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  • há 4 horas
Traficantes inundam o país com fuzis de guerra. A busca pelo poderio bélico transforma o crime, dita as táticas policiais e espalha a violência nas ruas, cidades e nos hospitais.
Transcrição
00:18Acesso liberado.
00:56Acesso liberado.
01:12Acesso liberado.
01:57Acesso liberado.
02:00Meu nome é Luiz Fernando Moraes da Costa, vulgarmente conhecido como Beira-Mar.
02:30Acesso liberado.
02:34Eu lembro do primeiro fuzil que eu vi, né?
02:37Foi em 1985, 1986.
02:43Era uma Cari.
02:45Era uma R-15, né?
02:47Quem tinha um fuzil era o cara, né?
02:55A primeira vez que eu vi um fuzil foi em 1992.
03:01E aí o meu primo me deu e eu falei, caramba, como é que é isso aqui?
03:04Você era visto com mais respeito.
03:05Pô, não vamos atacar o caralhão, que o cara tem poder bélico.
03:14O crime cada vez tem mais força, cada vez tem mais armas, cada vez tem mais penetração.
03:20Hoje eles estão presentes, não é só no Brasil inteiro, já estão presentes no exterior.
03:52Hoje eles estão presentes, não é só no Brasil.
04:00Nós fizemos aqui uma linha do tempo, tá?
04:03Nessa mesa, pra vocês entenderem como é que foi a evolução da apreensão das armas
04:08conforme foi aumentando a violência no Rio de Janeiro.
04:27A arma predominante, mais de 98% que estava na mão dos bandidos, eram os revólveres.
04:34A gente tem aqui o calibre 32, que era o mais utilizado, o calibre 38 e o calibre 45.
04:40As armas naquela época, um bandido que tinha uma pistola, vamos dizer, 9 milímetros,
04:47ou enfim, uma metralhadora, era considerado PAM.
04:53Qual é o marginal mais conhecido aqui que a senhora conhece?
04:56É o cumprido.
04:57Cumprido?
04:57É.
04:58Qual é o tipo do cumprido?
04:59Ele é alto, mago, mulato.
05:01É o lugar principal onde vocês têm que vasculhar, pelo amor de Deus,
05:04que é lá que está a quadrilha malandragem toda no Morro do Capaz.
05:31Os policiais tentavam capturar bandidos que pertenceriam à organização conhecida como
05:37Falange ou Comando Vermelho.
05:41Algumas autoridades policiais insistiram ainda em negar a existência dessa organização.
05:47Mas três dias depois do tiroteio, cinco bandidos eram presos num subúrbio carioca.
05:53Em seu poder foram encontradas armas de grosso calibre,
05:56eram bandidos ligados à Falange Vermelha, informou toda a imprensa.
06:01Secretário, como é que se explica que criminosos comuns tenham e saibam usar tão bem esse tipo de armas,
06:07até tão sofisticadas?
06:08Minha querida, eu pedi a você se soubesse que eu estou atrás disso.
06:13Não sei.
06:14Nós estamos pesquisando e vamos chegar lá.
06:17O Comando Vermelho começa a expansão nas ruas.
06:20Os traficantes acendendo dentro da estrutura ainda da Falange Vermelha,
06:24no momento de transição.
06:26Fugas espetaculares como a do traficante Escadinha,
06:29rebeliões em presídios, assaltos a banco, sequestros, tráfico de drogas.
06:34Nos últimos anos, grande parte dos crimes acontecidos no Rio de Janeiro
06:39tem, segundo a polícia, uma mesma assinatura, Falange Vermelha.
06:44O primeiro território, por exemplo, do Rogério Lengruber,
06:46que carrega o nome do Comando Vermelho, CVRL,
06:51historicamente você tem a Zona Oeste do Rio de Janeiro.
06:53Então, você tem uma evolução no crime.
06:56Ele começa como assaltante, você responde por homicídio,
07:02vai para o tráfico de drogas, mas ele dominava uma determinada área.
07:06Então, quando você chega na Ilha Grande, você tinha o Escadinha.
07:10Antes de existir Bangu 1, o presídio da Ilha Grande, no litoral do Rio,
07:15era o mais temido pelos criminosos.
07:19O Escadinha, ele controlava o Morro do Juramento, ali em Vicente Carvalho.
07:25Nos anos 70, aqui dentro, nasceu a Falange Vermelha.
07:30Você tinha vários líderes ali, chamada Falange Vermelha, né, que ganha esse nome.
07:38Já tinha uma bandeira em comum.
07:43O que foi que prendeu a tua mãe lá em cima?
07:45O Zacarê, aquele filha da puta, aqui pra ele, ó.
07:47Quem que é mais bermado, vocês ou o pessoal do Zacar?
07:50É a gente, é a gente, vai vir mais ainda pra dar força pra gente,
07:53que agora é o Comando Vermelho.
07:54Tô falando isso, é pro rapaziada do Galpão escutar,
07:57aqueles filha das puta.
08:01Sou Fábio Pinto dos Santos, ex-Fabinho do São João.
08:06Fui líder do tráfico do Morro do São João e da favela de Manguinhos.
08:11Fui também, no meu passado, assaltante de bancos, de carro forte.
08:16Cumpri pena, né, por 25 anos da minha vida.
08:22Estive à frente também de uma facção no Rio de Janeiro.
08:28Meu nome é Neida Conceição Cruz.
08:30Eu fui conhecido na vida do crime como Facão.
08:34Hoje em dia, me encontro totalmente fora do mundo do crime
08:39e produzindo na área do audiovisual.
08:58A ideologia do Comando Vermelho quanto de outras facções é uma guerra contra o Estado.
09:04O Comando Vermelho hoje, ele decidiu por se associar a outros grupos criminosos
09:11e explorar aquilo que efetivamente confere a ele lucro.
09:15Então, isso não se trata de ideologia.
09:17Isso trata-se de lucro.
09:23O Estado é opressor.
09:25O Estado é inimigo.
09:27Em todo momento.
09:29O Estado só vem pra isso.
09:31Só vem pra oprimir, coagir.
09:35Viver na favela é bagulho louco.
09:37Tem que ter disposição pra caralho todos os dias.
09:42Quando a polícia entra, o bagulho fica louco.
09:46Atividade a todo momento.
10:01Sempre falei pra tropa, se nós não atacarmos o inimigo, o inimigo vai nos atacar.
10:09Valor social primário no Estado é segurança.
10:12A gente pode questionar a educação, saúde, moradia, transporte.
10:15Mas segurança é elementar.
10:24Outras facções em si não vêem o Estado como inimigo.
10:50Eu sempre fui uma pessoa carismática, né?
10:52Sempre tive amigos.
10:54Os donos daquela época, da favela.
10:57Aquelas pessoas que eram sempre sinônimos de heróis, né?
11:02De pessoas bem-sucedidas.
11:04Porque naquele tempo, existia ali um assistencialismo, sabe?
11:08Os bandidos eram vistos meio como Robin Hood, né?
11:13Que estavam sempre ajudando, né?
11:16Teve uma época que era o bandido assistencialista.
11:21Pagava enterro, pagava remédio, pagava tudo isso.
11:26Mas hoje em dia não, ele estorque.
11:29Meu nome é Lu Arlindo Ernesto da Silva, conhecido no meio do jornalismo como Lu Arlindo Ernesto.
11:37Sou jornalista profissional há muitos anos.
11:40E apesar da idade, ainda sou jornalista atuante.
11:47Hoje eu vou contar tudo.
11:50Tudo o que sei.
11:51Eu tenho memória boa.
12:00Quando os bandidos começaram a se organizar em bandos que dominavam determinadas favelas,
12:10esses bandidos, esses chefes de cada bando,
12:14começaram a regimentar mais pistoleiros.
12:17Cada vez o poderio deles são maiores.
12:19Porra, mas é incrível isso aí.
12:21É pura verdade.
12:23O que chama atenção é que a partir da década de 70, meados dos anos 70,
12:28começam as apreensões de submetralhadoras nas mãos dos criminosos.
12:34No final da década de 80,
12:37quando, até por uma questão midiática de propaganda,
12:41nos filmes americanos, de Hollywood,
12:44que mostravam muito a utilização do fuzil R-15 como a arma do mocinho,
12:51como a arma mais desejada, vamos dizer assim, naquele momento,
12:55por aparecer em filmes como Guerra de Vietnã,
12:58ou filmes que retratam o crime organizado,
13:01Poderoso Chefão, Pagamento Final,
13:04essa arma passa a ser o bibelô dos criminosos.
13:09Quando o fuzil começou a surgir,
13:12não é que a violência aumentou.
13:13Essa armação foi em sentido de guerra.
13:18Ele não é para combater a polícia,
13:20ele é para combater os inimigos,
13:21mas acaba sendo usado também para combater a polícia.
13:24O cara tem um fuzil à mão alegando que tem que se defender.
13:26Mas se defender de quem?
13:28Do opositor, do inimigo, da polícia?
13:31É o que eles alegam,
13:33mas cada vez mais essas armas crescem,
13:36essas armas são utilizadas, inclusive,
13:38para assaltar trabalhador em ponto de ônibus.
13:41Então já não é mais por isso.
13:42Essa justificativa já não existe mais.
13:44Quando você vê nas ruas,
13:46pessoas sendo assaltadas,
13:47o cara portando um fuzil.
13:48E muitas vezes eles roubando algo
13:50que vale muito menos do que aquela arma.
13:52As polícias se viram de frente
13:54a uma nova realidade bélica
13:57e então se recorreram a armas
14:00que foram doadas pelo exército
14:02para a polícia militar
14:04e armas que eram apreendidas
14:06nas mãos dos criminosos
14:08passaram a ser utilizadas
14:10pela polícia civil.
14:16Um fuzil desse tipo, por exemplo, o R15,
14:19é um alcance médio útil de 700 metros.
14:26Eu cobri.
14:27A primeira apreensão de arma de guerra
14:30foi mostrada no governo Moreira Franco.
14:35A cocaína muda o poder financeiro
14:38das quadrilhas,
14:40muda o patamar de propina
14:42para as polícias.
14:44Com esse poder financeiro,
14:46e como no Rio de Janeiro
14:47o crime sempre gostou de ostentar
14:49e dominar território,
14:51começa a vir arma de guerra.
14:53Fuzil.
14:55Os criminosos queriam
14:57e encomendavam
14:59dos traficantes de armas
15:00um modelo bastante semelhante a esse,
15:02que é um fuzil M16 ou R15,
15:06dependendo da destinação.
15:13Esse armamento acaba chegando
15:15na mão dos criminosos.
15:17Eles têm aqueles irmãos lá da Rocinha
15:19que inclusive são gravados, né,
15:21num vídeo,
15:21ostentando uma arma dessa,
15:23efetuando disparos.
15:28E aí,
15:30estarta uma nova realidade
15:32da violência no Rio de Janeiro.
15:35Se a gente analisar,
15:36historicamente,
15:37final da década de 80,
15:39início de 90,
15:40fim da Guerra Fria,
15:41fim do Pacto de Varsóvia,
15:43não existia mais
15:44os dois grandes inimigos ideológicos.
15:47Só que,
15:48pra onde iam as armas
15:50que eram
15:52permanentemente produzidas
15:53pra sustentar uma guerra?
15:54Iam pra algum lugar.
15:55Daí,
15:56os fuzis começaram a ser
15:59derramados aqui no Rio de Janeiro.
16:00Se a gente pensar
16:01que a gente tem mais ou menos aí
16:031.600 áreas conflagradas
16:05aí no Rio de Janeiro,
16:07cada uma tiver só 5 fuzis,
16:09olha quantos fuzis que tem.
16:10Só que tem lugar
16:11que tem mais de 300.
16:17Eu venho de uma geração
16:19dos anos 80.
16:20A arma mais potente
16:22era uma pistola,
16:24vem da época do 38 ainda.
16:27Era uma pistola
16:28e, raríssimo,
16:30uma metralhadora.
16:34Os fuzis começaram a aparecer
16:36já nos anos 90,
16:38de 93 pra cá.
16:43quem tinha um fuzil
16:44era o cara, né,
16:45que se dizia em dizendo.
16:48O fuzil
16:48é o colar do bandido,
16:51é a melhor roupa,
16:52é a beca dele,
16:53ele tá na beca,
16:54ele tem o fuzil,
16:54então aquilo é ostentação.
16:56Todo mundo que tá de frente
16:57no murro,
16:58ele sempre quer se mostrar
16:59o poderoso,
16:59então por que ele vai
17:00comprar a arma?
17:01Ele vai comprar a arma
17:01quando for lá na área dele
17:03visitar,
17:04pô, mano,
17:04o fulano tá pesadão.
17:06E o que é isso aí?
17:06A arma impõe respeito,
17:08essa que é a realidade das armas.
17:10Eu digo respeito
17:11de bandido pra bandido.
17:14Esses fuzis chegavam na época
17:16através dos matutos,
17:18os caras que vendiam droga
17:20pra gente.
17:21A gente pedia, assim,
17:22ah, quero uma tonelada
17:24de maconha,
17:26um exemplo.
17:27Dá pra trazer um fuzil,
17:29dá pra trazer umas pistolas,
17:30uma metralhadora,
17:31e vinha junto,
17:31camuflado ali na droga.
17:35Batida policial
17:36no Rio de Janeiro.
17:37Os agentes sobem o morro
17:39em busca de traficante,
17:40mas logo começam a recuar
17:42debaixo de uma tempestade
17:44de chumbo.
17:48Antes,
17:49o crime só corria
17:50na frente, né?
17:52Aí passou a bater de frente,
17:54dá pra segurar, entendeu?
17:55Através dos fuzis.
17:57É uma guerra desigual.
17:59Os traficantes atiram
18:01para matar
18:01com armas de primeiro mundo.
18:03Os criminosos
18:04formam uma tropa
18:06muito bem armada
18:07e compram o que existe
18:09de mais moderno
18:10e poderoso
18:10no mercado internacional
18:12de armamento.
18:15Essas armas,
18:16elas inauguram
18:17um novo momento
18:17do crime organizado.
18:18essas armas
18:19não são mais
18:20utilizadas
18:21para roupas,
18:22elas são utilizadas
18:23para expansão
18:24territorial
18:24nas facções.
18:26Quando a gente fala
18:27uma cúpula
18:28do Comando Vermelho,
18:29a gente está se referindo
18:30basicamente
18:31a donos de morro
18:32muito proeminentes
18:34que assumiram
18:35uma função
18:35de liderança
18:36na facção
18:37em que eles
18:38não mandam
18:38nos negócios locais
18:40de outros donos
18:41do morro,
18:41mas que eles têm
18:42maior influência
18:43nas decisões coletivas
18:45da facção
18:46como um todo.
18:47Marcin VP
18:48é um general
18:49quer gostem
18:51quer não.
18:59Ele supera a questão
19:01da cadeia.
19:02Da cadeia
19:02onde ele está,
19:03ele comanda
19:04o complexo do alemão.
19:06Nunca perdeu o controle.
19:09Há uma hierarquia
19:10que é essencialmente
19:11local,
19:12uma hierarquia
19:13das firmas locais
19:15do tráfico de drogas
19:16que vai ter
19:17no dono do morro
19:17a sua figura máxima
19:19e abaixo dele
19:19o responsável,
19:20o gerente geral
19:21do morro,
19:22abaixo outros gerentes,
19:24subgerência,
19:24gerente do pó de 10,
19:25gerente da maconha de 10
19:27e nos escalões
19:28mais baixos
19:29soldados,
19:30vapores,
19:30olheiros,
19:31fogueteiros.
19:32Então você tem
19:32uma hierarquia
19:33que é local.
19:35O Comando Vermelho,
19:37assim como o PCC
19:38e a maioria dos estados,
19:39eles têm um chamado,
19:41vamos dizer assim,
19:42um conselho.
19:43E esse conselho
19:45é para avaliar
19:46o que pode,
19:47o que não pode,
19:48se o cara está agindo certo,
19:49se não está.
19:50Agora existem pessoas
19:51que têm mais tempo,
19:52já têm mais experiência
19:53e o conselho
19:56respeita a opinião
19:57de certa pessoa.
19:58A sociedade tem sua lei.
20:00A partir do momento
20:00que qualquer um dos senhores
20:03foge dessa lei,
20:04automaticamente
20:05você tem que responder
20:06pelos seus atos.
20:07do crime,
20:07também existe uma lei.
20:09A partir do momento
20:09que você
20:11descumpre aquela norma
20:12que é do crime,
20:13você está sujeito
20:14a arcar com as consequências.
20:17Mas Luiz Fernando,
20:18também tem vídeos
20:19de traficantes
20:19sendo muito cruéis
20:20com moradores,
20:21espancamento,
20:22se cortava a mão,
20:24assassinatos de pessoas
20:25por causa de ciúme
20:26de mulher.
20:26Isso não acontece
20:27nas comunidades?
20:28Acontece.
20:29Eu mesmo,
20:29há um tempo atrás,
20:30antes de ser preso,
20:32eu fui infeliz
20:33e acabei tirando a vida
20:34de um cara
20:35que teve envolvimento
20:36com a minha mulher.
20:37Hoje,
20:37se fosse chover,
20:38eu não faria.
20:38Ou seja,
20:39imagine um cara
20:40que é frente
20:40de uma favela
20:41em que ele é descoberto
20:43que a mulher dele
20:45está chifrando ele.
20:46Imagina se esse cara
20:47não toma providência,
20:48com que moral
20:49ele vai poder
20:50exercer
20:50a liderança
20:52da localidade?
20:53Nós, policiais,
20:54temos acesso
20:55a investigações,
20:57a imagem,
20:58a fatos,
20:59a confissões
21:00de crimes
21:01com recrinte de crueldade.
21:07Há uma glamorização
21:09em torno dessas pessoas.
21:15Ah, não,
21:16mas o pessoal lá
21:16tem arma
21:17que não sei o quê.
21:18Na troca,
21:19perde,
21:19porque aqui,
21:20durante esse lado,
21:20quando o Estado quer,
21:21vem e avança.
21:23Avança mesmo.
21:26O mundo inteiro
21:27trata esses crimes
21:29com muito rigor.
21:30O Brasil ainda não.
21:40E aí,
21:40como é que tu vai
21:41para o bairro de chinelo,
21:42mal vestido?
21:43Então,
21:44aquela ilusão ali
21:45faz com que
21:46o jovem fale,
21:47não,
21:48vou entrar para a boca.
21:49O cara entra para a boca
21:50de fumo,
21:50ele começa a traficar ali,
21:52ele já ganha a comissão,
21:54que é a carga,
21:54né?
21:55Do que ele vende,
21:56então ele começa
21:57a ver o dinheiro fácil.
21:59Hoje,
22:00para um moleque desse novo
22:01escapar dessa vida
22:02do crime,
22:02eu acho que
22:03ele teria que ter
22:04um incentivo
22:05de trabalhar
22:07e ganhar dinheiro.
22:13o crime é um ato voluntário.
22:16O crime,
22:17além de ser um ato voluntário,
22:18é uma escolha.
22:19Nessa escolha,
22:20além do caráter,
22:21conta também
22:21os estímulos
22:22que a pessoa recebe.
22:23É muito difícil
22:24você pegar o dono
22:27de uma facção criminosa,
22:29o dono do morro
22:30ou o gerente da boca
22:31e recuperar essa pessoa.
22:32Mas é muito fácil
22:34você recuperar
22:34um menino de 12 anos
22:35que tem duas semanas
22:36que começou a trabalhar
22:37no tráfico
22:37e já foi preso.
22:38E ele percebe
22:39que aquela vida
22:40que ele achou
22:40que era maravilhosa
22:41é uma ilusão.
22:42Quando você pergunta assim,
22:43mas não é uma...
22:43Por que ele escolhe
22:44para o tráfico
22:45em vez de escolher
22:45para a empresa
22:46trabalhar de jovem aprendiz?
22:47Porque ele não tem a opção
22:47de ir para a empresa
22:48trabalhar de jovem aprendiz.
22:49Essa opção não é real.
22:55Isso é a política
22:56de segurança pública.
23:00Às vezes,
23:01existe determinado estado
23:03que há um certo tipo
23:04de acordo.
23:05Entre aspas.
23:06Você fica do seu lado,
23:07eu fico no meu
23:08e ninguém mexe com ninguém.
23:09Então, tem isso.
23:11No Rio de Janeiro
23:12que é bem diferente
23:13que o cara...
23:14Um querendo tomar
23:16a posição do outro.
23:18O terceiro comando,
23:19ele surge
23:20como um grupo
23:21de oposição
23:22de valores,
23:23de ideias
23:24e de cultura
23:24ao comando vermelho.
23:26Rapidamente,
23:27se tornou
23:27uma facção
23:28com territórios estratégicos
23:30ricos e extremamente armados.
23:32O que aconteceu?
23:33Intensificou a guerra
23:34entre facções.
23:35Guerra essa
23:36que se estende
23:36até o dia de hoje.
23:39Em determinado momento,
23:41no Extra,
23:42eu percebi
23:43que a cobertura
23:45de segurança
23:46era falha
23:46porque no Rio de Janeiro
23:48uma tragédia
23:49revoga anterior.
23:51Então, um dia
23:51você está cobrindo o caso,
23:53amanhã acontece outra coisa,
23:54você larga aquele caso
23:55e passa a cobrir
23:57a outra tragédia.
23:58Criei a editoria
23:59Guerra do Rio.
24:05As autoridades
24:07negavam
24:08que houvesse
24:10um cenário de guerra.
24:12E aí, curiosamente,
24:14foi o meu primeiro cancelamento.
24:17Setores
24:17da esquerda,
24:19da academia
24:20e principalmente
24:21a classe média
24:22que morava
24:23longe
24:23das comunidades
24:25em guerra,
24:28diziam que o Extra
24:29estava legitimando
24:30a violência
24:32da polícia.
24:33O jornal
24:35está admitindo
24:36que é guerra,
24:36agora a polícia
24:37vai matar mesmo.
24:38Primeiro ponto,
24:40a polícia
24:40não precisa
24:41de legitimação
24:43de jornal
24:43para ser violenta.
24:44A violência é histórica.
24:46Em segundo lugar,
24:46quem morava
24:47nas comunidades
24:49não entendia
24:50a polêmica
24:51porque sabia
24:52que era uma guerra.
24:56quantas vezes
24:57nós ouvimos
25:00das autoridades
25:01chamadas competentes
25:02vamos acabar
25:03com o tráfico
25:04em tal favela.
25:05Duvido que acabe.
25:06Não acaba.
25:07Não tem como.
25:09Primeiro,
25:09por causa do poderício
25:10econômico
25:11e o poderio de arma.
25:13E o poderio
25:15da corrupção.
25:17Eu venho de uma época
25:18quando eu comecei
25:19lá atrás
25:20não existia guerra
25:21entre facções
25:22no Rio de Janeiro.
25:24A primeira guerra
25:25que eu presenciei
25:26foi essa guerra interna
25:28dentro do Acari.
25:29Foi guerra
25:29por poder.
25:32Por poder,
25:34por dinheiro.
25:39O fenômeno do fuzil
25:40claramente
25:41aqui no Rio de Janeiro
25:42está intrinsecamente
25:44ligado
25:44a essa expansão
25:46territorial
25:47dessas organizações
25:48criminosas.
25:49Porque para você,
25:50inclusive,
25:50o termo utilizado
25:52dessas armas
25:52chama-se
25:53fuzil de assalto.
25:54Por quê?
25:55Porque é para a tropa
25:56fazer um assalto
25:57a um local
25:58e conseguir
26:00vencer
26:01aquela força
26:02que está naquele local.
26:04Em uma guerra,
26:05você ganha
26:06aquilo que o seu inimigo
26:07perde.
26:08Então,
26:09você termina uma guerra
26:10quando você ganha
26:11o território dele.
26:12ligado geral
26:13tinha um São Jorge,
26:13aí apagaram São Jorge,
26:14quebraram a Santa
26:15e etc.
26:17Foi algo assim
26:18muito traumático,
26:20né?
26:20Mas ao mesmo tempo,
26:23agora eu vou falar
26:23a coisa mais louca.
26:24Por que a guerra acabou?
26:26Porque um lado
26:27tomou o outro.
26:29Na última década,
26:30o Brasil matou
26:30cerca de meio milhão
26:31de pessoas.
26:32Corresponde
26:33à guerra civil
26:33na Síria.
26:50Minha mãe
26:51se chama
26:52Gisele Mendes
26:53de Souza e Melo.
26:55Ela era médica,
26:57capitã de Mariguerra
26:58da Marinha
26:58do Brasil.
27:02Minha mãe
27:02estava trabalhando
27:03naturalmente,
27:03estava tendo um evento
27:04então ela estava
27:05numa área
27:06que é reservada
27:06para palestras
27:09e festividades,
27:10enfim.
27:11Ela chegou
27:12numa roda
27:12e de repente
27:13ela caiu
27:13no chão.
27:20Mas o que tinha ocorrido
27:21é que acontecia
27:22uma operação policial
27:25visando
27:25o Muro do Gambá
27:26no Complexo do Lins
27:27e essa operação
27:28com o caveirão
27:29passava ao lado
27:30do Muro do Hospital.
27:32Um tiro
27:33veio do
27:33do Muro
27:34direcionado
27:35a essa operação.
27:36Errou.
27:38Atravessou
27:38o Muro do Hospital.
27:40Uma bala perdida
27:41encontrou
27:42minha mãe.
27:44A capitão
27:45de Mariguerra
27:46foi velada
27:46no crematório
27:47do Caju,
27:48São Francisco Xavier.
27:50Silêncio,
27:51rosas brancas
27:52trazidas por amigos,
27:53companheiros
27:54com fardas
27:55da Marinha
27:55e muitas coroas
27:56com faixas
27:57expressando
27:58lamentos
27:58pela tragédia.
28:09Então,
28:10a polícia se vê
28:11frente
28:11à utilização
28:13dessas armas
28:14que têm
28:14um poder de fogo
28:15muito superior
28:17ao antigo,
28:18que são armas
28:18produzidas
28:19para a guerra
28:20e que agora
28:21estão utilizadas
28:21em território urbano.
28:24A polícia
28:25tem que fazer
28:26frente a isso.
28:27Eu não nasci
28:28dentro de uma guerra,
28:30mas eu fui
28:31forjado
28:32numa guerra
28:34e tive que lutar
28:36uma guerra
28:36que eu não queria lutar.
28:40No Comando Vermelho,
28:42muitas vezes,
28:42eles praticam
28:43atos de maldade
28:44pela maldade.
28:45Eles praticam
28:46atos ali
28:47visando um controle
28:48territorial,
28:49mostrar que eles
28:50têm força.
28:51O inimigo
28:52é o criminoso.
28:52nós temos que
28:53estar nas ruas
28:55com essa visão.
28:57Atacar o inimigo,
28:59prender o inimigo,
29:01se reagir,
29:02neutralizar o inimigo.
29:07Garantir a ordem pública.
29:11O que houve
29:13de fato
29:13no Rio de Janeiro
29:14foi uma corrida
29:14armamentista.
29:18Se chegar
29:19fuzil
29:20num preço
29:22que eles vão ter
29:22condição de pagar
29:23e se sentir poderoso,
29:26essa que é a ilusão
29:27que o crime
29:27vende para quem
29:28está em comunidade.
29:29E aí,
29:29dali,
29:30o que vai gerar?
29:30Vai gerar guerra,
29:31vai gerar domínio
29:32de território.
29:33Porque,
29:34mas a gente tem
29:34100 fuzis,
29:35no linguajar,
29:36os alemãos
29:37têm 10.
29:38Então,
29:38vamos lá.
29:39Onde tem 10
29:39que a gente tem 100?
29:40hoje,
29:41hoje,
29:41quando você olha
29:41a quantidade
29:42de fuzis
29:42que tem nas favelas,
29:44nós estamos diante
29:45de uma questão
29:46de uma busca
29:47por um poder econômico.
29:49Isso pode ser
29:49através da droga
29:50ou de qualquer outra
29:52forma de atuação.
29:54E se você tirar a droga,
29:55ok,
29:57mas as armas
29:57continuam lá
29:58e a disposição
29:59daquelas pessoas
30:00continuam lá.
30:13Porque a partir do momento
30:14que eu avancei
30:15até metade da favela,
30:17cheguei até o final
30:18da favela,
30:18expulsei
30:19todas aquelas pessoas
30:21que existiam ali antes,
30:23que guerreavam contra mim,
30:25aquele território
30:25passa a ser meu.
30:31Ambas as facções,
30:32a cada semestre,
30:34a cada ano,
30:35procuravam não só
30:37aumentar a quantidade
30:38de armas,
30:39como também
30:40comprar armas
30:41que tivessem
30:42maior poder de fogo ainda.
30:48O ataque dos criminosos
30:50foi na Praça Barão de Drummond,
30:51conhecida como Praça 7.
30:53Quatro rapazes morreram.
30:55Segundo a PM,
30:56um deles era alvo
30:57dos bandidos.
30:58A polícia diz
30:59que ele era um dos chefes
31:00do tráfico
31:01no Morro dos Macacos.
31:02O ataque pode ser resultado
31:04de mais uma disputa
31:06por territórios
31:06entre traficantes
31:07na Zona Norte.
31:09Acaba sendo
31:10uma guerra fraticida,
31:12guerra entre irmãos,
31:13guerra de pessoas
31:15que outrora
31:16lutavam juntos
31:17na mesma trincheira
31:18contra um inimigo específico
31:19e de se ver o momento
31:21de você estar
31:22numa trincheira
31:23lutando já
31:24contra essa pessoa.
31:44e aí
31:45e aí
31:45e aí
31:51eu sou policial militar
31:52há mais de 10 anos
31:53no Rio de Janeiro
31:54e vou contar pra vocês como funciona um pouco das ruas do Rio.
31:58Pode tocar aí.
32:16Fuzil vale muito dinheiro.
32:18O policial hoje enxergou que, na verdade,
32:21a polícia era muito corrupta.
32:24Os oficiais são muito corruptos.
32:27Então, realmente, é difícil apreender um fuzil
32:29porque pra você chegar até um fuzil vai ter erro,
32:31vai ter uma troca de tijos.
32:32Mas quando você pega um fuzil de um traficante,
32:34ele vê mais vantagem em vender o fuzil,
32:36porque um fuzil, dependendo do fuzil,
32:38é até 180 mil reais um fuzil.
32:41Existem fuzis de 40, 50 mil.
32:44Como existe fuzil calibre 7.62,
32:45que vale de 110, 120,
32:48a 180 mil reais um fuzil.
32:50Então, uma guarnição que pega dois,
32:52três fuzis calibre 7.62,
32:54por exemplo, um G3,
32:56vale 180 mil reais.
32:58Uma guarnição que pega dois, três fuzis,
33:00eles já têm um bom dinheiro pra cada um daquela equipe.
33:03Então, eles veem mais vantagem nisso
33:05do que apresentar esses fuzis.
33:07Por quê?
33:08Porque tá entrando fuzil toda hora.
33:11Eles pegam fuzil, vem da Bolívia,
33:13vem do Paraguai,
33:14e tem fuzis que chegam na caixa, zero pra eles.
33:18Os agentes do batalhão de choque furtaram e esconderam armas,
33:23e até peças de um carro.
33:25Cinco PMs foram presos essa semana.
33:30aqui ó, tem.
33:34Tem um fuzil aí, tá bom?
33:36Tem.
33:39Tem um fuzil.
33:41Tem um fuzil.
33:56Tem um fuzil.
33:58Tem um fuzil.
34:00Tem uns chur Phantom.
34:17Corrupção tem tudo que alugar, só que as pessoas sempre procuram demonizar muito a
34:27polícia. Nessa questão de corrupção, as polícias são as instituições mais fiscalizadas do Estado.
34:36Eu desafio você a procurar outra instituição que tenha mais controle, órgãos de controle,
34:44inclusive órgãos externos de controle, do que as polícias. Quando chegou no ano 2000, por meio da
34:51Secretaria de Segurança, houve a primeira compra desses fuzis AR-15, que equiparam não só a Polícia Militar,
34:58como também a Polícia Civil.
35:00Tudo extremamente leve, permite a mobilidade da tropa.
35:05Aqui, um AR-15, o policial acabou de desenrolar aqui no tapete.
35:10Mas mesmo assim, no início dos anos 2000, quando a gente tem acesso a esse armamento, os criminosos, mais uma
35:17vez, dão um passo adiante.
35:20O traficante Alexandre Mendes da Silva, o Polegar, foi preso por policiais do Rio, nesta casa que fica na região
35:26metropolitana de Fortaleza.
35:28A operação foi sigilosa e Polegar só foi encontrado depois de dois meses de investigações.
35:34Vem cá, como você se arrumou esse dinheiro aí? Essas joias?
35:37Isso aí eu comprei, pô. Isso aí eu comprei.
35:40Como é que você conseguiu esse dinheiro?
35:41Como? Não falei que sou traficante?
35:45Pô, eu continuo não, eu continuo não. O tempo que eu tava preso eu não trafiquei, mas o tempo que
35:50eu tava na rua eu trafiquei, tá entendendo?
35:53O tempo que eu tava na rua eu trafiquei. Agora eu fiquei sete anos preso, como é que eu ia
35:56traficar dentro da cadeia de trafico?
35:57Não, tá entendendo? Eu tô três meses na rua agora.
36:02Eu vou preso em 94 e saio em 2001, mas quando eu saio em 2001 já tem fuzil que eu
36:06nem conhecia, G3, AK-47, mas não sei o que e tal.
36:10Então eu vejo que já tá chegando aquilo ali igual brinquedo.
36:14Esse fuzil aqui, o G3, que até hoje ele é um fuzil requisitado por alguns dos criminosos.
36:20A gente vê aqui uma munição de AR-15, uma munição de AK-47 e uma munição, por exemplo, de
36:28G3 e o FAO, que eu tô demonstrando aqui.
36:31Ela é uma munição. Nenhuma das três são munições para serem utilizadas em ambiente urbano, mas pode-se perceber que
36:38uma munição com o tamanho, com a capacidade de pólvora, com o alcance operacional e o alcance efetivo, vamos dizer
36:47assim,
36:47de mais de um quilômetro que você pode vitimar uma pessoa com uma munição dessa.
37:03Bom dia, chefe de equipe, eu para lá. Tá ok, doutor? Tá.
37:12Bom dia, bom dia, tudo bom? Estamos com quantos pacientes aí?
37:16Um, dois, três, quatro... Nove, né?
37:27Aqui é a nossa sala chamada sala vermelha. É onde os pacientes mais graves chegam. A ambulância para logo adiante
37:36ali.
37:36Eles já entram na maca. É uma correria muito grande porque em segundos você pode salvar a vida de um
37:42paciente.
37:43e o paciente conduzido para esse espaço aqui.
37:55Há 15, 20 anos atrás, quando eu comecei na emergência, a gente tinha muito ferimento por arma de fogo de
38:0338, arma branca muito.
38:05Mas isso houve uma evolução muito grande para armas com o maior poder de destruição.
38:11A maioria dos traumas graves que a gente pega é por arma pesada, arma destrutiva de fuzil.
38:22Essa imagem que vocês estão vendo é uma imagem de um ferimento de alta energia por fuzil.
38:29Atendido no nosso hospital, esse paciente tinha muitos fragmentos, muitas lesões,
38:34teve uma ótima evolução, porém com sequelas.
38:37Mas é um paciente que sobreviveu a esses ferimentos de alta energia, de alto poder de destruição tessidual.
38:45Já nessa imagem aqui, essa aqui foi uma toracotomia de reanimação que foi feita por mim,
38:51numa paciente que foi vítima de perfuração de arma de fogo no tórax.
38:56Eu fiz na tentativa de reanimação dessa paciente, mas essa paciente não sobreviveu aos ferimentos.
39:14Como em toda guerra marmentista, onde sempre um lado quer superar o outro,
39:19a gente tem as apreensões, não só essa, tem outras aqui no nosso cofre, de metralhadoras .30.
39:25Eles são calibres antimateriais. O que que é isso?
39:28São calibres pra você ultrapassar blindagem de veículo, pra você ultrapassar blindagem de colete,
39:35pra você acertar veículos, helicóptero, carro blindado, é pra isso.
39:51Esse é um de nossos veículos blindados, Maverick, da África do Sul.
39:54É um diferencial nas nossas operações.
39:57A gente teve a oportunidade de receber o representante da empresa aqui.
40:00Quando chegou no Rio de Janeiro, ele ficou assustado.
40:02Falou que em nenhum local do planeta ele viu um veículo blindado com tantas marcas de tiro de fuzil,
40:09nem em áreas de guerra.
40:10E tem um outro detalhe desse veículo.
40:12É um veículo que funciona com rodoar, pneu cheio de ar.
40:16Teve que fazer uma adaptação própria do Rio de Janeiro
40:19e passamos a utilizar pneus com conteúdo sólido.
40:24Então quando você olha um pneu como esse aqui, ele não tem ar dentro.
40:27É um pneu sólido que é feito pra suportar muitos tiros de fuzil
40:32e é uma coisa que você só vê no Rio de Janeiro.
40:34E a gente tem uma espécie de ápice, né?
40:38De uma arma com poder completamente descomunal, completamente desproporcional.
40:44Olha a diferença de um calibre .50
40:48frente aos outros demais calibres de fuzil.
40:50É uma coisa, assim, completamente anormal ser utilizado isso no ambiente urbano.
40:55E essa arma, ela foi utilizada na Vila Aliança
40:59e ela foi utilizada contra as forças policiais.
41:02Inclusive, ela foi atingida aqui no aparelho de mira por um tiro feito pela polícia.
41:08Os criminosos que estavam com ela foram presos.
41:10E essa arma encontra-se hoje aqui apreendida, aguardando a destinação dela.
41:15Você não pode ficar nem no seu quintal, que é bala perdida.
41:19Você encontra munição no teu quintal, sabe?
41:23É barricada na sua rua, é tiroteio o tempo todo.
41:27Todos os dias, todos os dias, tiroteio.
41:30E a gente vive nesse inferno.
41:33É complicado viver desse jeito, porque a gente já não vive mais em paz.
41:43Passou-se a ter também o uso de granadas, de explosivos.
41:48Esse tipo de arma não é tão letal no que diz a mortalidade.
41:53Por quê?
41:54Geralmente não provoca a morte, a menos seja uma destruição muito de vários fragmentos.
41:59Mas, em geral, ele atinge muito a mão e o rosto do paciente.
42:11Eu vou mostrar para vocês agora um local bem importante.
42:15É a sala de instruções do Esquadrão Antibomba da Polícia Civil.
42:19Aqui os policiais treinam para enfrentar um enorme problema.
42:23Talvez um problema desconhecido de grande parte da população.
42:26Os policiais enfrentam mais de 2 mil artefatos explosivos por ano, aqui no Rio de Janeiro.
42:324, 5, 6 acionamentos por dia.
42:35Começa de uma maneira um pouco rudimentar, com uma bomba-tubo.
42:41Uma evolução aqui ao utilizar uma pedaleira de bicicleta.
42:45Na sequência, aqui, a gente passa a ver algumas granadas caseiras,
42:49que talvez, num primeiro momento, a gente considere até que possa ser
42:54um artefato militar industrializado, por conta da semelhança.
42:58É muito comum o tipo de lesão com amputação aqui, principalmente de criminosos,
43:03que tentam manusear e utilizar esses artefatos.
43:06Essas granadas são jogadas contra inimigos, contra a força de segurança.
43:11Uma realidade de muitas ocorrências aqui, e que normalmente nem sai no jornal.
43:16Nós entramos nessas áreas pobres com armas de guerra, porque os bandidos têm arma de guerra.
43:22Mas ninguém pensa que bandido não tem nenhum compromisso com ética e moralidade.
43:26Para bandido, vale tudo.
43:28Quando dá uma bala perdida, eu morro inocente.
43:30Qual é a justificativa que o Estado, muitas vezes, dá?
43:33Ah, foi um dano colateral.
43:35Dano colateral?
43:36Uma pessoa, uma vida.
43:38Alguém que tinha família, que tinha amores, que tinha projetos,
43:42e você trata meramente como um dado estatístico, como um dano colateral, é inadmissível.
43:47A vida desse inocente nunca vai se devolver.
43:58Maria Eduarda tinha 13 anos, mas tinha a mente de uma menina de 20 anos.
44:05Tinha sonho, o sonho dela era ser aeromoça.
44:09Mamãe, vou estudar para a aeromoça, mas eu prometo, mamãe, vou te dar o orgulho.
44:15E vou tirar a senhora.
44:18Eu vou tirar a senhora da comunidade, da favela.
44:24Maria Eduarda Alves da Conceição morreu baleada dentro da escola em Costa Barros.
44:30Ela foi atingida durante a aula de educação física.
44:38Tinha a escola, o muro, passando dois elementos, não sei,
44:44não quero saber que eu não estava na hora.
44:47Dizem que estava passando um de fuzil.
44:49E do outro lado do rio, lá na fazenda Botafogo, do outro lado da ponte,
44:54mandaram mais de cem tiros.
44:56Pegou na minha filha dentro da quadra.
44:59Três tiros de fuzil, seis perfuração.
45:03Esse buraco no casaquinho dela estava amarrado na cintura dela.
45:06Quando ela passou da quadra para passar para a porta, para entrar na escola, veio uma bala de fuzil e
45:14atingiu a trarnela.
45:21Se fosse um filho de um juiz, se fosse um filho de um major,
45:29é porque é pobre, comunidade, mas tem ser humano.
45:34Esse rombo do meu coração, esse pedaço que foi de mim, que foi arrancado e que está aqui, doendo.
45:44Quantas Maria Eduarda os pais e as mães enterrou depois da minha.
45:51E quantas crianças estão morrendo em comunidade.
45:54Continua.
45:58O primeiro a sofrer é o morador e é quem tem menos voz nesse debate.
46:08Ações policiais para retomada do controle, elas são necessárias.
46:14Respeitando a lei, chamar de neutralizar e morte de morador de efeito colateral,
46:19isso é debochar da sociedade.
46:28Essa guerra armamentista entre as facções fez com que essa linha do tempo demonstre a violência do Rio de Janeiro
46:37em comparação com qualquer outro estado aqui do nosso país.
46:41Mas que hoje, por conta da mesma lógica, está se expandindo por todo o Brasil.
46:48Na verdade, existe um desafio muito grande, que é como é que você tira os fuzis de circulação e como
46:55é que você cria alternativas para essas pessoas.
46:58Se você não conseguir fazer as duas coisas, essa conta não vai fechar.
47:01Eles divulgam para a mídia que a polícia militar está fazendo o serviço dela, mas na verdade nós estamos ali
47:06só de fantoche.
47:07Quem está comandando tudo ali é o tráfico. Então tem que existir um acordo, porque se não existir um acordo,
47:12os policiais ali dentro são como ratos na ratoeira.
47:17O que é a palavra mágica para esse país? O acerto. Quem sabe fazer o acerto, sabe desmanchar o acerto.
47:30Todos precisamos estar conscientes daquele desafio. Segurança pública é um tema do estado como um todo. Segurança pública não é
47:41um tema da polícia.
47:43O estado precisa perceber no que vem falhando e atuar, visando proporcionar o bem-estar aos cidadãos em geral.
47:52Que a gente encontre soluções porque o Brasil não merece viver o que está vivendo e nem merece estar caminhando
47:59para o lugar para onde ele está indo.
48:07Não existe coincidência dentro do sistema prisional. E quem quebra essa rotina do crime dentro do sistema prisional é o
48:13próprio policial com vários procedimentos.
48:15O Marcola foi o principal artífice da deposição e da decretação à morte dos fundadores do PCC.
48:27Diria que o PCC, nós começamos a desvendar agora qual é o tamanho real dele.
48:35As barricadas vieram para concretizar e demonstrar que, ó, isso aqui é meu território.
48:41O estado não entra mais aqui. Quem manda, quem estabelece as leis, sou eu.
48:48A população tem carência de segurança e clama para segurança pública.
48:53E é preciso que os comandantes também tenham essa percepção e comprometimento.
49:00Então, chega eu como deputado, chego lá, ele não vai fazer campanha ali sem autorização do cara que comanda ali.
49:18A ideia de que nós vamos conseguir fechar a fronteira completamente é ilusão.
49:22E aí
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