00:00Gustavo, bom, falando sobre esse tema que eu trouxe aí, de que forma que a alta do petróleo,
00:05influenciada por todo esse cenário geopolítico no Oriente Médio, acaba impactando diretamente
00:11os preços do óleo de soja e também do grão no mercado?
00:17Bom, Marcela, de maneira geral, acho que a discussão que a gente está tendo aí ao longo dessas últimas semanas
00:24é o aumento do risco geopolítico e aumento, por consequência, do petróleo.
00:30O petróleo é a base da economia mundial e, no caso do agro, não é diferente.
00:37Tanto do ponto de vista de combustível como do ponto de vista de fertilizantes, ele tem um impacto direto.
00:46O que se presenciou aí nesses últimos pregões na Bolsa de Chicago é que, em parte,
00:53porque a soja vai para o esmagamento de produção de biodiesel, então se viu uma puxada no preço do biodiesel
01:03e, por consequência, também um aumento no preço da soja, que voltou aí para os 12 dólares o bucho.
01:10Mas essa leitura, no final, é uma leitura bastante simplista, porque o agro é muito maior.
01:18Na verdade, o que eu gostaria de destacar é que a gente pode ver aqui um aumento das cotações da
01:26soja, por exemplo,
01:29no entanto, o que a gente vai ver também na direção contrária é que o agro vai ganhar no preço
01:40da comode,
01:41mas pode perder nas margens, e isso vai afetar diretamente o produtor brasileiro, que já vem sofrendo aí
01:51com uma pressão nos últimos anos para conseguir manter o seu negócio.
01:59O que a gente vê aqui?
02:02Quando a comode sobe, por que isso vai acontecer?
02:07Aumenta o valor da produção total, tudo aqui é calculado a valor de mercado,
02:12aumenta o valor do estoque, então o estoque está armazenado,
02:17e, por consequência, aumenta a necessidade de capital de giro.
02:21Na entrevista anterior, estava se discutindo muito sobre o mercado financeiro
02:27e a possibilidade de corte de juros.
02:28O que a gente vê é que, possivelmente, esse corte de juros não vai acontecer,
02:35ou se acontecer, vai acontecer em uma velocidade mais lenta do que se imaginava.
02:39E isso vai afetar diretamente o agro.
02:44Em relação à parte de combustíveis, ou seja, o que acontece?
02:49Hoje, o agro brasileiro é dependente do diesel diretamente.
02:56Todas as colheitas são mecanizadas, todo o transporte é dependente de diesel,
03:03fundamentalmente o rodoviário, que é dominante,
03:06e toda a logística até os portos, pensando que o Mato Grosso é um dos maiores produtores,
03:12é distante, então você tem um custo elevado no consumo,
03:17por conta do consumo de diesel.
03:20E aí você vai ter um aumento da colheita, você tem um aumento do plantio,
03:24você tem um aumento no frete, aumento no custo logístico como um todo.
03:29Lembrando que esse ano a gente também vai ter mais uma safra record,
03:36que o Brasil está colhendo mais de 160 milhões de toneladas.
03:41Então, acho que o problema da guerra não é apenas o preço do petróleo,
03:45mas de fato, qual é o custo de se produzir comida no Brasil.
03:51Acho que eu passaria aqui para um outro elemento, Marcela,
03:54que é a questão dos fertilizantes.
03:57Tem se falado um pouco, mas não tanto quanto o petróleo,
04:01e é importante lembrar que 85% dos fertilizantes usados no Brasil são importados.
04:08Estou falando aí de 45 milhões de toneladas.
04:12Então, são navios e navios que chegam no Brasil todo ano
04:16para que a gente possa produzir o água que a gente produz.
04:20Na verdade, você usa a base, a terra, como o elemento de fixação,
04:25e você coloca em cima daquela terra fertilizante, chuvas, água e sol,
04:33para que aquela planta possa crescer com força e aí gerar os grãos,
04:40no caso da soja, e serem exportados.
04:42A principal origem desses fertilizantes é o Oriente Médio,
04:47ele passa pelo Oriente Médio, porque vem da Rússia,
04:50vem do próprio Oriente Médio e vem do Norte da África.
04:53Então, ele está sempre ali nessa tensão, junto com essa tensão no Golfo.
04:57O que isso acontece com essa guerra que acontece lá agora?
05:04As rotas marítimas são pressionadas,
05:06então você tem menos navios passando no estreito de Omuz,
05:09mas você tem menos navio também chegando lá,
05:12você tem um custo do frete muito mais alto,
05:14você tem seguros mais altos,
05:16e você tem, portanto, uma volatilidade de preços
05:21e disponibilidade do produto aqui no Brasil.
05:25Isso não vai afetar, eu imagino, a safra atual,
05:28ela está sendo colhida, mas ela vai afetar as safras futuras
05:33e já a safra que nós vamos plantar na segunda metade do ano,
05:37porque o Brasil não tem um estoque regulador,
05:40não tem um estoque muito grande para poder usar
05:44enquanto essa guerra não se resolve.
05:47Ah, e se resolver semana que vem?
05:49Se resolver semana que vem, pode ser que não tenhamos problema,
05:52mas a probabilidade parece baixa de se resolver tudo em uma semana
05:57e desbloquear essa fila, vamos dizer assim, que ficou.
06:03O terceiro elemento, que é, na minha visão,
06:07o que deve ser observado com mais critério pelos produtores,
06:11pelos empresários, pelos banqueiros,
06:14a gente está olhando aí uma quantidade de recuperações judiciais
06:19que tem acontecido, é o encarecimento e a disponibilidade
06:25de recursos financeiros.
06:27Como eu falei, a queda de juros está mais distante
06:30e o capital de giro está mais caro.
06:34O agro brasileiro é super intensivo em capital,
06:38os grandes produtores têm uma alavancagem alta,
06:42então você compra insumos antecipadamente,
06:45financia a safra e usa tudo isso para fazer o seu negócio.
06:52Com essa situação, o preço da comodidade sobe
06:58e o sistema inteiro fica muito mais pressionado
07:02e precisa de mais capital para funcionar.
07:05Então, de fato, a gente tem aqui um risco invisível
07:10que é a capacidade financeira do sistema
07:14e isso vai, com certeza, trazer aí uma pressão
07:19ainda maior sobre os mercados.
07:23Gustavo, como você falou, não dá para a gente prever
07:25o fim dessa guerra, mas obviamente que todo mundo,
07:29os economistas trabalham aí com uma expectativa.
07:31Essa expectativa é mais, ela tem no seu diagnóstico,
07:36ela é mais negativa ou ainda pode ser que a situação
07:39não piore tanto assim?
07:42Eu acho que ela é uma expectativa de que a imprevisibilidade,
07:49porque eu não vou saber, você não vai saber,
07:51ninguém vai saber quando a guerra vai terminar,
07:54porque você sabe como ela começa,
07:56mas não sabe quando ela termina.
07:59A análise que a gente deveria fazer,
08:02talvez aqui, é uma análise estratégica.
08:04Hoje, o agro brasileiro está profundamente ligado à China.
08:08A disputa entre China e Estados Unidos
08:10cada vez mais clara no tabuleiro da geopolítica.
08:1570% da soja que a gente produz vai para a China.
08:19E aí, a pergunta é em termos de dependência,
08:24quem depende de quem?
08:26A gente saiu aí nas semanas passadas,
08:29o último plano quinquenal,
08:33o 15º que a China faz desde a década de 50,
08:37planejando aí para frente o que ela vai fazer.
08:41A conclusão é que a China não tem terra suficiente
08:44para produzir comida e proteína lá.
08:48Ela tem uma urbanização contínua
08:50e vai precisar garantir esses acessos à comida.
08:55Se a gente fizer um paralelo aqui,
08:57comida e petróleo,
08:59e analisar o que está acontecendo hoje na Guerra do Golfo,
09:05tem algumas lições que a gente pode tirar.
09:09Um alinhamento direto de países no Golfo
09:15aos Estados Unidos,
09:16onde tem as bases militares,
09:18o que acontece?
09:19Acontece que eles viram parte dos Estados Unidos,
09:23e o Irã está aí bombardeando
09:25as instalações, a infraestrutura,
09:29o próprio povo desses países.
09:31E isso, se a gente pensar
09:34que pode acontecer com comida,
09:37e o Brasil vira um ativo geopolítico,
09:40o que aconteceria se,
09:45numa escalada de disputa mundial,
09:49o Brasil entrasse nessa discussão?
09:51Então, a gente tem que pensar muito bem
09:53que a nossa geração de caixa no Brasil
09:56está fundamentalmente baseada
09:58em três grandes commodities.
10:00o agro, as commodities agrícolas,
10:03petróleo e minério,
10:06onde o Brasil se encaixa
10:08e como o Brasil deve planejar essa visão.
10:12Então, se a guerra vai demorar
10:14ou vai terminar rapidamente,
10:16não dá para saber.
10:17O fato é que ela já mudou a política mundial,
10:21e o Brasil tem que conseguir planejar
10:24e pensar estrategicamente um pouco,
10:27porque a China pensa em ciclos de 10, 15 anos,
10:32os Estados Unidos geralmente pensam em ciclos de 4 anos,
10:37que é o mandato presidencial,
10:40e o Brasil não pensa.
10:42Se pensa, pensa na safra do ano que vem.
10:45Então, acho que está na hora
10:46de a gente começar a tomar um pouco mais
10:49de liderança no nosso destino
10:54e não ficar à mercê dos outros.
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