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  • há 23 horas
Endividamento das famílias, juros altos e bets: por que o brasileiro não sente melhora na economia? No programa Mercado, da revista VEJA, a apresentadora Veruska Donato entrevista o economista-chefe da Forum Investimentos, Bruno Perri, sobre o avanço da inadimplência no Brasil e os impactos reais no dia a dia.

Na conversa, Bruno Perri explica por que quase 82 milhões de brasileiros inadimplentes representam um problema estrutural para a economia. “Um percentual muito grande da renda das famílias é comprometido hoje pelo serviço da dívida”, afirma. Ele também alerta: “Isso vira uma bola de neve”.

O economista analisa o plano do governo para liberar recursos do FGTS, discute os limites da medida e aponta fatores que agravam o cenário — como juros elevados por longos períodos e o crescimento das apostas online. “As pessoas pagam dívida, gastam com bet e sobra pouco para consumir”, diz.

A entrevista também aborda os efeitos no varejo, nos bancos e na percepção de bem-estar da população, além de destacar a importância da educação financeira para evitar novos ciclos de endividamento.

O programa Mercado é apresentado por Veruska Donato e integra a programação da revista VEJA, com análises sobre economia, negócios e os principais temas do país.

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Transcrição
00:00A gente vai continuar falando sobre dívidas, mas aí é sobre dívida de pessoa física,
00:05porque o ministro da Fazenda, Dário Durigan, prepara um plano.
00:10Ele já entregou para o governo que deve, essa semana, afinar esse plano.
00:15Nós temos aqui reportagem da coluna Radar, do Robson Bonin,
00:20reportagem do Marcelo Ribeiro falando sobre esse plano que o ministro da Fazenda, Dário Durigan,
00:27apresentou para o presidente Lula, para o governo Lula.
00:30E aí eu quero chamar o nosso entrevistado, o Bruno Perry, para falar aqui conosco sobre esse assunto,
00:40aproveitando que a gente já está, né, Bruno, falando aí da dívida das pessoas jurídicas.
00:48Agora vamos falar, então, portanto, das pessoas físicas.
00:51Vamos juntar tudo no mesmo balaio de gato.
00:53Bruno Perry, que é economista-chefe da Fórum Investimentos.
00:56Bom dia, Bruno.
00:58Olá, Velusca. Bom dia. Obrigado pelo convite.
01:01Ô, Bruno, esse autoendividamento, né, o Bruno, o Bruno Seu Chará explicou aqui para a gente
01:07o autoendividamento das pessoas jurídicas e a gente tem o autoendividamento também das pessoas físicas.
01:11Metade das famílias está endividada e quase 82 milhões de brasileiros estão inadimplentes,
01:19quer dizer, não conseguem pagar o que devem.
01:20O que isso significa para a economia?
01:25Olha, isso tem consequências super drásticas.
01:27Eu vou dizer que os motivos até são bastante similares, né, ao que se observou nas pessoas jurídicas,
01:34esses juros elevados por um período prolongado, né,
01:38e uma economia também que cresce menos.
01:40Então, a gente tem um crescimento menor da renda, assim como a gente tem um crescimento menor da receita das
01:44empresas.
01:45E a gente acaba tendo essa pressão, né, uma parte muito grande da renda das famílias,
01:50fazendo um paralelo com o que o Bruno trouxe lá, sobre aquela questão das empresas não conseguirem pagar o juro
01:54da dívida com a geração de caixa,
01:56uma situação um pouco similar vem acontecendo por conta desses juros altos, né, com as famílias.
02:02Um percentual muito grande da renda das famílias é comprometido hoje pelo serviço de dívida.
02:07Então, juros e principal, coisa de um terço, né.
02:11Então, isso vem comprometendo esse orçamento de forma que a sensação de bem-estar das famílias que o governo espera
02:17no ano eleitoral,
02:18até porque a gente tem desemprego nas mínimas e a inflação desacelerou nos últimos dois anos, não se percebe, né.
02:24Os orçamentos pressionados, sobra pouco espaço, aquele consumo discricionário relativo a lazer e coisas mais opcionais,
02:30porque um terço vai para a dívida, o resto vai aí aluguel, transporte e sobra muito pouco.
02:35Então, não se tem uma percepção de bem-estar e, por outro lado, quando a gente olha para a economia
02:39real,
02:39por exemplo, o varejo fica pressionado, os bancos têm problemas de inadimplência, isso aumenta o custo
02:45e vai gerando um problema tautológico, uma referência circular.
02:49Quanto mais difícil a situação da pessoa, mais juros ela paga, até que em algum momento aquilo explode,
02:53os bancos acabam tendo que renegociar ou o nome fica sujo.
02:57E é nesse sentido que o governo vem com essa medida da FGTS para tentar limpar um pouco o nome
03:01das pessoas.
03:01Isso sem colocar ainda no bolo aqui, que você provavelmente vai trazer em algum momento,
03:06a questão das bets, né, que é algo que há alguns anos não era nem previsível
03:10e que hoje também tem consumido um percentual relevante da renda das famílias
03:14e tirando dinheiro da economia.
03:16Então, a gente vê, por exemplo, redes de supermercado comentando sobre isso.
03:20As pessoas estão sem renda, elas pagam dívida, elas gastam com bet
03:23e sobra pouco para consumir no supermercado além do básico.
03:26Então, é um problema bem mais profundo do que simplesmente a inadimplência, né?
03:32Bruno Perre, eu gostaria que você fizesse aí comentário sobre duas coisas que me veio agora à cabeça.
03:40Primeiro, que esse plano, pelo menos está na reportagem ali da coluna, do Rodar,
03:45dizendo que a ideia é somente pessoas que ganham até cinco salários mínimos
03:51poder usar esse dinheiro do fundo de garantia.
03:53Mas a gente sabe que a inadimplência hoje em dia e o endividamento
03:58engloba muito mais pessoas, é um grupo muito maior.
04:04Segundo, quem salvará as empresas?
04:07Porque foi essa provocação que eu fiz ali no início do programa, né?
04:12Pensar no eleitor, né?
04:14Porque o presidente acredita a queda da popularidade ao alto nível de inadimplência e endividamento,
04:20então ele está pensando nas eleições.
04:22Mas quem salvará pessoas que ganham a cinco salários mínimos, porque o grupo é maior,
04:28e as empresas?
04:30Quem pensa nisso?
04:31E aí, indo pelo caminho das bets também, a questão das bets passa por coisas bem mais complicadas, né?
04:38Que é educação financeira, educação mental, né?
04:44Aí eu iria mais na questão do emocional, né?
04:49Você trabalhar o emocional das pessoas, porque bets é um vício, e passaria pelo SUS também, saúde, né?
04:54Com certeza.
04:56Bom, falando das pessoas físicas primeiro,
05:00o presidente engloba essa faixa de cinco salários mínimos,
05:04que é uma renda relativamente boa, né?
05:07Considerando a média brasileira, justamente porque você pega um volume maior de pessoas, né?
05:12Então, você pega ali as pessoas que estão mais afetadas,
05:15e que é uma faixa de renda, né?
05:17Lembrando também ali da isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais,
05:21é uma faixa de renda, e aí tem um cálculo aí, na minha opinião,
05:25sobre eleições, onde a popularidade do presidente não está tão boa.
05:28Ele está melhor ali na faixa de renda muito baixa,
05:31e nas faixas maiores ali, nível universitário, ele tem uma aprovação um pouco maior.
05:35Essa faixa, que é aquele trabalhador autônomo, sem ensino superior, muitas vezes,
05:40é uma faixa importante, onde ele tem dificuldade, né?
05:44Hoje, nas pesquisas que a gente tem observado,
05:46e também é uma faixa que sofre muito com essa inadimplência,
05:50e tem uma renda um pouco mais incerta, né?
05:52Mas o FGTS, ele tem uma limitação.
05:54A pessoa tem que ter tido ali um trabalho com carteira assinada em algum momento,
05:58ou tem que estar trabalhando com carteira assinada.
06:01Então, essa limitação, ela tem um outro propósito,
06:03que aí é até um pouco mais positivo, embora não resolva menos o problema,
06:07que é não desvirtuar tanto o objetivo do FGTS.
06:10Os recursos do FGTS, eles têm um fundamento importante
06:12para financiamento de projetos de infraestrutura no país, né?
06:16Logística, saneamento, estradas, é um capital de custo mais baixo, né?
06:20Até porque ele remunera muito abaixo da Selic,
06:23chega, às vezes, a remunerar abaixo da inflação,
06:25o que prejudica o próprio trabalhador, né?
06:27E esse recurso está sendo retirado daquele fundamento
06:30e sendo direcionado para algo mais de curto prazo.
06:33E se você for ver ali empresas captarem a um custo de mercado hoje
06:38para fazer projetos de longo prazo, como saneamento, a conta não fecha.
06:41E é por isso que, num país de juros altos como o Brasil,
06:43é preciso ter esse tipo de linha.
06:46Então, é uma desvirtuação, né?
06:48Um desvirtuamento, perdão, já aconteceu outras vezes
06:51e eu acho que essa limitação é para que o impacto não seja tão radical
06:55quanto se você definisse essa medida com uma amplitude maior.
06:58No caso das empresas, não tem como usar o FGTS, né?
07:01Então, o que a gente tem observado em muitos casos, né?
07:04E a gente tem, o Bruno trouxe alguns agora,
07:07a gente teve raiz em GPA,
07:08a gente tem, além das recuperações judiciais,
07:10as recuperações extrajudiciais, que estão no patamar ainda muito maior, né?
07:13E a gente tem outras empresas em situações mais críticas,
07:16como Oncoclínicas, Braskem,
07:18outras que estão correndo para vender ativos,
07:19para gerar caixa, para resolver seus problemas de endividamento,
07:23também consequência desses juros altos.
07:25E dessa alta pronunciada pós-pandemia, né?
07:28Tanto famílias quanto empresas,
07:30acabaram se endividando um pouco mais.
07:32Ali a gente veio de juros, ali a 5,5% no governo Temer,
07:35chegamos a 2% durante a pandemia
07:38e ele foi subindo no pós-pandemia,
07:40depois começou a cair, depois subiu de novo
07:42e as famílias, aproveitando-se um pouco desses juros mais baixos,
07:45acabaram fazendo mais dívidas,
07:46mais endividamento imobiliário também,
07:50sem considerar, claro,
07:52que as dívidas são flutuantes.
07:53No caso do financiamento imobiliário ou não,
07:56a questão é o volume,
07:57mas dívidas flutuam com o CDI.
07:59Então, é uma questão aí,
08:01chegando nesse último ponto,
08:02de educação financeira também, né?
08:04Na hora que ele vai lá tomar a dívida no banco,
08:07ninguém explica para ele
08:08que essa dívida pode ficar mais cara se a Selic subir, né?
08:10Ele olha, e é uma questão do brasileiro, cultural,
08:13ele olha a parcela e fala,
08:14bom, essa parcelinha cabe no meu orçamento.
08:16Se cabe no meu orçamento, dá para fazer.
08:19Só que o problema é que essa parcelinha,
08:20muitas vezes, ela sobe
08:21a depender do que acontece com a taxa de juros.
08:24E aí ele começa a ficar numa situação de sufocamento, né?
08:27E acaba inadimplindo nessa dívida.
08:30A inadimplência gera um problema ainda maior,
08:32porque às vezes ele vai renegociar uma dívida.
08:34Ou ele cai nessas linhas mais rotativas, né?
08:36Capital de giro, no caso de empresas,
08:39quando é algo mais emergencial,
08:40ou cheque especial, cartão rotativo, né?
08:44Que são taxas, assim, que nem sequer ressoam com a Selic.
08:48A Selic é 14,75,
08:49você tem rotativo do cartão de crédito a 200, 250%.
08:53Então, fica algo proibitivo,
08:55que explode o orçamento das famílias,
08:56e o problema vai só crescendo.
08:58É uma bola de neve.
08:59Claro que uma queda mais pronunciada dos juros vão ajudar,
09:02mas existe um problema mais crítico aqui,
09:04que precisa ser endereçado,
09:05e que para não ocorrer novamente,
09:07aí eu acho que é um trabalho até coletivo, né?
09:09Imprensa, instituições financeiras, mercado financeiro,
09:12instituições de ensino, talvez nas escolas,
09:14colocar um pouco mais de educação financeira,
09:16para que esse tipo de cenário não se repita, né?
09:19E aí as bets, eu acho, que entra num outro grupo, né?
09:22Que aí, como você bem trouxe,
09:23é quase uma questão de saúde pública,
09:25mais do que de finanças, né?
09:26A pessoa não consegue parar.
09:28Não é uma questão de conscientização somente,
09:30mas uma questão, talvez,
09:31de você ter um ataque a essa dependência,
09:34de algo que virou quase uma pandemia,
09:36e que há cinco anos atrás parecia improvável,
09:38que hoje tomou um tamanho aí,
09:41proporções inesperadas, né?
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