importantíssimas de serem feitas, e as cidades estão fazendo cada vez mais...
22:01Santo André é um exemplo desse, a cidade onde eu moro, fazer os corredores ecológicos.
22:05Então, os corredores de rua que conectam os parques.
22:09Isso é bem importante de ser feito, porque essa fauna vai caminhar nesses corredores e conectar os parques das cidades.
22:17A gente estava falando antes sobre o projeto de plantio de árvores.
22:23Tem um número, já uma previsão de quantas mudas vão ser plantadas e onde e como elas vão ser plantadas?
22:29Esse projeto é um projeto piloto, não é para a cidade toda.
22:33Então, a gente teve que elencar os bairros e, dentre esses bairros, a gente tem o Alto da Boa Vista,
22:40onde tem uma ONG que trabalha muito com essa demanda de arborização.
22:45Então, vai ser uma ONG parceira, amiga.
22:48Então, é um projeto de políticas públicas que une a universidade, a Secretaria do Verde e um terceiro setor, que
22:56é a ONG.
22:56Nós vamos plantar 120 árvores neste bairro e em dimensões de largura, de diâmetros distintos.
23:07Hoje, a prefeitura planta, normalmente, um DAP, que a gente chama de diâmetro à altura do peito, de 3,
23:13que são essas plantinhas mais fininhas que vocês veem por aí, mas já se sabe que elas têm sucesso.
23:18E nós vamos avaliar um DAP3, um DAP5, um DAP7 e vamos ver, ao longo de quatro anos, a saúde
23:27dessas árvores
23:28para entender qual é a melhor forma de plantio.
23:31Vai ter árvore que vai estar irrigada, vai ter árvore que vai ter no seu berço uma forrageira
23:36que ajuda na fixação de nitrogênio, vai ter árvore que não vai estar irrigada.
23:41Então, a gente vai ter um parâmetro experimental para chegar e ter um resultado
23:50onde acrescente esses protocolos no Plano Municipal de Arborização Urbana.
23:55E esse eu queria dar um destaque, onde todas as cidades devem ter um plano.
24:00Hoje existe o Plano Nacional, foi divulgado há pouco tempo, se eu não me engano em dezembro.
24:05Um plano nacional, uma diretriz nacional de arborização e cada cidade deve ter o seu plano municipal.
24:13Existem cidades pioneiras com planos municipais, né?
24:16São Paulo é uma delas, mas todas as cidades deveriam tê-la.
24:21E em que medida avançou esse plano, se não me engano, de 2020, não é?
24:25Em que medida avançou esse plano em São Paulo?
24:28Esse plano, ele tem aí uma revisão a cada cinco anos.
24:33E um dos avanços, eu posso dizer que é esse projeto que a gente acabou de aprovar.
24:37Então, o plano, ele já prevê análises científicas, parcerias com universidades.
24:44Então, o nosso projeto é uma dessas parcerias.
24:47Já existem outras que estão finalizando também.
24:50E as normativas, a partir dos resultados científicos, as normativas vão mudar, as diretrizes vão mudar.
24:57Então, eu acho que o plano de São Paulo é um exemplo.
25:02E é feito um censo das árvores da cidade?
25:04Sim, é feito um censo.
25:06E agora São Paulo inova de novo, trazendo um censo digital, posso dizer assim.
25:11Um inventário arbóreo, que é um sistema de laser que vai passar em todas as ruas da cidade,
25:18mapeando essas árvores e contabilizando essas árvores.
25:21Um trabalho que demoraria fisicamente sete anos, vai ser feito em três.
25:27Vai ser feito em três anos.
25:28Quer dizer, isso tem data para começar?
25:33Já começou.
25:34Já começou.
25:34Acho que, se eu não me engano, o bairro que iniciou foi a Vila Mariana.
25:39Outras cidades do Brasil, grandes cidades, também fazem algo parecido?
25:42Então, São Paulo é a primeira.
25:44No mundo já existem cidades fazendo isso, mas o inventário digital vai ser agora.
25:52São Paulo começou.
25:53Quando a gente fala em cidades litorâneas, muitas das capitais brasileiras são litorâneas.
25:58Salvador, Rio de Janeiro, Recife.
26:01É mais fácil garantir uma arborização maior em cidades assim ou não?
26:07É um mito?
26:07Não, é um mito.
26:09As cidades litorâneas têm peculiaridades quanto às espécies.
26:15Então, a diversidade de espécies.
26:18Existe aí uma restinga que tem que ser muito bem preservada, um manguezal.
26:23Então, é mais difícil, mas não é impossível.
26:27E nós temos aí cidades discrepantes.
26:31Por exemplo, vou te dar um exemplo, cidades próximas à Amazônia.
26:35São cidades que são pouco arborizadas, porque contam com aquele maciço da Amazônia.
26:41E essa mentalidade precisa mudar.
26:43As cidades têm que trazer essas árvores mais para dentro ainda.
26:47A gente estava falando sobre Belém, não é?
26:49Que tem muitas mangueiras na cidade.
26:51Muitas mangueiras, é.
26:52Mangueira é uma coisa lendária em Belém, uma coisa cultural em Belém.
26:57Até os seguros de carro fazem seguros sobre caída da manga no carro, né?
27:05Então, isso tem um lado bom.
27:07A mangueira não é uma árvore apropriada para o viário.
27:11Mas nessa situação de Belém, as pessoas se apropriaram dessa mangueira.
27:15Então, isso faz com que tenha preservação.
27:18Então, a gente tem que sempre pôr na balança, né?
27:21Não dá para ter um mundo ideal.
27:23Então, eu sempre falo para os alunos, entre o ideal e o real, a gente faz o possível, né?
27:28E eu acho que Belém faz isso.
27:31Em relação às florestas urbanas, né?
27:33A gente tem, por exemplo, o Rio de Janeiro tem.
27:35São Paulo também tem.
27:37Quer dizer, é um recurso ou um equipamento, não sei se pode dizer assim, que tem uma importância grande e
27:45compensa uma falta, digamos, nas vias dessas árvores?
27:48Eu não vou dizer que compensa, porque se eu disser que compensa, pode ser que se plante menos nas ruas,
27:55né?
27:56Mas é prioritário ter florestas urbanas.
28:00Para ter corredor ecológico, para ter diversidade, para ter um maciço de retirada de poluição.
28:09Então, preservar essa mata que já está tão desfeita, né?
28:14Principalmente em Mata Atlântica, onde a gente não tem quase mais nada disso, é extremamente importante.
28:21Qual o papel do cidadão, professora, na questão da arborização das cidades?
28:26Quer dizer, a gente pensa sempre na obrigação do poder público, das concessionárias, mas o que o cidadão pode fazer,
28:32enfim, para ajudar a ter uma cidade mais verde?
28:36Sim. O cidadão, ele tem que ser o tutor dessas cidades, né?
28:40As árvores, você que caminha por elas, você sente, ah, caiu um galho aqui, eu estou vendo um cupim nesse
28:47tronco.
28:48Ligue, ligue no 193, para que você consiga falar lá e, olha, estou na rua tal, acontece isso, seu registro
28:56vai ficar lá, né?
28:58E muito provavelmente, não no tempo esperado, mas muito provavelmente vai ter uma visita técnica nesse local.
29:04Então, eu acho que a gente, sendo o zelador desse sistema, né?
29:10E mostrar, eu acho que as crianças, por exemplo, elas são exemplos importantíssimos, elas já crescem com outra visão, né?
29:18Da visão de, se você conversar com uma senhora na rua, onde tem um IP, por exemplo, ela vai reclamar
29:24muito das folhas que caem.
29:26E o IP, ele tem esse sistema, né? Chega um momento que as folhas caem para as flores aparecerem, né?
29:33A gente chama isso de decido.
29:35Então, muita gente acha que a árvore suja a calçada, que trinca a calçada, que entra a raiz, às vezes,
29:41até no encanamento da casa.
29:43E isso não é mentira, entra mesmo. Por quê? Porque o sistema viário é impermeável.
29:48Então, a raiz vai procurar um lugar permeável para se hidratar.
29:52Então, conversar. O papel do cidadão é, primeiro, entender a importância para a sua saúde.
30:01A sua cidade é sua.
30:04Então, eu acho que isso de qualquer forma, né?
30:06Não jogar lixo na rua, não encher os bueiros.
30:09A cidade é nossa, de cada um.
30:12E entender a importância dessa árvore na porta da sua casa.
30:16Ela fica no sol do meio-dia um pouquinho e depois vai para debaixo da sombra dela.
30:21Você já vai entender na hora.
30:23Existe algum modelo no mundo de cidade que tem uma arborização realmente boa,
30:29que pode servir de exemplo para as cidades brasileiras?
30:32A Holanda, por exemplo, é um exemplo.
30:34Mas é uma cidade plana, né?
30:36Mas se tivesse um exemplo para falar, acho que a Holanda seria um deles.
30:41Qual que é o parâmetro?
30:42É uma árvore a cada não sei quantos metros?
30:45Olha, o parâmetro, eu acredito que, se eu não estou enganada, tá?
30:51Deve ser três árvores por pessoa.
30:55Então, isso seria o mundo ideal.
30:58Três árvores por pessoa.
31:00São Paulo tem quanto?
31:01Você tem uma ideia?
31:01Eu acho que São Paulo pode chegar a ter duas, uma e meia.
31:06Mas é aquilo que eu te falei, em densidades diferentes, né?
31:09A ONU estipula uma árvore a cada 12 metros quadrados, uma coisa assim.
31:17Eu não estou precisa nos números.
31:19Mas, assim, se fosse bem distribuído, a gente estaria bem em São Paulo.
31:23Já estaria melhor.
31:24Doou muito bem.
31:25Então, existe uma questão de convencimento em algumas regiões da cidade,
31:29mais até do que esforço de poder público para conseguir arborizar?
31:33Sim, muito.
31:34Existem vários projetos em qualquer cidade do Brasil.
31:38Eu dou aula no curso de arborização, a gente dá aula para várias prefeituras e todas têm esse mesmo problema.
31:45Faz um plantio, mais da metade é vandalizado.
31:49Quebra galho, quebra muda inteira.
31:52Então, assim, existe uma falta de conscientização.
31:55Então, é muito importante que isso fique na base escolar.
31:59E que existam projetos de extensão.
32:02Então, a universidade também pode ajudar nisso, né?
32:05O nosso trabalho final também vai ser ajudar isso, envolvendo pessoas do bairro.
32:10Porque é falta de consciência, muitas vezes.
32:14Professor, para terminar, o projeto que a senhora mencionou,
32:18ele tem relação com o viveiro que existe no Parque do Biracuera?
32:21Sim.
32:21Pode contar um pouco sobre isso?
32:23Sim.
32:23Então, as plantas que são recebidas nesse viveiro, são plantas, são mudas, a gente dá o nome de TCA,
32:29Termo de Compensação Ambiental.
32:32Então, aquilo que eu te falei, vai construir uma área, eles têm que doar essas mudas para o viveiro.
32:38Então, eles recebem essa muda, eles analisam se essa muda está no padrão de recebimento,
32:44se não tiver, devolve.
32:46E aí, essas mudas vão para o sistema viário, dependendo da demanda da prefeitura.
32:51Então, o nosso projeto vai ser avaliar a chegada dessas mudas, de duas espécies determinadas,
32:59acompanhar como isso é movimentado no viveiro, cuidado, porque elas não chegam e já vão para a rua,
33:06elas ficam um tempo no viveiro, e depois acompanhar esse plantio na rua por quatro anos,
33:11com todos esses aparatos científicos que a gente tem.
33:15Dosando fotossíntese, vendo a parte hormonal da árvore, a parte radicular.
33:21Hoje, a gente não precisa mais destruir calçada para ver a parte radicular.
33:25Existe um georadar que mapeia toda essa raiz.
33:30Inclusive, a gente submeteu um artigo que mostra a mesma espécie numa calçada,
33:37num estacionamento e numa praça.
33:39E aí, a gente fez o georadar disso, na calçada, as raízes só crescem para o lado que está permeável.
33:47O lado de asfalto não tem raiz nenhuma.
33:49Então, ela está totalmente desequilibrada.
33:53No estacionamento, ela cresce em toda a dimensão, mas pouco.
33:58E na praça, ela está totalmente livre, crescendo em todas as dimensões.
34:03A mesma espécie.
34:05Então, a mesma espécie se comporta diferente dependendo do ambiente.
34:09Interessante.
34:10Professora, muito obrigado pela entrevista.
34:12Imagina. Obrigada, eu. Eu que agradeço.
34:15Este foi o Veja Mais Verde. Até a próxima.
34:19Veja Mais Verde.
34:22Um oferecimento. Vale.
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