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  • há 2 semanas
Alta do petróleo pode pressionar o agro brasileiro. O aumento do risco geopolítico no Oriente Médio tem provocado alta do petróleo e impactos em diversas cadeias produtivas — inclusive na agricultura.

No VEJA Mercado, apresentado por Marcela Rahal, o colunista da Revista Veja Gustavo Junqueira explica como a escalada da guerra pode afetar os preços da soja, o custo de produção no campo e a estrutura financeira do agronegócio brasileiro.

Segundo Junqueira, o petróleo continua sendo um elemento central da economia global.

“O petróleo é a base da economia mundial.”

No caso do agronegócio, o impacto aparece tanto no combustível quanto nos insumos.

“No agro ele influencia diretamente no diesel e nos fertilizantes.”

Parte da recente alta da soja está ligada ao mercado de energia. Isso porque o grão é utilizado na produção de biodiesel, o que eleva a demanda quando o petróleo sobe.

“A soja voltou para perto de 12 dólares o bushel.”

Mas o especialista alerta que essa leitura pode ser simplista. Mesmo com preços maiores da commodity, os produtores podem enfrentar margens menores.

“O agro pode ganhar no preço da commodity, mas perder nas margens.”

Entre os principais fatores de pressão estão:

aumento do custo do diesel

alta do frete e da logística

necessidade maior de capital de giro

Outro ponto sensível é a dependência brasileira de fertilizantes importados.

“85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados.”

Grande parte desses insumos passa por rotas marítimas ligadas ao Oriente Médio, região diretamente afetada pela tensão geopolítica.

Entre os gargalos apontados estão:

aumento do custo do frete

seguros marítimos mais caros

risco de interrupção nas rotas

Segundo Junqueira, isso pode afetar principalmente as safras futuras, já que a atual já está em fase de colheita.

“O Brasil não tem um estoque regulador grande para enfrentar uma guerra prolongada.”

Além dos custos de produção, o analista destaca outro fator crítico: o financiamento do agro.

“O agro brasileiro é extremamente intensivo em capital.”

Com juros elevados e crédito mais caro, produtores podem enfrentar dificuldades para financiar novas safras.

Outro ponto estratégico citado é a dependência comercial da China.

“70% da soja que o Brasil produz vai para a China.”

Para Junqueira, o cenário exige que o Brasil passe a pensar de forma mais estratégica na geopolítica global.

“A China planeja ciclos de 10 a 15 anos. O Brasil muitas vezes pensa apenas na safra do ano que vem.”

📊 Neste vídeo você vai entender:

Por que o petróleo influencia o preço da soja

Como a guerra pode elevar custos do agronegócio

O risco envolvendo fertilizantes importados

A dependência brasileira da China no mercado agrícola

Os impactos financeiros para produtores rurais

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Transcrição
00:00Gustavo, bom, falando sobre esse tema que eu trouxe aí, de que forma que a alta do petróleo,
00:05influenciada por todo esse cenário geopolítico no Oriente Médio, acaba impactando diretamente
00:11os preços do óleo de soja e também do grão no mercado?
00:17Bom, Marcela, de maneira geral, acho que a discussão que a gente está tendo aí ao longo dessas últimas semanas
00:24é o aumento do risco geopolítico e aumento, por consequência, do petróleo.
00:30O petróleo é a base da economia mundial e, no caso do agro, não é diferente.
00:37Tanto do ponto de vista de combustível como do ponto de vista de fertilizantes, ele tem um impacto direto.
00:46O que se presenciou aí nesses últimos pregões na Bolsa de Chicago é que, em parte,
00:53porque a soja vai para o esmagamento de produção de biodiesel, então se viu uma puxada no preço do biodiesel
01:03e, por consequência, também um aumento no preço da soja, que voltou aí para os 12 dólares o bucho.
01:10Mas essa leitura, no final, é uma leitura bastante simplista, porque o agro é muito maior.
01:18Na verdade, o que eu gostaria de destacar é que a gente pode ver aqui um aumento das cotações da
01:26soja, por exemplo,
01:29no entanto, o que a gente vai ver também na direção contrária é que o agro vai ganhar no preço
01:40da comode,
01:41mas pode perder nas margens, e isso vai afetar diretamente o produtor brasileiro, que já vem sofrendo aí
01:51com uma pressão nos últimos anos para conseguir manter o seu negócio.
01:59O que a gente vê aqui?
02:02Quando a comode sobe, por que isso vai acontecer?
02:07Aumenta o valor da produção total, tudo aqui é calculado a valor de mercado,
02:12aumenta o valor do estoque, então o estoque está armazenado,
02:17e, por consequência, aumenta a necessidade de capital de giro.
02:21Na entrevista anterior, estava se discutindo muito sobre o mercado financeiro
02:27e a possibilidade de corte de juros.
02:28O que a gente vê é que, possivelmente, esse corte de juros não vai acontecer,
02:35ou se acontecer, vai acontecer em uma velocidade mais lenta do que se imaginava.
02:39E isso vai afetar diretamente o agro.
02:44Em relação à parte de combustíveis, ou seja, o que acontece?
02:49Hoje, o agro brasileiro é dependente do diesel diretamente.
02:56Todas as colheitas são mecanizadas, todo o transporte é dependente de diesel,
03:03fundamentalmente o rodoviário, que é dominante,
03:06e toda a logística até os portos, pensando que o Mato Grosso é um dos maiores produtores,
03:12é distante, então você tem um custo elevado no consumo,
03:17por conta do consumo de diesel.
03:20E aí você vai ter um aumento da colheita, você tem um aumento do plantio,
03:24você tem um aumento no frete, aumento no custo logístico como um todo.
03:29Lembrando que esse ano a gente também vai ter mais uma safra record,
03:36que o Brasil está colhendo mais de 160 milhões de toneladas.
03:41Então, acho que o problema da guerra não é apenas o preço do petróleo,
03:45mas de fato, qual é o custo de se produzir comida no Brasil.
03:51Acho que eu passaria aqui para um outro elemento, Marcela,
03:54que é a questão dos fertilizantes.
03:57Tem se falado um pouco, mas não tanto quanto o petróleo,
04:01e é importante lembrar que 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados.
04:08Estou falando aí de 45 milhões de toneladas.
04:12Então, são navios e navios que chegam no Brasil todo ano
04:16para que a gente possa produzir o água que a gente produz.
04:20Na verdade, você usa a base, a terra, como o elemento de fixação,
04:25e você coloca em cima daquela terra fertilizante, chuvas, água e sol,
04:33para que aquela planta possa crescer com força e aí gerar os grãos,
04:40no caso da soja, e serem exportados.
04:42A principal origem desses fertilizantes é o Oriente Médio,
04:47ele passa pelo Oriente Médio, porque vem da Rússia,
04:50vem do próprio Oriente Médio e vem do Norte da África.
04:53Então, ele está sempre ali nessa tensão, junto com essa tensão no Golfo.
04:57O que isso acontece com essa guerra que acontece lá agora?
05:04As rotas marítimas são pressionadas,
05:06então você tem menos navios passando no estreito de Omuz,
05:09mas você tem menos navio também chegando lá,
05:12você tem um custo do frete muito mais alto,
05:14você tem seguros mais altos,
05:16e você tem, portanto, uma volatilidade de preços
05:21e disponibilidade do produto aqui no Brasil.
05:25Isso não vai afetar, eu imagino, a safra atual,
05:28ela está sendo colhida, mas ela vai afetar as safras futuras
05:33e já a safra que nós vamos plantar na segunda metade do ano,
05:37porque o Brasil não tem um estoque regulador,
05:40não tem um estoque muito grande para poder usar
05:44enquanto essa guerra não se resolve.
05:47Ah, e se resolver semana que vem?
05:49Se resolver semana que vem, pode ser que não tenhamos problema,
05:52mas a probabilidade parece baixa de se resolver tudo em uma semana
05:57e desbloquear essa fila, vamos dizer assim, que ficou.
06:03O terceiro elemento, que é, na minha visão,
06:07o que deve ser observado com mais critério pelos produtores,
06:11pelos empresários, pelos banqueiros,
06:14a gente está olhando aí uma quantidade de recuperações judiciais
06:19que tem acontecido, é o encarecimento e a disponibilidade
06:25de recursos financeiros.
06:27Como eu falei, a queda de juros está mais distante
06:30e o capital de giro está mais caro.
06:34O agro brasileiro é super intensivo em capital,
06:38os grandes produtores têm uma alavancagem alta,
06:42então você compra insumos antecipadamente,
06:45financia a safra e usa tudo isso para fazer o seu negócio.
06:52Com essa situação, o preço da comodidade sobe
06:58e o sistema inteiro fica muito mais pressionado
07:02e precisa de mais capital para funcionar.
07:05Então, de fato, a gente tem aqui um risco invisível
07:10que é a capacidade financeira do sistema
07:14e isso vai, com certeza, trazer aí uma pressão
07:19ainda maior sobre os mercados.
07:23Gustavo, como você falou, não dá para a gente prever
07:25o fim dessa guerra, mas obviamente que todo mundo,
07:29os economistas trabalham aí com uma expectativa.
07:31Essa expectativa é mais, ela tem no seu diagnóstico,
07:36ela é mais negativa ou ainda pode ser que a situação
07:39não piore tanto assim?
07:42Eu acho que ela é uma expectativa de que a imprevisibilidade,
07:49porque eu não vou saber, você não vai saber,
07:51ninguém vai saber quando a guerra vai terminar,
07:54porque você sabe como ela começa,
07:56mas não sabe quando ela termina.
07:59A análise que a gente deveria fazer,
08:02talvez aqui, é uma análise estratégica.
08:04Hoje, o agro brasileiro está profundamente ligado à China.
08:08A disputa entre China e Estados Unidos
08:10cada vez mais clara no tabuleiro da geopolítica.
08:1570% da soja que a gente produz vai para a China.
08:19E aí, a pergunta é em termos de dependência,
08:24quem depende de quem?
08:26A gente saiu aí nas semanas passadas,
08:29o último plano quinquenal,
08:33o 15º que a China faz desde a década de 50,
08:37planejando aí para frente o que ela vai fazer.
08:41A conclusão é que a China não tem terra suficiente
08:44para produzir comida e proteína lá.
08:48Ela tem uma urbanização contínua
08:50e vai precisar garantir esses acessos à comida.
08:55Se a gente fizer um paralelo aqui,
08:57comida e petróleo,
08:59e analisar o que está acontecendo hoje na Guerra do Golfo,
09:05tem algumas lições que a gente pode tirar.
09:09Um alinhamento direto de países no Golfo
09:15aos Estados Unidos,
09:16onde tem as bases militares,
09:18o que acontece?
09:19Acontece que eles viram parte dos Estados Unidos,
09:23e o Irã está aí bombardeando
09:25as instalações, a infraestrutura,
09:29o próprio povo desses países.
09:31E isso, se a gente pensar
09:34que pode acontecer com comida,
09:37e o Brasil vira um ativo geopolítico,
09:40o que aconteceria se,
09:45numa escalada de disputa mundial,
09:49o Brasil entrasse nessa discussão?
09:51Então, a gente tem que pensar muito bem
09:53que a nossa geração de caixa no Brasil
09:56está fundamentalmente baseada
09:58em três grandes commodities.
10:00o agro, as commodities agrícolas,
10:03petróleo e minério,
10:06onde o Brasil se encaixa
10:08e como o Brasil deve planejar essa visão.
10:12Então, se a guerra vai demorar
10:14ou vai terminar rapidamente,
10:16não dá para saber.
10:17O fato é que ela já mudou a política mundial,
10:21e o Brasil tem que conseguir planejar
10:24e pensar estrategicamente um pouco,
10:27porque a China pensa em ciclos de 10, 15 anos,
10:32os Estados Unidos geralmente pensam em ciclos de 4 anos,
10:37que é o mandato presidencial,
10:40e o Brasil não pensa.
10:42Se pensa, pensa na safra do ano que vem.
10:45Então, acho que está na hora
10:46de a gente começar a tomar um pouco mais
10:49de liderança no nosso destino
10:54e não ficar à mercê dos outros.
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