00:01Real Time de volta ao vivo e a justiça americana determinou, mas ainda vai levar um tempo para
00:06empresas americanas receberem o reembolso do tarifácio do presidente Donald Trump.
00:11A agência alfandegária dos Estados Unidos calculou um prazo de mais de 40 dias para
00:17os sistemas de devolução estarem prontos e estima-se que 166 bilhões de dólares vão
00:24ser devolvidos para cerca de 300 mil importadores após a decisão da Suprema Corte, que derrubou
00:30as sobretaxas numa derrota para o republicano Donald Trump.
00:34Eu vou ter uma conversa sobre os desdobramentos dessa decisão da Corte, os reflexos para o
00:39Brasil.
00:39É com o Gabriel Seco, que é especialista da Valor Investimentos.
00:44Boa tarde para você, Gabriel.
00:45Bem-vindo ao Real Time.
00:47Boa tarde, Natália.
00:48Prazer falar com vocês.
00:49Prazer o nosso te receber.
00:51Bom, vamos tratar então dessa que foi uma derrota importante de Donald Trump.
00:57Ele sempre falou aos quatro ventos, né, Gabriel, que os americanos estavam recebendo e não
01:01pagando as sobretaxas de importação.
01:04Essa decisão coloca de fato por terra essa afirmação?
01:09É isso.
01:10É um dos pontos que ficou escancarado com essa decisão.
01:12Está muito claro que quem pagou foram as empresas americanas e, consequentemente, os
01:18consumidores americanos.
01:20Na linha do tempo, antes de ter sido decretado que isso vale para todas as empresas, algumas
01:25empresas foram entrando na justiça para ter a devolução e foram tendo resultados positivos
01:31e a parte esmagadora dessas empresas foram empresas americanas.
01:35A FedEx, enfim, entre outras.
01:37Então, isso escancara e isso gera um racha interno, até porque, apesar do resultado ser econômico, isso, na verdade, foi
01:47uma decisão
01:48política e institucional, mostrando a divisão entre os poderes e que ele, como executivo, Donald Trump, como
01:55executivo do país, não poderia tomar essa decisão sem passar por cima do Congresso.
01:59Então, é assim, é uma queda política dele e, num momento de desgaste.
02:06Então, já tem uma guerra militar acontecendo, isso acaba gerando um conflito interno, então, acaba gerando desgaste, sim, para o
02:14presidente americano.
02:16O conflito no RAN, inclusive, tira um pouco do foco, das manchetes sobre essa derrota em relação ao tarifácio, né,
02:24Gabriel?
02:24Agora, a gente estava trazendo aqui na abertura como que isso deve acontecer, não é uma coisa de imediato,
02:31mas qual que é o impacto que esse reembolso, essa devolução dos valores pode ter na economia americana?
02:37Porque esse reembolso pode vir, inclusive, como um aumento da dívida pública americana, que é trilionária, não?
02:47Exatamente. A alfândega calculou que precisaria de 4,4 milhões de horas para conseguir processar os dados.
02:55Então, por isso que eles pediram esse tempo, justamente para desenvolver um programa, para conseguir entregar isso de forma mais
03:01rápida.
03:01Foi passado, inicialmente, um prazo de 45 dias.
03:04O que também não é tão bom para o governo, visto que a decisão no tribunal diz que vai ser
03:10recebido de volta o imposto com juros.
03:12Então, esses juros estão correndo e o impacto para o cofre americano vai ser ainda maior.
03:17Só para a gente ter uma ideia de tamanho disso, a gente está falando em quase 10% de todo
03:23o déficit que os Estados Unidos já teve no ano passado.
03:25Então, isso gera um impacto fiscal muito relevante.
03:29Em um momento que o que a gente está falando aqui, diariamente, nas últimas semanas, dias, de um possível choque
03:35fiscal por conta de aumento de petróleo, aumento de inflação.
03:39Então, há dois meses atrás, a gente estava enxergando uma curva de juros descendente.
03:43Agora, a gente fala de pressão inflacionária por conta da guerra.
03:46E, respondendo a sua pergunta agora mais diretamente, isso acaba funcionando como um boost, um incentivo.
03:53As empresas vão ter aí 150, eu acho que um pouco mais, de dinheiro em caixa para fazer investimento, para
03:59gastar.
04:00E esse valor volta para a economia americana, torna ela mais acelerada, o que dificulta controlar juros, aumenta a inflação,
04:08tudo ao mesmo tempo.
04:09Então, o que a gente deve ver é esse dinheiro sendo injetado na economia americana e, entre aspas, atrapalhando esse
04:18movimento de corte de juros mais suave que a gente vinha conseguindo desenhar.
04:22Olha só que interessante, você trouxe vários pontos aqui.
04:25Então, por um lado, pode aumentar a dívida do governo, mas é um dinheiro que volta para as empresas, volta
04:31para circular mesmo na economia, na forma de investimentos.
04:35O que pode, então, mexer com a decisão da política de juros no Federal Reserve, que vai considerar petróleo, que
04:43vai considerar conflito, muitas coisas.
04:46Ou seja, o que vai sair da super quarta? Começando pelo FED, Gabriel. Impossível saber, né?
04:52Impossível saber, mas o que a gente espera primeiro é de muita especulação e volatilidade nos próximos dias.
04:58E o mundo inteiro está olhando para essa decisão mais do que nunca.
05:02Isso sempre acontece, mas mais do que nunca, porque é um impacto, como eu falei, é muito relevante.
05:08É um momento que o Washington está muito pressionado.
05:11Apesar de não ser um problema sistêmico, essa questão da devolução, é num time muito ruim.
05:17Então, déficit estrutural elevado, juros altos, dívida pública crescente, com guerra no Irã.
05:24Então, assim, o momento é muito ruim. A gente está falando de uma dívida, como você diz, trilionária, que corresponde
05:30a 120% do PIB dos Estados Unidos.
05:33E esse valor de 150 bi, que devem voltar para a economia, para a gente ter ideia, é maior que
05:40o PIB de muitos países.
05:41Então, é uma injeção de capital relevante que deve mexer não só no micro, mas também no macro.
05:48E o Brasil com isso, Gabriel? Quero entender o impacto que essa devolução do tarifácio pode trazer aqui para a
05:56gente.
05:56Lembrando que a gente já teve conversa aqui sobre empresas brasileiras que muitas vezes racharam essa conta do tarifácio com
06:04o importador lá dos Estados Unidos
06:06e também pedindo uma parte desse dinheiro de volta, o principal impacto teria mais a ver com essa decisão de
06:14juros por lá?
06:16Eu acho que o impacto para as empresas brasileiras é muito mais futuro, no sentido de que, opa, uma decisão
06:23foi tomada,
06:23enxergamos um caminho aqui, isso não vai poder acontecer novamente.
06:26Então, a gente consegue ter um caminho mais claro nos próximos acordos, nas próximas negociações.
06:34Então, torna mais tranquilo para que futuramente isso não aconteça.
06:40A gente viu o caos que aconteceu aqui, dificultando a exportação de vários setores.
06:44Agora, se esse dinheiro parte e vai retornar para as empresas, eu acho que isso vai ser decidido muito no
06:49micro,
06:50na interdependência que as empresas têm, no poder de negociação que cada empresa, cada setor tem,
06:57dos exportadores brasileiros com importadores americanos.
07:00Acho difícil parte desse valor acabar vindo para as empresas brasileiras.
07:06É muito mais, a gente sempre fala que é difícil o investidor estrangeiro investir no Brasil,
07:12porque politicamente a gente é muito estável, fiscalmente a gente é muito estável.
07:16Os Estados Unidos acabou de dar uma prova que também acontece por lá.
07:19Porém, de forma rápida, o judiciário interviu, dividiu a função de cada um dos poderes
07:26e deu um breque de, opa, aconteceu.
07:29Além de corrigir, a gente está se precavendo para que isso não aconteça novamente.
07:34Então, isso dá solidez para futuras negociações de exportadores brasileiros.
07:37É, mesmo com o fator instabilidade, Donald Trump, eles mostram essa resposta rápida,
07:43Gabriel, que é fundamental mesmo para o ambiente de negócios e de decisões das empresas.
07:49Eu quero agradecer a Gabriel Seco, especialista da Valor Investimentos,
07:52pela participação ao vivo com a gente nessa manhã de segunda-feira.
07:55Muito obrigada, até a próxima.
07:57Eu que agradeço, Natália, até a próxima.
08:08Obrigada, Natália.
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