- há 4 horas
O fim da escala 6x1 voltou ao centro do debate econômico e político. O governo federal deve enviar ao Congresso, após o carnaval, um projeto de lei com urgência constitucional para mudar a jornada de trabalho, enquanto outras sete propostas já tramitam na Câmara e no Senado.
Em entrevista ao Mercado, a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas e conselheira do Corecon-SP, afirma que o mercado já se antecipou à legislação. Segundo ela, empresas de diferentes setores, inclusive hotelaria e varejo, já reduziram jornadas sem cortar salários. Para Carla, a mudança é uma questão de dignidade, adaptação à nova realidade do trabalho e estratégia de retenção de talentos, com impactos menores do que o alarmismo sugere.
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Em entrevista ao Mercado, a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas e conselheira do Corecon-SP, afirma que o mercado já se antecipou à legislação. Segundo ela, empresas de diferentes setores, inclusive hotelaria e varejo, já reduziram jornadas sem cortar salários. Para Carla, a mudança é uma questão de dignidade, adaptação à nova realidade do trabalho e estratégia de retenção de talentos, com impactos menores do que o alarmismo sugere.
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NotíciasTranscrição
00:00A escala 6x1, porque como eu disse no início do programa, o governo federal anunciou que deve mandar depois do
00:06carnaval
00:06um projeto de lei com urgência constitucional, isso quer dizer que é com urgência de votação para o Congresso,
00:13para dar fim à escala 6x1. Mas aí já existem outras sete propostas, tanto na Câmara quanto no Senado.
00:22São quatro na Câmara, se eu não me engano, e três no Senado, entre projetos de lei e propostas de
00:27emenda constitucional.
00:28Algumas prontas para ser votadas no plenário da casa, das casas. Só que algumas dessas propostas vão muito fundo.
00:38Não só acaba com a escala 6x1, como cria a escala 4x3. Quatro dias trabalhados, três dias de folga.
00:45A aposta é que o governo deve enviar um projeto mais light, que tenha mais consenso, que traga os empresários
00:54do tipo, se vamos ter prejuízo, que seja um prejuízo menor. Porque essa é uma pauta popular, é uma bandeira
01:01do governo federal
01:02e que foi abraçada também, tanto pela Câmara quanto pelo Senado.
01:06E sobre esse assunto, eu converso com a Carla Bene, que é economista, professora da FGV e conselheira do Corecom
01:14aqui de São Paulo.
01:15Bem-vinda, Carla.
01:17Obrigada, bom dia. É sempre um prazer estar aqui com vocês.
01:21O Carla, a gente já conversou outras vezes e você me disse que essa escala 6x1, ela não reflete a
01:27realidade brasileira.
01:30Sim. Aliás, é interessante porque isso não foi votado ainda e a gente pode até conversar essas questões aqui que
01:37são importantes.
01:38Mas o mercado já mudou. As empresas já mudaram, várias empresas, redes inteiras já mudaram.
01:45Até o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, já mudou a sua escala.
01:51Então, quando nós estamos na outra vez, eu acabei mencionando para você e vou retomar um pouco esse ponto,
01:57que é mais ou menos o seguinte.
01:59Há duas opções.
02:01Ou você entende que o mercado já mudou, faz a sua alteração na sua empresa, na sua indústria, para conseguir
02:08contratar,
02:10ou continua reclamando, digamos assim.
02:13Então, a ideia é uma coisa um pouco mais pragmática.
02:16Mas é natural que você tenha movimentos contra, ou que você tenha vários cálculos a respeito de uma certa tragédia
02:25que poderia acontecer e a pressão entre as possibilidades a serem aprovadas.
02:32Então, isso tudo está na mesa para se negociar ao mesmo tempo.
02:37Mas o mercado já mudou.
02:41Falado num impacto econômico gigante sobre as empresas,
02:45um impacto negativo desse fim da escala 6x1.
02:48A gente espera isso mesmo.
02:52Você acredita realmente em prejuízo financeiro que não dê, inclusive, para se recuperar?
02:58Porque toda mudança traz um impacto.
03:01Mas será tão negativo assim?
03:04Não.
03:05Não vai ser negativo assim.
03:06Mas aqui a gente precisa entender o seguinte.
03:08É natural que cada segmento tente puxar para o seu lado.
03:13A empresa, a indústria, ela quer pagar o menos que ela puder e fazer com que o funcionário trabalhe o
03:20máximo.
03:20E o funcionário quer o contrário.
03:22Então, diante desse dilema, o que a gente encontra aqui?
03:26O que está na pauta?
03:28A pauta está a seguinte.
03:30Nós temos 44 horas na legislação.
03:35Quando você pega o projeto original, é sair de 44 para 36.
03:41Você já faz isso de propósito, porque você sabe que vai negociar alguma coisa no meio do caminho.
03:47Então, se sair de 44 para 42 horas, já é um movimento.
03:52E aí você vai fazer isso escalonado.
03:55Então, é muito provável que a gente tenha de 44 para 42, para 40 horas semanais,
04:02isso num escalonamento em alguns anos.
04:05Só que quando você pega o tal do impacto, o que se imagina?
04:10Que você faz um cálculo que é uma coisa meio complexa, né?
04:15Então, cada segmento acaba fazendo a sua conta.
04:18Você não sabe também muito bem qual é a metodologia, mas qual que é a ideia?
04:22Sai de 44 para 36 como se fosse de hoje para amanhã.
04:26E aí você instala o caos.
04:29Aí diz que vai ter inflação, vai ter desemprego, vai ter uma série de coisas.
04:33Só que o que está acontecendo na realidade?
04:36As empresas já estão fazendo as suas alterações.
04:40E eu tenho discutido isso em sala com os meus alunos, para vocês terem ideia, há mais de dois anos
04:45já.
04:46Carecemos no Brasil de estudos e pesquisas sobre esses impactos?
04:50Porque eu tenho ouvido muito do setor produtivo que não precisamos estudar mais
04:55para saber o que isso pode causar de prejuízo ou de mudança do dia a dia dos trabalhadores.
05:02Os estudos, eles começam a ser feitos, né?
05:05Digamos assim.
05:06Mas cada particularidade do seu segmento vai precisar de um ajuste.
05:12Então, se você quiser fazer uma legislação nova, é extremamente válido e é fundamental que você faça estudos de impacto.
05:21Isso daí é algo natural que vai acontecer.
05:24Até porque você vai mudar uma legislação.
05:28Então, diante disso, os estudos, eles vão sendo feitos.
05:31São grandes instituições que vão acabar fazendo esses estudos, porque isso é caríssimo para se fazer.
05:37Então, e você precisa de uma metodologia específica e tudo.
05:41Então, sabendo dessa questão, é normal que você tenha uma antecipação de alguns impactos com alguns segmentos pontuais.
05:50Mas a gente sempre precisa entender que existe sempre um certo pânico diante dessa mudança, né?
05:57No passado, o que era anunciado em todos os jornais, né?
06:02Que o 13º ia quebrar o país.
06:05Então, essa construção, ela é muito importante porque, na verdade, isso é um jogo de forças.
06:11Professora, da outra vez que a gente conversou, você disse que a questão do fim da escala 6x1 era algo
06:18de dignidade à vida.
06:20O que você quis dizer com isso?
06:23Eu quis dizer que é impossível que você queira imaginar que isso é bom para o outro.
06:29Qual foi toda a discussão ontem da mídia?
06:32Os funcionários do Congresso trabalhar três dias e folgar um.
06:38Que ambiente tão insalubre é esse no Congresso que você precisa trabalhar três dias e folgar um?
06:44E a população trabalha seis para um.
06:47Quer dizer, que vida é essa que você trabalha seis dias e tem um para descansar?
06:53Existe uma coisa na economia chamada de reprodução social.
06:56Quando que você convive com a família?
06:59Quando que você convive com a sua casa?
07:01Então, quem pode pagar?
07:03Paga o serviço e tem alguém à disposição.
07:07Então, a dignidade da vida, a dignidade da pessoa humana passa pelo tempo que ela precisa de descanso.
07:14O trabalho, ele faz parte da vida da pessoa.
07:17Ele não é a vida da pessoa.
07:19E isso já está refletido, inclusive, com a nova geração.
07:24Então, hoje em dia, as pessoas querem ter propósito no trabalho.
07:29Ela quer ver, vislumbrar um crescimento.
07:33Então, isso tudo está posto na mesa da nossa negociação.
07:38Então, essa questão da sua dignidade, ela, inclusive, vai ser refletida nos preços.
07:44O que está acontecendo agora?
07:46Se você quiser comer no final de semana, num restaurante, você vai ter um outro preço no cardápio.
07:52Se você quiser fazer uma compra e quer que essa compra chegue amanhã a qualquer custo na sua casa,
07:59não importa quem vai entregar, se a pessoa tem vida, se a logística da empresa, se tem gente se suicidando
08:06lá,
08:06e você quer que o produto chegue em 24 horas na sua casa, você vai ter que pagar um adicional.
08:12Então, isso funciona, isso é um pacto social que a gente tem.
08:16Eu não posso querer que a mercadoria chegue na minha casa a custo zero.
08:21Então, isso já acontece, isso já mudou.
08:25Então, é nesse sentido que eu estava discutindo esse ponto com você na nossa conversa anterior.
08:31Você tem ouvido também empresários e quais são os principais argumentos deles, além do prejuízo financeiro.
08:39Eles também conseguem ter esse olhar, professora, de que as pessoas no Brasil trabalham demais.
08:47Esse foi outro tema que nós já também falamos num programa especial sobre emprego e trabalho.
08:52Eu disse a você que os empresários reclamam que é preciso aumentar a produtividade do trabalhador,
08:58que nós somos os trabalhadores menos produtivos do mundo.
09:01E aí, assim, fazem comparação com os Estados Unidos e Noruega,
09:06que são países que estão ali anos luz à frente na economia da economia brasileira.
09:13E aí eu te pergunto, tem esses argumentos da produtividade ainda? Produzimos pouco?
09:20Não, nós não temos essa questão.
09:23Há uma questão de diferença de produtividade, mas isso é importante porque você tem regras e parâmetros
09:30da Organização Internacional do Trabalho para fazer essa medição.
09:34Então, sim, você vai encontrar que você precisa de quatro brasileiros para a produtividade,
09:40de um americano, uma série de questões a esse respeito.
09:44Só que aí a gente precisa aprofundar um pouco na metodologia,
09:47porque se quando você joga essa frase, que é muito comum acontecer isso,
09:52parece que o brasileiro não sabe o que faz,
09:55ou produz pouco, ou trabalha pouco.
10:00Não funciona desse jeito.
10:02A questão da produtividade é a inclusão, a vez que você sai da escola,
10:06então o tempo que você leva para o treinamento para poder usar uma máquina,
10:10numa empresa, então tem todos os critérios.
10:13Agora, quando você me pergunta, os empresários, eles já entendem isso?
10:19A gente não consegue, em economia, por ser uma ciência social, trabalhar com totalizadores.
10:25Então, não teremos todo mundo, ninguém, nunca, sempre.
10:31Então, o que nós vamos ter aqui?
10:33Empresários que sim, já verificaram isso,
10:36e a mudança de escala vai ser uma estratégia para a retenção de talentos.
10:41E a mudança de escala vai ser uma estratégia para você poder ampliar a sua rede.
10:47Você tem um projeto, você tem um projeto para abrir uma quantidade de redes de supermercados,
10:53por exemplo.
10:54Se você não fizer essa mudança, você não vai abrir essa rede de supermercados.
11:00Então, isso é uma construção que vai acontecendo aos poucos,
11:04é absolutamente normal essa tensão ocorrer,
11:08mas o que gera emprego é o quê?
11:12É a demanda, é a economia estar aquecida, é isso que emprega.
11:16Então, qual é a sua opção?
11:18Eu não mudo a escala, eu não consigo contratar, eu não cresço a empresa.
11:22Então, esse daí é que é o ponto, mas é absolutamente natural você ver essa tensão,
11:30e ela vai acontecer, mas o mercado já mudou.
11:34Há que conferir ainda com as aprovações da legislação,
11:38mas os empresários que já entenderam já mudaram,
11:42e por incrível que pareça, estão conseguindo resultados de produtividade melhores.
11:48Professora, é perfeitamente possível reduzir a jornada de trabalho,
11:54vamos dizer ali, para esse meio termo, de 44 para 40 horas,
11:57sem mexer nos salários?
12:00É, nós precisamos de escalonamento para isso.
12:04Você vai reduzir de 44 para 42, de 42 para 40,
12:10você vai trabalhar, por exemplo, no lugar da escala 5 para 1,
12:14as empresas já estão trabalhando, que fizeram essas mudanças 5 para 2.
12:18E é importante que quem está acreditando que é impossível fazer isso,
12:23pegue os exemplos atuais.
12:25Como que um hotel como Copacabana Palace fez isso,
12:29sem reduzir salários, sem precisar contratar mais?
12:32Como que redes de drogarias e redes de supermercados,
12:37que têm unidades em estados diferentes, conseguiu já fazer isso?
12:42Então, esse exemplo existe, eu inclusive tenho esse exemplo em sala de aula,
12:48quando eu discuto vários segmentos, tem segmentos até da área da pecuária,
12:53fazendo essa movimentação, então isso é muito pontual de cada empresa,
12:58de enxergar essa necessidade e de entender que essa mudança,
13:03ou ela ocorre, ou você não vai ter funcionário para trabalhar,
13:06o que é pior?
13:08Então, sim, isso é possível, mas dentro das particularidades de cada situação
13:14e de cada segmento.
13:15Ou quando a gente usa o totalizador, é isso,
13:19é impossível, é impossível fazer isso?
13:21Não, é possível, tanto que já tem gente fazendo e obtendo resultado.
13:26O Copacabana Palace é uma grande empresa,
13:28beleza, essa mesma explicação vale para pequenas e mais pequenas empresas,
13:34que empregam bastante no Brasil?
13:37Isso daí vai acabar funcionando em grande medida,
13:40porque o que acontece é o seguinte,
13:42quando você pega um hotel pequeno, por exemplo,
13:46um hotel médio,
13:48você vai ter um grande problema que não é só a escala,
13:52é também o salário pago,
13:54porque para pagar um salário mínimo
13:57e querer que a pessoa trabalhe seis para um,
14:01ela tem outras opções,
14:03ela vai para o trabalho informal.
14:06Então, essa é literalmente uma situação
14:09que é resultado da própria última reforma trabalhista.
14:15A última reforma trabalhista,
14:17que desmontou uma grande parte da CLT,
14:21produziu um mercado informal,
14:24vendendo como se fosse a melhor coisa do mundo.
14:27Então, o que a gente tem agora é uma encruzilhada,
14:30porque para você ganhar um salário mínimo registrada,
14:34você pode ganhar mais fazendo o quê?
14:37Um trabalho informal.
14:39Então, essa é uma construção que é um processo complexo,
14:43sem dúvida nenhuma,
14:45mas para oferecer aquele padrão de salário,
14:49você realmente não vai conseguir
14:51quem trabalhe seis para um
14:53para receber um salário mínimo.
14:55E isso é um movimento que agora
14:58os trabalhadores estão, digamos assim,
15:01desculpe o latido,
15:03são meus Rottweilers,
15:05três Rottweilers na casa,
15:07de vez em quando acontece isso.
15:09Então, esse movimento,
15:12ele é muito reflexo dessa nova realidade.
15:15E todo mundo vai ter que se adaptar
15:18a essa nova realidade.
15:20Obviamente, com mais sacrifícios de um lado ou do outro.
15:24Eu não estou dizendo que é fácil,
15:26jamais isso é um processo fácil,
15:28mas esse é um processo histórico,
15:30onde agora você tem o quê?
15:32Massa salarial melhor,
15:34e você tem baixo desemprego.
15:37A gente não pode querer acreditar
15:39que para um país crescer,
15:41então a solução seria ter
15:42uma massa de desempregados famélicos
15:46precisando trabalhar a qualquer preço,
15:49não é, Verusa?
15:50Você sabe que de latido de cachorro eu entendo,
15:52porque eu sou mãe de uma pincher.
15:55Então, eu ganho,
15:57na comparação a ele, eu ganho.
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