00:00O sol nascente é tão belo
00:04Tonica, Emília e Narizinho prenderam Itamar no galinheiro.
00:08Enquanto isso, Pedrinho montou uma armadilha para pegar o lobisomem.
00:12Candoca quis voltar para o sítio.
00:15No caminho, o lobisomem atacou a caminhonete.
00:17O coronel Candoca e Mazé fugiram pela mata apavorados.
00:22No sítio, todos saíram para procurar o lobisomem.
00:26Na confusão, Emília jogou pó de mico em Zé Carijó e Trovoada.
00:30No outro dia, Tonica encontrou o galinheiro vazio
00:33e achou que o lobisomem pegou Itamar.
00:36Mas diga, Emília, diga o que tu sabe.
00:39Anda, fala logo, menina.
00:40Agora que eu falo.
00:42Meu Deus, olha o que há acontecido com Itamar.
00:47Choria.
00:49Mas nem o sinal dele.
00:52Nossa, ele arrombou a porta.
00:56E arrebentou o cadeado.
00:58Ele quem, Emília?
01:02Ele, ele, ele o é.
01:12Mas só pode ter sido o lobisomem.
01:17Mas o lobisomem pegou Itamar aqui dentro.
01:21Mas é uma culpa minha.
01:23Fui eu que tranquei o pobrezinho aqui.
01:29E agora, Emília?
01:31A culpa é minha.
01:34Coitada.
01:35Coitada do Itamar.
01:37Calma.
01:39Não há de ser nada aqui.
01:42Onde?
01:44Mas eu fiquei rio antes de casar.
01:52Olha aqui, dona Benta, não é a primeira vez que isso acontece.
01:56A senhora tem que cuidar melhor da sua propriedade, viu?
01:58Qualquer um entra, qualquer um sai.
02:00Olha aqui como é que tá minha roupa.
02:01Dá uma olhada, dona Benta.
02:03Olha aqui.
02:03Isso aqui é muito caro.
02:04É francês.
02:06Sabe?
02:06Veio lá da Hungria, mas é que trouxe pra mim.
02:08Quanto mais longe, mais caro.
02:11Agora, uma pessoa fina como eu, dona Benta,
02:13não pode ficar à mercê de qualquer fera da selva, não.
02:16Francamente.
02:17Eu pensei que a senhora sabia receber as pessoas às visitas, viu?
02:21Péssima.
02:22É.
02:22Ela sabe.
02:23Mas é que não era uma fera comum.
02:27Ela era um monstro.
02:28Será que não era algum cangaceiro?
02:31Eles se espalharam pela mata.
02:33Vai ver, eles tentaram raptar você.
02:35Vai ser ó.
02:37Pra casar com você.
02:39Vai ser ó.
02:40Infelizmente, não foi isso mesmo.
02:43Não, não, não.
02:43Aquilo não era uma fera comum pra mim.
02:45Pra mim, aquilo era um lobisomem.
02:48Chocorro!
02:51Chocorro!
02:52Não, com a mazelda, você deixou a mazelda.
02:54Eu deixei ela lá.
02:55Você sabe que eu preciso da mazelda.
02:57Por que é que tô tendo a erguia comigo?
02:59Ah, meu Deus do céu, calma.
03:02É, mas ele sabe por que ele tem que apagar.
03:03Os pais não sabem, não.
03:05Calma, calma.
03:07Calma, calma.
03:09Puxa, carijó.
03:10Tá puxando, banadê.
03:11Puxa, aluno.
03:12A velha parece que pesa a bob-gorna e marca a tonelada, banadê.
03:16É um, é dois, e já.
03:18Já.
03:20Vem, velha.
03:22Vem.
03:24Vem.
03:25Vem.
03:25Vem.
03:26Vem aqui.
03:27Vem aqui.
03:27Vem aqui.
03:28Vem aqui.
03:29Levante a velha, banadê.
03:30Vem aqui.
03:31Levante.
03:31Aí, banadê.
03:34Vai, tira, pia, pia, pia, pia.
03:36Vai devagar aí.
03:37Tô toda destroncada.
03:40Machucou, dona Mazé.
03:42Mazé, por onde você andou?
03:44Eu me perdi na mata e caí nesse buraco, minha filha.
03:50Ai, eu tô toda estrofiada.
03:52Que dor nas costas.
03:54Eu tô toda destroncada, menina.
03:56Era armadina pra pegar o lobisomem?
04:00Para de reclamar!
04:02Que coisa?
04:02Vai botar meu banho agora!
04:04Eu não quero saber, velho, mas você reclama.
04:07Você é pigiçosa, sabia?
04:09É isso que você é.
04:11Você tá cobrindo uma pessoa.
04:13Vai embora, banadê.
04:15Cuidou!
04:16Cuidou, banadê.
04:17Cuidou da barada.
04:17Cuidou da barada, cuidou da barada.
04:21Coitado do meu noivo.
04:25Virou janta do monstro
04:27E a culpa é minha
04:35Que choradeira, não tem mais culpa
04:38Emília, desde que essa história começou
04:40Você está escondendo alguma coisa
04:42É, e vai dizer o que é agora
04:44Eu só falo o que eu quero
04:46E quando eu quero?
04:47Emília, deixa de ser birrenta
04:49Ai, você me beliscou
04:51Vou contar tudo pra Dona Bíblia
05:00Emília, se você não contar
05:03Eu vou te dar um banho e te pendurar na sombra
05:05Não, muito de pano, se molha em boloro
05:09Vezinho, ó, peguei
05:10Agora você coloca lá embaixo do chuveiro, vai
05:13Não, eu falo
05:15Mas eu só falo
05:16Se você me emprestar a sua armadilha do lobisome
05:20Emília, pra que você quer minha armadilha?
05:22Só falo se você deixar
05:33Você caiu do céu, capa ordinal
05:40Eu sei que Tonica Ventani arrasta uma certa asa por você
05:45Eu sei, eu sei, eu sei
05:47Mas eu sei também
05:48Que aquele Coronel Ricasso tá dando uma bela recompensa pela sua pessoa
05:58Portanto
05:59Acho que vou matar dois pra lá com uma paulada só
06:03Vou vender tua cabeça pra um e pra outro
06:08Depois então vou ter uma conversa tipo assim de pé de orelha
06:13Com trovoada dou um jeito nele e fico com o bando inteirinho só pra mim
06:24Eita, cabra safado da festa
06:27Sou capaz até de me casar com Tonica Ventani, tem porra, né?
06:31Nem que seja na base da força
06:33É o cão!
06:38Eu sou capaz de arrancar as tripachão
06:51O frangote tá querendo virar galho de brilho
07:00A banda de cabra traidor!
07:08Zoninha!
07:12Ô senhor!
07:13Cabo da pele!
07:14Cabo da moleca!
07:15Ô senhor!
07:15Ô senhor!
07:15Céteão sucio!
07:16Eu sou a cruza de carcará com carcavel
07:18E vocês encambada?
07:20Encambada?
07:21Todos querendo trair trovoada, hein?
07:23Nem podem ter comida de muito melhor custa deles, hein?
07:26Mas eu não vou deixar, não!
07:28Eu não vou deixar, não!
07:29É porque eu sou um cabaréal!
07:31Eu sou um cabaréal!
07:33Eu sou um cabadei palata!
07:34Foi só, rapaziada.
07:36Minha gente, mais um frangote querendo virar galo de briga pra cima de nós.
07:43É por entereza, Zoréia.
07:45Me diga uma coisinha só.
07:47O que é que tu vai fazer com nós, hein?
07:51Zoréia, atrás de você acho que é trovoada.
07:59Eu sabia, Pedrinho.
08:01Lembra daquele retalho de tecido que você achou?
08:04Era do Itamar.
08:05E era igualzinho a camisa dele.
08:07E o pelo que eu analisei?
08:08Não havia classificação científica possível pra ele.
08:11É, porque não era de nenhum animal conhecido.
08:13Eu não posso acreditar.
08:15O nosso amigo, o noivo da Tunica, é o lobisomem.
08:19O Itamar é o lobisomem.
08:21Coitada da Tunica.
08:23E agora, hein?
08:24O que a gente vai fazer?
08:28Ai, mas é, vê se estragou minha roupa.
08:31É horrível.
08:31Ai, ai, você.
08:34Toma aqui.
08:35Toma aqui esse vestidinho que a sua bundoca tá um pouco suja.
08:39Pode trocar.
08:40Você tá brincando que eu vou usar isso.
08:43É o melhor que eu tenho.
08:44Mas a minha candoca só gosta de coisa muito fina.
08:50Eu vou usar isso, sim.
08:52Mas onde é que já se viu querer fazer luxo na casa dos outros?
08:55Cada um.
08:56Parece um pano de chão, Malzé.
08:58Olha aqui.
08:59E tem também o sapatinho.
09:01É pra você não pegar friagem.
09:04Mal do carro.
09:06Ai, mas é...
09:09Ai, que no...
09:10Ai, eu vou pegar uma doença de pele, Malzé.
09:12Não, meu.
09:13Pode pegar pulga.
09:15Ai, meu Deus do céu, Benta.
09:18Minha filha, Benta, já só ficou viúva antes de se casar.
09:23Quer dizer que eu vou ter que aturá-la a vida toda.
09:26Benta, pelo amor de Deus, faça alguma coisa por mim, Benta.
09:30Benta, deixa eu ver se eu entendi.
09:32Você prendeu o Itamar no galinheiro e acha que ele foi devorado pelo lobisomem?
09:37Hoje, Pana Benta, achar eu não acho, não.
09:41Eu tenho certeza.
09:43Peraí, ô folgada.
09:45O que você está dizendo?
09:46Que o meu noivo, o meu noivinho, foi devorado por uma fera?
09:52Lamento que dizer.
09:54Ai, papai.
10:00A Malta morreu também.
10:21Nossa filha, o quê?
10:22Cala a boca, sua filha coroca.
10:24E o Dorico?
10:25Candoca, minha filhinha, acorda, acorda.
10:27Não é preciso acordar para procurar um noivo.
10:30Você tem que casar logo de uma vez.
10:32E o Dorico?
10:34Candoca, minha filha, acorda.
10:35Isso aqui é tiro.
10:40Emílio, o que foi que você fez?
10:45Ai, meu noivo.
10:47Ai, meu noivo.
10:50Meu noivo.
10:51Bate na boca, sinigaisa.
10:54Ai, agora eu lembrei.
10:58Meu noivinho foi devorado por uma fera.
11:02Ai, meu Deus.
11:03Calma, minha filha, calma.
11:05Ainda não sabemos se isso realmente é verdade.
11:08Mas eu vou varrer a mata atrás dele.
11:11Eu juro que vou encontrá-lo!
11:14Ai, meu noivo.
11:15Não, não, não, não, não.
11:46Eu não acredito que o lobisomem agarrou Itamar.
11:50Foi aqui, olha.
11:52Homem nenhum nesse mundo ia conseguir fazer um negócio desse.
11:55Eu e tio Barnabé examinamos tudo aqui ao redor e não tinha sinal de sangue nenhum.
12:02É, isso é verdade.
12:03O senhor me desculpe, mas o amigo não é muito bom das vistas.
12:07Como é que consegue examinar tudo assim desse jeito?
12:09Mas eu tô aqui com o tio Barnabé que pode enxergar com uma delega de distância.
12:12Ah, bom, agora sim, porque o amigo mesmo é cego e conta tudo, né?
12:16Ô cachorro, não tem jeito de falar, homem.
12:19E também nós não ouvimos grito nenhum.
12:23Porque eu conheço bem, tá?
12:25Se o lobisomem tivesse garrado, ele ia gritar mais que bezerro de mamar.
12:31Muito bendito, muito bendito.
12:34E surdo também não surdo.
12:36Não, não é surdo, não é não.
12:39É um pouquinho cego, mas surdo não é não.
12:41Ah, se eu tivesse meu óculos.
12:43Ah, se eu tivesse meu óculos.
12:45Eu resolvi isso tudo num instante.
12:49Ai papai, olha como eu tô destruída.
12:52Eu tô precisando de um vestido novo, sabe?
12:55Assim, de seda preta, em várias camadas.
12:57Porque eu vou botar luta.
12:59Muito bendito.
13:01E depois a gente vai fazer uma grande festa de velório.
13:05E eu vou convidar todos os poderosos da região.
13:09Mas minha filha, seu noivo nem esfriou na cova e você já tá pensando em festa.
13:15E daí?
13:15Quem sabe eu não encontro assim um bom pretendente, não é?
13:18Que me console, eu tô tão triste.
13:21É verdade, eu tinha esquecido esse detalhe.
13:24Eu vou tomar providência.
13:26Quem sabe assim ela desencalha, né?
13:30Que vontade de casar.
13:33Enxuga direito, macé.
13:36Que eu vou te bater, me enxuga direito.
13:37É isso, mano.
13:40Saco!
13:46Tu acha que ele vem, tio Barnabé?
13:49Vem.
13:50Vem sim, seu Trovada.
13:53Aquele menino é corajoso.
13:54Ele enfrenta até a onça braba.
13:57Quem me chamou?
14:03Como ele tá demorando?
14:05Mas depois que o lobisomem apareceu, ele sumiu.
14:26Chamou ele?
14:28O senhor quer caçar o lobisomem à bala?
14:32De jeito nenhum.
14:33A vovó não permite a caça aqui no sítio.
14:36E faz muito bem, viu?
14:38Faz muito bem.
14:39Porque bicho é uma coisa que não se deve de matar.
14:42É.
14:43Mas o senhor acha que o lobisomem pegou Itamar?
14:45Eu desconfio que tem caroço debaixo desse angulho.
14:50É por isso que eu preciso da sua pessoa.
14:52Porque o tio Barnabé me disse
14:54que você é a pontaria mais certeira da região com o teu bodoque.
14:58Obrigada.
14:59E como eu não enxergo nenhum palmo dentro do nariz sem meus ocro.
15:03Você vai ser meu olho nessa caçada.
15:07Você aceita.
15:12O lobisomem é a fera mais perigosa que existe.
15:19Até a cuca tem medo dele.
15:21Se ele tá por perto, ela passa de banda.
15:24Pra mim, o lobisomem é só um cachorro.
15:28Você nem fale uma coisa dessas.
15:30É verdade.
15:30O barulho que ele faz é de arrepiar o cabelo.
15:34Por que que ele vira lobisomem?
15:37O lobisomem é o sétimo filho homem de mãe viúva que não foi batizada, Emília.
15:42Ele ir nas noites de lua cheia sai por aí assustando e uivando pra todo mundo.
15:48Deus, que tem pelo pra dentro e a pele virada pra fora.
15:53E você já viu um de verdade?
15:55Eu vi.
15:56Eu não vi.
15:57Eu vi esse que tava andando por aqui.
15:59Que belo amigo você é, hein?
16:02Fica com medo e sai correndo.
16:05Medo não.
16:06Eu só não queria era topar com ele de frente, viu?
16:09Porque aí a briga ia ser feia, minha filha.
16:11Podia sobrar pra todo mundo.
16:12Porque comigo ninguém pode.
16:13Nem lobisomem.
16:17O que é isso, Pedrinho?
16:20Que susto!
16:23Não, não, não.
16:26Onde é que já se viu?
16:28Onde é que já se viu?
16:29Tu é a bestiado mesmo querem enfrentar.
16:31Tinha um susto e a jagunçada toda sozinha.
16:34Acho que eu tava com tanta raiva.
16:35Mas com tanta raiva tu queria enganar aquele cabra sofá.
16:39Aí eu não pensei em mais nada.
16:41Não pense em nada mesmo, não.
16:42Não pense em nada.
16:43Que agora a gente tá aqui, preso, sozinho.
16:49Não pense em nada.
16:52Não pense em nada.
16:53Quer me matar do coração, Pedrinho?
16:55Não.
16:56Calma.
16:57O Trovoada quer caçar o lobisomem.
16:59E ele quer que eu ajude.
17:02Não se mete nisso.
17:04Não se mete nisso.
17:06Não se mete nisso.
17:06É muito perigoso.
17:07Dessa vez eu não vou poder te ajudar.
17:09Mas o lobisomem é o Itamar.
17:12Eu senti um susto descontrava.
17:15Eu senti um negócio quando eu vi aquele moço.
17:18Ficou morrendo de metade.
17:19Ficou morrendo de metade.
17:20Sai o ventão, seu medroso.
17:21Que veja com ele.
17:24Medroso, não!
17:26Falei que eu sou um saci de muito respeito, hein?
17:29Saci, existe alguma maneira de caçar o lobisomem?
17:33Não.
17:34Só de desenfeiçar o bicho.
17:36É por isso que ele anda por aí uivando.
17:40Tá procurando alguém que desencante ele.
17:43Ah, é?
17:43E como é que se faz isso?
17:46Só tem um...
17:47Fala logo, Saci!
17:51Ferindo.
17:54Mas já de quem tentar ferir o bicho, não consegui.
18:00Ferindo?
18:01Mas de que jeito?
18:03Como é que se faz pra acabar com a maldição do lobisomem?
18:06Ficou morrendo.