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  • há 23 horas
No programa semanal da coluna GENTE, o babalaô e pesquisador Ivanir dos Santos, 71 anos, fala sobre representatividade negra na televisão brasileira, o impacto das cotas sociais e a estreia da novela A nobreza do amor (TV Globo), primeira trama voltada para a história de uma realeza africana.

Ivanir, sacerdote de Candomblé e pós-doutor em História Comparada pela UFRJ, é referência em combate ao racismo, intolerância religiosa e defesa dos direitos humanos. Em mais de quatro décadas de atuação, foi um dos idealizadores da série documental Resistência Negra (Globoplay, 2023) e participa de festivais e debates culturais.

No bate-papo, Ivanir comenta:

O legado do Teatro Experimental Negro e a luta por protagonismo na TV.

A ascensão de atores e diretores negros e o impacto das cotas sociais na formação da classe média negra.

A importância de novelas com narrativa africana, como A nobreza do amor, e a desconstrução de estereótipos.

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00:05Olá, gente, tudo bem? Está começando o nosso programa semanal da Coluna Gente,
00:09diretamente do seu canal no YouTube, na plataforma Veja Mais, na aviação podcast,
00:14no Spotify e também nas TVs por streaming Samsung, LG, TCL e Roku.
00:21Hoje o nosso convidado é o Ivanir dos Santos. Ivanir, muitíssimo obrigado por aceitar o nosso convite,
00:27vir conversar aqui comigo sobre vários assuntos, a gente tem bastante assunto para poder falar hoje.
00:32E será um prazer de novo estar encontrando com você, não num momento como esse, mas estar dialogando,
00:36que é sempre muito bom.
00:39Tá certo. Deixa eu apresentar para vocês o Ivanir, porque é um currículo extenso.
00:42Eu tive que fazer um pequeno resumo aqui, Ivanir, para poder dar tempo de falar tudo.
00:46Ivanir é sacerdote de candomblé, babalaô, autoridade máxima de terreiro, responsável pela liderança espiritual,
00:53administrativa e preservação dos rituais. Além disso, é pesquisador, professor, ativista brasileiro,
01:00professor pelo FRJ, de história comparada, pós-doutor.
01:05É tanta coisa que a gente vai destrinchando um pouquinho desse release que a gente tem em pessoa aqui
01:12para poder falar do Ivanir.
01:14Antes de mais nada, Ivanir, eu já vou começar chamando de você, porque nós já temos intimidade aqui.
01:19Já se falou algumas vezes, o Ivanir já colaborou aqui para a coluna a gente em alguns momentos
01:23com assuntos pertinentes e importantes para a sociedade brasileira.
01:26O Ivanir sempre com uma voz, uma autoridade em vários assuntos, tanto de intolerância religiosa,
01:30quanto da própria combate ao racismo também.
01:33Então a gente volta e meia fala sobre vários assuntos.
01:35Mas eu queria já começar o papo com o nosso programa Taino ao Ar agora em março,
01:40mas no início do ano houve um episódio que chocou muita gente, rodou o mundo,
01:45que foi do presidente Trump, fazendo uma alusão ao casal Obama, tanto a Michelle quanto ao Barack,
01:53falando e fazendo uma analogia a Macacos.
01:56Eu queria já, logo de início desse papo, saber do senhor, saber de você,
02:02qual é a gravidade disso do ponto de vista de se criar e de se perpetuar um imaginário de preconceito
02:10partindo do pressuposto de uma voz como Trump, da nação mais importante,
02:15de maior poder no mundo hoje?
02:18Isso não é diferente se você olhar o mundo como um todo, na globalização,
02:25esse tipo de gesto na atualidade.
02:30Você vê a repercussão maior que é um ex-presidente,
02:34está se falando de um ex-presidente, de uma primeira-dama,
02:37ex-primeira-dama, porque mostra que os negros, independente do lugar que ele chega,
02:42ele continua sendo negro.
02:43E numa sociedade que tem valores erocêntricos, hierarquizados,
02:48de que animaliza os negros, boçaliza os negros,
02:56vamos também perceber, você viu aqui no Brasil dizer que os negros pesavam a rouba.
03:03Não foi dito isso aqui no Brasil.
03:06Você vê o Vinícius Júnior, que é um milionário.
03:09O fato de ser milionário negro não impede dele ser chamado de macaco e jogar banana.
03:17Você viu recentemente aqui, num restaurante,
03:22uma turista argentina fazer a mesma coisa com o pessoal que trabalhava no restaurante.
03:28Ou seja, o que eu quero dizer é que, independente da esfera social e econômica e política
03:33que o negro chegue, numa sociedade com valores erocêntricos,
03:38ele sempre vai ser animalizado.
03:40E isso nasce no século XIX.
03:43As teorias racistas são muito presentes nos dias de hoje, em todas as esferas,
03:48seja social, econômica, política e religiosa.
03:52Não é à toa que as religiões matizafricanas são tratadas como coisa inferior, coisa menor, coisa do mal,
03:57da mesma forma.
04:00Então, a atitude de um presidente chamado da maior nação, mais rica, mais poderosa,
04:07e o que o faz ele ser poderoso,
04:09não entendia de ele tratar um outro, que foi igual a ele, presidente,
04:15ele tratar como se fosse um animal.
04:18Isso é muito grave, né?
04:20Para se entender o quanto o racismo persiste nas sociedades ocidentais com muita força.
04:27A história se repete, né?
04:29Sempre.
04:30Eu fiz questão de falar dos vários estratos sociais, até o restaurante.
04:37E se falar também de mesmo na esfera política no Brasil,
04:41quando uma pessoa candidata a presidente se refere aos negros dessa forma,
04:46como arroba, como pesa, como animal.
04:48É isso que eu estava se dizendo.
04:49Se fala pesa arroba, quem pesa arroba é animal.
04:52É isso?
04:52Então, eles falam que esse pensamento, ele é crescente hoje.
04:56Ele é muito crescente.
04:57Você olhar Portugal, tem o mesmo problema em Portugal.
05:00Se você olhar qualquer esfera, digamos que talvez esse pensamento não existe,
05:05talvez fora da África do Sul poderia existir, mas hoje muito menos,
05:09mas esse pensamento continua lá.
05:11Mas na relação, inclusive, do Ocidente com a África.
05:16Se você observar como é que olha a própria Ásia.
05:19A diferença da Ásia agora nas tensões geopolíticas
05:23é porque você tem uma potência econômica lá, agora que é a China.
05:28Mas você observar como é que a Europa,
05:31a partir do século XVI até o século XIX,
05:36quando ela consolida o valor de superioridade,
05:38de universalidade humana,
05:41como se o universal é o ser branco,
05:43isso tem impacto.
05:44E no Brasil isso é muito presente no cotidiano brasileiro.
05:48Ivani, você citou agora três exemplos muito emblemáticos
05:51do que a gente tem como racismo recente.
05:54A gente, conversando sobre o Trump,
05:56você citou a questão do estágio de futebol,
05:58que não só o Vinícius, mas vários outros jogadores de futebol
06:00que meio que acabam sofrendo esse tipo de ataque em campo,
06:04na visão de atleta, na visão de uma pessoa
06:06que deveria ser venerada por suas torcidas
06:09e respeitada pelos adversários.
06:10Ou mais, que o pessoal acha que o racismo
06:12só existe para os pobres, pretos pobres.
06:14O que eu estou chamando a atenção é que não é isto.
06:17O que eu estou dizendo é que o negro
06:18numa sociedade racista, estruturalmente racista,
06:22de hierarquia de superioridade branca,
06:24porque isso é uma hierarquia,
06:24o Trump representa isso.
06:26Ele, dependente se ele vai ter dinheiro,
06:29milionário ou não,
06:31ou se tem os vinhos por isso.
06:33Sai de São Gonçalo, é um dos maiores milionários,
06:37mas ele sofre isso.
06:39Mesmo o Lewis Hamilton,
06:41na Inglaterra.
06:43Ou seja, não é verdade que você supera o racismo
06:48somente aumentando a mobilidade financeira,
06:53cultural ou política.
06:55Porque o Obama, um exemplo disso é Michele.
06:58Entende o que eu estou falando?
06:59Ou mesmo no poder político.
07:01Então, o que eu estou chamando a atenção
07:02é que o racismo, ele persiste.
07:05Ele faz parte da mentalidade da construção
07:08de várias sociedades.
07:10Tanto nos Estados Unidos,
07:11não é à toa que você tem os conflitos raciais.
07:14Até hoje, nos Estados Unidos,
07:16a sociedade não consegue lidar com essa questão,
07:19embora lá você está falando de uma minoria negra.
07:21ou se você olhar e comparar com o Brasil,
07:24onde você tem uma maioria não branca.
07:27Onde as estruturas sociais,
07:29seja econômicas, políticas, jurídicas, culturais,
07:34se mantêm a partir desse valor da superioridade.
07:37Por mais que alguns acham que não.
07:38Bem, é verdade que existem também pessoas não negras
07:42que hoje têm compreensão
07:44que a luta contra o racismo
07:45é fundamental no contexto brasileiro.
07:48Existe todo um movimento social
07:54agendado e sendo organizado nos últimos tempos
07:56para que haja maior visibilidade
07:59da pauta da população negra
08:01na televisão, na televisão aberta,
08:03principalmente nas novelas.
08:04Eu sei do seu empenho,
08:07da sua luta para que isso fosse,
08:08de fato, colocado em prática
08:10há décadas já.
08:11Eu queria que você me falasse um pouquinho sobre isso,
08:14de que forma essa representatividade
08:16chega na televisão
08:17e como isso lá atrás
08:19teve exemplos que chocaram
08:21e ainda hoje são fruto de muito estudo.
08:23Bom, não só na televisão,
08:25mas nas artes.
08:26Eu chamo a atenção primeiro
08:27do teatro experimental do negro,
08:30nos anos 40,
08:32no Dias do Nascimento,
08:33que justamente criticava
08:34a falta de protagonismo negro no teatro.
08:38Isso é um exemplo muito importante.
08:42Por que eu digo teatro experimental do negro?
08:43Porque foi a partir do teatro experimental do negro
08:45que você criou um grupo
08:46de atores e atrizes negras
08:51que acessaram a televisão nos anos 60.
08:54O Haroldo Costa acabou de falecer agora
08:56para o teatro experimental do negro.
08:57A Ruth de Souza foi do teatro.
08:58A Legacia foi do teatro experimental do negro.
09:02Só que quem não foi
09:03foi o Milton Gonçalves.
09:05Ok?
09:06Mas, mesmo assim, vamos ver os anos 60.
09:08Eu era garoto,
09:09não era militante, né?
09:11Mas ele já era um militante.
09:13Eu era garoto,
09:14aluno da FUNABEM,
09:15mas assistia a cabana do Pai Tomás.
09:18E o que era a cabana do Pai Tomás?
09:20O principal protagonista da novela
09:22era o Sérgio Cardoso,
09:23um branco pintado de preto,
09:25que fazia o Pai Tomás.
09:27Isso gerou,
09:28naquela época que eu cheguei a acompanhar,
09:30um protesto dos atores negros,
09:33liderado pelo Milton Gonçalves,
09:35para o Jorge Coutinho,
09:37para o Haroldo,
09:39para o Pitanga,
09:40para o Leia Garcia,
09:41para o Ruth de Souza.
09:42Gerou um debate muito sério.
09:46De você,
09:47que era muito comum também nos Estados Unidos fazer isso,
09:49você pegar o ator branco
09:50e pintar de preto.
09:51Isso foi feito aqui,
09:52na Cabana do Pai Tomás.
09:54E que levou a TV Globo,
09:56que ainda estava no seu início ali,
09:58logo depois,
09:59mais na frente,
10:00fazer uma novela
10:01que, pela primeira vez,
10:02o Milton Gonçalves
10:04aparece como um psicólogo.
10:07Mas, mesmo assim,
10:09sozinho,
10:09sem família.
10:11Ele era o psicólogo.
10:13Ele era solto na trama.
10:14É, solto na trama, né?
10:15É,
10:16isso é importante observar,
10:18mas foi,
10:18talvez,
10:19uma resposta crítica
10:20naquele período,
10:21uma resposta muito tímida,
10:23porque não tinha contexto,
10:24sozinho.
10:25Nos anos 90,
10:26teve uma outra novela
10:28que o personagem
10:29do Tarcísio Meira
10:31esculhamba, né,
10:34e humilha
10:35um menino negro,
10:37que era empregado
10:38da sua empresa.
10:40O Guelherdez,
10:41né,
10:42que é uma entidade
10:42muito importante nossa
10:44em São Paulo,
10:45vai no Ministério Público
10:47e pede um TAC,
10:49em termos de ajuste de conduta,
10:50e denuncia.
10:51O que levou,
10:52já naquele período,
10:54mesmo nesta novela,
10:55já tentar reescrever,
10:57e o menino passar a responder.
10:58Porque o problema
10:59não é o ataque,
11:00o problema é não responder,
11:02né,
11:02a postura submissa.
11:05Então,
11:05já naquele período,
11:06já houve isso.
11:08Mas,
11:08tempos depois,
11:09a TV Globo
11:10fez uma outra novela
11:12que,
11:13pela primeira vez,
11:13apareceu uma família negra,
11:15não escravizada,
11:17né,
11:17que o Pitanga
11:18era o presidente,
11:19era o chefe da família,
11:21mesmo assim,
11:21de caráter duvidoso.
11:23Era uma família negra
11:24que o chefe
11:24era de caráter duvidoso.
11:27Então,
11:27vamos observar.
11:28Ou seja,
11:28mesmo em algumas chamadas...
11:30Isso por décadas de distância,
11:32de uma novela para outra.
11:33mas mesmo chamada
11:33alguma,
11:34hoje o cenário é diferente.
11:36Sim.
11:37Né?
11:37Hoje o cenário,
11:39você tem tido novelas
11:41muito importantes
11:42que têm o protagonismo negro.
11:44Mesmo assim,
11:45com conflitos
11:46no final das tramas, né?
11:48Sim.
11:48Duas vezes,
11:49teve duas
11:51atrizes negras importantes,
11:53o final do desfecho
11:55sempre é um final
11:56do que os brancos,
11:58né?
11:58Passa tendo mais...
12:00O que mostra
12:00que tem uma tensão
12:01não só de direção,
12:03mas tem uma tensão também
12:04de quem escreve.
12:05De autoria.
12:06De autoria.
12:08Então, tem...
12:08Tem que falar de vale tudo,
12:09né?
12:09E a menina também anterior,
12:12que tinha aquela outra novela,
12:13que ela está na novela das sete agora.
12:15Então, deixa eu chamar a atenção
12:16do que tem tensões que vêm.
12:18Ok?
12:19Mas eu estou...
12:22É...
12:23Também esperançoso
12:24que agora vai ter
12:25a primeira novela
12:27referenciada na África.
12:28Sim.
12:29Novela das seis da TV Globo.
12:30Na África.
12:32Hã?
12:33Na África.
12:34E vamos ver.
12:35Eu estou um pouco acompanhando
12:38essa novela da TV.
12:39Eu tenho um pouco acompanhado
12:40nos bastidores
12:42essas transformações.
12:44Né?
12:45Até do ponto de vista também
12:46de como se trata
12:47as religiões de matriz africana.
12:50Que eu fui consultor
12:50de um workshop na Globo
12:52que trata disso.
12:53E às vezes eles me fazem consultas
12:54também sobre algumas dessas
12:57cenas de falas, né?
12:58Em algum momento eu sou chamado
13:00de uma consultoria profissional
13:03sobre esses episódios,
13:06essas cenas.
13:07Então, eu vejo que tem tido
13:09uma preocupação.
13:10Hoje tem uma preocupação maior
13:11e tem também uma ascensão
13:12de diretores
13:15também negros, né?
13:16Quer dizer,
13:16uma das pessoas que escrevem
13:17essa novela das cenas
13:18é o Elísio.
13:20Né?
13:20A ideia é como se vier.
13:22É uma pessoa comprometidíssima.
13:24O Lázaro Ramo
13:24está na novela, né?
13:26Que eu acho que não dá
13:27nem que estudar
13:28para questionar.
13:29Eles mesmos já resolvem
13:30o problema por lá.
13:32Então, tem lugar
13:34que a gente se preocupa.
13:35Tem lugar que a gente
13:35não precisa se preocupar
13:36porque quem está na novela
13:38acaba já fazendo ali
13:39o contraponto,
13:40não aceita um papel
13:42que humilha disso, né?
13:44Porque os negros,
13:45eles não são diferentes
13:46das pessoas brancas, né?
13:48A nível de seus valores, né?
13:50Você vai ter pessoas boas,
13:52pessoas más, pessoas ruins
13:53em todos os lugares.
13:54Você não pode fazer
13:55uma narrativa
13:56de que só é o ruim
13:57e o submisso.
13:58é o caso que nessa novela
14:00vai mostrar a realeza, né?
14:02Você já viu a novela
14:03falar da Itália,
14:04da Espanha,
14:04de Portugal,
14:05de tudo,
14:06mas não fala da África.
14:07Então, esta é a primeira.
14:09E olha que você está falando
14:09de um grupo étnico na África, né?
14:13Que a novela,
14:15ela tem uma narrativa
14:16muito voltada
14:16para uma descendência yorubá, né?
14:19E você tem outros vários, né?
14:21Você imagina quando você
14:21se veja as histórias
14:22bandas chegadas na televisão
14:23que dialogam com a grande massa
14:25do povo brasileiro.
14:28E se você levar em conta
14:30que nós estamos
14:31pós-carnaval,
14:33as escolas de samba.
14:35Que já nos anos 60
14:38é quem traz as histórias
14:39que a história não contava.
14:41Não é a história
14:41que a Mangueira
14:41já contava anteriormente.
14:43O Salgueiro começa um pouco
14:45a trazer essa narrativa
14:47diferenciada.
14:48E as escolas nos últimos anos
14:50têm aumentado muito
14:51essa narrativa
14:51que tem incomodado as pessoas.
14:54A gente costuma dizer
14:55que primeiro o zumbi
14:56chegou nas escolas de samba
14:57e Chica da Silva
14:58para depois parar
14:59no livro de história, né?
15:00Impressionante.
15:01Ou melhor,
15:01ele estava no livro de história
15:03mas como escravo fujão.
15:05Entendeu?
15:06Não como uma liderança.
15:07Porque liderança também
15:08ele vira,
15:09não só na escola de samba,
15:10mas quando o movimento negro
15:12nos anos 70, né?
15:15Diz que ele era um herói.
15:17Para nós,
15:18eu sou da marcha de 95
15:20que vai levar
15:20o presidente da república
15:22de época, então,
15:24Fernando Henrique,
15:24que escrevesse ele
15:25no Panteão da Pátria
15:26como herói nacional
15:27e tornasse o 20 de novembro
15:29um feriado nacional
15:30que hoje é.
15:32Hoje é.
15:33E observa que é o único herói
15:35construído de baixo
15:37para cima
15:38na história do Brasil.
15:41Construído pelo povo.
15:42O movimento negro,
15:43principalmente o pessoal
15:44de Palmares,
15:46o grupo Palmares
15:47lá no Rio Grande do Sul,
15:49que traz essa ideia
15:50para nós.
15:51Que era não comemorar
15:53o 13 de maio,
15:54pelo contrário,
15:54transformar em uma data
15:55de protesto
15:56pelas condições
15:56com que os negros ficaram
15:58social e economicamente
16:00e politicamente
16:01na sociedade brasileira
16:02e o 20 de novembro
16:03porque Palmares
16:04representava
16:05uma sociedade
16:07mais democrática
16:09do que você tem hoje
16:10em termos
16:11ainda um Estado colonial.
16:15Leva 100 anos
16:16para Palmares
16:16ser destruído.
16:17Então você mostra
16:18que tinha ali
16:19uma inteligência,
16:21uma forma de organização
16:21econômica,
16:22política,
16:23mesmo de guerra
16:24muito interessante.
16:26Só quando botaram o canhão.
16:28Mas perderam.
16:29Então,
16:31trazer o 20 de novembro,
16:32quem traz primeiro
16:33são as escolas de samba
16:35que vão cantar essa saga.
16:36Depois o Candeia
16:38vai criar
16:39o Quilombos
16:41com uma escola de samba
16:43que cantasse mais
16:45essa tradição.
16:47e até que você tem
16:48pela primeira vez,
16:49porque quase ninguém fala,
16:50mas você tem hoje
16:50na Globo Play
16:51um seriado chamado
16:52Resistência Negra,
16:54que é um seriado
16:55que fala justamente
16:57desta trajetória
16:58em cinco episódios.
17:00Você tem outras iniciativas
17:02que foram muito importantes
17:03antes dessa,
17:03mas em cinco episódios
17:05e produzido
17:06no Estúdio Globo
17:07com direção negra,
17:10com roteiristas negros,
17:11com diretor
17:14de arte negro,
17:16que é o Carnavalesco da Portela,
17:18o André.
17:19Quase ninguém fala,
17:20mas está lá.
17:20E está grátis.
17:22Está aberto.
17:23Eu sou o criador
17:24ao todo.
17:26Fala um pouco para a gente
17:27qual a importância
17:28de ter esses produtos,
17:29ter as novelas,
17:30ter toda essa representatividade
17:31para se formar público
17:32e formar novos imaginários
17:34também sobre a visão
17:35da população negra.
17:36Eu acho que ela
17:37é muito mais do que isso,
17:38é formar autoestima
17:39para a população negra.
17:40Eu diria isso.
17:41Primeiro autoestima
17:41da população negra
17:42e consciência
17:42da população branca.
17:44Porque parte
17:45da população branca
17:46no Brasil
17:46acha que não tem nada
17:47a ver com a escravidão.
17:48E não é nem errado
17:49pensar assim.
17:51Porque muitos
17:51são filhos
17:53já dos que vieram
17:55para cá depois,
17:56de imigrantes.
17:58De italiano,
17:59de espanhol e tal.
18:01Então,
18:01acham que não tem nada
18:03a ver com o processo
18:03escravista.
18:06não só tem a ver
18:07porque é ele
18:07que vem a ocupar
18:08os espaços
18:09que deveriam ir
18:10com uma noção
18:11totalmente diferente
18:12de direito de acesso
18:13à terra,
18:15trabalho remunerado.
18:17Vocês não pensam isso.
18:18Então,
18:18tem nova geração
18:19que acho que não tem
18:19nada a ver.
18:20Isso foi lá atrás.
18:21Isso ressoa até hoje
18:23na sociedade brasileira,
18:24que é o que nós
18:24estamos falando.
18:26Como é que leva anos
18:27os meios de comunicação,
18:28entendeu?
18:29Só depois da cota
18:30se você observar.
18:32Porque a cota,
18:33querendo ou não,
18:33ela trouxe
18:35uma nova ascensão
18:36de um grupo negro
18:37na sociedade
18:38e, querendo ou não,
18:39uma base embrionária
18:40para a ampliação
18:42de uma classe média negra,
18:43porque já existia.
18:45A classe média intelectual
18:47existia.
18:47Ela era invisível.
18:48Ela era muito pequena.
18:50Então,
18:51hoje você tem
18:52e cresce.
18:53E também,
18:53obviamente,
18:54se você cria um consumidor
18:55que tem mais instrução,
18:57teve mais acesso
18:58à educação,
18:59ele vai ser muito mais exigente.
19:00E isso é que está
19:00no bolo da discussão.
19:03No bolo da discussão.
19:04Que ainda não está
19:06nos espaços
19:06de mercado de trabalho
19:07quanto se prepararam.
19:09Não é à toa
19:09que está virando empreendedor.
19:13Algumas empresas,
19:14por mais que elas tentaram
19:15se abrir
19:15para um diálogo
19:18da diversidade,
19:19tem problema,
19:20porque você não muda
19:21a estrutura da empresa.
19:23Porque não adianta
19:24a empresa dizer
19:24que ela tem uma pauta
19:26se a sua mentalidade,
19:28a sua estrutura,
19:29ela continua
19:30reproduzindo o racismo.
19:32Então,
19:33parece que é os negros
19:34que entram lá
19:34que não tem capaz
19:35de intervenir.
19:35O bolo é criador de caso.
19:37Entendeu?
19:38Porque muitos até
19:38por conta disso.
19:39Porque não sabe lidar.
19:40Mas se você não muda
19:41a estrutura,
19:42se você não muda
19:43a estrutura social brasileira,
19:45como é que você vê
19:46uma coisa tão difícil
19:49de compreender
19:49que a representação
19:51dos negros
19:52em alguns espaços
19:53é ínfima?
19:55Mas na medida
19:56que você aumenta
19:57a possibilidade
19:59deles ter acesso
20:00à educação,
20:01obviamente,
20:02essa pressão vai aumentar.
20:03Você tem uma massa crítica
20:04muito mais bem preparada
20:07do que tinha
20:08na nossa época,
20:09na nossa geração,
20:11para enfrentar
20:11o racismo estrutural
20:13do Brasil.
20:14Enfrentar com o diploma
20:15na mão,
20:15por isso a importância
20:16da Scott,
20:17toda essa discussão
20:18de que fazer
20:18com que as pessoas
20:19possam ser reconhecidas
20:20pelo estudo
20:21e a partir daí...
20:22E observa,
20:23como esse cego
20:24conta a própria Cota
20:25que é que ela trouxe,
20:26que primeiro dizia
20:28que Cota não podia
20:29porque os negros
20:29tinham que ter acesso
20:31ao ensino fundamental,
20:32como se desde o século XIX
20:35os negros não tivessem
20:36várias iniciativas
20:37de educação.
20:39Tem uma carta
20:40dos Libertos de Vassoura,
20:45logo após a abolição
20:46da República,
20:48que ele escreve
20:49para o Rui Barbosa,
20:52dizendo que se não fosse
20:54cumprido um artigo
20:55da Lei do Vento Livre.
20:56Porque ele tinha
20:57um artigo
20:57na Lei do Vento Livre,
20:59porque ele sabe disso,
20:59que falava da educação
21:00dos ingênuos.
21:01Era chamado de ingênuos
21:02as crianças.
21:04E que falava,
21:04e dizia,
21:05se não forem
21:06dada educação
21:07para os nossos filhos,
21:08poderão virar
21:09uma mão de horta
21:10assassina no futuro.
21:12Está ali a preocupação.
21:14Essa carta está
21:15no Arquivo Nacional,
21:17eu fui funcionar
21:18do Mato Grosso,
21:18está lá no Museu Nacional,
21:19e também na Casa do Rebambosa.
21:20Está lá a carta,
21:22feita pelos Libertos de Vassouras,
21:26século XIX,
21:27logo depois da abolição
21:28da República ali.
21:29Um pouco depois da República.
21:31Então,
21:31mostra a preocupação.
21:32Depois você tem
21:33as escolas do preto estado,
21:35as escolas negras,
21:36eu vim com pessoas
21:37que eram da Irmandade
21:38daqui,
21:40do Rosário,
21:41tem uma tese de doutorado
21:41que fala sobre isso.
21:44É do Igor,
21:46o professor Igor,
21:47que fala sobre isso.
21:49E tem
21:50a experiência também
21:52da frente negra brasileira,
21:53porque o analfabeto
21:54não votava.
21:56Então,
21:56a frente negra
21:57fez uma experiência
21:57de educação
21:58para que as pessoas
21:59pudessem ser cidadão
22:00e votar.
22:01E aí,
22:02nos anos 40,
22:02o próprio teatro espiritual
22:03do negro,
22:04para ter ator,
22:05tinha que alfabetizar.
22:07Isso foi antes
22:08do Paulo Freire.
22:10Muito antes
22:10do Paulo Freire.
22:12E essas experiências
22:13não são ditas
22:14de educação
22:15da comunidade negra.
22:16Então,
22:16parece que a povo
22:17só queria a cota.
22:18Não,
22:19cota nós,
22:20eu sou dessa geração,
22:21somos das pessoas
22:22que lutei por cota
22:23e continuo.
22:24Na verdade,
22:25era o seguinte,
22:25a gente percebia
22:26que você não tinha espaço
22:27nas universidades públicas.
22:29Pública,
22:30o que que é?
22:30É o imposto
22:31de todo mundo.
22:32E o problema
22:33é dizer que era mérito,
22:34mas não é mérito.
22:36Porque mérito
22:37é quando você
22:38parte do mesmo lugar.
22:39O Locke fala isso,
22:39tábola rasa.
22:40Então,
22:41você tinha que partir
22:41do mesmo lugar
22:41do que eu.
22:42Então,
22:43você mora aqui
22:44na Zona Sul,
22:44escuda no Santo Agostinho.
22:46O cara mora lá
22:47na Mangueira,
22:48entendeu?
22:50Ou com as condições
22:51que tem que largar a escola
22:53para vender limão,
22:54para poder arrumar um dinheirinho.
22:55para levar,
22:55você acha que isso é mérito?
22:57Aí,
22:58você vem dizer mérito.
23:00Eu poderia,
23:00eu sou o maior exemplo
23:01de uma pessoa
23:02que poderia dizer
23:02que isso era o mérito.
23:03Eu não falo isso.
23:04Você imagina,
23:05é um filho de prostituta,
23:06criado no SEM,
23:07na FUNABEM,
23:10colégio interno,
23:11né?
23:12Fui trabalhador,
23:13não sei o que e tal,
23:13e pós-doutor
23:14na Universidade Federal
23:15do Rio de Janeiro.
23:17Mas,
23:17será que se eu tivesse
23:18condições anteriormente,
23:19se eu conseguir ser
23:19pós-doutor e professor
23:20porque isso era o professor?
23:21Você imagina onde eu estaria?
23:23Então,
23:23mérito não é privilégio.
23:26As pessoas confundem
23:26privilégio com mérito,
23:28porque a sociedade,
23:28ela criou privilégios.
23:30E,
23:30até hoje,
23:31é uma sociedade de privilégios.
23:33E a questão racial
23:34está envolvida nisso.
23:35Então,
23:35a cota,
23:36ela foi interessante
23:37porque ela abriu o debate.
23:38Eu lembro muito bem,
23:40eu dei uma entrevista na época
23:43e que o pessoal dizia,
23:44eu dizia assim,
23:44não,
23:44eu só abro o debate.
23:46A cota,
23:47no fundo,
23:47ela vai abrir o debate.
23:50E não deu outra coisa.
23:51E,
23:52observa que dizer
23:53que a gente ia botar
23:54a pessoa despreparada
23:55na universidade,
23:56ia ampliar o conflito
23:59na universidade
23:59com a questão racial.
24:01O que ocorreu
24:02foi o contrário.
24:03Hoje,
24:04qualquer pesquisa
24:05hoje tem demonstrado
24:06que os cotistas
24:07têm um rendimento
24:08igual ou melhor
24:09do que a turma
24:09que não é cotista.
24:10Porque vestibular
24:12nunca mediu
24:13inteligência de ninguém.
24:14Mede instrução.
24:17Então,
24:17você botar
24:18que a gente
24:18é melhor instrução
24:19voltada para entrar
24:19no vestibular.
24:20vestibular era isso,
24:21uma indústria.
24:22Tanto que foram eles
24:23que reagiram contra.
24:24Porque essa indústria
24:25do vestibular
24:26ia ser atingida.
24:28Porque você entra
24:29para poder,
24:29numa escola,
24:30para você aprender
24:30para defender
24:31o próprio da faculdade.
24:32Ou não era isso.
24:32Então,
24:33foram quem mais
24:33foi que foram contra.
24:35Isso demonstrou
24:35que não.
24:36E,
24:36segundo,
24:38de fato,
24:39o racismo cresceu
24:40nas universidades,
24:41algumas universidades.
24:41mas não foram os negros,
24:43são os brancos.
24:45Ou não é.
24:46Que vai lá,
24:47picha o banheiro,
24:49que não sei o que.
24:49Alguns professores
24:50que não estão preparados
24:51para lidar com esse conhecimento.
24:53Eu digo que a única forma,
24:54como professor na universidade,
24:56que a universidade tem
24:57de ser brasileira
24:58e não ser uma universidade
24:59que dialoga com a Europa
25:01e com os Estados Unidos,
25:02que a universidade do Brasil
25:03é assim, né?
25:04Academia,
25:04não é assim, né?
25:05Você dialoga
25:06ou com os Estados Unidos
25:07ou com a Europa.
25:08Principalmente com a França,
25:09primeiramente,
25:10depois a Inglaterra
25:11e depois a Alemanha.
25:12Ou não é.
25:13Você tem que vir de lá e tal.
25:15Mas ela não pensa
25:16a realidade brasileira.
25:18E se tem uma coisa
25:19de você começar a entender
25:20a realidade brasileira
25:21e por que essa estrutura
25:22não muda,
25:23porque sempre ela aumenta
25:24a desigualdade,
25:25sempre ela aumenta
25:26a exclusão,
25:27é aproveitar justamente
25:28esses meninos
25:28que vêm lá
25:29da Baixada Fluminense,
25:31que vêm dos Moços,
25:32porque entram na universidade.
25:34Então, em vez de você
25:34impor a eles
25:35um modelo eurocêntrico,
25:38você tem que abrir
25:38possibilidade
25:39de receber também
25:40a sua contribuição.
25:42E isso é diversidade.
25:43É um lugar
25:43para você abrir um debate.
25:45Então, essa visão cartesiana,
25:47quando vai estudar
25:48culturas que não são cartesinas,
25:50ela não dá conta.
25:52Ela não dá conta.
25:53Dá mais na área sociais.
25:54Ela não dá conta.
25:56Se ela dá conta
25:57na área da economia,
25:59também não dá,
26:00porque a economia
26:01cada vez mais
26:01tem clara de exclusão
26:02no Brasil,
26:03desigualdade.
26:04Todo mundo sabe
26:05um pouco isso.
26:06A informalidade no Brasil
26:07sempre foi uma coisa
26:08muito grande.
26:09mas para trabalhar
26:10de inclusão e tal.
26:11Por quê?
26:11É uma questão central
26:12que tem a ver
26:13com a república.
26:14A república não foi
26:15uma necessidade
26:16da sociedade brasileira.
26:17Ela foi um golpe.
26:18E até hoje
26:19é grande briga
26:20no Brasil
26:21você transformar
26:22essa população
26:22em cidadão.
26:24Tanto que a grande briga
26:25é um pouco essa.
26:26Porque quem te disse
26:27que o fato de eu ser pobre
26:28morar em uma favela
26:29eu não sou cidadão.
26:30Quem disse isso?
26:32Quem disse
26:33que a polícia
26:33pode me tratar
26:34de uma forma
26:35desrespeitosa,
26:36diferente de uma pessoa
26:37que mora num condomínio?
26:39Quem falou isso?
26:41Isso está
26:41no modelo escravista.
26:44Então a república
26:45ainda não se impôs.
26:47Ela ainda não foi ampliada
26:48para todo o segmento.
26:50Porque você é cidadão.
26:52Então como é que você
26:53sendo cidadão
26:54você tem que ser tratado
26:54com respeito.
26:55O fato de ser pobre
26:57o fato de você
26:59uma coisa
26:59é ser criminoso.
27:01E criminoso
27:01não tem classe social
27:03pelo que eu tenho visto.
27:04Mas se o criminoso
27:05você é tratado
27:06diferente.
27:07O branco
27:08que mora
27:09em lugares
27:09privilegiados
27:10é tratado.
27:11A polícia chega
27:12às seis horas da manhã
27:14toca a campainha
27:15ou não é assim?
27:17Aguarda o cara
27:17atender ou não
27:18se o cara atender
27:19faz isso por ter
27:20que você vai subir.
27:20E na comunidade
27:21você vai prender
27:23um criminoso
27:23que você deve
27:24prender o criminoso
27:25mas você torna
27:25todos os outros suspeitos
27:27que não tem nada a ver
27:28com aquele crime.
27:29Você está como se eles
27:30fossem cúmplices.
27:31Porque são negros.
27:33A gente está
27:34em ano eleitoral.
27:35Mais uma vez
27:35a gente tem um pleito
27:36que não tem candidatos
27:38pelo menos até o momento
27:40negros.
27:41O Brasil ainda está
27:42muito longe
27:43de conseguir ter
27:44o que os Estados Unidos
27:45conseguiram recentemente
27:46com o Obama.
27:47Ter um candidato
27:48com potencial
27:49para chegar na presidência
27:50que seja negro?
27:51Potencial tem.
27:53O problema é
27:54as estruturas
27:55partidárias
27:56econômicas
27:58sociais e culturais
27:59que dominam
28:00as agremiações.
28:04Eu lembro
28:04que você acompanhou
28:05um fato
28:06que aconteceu comigo.
28:07Você até
28:07deu o furo.
28:09Na época,
28:09primeiro,
28:10tem a ver com isso.
28:12As pessoas
28:13que hoje
28:13são lideranças
28:15de partida,
28:15alguns não são
28:16lideranças,
28:16são donos
28:17de partidos,
28:19eles não têm
28:20essa...
28:21Virou um negócio
28:23que você troca ali
28:24e não um projeto
28:25de melhorar o país.
28:26São os problemas
28:27que nós temos,
28:28na verdade,
28:29temos enfrentado.
28:30E isso tem a ver
28:31com a representação.
28:33Observe que a representação
28:34cresce do ponto de vista
28:36progressista,
28:37por um lado,
28:38mas mesmo assim
28:40não são ainda
28:42candidatos a prefeito,
28:43de muito peso,
28:44a governador.
28:45Ou seja,
28:45quando o partido
28:46vai perder,
28:46você lança o candidato negro.
28:48Ou não é isso?
28:49Se o partido
28:50vai ganhar,
28:51você não lança
28:51o candidato negro.
28:53Então,
28:54você pode dizer
28:55que essa
28:55tem sido
28:56a movimentação
28:58que você tem.
28:59E tem um outro lado
29:00que tem crescido
29:02candidaturas negras,
29:03que é o viés
29:04das igrejas
29:06evangélicas.
29:07Entendeu?
29:08Esse é um outro lado
29:09que você vai observar.
29:10Mas também
29:11nesse universo.
29:12Também não chegam
29:13a ser candidatos
29:14a majoritário.
29:15Na hora,
29:15são os brancos.
29:17Então,
29:18essa relação
29:18de reprodução
29:23do racismo
29:24estrutural
29:25estão também
29:25nos viés partidários.
29:27Você não pode dizer
29:28que é só uma coisa
29:29da direita.
29:30Não é só da direita.
29:32E observa
29:33que na votação
29:34do não cumprimento
29:35das cotas raciais
29:37nos partidos políticos,
29:39todos votaram
29:40para ser alixados
29:41no Congresso Nacional.
29:43Um absurdo.
29:43Todos.
29:45Acho que um ou outro
29:46que foram contra,
29:47talvez só o pessoal,
29:48e um ou outro
29:49que foram contra,
29:50mas a maioria
29:50foi toda a favor.
29:53Porque não cumpriu
29:54uma medida
29:56do TSE
29:57que pedia
29:57que você
29:59desse
30:00mais verba
30:01para as candidatos
30:02laterais negras
30:02e dá-se mais tempo
30:03de televisão.
30:05Então,
30:06você vê,
30:06não é uma vontade
30:07de construção política,
30:09de formação.
30:09Por outro lado,
30:10isso é uma formação.
30:11Você tem quadros.
30:12Mas se você não
30:12cria as condições concretas...
30:13Todo mundo tem
30:14conversado comigo hoje.
30:15Vamos estar conversando
30:16comigo.
30:16Se não cria as condições
30:17concretas e ser objetivas,
30:19não adianta.
30:19É usar o nome.
30:21Entendeu?
30:22Você acha que não
30:22teríamos condições?
30:23Teríamos condições.
30:24Quantas pessoas...
30:25Não estou falando
30:25do Inverno,
30:25não estou falando
30:26de quantas pessoas
30:27eu conheço.
30:27Ou que você conhece
30:28e teria uma capacidade
30:30de você construir,
30:31inclusive,
30:32a lógica
30:33de ser candidato
30:34a presidente.
30:35E como que no processo
30:37as pessoas queimam.
30:39Arrumam sempre
30:39um problema
30:40e queimam.
30:42Estamos muito longe,
30:43então, ainda
30:44de alcançar isso?
30:46Do ponto de vista
30:47dos partidos
30:48que nós temos hoje
30:49no Brasil,
30:50estamos longe.
30:51Longe.
30:52Agora,
30:52a sociedade tem
30:53um papel importante.
30:56Porque uma coisa
30:56é o partido,
30:57a coisa é a sociedade.
31:00Então, é o seguinte,
31:01a sociedade pode,
31:02no futuro,
31:03reagir.
31:03Tanto que eles nunca
31:04quiseram a candidatura
31:06à vussa.
31:08Nunca quiseram
31:09a candidatura à vussa.
31:10Não passa no Congresso
31:11Nacional.
31:12Porque se passasse
31:14a candidatura à vussa,
31:15talvez era uma oportunidade
31:16de nós testarmos.
31:18O Estado do Rio
31:19foi exemplo disso.
31:20Você teve
31:21uma vice-governadora
31:23e eu lembro
31:24que quando ela foi
31:25candidata a prefeito,
31:26que era da coordenação
31:27da campanha dela,
31:29a reação que se tinha.
31:31E observa que
31:31o que foi usado
31:32para impactar
31:34a candidatura
31:35de forma negativa
31:36foi o quê?
31:37Foi o arrastão.
31:39Sim.
31:40Lembra na época?
31:41Criaram um arrastão
31:42na praia da Zona Sul
31:43e ligaram como se fosse.
31:45Ou seja,
31:45essa negra no PD
31:46vai dar para a gente
31:47essa turma aqui.
31:48Entende?
31:49Como eu estou falando?
31:50Não é criar políticas
31:51para essa turma.
31:53Entende?
31:54E o candidato branco,
31:55às vezes,
31:55ele quer olhar o bem feitor
31:57para a comunidade dele.
31:59Você está vendo?
31:59Põe chapiel,
32:00vai lá samba,
32:01vira cabalhota,
32:02sabe o que é e tal.
32:03Entendeu?
32:04E você viu recentemente
32:05o que aconteceu, né?
32:06Essa gente.
32:08Entende?
32:08Que aí você vê
32:09da verdade
32:10o que está por trás.
32:11Ou seja,
32:12da convicção.
32:13Você escapa, né?
32:14Tem um momento
32:15que a coisa aparece,
32:16o preconceito aparece.
32:18Mas a gente tem
32:19que manter diálogo.
32:20Eu sou favorável
32:22ainda a manter diálogo.
32:23Eu costumo dizer
32:24que eu sou de uma geração,
32:25estou com 71 anos.
32:26Eu sou de uma geração
32:27que está deixando o legado.
32:29Entendeu?
32:29Então o problema
32:30não é resolver
32:30o problema do invadir,
32:31que eu não dá diálogo.
32:32Sou funcionário
32:32público federal aposentado,
32:34meus filhos estão formados,
32:36sou uma pequenininha
32:37que não está.
32:38A minha neta acabou agora
32:39de passar para a faculdade
32:40de Direito,
32:41fiz uma nota
32:41e todo mundo bateu palma.
32:42Você imagina
32:43o que era que saiu
32:43do lugar que eu saí,
32:44nas condições
32:45que eu cheguei, né?
32:47Você conseguir,
32:48não só você,
32:49mas conseguir fazer
32:50os seus terem mobilidade.
32:52Mas isso resolve o problema.
32:55Tem que ser coisa
32:55mais coletiva, né?
32:56Você tem que abrir
32:57para que outros
32:57possam chegar
32:59nesses espaços.
33:00Eu queria aproveitar
33:00um pouquinho
33:01esse momento final
33:02aqui do nosso programa
33:02justamente para poder
33:03trazer um pouco
33:03da sua história de vida
33:04que é um exemplo também
33:06porque é uma trajetória
33:07muito...
33:08Se fosse uma obra
33:10de ficção,
33:10Ivani,
33:11teria aqueles momentos
33:12que a gente ficaria preso
33:14em tantas ações
33:15que você passou.
33:16Vai ser?
33:16Vai ser.
33:17Olha aí.
33:17Vai ser que já tem...
33:19Estou tirando informação
33:19aqui sem querer.
33:20Estou lidando.
33:22Você merece
33:22que você tenha sido
33:23um parceiro.
33:25Estou escrevendo um livro
33:26de memória
33:28e já tenho uma conversa
33:30com a TV Globo
33:32de virar um documentário
33:34e talvez virar um filme.
33:36Ótimo.
33:36Quer dizer, tem,
33:37mas eu não quero...
33:38A grande luta minha
33:39é não transformar
33:40naquele filme
33:40e eu venci por mim mesmo.
33:42Sabe como é que é?
33:43Porque para uma sociedade
33:44como nossa
33:45é que todo mundo quer isso.
33:46O cara venceu
33:46por ele mesmo.
33:47Isso não tem sentido
33:48para mim.
33:49Só tem sentido
33:50quando você conta
33:50uma história,
33:52mas ela não é sua,
33:53como ela é uma história
33:54que ela pode representar
33:55uma possibilidade
33:58de mudanças
33:59e de inspiração
34:00para que ela gere
34:02na vida das pessoas.
34:03Não uma mudança individual,
34:05mas talvez
34:06uma mudança coletiva.
34:08Eu tenho esse sonho,
34:08mas estou escrevendo já
34:12e tenho esse diálogo
34:13já encaminhado,
34:16uma boa conversa
34:16nessa direção.
34:18A sua mãe foi
34:19brutalmente assassinada
34:20quando você tinha
34:21sete anos de idade.
34:22Depois você foi
34:22para um internato,
34:23um serviço de assistência
34:25ao menor,
34:26ligado ao Ministério
34:27da Justiça.
34:28Isso lá no meio
34:29daquele golpe militar
34:30que a gente sabe...
34:31Isso antes.
34:31Nos anos 60,
34:33eu fui internado em 62,
34:35o golpe militar em 64.
34:36Em 64.
34:36E aí você passou
34:38mais de 12 anos
34:39recluso na Fundação Nacional
34:41do Bem Estado Menor,
34:42a FUNABEL.
34:42Sem família.
34:43Sem família,
34:44sem parentes por perto,
34:45só ali dentro
34:47daquele sistema
34:48que é considerado
34:49tanto crianças
34:49como jovens negros.
34:51Uma ameaça social.
34:52Criminosos
34:53só por existirem.
34:55E aí, de repente,
34:56hoje corta,
34:57vamos fazer um recorte disso,
35:00estou aqui diante
35:00de um pós-doutor
35:01pela FRJ.
35:03Eu queria que você me falasse,
35:04Ivani,
35:05o que passa na sua cabeça
35:06quando você olha
35:07para o passado?
35:07O que você geria
35:08para aquele Ivani jovem?
35:10Então, o primeiro é...
35:11Observa que a minha mãe
35:12foi assassinada,
35:13eu vou descobrir depois,
35:14que foi por um policial
35:16da Invernada de Olaria,
35:19que joga álcool
35:20no corpo dela
35:21e joga fogo.
35:23Eu já estava internado.
35:25E tudo me leva a crer
35:26que isso era uma combinação
35:27anterior,
35:28porque a minha mãe
35:29era da favela do esqueleto,
35:31ela morou na favela do esqueleto
35:32antes de ir para a Praça Onze,
35:34e ali onde circulava
35:35o mineirinho
35:36e o cara de cavalo.
35:38Então, tem muito a ver
35:40com essa história
35:40de bandido bom,
35:41bandido morto,
35:42que era justamente ali,
35:43fazer parte desse cenário ali.
35:45E eu não sabia disso,
35:46eu vou descobrir
35:47para mim depois.
35:49E observa que a minha vida toda,
35:51quando eu saí da Funabem,
35:54aí depois eu crio
35:54a associação dos ex-alunos
35:55da Funabem,
35:57eu vou passar para a universidade,
35:59eu vou estudar
36:00na faculdade de Lítia,
36:01ao mesmo tempo
36:01que eu estudei na Funabem,
36:02eu vou estudar na Notre Dame.
36:05Então, é muito engraçado,
36:06eu sou formado
36:07pela Notre Dame
36:07em educação.
36:09E é engraçado
36:10quando eu digo
36:10na Notre Dame,
36:10o pessoal pensa
36:11que é em Paris
36:12ou sei lá nos Estados Unidos,
36:13mas é aqui em Ipanema também,
36:14que é a mesma coisa,
36:15é um lugar de elite.
36:16Eu era um dos poucos pretos
36:18daquela universidade,
36:19pobre,
36:19mas interessante ali
36:21da faculdade saber.
36:22Até então,
36:23eu sabia
36:24da morte dela
36:25e o que me dizia
36:26que ela tinha se suicidado,
36:27essa era a versão oficial.
36:29A versão oficial
36:30que eu recebi,
36:31quando eu tinha 14 anos de idade,
36:32eu volto lá.
36:34E tem a que circula
36:35no meio das pessoas
36:37daquela região,
36:38da favela do esqueleto e tal.
36:40Agora mesmo
36:40que eu encontrei
36:40com uma pessoa
36:41que me viu
36:41na barriga da minha mãe,
36:43fiquei emocionado.
36:44Ela disse assim,
36:44eu te vi na barriga
36:45da sua mãe.
36:46E ela conta a história.
36:47Quando ela me conta
36:48a história,
36:48vai estar no meu livro
36:49essa história.
36:50Como é que eu vou encontrando
36:51o fragmento
36:52dessa história
36:53e das pessoas.
36:55Então,
36:55eu vou lutar
36:55contra o grupo de extermínio,
36:57vou lutar
36:58na questão
36:59das mães de Acari,
37:00do desaparecido de Acari,
37:02como é que eu fui
37:02conduzido, né?
37:03Aí vou lutar
37:04contra a chacina
37:05da Candelária,
37:06contra a chacina
37:06do desligado geral,
37:07que o exército
37:07não vai ficar lá.
37:08A partir dessa luta,
37:09como é que eu fui
37:10conduzido a isto?
37:12Tanto que,
37:13depois pela questão racial
37:14e hoje pela
37:15intolerância religiosa.
37:15Mas é interessante
37:16que,
37:17no ano 2000,
37:18ali,
37:20eu vou formular
37:21a Secretaria
37:22de Direitos Humanos,
37:23o governo Garotinho
37:24e Benedita.
37:24Sou eu que formulo
37:25a Secretaria.
37:27E a virar o secretário
37:28acabou virando
37:28o Abdi,
37:28eu sou o subsecretário.
37:29Então, se até hoje,
37:30na estrutura de Estado,
37:32tem a Secretaria de Direitos
37:34e manda o subsecretário,
37:35eu fui eu que formulei.
37:36Nunca mais saiu
37:37da estrutura do Estado.
37:38Pouca gente sabe disso.
37:40Então,
37:40a minha vida
37:41toda
37:43não foi só assim,
37:44você me perguntar,
37:44o que você pensa hoje?
37:46Ou que contribuição?
37:47O Estatuto
37:47da Criança e Adolescente
37:48veio a partir
37:49de uma ação nossa,
37:50uma campanha chamada
37:51Não Matem Nossas Crianças,
37:52que eu fui para a Europa
37:53denunciar os termos
37:54de criança e da adolescente,
37:56e aí a resposta aqui
37:58foi o Estatuto.
37:58Eu fui do primeiro grupo
37:59que pensou o pré-Estatuto,
38:01porque teve um projeto
38:02anterior de pré-Estatuto.
38:05As políticas de ação
38:06afirmativas
38:06para a comunidade negra,
38:07seja hoje
38:08o Plano Nacional
38:08de Combate da Ruação Regiosa.
38:10Então,
38:10mais do que pensar
38:12onde eu cheguei,
38:14eu tenho que pensar
38:15o que eu contribuí.
38:17Talvez esse é o medo
38:18de não me deixar
38:18de ser majoritário.
38:21Entendeu?
38:22Agora,
38:22o que eu acho
38:23mais bonito
38:23nisso tudo
38:25sou eu na rua.
38:26Se um dia
38:26você andar comigo na rua,
38:27você vai ver isso.
38:29As pessoas me param,
38:30me abraçam
38:31e dizem,
38:32eu admiro muito
38:33o seu trabalho.
38:34Isso independente
38:35se é canobrecista,
38:37pessoas que se dizem
38:37que são cristãs,
38:38pessoas brancas.
38:40Então,
38:41eu costumo dizer
38:42que eu nunca precisei
38:42mudar de calçada.
38:44Tem hora que você,
38:44lá vem a turma,
38:45muda a calçada
38:46que o pau vai cantar.
38:47Ou ninguém jogou ovo,
38:48como o pessoal diz.
38:49Se você entrar no metrô
38:50do treino comigo,
38:51é a mesma coisa.
38:52Porque eu costumo,
38:52às vezes,
38:53ir para a universidade
38:54de metrô.
38:54Porque quando você
38:55vira uma figura pública,
38:56você não pode deslumbrar.
38:59Então,
39:00você não pode deslumbrar.
39:00Você deslumbra,
39:01o grande problema
39:02das lideranças políticas
39:03do Brasil,
39:03é um pouco isso.
39:04Você constrói as lideranças,
39:06elas no final
39:06se colocam naquele lugar
39:08e acham que elas são elas.
39:10Elas dão um stand
39:11que é um processo,
39:12um projeto coletivo
39:14que foi construído
39:15de credibilidade.
39:16que é um projeto.
39:16Sim,
39:17esse é o problema
39:17que é muito individualista.
39:19Não foi à toa
39:20que você viu
39:20que da vez passada
39:21que eu era o pré-candidato
39:22e aquilo que eu fosse federal
39:23eu não topei.
39:24Naquele momento
39:24não era esse o projeto.
39:26Porque o meu projeto
39:27eu sempre brincava o seguinte,
39:29eu, digamos,
39:29eu não sou obrigado
39:30a ganhar para ser senador,
39:31mas vai lá que eu ganho.
39:32Porque o meu negócio
39:33era fazer o debate.
39:36Porque precisava,
39:37desde 2018,
39:38se fizesse o debate,
39:39alguém tinha que publicamente
39:40fazer o debate,
39:41que não foi feito.
39:42E a esquerda não soube fazer.
39:45Há certos temas
39:45que ela não sabe trabalhar.
39:48Há certos temas
39:48que são as questões
39:49da segurança.
39:51Você lembra,
39:51o único cara...
39:52E é um gargalo,
39:53assim,
39:53que precisa ser...
39:55A única grande liderança
39:56política
39:56que soube trabalhar
39:57essa questão
39:57e pagou um preço
39:58por isso
39:59foi o Brizola.
40:00Quando ele disse
40:01que favelar
40:02tinha que ser chamado
40:03de cidadão.
40:03Você lembra,
40:04na época,
40:04que ele disse isso,
40:05você passava a dizer
40:05que ele era cúmplice do tráfico.
40:07Ele disse uma coisa
40:07tão simples.
40:08E quando começou
40:08a colocar CIEP em...
40:10E educação
40:11de qualidade
40:11e horário integral.
40:12Isso todo mundo fala
40:14como legado,
40:15muitos tentam fazer
40:15e tal,
40:16mas você vê
40:17que alguns
40:17dos seus partidários
40:19têm isso
40:20como principal tarefa.
40:22A relação
40:23virou outra.
40:24Por que você acha
40:24que falta tanto
40:25para a esquerda
40:25enfrentar o tema
40:26da segurança hoje,
40:28segurança pública?
40:29É dialogar primeiro
40:30e não temido.
40:32As pessoas têm muito medo
40:33porque é o seguinte,
40:34hoje você tem uma...
40:36Você não tem projeto
40:38político na sociedade.
40:39você tem projeto eleitoral.
40:41Pensado há quatro anos.
40:43Projeto eleitoral
40:44é diferente
40:45de um projeto político.
40:47Projeto político
40:48você constrói,
40:49outros vão seguir
40:50o projeto,
40:51você deixa o projeto político.
40:52É um projeto eleitoral.
40:53Então,
40:54as facilidades eleitorais,
40:56na medida que você
40:57tem bancada,
40:58é importante
40:59para você ter acesso
41:00ao fundo partidário
41:01a tempo de televisão,
41:03virou um problema.
41:04porque hoje
41:05você não forma quadros.
41:06Nós somos de uma geração
41:08que você formava quadros.
41:09Eu sou formado
41:10nesse período.
41:12Eu sempre disse,
41:13agora nessa crise
41:13que você viu recente,
41:14no final do ano,
41:16eu não encontro
41:16com um prefeito
41:18reservado,
41:19vou ter um amanhã com ele,
41:20mas desculpa,
41:20não pode ser amanhã.
41:22Mas,
41:23você corta aí.
41:24Mas com ele,
41:25eu disse para ele
41:25no conteúdo,
41:26eu sou de uma geração
41:27que não fazia política
41:28com dinheiro.
41:30Você intervia
41:31na conjuntura.
41:32Foi o que nós fizemos.
41:34Ivanil,
41:34o nosso tempo está terminando,
41:35mas eu queria tocar
41:36também na questão religiosa.
41:38Eu acho que é um assunto
41:39que acaba atravessando
41:40toda a questão política
41:41hoje no Brasil também,
41:42até porque,
41:43querendo ou não,
41:44há grupos partidários
41:46que estão muito associados
41:47a igrejas também.
41:48Eu queria que você me falasse
41:49sobre isso.
41:50O Brasil deixou de ser
41:51um país católico
41:52como sua maioria
41:53na sua formação.
41:55Hoje já é um país
41:55que tem um avanço
41:57neopentecostal muito forte,
41:58muito presente.
41:59E as religiões
42:00de matrizes africanas,
42:01elas de alguma forma
42:02estão voltando,
42:04talvez por essas políticas
42:05afirmativas nos últimos anos
42:07também na sociedade,
42:08com uma certa força
42:09das pessoas terem
42:10a sua autoestima renovada
42:12de se afalar
42:13e de se assumirem
42:14dentro do candomblé,
42:16da Umbanda
42:16e de todas as outras religiões.
42:18Como é que você vê
42:18esse cenário político
42:19do ponto de vista religioso?
42:21O Brasil tende a ir
42:22para esse caminho
42:24que a gente tão aprendeu
42:26a pregar,
42:27que era a separação
42:27do Estado e religião?
42:29Primeiro,
42:29eu vou dizer o seguinte,
42:32se você olhar,
42:33de fato,
42:33a sociedade brasileira
42:35e o Estado brasileiro,
42:36ele nunca foi ateu.
42:39Nunca houve separação,
42:41houve a separação formal,
42:44mas sempre houve
42:45uma hegemonia
42:46dos católicos
42:47com relação
42:47ao Estado brasileiro.
42:49Isso é real.
42:51A novidade
42:52é quando os...
42:54Isso já é um debate
42:55desde os anos 30,
42:56dos anos 40,
42:58dos reformados,
42:59na época eram os reformados,
43:00os pedacólicos tinham,
43:01mas não tinha essa força.
43:03Já fazer esse debate
43:04é uma questão
43:05da laicidade de Estado.
43:05Engraçado que eles
43:06defendiam a laicidade
43:07do Estado.
43:08Eles defendiam
43:09a laicidade do Estado.
43:10Justamente por isso.
43:12Aí, nos anos 90,
43:15esses grupos
43:17neopentecostais,
43:18também alguns pentecostais,
43:19agora já teve
43:21Batista governador.
43:22Os senhores não sabem disso,
43:24o antigo Estado do Rio,
43:25Jeremias,
43:26Batista,
43:27as pessoas esquecem disso.
43:28Você já tinha aqui
43:29o Souza Márcio,
43:30eu tenho um aluno
43:31que está fazendo
43:32uma tese sobre ele,
43:33Batista,
43:33ele defendia
43:34a laicidade do Estado.
43:36O que faz aquela faculdade,
43:37a Universidade de Souza Márcio,
43:39é um negro.
43:39Ele tem um debate
43:40muito interessante.
43:42Então, tinha participação
43:43de metodistas,
43:45de presbiterianos,
43:47já sobre a questão
43:48da laicidade do Estado.
43:49A própria questão
43:50de você ter
43:50o Cristo Redentor
43:51quando ele vai ser feito
43:54e vira um monumento
43:55da paz,
43:56na época,
43:57é por causa
43:57do Souza Márcio.
43:59Porque ele fazia pressão
44:00que não fosse
44:01uma coisa da Igreja Católica.
44:02Hoje é da Igreja Católica.
44:03Hoje mudou.
44:04Mas na época, não.
44:05Você vê que era
44:05um monumento da paz.
44:06Foi um acordo feito,
44:07político,
44:08onde eles pressionavam
44:10pela questão
44:10da laicidade,
44:11que eles se confrontavam
44:12com a Igreja Católica.
44:13Nos últimos anos,
44:14mudou esse cenário.
44:16Porque os neopetocrinários
44:18têm um projeto
44:18de poder.
44:20Eles não escondem isso.
44:21Em 2008,
44:21quando nós fizemos
44:23a primeira caminhada
44:24pela liberdade religiosa,
44:25com a Crivella,
44:26como digava no primeiro turno,
44:28e a partir da caminhada
44:29e outro não foi
44:29nem para o segundo,
44:31o Edir Marceiro,
44:32meu irmão,
44:32lançou um livro
44:34sobre a questão do poder.
44:36Nós só se esqueçam disso,
44:37mostrando o poder
44:37que eles queriam.
44:39Então,
44:39eu costumo dizer
44:40que nesse debate,
44:41o que vocês não estão
44:42percebendo,
44:43é que a disputa
44:45de hegemonia
44:45não é conosco.
44:46Nós nunca fomos hegemônicos.
44:48Nem seremos.
44:50Né?
44:50Como os católicos.
44:52Só que eles conseguiram
44:54um diálogo político
44:55que foi com setores católicos
44:58carismáticos.
45:00Pela agenda moral.
45:02Eles trouxeram a agenda moral.
45:04O que é essa agenda moral?
45:05fala do aborto,
45:06bate na pauta das mulheres,
45:09bate na questão
45:10da LGBTQIA+,
45:11não é?
45:12A população LGBT,
45:14moral.
45:15Correto?
45:16Só que eles
45:16arrastam essa galera,
45:18porque eles não chegam
45:18sozinhos
45:19em um projeto majoritário.
45:21Só com esse voto.
45:22Assim como os carismáticos,
45:24também,
45:25constrói tal,
45:26porque as religiões
45:27elas são plurais.
45:28Eu acho que as pessoas
45:29pensam que não.
45:30Você não pode,
45:31na verdade,
45:33generalizar com sinais
45:34e você cria o erro.
45:37E o que é que tem
45:38acontecido conosco?
45:39Nós somos minoria,
45:41mas nós temos que
45:42construir uma
45:43contra-hegemonia política.
45:44É isso que nós temos que fazer.
45:45Porque também
45:46no Canomblé,
45:47a junião matéria africana,
45:49ela é plural,
45:49ela também tem polícia.
45:51Entendeu?
45:52Ela tem guarda municipal,
45:53ela também tem pessoas
45:54de direita.
45:55Não pense que ela é de esquerda.
45:56É uma ilusão pensar isso.
45:58Mas o que é que nós
45:59temos feito
46:00nesses anos todos?
46:01Foi trabalhar
46:01a questão da autoestima,
46:02e a causa.
46:03Porque a causa
46:04ela consegue ser
46:05maior do que uma pessoa.
46:06E querendo ou não,
46:07nós temos que defender
46:07a diversidade,
46:09o Estado laico,
46:10a democracia
46:12e a equidade
46:13que está na Constituição.
46:15É isso que nós
46:15estamos fazendo.
46:16Não é você estar
46:16na minha religião
46:17e dizer que eu vou te salvar.
46:19Porque essa é uma agenda civil.
46:21Isso tem levado
46:22a crescer
46:23algumas lideranças
46:24em alguns lugares.
46:25Tanto que um debate
46:26no Rio de Janeiro hoje,
46:27muito crescente,
46:28é ter um representante
46:30que possa se eleger
46:32para a Câmara Federal.
46:34Esse é o debate
46:36que está sendo um pouco...
46:37É o objetivo.
46:37É o objetivo.
46:38Está sendo travado.
46:39Eu estou um pouco
46:39acompanhando esse debate,
46:41eu estou meio
46:41sendo puxado para cá,
46:42puxado para lá no debate,
46:43mas a minha avaliação
46:46é que quem vai eleger
46:47esse candidato
46:48vai ser a opinião pública.
46:50Porque tem uma opinião pública,
46:53sempre tem uma causa
46:55que a opinião pública apoia,
46:56se você observar.
46:57E a opinião pública
46:58não acha justo
46:59o que acontece
46:59com as religiões
47:00de matriz africana.
47:01Ela não acha justo,
47:02se você observar.
47:03E está muito de saco cheio
47:05de ver como
47:06se tem utilizado
47:07de má fé
47:09a política
47:10com a questão
47:11da religiosidade,
47:12da fé.
47:13Isso está na sociedade.
47:15Então, eu acho que
47:15a grande possibilidade
47:17de nós chegarmos
47:18nesse espaço
47:19tem a ver com
47:20essa ligação,
47:22claro,
47:23nos religiosos também,
47:24mas muito mais
47:25com essa opinião pública
47:26e que a lei era diversa.
47:28Ela vai pegar ateu,
47:29entendeu?
47:30Ela vai pegar
47:32católicos
47:33que vêm...
47:34De diferentes classes sociais.
47:36De diferentes classes sociais
47:36que acham que não é justo
47:38ser tratado
47:39desta forma.
47:40Então, é isso
47:41que tem que ser
47:42um pouco pensado.
47:43E isso é melhor,
47:44ou melhor,
47:45isso é maior
47:45do que qualquer coisa
47:46partidária.
47:48Porque isso leva
47:49uma pessoa
47:49a apoiar,
47:51desde que você
47:52consiga se colocar
47:53num lugar
47:54melhor,
47:55não perdendo isso,
47:57independente do partido.
47:58Você consegue ter
47:58mais força
47:59do que você tem.
48:00E observa que
48:00sempre no Rio de Janeiro
48:02tem sempre
48:03um espaço
48:04para isso,
48:05no meio da juventude,
48:05principalmente.
48:06Juventude é irreverente,
48:08entendeu?
48:08Quer irritar o outro,
48:10entendeu?
48:11A juventude adora.
48:12Quer ser do contra.
48:13Então, é um pouco isso,
48:14né?
48:15Mas o contra,
48:15no bom,
48:17ela quer dar resposta.
48:18O contra dela
48:19não é ser contra,
48:20é dar resposta,
48:21aquilo que ela está
48:22inconformada
48:22que ela não gosta.
48:24Então, eu acho que
48:24esses são os caminhos
48:26que nós temos um pouco
48:26que construir
48:27nesse momento.
48:28Aí sim,
48:29agora vai ser histórico.
48:30Se consegue isso
48:31aqui ou em São Paulo
48:32ou em outro lugar,
48:34isso nunca aconteceu.
48:35Porque uma coisa
48:35a gente dirigia aliados.
48:37Temos vários,
48:38são muito sérios e sinceros,
48:39mas não é a mesma coisa.
48:41E hoje,
48:42cresce nessa base
48:43a ideia de ter
48:44a representação.
48:46Maravilha.
48:46Gente, eu adoraria
48:47ficar aqui horas
48:48conversando com o Ivanho.
48:49Vocês viram, né?
48:49A gente começa
48:50falando de novela,
48:51vai para a política,
48:52vai sendo um apanhado
48:53histórico
48:54sobre o problema
48:54da falsa república
48:56que nós tivemos
48:57nesse país.
48:58Ivanho,
48:59muitíssimo obrigado.
49:00Eu te agradeço.
49:00Eu que agradeço
49:01aqui pelo papo sempre
49:02e pela parceria
49:03junto com a gente
49:04da Coluna.
49:04Gente,
49:05esse foi o nosso
49:05programa semanal
49:06da Coluna Gente.
49:07Vocês sabem,
49:08toda segunda-feira
49:09um programa novo no ar.
49:10Fiquem bem.
49:11Até a próxima semana.
49:12Tchau, tchau.
49:13Tchau, tchau.
49:13Tchau, tchau.
49:14Tchau, tchau.
49:16Tchau, tchau.
49:17Tchau, tchau.
49:18Tchau, tchau.
49:18Tchau, tchau.
49:18Tchau, tchau.
49:19Tchau, tchau.
49:19Tchau.
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