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  • há 11 horas
A autonomia do Banco Central voltou ao centro do debate político e econômico. Em corte do programa Mercado, com Veruska Donato, o analista econômico Alberto Ajzental alerta para os riscos de interferência política na instituição, especialmente em meio a pressões por juros mais baixos.

Segundo ele, a independência do Banco Central é fundamental para garantir o controle da inflação e a credibilidade da política monetária. Alberto Ajzental explica que políticos, por natureza, buscam resultados de curto prazo, como crescimento e emprego, enquanto o Banco Central atua com foco no equilíbrio de longo prazo.

A possível influência política pode comprometer a chamada “ancoragem de expectativas”, considerada essencial para a estabilidade econômica. O especialista ainda destaca que mudanças nesse modelo podem gerar efeitos negativos duradouros, inclusive para governos futuros, já que o controle da autoridade monetária pode mudar de mãos.

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Transcrição
00:00Roberto, preocupa essa iniciativa do deputado e a iniciativa do PT, que é o partido do presidente Lula?
00:11É uma iniciativa partilhada com o governo?
00:14Então sim, preocupa muito. Sempre preocupa a questão de independência do Banco Central.
00:20Tem uma série de razões por isso, por conta disso e a gente vai depois explicar cada uma delas.
00:28Agora tem uma questão interessante, porque não é ser de direita ou de esquerda, governo de direita ou de esquerda.
00:37Você vê nos Estados Unidos o presidente norte-americano reclamando do presidente do FED sobre as taxas de juros, as
00:46altas taxas de juros.
00:47E a gente, no começo desse atual mandato do presidente brasileiro, também reclamava muito do anterior presidente.
00:57Depois ele indicou um novo presidente, o Galípulo, parou de reclamar.
01:02Mas reclamava muito do presidente anterior e da política que o Banco Central adotava, que também era alta taxa de
01:11juros.
01:12Então você percebe que não, não é uma questão ser necessariamente de direita ou esquerda, mas talvez seja uma questão
01:20de governo ou políticos versus a tecnocracia do Banco Central.
01:27Então depois a gente avança e explica o porquê da importância, necessidade de ter um Banco Central independente.
01:35Vamos avançar agora mesmo, Alberto. Pode contar pra gente por que é necessário.
01:40Ou é apenas um desejo do mercado financeiro que a gente tenha um Banco Central independente?
01:47A questão básica é que a gente tem que entender quem que é esse bicho político.
01:54Quem que é o eleito? Quem é um bicho político?
01:57É um indivíduo ou grupo que trabalha pra conquistar uma posição dentro do governo e se manter no governo.
02:09Então vive de votos, vive de eleição e vive de votos.
02:15Pra você ter voto, você precisa atender, você precisa trazer bem-estar pra população,
02:23mas você precisa ter uma questão de curto, médio e longo prazo.
02:28A gente tem eleições a cada quatro anos e você acaba por criar uma situação em busca de votos no
02:37curto prazo.
02:38O Banco Central tem um poder muito grande quando ele fala de política monetária.
02:46Política monetária não diz só respeito à questão da taxa de juros.
02:51Você utiliza a política monetária pra guiar, controlar a inflação,
02:56mas você tem como instrumentos tanto a taxa de juros como a questão dos compulsórios que você mantém nos bancos.
03:06Tudo pra regular a quantidade de moeda no mercado.
03:09É uma política muito forte.
03:11E o que os políticos desejam?
03:13Os políticos desejam crescimento econômico, principalmente no curto prazo,
03:20empregabilidade.
03:21Então tem umas questões que a gente pode dizer que são populistas
03:25e que o Banco Central tem esse ferramental que poderia auxiliar os políticos no curto prazo.
03:33Então o que os políticos enxergam no Banco Central?
03:37Uma ferramenta poderosa pra conseguir fazer com que os seus interesses sejam realizados.
03:44Essa é uma parte da resposta.
03:47E por que você tem que ter o Banco Central independente?
03:50Porque pra controlar a inflação e gerar mais emprego, o menor desemprego possível,
03:59porque essa é a dualidade da atividade do Banco Central,
04:03inflação sob controle e desemprego baixo.
04:10Então, o Banco Central, através de técnicas, através de tecnologia,
04:15ele consegue, com esses instrumentos, manter essa previsibilidade.
04:22Então o político tem um determinado interesse e o Banco Central tem a sua atuação muito bem clara e definida.
04:32Alberto, hoje, ano eleitoral, falar sobre a autonomia do Banco Central,
04:38sendo que a gente está, inclusive, enfrentando essa guerra no Oriente Médio,
04:43a alta dos preços, a ameaça de greve dos caminhoneiros por causa da alta do diesel.
04:48Isso é muito ruim pro governo tocar num assunto desse, né?
04:51Com tanta instabilidade aí no ar.
04:53E, inclusive, o cupom, né?
04:55O Comitê de Política Monetária do Banco Central, que pode vir a não reduzir os juros,
04:59que é um desejo do setor produtivo, inclusive.
05:03Então, o que acontece em relação à política...
05:06Se a gente falou que os políticos querem crescimento econômico, desemprego praticamente zero,
05:14aumentar a popularidade do governo,
05:17o Banco Central está preocupado com inflação, fuga de capitais.
05:22Você sabe que, em relação à inflação, a gente tem sempre três temas
05:27que são os mais importantes de definição de inflação.
05:33Uma delas é a ancoragem das expectativas.
05:37Então, se você tem um Banco Central que não é independente, não é autônomo
05:43e pode sofrer influência política,
05:47você destrói a questão de ancoragem de expectativa,
05:52você destrói a questão de inflação no longo prazo
05:56e você destrói...
05:58Porque tem também a questão de ato de produto.
06:01Mas o mais importante é a ancoragem de expectativa.
06:04Então, se você tem uma influência política no Banco Central,
06:09você traz descrédito para a instituição do Banco Central
06:14e você destrói a ancoragem de expectativas, que é o principal fator.
06:19Então, olha como você tem que deixar ele autônomo, técnico
06:23e independente de qualquer pressão política.
06:27Agora, tem uma questão aqui muito importante.
06:29Que os políticos esquecem que, numa democracia,
06:33você tem alternância de poder.
06:36Então, às vezes, aquilo que é bom para você,
06:39é bom para o seu partido, é bom para o seu governo,
06:42ou naquele governo,
06:44se você perde as eleições,
06:46você entregou uma ferramenta para o teu opositor.
06:49Então, você, como político, não deveria pensar
06:53apenas no curto prazo
06:55e somente em vencer a eleição futura
06:59ou a reeleição.
07:00Porque, eventualmente, você pode perder
07:03e você pode criar uma ferramenta
07:05que é boa para você agora,
07:07mas você pode perder essa ferramenta
07:10e entregar para o teu concorrente no próximo mandato.
07:13Então, para a população e para o país
07:17e para a economia do país como um todo,
07:20é muito mais importante
07:22você ter esse Banco Central independente
07:24e não à mercê ou sob controle de políticos.
07:29E a gente tem que tomar cuidado muito
07:31com as palavras que a gente usa,
07:33porque o discurso político,
07:35ele manipula muito a informação e as palavras.
07:39Ah, vamos deixar o Banco Central Técnico independente,
07:44só vamos fazer uma supervisãozinha
07:47pelo Ministério da Fazenda ou pela Fazenda.
07:50Ah, é um grau mínimo de intervenção.
07:53Aí que reside o problema.
07:55Não tem meio grávida,
07:57não tem metade grávida,
07:59ou está ou não está.
08:01Não existe uma supervisãozinha,
08:04vou só dar uma olhada.
08:05Não, isso é influência política,
08:07tem que ser muito mal visto
08:09e a gente, como população,
08:12não pode deixar que isso aconteça.
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