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  • há 23 horas
Ídolo do São Paulo, Hernanes analisa o momento do clube tricolor e explica por que o time se distanciou do protagonismo no futebol brasileiro. Para ele, o principal problema foi estrutural. O São Paulo perdeu organização, competitividade e hoje sofre para acompanhar rivais como Flamengo e Palmeiras, que se consolidaram com gestão financeira mais eficiente.

Na conversa, o ex-meia amplia o debate e conecta essa realidade a transformações maiores do futebol. Com longa passagens por clubes italianos, Hernanes debate sobre a crise da Seleção Italiana. O Profeta aponta a queda na formação de jogadores e a perda de competitividade do país como fatores decisivos. Já no Brasil, explica por que o tradicional camisa 10 está desaparecendo. Segundo ele, a base passou a formar atletas voltados ao mercado europeu, mais físicos e velozes, deixando de lado o perfil criativo.

O Bola Quadrada é o programa de futebol de VEJA apresentado por Fernanda Arantes, com comentários de Amauri Segalla e Fábio Altman.

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Transcrição
00:00Hernandes, você mora na Itália hoje, jogou muitos anos na Itália, né?
00:03Vivia intensamente o futebol italiano, fez sucesso na Itália.
00:07E a Itália, de novo, tá fora de uma Copa do Mundo.
00:09O que que tá acontecendo com o futebol italiano, Hernandes?
00:12Por que que isso vem acontecendo nas últimas quatro copas, né?
00:17Que a Itália não se classificou?
00:19É, aqui também a gente poderia fazer só um programa sobre isso, né?
00:24São vários pontos que a gente teria que tocar.
00:32E tudo começa em 2006.
00:34Se a gente pegar, em 2006, a Série A, os principais times, Juventus, Inter e Milan.
00:43Só pra dar um exemplo, pra dar uma foto.
00:45Eram compostos por 90% a 80% de jogadores italianos.
00:53Agora, a maioria dos times na Itália, inclusive os grandes,
00:58tem poucos jogadores italianos, menos de 50%.
01:03E nos times grandes, essa percentual ainda é mais baixa.
01:08E quando a gente vai olhar bem, a maior parte são defensores e goleiro.
01:15Então, do meu campo pra frente, a Itália realmente tá muito mal.
01:21Tem poucos jogadores jogando em alto nível.
01:24Então, a gente sabe que a qualidade, ela vem da quantidade, né?
01:29Quanto mais quantidade você tem, tá ali você pode pescar qualidade.
01:34Tem a competição entre eles, entre jogadores,
01:37que faz com que cada jogador queira se sobressair, né?
01:43E acabe aumentando sua performance.
01:46Então, isso é um fato.
01:49Tem poucos jogadores italianos jogando na Série A
01:52e jogando também em outras grandes ligas.
01:55Depois, o futebol italiano, ele perdeu credibilidade.
02:01Hoje, a gente vê pouca atividade, assim, poucos garotos jovens jogando futebol.
02:13A gente sabe que a maior parte dos jogadores
02:16vem de uma classe econômica mais baixa,
02:19porque tem no futebol aquela esperança de mudança de vida.
02:25Então, eu costumo dizer que aqui na Itália,
02:29quem tem uma condição um pouquinho melhor,
02:31já não vai colocar o filho pra fazer futebol,
02:36porque o sistema futebol perdeu credibilidade.
02:41Porque, sabe, e aqueles caras que são bons,
02:44sabem que pra jogar tem que ter uma escamotagem,
02:47tem que ser conhecido de alguém.
02:50Então, assim, tem poucos jogadores e o sistema perdeu credibilidade.
02:56E isso foi um acúmulo de anos, né?
02:58Porque eu falei em 2006 e a gente viu,
03:00são 20 anos que estava no topo do mundo
03:04e começou com esses hábitos que trouxe o futebol italiano até aqui.
03:10Também tem outros fatores, né?
03:11Mudança de mentalidade com que se joga aqui na Itália
03:15e a mentalidade com que se está jogando o futebol na Europa,
03:19na Champions e também as seleções.
03:22O futebol está muito mais rápido, muito mais dinâmico aqui na Itália.
03:25A filosofia ainda de um jogo mais tático, posicionado.
03:30Enfim, então, são vários fatores, como eu te falei.
03:32Tinha que falar em vários pontos com muito cuidado.
03:37Hernanes, voltando aqui pro futebol brasileiro.
03:40O Brasil sempre foi uma fábrica de armadores,
03:42de meias, de organizadores de jogo.
03:45Você talvez seja um dos últimos grandes exemplos
03:48desse tipo de jogador que a gente não tem mais no Brasil.
03:51O que acontece com o futebol brasileiro
03:53que já não produz o Camisa 10, digamos?
03:59É, é...
04:00Porque, como tu falou, a fábrica se adequou,
04:04se adaptou à demanda.
04:06Então, hoje, eu tenho visto que cresceram vários centros de formação de jogadores,
04:15mas é um centro de formação que não pensa no futebol brasileiro.
04:19Pensa em formar o jogador para vender para a Europa,
04:22para que tenha um sucesso financeiro mais proveitoso.
04:30E o que eles buscam na Europa?
04:32São jogadores fisicamente potentes, veloz.
04:38E, geralmente, os meias armadores que eu, justamente, me enquadro, me encaixo nisso daí,
04:44são jogadores mais lentos, mais técnicos, que pensam mais.
04:49Então, foi uma adaptação da fábrica para a demanda do mercado.
04:56E aí, aquele jogador um pouco mais franzino, um pouco mais lento na sua maturação.
05:02Porque eu vivi isso, né?
05:05Eu tive que ter muita determinação para conseguir o meu espaço.
05:09Já ali, velho, com 20 anos, 21, porque eu era mais lento, demorei para amadurecer.
05:14E, hoje, acompanhando alguns casos de alguns jogadores jovens,
05:19eu tenho visto como esses jogadores, que são mais técnicos,
05:23têm sofrido para ficar no time.
05:25Porque, se é um pouquinho já mais lento, mais desligado,
05:29naquela idade de 15, 16 anos, ele já manda embora.
05:32Não tem paciência.
05:33Então, eliminando os gansos, os Hernandes, os números 10 de futebol, né?
05:42Não, mas foi igual o vinho, tá?
05:43Ah, Hernandes, pegou o vinho.
05:45Hernandes, é inevitável te perguntar do São Paulo, né?
05:48Dada a sua ligação, evidentemente, com o time.
05:51O São Paulo, nos últimos anos, não tem brigado pelo título brasileiro.
05:54Muito longe disso, aliás, tem disputado em sequência ali o rebaixamento, né?
05:59Tem sido ameaçado de rebaixamento.
06:01Qual que é a sua percepção em relação ao São Paulo?
06:04O que se perdeu daquele São Paulo vitorioso dos últimos anos para agora?
06:07Hernandes.
06:09O São Paulo parou no tempo com várias coisas, né?
06:14Eu acho que nos últimos dois, três anos tem tentado se reerguer, se restabelecer,
06:22mas o gap, né?
06:24Foi, assim, o espaço temporal foi longo e o São Paulo ficou parado no tempo, né?
06:31Eu falo isso porque eu saio em 2010, São Paulo era uma das referências em estrutura e organização
06:39e volto em 2017, encontro, assim, eu até estranhei, não reconheci o ambiente, né?
06:49A estrutura tinha permanecido a mesma, mas não estava cuidada, não estava...
06:53A organização também tinha sido deixada de lado.
06:59Então, acho que o São Paulo parou no tempo e não se reformulou e, obviamente, a questão
07:11econômica agora, ela conta muito porque a gente vê o Palmeiras, temos o Flamengo,
07:17que estão tendo a hegemonia no futebol brasileiro, quer dizer, na América Latina, né?
07:21Tem um poder financeiro muito grande e é difícil competir, né?
07:29Porque, no final, a gente sabe que as empresas, as instituições, os clubes, os times, são
07:36feitos de pessoas, né?
07:37E as pessoas boas, competentes, custam caro.
07:40Se você não tem dinheiro, você não consegue trazer nem pessoas para...
07:44nem jogadores para jogar de qualidade, alto nível, nem...
07:49Enfim, na parte organizacional, né?
07:52Então, tem que ter paciência, tem que ter...
07:55Não pode ter que evitar os erros agora, não pode errar mais, já errou muito, e pensar
08:01a longo prazo para conseguir, para tentar conseguir se restabelecer.
08:07Bom, para a gente encerrar aqui, eu peguei até alguns números da carreira do Hernanes,
08:11Hernanes, encerrou a carreira em 2022, né?
08:1318 anos de carreira aí, 7 clubes, 682 jogos oficiais como profissional e 121 gols.
08:23Hernanes, quando você encerrou ali em 2022, você ainda pensava em estender um pouquinho?
08:28Porque a gente tem visto, né?
08:29Os jogadores indo além ali também na questão da idade e também gostaria de pedir uma indicação
08:36de vinho, tá?
08:37Que eu sei que você é muito especialista, antes também de terminar o programa e falar
08:41desses seus negócios, que para mim é algo muito interessante.
08:46Na verdade, eu, quando era jovem, eu pensava até em parar antes, sabia?
08:52Eu pensava assim, quando chegar aos 33, já vou parar.
08:54E fui até os 35, quase 36.
08:56Porque, como eu falei, o futebol para mim foi, para me tornar jogador, foi difícil
09:02porque teve esse espaço aí que, dos anos entre 18 e 20, 17 e 20 anos, que não conseguia
09:13estar no passo dos garotos, né?
09:18Eu já estava muito mais pronto, eu tinha ali que...
09:21Então, enfim, foram 4, 5 anos de sofrimento, né?
09:25De tentar, tentar de tudo e não conseguir.
09:30Então, o futebol sempre foi...
09:35Tive que estar sempre muito concentrado, nunca era algo tão natural.
09:40Então, eu, assim, pensava que suportaria somente até os 33.
09:46Aí fui até os 35, quando cheguei ali, 35, já não estava conseguindo.
09:51Era sempre essa mesma luta com o corpo, com os resultados.
09:54E quando os resultados não começaram a aparecer, aí o resultado não tinha resultado.
09:59Também a satisfação de jogar futebol foi se acabando, né?
10:03Então, eu falei, ah, vou parar por aqui.
10:07Já não estou tendo retorno nessa parte, né?
10:09De ter satisfação de estar indo para campo e jogar.
10:16Então, minha carreira foi moldada por isso que está aí, né?
10:21Então, enfim, está de bom tamanho, eu fiz tudo o que tinha que fazer,
10:24deu o meu máximo, deu o meu melhor e estou satisfeito.
10:28Satisfação com vinhos agora, né?
10:31Nessa área, até falar, indica para a gente aí,
10:33conta um pouquinho dessa experiência do pós-futebol, já que...
10:38Especialista?
10:42Isso, foi...
10:43Estando aqui na Itália, não tem como você não se deparar.
10:48Ter um encontro com esse mundo, né?
10:50Da gastronomia, do vinho.
10:52Depois você acrescenta e faz algumas visitas nas vinícolas.
10:58Então, só de estar ali nesse meio, você acaba aprendendo.
11:01Depois, acabei comprando a propriedade que tinha as parreiras.
11:05E hoje produzo o meu próprio vinho, o teu restaurante.
11:12Então, enfim, estudei também.
11:16E é isso, aí a indicação vai depender também do paladar de vocês, né?
11:22Você gosta de um vinho mais leve, mais encorpado.
11:26Eu gosto mais leve, vamos ver.
11:28Eu gosto mais encorpado.
11:32Então, o mais levinho, eu iria com o nebiolo do Piamonte, né?
11:40Que é o vinho mais levinho.
11:41Ou um pinonuar da Borgonha.
11:44Gosto.
11:44E mais encorpado, temos aí um barolo, né?
11:50Aqui do Piamonte também.
11:51Sempre feito com a uva nebiolo, mas o tempo de maturação das barricas é maior.
11:59Então, acaba ganhando um pouco mais de corpo.
12:01Ou senão, um grande Tuscan.
12:05Um vinho toscano também para continuar aqui na Itália.
12:10Olha só.
12:11Hernanes, muito obrigada.
12:12Pode deixar, a gente vai experimentar.
12:14Abril vai dar de presente para a gente no final do ano.
12:17A gente está contando com a experiência.
12:19Manda para mim também, manda para o Belém, que esses aí são bons.
12:21Aí, fechado.
12:22Combinado.
12:22Vamos ver se a gente marca de todo mundo experimentar junto.
12:25Então, olha, muito obrigada.
12:27É um prazer te ter aqui, tá?
12:29É, o prazer foi meu.
12:30Um grande abraço.
12:31Obrigado, Hernanes.
12:31Legal, obrigado.
12:32Tchau, tchau.
12:33Um abraço.
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